Polisse – Poliss – Polissia

A polícia não é bem vista. E isto não é uma realidade apenas no Brasil. Para piorar a situação, uma equipe de policiais não lida com bandidos comuns, mas com estupradores e molestadores de crianças e adolescentes, assim como com pais e mães totalmente fora da normalidade. Polisse trata destes dois temas, a descrença da população com o trabalho policial, que imprime um bocado de pressão nos agentes da lei, e a realidade dura e cruel de crianças que são violentadas e abusadas de diferentes maneiras. Um filme interessante e pesado, em muitos momentos, e que beira ao absurdo em outras ocasiões. E o mais incrível: ele é totalmente baseado em histórias reais.

A HISTÓRIA: O filme começa dizendo que ele é baseado em histórias reais tratadas na BPM (Brigada de Proteção à Menores) situada em Paris, capital da França. Em uma conversa franca e cuidadosa, a policial Chrys (Karole Rocher) pergunta para uma garotinha se alguém fez algo com ela que não deveria. A menina diz que o seu pai, e conta que ele “coçou” a região entre as suas pernas. Um colega, Mathieu (Nicolas Duvauchelle), que acompanha tudo por uma câmera que está gravando a conversa pede, por telefone, para que Chrys pergunte para a menina se isso aconteceu à noite. A conversa segue, e a policial percebe que a menina não está falando a verdade. Esse é o cotidiano desta dupla de policiais e da equipe que trabalha com eles na BPM.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Poliss): Até já assistimo a filme sobre abusos de crianças e adolescentes. Eles não são muito comuns, mas existem. Agora não lembro de ter assistido a outrao que pegue a ótica dos policiais que tratam destes casos. Polisse começa inovando por fazer esta escolha.

A ótica dos policiais é interessante e diferente. E o roteiro ganha pontos por não apresentar apenas casos tristes e absurdos, mas principalmente o modo de vida daqueles agentes policiais. De forma acertada, o texto da diretora Maïwenn, feito junto com Emmanuelle Bercot, destaca as interpretações dos atores e os diálogos rápidos entre eles, as crianças e seus responsáveis sob suspeita.

Aliás, interessante observar que tanto Maïwenn quanto Emmanuelle Bercot tem papéis importantes na trama. Especialmente a primeira, que interpreta à fotógrafa Melissa, que atua como uma espécie de “documentarista” da rotina dos policiais e que se envolve com Fred (Joey Starr), o aparentemente mais sensível oficial que trabalha na BPM. Emmanuelle

Emmanuelle Bercot, faz Sue Ellen, policial forte, mas sem grande destaque na trama. Ela integra o grupo de policiais encabeçado por Fred, Nadine (Karin Viard), Iris (Marina Foïs) e Baloo (Frédéric Pierrot). Interessante acompanhar a rotina deles. Entre um caso arrepiante e outro, envolvendo crianças e jovens que são abusados ou que participam da exploração de outros menores de idade, eles fazem lanches, se divertem em uma danceteria, falam muita besteira na repartição pública e vão revelando, pouco a pouco, as suas próprias e particulares cicatrizes.

O grande mérito de Polisse, volto a dizer, além de focar uma história pouco contata sob uma ótica diferenciada, é aprofundar nas histórias dos personagens. A cada avanço na trama percebemos que os policiais tem sérias dificuldades de terem famílias estruturas. E é justamente essa falta de estrutura que origina os problemas que eles tem que registrar em boletins diariamente – além de enfermidades psicológicas e outras fontes para os crimes, é claro.

No filme há espaço para comédia – especialmente no início, como na disputa entre o veterano engraçadinho Bamako (Arnaud Henriet), que gosta de discutir com o novato Gabriel (Jérémie Elkaim) que, como muitos novatos, ainda não pegou os “vícios” de quem está no departamento há mais tempo e, por isso mesmo, questiona algumas posturas. Bamako, além de engraçado, é um sujeito com uma liderança nata – e um dos que leva a sério o seu trabalho. Gabriel, por sua vez, também leva a sério o trabalho e se mostra comprometido e interessado em aprender.

Mas quem realmente rouba a cena é a dupla de amigas e colegas de trabalho Nadine e Iris. As atrizes Karin Viard e Marisa Foïs dão um banho de interpretação. A primeira, vive uma crise em casa e, após muitas dúvidas e alguns conselhos de Iris, se separa do marido – mais um lar desestruturado. Iris, por sua vez, pouco a pouco vai mostrando que não está bem. Apesar de toda a segurança e firmeza que ela mostra no trabalho, na vida pessoal ela está em crise.

(SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Iris é a personagem mais complexa. Ela é atenta em cada caso, se importa tem fazer o certo no ambiente de trabalho. Ao mesmo tempo, vomita após comer, porque se sente gorda – tem dificuldade de gostar de si mesma – e faz tratamento para engravidar, já que não está conseguindo isso pelas vias normais. O marido está cheio dos problemas da mulher, e ela sugere que ele saia de casa. Um dia, em uma das cenas mais fortes do filme, ela cobra de Nadine uma postura mais correta no trabalho e é atacada pela amiga. As duas dão um show.

