Soul Kitchen

Um grande diretor pode ser identificado pelo talento que ele demonstra ao narrar uma boa história envolvendo, para isto, o espectador com cada elemento que o cinema tem a oferecer em seu caldeirão de recursos. A filmografia que Fatih Akin vêm construíndo nos últimos 15 anos comprova que ele já pode ser enquadrado nesta categoria. Ainda que menos “conceitual” que seus filmes anteriores, Soul Kitchen segue demonstrando a vocação de Akin para contar histórias. Que aparentemente são simples, mas essencialmente belas, e que exploram os encontros e desencontros tão típicos da vida. Mais uma vez este diretor alemão de origem turca consegue, com maestria, conduzir o espectador pela mão com linhas de roteiro perfeitas, uma ótima condução de atores, cenas de beleza sutil e que demonstram fluidez, e uma trilha sonora intocável. Outra de suas obras contagiantes, não há dúvidas.

A HISTÓRIA: Zinos Kazantsakis (Adam Bousdoukos) dá o sangue em seu restaurante em um bairro operário de Hamburgo. Proprietário, gerente e “cozinheiro” do local, Zinos serve comidas de preparo rápido – a maioria delas, frituras. Para isso, ele tem uma clientela fixa e pequena. Depois de mais um dia de trabalho, ele vai até um restaurante chique da cidade para o jantar de despedida da namorada, Nadine Krüger (Pheline Roggan). No caminho, ele encontra um antigo colega do tempo do colégio, Thomas Neumann (Wotan Wilke Möhring). No restaurante, ele vê uma cena inusitada envolvendo o chef Shayn Weiss (Birol Ünel). No dia seguinte, Zinos recebe a visita de seu irmão, o presidiário Illias (Moritz Bleibtreu). Estes e outros encontros e desencontros na vida de Zinos ocorrem de maneira muito acelerada, mudando a sua rotina de maneira decisiva.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Soul Kitchen): Este filme de Fatih Akin quase pode ser considerado um exemplar perfeito de uma “comédia de erros”. Acelerada, com novos personagens aparecendo rapidamente sob os olhares atentos do espectador, a narrativa de Soul Kitchen vai agravando, colheirada por colheirada, a história de seu protagonista. Parece que a maré de “azar” de Zinos Kazantsakis não tem fim. E que o seu destino é realmente a sarjeta… mas, como nos filmes anteriores de Fatih Akin, é preciso estar atento aos detalhes. Porque por mais que as coisas parecem ir piorando na realidade de Zinos pouco a pouco, paralelo a isso surgem oportunidades e encontros promissores.

Fatih Akin tem um certo gosto por narrativas paralelas, encontros e desencontros e, principalmente, o peso que ele dá para as pequenas escolhas que a pessoa faz na vida. Como no perfeito Auf der Anderen Seite (comentado aqui no blog), em Soul Kitchen, novamente, os personagens principais são ao mesmo tempo “donos” e “vítimas” de seus destinos. O que o diretor e roteirista parece querer nos dizer sempre é que, por mais que a vida tenha a sua dinâmica e sua lógica próprias, nós também somos capazes de dirigí-la. Afinal, no “palco” das nossas vidas, somos atores fundamentais do nosso drama e da nossa comédia.

Em Soul Kitchen, cada pequena escolha, cada gesto do protagonista leva a um novo evento. Que pode ser problemático ou uma solução. Algumas vezes na história – como na vida real -, Zinos apenas reage ao que os acontecimentos lhe apresentam. Na interação com as outras pessoas, isso Fatih Akin gosta de ressaltar, é que se faz a existência. E mais uma vez, o roteiro do diretor, escrito ao lado do ator principal desta produção, Adam Bousdoukos, revela uma gama curiosa de personagens interessantes, ricos em suas vivências e histórias e que, ao se encontrarem e desencontrarem ao longo do tempo, provocam no público compaixão, risadas legítimas e alguns momentos de surpresa.

Um dos aspectos que eu achei mais curiosos deste filme é a forma com que Fatih Akin ressalta os “acidentes de percurso” e/ou os encontros inusitados que seus personagens vão tendo pelo caminho. Metade das relações do protagonista são, digamos assim, “previsíveis” – cito, nesta situação, seus encontros com o irmão, a garçonete Lucia Faust (Anna Bederke), o construtor de barcos Sokrates (Demir Gökgöl), o barman Lutz (Lukas Gregorowicz) e a namorada de Zinos. Mas outras relações, que acabam sendo decisivas para a história, acabam se desenvolvendo “por acaso”, como ocorre com o ambicioso e trapaceiro Thomas Neumann, o chef de cozinha Shayn e a massagista Anna Mondstein (Dorka Gryllus). São estas “novas aquisições” na vida de Zinos que acabam modificando a sua realidade de forma fundamental.

Assim, no nosso dia a dia, também nos encontramos com pessoas que podem alterar definitivamente a nossa realidade. Mas para que isso aconteça – e o diretor deixa claro em dois momentos “apaixonados” do filme -, é preciso que as pessoas estejam abertas a tudo de revolucionário que novos encontros podem nos trazer. Nem que estas “novidades” surjam apenas para reavaliarmos o que tínhamos e para onde queremos ir. O que Soul Kitchen e outros filmes de Fatih Akin ressaltam é que não há interação, um encontro verdadeiro entre duas pessoas que não resulte em uma realidade modificada.

Outra característica marcante deste diretor alemão é o de não evitar a dor, a perda e as “desgraças” da vida. Para ele, tão importante quanto a alegria e o amor, é o aprendizado, as oportunidades e os efeitos que as tragédias, as perdas e os danos têm nas histórias das pessoas. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Em Soul Kitchen, algumas vezes, parece que Fatih Akin sente um certo prazer mórbido em fazer os seus personagens passarem por maus bocados. Mas o curioso deste filme, mais do que em Auf der Anderen Seite, é que o diretor e roteirista revela, acima de tudo, uma mensagem de esperança, de alegria. Afinal, Soul Kitchen é, acima de tudo, uma história de amor. Feita de percalços, dores, desafios, mas uma história em que o amor, a generosidade e as convicções do protagonista não se perdem nunca. Um filme essencialmente esperançoso.

NOTA: 9,8.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Se eu fosse levar em conta apenas as sensações que o filme me despertou, certamente lhe daria 10. Mas se eu fizesse isso, seria injusta com a produção anterior de Fatih Akin que comentei aqui no blog: Auf der Anderen Seite. Ainda que Soul Kitchen seja um filme maravilhoso, lindo e romântico – feito para cair no meu gosto atual 🙂 – ele não chega no patamar do filme de 2007 do diretor.

Impressionante a trilha sonora desta produção. Simplesmente perfeita, destas para comprar e ficar ouvindo repetidas vezes até cansar. O mesmo se pode dizer da direção de Fatih Akin. Em muitas cenas, a câmera do diretor parece estar dançando, em um frequente flerte com os personagens e suas histórias. Bastante ágil e focado sempre na interpretação dos atores, Akin demonstra um olhar apurado para as nuances do roteiro e da dinâmica estabelecida entre os intérpretes. Um belo trabalho, sem dúvida. Com a ajuda do experiente e brilhante diretor de fotografia Rainer Klausmann, Akin consegue cenas realmente memoráveis.

