Ida

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Desacelere e reflita. Não é com pressa que você vai entender o que aconteceu e o que está acontecendo. Filmes como Ida nos apresentam uma história que tem esta lógica e que, de quebra, também nos faz agir da mesma maneira para não apenas entender o que acabamos de assistir, mas também para entender as nossas próprias escolhas. Ida não é um filme evidente, com leitura simplória. Exige um tempo de reflexão, de contemplação das belas imagens reveladas pela história e também dos sentimentos que ela apresenta. Realmente um fortíssimo – para alguns o favorito – concorrente ao Oscar de Melhor Filme em Língua Estrangeira.

A HISTÓRIA: Uma freira pinta o rosto de Jesus. Depois ela e outras três freiras levam a imagem para fora, colocando-a em um pedestal em meio à neve. Elas rezam. Depois, inserida em um grupo maior, a primeira freira, Anna (Agata Trzebuchowska), canta antes de alimentar-se. Ela é observada pela madre superiora (Halina Skoczynska) que, depois, comunica para a jovem que ela vai conhecer a uma tia que não quis, quando ela ficou órfã, ficar com a menina. Mesmo relutante, ela vai conhecer essa tia, Wanda Gruz (Agata Kulesza). As duas juntas procuram pelo passado da jovem que está prestes a fazer os seus votos perpétuos.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso só recomendo que continue a ler quem já assistiu a Ida): O primeiro elemento claro de destaque deste filme é a fotografia da produção. Impactante. Belíssima. Exemplar. Palmas para a dupla Ryszard Lenczewski e Lukasz Zal. Mas tão importante quanto a direção de fotografia dos dois é a da direção de Pawel Pawlikowski que, ao lado de Rebecca Lenkiewicz, é responsável pelo roteiro de Ida.

Considero a direção de Pawlikowski fundamental porque, afinal, é ele quem decide os enquadramentos junto com os diretores de fotografia. E a escolha de cada ângulo, do enfoque de cada cena, é o que torna este filme uma joia rara. Não é só isso, evidente. Mas os enquadramentos que valorizam os ambientes e, especialmente, tendem a jogar a visão do espectador para um “plano mais elevado”, significam muito.

Nenhum ângulo, elemento que aparece em cena, fala ou silêncio está em Ida por acaso. Tudo tem um propósito, como estes elementos e tantos outros nas nossas vidas também. Pawel Pawlikowski parece nos dizer constantemente isso. Que por mais que a existência da protagonista seja um mistério para ela mesma, e por mais que ela vai descobrindo elementos novos a cada passo e interação, tudo que aconteceu e o que está acontecendo tem uma finalidade.

Nestes termos Ida tem um significado existencial profundo. Esta produção não se resume apenas na busca de descendentes judias pela verdade em uma cruzada para esclarecer o passado. Ela é também uma reflexão profunda sobre as escolhas cotidianas que nos levam por determinados caminhos, e não por outros, e sobre a necessidade de ampliar o campo de visão antes de focar a mirada e a vida em uma determinada direção.

Mas antes de me largar filosofando sobre esta produção, quero voltar um pouco na história propriamente dita. Sugestivo e bastante acertado o filme começar em um cenário frio, de muita neve, e terminar com os campos descongelados. É como se a busca pelo conhecimento da protagonista limpasse o cenário, tornando ele menos encoberto e gélido e mais fértil e promissor.

Claramente o roteiro de Pawlikowski defende a busca pela verdade e pela reconciliação do presente com o passado, seja ele individual, no caso de Ida (inicialmente Anna) e da tia, Wanda, seja do país Polônia, invadido pelos nazistas durante a Segunda Guerra Mundial. Aliás, este recorte histórico é especialmente interessante – o que torna o filme, de fato, um forte candidato ao Oscar.

Toda vez que uma produção resolve visitar o segundo grande conflito mundial, novos elementos são expostos para o grande público no holofote. Em Ida, a novidade está na parte da população polonesa que, inicialmente, protegeu os judeus perseguidos e, depois, aproveitou-se deles ao eliminá-los da face da Terra. Quem poderia desconfiar da traição, afinal, eles estavam em um país invadido e com inimigos mais evidentes e fortes. Mas os descendentes das vítimas, como Wanda, nunca esqueceram.

Ela própria conseguiu buscar justiça contra muitos algozes do próprio país que eliminaram judeus para ficar com as propriedades deles nos anos 1950. Mas estranhamente, e isso me faz lembrar aquele dito de que “em casa de ferreiro o espeto é de pau”, Wanda não conseguiu fazer as pazes com o próprio passado. Provavelmente porque ela não se sentia preparada ou verdadeiramente forte para isso. Mas quando bate à porta dela a sobrinha que ela fez questão de esquecer até então, Wanda não consegue mais fechar os olhos e anular a consciência.

Inicialmente ela até tenta. Mas volta atrás. E ao fazer isso, tanto a vida dela quanto a de Ida/Anna mudam definitivamente. O que nos faz pensar que também os nossos encontros e aberturas para determinadas pessoas e fatos mudam a nossa trajetória para sempre. Interessante o contraponto entre tia e sobrinha. Como Wanda mesmo comenta, em determinado momento da produção, ela faz as vezes de “puta”, enquanto a sobrinha representa a “santa”.

Mas em cenários como aquele ou em diversos outros em que nós habitamos, quanto fácil pode ser identificar a puta ou a santa? Outro dia saí para celebrar o final de ano com duas amigas, quase na véspera do Natal, e fiquei chocada com o comportamento de garotas jovens em um bar. Todas vestidas com micro-saias e parecendo, para olhos com vontade de julgar, umas “putas”. Mas elas não eram. E me choquei um pouco com garotas tão jovens tendo comportamento de manada e não se dando conta da mensagem que elas estavam passando.

Wanda não conseguiu encarar a própria história durante muito tempo. E buscou, como tantas pessoas que circulam na vida real aqui e ali, maneiras de anestesiar-se. Conseguiu, por muito tempo, até que ela confrontou as suas piores dores ao ter uma convivência rápida com a sobrinha – que, de quebra, lhe fazia lembrar muito a irmã assassinada. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Quando ela coloca certa música na vitrola, é praticamente uma morte anunciada. Pelo menos eu vislumbrei muito antes da queda que ela teria aquele fim.

Então Ida fala sobre esse passado nacional que, mesmo dolorido, em certo momento precisa ser revisitado. A verdade precisa ser descoberta e as vítimas terem um destino adequado. Esta é a Polônia dos sonhos do diretor Pawlikowski. Aliás, este deveria ser o sonho de todo cidadão de qualquer país que tenha contas a resolver com o próprio passado. Quanto mais transparência e informação sobre abusos e crimes do passado, melhor para o coletivo de uma nação.

O problema é que nem sempre essa verdade consegue ser trabalhada individualmente. Um exemplo disto é a personagem de Wanda. Que passou grande parte da vida tentando buscar justiça ou fuga sem, contudo, resolver o problema internamente. Sem dúvida a culpa pelo “abandono” do filho no passado e a falta de perspectiva inclusive familiar futura foram decisivos para a decisão final da personagem.

Por outro lado, e aí está o lado mais filosófico da produção, a protagonista tem um outro desafio para vencer. Sem esperar, ela encontra uma parente que não sabia que existia, descobre ser judia e é mordida pela ânsia de respostas originada pela tia. Após saber mais sobre os pais mortos e conviver um pouco mais com a tia, Ida sente-se também com oportunidade para dar vazão para instintos reprimidos no convento. Ela está fora da clausura e da proteção daquele ambiente e, desta forma, é “contaminada” com o mundo do pecado.

Interessante a forma muito natural com que Pawlikowski mostra esta jovem em busca de respostas também para os seus desejos e necessidades. Depois de descobrir sobre a história dos antepassados, ela volta para o convento e não se sente preparada para dar os votos de fidelidade eterna para Deus. Sua cabeça está em outro local, no músico Lis (Dawid Ogrodnik), que ela conheceu quando a tia deu uma carona para o rapaz.

Acredito que esta seja a parte mais polêmica da produção. O desejo e o contato da freira até então imaculada com o rapaz que ela mal conheceu. Da minha parte, acho que aí está uma outra reflexão interessante: que só podemos ter uma escolha verdadeiramente lúcida e firme pelas virtudes após conhecer o pecado. Com isso não quero dizer que devemos experimentar tudo para, depois, sermos capazes de abdicar de um pecado determinado.