Há poucos momentos para o humor. Assim como para o romance – apenas a história de Fred e Melissa ganha destaque na trama. Uma história um pouco estranha, aliás. Ele, indeciso sobre deixar ou não a mulher, a filha e a casa em que vivia. Ela, também em uma relação estranha com Francesco (Riccardo Scamarcio), pai de suas duas filhas. Os dois moram em casas separadas, um apartamento em frente ao outro. Parece ser uma relação aberta… mas, ainda assim, a história não fica clara. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). E meio que por carência e “sem querer”, Fred e Melissa se envolvem. No final, e mesmo sem eles acreditarem muito, a relação avança. Uma forma de ensinar (ou reafirmar) para o espectador que a vida e a felicidade podem ser salvas quando menos se espera.

O drama predomina, claro, tanto pelos casos dos menores de idade quanto pela vida privada complicada de cada um dos policiais. Além dos já citados, até o mais “equilibrado” Baloo (Frédéric Pierrot), líder natural do grupo, tem problemas em casa. Não consegue lidar muito bem com a vida privada totalmente separada da profissional – a segunda contaminando a primeira.

E há algum espaço também para a crítica. Especialmente quando o filme fala dos cortes feitos pelo governo para a polícia, e o descrédito da população em relação ao trabalho deles. Há ainda excesso de burocracia, o departamento emprestando carros para outros fins policiais, falta de estrutura – no caso do carro e da falta de vaga para mãe e filho em um abrigo – e interferências estranhas do chefe de polícia Beauchard (Wladimir Yordanoff).

Todos estes elementos são equilibrados – há predominância do drama, como era necessário, com um pequeno espaço para o humor, o romance e a crítica. Tudo vai bem, há momentos fortes na trama, mas o final… francamente, ele me decepcionou. Achei forçado demais. Me pareceu forçadamente feito para chocar. E não era necessário. (SPOILER – não leia… bem, você já sabe). A mensagem final, me parece, vai na direção de “quem precisa ser salvo?”. Algumas vezes uma criança abusada, como o menino que fecha a história, pode tornar-se campeã em um esporte e na vida; enquanto o adulto que deveria ajudá-lo não consegue encontrar salvação. Aliás, parece que  o filme vai um pouco neste caminho… de que algumas vezes falta proteção e cuidado com adultos que precisam, também, de tudo isso. É uma reflexão interessante, mas acho que Iris não precisava terminar de maneira tão extremista.

NOTA: 9,3.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: O elenco de Polisse é grande. Todos os atores citados anteriormente tem destaque na trama. Além dos já citados, vale comentar o trabalho de Naidra Ayadi, que interpreta a Nora, uma personagem que aparece em segundo plano em grande parte do filme, mas que tem pelo menos um grande momento na história. Ela brilha quando sai do sério ao confrontar-se com um árabe e questioná-lo com o Alcorão.

Da equipe técnica envolvida nesta produção, vale citar o trabalho do diretor de fotografia Pierre Aïm, que faz um bom trabalho, ainda que nada além do básico; a edição de Laurie Gardette, também na média; e a trilha sonora de Stephen Warbeck, que só tem destaque na sequência da danceteria.

Não há informações sobre o quanto este filme teria custado. E os dados sobre a bilheteria que ele conseguiu também são escassos. Até o dia 21 de junho deste ano, Polisse teria conseguido quase US$ 177 mil nos Estados Unidos. Insignificante. Mas segundo o site Box Office Mojo, no restante dos mercados mundo afora, esta produção teria conseguido quase US$ 20,2 milhões. Não está mal, mas não deixa de ser um filme alternativo.

Polisse estrou em maio de 2011 no Festival de Cannes. Depois, a produção passaria por outros seis festivais, incluindo o do Rio de Janeiro. Nesta trajetória, o filme recebeu três prêmios e foi indicado a outros 13. Entre os que recebeu, destaque para o prêmio do júri como Melhor Filme no Festival de Cannes; e os prêmios César, considerado o Oscar francês, para Melhor Edição e Melhor Atriz Promissora para Naidra Ayadi.

Como Polisse sugere, ele foi totalmente rodado na cidade de Paris.

Os usuários do site IMDb deram a nota 7,3 para Polisse. Uma avaliação muito boa, considerando a média do site. Os críticos que tem seus textos linkados no Rotten Tomatoes também gostaram do filme, dedicando 63 críticas positivas e apenas oito negativas para a produção, o que lhe garante uma aprovação de 89% e uma nota média de 6,9.

Buscando o cartaz para ilustrar este post, encontrei várias versões e uma mais interessante que a outra. Os cartazes trazem sempre um dos policiais colocando a foto de uma criança na frente do rosto. O que reforça a ideia de que cada agente se sente identificado com os casos que participam – nem todas as vezes claro. Ou os cartazes podem ser uma forma de falar que aqueles adultos são tão vulneráveis quanto as crianças, ou que eles próprios já passaram por situações de vulnerabilidade. Interessante.

CONCLUSÃO: Polisse tem um roteiro cuidadoso, que se aprofunda nas histórias dos policiais que, diariamente, devem lidar com situações cruéis envolvendo crianças e uma rotina sem muito o que fazer, em muitos momentos. Também devem lidar com cortes no orçamento, burocracia e falta de recursos. O roteiro é o melhor do filme, junto com as atuações do elenco principal. A direção de Maïwenn não tem nenhuma grande invenção, nem uma busca de linguagem diferenciada. Ela acompanha de perto, basicamente, o trabalho dos atores, dando destaque para o texto.