Interessado em ressaltar as cores, sons e valores das nossas sociedades contemporâneas, Fatih Akin desvela através das lentes de suas câmeras, mais uma vez, uma Alemanha moderna e, por isso mesmo, cheia de contradições. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Segundo a história de Soul Kitchen, homens ambiciosos e antiéticos como Thomas Neumann ostentam um alto nível social explorando pessoas no mercado imobiliário, na jogatina e com a prostituição. Enquanto isso, “sonhadores” como Zinos Kazantsakis lutam para sobreviver com os seus negócios próprios. Claro que esta é uma simplificação da realidade por parte do filme, ainda que ela deixe evidente uma certa crítica de Akin para estas realidades possíveis – e a Europa e sua “bolha imobiliária” que o diga. Em Soul Kitchen há mais pessoas “penando” para sobreviver do que pessoas “se dando bem”. Desde os empregados de Zinos que se contentam em ganhar pouco até Lutz e sua banda que só conseguem ensaiar devido ao bom coração do protagonista.

Interessantes as oportunidades de “mudança” que aparecem na vida de Zinos. (SPOILER – não leia… bem, você já sabe). Para começar, ele conhece ao brilhante e temperamental Shayn por “acidente”. Se ele tivesse chegado depois daquela cena de explosão do chef no restaurante chique em que a família de Nadine estava jantando, jamais teria pensado em indicar a Shayn de que ele poderia ajudá-lo na Soul Kitchen. Destaco um diálogo em especial destes dois personagens, quando o artista Shayn discute com o pragmático Zinos sobre o tipo de comida que era servido em seu restaurante. Desde logo um clássico sobre a necessidade versus a arte, o gosto do público versus a ousadia e a experimentação. Esse mesmo debate poderia ser levado para quase todos os campos em que mercado e talento parecem viver em eterno conflito. Se inicialmente o trabalho de Shayn é desprezado, depois esta realidade muda totalmente de figura por causa de um outro “estorvo” na vida do dono do restaurante: Lutz e sua banda. O público levado por eles, certa noite, acaba dando nova vida para Soul Kitchen.

Estes dois exemplos, tão bem explorados pelo filme, nos fazem pensar em outro sentido. (SPOILER – não leia se você não assistiu a Soul Kitchen). De que muitas vezes os encontros acidentais e as pessoas que aparentemente “não nos acrescentam muita coisa” ou, ainda, parecem mais nos atrapalhar do que nos ajudar, são aquelas que realmente poderão mudar um “estado das coisas” de maneira surpreendente. E positiva. Algumas vezes as oportunidades surgem inesperadamente, e o que precisamos fazer é aproveitá-las ao máximo. Zinos não apenas muda totalmente o perfil de seu restaurante, ganhando com isso em qualidade, público e vida, como também descobre parceiros fiéis para os seus propósitos e sonhos. Inevitavelmente, e isto parece nos contar Akin, quem faz o bem uma hora acaba recebendo o seu próprio quinhão.

Todos os atores de Soul Kitchen fazem um belo trabalho, mas não há como não ficar deslumbrada com Adam Bousdoukos. Ele é o protagonista e a alma desta produção. Está perfeito em cada cena. Demonstra, com exatidão, firmeza de caráter, convicções, valores e sensibilidade. Muito bom também “reencontrar” Moritz Bleibtreu, sempre muito engraçado. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). E as atrizes Anna Bederke e Dorka Gryllus fecham o “quarteto amoroso” de maneira convincente e interessante, equilibrando bem os tons clássicos de “machos” e “fêmeas” nesta produção. Gryllus, aliás, me pareceu familiar desde a primeira vez em que ela aparece em cena… e olhando em sua filmografia, descobri o porquê: assisti recentemente a um filme anterior da atriz, Svetat e Golyam i Spasenie Debne Otvsyakade (que comentei aqui).

Além dos aspectos técnicos já comentados, é necessário ressaltar o ótimo trabalho do editor Andrew Bird.

Pouco comentado pela crítica internacional até o momento – tanto que ele não tem um texto sequer linkado no Rotten Tomatoes -, Soul Kitchen ostenta uma nota mediana no site IMDb: 7,4. Achei pouco, mas tudo bem… é preciso respeitar a opinião do “grande público”.

Para os que ficaram curiosos para saber em que locais Soul Kitchen foi filmado, comento: esta produção foi rodada nas cidades alemãs de Bremen e Hamburgo.

Segundo o site IMDb, Soul Kitchen teria custado 4 milhões de euros e arrecadado, desta vez segundo o Box Office Mojo, quase US$ 17 milhões nas bilheterias mundiais. Conseguiu um pequeno lucro, na melhor das hipóteses – levando em conta que se gasta também com divulgação e tudo o mais. Espero que seja o suficiente para Akin continuar a sua bela carreira. Ele, aliás, está em fase de finalização de Garbage in the Garden of Eden, um documentário sobre moradores de um vilarejo turco no Mar Negro de Camburnu que decidem lutar contra medidas absurdas do governo local.

A carreira mundial de Soul Kitchen começou em setembro de 2009, quando o filme estreou no Festival de Veneza. Depois daquele evento, o filme de Akin participaria ainda de outros 12 festivais pelo mundo afora. Neste percurso, ele recebeu o Prêmio Especial do Júri de Veneza e foi considerado o Melhor Filme segundo o Young Cinema Award, também em Veneza. Além destes prêmios, Soul Kitchen foi indicado ainda a outros três.

CONCLUSÃO: Mais um filme envolvente, divertido, surpreendente e perfeito do diretor Fatih Akin. Voltando suas lentes, desta vez, para ambientes pouco ortodoxos de uma Alemanha moderna e pulsante, o diretor e roteirista retoma alguns de seus temas mais queridos. Entre outros, os encontros e desencontros que as pessoas experimentam em suas vidas, e o que pequenas decisões podem acarretar a médio ou longo prazo. Sem evitar a dor, as perdas e os danos, Soul Kitchen se revela uma história saborosa, cheia de personagens e de acontecimentos paralelos. No fim das contas, é uma história sobre superação e o amor. Ainda que não conheça saídas óbvias para estes temas. Ressaltando, nas mesmas medidas, a culinária, a música e as relações humanas, Soul Kitchen entra para a lista das grandes produções do cinema alemão contemporâneo. Sem dúvida, vale ser visto.

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Kick-Ass – Quebrando Tudo

Pense em um filme violento. Ao estilo de Kill Bill, mas mais divertido. E com uma aposta marcante em três elementos certeiros para cair no gosto dos jovens: quadrinhos, internet e sonzeira. Kick-Ass mistura tudo isso em uma produção impecável. Inteligente no roteiro e na forma com que a história é conduzida, este filme surpreende pela astúcia e pela violência. Ao mesmo tempo em que faz refletir – ainda que vagamente – sobre os fenômenos de mídia e os produtos de consumo que conduzem e inspiram atitudes das massas. Ironizando muitos conceitos e chavões do gênero super-heróis, Kick-Ass traz boas ideias para um mercado um tanto que saturado.

A HISTÓRIA: Um homem fantasiado olha a cidade de Nova York do alto de um prédio. Enquanto ele se prepara para pular, o narrador comenta sobre a sua vocação para se tornar um super-herói. E se pergunta porque ninguém nunca fez isso antes do que ele, apesar de todas as referências de quadrinhos, filmes e seriados. O narrador ainda ironiza o tédio da vida comum e todas as promessas que um homem fantasiado representam para a quebra desta rotina. O homem fantasiado se atira no espaço e morre na queda. Em seguida descobrimos que o narrador, o adolescente Dave Lizewski (Aaron Johnson), não era aquele homem suicida. A história então volta seis meses para contar como o jovem Dave se transformou em Kick-Ass, um “super-herói” que se acostuma a apanhar e que, através de suas convicções, encontra “justiceiros” de verdade: Hit-Girl (Chloe Moretz) e Big Daddy (Nicolas Cage).