Mas certamente quem tem mais conhecimento sobre a vida pode fazer escolhas mais lúcidas sobre determinados assuntos – como a castidade ou sobre afastar-se de algumas tentações para buscar uma vida mais virtuosa. Especialmente importante para esta produção o trabalho dos atores principais, com destaque para a força do olhar da atriz Agata Trzebuchowska. Ela nos hipnotiza e convence a cada segundo pelo olhar, muito mais que pelo diálogo. Junto com a direção de fotografia, sem dúvida ela é o ponto forte do filme.

Mesmo destilando tanto elogios para a produção, devo dizer que demorei um bom tempo após o filme terminar para conseguir ter esta leitura tão positiva sobre Ida. Inicialmente, a minha impressão não era tão boa. Então, por isso mesmo, escrevi aquela introdução lá encima. Dê tempo ao tempo em relação a esse filme.

Pouco a pouco as imagens dele vão fazendo mais sentido. Apesar desta ponderação, admito que não dei uma nota melhor para o filme, logo abaixo, porque senti falta dele me emocionar e tocar mais. Ida é uma produção virtuosa, cheia de qualidades, mas que não fisga o espectador como eu gostaria. Ou, pelo menos, da forma com que eu gosto de ser envolvida. Dito isso, confirmo o que vocês já sabem: cinema é uma arte muito pessoal.

NOTA: 9,4.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Ida é uma prova cabal de que um filme não precisa ser longo para ser bom. Na maioria das vezes, muito pelo contrário. Pois bem, esta produção, caros leitores, tem menos de 1h30 de duração. Perfeito.

Fiquei curiosa para saber um pouco mais sobre os diretores de fotografia desta produção. Ryszard Lenczewski é um polonês de 66 anos que tem 53 trabalhos como diretor de fotografia no currículo e 11 prêmios para apresentar. Lukasz Zal é bem mais novo, tem 33 anos, também é polonês, tem sete títulos como diretor de fotografia mas, por outro lado, apresenta já um bom portfólio de prêmios: sete até o momento. Até Ida, o forte de Zal eram os documentários.

Interessante saber, também, sobre Pawel Pawlikowski. Este polonês de 57 anos começou a carreira de diretor em 1991 com o documentário para a TV From Moscow to Pietushki. Na sequência, ele dirigiu outros três documentários e um curta de documentário, até estrear, em 1998, com o filme não-documental The Stringer. De 2004 para cá ele lançou duas produções: My Summer of Love e La Femme du Vème. Em sua trajetória, Pawlikowski recebeu 36 prêmios e foi indicado a outros 18. Nada mal, hein?

Com poucos personagens, Ida é um filme que depende muitos do desempenho dos poucos atores em cena. Por isso mesmo, palmas para Alina Falana, responsável pelo casting da produção. Ela acertou na mosca com a escolha das duas joias raras, das duas Agatas que protagonizam este filme. Agata Trzebuchowska dá um banho como Anna/Ida, enquanto Agata Kulesza dá o equilíbrio perfeito e propicia a dobradinha necessária com a outra Agata ao interpretar Wanda.

Além destas atrizes e do já citado Dawid Ogrodnik, o outro destaque da produção, vale comentar o trabalho de Jerzy Trela como Szymon; Adam Szyszkowski como Feliks; e Joanna Kulig, com presença marcante e muita beleza como a cantora da banda de Lis. Os outros atores fazem papéis muito pequenos, quase sempre pontas na história.

Ida estreou no Festival de Cinema de Telluride no dia 30 de agosto. Depois, o filme participaria ainda de outros 35 festivais. Uma jornada impressionante! O último previsto, o de número 37, será o Festival Internacional de Cinema de Palm Springs, que vai começar no próximo dia 3 de janeiro. Nesta super trajetória de festivais, Ida conseguiu abocanhar 44 prêmios – número também impressionante – e outras 28 indicações.

Entre os prêmios que recebeu, destaque para o de Melhor Filme segundo o Público do Prêmio de Cinema Europeu, além dos reconhecimentos de Melhor Filme, Melhor Diretor, Melhor Roteiro e Melhor Direção de Fotografia entregues também por este prêmio.

Ida ganhou ainda como Melhor Filme no Festival de Cinema de Londres; como Melhor Filme em Língua Estrangeira no Prêmio do Círculo de Críticos de Cinema de Nova York; como Melhor Atriz para Agata Kulesza, Melhor Roteiro, Melhor Design de Produção e Melhor Filme no Festival Internacional de Cinema de Gijón. O filme ainda está concorrendo como Melhor Filme em Língua Estrangeira no Globo de Ouro 2015. E deve chegar ao Oscar forte…

Não há informações sobre o custo desta produção, mas ela conseguiu, apenas nos Estados Unidos e em circuito restrito, pouco mais de US$ 3,7 milhões nas bilheterias. Não é desprezível para um filme polonês no concorridíssimo mercado estadunidense.

Esta produção foi totalmente rodada na Polônia, em cidades como Lódz, Pabianice, Mianów e Szczebrzeszyn. Desafio vocês a pronunciarem o nome da última cidade. 😉

Agora, algumas curiosidades sobre a produção: o diretor Pawel Pawlikowski estava com tanta dificuldade para encontrar a atriz para fazer as vezes de protagonista de Ida que ele resolveu recorrer para os amigos. Ele pediu que eles fizessem fotos escondidas de mulheres que fossem interessantes para o papel. Um dos amigos do diretor encontrou Agata Trzebuchowska em um café, fez a foto da garota e a convenceu a fazer o teste para o papel. O resto é história.

A atriz Agata Trzebuchowska é uma ateia devota. Curioso, não? Ela estreou no cinema protagonizando esta produção.

Ida tem um certo tom autobiográfico. O diretor e roteirista Pawel Pawlikowski tinha uma mãe católica e um pai judeu e descobriu, muito mais tarde na vida, que a avó dele tinha morrido no campo de concentração de Auschwitz.

Lendo as notas de bastidores do filme é que fiquei sabendo porque de dois diretores de fotografia. O experiente Ryszard Lenczewski deixou a produção pouco depois dela ter começado. Ele alegou razões médicas, mas o diretor Pawlikowski disse que ele não estava tão engajado no filme quanto o diretor gostaria. Foi aí que entrou em cena Lukasz Zal, até então apenas um operador de câmera na produção.

O compositor dinamarquês Kristian Eidnes Andersen aparece assinando a trilha sonora do filme, ainda que boa parte do trabalho dele foi cortado para dar lugar para uma peça de Bach.

Os usuários do site IMDb deram a nota 7,5 para esta produção. Uma boa avaliação levando em conta o padrão do site. Os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes foram mais efusivos, dedicando 110 textos positivos para Ida e apenas cinco negativos para a produção – o que lhe garante uma aprovação de 96% e uma nota média de 8,4.

Com esta crítica, me despeço de 2014. Um ano excelente, ainda que eu tenha ficado em dívida com você, querido leitor deste blog. Primeiro, porque não atualizei o site como eu deveria e/ou gostaria. Depois, porque estou com as respostas aos comentários feitos por vocês muito atrasadas. Mas deixa… 2015 há de ser melhor. Para todos nós. Apesar do blog ficar um pouco relegado, meu 2014 foi ótimo. Espero que o ano de vocês também. E que 2015 venha ainda melhor, inclusive com muitos filmes ótimos para assistirmos. Agradeço, imensamente, pela companhia e visita de vocês. Sem esta presença constante, este espaço não teria muito sentido. Abraços, beijos, e um 2015 maravilhoso para cada um@ de vocês!

CONCLUSÃO: Este é um daqueles filmes que, no primeiro momento, você pode até não gostar muito. Ou, pelo menos, e o que foi o meu caso, não sentir-se tão afetado pela história. Mas aos poucos Ida vai mostrando toda a sua eficácia. Quanto mais pensamos no que assistimos, mais encontramos nuances de interpretação. Visualmente belíssimo, com uma fotografia em preto-e-branco irretocável, este filme tem contemplação, escolha permanente pela “elevação”, filosofia, religião e mensagens duras pinceladas com maestria e suavidade. Nada de pirotecnia ou daquela forçada de barra para fazer o público chorar no momento certo. Uma pequena joia que precisa, como tantas outras, ser lapidada aos poucos e com cuidado dentro do espectador depois que os créditos terminam.

PALPITE PARA O OSCAR 2015: Ida avançou na disputa por uma estatueta na categoria Melhor Filme em Língua Estrangeira. De acordo com um dos boletins da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood, Ida é um dos nove pré-selecionados nesta categoria. Como vocês devem saber, no caso de acompanharem o Oscar, normalmente a lista final é anunciada com cinco produções.