Filme cheio de narrativas, Polisse perde um pouco de tempo demais com os bastidores da polícia, que acabam sendo repetitivos, e também perde uma boa oportunidade de ter um final mais interessante. Maïwenn optou por fechar esta história com um final impactante, que faz pensar, mas que peca por uma argumentação simplória. Ainda assim, é um belo filme, especialmente por retratar histórias quase nunca narradas pelo cinema, ainda mais sob a ótica dos policiais.

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This Must Be The Place – Aqui é o Meu Lugar

Os passos de um rockeiro que não grava e não faz shows há 20 anos, mas que mantém a mesma “fantasia”. Ele virou um personagem e não sabe ser outra coisa. Até que… um momento importante da vida real acontece, e ele acaba fazendo uma viagem que, no final das contas, reconta a velha passagem da juventude para a vida adulta. Há tempos eu não via a um filme criativo como este This Must Be The Place. Assista, especialmente se você curte ou já curtiu a bandas de rock.

A HISTÓRIA: Um cão corre pelo jardim de uma bela mansão. Unhas do pé são pintadas de preto. Um brinco aparece antes dos lábios serem pintados de vermelho e do laquê ser colocado no cabelo negro. Os olhos azuis são cercados por lápis e sombra escuras. Com vários anéis nos dedos e jóias no peito, Cheyenne (Sean Penn) abotoa a camisa negra para preparar-se para sair para a rua mais uma vez. Ele desce lentamente as escadas e assiste a bobagens na TV antes de pegar o seu tradicional carrinho de compras e sair andando pela cidade. Acompanhamos a vida deste ídolo do rock aposentado que investe na bolsa de valores, parece entediado e decide viajar para encontrar o pai no leito de morte.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso só recomendo que continue a ler quem já assistiu a This Must Be The Place): Logo no início deste filme percebemos que o diretor e roteirista Paolo Sorrentino tem uma preocupação importante com o estilo. A escolha dele por deslizar a câmera após focar um belo estádio envidraçado, passando pela fachada de um prédio suburbano e da janela da mãe de Mary (a veterana, expressiva e enigmática Olwen Fouere) até a rua e a visivelmente descontente Mary (Eve Hewson) com o seu skate, já mostra que tipo de filme iremos assistir.

This Must Be The Place respeita os personagens que fazem parte de sua história. Esse respeito é visto pela levada do diretor, que escolhe uma filmagem ao mesmo dinâmica e que faz a câmera deslizar por locais e personagens e que, também, mantem a atenção nos personagens principais e seus trejeitos. Especialmente o protagonista, que é a alma deste filme.

O que mais me surpreendeu nesta produção, além da direção cuidadosa e atenciosa de Sorrentino, foi o quanto o filme foi revelando-se maior do que o que originalmente o espectador pode esperar. Por grande parte desta história, você pensa que ela é apenas uma forma interessante de explorar a vida de uma figura conhecida do rock aposentada há bastante tempo. E que, mesmo assim, é respeitada por alguns “seguidores”, como Mary, que sentem-se identificados com ele. Para outros, esses personagens são apenas pessoas excêntricas e que devem ser encaradas desta forma.

Por grande parte do filme você acha que a história é essa, um conto interessante sobre ídolos do rock que sobreviveram às loucuras de sua geração e que seguem encarnando o seu papel fora dos palcos. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Mas eis que This Must Be The Place insere, na história, a morte do pai do personagem principal. E eles tinha aquela relação clássica distante e sem afeto. Mesmo assim, Cheyenne se sente compelido a realizar um dos últimos desejos do pai, que era encontrar um soldado nazista. E aí, nesta busca, o personagem conhece um pouco mais do pai e, consequentemente, de si mesmo. De quebra, vive uma passagem simbólica (e psicologicamente realista) da “infância” e/ou “juventude” para a vida adulta. Ele cresce. E aparece, no final, com esta nova postura, abandonando aquele personagem que não existe mais.

Fantástico, não é? Eu achei. Muito bem sacada a história. O visual interessa e, claro, a trilha sonora. Essa última, assinada por David Byrne, que faz uma participação especial no filme, e por Will Oldham. Muito boa, também, a direção de fotografia de Luca Bigazzi.

Imagino que muitas pessoas vão ficar irritadas com os trejeitos de Sean Penn. Mas é evidente que o personagem de Cheyenne é livremente inspirado em figuras lendárias do rock. Talvez a referência mais evidente seja Robert James Smith, o vocalista da banda The Cure. E há algo de Ozzy Osbourne no personagem de Cheyenne também. Mesmo que Penn chegue a irritar um pouco, achei impressionante a forma com que ele encarnou o personagem. E esse é o trabalho do ator, não é? E sim, um adulto que continua agindo como se fosse um personagem sempre é irritante. Não há maneira de evitar isso. Por isso tudo, gostei muito da atuação de Penn.