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Kick-Ass): A produção dirigida por Matthew Vaughn começa colocando o dedo na ferida. Em poucos minutos, ela questiona o fascínio da cultura pop para os jovens – e também expõe algo que sempre rende notícias no noticiário: atos extremos de pessoas que tem problemas psicológicos e que não recebem assistência devida nos Estados Unidos. O roteiro de Vaughn e Jane Goldman, baseado nos quadrinhos de Mark Millar e John Romita Jr., também ironiza a figura do super-herói como “antídoto” para o cidadão comum e sua vida enfadonha. Começa, por tudo isso, muito bem. Pena que, pouco a pouco, o filme vá perdendo a sua ironia e capacidade crítica para mergulhar, perto do final, apenas na adrenalina que ele mesmo questionava ao princípio.

Não sei vocês, mas eu esperava realmente uma grande dose de humor e ironia neste filme. O que me surpreendeu foi a alta dose de violência que ele apresentou. Claro que depois de Kill Bill e tantos outros filmes, ninguém mais se assusta com cenas de pancadaria e de assassinatos em série. E a verdade é que, tecnicamente falando, Kick-Ass é perfeito na forma com que as sequências foram filmadas, editadas e finalizadas. Um trabalho primoroso e de rigor técnico de Matthew Vaughn. Se destaca, nesta produção, também o estilo com que ela é narrada – reproduzindo, como outros filmes fizeram antes, a dinâmica e os traços característicos dos quadros de gibis em determinados pontos da história.

O fato do protagonista ser um adolescente comum, um “loser” padrão do sistema de ensino estadunidense, serve de senha fundamental para que o filme caia no gosto popular. Afinal, quantos garotos não irão se identificar com Dave? E mesmo que eles não consigam se colocar exatamente na pele do personagem, certamente eles irão se lembrar de algum “nerd” e/ou “esquisito” da escola. Seja pelo protagonista ou pelo restante da “fauna escolar” retratada em Kick-Ass, o objetivo de tornar o filme “identificável” para o grande público foi alcançado. Agora, para tornar ele interessante para mais pessoas, basta acrescentar cenas de pura adrenalina, violência e alguma dose de ironia aqui e ali.

Por tudo isso, e por mais que pareça contraditório, Kick-Ass é inovador e ao mesmo tempo segue fórmulas já desbravadas pelo gênero. Ele avança ao fazer o exercício de colocar a cultura pop – do qual o cinema também faz parte – frente a um espelho bem iluminado. Os tão debatidos “efeitos malévolos” de uma cultura que dá pouco espaço para a invenção e que aposta na padronização entram em cena.

A novidade no discurso e o curioso de Kick-Ass é a forma com que a internet joga um papel fundamental neste processo. Dave só consegue se tornar “fenômeno de mídia” graças aos vídeos que a galera que assistiu a sua ação tresloucada contra três bandidos de verdade colocaram no Youtube. E a partir do sucesso que estes vídeos fizeram na internet, Kick-Ass passou a ser notícia nos canais de televisão e, consequentemente, virou febre nacional. Algo bastante comum nos nossos dias, quando a “imprensa tradicional” bebe descaradamente da inventividade e da cultura do “faça você mesmo” difundida pela  internet. Neste ponto, esta produção ganha muitos pontos ao debruçar-se sobre o efeito-dominó que um fenômeno de massas pode despertar no público – vide o personagem de Red Mist (Christopher Mintz-Plasse). Outros filmes já esboçaram ironias a respeito, mas poucos trataram o assunto de forma tão natural e “legítima” quanto Kick-Ass.

Mas se esta produção avança nestes questionamentos e debates, ela também repete fórmulas ao optar, em certo momento, por um modelo clássico de “filme de heróis”. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Afinal, existe fórmula mais clássica do que a do “policial boa gente que combatia o crime até um certo vilão estereotipado lhe ferrar a vida e, depois dele perder quase tudo, passar o pão que o diabo amassou na prisão e tudo o mais, ele resolver se vingar”? Não, acho que não. Pois este é o resumo por trás da existência de Big Daddy – o bacana do filme é que, justamente no momento de contar esta “origem” do herói, eles optaram por fazê-lo exclusivamente através de traços de quadrinhos. Sem dúvida, ao fazer esta escolha, os produtores estavam afirmando que “ok, nós sabemos até que ponto repetimos fórmulas e não nos importamos com isso”. Uma decisão inteligente.

A escolha de uma garota de 11 anos para ser a verdadeira estrela do filme também é algo que Hollywood sabe que funciona – vide Little Miss Sunshine e tantas outras produções recentes. (SPOILER – não leia se você não assistiu a Kick-Ass). Além disso, a partir do momento em que a produção deixa de questionar e ironizar a figura do super-herói e o fascínio que os fenômenos de mídia desempenham na vida dos jovens, escolhendo simplesmente a defesa destes “heróis solitários”, a história entra em contradição. Afinal, ela é uma ironia, uma sátira destes filmes e personagens, ou uma forma de homenageá-los? Talvez Kick-Ass seja as duas coisas. O que revelaria ainda mais a sua “consonância” com os tempos atuais, classificados por Zygmunt Baumann como tempos de uma “modernidade líquida”. Sem dúvida, por tudo isso, Kick-Ass é um sintoma e um produto do nosso tempo. E, definitivamente, por todos os seus acertos e contradições, desde já, um clássico.

NOTA: 9,2.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Gostei muito do desempenho do jovem Aaron Johnson. Ele tem carisma, é “boa pinta” (alguém ainda fala isso? tá, ele é gatinho, hehehehehe), consegue equilibrar bem as idéias de rapaz desastrado com a altivez de um sujeito corajoso e determinado. Enfim, está perfeito. Fiquei feliz também com a volta a um bom papel do Nicolas Cage. A primeira cena dele com a perfeita Chloe Moretz é uma autoironia para papéis seus anteriores – especialmente 8MM e Snake Eyes. Sem dúvida um achado colocar estes dois atores fazendo uma dupla em Kick-Ass. Chloe Moretz, por sua vez, comprova que vem caminhando com passos largos em uma carreira em crescimento. Depois de The Eye, ela fez um trabalho ótimo em (500) Days of Summer e, agora, em Kick-Ass. Este ano, a atriz está envolvida em nada menos que cinco projetos, com destaque para o thriller Let Me In.

Como qualquer garoto “nerd” e/ou desastrado, Dave tem que ser acompanhado por amigos que estão sempre “testando” e ironizando o nosso “herói”. Em Kick-Ass, estes papéis são interpretados por Clark Duke (Marty) e Evan Peters (Todd). Seguindo a linha de “filmes juvenis”, a atriz que interpreta a garota cobiçada pelo protagonista é Lyndsy Fonseca (Katie Deauxma). Garrett M. Brown faz um pequeno papel como o pai de Kick-Ass, Mr. Liewski, e o excelente Mark Strong interpreta o super-vilão Frank D’Amico.

Vale a pena citar algumas pessoas envolvidas na parte técnica do filme e que acabam sendo fundamentais para que ele funcione bem: Ben Davis como diretor de fotografia; Eddie Hamilton, Jon Harris e Pietro Scalia no trabalho com a edição; Russell De Rozario no design de produção; Sammy Sheldon no divertido figurino; Joe Howard, John King e Sarah Stuart na direção de arte e, finalizando (mas tão importante ou mais que todos os pontos anteriores), Marius De Vries, Ilan Eshkeri, Henry Jackman e John Murphy na trilha sonora.