Os pré-selecionados foram: Ida (Polônia), Relatos Salvajes (Argentina), Tangerines (Estônia), Corn Island (Geórgia), Timbuktu (Mauritânia), Accused (Holanda), Leviathan (Rússia), Force Majeure (Suécia) e The Liberator (Venezuela). Não assisti aos outros candidatos, mas acredito que Ida deve chegar na lista dos cinco finalistas. Tanto pela qualidade da produção quanto pelas temáticas abordadas – perseguição aos judeus e busca pessoal pela fé. Quanto a receber a estatueta… vou me sentir mais confortável em opinar conforme for assistindo aos outros pré-selecionados.

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Nightcrawler – O Abutre

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Figuras estranhas andam pelas noites das grandes cidades. Mas nem todas são tão assustadoras quanto o protagonista deste Nightcrawler. E o detalhe mais importante desta constatação é que ele é tão assustador por ser tão humano. Há centenas, talvez milhares de figuras como ele perambulando por aí. Filme bem escrito e bem conduzido, com um ótimo ator encabeçando a trama, Nightcrawler faz pensar em diversas direções. O que não é exatamente comum, mas certamente muito necessário.

A HISTÓRIA: Um outdoor em branco, desocupado, uma lua cheia fantástica no céu e uma cidade iluminada. Diversas cenas desta cidade e uma trilha sonora melancólica ao fundo. Nada demais parece estar acontecendo, e ao conferirmos a placa de Santa Monica, temos certeza que a cidade em foco é Los Angeles. Alguém corta uma cerca, mas para com a aproximação de um carro.

Confrontado por um vigilante (Michael Papajohn), o homem que roubava as cercas de arame, Louis Bloom (Jake Gyllenhaal) tenta disfarçar e diz que está perdido. O vigilante pede a identidade do invasor, e antes de mostrar o documento, Louis percebe o relógio caro que o interlocutor está usando. Em seguida, ele agride o vigilante. Depois, vende o produto do roubo. Mas é tentando voltar para casa que ele tem a ideia de uma profissão na qual ele poderá se encaixar.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso só recomendo que continue a ler quem já assistiu à Nightcrawler): Há tempos eu admiro o ator Jake Gyllenhaal. Acredito que desde o genial Donnie Darko – que recomendo, caso você não tenha assistido. Sempre que posso, confiro as produções em que ele está envolvido. E novamente, com esta Nightcrawler, ele não me decepcionou.

O protagonista deste filme, e vamos saber isso logo nos primeiros minutos da produção, é um psicopata. Quer dizer, não é logo de cara que sabemos disso. No início, Louis Bloom parece apenas um sujeito que vive de pequenos crimes. E ele também parece desesperado por um emprego e por uma fonte razoavelmente estável de dinheiro. Também percebemos, logo no início, que ele é um sujeito que gosta de estar no controle e que está sempre atento às oportunidades.

O roteiro do diretor Dan Gilroy foi construído para não causar tédio. Desde o início, todas as frases dos diálogos dos atores, todos os gestos deles e todas as cenas de ação tem um propósito e estão perfeitamente encadeadas. Conforme a história vai se desenvolvendo e nos aproximamos mais do protagonista, percebemos todos os ingredientes de um psicopata: Louis é um sujeito que gosta de estar sozinho, absorve informações de todas as partes e tem uma dificuldade crônica de ter um diálogo ou uma relação real com alguém.

Ele repete conceitos e frases feitas que foi aprendendo na internet. E esse é o primeiro acerto desta produção: ela nos faz refletir sobre o perigo que conceitos de gestão, administração, psicologia e outras fontes de certezas podem gerar quando disponíveis livremente para mentes insanas. Isso potencializado pela internet.

Claro que você pode argumentar que esta mesma facilidade existia antes, mas em forma de livros. Verdade. Mas a internet torna o processo ainda mais prático. Qualquer um pode acessar praticamente qualquer informação, conceito, frases feitas e formas de manipular os outros sem sair de casa e com uma sequência de comandos dados por algumas teclas do computador.

O assustador do personagem central deste filme é justamente o quanto há pessoas como Louis por aí. Não apenas psicopatas, mas figuras que apenas reproduzem conceitos sem jamais refletir sobre eles – ou, o que seria o ideal, absorver estes e vários outros conceitos e criar as suas próprias teorias e compreensão dos fatos. Informações boas e até corretas nas mãos de manipuladores são extremamente perigosas.

Além disso, é assustador também o fato de muitas pessoas viverem em busca de seus próprios desejos e o que consideram ser suas necessidades sem se importarem com mais nada ou ninguém. Nem sempre estas pessoas são psicopatas, como o Louis desta produção. Muitas vezes elas são apenas insensíveis e/ou cretinas crônicas. Nightcrawler nos faz pensar sobre isso, sobre figuras com algumas destas características que conhecemos em algum momento da nossa vida.

Depois de comentar isso, inevitável citar a maior crítica desta produção: a imprensa e a fixação de parte dos jornalistas com notícias que possam dar altos índices de audiência. Não conheço profundamente a grade de programação da TV dos Estados Unidos. Por isso, me arrisco a achar que esta produção exagera na crítica. Ainda assim, achei bacana Dan Gilroy fazer esta escolha pelo exagero. No burlesco é que muitas vezes percebemos que o rei está nu.

Sendo jornalista, posso fazer uma autocrítica de que a minha profissão muitas vezes erra na dose, no foco e na mensagem. Vejo sim muitos programas, seja no Brasil, nos Estados Unidos ou em outros países, explorando crimes, violência e sangue. Há mídia impressa além de televisiva que muitas vezes faz isso. A desculpa de quem envereda por estes caminhos é que este tipo de conteúdo é o que o público quer ver. Consequentemente, é o que dá audiência e dinheiro com anunciantes.

Me desculpe quem adota essa teoria, mas acho que o papel do jornalista é servir de instrumento para informações relevantes, interessantes e que prestem serviço para a sociedade. Algumas vezes é possível juntar estes três elementos, outras vezes não. Mas a violência dificilmente se encaixa em um destes tópicos. Ou seja, ela não deveria ser explorada. E se é isso que o público quer ver, faz parte do trabalho do jornalista apresentar outras alternativas de informação inclusive para educar este público. Esta é a minha postura, como cidadã e como profissional da área.

Por isso mesmo, achei especialmente interessante como Nightcrawler questiona esse modelo de comunicação que explora o pior das imagens de atos violentos. O lado mais absurdo do ser humano. O que esse tipo de cobertura está contribuindo para melhorar a vida das pessoas? Interessante que Dan Gilroy coloca o tema no holofote.

Algumas vezes, recentemente e após a morte da Lady Di, questionou-se a atuação dos paparazzi. Mas o que dizer de diversos canais de TV e de outras mídias que recorrem a recursos muito parecidos, alimentando não apenas uma rede de paparazzis, mas especialmente diversos “abutres” que vivem de caçar tragédias para vendê-las para a imprensa depois?

Estes questionamentos levantados pelo filme, assim como pelo menos três grandes sequências da produção – o tiroteio na mansão, a chantagem no restaurante e o desfecho com direito a novo tiroteio e perseguição pelas ruas de Los Angeles -, fazem de Nightcrawler uma produção bem acima da média. Bem escrito, com um mergulho interessante na vida do personagem central e sua busca desenfreada por atingir todas as metas pessoais e comprar tudo o que deseja, este filme é um exemplo de como fazer uma história provocadora, que fomenta o debate e que também prende o espectador com uma boa carga de ação.

Mas para não dizer que Nightcrawler é perfeito, fiquei incomodada com alguns detalhes. Para começar, e espero que isso não pareça contraditório com o que eu disse lá no início, achei que Jake Gyllenhaal não estava tão bem quanto poderia. Não sei, mas algumas vezes achei a interpretação dele exagerada e, em outras ocasiões, senti que estava vendo ele em um dos papéis de Enemy (comentado aqui).

Depois, apesar de terem um propósito, achei que os discursos do protagonista para o ajudante dele, Rick (Riz Ahmed), ficaram um pouco repetidos e algumas sequências poderiam ter sido encurtadas. Nem sempre o filme conseguiu manter o ritmo desejado – teve uma ou duas desaceleradas que poderiam ter sido evitadas. Além disso, infelizmente, parte do desfecho final acaba sendo muito previsível – mais que o desejado. Fora estes detalhes, o filme é ótimo. E há ainda o “pós-final”, aquela cena em que ele discursa para os novos recrutas, que é genial.