Além de tratar sobre como alguns ídolos ficam deslocados da realidade por causa da aura de “deuses” que o mainstream lhes impõe, This Must Be The Place trata de assuntos correlatos interessantes, como a importância da família e de casas estruturadas para qualquer tipo de pessoa – seja para uma figura como Cheyenne, seja para alguém como Mary ou mesmo Rachel (Kerry Condon), que vislumbra com o ídolo de rock uma possibilidade de relação cuidadosa que ela desconhecia até então.

E também de como qualquer incursão mais cuidadosa no passado dos nossos antepassados e como uma nova visita nos sentimentos que nutrimos em relação a eles desde a infância podem mudar as nossas vidas e a forma com que encaramos a realidade. Porque somos produto de tudo isso. De relações que começaram muito antes do nosso nascimento, e que vão perdurar mesmo depois da nossa morte. Por incrível que pareça, este filme trata de todos estes temas. De forma interessante, suave e sem grande pretensão. Um belo trabalho de Sorrentino e equipe.

NOTA: 9,5.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: O diretor italiano Paolo Sorrentino pensou na história deste filme e pediu a ajuda de Umberto Contarello, também italiano, para escrever as linhas do roteiro. Antes de pensar e dirigir This Must Be The Place, Sorrentino tinha recebido alguma projeção internacional com Il Divo: la spettacolare vita di Giulio Andreotti, filme que recebeu o prêmio do júri do Festival de Cannes em 2008.

This Must Be The Place teve a sua premiere mundial no Festival de Cannes do ano passado. Depois do filme ganhar o prêmio do júri ecumênico do festival, ele passou por outros 10 festivais, incluindo os do Rio de Janeiro, Estocolmo e Sundance.

Nesta trajetória de festivais, This Must Be The Place recebeu 11 prêmios e foi indicado a outros sete. Entre os que recebeu, destaque para seis que foram entregues no Davi di Donatello, um dos mais conhecidos da Itália. Nesta competição, ele venceu como melhor roteiro, fotografia, maquiagem, design de cabelo, música e canção para If it Falls, it Falls, composta por David Byrne e Will Oldham.

Uma curiosidade sobre esta produção: o nome do filme era o título original da produção Away We Go, dirigida por Sam Mendes.

This Must Be The Place teria custado cerca de 25 milhões de euros e faturado, apenas na Itália, pouco mais de 6 milhões de euros, assim como pouco menos de US$ 10,8 milhões no restante do mundo. Um resultado fraco, mas que pode melhorar com a chegada do filme em outros mercados. Só duvido muito que o filme consiga tornar-se um sucesso de bilheteria. Por outro lado, ele tem uma grande vocação para tornar-se cult.

Além dos atores já citados, vale destacar o ótimo trabalho da veterana Frances McDormand como Jane, a mulher do ídolo Cheyenne e uma divertida bombeira. O ator Judd Hirsch também tem uma participação interessante no filme como Mordecai Midler, o “caçador de nazistas” que acaba cruzando o caminho do protagonista.

Os usuários do site IMDb deram a nota 6,7 para This Must Be The Place. Uma bela avaliação, levado em conta a dificuldade de um filme novo – que não seja um clássico – conseguir uma nota perto ou acima de 7 no site. Os críticos que tem seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 27 críticas positivas e 12 negativas para a produção, o que lhe garantiu uma aprovação de 69% – e uma nota média de 6,1.

This Must Be The Place foi coproduzido pela Itália, França e Irlanda.

CONCLUSÃO: Que grande filme este aqui! Criativo e inspirado do início até o final. Por grande parte de This Must Be The Place você acredita que apenas verá como um antigo ídolo lida com o seu próprio personagem. O protagonista parece incapaz de largar a máscara. Vive ainda na sombra dos tempos áureos. Até que ele tem que encarar o sentimento relacionado com o pai, e a “herança” que ele lhe deixa. No caminho para “realizar” o último desejo de seu velho, ele aprende algumas coisinhas e, no final, como manda o figurino, se torna um adulto. A forma com que o diretor Paolo Sorrentino conta esta história é brilhante. Não apenas o roteiro é gostoso e surpreende de forma sutil, mas a escolha dos ângulos de câmera e a suavidade com que as imagens vão deslizando revelam a preocupação de Sorrentino em surpreender nos detalhes. E ele consegue isso. Grande filme. E surpreendentemente divertido e profundo ao mesmo tempo.

Les Petits Mouchoirs – Little White Lies – Até a Eternidade

A história parece batida. E, apesar do ótimo elenco, de fato é bastante conhecida. Les Petits Mouchoirs trata das relações de amizade e dos prazeres e conflitos que surgem a partir do contato muito próximo entre um grupo de pessoas. Fala também dos desencontros que existem entre estas pessoas, e das mentiras que elas contam – para os demais e para si mesmas. O melhor do filme é o elenco, porque o roteiro é um pouco mais do mesmo.

A HISTÓRIA: Um sujeito sai do banheiro feminino de uma boate visivelmente “acima do tom”. Ele mexe com umas meninas, passa pelas pessoas, até encontrar um amigo, que o apresenta para a acompanhante como Ludo (Jean Dujardin). Depois de tacar um beijo na moça, ele sai do bar e pega a moto. Vai dirigindo calmamente, respeitando os sinais fechados, até que é atingido em cheio por um caminhão. Corta. Um grupo de amigos de Ludo organiza-se para visitá-lo no quarto do hospital. Este mesmo grupo, na saída, discute a viagem que eles farão para passar parte das férias. Conflitos entre eles começam a ocorrer antes e durante essa viagem.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Les Petits Mouchoirs): Primeiro o excepcional Jean Dujardin. Depois, aparecem Marion Cotillard (como Marie) e François Cluzet (como Max Cantara), dois astros do cinema francês, além dos menos conhecidos, mas muito competentes Gilles Lellouche (como Éric), Benoît Magimel (como Vincent Ribaud) e Laurent Lafitte (como Antoine).