Fiquei curiosa para saber mais sobre os quadrinhos que deram origem a esse filme. Ou seja: admito que não li ao original Kick-Ass. Procurando críticas a respeito dos quadrinhos, encontrei esta resenha que achei interessante. Zak Edwards, do Comic Book Bin pondera que Kick-Ass segue a trilha de outros gibis lançados anteriores ao buscar o realismo para as histórias de super-heróis – ele cita, inclusive, Watchmen como exemplo. Mas diferente das tentativas anteriores, segundo Edwards, Kick-Ass realmente se aproxima do modelo do que seria um sujeito, nos dias atuais, tentando ser um super-herói. Pelo que seu texto comenta, o gibi original mergulha na oralidade da juventude e nos hábitos de um garoto que vive lendo gibis, jogando videogame, assistindo a Scrubs e escutando música – especialmente Stereophonics. Resumindo: um guri normal dos dias atuais. Gostei da expressão do “ordinário extraordinário”. Talvez ela resuma bem tudo o que Kick-Ass queira significar.

Claro que, como toda obra adaptada, o gibi original tem muito mais “espaço” para se debruçar sobre o cotidiano e a vida do protagonista do que o filme nele baseado. Interessante que, segundo o texto de Edwards, o que liga todos os personagens de Kick-Ass é o fato de todos serem “muito normais”. Um contraponto a isto acaba sendo – e aí não sei como o gibi trata estes personagens – as figuras de Big Daddy e Hit-Girl. Para as pessoas que ficaram interessadas em saber mais sobre o gibi, nesta mesma página há links para comentários de outros números do Kick-Ass.

Neste outro texto, por exemplo, o mesmo Edwards comentava que Kick-Ass, em seu terceiro número, se firmava como a “sensação do comic indie” exceto por um problema: pelo gibi ser publicado pela Marvel. 🙂 Para o especialista em quadrinhos, Kick-Ass apresentava uma escrita “violenta, polêmica, social e politicamente conscientes” em um pacote sem censuras. Interessante que, em seu texto, Edwards enfatiza bastante a violência impressa pelos quadrinhos escritos por Mark Millar e com arte de John Romita Jr. Finalmente, nesta outra resenha, Hervé St-Louis comenta o oitavo e último número da minissérie Kick-Ass. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Curioso que a dupla Millar e Romita Jr. levaram oito edições para contar a história da transformação de Dave, a aparição dos outros heróis e a morte de Big Daddy – o que o filme leva 117 minutos para narrar.

Interessante este vídeo feito pela MTV que compara sequências dos quadrinhos com algumas que acabaram entrando no filme.

Foi confirmada, para ser lançado em 2012, a sequência de Kick-Ass. O filme se chamará Kick-Ass 2: Balls to the Wall e será dirigido, novamente, por Matthew Vaughn, com roteiro de Jane Godman e do próprio diretor. Agora é esperar para ver – ainda que eu sempre fique com o pé atrás com este tipo de sequência.

Achei interessante este texto de Beth Davies-Stofka que afirma que não sabe dizer se Kick-Ass é ou não um bom filme. O que a crítica afirma é que ele não se arrasta nunca, e que ela se sentiu permanentemente golpeada por “cores, explosões, sangue, cérebros, surpresas, música, humor e linguagem” interessantes. Davies-Stofka também resume bem a produção ao classificá-la como “divertida e surpreendente”. Kick-Ass é realmente isso – em grande parte do tempo. Também importante a sua observação de que ele deve ser visto por adultos – ou, pelo menos, pessoas com mais de 15 anos. Ela está certa quanto a isso – porque ele é, algumas vezes, violento demais.

Ah sim, e antes que alguém comente que é um absurdo uma criança como a Mindy Macready ser mostrada da forma com que ela é mostrada em Kick-Ass – ou seja, empunhando variados tipos de arma, matando gente a dar com o rodo e apanhando muito também -, devo comentar: gente, isso é apenas um filme! E uma produção, diga-se, que toca o dedo em várias feridas da nossa sociedade. Ou seja: Kick-Ass, em momento algum, quer inspirar as pessoas a fazerem o mesmo. Pelo contrário. Se o filme quisesse fazer algo além de divertir – o que eu duvido -, ele faria é as pessoas questionarem o tipo de sociedade extremamente manipulável, violenta e cheia de exemplos ruins nós temos. Mas, francamente? Ele é um filme pipoca, ou seja, feito para surpreender, cair no gosto popular e divertir. Não pretende mostrar crianças vitimizadas, que perderam a infância pela loucura de um pai vingador e coisas do gênero. Não, não…

Kick-Ass caiu mais no gosto do público do que da crítica – como era esperado, aliás. Segundo as pessoas que votam no site IMDb, o filme merece a nota 8,2. Os críticos que tem seus textos linkados no Rotten Tomatoes, por sua vez, dedicaram 169 críticas positivas e 53 negativas para a produção – o que lhe garante uma aprovação de 76% e uma nota média 7.  Nada mal até, levando em conta o padrão do site.

Fiquei surpresa com os valores gastos com a produção de Kick-Ass: US$ 28 milhões. Para um filme com tantos efeitos especiais, explosões e bons atores, achei pouco – em relação a outros títulos. Até o dia 13 de junho, apenas nos Estados Unidos, esta produção havia arrecadado quase US$ 47,8 milhões. Vai lucrar bem, não há dúvidas.

CONCLUSÃO: Um filme que é puro entretenimento e, de quebra, um sinal do nosso tempo. Ressaltando e ironizando os fenômenos de massa criados pela internet e difundidos pela “imprensa tradicional”, Kick-Ass questiona e submerge, na mesma medida, em elementos da cultura pop. Feita para cair no gosto do grande público, especialmente dos jovens, esta produção surpreende pela alta carga de violência – mais até do que por suas ironias, humor e/ou questionamentos. Imerso na realidade juvenil, Kick-Ass também trata de temas bastante adultos – como depressão, vingança, desestruturação familiar e criminalidade. Com um ritmo perfeito e bastante equilibrado e uma trilha sonora impecável, condizente com a edição do filme, Kick-Ass guarda contradições importantes na condução de seu roteiro. Ele visivelmente passa de momentos irônicos e um tanto que questionadores para a escolha de seguir um modelo clássico de filmes de super-heróis. Mas justamente as suas contradições que o tornam um filme tão atual e marcante. Entretenimento cheio de violência e uma boa dose de humor e ironia. Planejado, em outras palavras, para ser um sucesso. Politicamente incorreto – afinal, ele coloca uma menina de 11 anos usando todo o tipo de arma e matando uma porrada de gente -, muitas vezes ousado e algumas vezes previsível, certamente se tornará um filme “cult”. Ainda bem que, desta vez, com alguns méritos.

Cold Souls – Almas à Venda

Um filme que começa citando Descartes não pode ser ruim. Ainda mais quando a citação é um grande equívoco e, seu foco, seja a alma humana. Depois desta citação, Cold Souls mergulha nos ensaios de uma peça de teatro. Descartes, ironias sobre a alma e a interpretação de um ator integram este filme que, ao mesmo tempo que exige senso de humor, caminha a passos largos para não agradar ao “grande público”. Afinal, quem quer saber de filosofia, das dores da alma, do grande “mercado de produtos” em que nos convertemos e, de quebra, sobre o fazer artístico artesanal hoje em dia? Poucos, claro. Se você é um destes poucos, provavelmente vai achar este filme, no mínimo, interessante.