NOTA: 9,6.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: A cada ano que passa e a cada boa decisão de papel que toma, Jake Gyllenhaal vai se firmando como um dos melhores nome de sua geração. Sou fã dele, admito e repito. E acho que ele passa por um risco que acomete, inevitavelmente a todo grande ator: o de se repetir. Neste Nightcrawler eu vi ele repetir recursos, caras e bocas que já vimos em filmes anteriores do ator. E isso é ruim. Espero que ele continue diversificando os papéis e nos apresentando algo novo. Do contrário, não ficará tão divertido acompanhá-lo daqui pra frente.

Inicialmente o nome de Dan Gilroy não me pareceu familiar. E, de fato, este é o primeiro filme dirigido por ele. Por outro lado, Nightcrawler é o oitavo roteiro escrito por ele. Gilroy estreou em 1992 com Freejack, que conta com Mick Jagger no elenco. Tenho impressão que eu assisti a esse filme, mas não tenho muitas lembranças da experiência para ter condições de dizer se gostei ou não – ou se, e isso é mais importante, se o filme é bom ou fraquinho.

Depois, ele escreveu o roteiro de Two For The Money, de 2005, com Al Pacino e Matthew McConaughey. Outra vez, tenho impressão que assisti ao filme, mas não tenho certeza. O que nunca é bom, a meu ver, porque se as produções tivessem sido boas e marcantes, eu lembraria melhor delas. 🙂 Antes de Nightcrawler, Gilroy escreveu o roteiro de The Bourne Legacy que, infelizmente, não assisti. Então eu não ter arquivo mental sobre ele se justifica. De qualquer maneira, acho que é um nome que vale ser acompanhado – até para sabermos se o próximo projeto vai seguir a qualidade desta estreia dele na direção ou se não.

O grande destaque desta produção é o ator Jake Gyllenhaal. Mais do que o talento do ator, pelo fato do roteiro de Dan Gilroy estar centrado no protagonista. Mas há outros nomes interessantes e que tem uma participação importante no filme. Inevitável não citar o retorno interessante e calculadamente decadente dos veteranos Bill Paxton como Joe Loder, um cinegrafista independente e que tem um bom tempo de estrada como “abutre” e que acaba, em uma noite de trabalho, inspirando a nova profissão de Louis Bloom; e Rene Russo como Nina Romina, a produtora de TV que acaba dependendo do trabalho de Bloom para segurar a própria carreira. Russo, em especial, chega a assustar… a idade, de fato, chega para todos. Mais cedo ou mais tarde – isso vai depender de uso de filtro solar, camadas de maquiagem e outros fatores.

Além dos veteranos citados acima, vale comentar a participação do ótimo Riz Ahmed como Rick, o sujeito sem eira nem beira que acaba servindo de ajudante e cúmplice do protagonista. O ator é, sem dúvida, a revelação do filme. Ele está bem em todas as cenas e interpreta de forma perfeita o tipo de personagem planejado por Gilroy. Um ator a ser acompanhado, pois. Aparecem em cena ainda Kevin Rahm como Frank Kruse, chefe de redação e colega de Nina Romina que fica pasmo com o mergulho da profissional cada vez mais no mundo antiético do “tudo pela audiência”; Ann Cusack como Linda; Kiff VandenHeuvel como o editor da televisão que compra os vídeos de Louis; e os atores Michael Hyatt e Price Carson como os detetives Fronteiri e Lieberman, respectivamente.

O filme conseguiu também amealhar alguns nomes da TV dos Estados Unidos. Faz parte da programação televisiva e aparecem interpretando a eles mesmos Kent Shocknek, Pat Harvey, Sharon Tay, Rick Garcia e Bill Seward. Interessante a participação deles no filme.

Da parte técnica da produção, destaco o ótimo trabalho de edição de John Gilroy; a trilha sonora marcante e que ajuda muito na produção do veterano James Newton Howard; e a direção de fotografia de Robert Elswit, que tem o desafio de manter a qualidade em um filme bastante rodado à noite.

Nightcrawler estrou no Festival Internacional de Cinema de Toronto no dia 5 de setembro. Depois, o filme participaria ainda de 14 festivais e eventos de cinema. Nesta trajetória a produção abocanhou cinco prêmios e foi indicado a outros 14, incluindo o Globo de Ouro de Melhor Ator – Drama para Jake Gyllenhaal. Entre os prêmios que recebeu, destaque para ter entrado como uma das 11 produções da lista “Filme do Ano” do respeitado Prêmio AFI; por ter entrado também na lista das 10 melhores produções de 2014 da National Board of Review; e pelo prêmio de excelente atuação por trás das câmeras para Dan Gilroy conferido pela Sociedade de Críticos de Cinema de Phoenix.

Nessa fase pré-Oscar é interessante estar de olho nas escolhas da AFI e da National Board of Review sobre os melhores filmes do ano porque, afinal, muitos deles devem aparecer na lista da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood. A saber: a lista da AFI cita, além de Nightcrawler, os filmes American Sniper (do genial Clint Eastwood – já estou louca para ver!), Birdman (do excelente Alejandro González Iñarritu, de quem sou fã também), Boyhood, Foxcatcher, The Imitation Game, Interstellar, Into the Woods, Selma, Unbroken (dirigido por Angelina Jolie e com roteiro dos irmãos Coen) e Whiplash. Na lista da NBR, além de American Sniper, Birdman, Boyhood, The Imitation Game, Nightcrawler e Unbroken, aparecem Fury, Gone Girl (dirigido pelo ótimo David Fincher), Inherent Vice (do meu ídolo Paul Thomas Anderson) e The Lego Movie. Filmes que parecem ótimos e que correm um grande risco de estarem no próximo Oscar.

Esta produção, como a história mesma sugere, foi totalmente rodada em Los Angeles – tanto as cenas externas quanto as internas.

Nightcrawler teria custado cerca de US$ 8,5 milhões e faturado, apenas na semana de estreia nos Estados Unidos, cerca de US$ 10,9 milhões. De acordo com o site Box Office Mojo, a produção teria conseguido, até hoje, dia 21 de dezembro, pouco mais de US$ 31,5 milhões nas bilheterias americanas. Nada mal, pois. Pelo contrário. O filme já conseguiu um bom lucro e tende a acumular ainda mais conforme os prêmios forem aparecendo.

Agora, algumas curiosidades sobre a produção: Jake Gyllenhaal emagreceu 20 quilos para o papel. Essa foi uma sugestão do próprio ator, que pensou no personagem como um “coiote com fome”. Ou seja, magro e sedento. Interessante. Também curioso que na cena em que Louis se descontrola, após perder a história da queda do avião, Gyllenhaal de fato embarcou no personagem e quebrou o espelho, cortando a mão e tendo que ir para o hospital levar alguns pontos.

O ator Riz Ahmend se preparou para o papel neste filme acompanhando “nightcrawlers reais” de Los Angeles, ou seja, presenciando de perto como os cinegrafistas independentes fazem o seu trabalho nas ruas da cidade. Ou seja, de fato existem figuras que ganham a vida desta forma. Assustador.

Rene Russo é a esposa do diretor Dan Gilroy. Essa é para quem curte carrões: o carro vermelho que Gyllenhaal dirige no filme é um Dodge Challenger.

Os usuários do site IMDb deram a nota 8,1 para esta produção. Levando em conta o padrão do site, esta é uma ótima avaliação. Os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 182 avaliações positivas e apenas 10 negativas para o filme, o que lhe garante uma aprovação de 95% e uma nota média de 8,2. Ambas fantásticas.

CONCLUSÃO: Filme de psicopatas, talvez você já tenha visto alguns. Mas um filme que foca em um sujeito sem culpa e que não gosta de pessoas – ele mesmo admite isso lá pelas tantas em Nightcrawler – e que ainda mergulhar em algumas das realidades mais chocantes do nosso tempo, não é tão comum. Esta produção não apenas trata de um psicopata, mas também mostra como parte da população está entregue a uma curiosidade mórbida por crimes e tragédias que apenas alimenta mais o lado sombrio do mundo e da nossa realidade.

Também faz refletir sobre o perigo que é tornar as informações públicas e acessíveis a qualquer pessoa pela internet. Frases feitas e de impacto podem ser usados nos contextos mais diversos e pelas pessoas mais equivocadas. Baita história que não apenas provoca o espectador a repensar alguns conceitos, mas também mantém o ritmo adequado, sem entediar aqueles que já viram filmes com psicopatas e/ou que analisam a mídia. Com algumas cenas que vão voltar à memória do espectador tempos depois da produção, tem tudo para virar um filme cult com o passar do tempo. E cá entre nós, de forma merecida.