O filme tem uma atriz de destaque, Marion Cotillard, que, claramente, ganhou um papel com maior peso. No mais, esta é uma produção dominada por homens. Os personagens de Max, Éric, Vincent e Antoine dominam a cena. E suas mulheres e namoradas também tem importância, mas, claramente, desempenham papéis de coadjuvantes. São elas: Valérie Bonneton como Verónique Cantara, esposa de Max; Pascale Arbillot como Isabelle Ribaud, esposa de Vincent; Anne Marivin como Juliette, objeto da obsessão de Antoine; e Louise Monot como Léa, namorada de Éric que aparece pouco em cena (assim como Anne Marivin). Para fechar a lista de coadjuvantes, o carismático e competente Joël Dupuch como Jean-Louis.

Fiz questão de citar todos estes nomes porque eles são a justificativa para assistir a este filme. Dujardin, para a infelicidade do público, aparece muito pouco. Tem algumas poucas linhas de texto para falar. Mas ilumina a tela quando aparece. Por outro lado, ele tem uma figura muito parecida para ocupar o vazio que deixa no filme: o ótimo Gilles Lellouche, parecido fisicamente e, segundo o roteiro do diretor Guillaume Canet, também no estilo de levar a vida.

Além de Lellouche, faz a alegria de quem gosta de ver a belos homens em cena o ator Benoît Magimel. O veterano François Cluzet completa a lista dando peso pela parte técnica e entrega para o personagem mais irritado em cena. Enquanto os atores desempenham bem os seus papéis, quem já assistiu a filmes como St. Elmo’s Fire (O Primeiro Ano do Resto das Nossas Vidas) e The Big Chill (O Reencontro), entre outros que giram em torno da relação e dos conflitos entre amigos, vai sentir o gostinho de “eu já vi isso antes”.

No cardápio desta produção há, essencialmente, drama, algo de romance, e poucos momentos de comédia. Mas as surpresas, seja de roteiro ou no estilo de direção, passam longe de Les Petits Mouchoirs. A direção de Canet é básica, linear, sem inovações de estilo. O roteiro, para quem está habituado a assistir a bons filmes, também perde força pela previsibilidade. Quando Dujardin desliza pela cidade com sua moto, ficamos apenas esperando o desastre. E ela acontece – em uma cena espetacular, devo admitir.

Depois, quando o grupo de amigos resolve viajar para “curtir” 15 dias das férias juntos, o desenrolar das histórias também é previsível. Quer dizer, exceto por alguns absurdos. (SPOILER – não leia se você ainda não assistiu ao filme). Por exemplo, pela obsessão egoísta e exagerada de Antoine por Juliette. O primeiro indício deste desvio de caráter dele aparece quando ele chega no hospital, perguntando primeiro por Juliette, antes de saber algo sobre Ludo, que estava internado. Depois, ridícula a forma com que Max lida com a confissão de Vincent. Mirar a raiva dele e, aparentemente, seu desejo reprimido em manifestações de repressão dos filhos do amigo só revela a falta de equilíbrio do homem mais experiente do grupo.

No mais, o filme gira em torno dos desejos, anseios, relações amorosas e conflituosas de cada uma destas pessoas imersa em um grupo de amigos. Eles conversam bastante mas, algumas vezes, parecem falar apenas palavras vazias. Poucas vezes conseguem dizer o que realmente pensam o sentem – daí aquele desabafo final de Jean-Louis. De fato, aquele grupo sabe compartilhar os recursos de Max, que consegue queixar-se de coisas pequenas (como as bebidas que terminam ou o horário dos outros que não se encaixam com o dele), sabe desfrutar dos momentos bons da vida, mas não conseguem enfrentar os temas difíceis – como a possibilidade da morte de Ludo.

Neste último ponto, Les Petits Mouchoirs pode refletir a dificuldade de todas as pessoas em lidar com a perda e com o risco da morte – algo que é constante e inevitável. Fácil é curtir a vida, compartilhar os bons momentos, as alegrias. Complicado é ter alguém ao lado quando a vida fica difícil, não é mesmo? Irritante – pelo menos para a minha ótica – as “homenagens” para Ludo, no final. Não por acaso diferentes sociedades que existem no mundo giram em torno do sentimento de culpa… pela minha análise, seria muito melhor as pessoas fazerem o que é certo quando devem fazer, do que depois ficarem arrependidas.

Mesmo tão cheios de sentimentos, os personagens deste filme parecem incapazes de realmente serem felizes, de viverem comprometidos em uma relação. Exemplo disso é quando o músico Franck (Maxim Nucci) aparece em cena e Marie parece irritada em ter um cara tão legal interessado nela.