A HISTÓRIA: Um ator (Paul Giamatti) está entregue ao seu personagem amargurado, em conflito, desesperado. A câmera se distancia um pouco e percebemos que ele está em um teatro, ensaiando a sua próxima peça. Contaminado pelo personagem, o ator não acredita em seu próprio talento, em sua capacidade para levar até o final o seu trabalho atual. O diretor de teatro (Michael Tucker) deixa claro a sua preocupação com o desempenho do protagonista. Em um certo dia, o agente de Paul, Max, comenta com ele sobre  um artigo na revista The New Yorker que trata de um serviço de “depósito de almas”. Mesmo descrente, Paul busca a empresa que promete aliviar as angústias humanas retirando a alma das pessoas. Nesta empresa, ele acaba conhecendo a misteriosa russa Nina (Dina Korzun).

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que continue a ler apenas aqueles que já assistiram a Cold Souls): Logo no início do filme o diretor de teatro decepcionado com Paul Giamatti diz uma frase que resume como Cold Souls deve ser encarado: “Isso não é uma tragédia. Cadê o seu senso de humor”. Por mais que o filme com direção e roteiro de Sophie Barthes tenha uma grande carga de “seriedade”, ironia e, até podemos dizer, crítica ácida, nada disso é apresentado nestas embalagens. Não. O humor perpassa o filme do início ao fim, exigindo do espectador um senso de humor constante, assim como atenção para os detalhes de uma produção um tanto “tresloucada” que leva até as últimas consequências os aspectos de uma sociedade que tenta comercializar de tudo, colocar valores em caixas que podem ser encontradas em lojas de departamento e que valoriza o “estar bem” e “leve” muito mais do que o conhecimento ou as dificuldades que nos fazem crescer.

Alguns, ao assistirem Cold Souls, certamente irão se lembrar de Being John Malkovich e Adaptation. A ligação entre os filmes nasce pela “brincadeira” com que os três fazem sobre o autoconhecimento, o indivíduo, suas crises e, claro, a figura de um ator conhecido brincando com sua própria imagem. Mas as semelhanças terminam por aí. Cold Souls dá passos interessantes em direções que os filmes de Spike Jonze não haviam seguido. Para começar, a produção de Sophie Barthes coloca em evidência os bastidores de uma peça de teatro. E não qualquer uma, mas a densa obra russa Tio Vânia, de Anton Tchekhov, uma peça existencialista que reflete sobre o que fazemos com o nosso tempo, com nossas relações, com nossa existência.

Neste texto sobre uma montagem da peça feita por Celso Frateschi, destaco a reflexão que Tio Vânia faz sobre questões como as de “qual é a alma do nosso tempo e qual é o tempo de nossas almas?”. O interessante é a forma com que Cold Souls trata estas questões com o mesmo “humor, inteligência, ironia e drama” com que a própria peça Tio Vânia trabalha. Essa característica me faz lembrar o ótimo texto de Michael Cunningham, que posteriormente renderia o filme The Hours, e que “recria” os valores do romance Mrs. Dalloway, de Virginia Woolf. Ok, mas vamos deixar de citar referências, porque daí não paro mais. 🙂

Se fizéssemos as perguntas anteriores sobre a “alma do nosso tempo” e o “tempo de nossas almas”, que respostas encontraríamos? Esta é uma das premissas de Cold Souls. E as respostas não são das melhores. Porque uma das almas – para não dizer a única – do nosso tempo é justamente a mercantilização de tudo. Amor, liberdade, paz de espírito, praticamente tudo que pode ser classificado como importante virou, de diferentes maneiras, objetos de consumo (leia-se de compra e venda). A publicidade, a imprensa, as empresas e as pessoas compram e vendem estes conceitos, idéias, sentimentos. Como se eles realmente pudessem ser comercializados. Uma reflexão sobre isto é o que propõe Sophie Barthes. Mas de forma exagerada, cômica, apostando que as críticas e reflexões chegam mais longe através da comédia.

Apostando na “alma do nosso tempo” como a do mercado regulando tudo – de valores, sentimentos, até pessoas – Cold Souls mostra um tipo de negócio que aposta na frase de Descartes. De que nossa alma está escondida em uma pequena parte do nosso cérebro. Se ela pode ser identificada, pode ser extirpada. E aí começa a comédia. “Você sente que sua alma está lhe incomodando, lhe deixando pesado(a)? Pois bem, utilize os nossos serviços e se livre de sua alma.” Vamos combinar que essa ironia é das finas! E o mais bacana do filme é que os interessados não apenas podem se livrar de suas almas “pesadas” mas, caso se sentirem “muito vazios” sem alma alguma, podem adotar a de uma outra pessoa por um tempo. 🙂

A ironia disto chega a pontos extremos quando oferecem para Paul Giamatti a alma de um “poeta ou ator” russo. Quem sabe, assim, ele não consegue mergulhar com muito mais profundidade em Tio Vânia? hahahahahahaha. Brilhante. A idéia do “mercador de almas” ou do “homem que vende a sua alma ao diabo para conseguir um favor” passam pela lembrança, ainda que o filme não toque, em momento algum, em questões religiosas. Não é preciso. Sua intenção não é tratar das questões do “Céu”, mas olhar com atenção para as terrenas.

Além das reflexões e ironias anteriores, Cold Souls tem tempo para refletir sobre as desigualdades que existem em um tempo em que o mercado domina as pessoas. Desta maneira, é  possível perceber uma diferença gigantesca entre uma ponta do negócio, aquela das pessoas que tem dinheiro para gastar no caríssimo serviço de “depósito de almas”, e aquelas que estão na outra ponta do negócio, ou seja, as que vendem as suas almas a custos baixos para sobreviver. Eis o drama de Cold Souls. E ele não é leve – ainda que nunca seja abordado com grandes discursos ou comoção. Mas incomoda, certamente, todas as vezes que Nina aparece buscando, na colapsada Rússia, pessoas que, por necessidade, entregam suas almas para exploradores.

Como todo negócio absurdo, este do “depósito de almas” tem os seus furos e seus “efeitos colaterais”. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Ficar sem a própria alma, Paul Giamatti e outros clientes do serviço vão descobrir, tem os seus “problemas”. A pessoa passa, digamos assim, a não sentir nada. Está leve, claro, mas se torna incapaz de sentir amor, tesão, qualquer “coisa que se sinta”, como diria certa música. A saída? Alugar uma outra alma – por que você não vai querer a sua alma “pesada” de volta, não é mesmo? E daí vem outro aspecto curioso e, eu diria, o mais bonito do filme: “adotar” a alma de outra pessoa não é tão simples quanto encher uma caixa de sapatos de papéis. Não.

(SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). A “mula” Nina, por exemplo, está praticamente incapacitada de obter a sua alma de volta. Não apenas porque ela não tem recursos para isso. Mas porque – e aí está a beleza desta idéia -, ao carregar tantas almas para cima e para baixo (leia-se da “pobre” Rússia para o “rico” Estados Unidos), ela foi ocupando o espaço que era da sua com a dos outros. Porque quando você assume a alma de outra pessoa e depois se livra dela, fica com uma pequena parte contigo. Que bonito! Isso acontece nos encontros da vida. Quando duas pessoas se encontram, se identificam, conhecem uma a alma da outra, ao partir elas não saem apenas com o que tinham antes, mas com um bocado do que a outra pessoa tinha/tem. Desta forma, Cold Souls termina de uma maneira poética, bonita, com dois “estranhos” se identificando porque souberam partilhar suas almas – Nina, literalmente, transportou a alma do ator; Giamatti, figurativamente, porque conheceu a Nina.