PALPITES PARA O OSCAR 2015: Difícil avaliar as chances de um filme como Nightcrawler na maior premiação do cinema dos Estados Unidos no próximo ano. Isso porque um filme como esse, há 10 anos, não chegaria entre os finalistas. Mas a renovação pela qual a Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood passou nos últimos anos muda este cenário.

O Oscar está muito mais ousado agora. Filmes diferentes que antes nunca chegariam lá agora estão sendo indicados. Sendo assim, olhando apenas para a história da premiação, eu diria que Nightcrawler não seria indicado ou, no máximo, chegaria na categoria Melhor Ator para Jake Gyllenhaal. Mas, como os tempos mudaram, não seria uma total surpresa se esta produção fosse indicada também como Melhor Roteiro Original e, o que seria um pouco mais difícil, aparecesse na lista de Melhor Filme – levando em conta que este ano podemos ter, novamente, 10 indicados nesta categoria.

Da minha parte, acho que Nightcrawler até pode ter uma ou três indicações, mas dificilmente levará alguma estatueta para casa. Não que ele não mereça, especialmente Gyllenhaal, mas acho que esta produção foge demais do perfil da Academia. Veremos.

The Hobbit: The Battle of the Five Armies – O Hobbit: A Batalha dos Cinco Exércitos

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Francamente eu não pensava em assistir a esse filme. E vou explicar o porquê. Apesar de ter assistido à trilogia The Lord of the Rings, perdi o momento de assistir aos primeiros filmes da também trilogia The Hobbit. Pois bem, então como começar por esta terceira parte? A questão é que ganhei dois pares de ingresso para o cinema e como eu já tinha assistido ao filme A Walk Among the Tombstones (comentado aqui), a melhor opção no cinema era mesmo esse The Hobbit: The Battle of the Five Armies. E francamente? Gostei muito de ter quebrado as minhas próprias regras e de ter me jogado em uma sala escurinha com telão e som de primeira para assistir a esse filme.

A HISTÓRIA: As pessoas correm para tentar escapar, mas parece inevitável a destruição da Cidade do Lago com a aproximação e o consequente ataque do dragão Smaug (voz de Benedict Cumberbatch). Enquanto o fogo destrói grande parte das casas, Bard (Luke Evans) luta para se livrar da prisão enquanto os filhos dele fogem de barco com a ajuda de Tauriel (Evangeline Lilly). De longe, a Companhia de Anões vê a destruição que Smaug está provocando após o dragão ter sido irritado por eles. Thorin Oakenshield (Richard Armitage) fica obcecado com o ouro e a riqueza que eles recuperaram na Montanha Solitária, sem saber que em breve aquele local será atacado por todos os lados.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que continue a ler quem já assistiu a The Hobbit: The Battle of the Five Armies): Há mais de 10 anos eu não mergulhava no mundo mágico de J.R.R. Tolkien através das lentes do genial diretor Peter Jackson. Sim, como grande parte da humanidade, no início dos anos 2000, assisti à trilogia fantástica de The Lord of the Rings. Depois, acompanhei o burburinho envolvendo The Hobbit. Mas não sou uma aficionada. Então, me perdoe se você viciou em Tolkien, mas eu sou do grupo de hereges que não leu as obras originais.

Então o meu conhecimento sobre The Hobbit é que havia a saga anterior a The Lord of the Rings e que Peter Jackson havia iniciado uma nova trilogia para contar a juventude e a primeira aventura do senhor Bilbo Baggins (o sempre ótimo Martin Freeman) em 2012. Como acontece com tantos outros filmes, perdi o bonde da história quando o primeiro dos três filmes foi lançado. Então ontem, quando assisti a The Hobbit: The Battle of the Five Armies, eu só não estava perdida na história porque havia assistido a The Lord of the Rings.

E esta é a dica que eu dou para você que, como eu, não assistiu aos outros filmes da série The Hobbit: na verdade, não faz taaaaanta falta não ter assistido aos filmes anteriores. Ok, neles certamente o espectador vai encontrar muito mais detalhes sobre as personalidades e trajetórias de cada personagem. Mas a verdade é que sabendo que foi criado um grupo de anões, incentivado por Gandalf (o meste Ian McKellen) para retomar a montanha que era deles por direito, e que para cumprir este objetivo eles despertaram a ira do dragão Smaug, você já tem todos os elementos para compreender esta nova produção.

E que filme! O melhor dos efeitos especiais está ali. E para os saudosos das lindas paisagens e da narrativa interessante e cheia de lições de moral de The Lord of the Ring, é um deleite mergulhar novamente nesse universo. Gostei muito de rever a personagens fundamentais, como Gandalf, Galadriel (a divina Cate Blanchett, que rouba a cena quando aparece), Legolas (Orlando Bloom), Saruman (o mestre Christopher Lee) e Elrond (o também veterano Hugo Weaving).

Para mim, o filme vale o ingresso apenas na sequência em que tentam aniquilar Gandalf e aparece para socorrê-lo a fantástica Galadriel e seus aliados. A luta deles contra as entidades do Mal é de arrepiar. Para mim, o ponto alto do filme. Claro que também há várias cenas de ação e de batalha primorosamente feitas, mas aquele embate envolvendo gente tão poderosa e especial foi particularmente interessante.

Me desculpem a ignorância, por não conhecer o original de Tolkien, mas me parece que a articulação de Gandalf tinha, no fim das contas, um propósito que depois se veria como fundamental para enfrentar o inimigo Sauron. Ao incentivar os anões a recuperar a montanha que era a terra natal deles, além de fortalecer aquele povo, os fatos que vieram na sequência acabaram juntando humanos, anões e elfos para combater os orcs. Essa união faria diferença depois, quando na sequência de The Lord of the Ring eles teriam que se unir novamente, não é mesmo?

Uma qualidade de The Hobbit: The Battle of the Five Armies é que o filme começa mergulhado na ação e permanece nela quase o tempo todo. Mas seguindo a regra dos filmes baseados em Tolkien, também há diversos espaços na narrativa para os personagens falarem de seus sentimentos e filosofarem sobre a vida. O roteiro de Peter Jackson, Guillermo del Toro, Frank Walsh e Philippa Boyens é especialmente generoso com Gandalf e com Bilbo Baggins. Especialmente o segundo tem algumas falas muito boas.

A ação é boa, com algumas cenas de batalha que vão perdurar por muito tempo na memória. Mas acho que muitas desta cenas poderiam ser suprimidas, fazendo a história ficar um pouco mais enxuta, veloz e menos repetitiva. O filme tem duas horas e 22 minutos de duração. Facilmente poderia ter ficado com duas horas sem perdas para a história. Me incomodaram um pouco alguns exageros na narrativa. Dois momentos, em especial, me fizeram reduzir a nota para o patamar abaixo.

Primeiro, me incomodou um pouco o exagero da reviravolta do rei dos anões, Thorin Oakenshield. Ele tem uma série de “visões” de exame de consciência quase psicodélico – o segundo momento do tipo do filme, após o primeiro em que o Mal se manifesta – e voilá, vira novamente um rei honrado, que cumpre a palavra e que não escapa da luta. Certo, até este ponto até dá para ser generoso e pensar que a reviravolta poderia até ser tão repentina. Mas aí sobe a música de Howard Shore e aquele meia dúzia de anões saem para reforçar o exército da raça que está lá fora como se eles fossem a solução de todos os problemas. E é meia dúzia de anões, minha gente!

Ok, alguns vão dizer que aquele atitude de um líder serve de exemplo para a vida real, quando um grupo passa a lutar e “vestir a camisa” com muito mais afinco quando vê que o líder acredita na vitória. Certo, pode até ser que as pessoas lutem diferente quando acreditam no líder e assistem ele dando o sangue pela causa. Mas convenhamos, a diferença numérica era muito absurda para justificar tamanha reviravolta por causa de meia dúzia de anões – com o líder incluído no grupo. De qualquer forma, é isso que acontece no filme. Anões, elfos e humanos que sobreviveram até ali e em número bem menor que os orcs acabam virando o jogo.