Les Petits Mouchoirs fala um pouco sobre a lógica da vida, muito sobre as engrenagens da amizade. É um bom passatempo, especialmente pelo belo trabalho dos atores. Mas há filmes melhores, mais criativos e interessantes por aí.

NOTA: 7,7.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Além do elenco, outra qualidade de Les Petits Mouchoirs são as locações, as paisagens e cidades francesas. No início, nos deliciamos com os motociclistas do enredo passeando pelas ruas de Paris. Quem já esteve na capital francesa vai relembrar bons momentos que passou por lá. Além de Paris, aparece no filme o Aeroporto de Bordeaux, na sequência do reencontro entre Éric e Léa; e, nas sequências das férias, Lège-Cap-Ferret, que faz parte de Gironde. Um belo local, aliás.

Les Petits Mouchoirs estreou em setembro de 2010 no Festival Internacional de Cinema de Toronto. Depois, o filme passaria por outros três festivais e mais uma mostra. Neste caminho, a produção foi indicada a três prêmios, mas não recebeu nenhum deles.

Procurando mais informações sobre o diretor é que “juntei o nome à pessoa”. O jovem Guillaume Canet, de 39 anos, tem uma longa lista de trabalhos como ator. Até agora, ele figura como tendo estrelado 51 produções, entre filmes e séries. Uma delas comentada aqui, recentemente: Last Night. Além de lindo e bom ator, ele também acumula oito trabalhos como diretor – entre curtas, séries e longas. Les Petits Mouchoirs foi o terceiro longa dirigido por ele.

Agora, Canet está trabalhando na pós-produção de Blood Ties, previsto para estrear no ano que vem, e que conta a história de dois irmãos em lados “opostos da lei” no Brooklyn dos anos 1970. No elenco, Clive Owen, Billy Crudup, Marion Cotillard, Mila Kunis, Zoe Saldana, James Caan, Lili Taylor, entre outros. Vale acompanhá-lo, pois.

Les Petits Mouchoirs teria custado cerca de US$ 25 milhões. Apenas na França, até dezembro de 2010, ele arrecadou pouco menos de US$ 44,4 milhões. Nada mal. Sinal de que o elenco conhecido e a própria fama de Canet em seu país são garantias de sucesso para os seus trabalhos.

Os usuários do site IMDb deram a nota 7 para esta produção. Levando em conta a média do site, é uma ótima avaliação – especialmente se analisado o que o filme, de fato, apresenta. Os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes não foram tão generosos. Eles dedicaram 15 críticas negativas e 14 positivas para a produção, o que lhe garante uma aprovação de 48% – e uma nota média de 5,8.

CONCLUSÃO: Quando os atores deste filme começaram a aparecer em cena, pouco a pouco, tive grandes esperanças de que este seria um grande filme. Mas não. Les Petits Mouchoirs parece demais com outras produções do gênero. Na verdade, parece apenas uma desculpa para reunir um grande elenco. Porque a história chove no molhado. Não sai da premissa “todos nós, ainda que tenhamos grandes amigos, sofremos e vivemos mais sozinhos do que gostaríamos de admitir”. Porque assim parece ser a vida. Por mais que existam momentos de desabafo, de sintonia e de exposição de sentimentos, somos pequenas ilhas cercadas de momentos de solidão por todos os lados. Este filme trata disso, de como somos animais sociais e, ao mesmo tempo, solitários reincidentes. É uma boa produção, mas que não vai mexer contigo nem pela inovação (nada aqui é novo), nem pela emoção (quando chegamos nela, a bola está muito cantada e não surpreende o suficiente). Um passatempo, na melhor das hipóteses, e boa desculpa para ver a ótimos atores.

Hodejegerne – Headhunters

Quando você acha que já assistiu a todos os filmes sobre ladrões de obras de arte e/ou objetos tão valiosos quanto impossíveis de serem furtados, aparece um filme como Hodejegerne (ou Headhunters para o mercado internacional). A produção norueguesa, co-produzida pela Alemanha, comprova o que todo amante do cinema já sabia: que aqueles países tem um talento especial para subverter histórias já batidas. Com humor refinado, noruegueses e alemães sabem tornar filmes de ação um compêndio bem planejado de violência, suspense, drama, comédia e outros elementos da vida real sem parecerem forçados ou exagerados. Aventure-se com mais esta produção. Vai valer o teu tempo.

A HISTÓRIA: Um sujeito entra por uma porta. Ele usa luvas cirúrgicas, roupa escura e máscara, e prepara o seu procedimento-padrão. Enquanto isso, fala das regras básicas para um ladrão de obras de arte: conhecer bem a pessoa que ele “está visitando”; nunca gastar mais de 10 minutos; não deixar qualquer resquício de DNA; não perder tempo com uma imitação cara e, por último, que mais cedo ou mais tarde ou você encontrará uma obra tão valiosa que fará você se aposentar, ou você será pego. Corta. Roger Brown (o fantástico Aksel Hennie) se apresenta. Diz ser um homem com 1,68 metro de altura que, consequentemente, precisa de compensações. A primeira delas (não admitida por ele, mas subentendida pelas imagens) é a bela Diana Brown (Synnove Macody Lund). A segunda, a casa de 30 milhões. Brown afirma que para ele ter o que ele quer, a única forma é ter dinheiro. Muito dinheiro. E daí que surge a profissão não oficial dele, de ladrão de obras de arte valiosas. Tudo bem, até que ele esbarra com um competidor bastante perigoso.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Hodejegerne): Os primeiros minutos deste filme dão uma mostra de tudo que virá em seguida. E o melhor: a “capa do livro” não engana quem se aventura em assistir a esta produção. Em outras palavras: tudo o que funciona bem nos primeiros minutos segue pelo restante da produção.