NOTA: 9.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Paul Giamatti é um sujeito de sorte. Ele teve algumas produções, em sua carreira, feitas sob medida para que ele mostrasse o seu talento como intérprete. Cold Souls é uma destas. O filme inteiro é feito para ele brilhar. Afinal, na órbita de seu personagem é que todos os outros intérpretes giram. Tragicômico, angustiado, divertido, Paul Giamatti caminha com suavidade pelos diferentes estágios da produção. Sem dúvida mais um grande trabalho deste ator com 29 prêmios no currículo.

Ainda que Cold Souls é um filme centrado na interpretação de Paul Giamatti, esta produção abriga alguns atores importantes em papéis secundários. O primeiro a se destacar, da lista, é David Strathairn como Dr. Flintstein, o homem responsável por guardar a alma do protagonista – e de quem mais se interessar pelos serviços da empresa para a qual ele trabalha. Lauren Ambrose, conhecida pela série Sex Feet Under, interpreta a Stephanie, a secretária e recepcionista da empresa de Dr. Flinststein. Emily Watson interpreta a Claire, esposa de Giamatti, em um papel muito pequeno e quase “sem importância” na história. Fechando a lista de papéis e intérpretes mais importantes, vale citar Armand Schultz como Astrov, o russo responsável por enviar almas ilegalmente para os Estados Unidos, e sua namorada, Sveta, interpretada por Katheryn Winnick.

O casal Astrov e Sveta, aliás, rende pelo menos uma bela ironia neste filme. (SPOILER – não leia se você ainda não assistiu a Cold Souls). Lindíssima, aspirante a atriz, Sveta acredita que irá melhorar a sua “performance” se conseguir a alma de um importante ator dos Estados Unidos. Seu sonho é ter a alma de um Al Pacino, Kevin Spacey, George Clooney, Robert Redford, entre outros. Mas nenhuma mulher. hahahahahahaha. Que maldade! 🙂 Interessante também a forma com que ela passa a agir quando acredita que está com a alma de um destes… no melhor estilo efeito placebo, Sveta se sente muito mais capaz de atuar do que antes. Curiosos os efeitos que a autosugestão podem provocar nas pessoas.

A direção de Sophie Barthes é envolvente e precisa. A diretora francesa sabe a hora exata de distanciar ou aproximar a sua câmera dos personagens. Vale destacar ainda a direção de fotografia essencialmente luminosa de Andrij Parekh e a trilha sonora ajustada de Dickon Hinchliffe. Na parte dos laboratórios nos Estados Unidos e o contraste com a realidade russa, foi fundamental o trabalho do design de produção de Beth Mickle e a direção de arte de Michael Ahern.

Especialmente cômico o momento em que Giamatti descobre que a sua alma está sendo usado por Sveta para interpretar uma personagem em uma novela (“one fantastic soap”, como disse Astrov). hahahahahahahaha. Quando ele diz que sua alma pode ser arruinada por algo assim, sou obrigada a concordar, pensando em muitas novelas do Brasil e de outros países, que de tão ruins chegam a doer na alma – do cidadão comum, imagina de quem tem algum talento interpretativo. 🙂

Gostei da atriz Dina Korzun. Ela é muito segura de seu papel e mostra bastante suavidade na interpretação. Ainda que, muitas vezes, não consegui deixar de pensar que ela seria perfeita no filme Blade Runner. hehehehehehe.

Cold Souls estreou em janeiro do ano passado no Festival de Sundance. Depois, em maio, ele foi comercializado no mercado paralelo ao Festival de Cannes. Até o final do ano, participou ainda de outros 15 festivais, incluindo os do Rio e de São Paulo. Nesta sua trajetória, conseguiu um prêmio – melhor ator para Paul Giamatti no Festival Karlovy Vary – e foi nomeado ainda a outros sete prêmios.

Para quem ficou curioso, este filme foi filmado em Nova York e em São Petersburgo, na Rússia.

A produção não foi bem nas bilheterias. Apenas nos Estados Unidos ela arrecadou, até novembro de 2009, pouco mais de US$ 903 mil. Pouco, muito pouco para um filme deste porte – porque, ainda que tenha “cara” de independente, ele certamente consumiu uma grande quantidade de dinheiro por envolver os nomes que ele envolve, no elenco e na produção, e por ter sido filmado parte em Nova York e parte na Rússia.

Os usuários do site IMDb deram a nota 6,6 para o filme. Os críticos que tem textos linkados no Rotten Tomatoes, por sua vez, foram um pouco mais generosos: dedicaram 81 críticas positivas e apenas 27 negativas para a produção, o que lhe garantiu uma aprovação de 75% (ainda que a nota média também tenha sido baixa: 6,4).

O crítico Roger Moore, do Orlando Sentinel, escreveu neste texto que Cold Souls é um Eternal Sunshine of the Spotless Mind filtrado por uma visão da Rússia. “Ele é cômico, sim, mas taciturno e pensativo, também, uma valsa de inverno sobre representação, o comércio ilegal e a metafísica”, escreveu Moore. O crítico destaca a entrega de Giamatti e as cenas de inverno em St. Petersburg – cenas estas que, segundo Moore, tem uma beleza brutal da era pós-industrial soviética. Para ele, Cold Souls é uma inteligente e obscura comédia sobre a psique russa e o esforço de um norte-americano em entrar nela. Diria que esta é uma forma de enxergar, ainda que um tanto “limitada”. De qualquer forma, Moore deu quatro de cinco estrelas possíveis para o filme.

Neste outro texto, a crítica Christy Lemire, da Associated Press, começa dizendo que as pessoas estão preocupadas demais com a importância da alma, a ponto dela ser tema de uma série de programas de Oprah Winfrey (hahahahahaha). E afirma que Cold Souls trabalha com uma premissa absurda, mas de forma inspirada. Como eu observei anteriormente, Lemire também comenta que Cold Souls explora algumas questões sobre identidade, memória e realidade que se mostraram bem frequentes nos roteiros de Charlie Kaufman. “David Strathairn é friamente divertido como o inexpressivo Dr. Flintstein, que administra o local (depósito de almas) que se parece com um spa diurno concebido por Stanley Kubrick”, escreveu Lemire. Achei perfeita esta leitura. 🙂

Destaco o momento do texto em que Lemire comenta que o “excesso de resíduos” de Nina a deixa tão confusa, sobre a sua própria identidade, quanto Giamatti está com a sua. A crítica destaca ainda a atuação de Katheryn Winnick e a “fotografia de sonho” de Andrij Parekh, destacando as cenas em St. Petersburg que são, ao mesmo tempo, “leves e desoladas”. Lemire ainda comenta que os temas e as imagens de Cold Souls tornam o filme um “pouco lento”, ainda que seja “revigorante” o fato de que o filme faz as pessoas realmente pensarem.

CONCLUSÃO: Um filme divertido, extremamente irônico e, ao mesmo tempo, crítico e com certa carga dramática. Cold Souls aposta em situações absurdas para tratar da “alma do nosso tempo”. Em outras palavras, questiona a vocação das nossas sociedades – cada vez mais padronizadas – em mercantilizar a tudo e a todos. Seguindo uma premissa de Descartes, de que a alma seria apenas uma “pequena glândula” no nosso cérebro, o filme joga com a idéia de um serviço de negócios baseado na alma – mas sem lidar, para isso, com conceitos religiosos. Bem dirigido e com todo o espaço para uma grande atuação de Paul Giamatti, Cold Souls é uma destas histórias que provoca risada franca para quem tem senso de humor. E reflexão para aqueles que estão atentos a certos “desvios” tão próprios de nosso tempo. Mesmo tendo a ironia e a crítica como pilares principais, o filme ainda tem espaço para uma bonita reflexão sobre os encontros que a vida propicia. Encontros estes que possibilitam que “troquemos” nossas almas de forma simbólica. Criativo, irônico e capaz de valorizar o trabalho artístico (especialmente o teatro), Cold Souls é destas produções recomendadas (talvez não para todos, mas para muitos).