Outro ponto que me incomodou pelo exagero – momento “ah tá bom” do filme – foi quando Legolas luta contra um dos orcs mais empedernidos e consegue com que cada peça de uma ponte de pedras esteja no lugar certo na hora certa. Quando alguma parte caia, magicamente ele conseguia se deslocar a tempo de ficar sobre uma outra peça por mais um tempo. Quem assistiu ao filme sabe do que eu estou falando. Tudo bem que o filme é de ficção, fantasia, e exagerado na essência, mas essas partes poderiam ter sido um pouquinho menos exageradas para o meu gosto.

Exceto por essas partes e por algumas cenas de batalha que eu cortaria pela repetição que elas significaram, não há o que criticar desta produção. O elenco foi muito bem escolhido, a direção é primorosa nos detalhes, a edição é veloz e o conjunto de efeitos especiais, trilha sonora, figurinos e direção de arte é de tirar o chapéu. Impecável. Sem contar que é um prazer reviver a aura de Tolkien. Fiquei com vontade de rever a trilogia The Lord of the Rings. Talvez faça isso. E, claro, fiquei ainda com mais saudade de Game of Thrones. 🙂 Agora, só em 2015.

NOTA: 9,2.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Sempre gostei de jogos de estratégia. E como venho de uma geração que começou a pegar a evolução do computador pessoal – sou da época em que se aprendia DOS no curso de informática -, tive um deleite especial quando os vermes gigantes apareceram rapidamente no filme auxiliando os orcs. Foi inevitável não lembrar do jogo Worms. 😉 Genial!

As histórias de Tolkien também me fazem lembrar dos primeiros jogos da grife World of Warcraft. Acho que só quem jogou aquelas primeiras edições sente um certo déjà vu quando assisti a The Lord of the Rings ou The Hobbit, não é mesmo? Foi com aquele game que conheci as particularidades, pontos fracos e fortes de humanos, orcs, elfos e anões. Bons tempos aqueles. 🙂

Mas voltando ao filme. Esta é uma produção que, certamente, será indicada a alguns Oscar’s em 2015. Aliás, com The Hobbit: The Battle of the Five Armies eu vou começar uma contagem regressiva para a grande premiação do cinema. Eu já estou de olho em várias produções interessantes, nos indicados aos Golden Globes e, claro, logo mais vou começar a voltar as minhas críticas para os prováveis concorrentes do Oscar 2015. Aguardem e confiem!

Aposto que esta terceira parte da trilogia de The Hobbit vai ser indicada, por baixo, para umas sete categorias do próximo Oscar. Isso apenas para falar das indicações técnicas, como Melhor Figurino, Melhor Maquiagem e Penteado, Melhores Efeitos Visuais, Melhor Mixagem de Som, Melhor Edição de Som, Melhor Fotografia e Melhor Edição. Talvez o filme seja indicado também em Melhor Design de Produção e, dependendo de como estiver o ano a respeito de outros indicados fortes, Melhor Roteiro Adaptado e Melhor Trilha Sonora. Dependendo da safra, talvez Peter Jackson seja indicado como Melhor Diretor – se bem que acho isso mais difícil. Ou seja, se o filme tiver muita sorte, poderia conseguir até 11 indicações.

Quantos destes prêmios ele pode efetivamente levar? Isso você pode conferir na seção que reestreio hoje: Palpites para o Oscar 2015, logo abaixo.

Como eu não assisti aos dois filmes anteriores da saga The Hobbit, talvez eu esteja sendo redundante ao comentar nomes que me chamaram a atenção neste filme – e que não eram conhecidos na trilogia original de The Lord of the Rings. Gostei muito de Lee Pace como Thranduil; de Evangeline Lilly – linda, super linda – como Tauriel; de Luke Evans como Bard – ainda que ele não consiga desbancar Sean Bean como Boromir; Aidan Turner ótimo, um dos destaques do filme como Kili; e Dean O’Gorman competente como Fili, parceiro de primeira ordem de Kili.

Do grupo de anões que tem relevância no filme, vale citar o bom trabalho de atores que ficam “escondidos” atrás da caracterização super bem feita dos personagens: William Kircher como Bombur; James Nesbitt como Bofur; e Stephen Hunter como Bifur.

Ah sim, também me irritou um pouco neste filme o personagem Alfrid (Ryan Gage). Tudo bem, entendo que ele tinha que ser a parte cômica do filme, para relaxar um pouco com um personagem covarde no meio de tantos bravos, mas ele acaba irritando com a escatologia forçada.

E claro que há uma grande frase/lição no filme. (SPOILER – não leia se você não assistiu a The Hobbit: The Battle of the Five Armies). Ótima a frase de Thorin para Bilbo, após sugerir que ele volte para a casa dele, na pacata cidade em que ele saiu, para plantar árvores e viver em paz: “Se mais de nós dessem mais atenção para as suas casas do que para o ouro, o mundo seria um lugar melhor”, ou algo similar… genial, não é mesmo? Bela verdade. Vi neste blog que no original a frase seria assim: “Se mais de nós dessem mais valor a comida, bebida e música do que a tesouros, o mundo seria mais alegre”.

Da parte técnica do filme, fantástica a direção de fotografia de Andrew Lesnie; a edição de Jabez Olssen – esse sim, teve milhões de caminhões de trabalho; o design de produção de Dan Hennah – trabalho impecável e inspirador; a direção de arte de Simon Bright e Andy McLaren – que merecem vários prêmios; a decoração de set de Simon Bright e de Ra Vincent; os figurinos de Bob Buck, Lesley Burkes-Harding e Ann Maskrey; o trabalho genial da equipe de 37 profissionais que faz parte do departamento de maquiagem da produção; e as mais dezenas de profissionais dos departamentos de arte, de som, de efeitos especiais e efeitos visuais. A maior equipe, aliás, é de efeitos visuais. Trabalho fantástico.

Minha gente, essas são as informações principais. Outras complementares, que tradicionalmente publico nas críticas, deixarei para acrescentar em breve. Logo mais deixo mais detalhes por aqui.

Voltando. 🙂 The Hobbit: The Battle of the Five Armies teve premier no dia 1 de dezembro em Londres. Depois, no dia 2, o filme estreou em Paris. E aí seguiu-se uma série de estreias, incluindo uma premier na Comic Con Experience no Brasil no dia 7. No circuito comercial o filme estreou mesmo no dia 10 em diversos países, chegando ao Brasil no dia 11 de dezembro.

De acordo com o site Box Office Mojo, esta produção arrecadou pouco mais de US$ 34,4 milhões apenas nos Estados Unidos. No restante dos países em que estreou mundo afora, ela teria feito outros US$ 122,2 milhões. Infelizmente não há dados seguros sobre o quanto o filme teria custado.

Agora, algumas curiosidades sobre a produção. Quando o filme teve uma premier no Comic Con de San Diego, muitos fãs acamparam no dia anterior para conseguir um bom lugar no dia em que o filme seria passado. No meio da noite, esses fãs foram acordados pelos atores Lee Pace e Andy Serkis que, durante horas, fizeram fotos e deram autógrafos para quem estava lá. Achei muito bacana essa proposta e atitude.

Os únicos atores a aparecer em todos os filmes adaptados das obras de Tolkien foram Ian McKellen e Cate Blanchett. E eles são divinos! Aqui, mais uma vez, estão perfeitos e dividem a melhor sequência da produção.

Vários atores do filme mantiveram os adereços depois que a produção terminou de ser filmada. Martin Freeman, por exemplo, ficou com a espada e com as próteses de orelha de hobbit. Será que ele vai fazer uma festinha divertida em casa? 🙂 Richard Armitage também manteve a espada que o personagem dele utilizou e Lee Pace, para não variar, também guardou a espada élfica que utilizou no filme.

No livro de Tolkien, toda a batalha dos cinco exércitos ocorre em apenas um capítulo.

De acordo com o diretor e roteirista Peter Jackson, o material extra trará 30 minutos adicionais, tornando a versão estendida desta produção a mais longa da franquia.

Daniel Radcliffe e Tobey Maguire foram considerados para o papel de Bilbo na trilogia do Hobbit, mas Peter Jackson quis que o personagem fosse de Martin Freeman. Escolha perfeita, diga-se.

A personagem de Tauriel foi criada por Jackson especialmente para a atriz Evangeline Lilly.

The Hobbit: The Battle of the Five Armies teve cenas externas rodadas na Nova Zelândia, a exemplo dos filmes da trilogia The Lord of the Rings, e as cenas de estúdio foram rodadas no tradicional Pinewood Studios, em Londres.