Por isso, basicamente, Hodejegerne é um deleite. Vejamos. Nos primeiros minutos assistimos a uma edição ágil, uma direção que cuida dos detalhes e busca os melhores ângulos, um roteiro inteligente e irônico, uma direção de fotografia que trabalha para que a melhor imagem seja captada, e um ator principal que dá legitimidade para o personagem. O que mais precisamos para que um filme seja maravilhoso? Que tudo isso continue até o final e que nenhum outro elemento, como os atores coadjuvantes, atrapalhem o conjunto da obra.

Para os amantes do bom cinema, tudo que precisa acontecer de fato acontece nesta produção. Então somos rapidamente apresentados para a lógica do bandido carismático, que também reflete a personalidade de tantos homens modernos que pensam que a saída para as suas limitações e/ou carências seja comprar o que lhes agrada. Ter dinheiro, basicamente, para logo mais acessar tudo o demais. Ledo engano.

E o bacana desta produção é que o que parecia ser uma leitura rasa deste ledo engano tão comum acaba evoluindo. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Não haveria problema, claro, na produção justificar-se apenas pelo cara baixinho – para os padrões noruegueses – que compensa a estatura tendo uma mulher belíssima ao lado (a qual, ele acredita, só foi conquistada, justamente, pelo status dele).

Mas não deixa de ser uma delícia – e o que garante a nota abaixo para a produção – que, além de todas as qualidades técnicas do filme, ele ainda avance no cerne narrativo. Nosso personagem, o bandido que somos facilmente induzidos a amar, afinal de contas, não é um idiota. Ele é movido por sentimentos maiores que uma crise de autoestima. A insegurança dele, afinal, está baseada no fundamento da maioria das inseguranças: o medo da perda da pessoa amada. Muito bom! Eis a cereja do bolo que faltava.

Mas antes desta cereja, claro, há várias camadas de massa (trabalho dos atores), recheio (roteiro) e suspiro (direção e equipe técnica) no meio. O diretor Morten Tyldum conseguiu exprimir o melhor do roteiro dos ótimos Lars Gudmestad e Ulf Ryberg, que trabalharam a história do livro de Jo Nesbo. Ele dá agilidade para a história que, sozinha, já era envolvente. Por suas lentes, acompanhamos o desfile do talento de Aksel Hennie, bem acompanhado da já citada Lund e do ótimo Nikolaj Coster-Waldau, que está dando um show na série Game of Thrones.

Nada sobra ou falta nesta produção. O diretor de fotografia John Andreas Andersen escolheu lentes que potencializam os contrastes, tornando alguns momentos – como o início da produção – bastante claros, com quase um excesso de luminosidade (mesmo efeito aparece perto da “resolução” da história), versus várias sequências em que os tons mais escuros quase predominam (na fase mais pesada de perseguições).

Os diálogos e a linha de “raciocínio” da ação são ágeis. As conversas seguem uma linha racional e que seriam facilmente “identificadas” em momentos similares na vida real. Há legitimidade nas falas dos atores e, claro, nas suas posturas. Especialmente o protagonista. O editor Vidar Flataukan faz um trabalho primoroso, dos melhores que eu assisti nos últimos tempos. E a trilha sonora… ela própria vira um personagem, desde o princípio.

A parceria de Trond Bjerknes e Jeppe Kaas é fundamental para reforçar a ironia e a agilidade da produção, com uma levada cadenciada e divertida na maior parte do tempo – mas com incursões em músicas no velho estilo suspense quando necessário. A trilha, sem dúvida, é um elemento fundamental e de grande qualidade da produção.

Antes eu comentei sobre algumas reviravoltas. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). A fundamental é a que explica a obsessão de Clas Greve (Nikolaj Coster-Waldau) em eliminar o protagonista. Inicialmente, parece um crime passional. Mas não. Greve é um estrategista, um militar focado nos objetivos e em suas ordens. Alguém, talvez, possa dizer: “mas para conseguir um emprego a melhor forma seria matar o responsável pela contratação que não queria contratá-lo?”. Claro que havia outras formas, do tipo tirá-lo de cena, simplesmente, com um sequestro. Mas essa não parecia ser a natureza de Greve, que tinha planos ambiciosos para aquele emprego – infiltração que valeria muito dinheiro. E ele, o dinheiro, move a todos nesta produção. O mesmo acontece em muitos outros lugares além do cinema.

E assim, tudo funcionando bem e de forma inventiva, é que Hodejegerne se apresenta. A história, propriamente, além de ser ágil e de cuidar de aprofundar-se no personagem principal, ainda nos reservar algumas reviravoltas e surpresas. Sendo assim, nada mais a acrescentar. Eis mais uma bela surpresa vinda da Europa que, de quebra, surpreende aos que já viram a muitos filmes deste gênero específico (de ação e suspense envolvendo um ladrão de obras de arte) com ideias e enfoques diferenciados. O público agradece.