Chloe – O Preço da Traição

Um filme envolvente, provocante, ousado e, até certo ponto, atrativo. Chloe joga com as palavras e a imagem de forma exata, bem calculada, mas sofre da síndrome de muitas outras produções: derrapa em saídas pouco convincentes perto do final. E o pior: de maneira ligeira e um bocado descuidada. Ainda assim, não deixa de ser um filme interessante por conseguir mexer com certa criatividade em temas como a fidelidade no casamento, crise matrimonial, desejos “proibidos”, bissexualidade e, claro, a libido. Mais conhecido por apresentar uma cena ousada entre as atrizes Julianne Moore e Amanda Seyfried, Chloe tem a sorte de contar com uma direção ajustada e com atores afinados, ainda que seu roteiro deixe a desejar e culmine em um final deplorável.

A HISTÓRIA: Uma garota seminua, de costas para o espectador, sentada em uma cadeira, começa a se vestir. De frente para um espelho envelhecido, ela não parece ter nenhuma pressa. Essa garota começa a dizer que, em sua profissão, as palavras são tão importantes quanto seus atos. Seus gestos lentos, enfocados pela câmera, revelam tanto juventude quanto beleza. Garota de programa, Chloe (Amanda Seyfried) está acostumada a se moldar para cair nos gostos e fantasias de seus clientes. Observada de forma displicente pela médica Catherine Stewart (Julianne Moore), Chloe logo será contratada para colocar à prova a fidelidade do marido de Catherine, o professor universitário David (Liam Neeson).

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Chloe): A primeira idéia vendida por este filme é que as aparências enganam. E que frases de efeito podem cair no colo do espectador a qualquer momento. Logo nas primeiras linhas, a protagonista nos fala sobre a força das palavras para seduzir. E serão elas, assim como a atuação de uma perspicaz Amanda Seyfried, que irão mexer com a libido do espectador por boa parte desta história.

Achei curiosas as “apresentações” das duas personagens principais de Chloe. Depois daquela introdução sobre o uso das “palavras” para seduzir, ouvimos Julianne Moore, no papel da ginecologista Catherine Stewart, ensinar que o “orgasmo é apenas uma série de contrações musculares”. Sim, o sexo, o desejo, o prazer e a libido são os temas principais desta história. Ainda que a frase dita por Catherine pareça um tanto “deslocada” – assim como várias outras do roteiro -, sem dúvida ela está ali por uma razão: para justificar a idéia central desta história. Por que, por mais que Chloe pareça um filme ousado, na verdade ele é bastante conservador.

O casal Catherine e David vivem uma típica história de crise conjugal. Sua relação, todos os minutos do filme insistem em reafirmar, esfriou. A forma com que este esfriamento é abordado chega a ser exagerada. Afinal, por mais que eles estejam em um momento glacial, difícil acreditar que não haveria momento algum de aproximação entre eles. Mas ok, tudo deve ser potencializado para que o roteiro de Erin Cressilda Wilson, baseado no texto original de Anne Fontaine para o filme francês Nathalie… (de 2003, estrelado por Emmanuelle Béart e Gérard Depardieu), possa caminhar em terrenos “confortáveis” e extremistas. Segundo Hollywood, um filme bom é aquele que não cria muitas dúvidas na cabeça do espectador.

A era glacial para os Stewart tem a ver com a dificuldade que ambos tem em lidar com o filho adolescente Michael (Max Thieriot). Freud e outros psicanalistas explicariam bem a relação vista na telona envolvendo pai, mãe e filho. Mas deixemos as observações psicológicas para lá desta vez – até porque a idéia de atração/repulsa entre mãe e filho praticamente não é explorada por esta história. O que realmente interessa é a insegurança de Catherine em relação ao marido e o que ela resolve fazer para “resolver” essa angústia crescente alimentada pelas dúvidas da infidelidade.

Por grande parte do filme, a forma com que se desenvolve a aproximação de Chloe de Catherine e, depois, de David, prende e excita o espectador. O uso das palavras é fundamental neste processo – tanto que os momentos em que os atos deixam de ser “narrados” para serem “mostrados” tornam o filme um pouco menos interessante. Como quando lemos um livro, a força da imaginação ao escutar as histórias de Chloe as torna muito mais interessantes do que a visualização pura e “simples” do que está “acontecendo”.

Enquanto Catherine sofre com a indiferença do marido e com as dúvidas cada vez maiores sobre se ela está sendo traída, Michael desafia a autoridade da mãe. Catherine, em outras palavras, parece estar na pior fase da sua vida – se sente rejeitada, desprezada, um verdadeiro lixo que esqueceram de colocar para o caminhão levar. Chloe, muito inteligente, cuida para que o primeiro contato que as duas vão ter, pessoalmente, seja feito de maneira que elas se “reconheçam”. Mesmo com todas as diferenças que as separam, o encontro delas no banheiro revela duas mulheres “tristes” e “desprezadas pelos homens”.

Julianne Moore convence como uma mulher naturalmente direta que, ao sentir-se estranhamente insegura, revela medo e insegurança na hora de contratar uma garota de programa para testar o marido. Amanda Seyfried, por sua vez, rouba a cena como uma garota experiente e conhecedora do “gênero humano” na mesma medida em que sabe destilar “inocência” e vulnerabilidade sempre que necessário. Em outras palavras, ela está perfeita. Até certo ponto, Chloe faz lembrar a The Girlfriend Experience, de Steven Soderbergh – pelo menos no quesito de mostrar um pouco da vida “real” de uma garota de programa.

Assim o filme segue bem no caminho de provocar e instigar o espectador. Nos conduz a todos pelas mãos em um caminho um tanto óbvio e convincente – quer dizer, até que a “racional” Catherine resolve dar o “troco” no marido “traidor” justamente com Chloe. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Certo que mulheres com o orgulho ferido, muitas vezes, resolvem partir para o revide puro e simples. Mas a forma com que Catherine decide dividir uma cama com Chloe, digamos assim, ficou um tanto quanto forçada demais. Mas ok, talvez ela quisesse realmente experimentar uma via diferente, mais do que simplesmente “dar o troco” para o maridão. De qualquer forma, a sequência entre as duas ficou realmente quente. Depois deste ponto, contudo, o filme resolve adotar uma política de reviravoltas seguidas que acabam por decepcionar, muito mais que por surpreender, o espectador.

(SPOILER – não leia se você ainda não assistiu ao filme). Não sei vocês, mas para mim não foi surpresa alguma a descoberta de que David, na verdade, era fiel. E que todas aquelas histórias de Chloe eram mentira. Até aí, tudo bem. Ainda que a forma com que a história foi contada para que a desconfiança sobre ele fosse potencializada já demonstrava um bocado de exagero e certa “forçada” de barra – desnecessário, vamos combinar. Um pouco mais de sutileza e “dúvida” teria feito bem ao filme. Mas o pior mesmo foi a justificativa para as mentiras de Chloe. Perto do final, tudo o que ela fez fica resumido a uma obsessão da garota por Catherine. Obsessão essa bastante difícil de acreditar – ou, em outras palavras, pouco sugerida pela história.