Interessante como inicialmente Jackson havia planejado apenas dois filmes para adaptar The Hobbit mas, depois, decidiu que seria melhor dividir a história em três produções. Fazendo isso, impossível não comparar The Lord of the Ring e The Hobbit com os filmes que George Lucas fez da história original de Star Wars. Os dois arrasaram com a primeira trilogia e tiveram que enfrentar muitas críticas e controvérsias quando lançaram a segunda trilogia – e, no caso dos dois, a segunda série de filmes remontava para um tempo narrativo anterior da primeira série. Curious.

Até o momento esta produção ganhou um prêmio e foi indicado a um outro. O prêmio que ele recebeu foi o Truly Moving Picture Award, dado pelo Heartland Film. Ele também foi indicado na categoria de Melhores Efeitos Visuais pelo Prêmio da Sociedade de Críticos de Cinema de Phoenix.

Os usuários do site IMDb deram a nota 8 para esta produção. Os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 107 avaliações positivas e 71 negativas para The Hobbit: The Battle of the Five Armies, o que garante 61% de aprovação para o filme e uma nota média de 6,3.

CONCLUSÃO: Filme altamente indicado para quem assistiu à trilogia The Lord of the Rings. E se você, além daqueles três filmes, ainda assistiu aos dois anteriores do Hobbit… bem, não preciso usar mais que um neurônio para saber que você gostou desta última parte da nova trilogia de Peter Jackson. De fato o filme cumpre o seu papel com maestria. Há muitas cenas de luta e de batalhas, alguns personagens fundamentais para The Lord of the Rings aparecem em cena e despertam a vontade de voltar a assistir àqueles clássicos modernos. Efeitos especiais para todos os lados, aquelas paisagens magníficas com as quais já nos acostumamos, e ótimos atores. Para não dizer que é perfeito, ele poderia ter um pouco menos de duração e ter descontadas algumas sequências exageradas. Não é melhor que os filmes de The Lord of the Rings, mas é uma produção muito competente. Vale o ingresso.

PALPITES PARA O OSCAR 2015: Bem, minha gente, vou retomar essa seção com este The Hobbit: The Battle of the Five Armies porque eu acredito, realmente, que esta produção vai figurar entre as indicadas no próximo prêmio da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood. Como comentei logo acima, por baixo, acredito em pelo menos sete indicações deste filme. Todas técnicas. Mas há potencial para a produção chegar até umas 11 indicações – tudo vai depender da qualidade desta safra, ou seja, dos outros concorrentes em categorias não-técnicas.

Acredito que o filme tenha boas chances nas categorias Melhor Maquiagem e Penteado, Melhores Efeitos Visuais, Melhor Mixagem de Som e Melhor Edição de Som. Talvez ele possa ser um forte concorrente em Melhor Fotografia e Melhor Edição, mas poderei falar mais a respeito quando começar a assistir a outros fortes nomes na disputa. Além destas categorias, acho difícil ele ganhar muito mais. Veremos…

ATUALIZAÇÃO (20/12): A Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood já divulgou que esta produção está entre as 10 que avançaram na competição para ganhar na categoria Melhores Efeitos Visuais no Oscar 2015. Por outro lado, a Academia também divulgou a lista dos sete filmes que estão avançando na disputa na categoria Maquiagem e Cabelo no próximo Oscar e The Hobbit: The Battle of the Five Armies ficou de fora. Estão na disputa ainda The Amazing Spider-Man 2, Foxcatcher, The Grand Budapest Hotel, Guardians of the Galaxy, Maleficent, Noah e The Theory of Everything.

A Walk Among the Tombstones – Caçada Mortal

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Filmes de ação que mostram um longo e doloroso processo de vingança fazem parte da história do cinema. Dezenas deles já foram feitos. Outros tantos também se debruçam no perfil de policiais que tiveram um problema grave em sua trajetória, o que fez eles mudarem de rumo. A Walk Among the Tombstones junta estas duas vertentes de filmes de ação sem reinventar a roda mas, ao mesmo tempo, respeitando a inteligência e o bom gosto do espectador.

A HISTÓRIA: Nova York, 1991. O policial Matt Scudder (Liam Neeson) escuta algumas recomendações do colega policial, Danny Ortiz (Maurice Compte). No puxão de orelha, Ortiz diz que está preocupado com Scudder, e que ele não está afundando apenas a si mesmo, mas colocando o parceiro em risco também. Scudder entra no bar e recebe o de sempre: duas doses de destilado e um café, enquanto lê o jornal.

Mas logo entram criminosos no local, que atiram no dono do bar (Patrick McDade). Scudder persegue os criminosos e acaba matando os três. Cenas de uma mulher. Corta. Nova York, 1999. Scudder está lendo o jornal em uma lanchonete quando chega Peter (Boyd Holbrook), que ele conheceu em uma reunião do AA (Alcoólicos Anônimos). Como detetive particular, Scudder é chamado para ajudar o irmão de Peter, Kenny Kristo (Dan Stevens), que está vivendo um drama pessoal pesado.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso só recomendo que continue a ler quem já assistiu a produção A Walk Among the Tombstones): Gosto do Liam Neeson. Ele é um ator que soube, pouco a pouco, se especializar em um tipo de papel e de filme bem específicos. A expressão dele é dura, e a seriedade no semblante convence toda vez que ele encarna o personagem de durão. Funciona, em especial, em filmes como este A Walk Among the Tombstones, em que Neeson não é apenas um sujeito durão, mas um homem que tem uma dívida profunda com o próprio passado.

Os primeiros minutos desta produção juntam dois gêneros com filmes bem interessantes: western e os film noir. São momentos eletrizantes e que provocam o espectador, servindo de um belo cartão de visitas do diretor e roteirista Scott Frank. Pouco depois, mergulhamos em alguns lugares-comuns, como o protagonista sendo convidado para investigar um crime que levará ele a confrontar o próprio passado e escolhas equivocadas que ele tomou.

O ex-policial Matt Scudder, há vários anos frequentando encontros de AA, é levado por um colega deste ambiente a encontrar um sujeito com o qual ele jamais trabalharia em conjunto no passado: o traficante Kenny Kristo. No início, achei o ator Dan Stevens muito ruim. Mas pouco a pouco vamos entendendo aquele jeito estranho do personagem – ainda que, na comparação com Neeson, ele fique sempre atrás. O mesmo acontece com o ator que interpreta o irmão dele, Boyd Holbrook. Todos se esforçam, mas nenhum deles consegue realmente convencer em seus papéis. Atores melhor preparados teriam conseguido um resultado melhor com estes mesmos personagens.

Mas voltando para a história: Scudder acaba caindo no enredo de vingança pessoal de Kenny de uma forma um tanto previsível – primeiro ele nega trabalhar para ele, depois acaba cedendo porque percebe que deve contribuir para terminar com uma série de crimes cruéis. A lógica é que se existe alguém pior para ser combatido, por que não se juntar com alguém que você desprezaria normalmente?

Como nos film noirs clássicos, aqui também o limiar entre o herói e o bandido muitas vezes tem a densidade de uma fumaça. Daí que no decorrer da história surge o garoto TJ (Brian “Astro” Bradley). O protagonista encontra ele “vivendo” na biblioteca onde ele começa a investigar crimes similares ao da mulher de Kenny. Volta e meia o garoto surge, principalmente para o protagonista exercer um pouco de sua verve paterna e cheia de conselhos sábios. Daí que eu não sei vocês, mas eu fiquei me perguntando se essa era realmente a finalidade do garoto: servir de trampolim para um pouco de filosofia contra o crime do ex-policial Scudder.

Muitas vezes o personagem de TJ me parecia uma tentativa do roteirista em dar um lado mais “humano” e um pouco “cômico” para a história, para que ela não ficasse macabra demais. Fiquei feliz quando vi que o garoto tinha um propósito maior e uma participação decisiva na reta final da produção. Desta forma, o personagem de TJ nos faz pensar de como nem sempre percebemos que relações “sem grande importância” aparente podem ser, no fim das contas, decisivas em determinados momentos das nossas vidas.

Quem disse que um filme de ação não pode ter um pouco de filosofia no meio? 🙂 O desenrolar da trama, propriamente dita, ocorre de maneira um tanto previsível e sem nenhuma inovação narrativa. Há um começo, um meio e um fim. Pouco a pouco o experiente Scudder vai montando o quebra-cabeças do perfil dos criminosos até que, de forma inteligente, ele alerta através de Kenny outros bandidos que tinham as características de possíveis futuros alvos dos bandidos.