NOTA: 10.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Hodejegerne é apenas o terceiro longa dirigido por Morten Tyldum. A carreira deste diretor começou em 1996 com o curta Lorenzo. Ele demoraria sete anos para lançar o primeiro longa, Buddy, de 2003. Em sua trajetória, Tyldum acumula oito prêmios e sete outras indicações. Nada mal. Ele merece ser acompanhado, pois.

Além dos atores principais, já citados, vale comentar o belo trabalho de dois coadjuvantes: Eivind Sander como o “parceiro de crimes” de Roger Brown, o agente de segurança apaixonado por uma prostituta Ove Kjikerud; e Julie R. Olgaard como a amante do protagonista, Lotte.

Falando nisso, algo me irritou no personagem principal, construído para fascinar ao público. (SPOILER – não leia… bem, você já sabe). Com uma mulher como Diana em casa, por que Roger a traia com Lotte? Elementar, meus caros leitores. Ele a traia pela mesma razão idiota que faz qualquer outro homem (e parece que eles são muitos) trair a mulher que ama: com medo de perder o que já tem, eles buscam justamente a pior forma de conseguir isto, arriscando-se para suprir, com a outra mulher, a própria carência. Dá raiva? Certamente. Porque haja tanta burrice… mas, parece, é assim mesmo. Muitos homens não sabem lidar com as próprias limitações. Sem contar que, claro, eles acham a traição algo sem importância – afinal, é apenas sexo. Mulheres pensam diferente – pelo menos, a maioria.

Segundo as notas de produção, este filme faz uma série de referências e homenagens para a trilogia Millenium, de Stieg Larssons. Um exemplo é que Diana está assistindo ao segundo filme da trilogia, em casa, quando Roger chega tarde da noite. Além disso, algumas tomadas aéreas que mostram um carro deslizando por estradas, feitas no filme The Girl with the Dragon Tattoo teriam sido utilizadas em Hodejegerne, com o carro original sendo digitalmente substituído pelo de Roger no novo filme.

Hodejegerne passou por uma dificuldade curiosa. A produção penou para encontrar dois gêmeos idênticos para fazerem os policiais que prenderam Roger. Eles deveriam pesar bastante e serem idênticos. No final, eles encontraram uma dupla que se encaixasse no perfil.

Depois de pronto, o filme foi vendido para 50 países – um recorde, tratando-se de produções norueguesas.

Como acontece na maioria dos filmes europeus de grande qualidade, uma produtora de Hollywood comprou os direitos para refilmar esta história nos EUA. A Summit Entertainment fez isso antes mesmo de Hodejegerne ser lançado.

Esta produção foi totalmente rodada na cidade norueguesa de Nittedal.

Hodejegerne estreou no Festival de Cinema de Locarno em agosto de 2011. Depois, a produção passou por outros 11 festivais. Nesta trajetória, ele foi indicado a três prêmios, mas saiu sem nenhum deles – uma pena e, eu diria, um pouco injusto.

Este filme teria custado cerca de 30,3 milhões de coroas norueguesas – cerca de US$ 5 milhões ou R$ 10,2 milhões. Um gasto baixo, especialmente se comparado com a média das produções hollywoodianas. Esta produção arrecadou, nos EUA, pouco mais de US$ 1 milhão. No restante dos mercados, Hodejegerne teria conseguido quase US$ 14,5 milhões. Nada mal.

Os usuários do site IMDb deram a nota 7,5. Uma boa avaliação, considerando a avaliação média do site. Os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes publicaram 78 críticas positivas e apenas sete negativas, o que garante para Hodejegerne uma aprovação de 92% – e uma nota média de 7,6.

Eu sabia que já tinha assistido a outro filme com o ótimo Aksel Hennie. Olhando na filmografia do ator, lembrei qual foi: Max Manus, filme bem interessante e comentado aqui no blog.

Até assistir a este filme eu nunca havia pensado que o ator Nikolaj Coster-Waldau, que eu assisto com gosto em Game of Thrones – ótima série, aliás – era dinamarquês. Pois sim. Como muitos atores do leste europeu, ele tem um inglês perfeito.

CONCLUSÃO: Qualquer pessoa, não importa o que ela faça da vida, sabe que riscos lhe rodeiam. De onde pode vir o tiro, como sugere uma música do Paralamas. Hoje, diz a música, é cada vez mais difícil saber de que parte esse tiro pode partir. Mas fora o imprevisto, você e eu sabemos dos riscos naquilo que fazemos. Hodejegerne mostra um sujeito que também conhece muito bem os riscos de ser um homem rico que tem como principal fonte de renda o crime. O que ele não previa era que ele virasse alvo de um cara muito mais perigoso. Para nossa satisfação, essa história rende um roteiro primoroso, com todos os elementos necessários para embalar os espectadores por pouco mais de uma hora e meia. Ágil no raciocínio, o roteiro cai como uma luva para o trabalho preciso do diretor. E o ator principal dá um banho, tendo uma parceria importante de dois coadjuvantes igualmente talentosos. O resultado é pura diversão, entretenimento inteligente. E, de quebra, uma eficaz releitura de um gênero que já parecia bastante desgastado – o de filmes de ação que focavam um ladrão de obras de arte.