Vejamos: quem observava quem, antes do primeiro encontro entre as duas? Aparentemente, Catherine estava ciente da existência de Chloe, mas não o contrário – pelo menos o filme não mostra isso em parte alguma. (SPOILER – não leia… bem, você já sabe). Então Chloe é destas garotas que se “apaixonam” à primeira vista e que, rapidamente, ficam obcecadas. Vocês acreditam nisso, de verdade? Porque então não sei como ela sobreviveu tanto tempo… afinal, pela quantidade de pessoas que ela conhecia cotidianamente, por causa de sua profissão, ela deveria se apaixonar perdidamente com bastante frequência. E virar uma louca obcecada, manipuladora e extremista rapidamente. Não, acho bem difícil acreditar em uma história assim. Essa “descambada” no final, transformando toda a atração e interesse de Chloe por Catherine em “loucura” e obsessão, estragam o filme. Sem contar a sua escolha por “reviravoltas” repentinas e pouco convincentes, assim como um final “trágico” bastante dispensável (e, mais uma vez, pouco crível). Uma verdadeira pena.

NOTA: 7,5.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Chloe é dirigido por Atom Egoyan, o egípcio com moral no Exterior que filmou, anteriormente, a produções premiadas como Adoration, Ararat, entre outras. Ele faz um trabalho interessante, mais uma vez, especialmente em seu cuidado com os detalhes e, a todo o momento, em exprimir ao máximo o encantamento e a sensualidade das atrizes principais. Ainda assim, faltou um pouco mais de aposta no “sex appeal” do ator Liam Neeson. Ainda que para muitas ele possa parecer sempre atraente, em Chloe, definitivamente, ele não tem seus “predicados” tão explorados quanto os das atrizes Julianne Moore e Amanda Seyfried. E o jovem Max Thieriot, coitado… fica léguas distante do conceito de alguém provocador da libido alheia.

Da parte técnica do filme, gostei muito da direção de fotografia de Paul Sarossy, antigo colaborador de Egoyan. Ele faz um trabalho limpo, bastante claro, que ressalta a luminosidade e a beleza dos protagonistas. A trilha sonora assinada por Mychael Danna, por outro lado, peca por estar, quase todo o tempo, um tom acima do ideal. Em vários trechos do filme ela chega a cansar pelo exagero.

No quesito bilheteria, Chloe foi um fracasso. A produção, que teria custado aproximadamente US$ 11 milhões, arrecadou, apenas nos Estados Unidos, pouco mais de US$ 3 milhões até o dia 30 de maio. Pouco mais de um quarto do que deveria para, pelo menos, se pagar. Muito ruim.

Na opinião do público e da crítica o filme também não foi bem. Os usuários do site IMDb que, normalmente, são bastante generosos, deram a nota 6,6 para Chloe. Os críticos que tem seus textos publicados no Rotten Tomatoes, por sua vez, foram ainda mais duros com a produção: dedicaram 67 críticas positivas e 60 negativas para o filme, o que lhe garante uma aprovação de 53% – e uma nota média de 5,8.

Chloe estreou em setembro de 2009 no Festival Internacional de Cinema de Toronto. Depois, passou pelos festivais de San Sebastian, Vancouver, Santa Barbara, entre outros. Mas, como é meio óbvio, não ganhou prêmio em lugar algum.

Falando em Toronto, esta produção foi toda filmada naquela cidade canadense.

Para o crítico Liam Lacey, do The Globe and Mail, Chloe poderia ser classificado como “lixo artístico”. Lacey escreveu: “Este é um thriller erótico com tons fortes, criado com estilo e algumas cenas emocionalmente cruas, visando um efeito que é agradavelmente enervante, para não dizer totalmente excitante”. Importante as observações que o crítico faz sobre o trabalho de Egoyan, afirmando que este é o seu projeto mais comercial até o momento, assim como o primeiro filme que ele dirige sem que tenha um roteiro seu como guia.

Achei interessante quando o crítico afirma que Catherine é um “tipo diferente de profissional do sexo” – após referir-se a Chloe como a “profissional” clássica do gênero. Realmente, as duas personagens lidam com o sexo de maneira profissional – ainda que, claro está, utilizando conhecimentos e “ferramentas” muito diferentes para ganhar dinheiro. Achei interessante como Lacey resume a primeira metade do filme, afirmando que a “crueza emocional” de Julianne Moore, assim como o “enigma” da personagem de Chloe seguram bem a história, tornando-a crível. Ele afirma que a “empatia e a tensão” sentidas pelo espectador fazem com que a gente se pergunte se estamos frente a um filme como The Girlfriend Experince ou Fatal Attraction. Boa! 🙂 O crítico finaliza – e acredito que toda a torcida de futebol do mundo deve concordar – dizendo que para um filme “tão inteligente” (pelo menos até a metade), Chloe tem um final muito ruim. Lacey disse que esperava mais do filme e da personagem de Chloe – aos quais chama, categoricamente, de “charlatões”.

Neste texto, o crítico Bill Goodykoontz, do The Arizona Republic, comenta que o filme se mostra interessante durante três quartos de sua duração, mas que no final, ele descamba em direção a um estilo de Fatal Attraction. Ele ressalta o talento e o trabalho das atrizes principais, assim como a escolha do diretor por filmar uma cena, pelo menos, com bastante carga erótica. Para Goodykoontz, a culpa e a confusão que resultam daquela cena são sentidas como verdadeiras por causa do trabalho do diretor e das atrizes. O crítico comenta que o ator Liam Neeson faz pouco em cena – mas lembra que, justamente quando estava filmando Chloe, ele perdeu a esposa, a também atriz Natasha Richardson, em um acidente. No final, Goodykoontz afirma que o problema mesmo foi a história, que terminou de uma forma ridícula.

Encerrando a lista de citações de outros críticos, destaco este texto de David Edelstein, da New York Magazine. Antes de mais nada, gostei do título do artigo dele: “Are you kidding me?!” (ou seja, “Você está brincando comigo?!”, que eu acho que é a pergunta que todos se fazem com o final do filme, hehehehehehehe). Edelstein começa escrevendo: “Poucos filmes se desenvolvem de forma tão obviamente e desconcertadamente errada quanto Chloe, ainda que sua primeira hora seja um potente melodrama em que uma boa, super controlada narração contenha o tema da obsessão incontrolável como uma camisa de força”.

O texto de Edelstein é realmente muito bom – eu recomendo sua leitura. O crítico adentra nas carências e “sentimentos” dos personagens, destacando os contrastes apresentados pela história. Ele ressalta, por exemplo, o talento do diretor Egoyan para “mediar” os seus personagens, ressaltando sempre as formas nas quais eles são enquadrados e, assim, revelar como cada pessoa está isolada uma da outra e do “mundo sem alma moderno”. Como o crítico muito bem observa, Egoyan é um especialista em pessoas e seus isolamentos, mas é menos “seguro de si” quando tem que tratar da forma com que elas se conectam. Isso fica transparente neste filme.

CONCLUSÃO: Um filme menor do que ele poderia ser. Chloe se aprofunda nos desejos humanos, na sexualidade mutante (para alguns) e, especialmente, nos ciúmes e na crise conjugal de um casal, mas acaba descambando para soluções difíceis de acreditar. Provavelmente ele irá provocar indignação em nove a cada dez espectadores. Por isso, se você quiser se arriscar a vê-lo, esteja preparado(a) para um desenrolar de história provocativo, fundado no bom uso de palavras, mas que termina em um baile de “surpresas” que apenas decepcionam. Também é importante dizer que esta produção tem pelo menos uma cena de sexo “ousada” envolvendo as protagonistas. No mais, é um filme bem dirigido e que acerta a mão ao dar o devido valor para as palavras nos jogos de sedução. Assim como uma produção com duas interpretações femininas precisas. Algum acerto ele tem – apesar do final ridículo e decepcionante.