Não demora muito para que um novo caso ocorra – afinal, o roteirista tinha pressa para deslanchar o filme. Esqueçam o modus operandi normal de uma dupla de serial killers que, normalmente, dão um certo espaço de tempo entre um crime e outro. Em A Walk Among the Tombstones esses tempo não existe. Logo depois de estuprar, matar e esquartejar a mulher de Kenny, os criminosos Ray (David Harbour) e Albert (Adam David Thompson) querem mesmo é atacar a próxima vítima.

Interessante como o filme de Scott Frank, baseado na obra homônima de Lawrence Block, desconfia dos “homens da lei”. Além de termos um protagonista que se arrepende de um ato do passado, quando ele era alcoólatra e acabou matando não apenas três bandidos, mas causando também a morte acidental de uma menina, temos ainda dois criminosos interessados em dinheiro e que tem um gosto macabro por cortar pessoas que trabalhavam para o DEA (Drug Enforcement Administration ou, em uma tradução livre, Órgão para o Combate das Drogas). Ironia e autocrítica pura.

O filme vai bem, especialmente pelo trabalho de Neeson, até que o protagonista começa a negociar com os bandidos. Claro que há diálogos bons ali, mas fica especialmente estranho quando Scudder fala para Ray que conhece ele, que lembra do “maldito degenerado” que ele conheceu há 10 anos e que ele jogou por uma janela. Hein? Essa é a parte comprometedora do roteiro. Porque em nenhum momento da produção, antes, ficamos sabendo dos dois terem se esbarrado ou conhecido. Até aquela troca de diálogos, não há nenhum indício de que eles tiveram algum encontro antes.

Essa é uma lacuna importante da trama que, até então, estava bem amarrada. Ok, alguém pode argumentar que a fala de Scudder era genérica. Que ele não estava falando especificamente de Ray, mas de qualquer maluco com aquele perfil que ele tivesse encontrado 10 anos antes. Com bastante esforço de imaginação, até podemos pensar nisso. Mas francamente, da forma com que os diálogos foram escritos, não é isso que aparenta. E por mais que Scudder seja bom, fica um pouco difícil de acreditar que os bandidos jogariam o jogo dele daquela forma tão facilitada.

Se eles eram, de fato, e como nos quer fazer acreditar o roteirista e diretor, tão cruéis, dificilmente eles dariam margem para o azar para ganhar uma bolada de mais um traficante. Sendo perseguidos da forma com que eles estavam, era muito mais lógico, segundo o pensamento dos criminosos, matar a refém e partir para uma série de novos crimes longe dali. Mas bueno, o filme precisa seguir, e Scott Frank escolhe o caminho mais rápido para terminar essa história.

Na reta final da trama, gostei das perdas que ocorrem na história. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Afinal, Kenny era um traficante que vivia bem, mas não tinha vocação para ser um bandido familiarizado com o confronto. E o irmão dele, o pobre Peter, tinha deixado bem para trás a experiência com o rifle – recentemente ele estava mais alucinado com drogas e com a culpa do que afiado no gatilho. Os dois são mortos no confronto com bandidos muito mais experientes e preparados para tudo.

Esta conclusão, junto com outra lição de moral de Scudder para TJ, quando o garoto está com uma arma que pegou em um beco, reforçam as boas intenções do filme – que apesar de cruel, deixam essa mensagem de que o confronto e a busca de vingança contra bandidos nunca é a melhor saída. No fim das contas, Scudder não apenas ajudar a resolver a mais uma série de crimes, como também, através dos cuidados com TJ, ajuda a resolver o próprio passado. Uma trama interessante, bem contada, apesar de uma ou outra falha aqui e ali. E com o grande Liam Neeson.

NOTA: 9.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Ajuda bastante na história e funciona muito bem a mudança de visual do personagem de Matt Scudder. Ele começa “sem limites”, com atitude típica de quem vive acima do razoável (leia-se alcoólatra) e com uma pegada de western e, passado aquele momento decisivo na vida e nas certezas do personagem, ele surge sóbrio não apenas na atitude e na forma de falar e caminhar, mas também no visual. Acerto importante auxiliado pelos profissionais responsáveis pelo figurino (Betsy Heimann) e pela maquiagem (Shellie Biviens, Maya Hardinge, Craig Lindberg, Amanda Miller, Kyra Panchenko e Kerrie Smith).

Falando na parte técnica do filme, além da direção bem afinada de Scott Frank, vale citar o ótimo trabalho do diretor de fotografia Mihai Malaimare Jr., livremente inspirado nos film noir e nos western e que, desta forma, sabe valorizar bastante o jogo entre luzes e sombras.

A trilha sonora de Carlos Rafael Rivera aparece em momentos pontuais e ajuda a colocar a trama no compasso adequado, que faz o espectador relembrar de filmes de crime de algumas décadas atrás. Outro nome importante para a produção é o de Jill Savitt, responsável pela edição do filme.

A Walk Among the Tombstones estrou no dia 18 de setembro em 13 países, incluindo Dinamarca, Israel, Itália e México. No dia seguinte, o filme estreou em outros nove países, incluindo Canadá, Reino Unido e Estados Unidos.

A produção, que teria custado cerca de US$ 28 milhões, conseguiu nas bilheterias, apenas dos Estados Unidos, pouco mais de US$ 26,3 milhões até o dia 19 de setembro, de acordo com o site Box Office Mojo. No restante dos países do mundo onde já estreou, a produção conseguiu quase US$ 26,9 milhões. Ou seja: a produção conseguiu se pagar e, agora, busca lucrar. Deve conseguir isso.

A Walk Among the Tombstones foi totalmente rodado em Nova York, nos Estados Unidos. A cidade, querendo ou não, acaba sendo uma personagem adicional da trama.

Agora, algumas curiosidades sobre a produção: a atriz Ruth Wilson filmou diversas cenas como Joe Durkin, personagem que na obra original é feita por um homem. Ela deveria atuar como parceria do protagonista, mas acabou tendo todas as cenas deletadas na versão final do filme porque o diretor achou que a história funcionaria com o protagonista em uma cruzada solitária. Cá entre nós, acho que ele teve razão.

De acordo com o site IMDb, graças à popularidade do ator Liam Neeson em outros filmes de ação, A Walk Among the Tombstones já estava no lucro antes mesmo de ser lançado por causa das vendas robustas que a produção conseguiu nos diferentes mercados mundo afora. Interessante. Liam Neeson, de fato, virou uma grife.

Esta é a segunda vez que o personagem de Matt Scudder aparece em um filme. A aparição anterior foi na produção 8 Million Ways to Die, quando o personagem foi vivido por Jeff Bridges.

O personagem de Matt Scudder aparece em uma série de 17 obras do escritor Lawrence Block. Ou seja, há bastante trama ainda para ser explorada no cinema – espero que com Liam Neeson ou atores deste calibre.

Há alguns personagens secundários da produção que ganham certa relevância. Do time de mulheres, geralmente vítimas, estão Laura Birn como Leila Alvarez; Razane Jammal como Carrie Kristo; Marielle Heller como Marie Gotteskind; Liana De Laurent como a mulher do traficante Yuri Landau (Sebastian Roché), e Danielle Rose Russell como Lucia, filha do traficante. Por falar no personagem de Roché, interessante ver a esse ator veterano em ação novamente, ainda que em um papel tão secundário.

Esta é uma produção 100% dos Estados Unidos.

Os usuários do site IMDb deram a nota 6,7 para esta produção. Os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 84 avaliações positivas e 43 negativas para a produção, o que lhe garante uma aprovação de 66% e uma nota média de 6,1. De fato, o filme deve merecer uma nota nesta média, talvez próximo de 7… dei uma avaliação muito melhor, admito, porque sou fã de Neeson. 😉

CONCLUSÃO: Produção dura, com uma pegada obscura e algumas vezes pesada, A Walk Among the Tombstones só é tão bom porque tem Liam Neeson como protagonista. Este ator, a exemplo de Clint Eastwood, se especializou de uma maneira tão profunda que virou grife de certos filmes: os de ação. Ele está perfeito como o protagonista em busca de redenção que ajuda um traficante a buscar vingança. A dupla inusitada acaba se justificando conforme vamos conhecendo mais sobre cada personagem. O desenrolar da história é bom, apesar de uma pequena falha no caminho. Mas nada que comprometa muito a mensagem que o filme quer passar. Envolvente, apesar de alguns atores fracos, esta produção vale o ingresso. Ainda que apenas requente várias premissas já trabalhadas antes em outros filmes do gênero. Só que Liam Neeson está lá para salvar esta e qualquer outra produção.