Sous Les Bombes – Under The Bombs

 

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Em meio ao atual conflito entre israelenses e palestinos na faixa de Gaza, assisti ao representante escolhido pelo Líbano para representar o país na disputa pelo próximo Oscar. Sempre acho interessante assistir ao que cada país apresenta para o “mundial do cinema” porque, claro está, as escolhas podem falar muito sobre o que as nações querem valorizar enquanto discursos para o mundo. Sous Les Bombes (Under the Bombs) procura mostrar o “lado dos inocentes” mortos em ataques como o que Israel está promovendo agora, neste minuto, nos últimos dias de um conturbado 2008. O filme é comovente e impressionante em muitos pontos – especialmente para pessoas que, como eu, nunca pisaram no Líbano ou em algum daqueles países em permanente risco de guerras e ataques com bombas. Ainda assim, ele perde em força para outros títulos já comentados aqui – especialmente porque seu roteiro acaba sendo “simples” demais. Ainda que eu, admito, percebi os motivos para isto ao buscar mais informações sobre o filme.

A HISTÓRIA: Zeina (Nada Abou Farhat) literalmente caminha contra a corrente. Depois de 33 dias de ataques ininterruptos por parte dos israelitas nos territórios do Líbano, as pessoas que sobreviveram querem sair do país – especialmente das zonas mais atacadas, como o Sul libanês. Mas ela quer ir justamente para lá, atrás de uma irmã e do filho, Tarim. Depois de procurar entre vários taxistas algum que aceitasse viajar para o Sul do país, ela encontra a Tony (Georges Khabbaz), um taxista que nasceu no Sul e que conhece todos os caminhos para que Zeina chegue ao seu destino. Nesta “road trip” eles vão conhecendo histórias dramáticas pelo caminho ao mesmo tempo em que revelam, cada um a seu tempo, seus próprios dramas e histórias de vida.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Sous Les Bombes):  Como qualquer filme que busca um tom de documentário ou o bom e velho estilo “baseado em uma história real”, Sous Les Bombes deixa claro, logo nos primeiros segundos, o local e o tempo narrativo, além de tornar evidente o que ele deseja. Não existe espaço para a dúvida, do início ao fim da história, de que ela é uma crítica aos ataques israelenses na região. E para ser franca, eles têm razão. Israel, há muito tempo já, abusa do poder e da força militar que possui – e grande culpa disto é dos Estados Unidos, país que mais apoiou e continua apoiando a causa israelense e o seu armamento.

Sem entrar contudo em muitas discussões de mérito, vamos falar do filme… Ele é claramente partidário. Ainda que, no final, algumas linhas comentem que Sous Les Bombes é dedicado a todos os inocentes mortos em conflitos como aquele, em nenhum momento existe espaço para vermos os inocentes que morrem na outra fronteira, no outro lado da guerra. Sim, porque por mais que Israel erre na dose – e continua errando, agora nos ataques à faixa de Gaza -, muitos civis israelenses sem culpa e isentos de responsabilidade nos conflitos também morrem. Mas Sous Les Bombes não tem espaço para este tipo de questionamento ou reflexão.

O filme realmente mostra um drama humano e, com ele, o de milhares de pessoas. A busca de Zeina por seu filho, percorrendo boa parte do país – especialmente o Sul do Líbano – reflete a procura de tantas mães, pais e filhos por seus entes queridos desaparecidos. Utilizando um bocado de tom “documental”, o diretor Philippe Aractingi foca com sua lente mulheres de diferentes idades que contam seus dramas, suas dores. Aractingi escreveu o roteiro do filme ao lado de Michel Léviant – ambos “meio” franceses. O interessante é que o tom de documentário aparece claramente durante todo o filme, ainda que ele seja um pouco “falso”. Explico: a história principal é toda fictícia, mas tudo o demais que aparece em cena é verdadeiro. Aquelas pessoas comuns realmente “interpretam” a si mesmas – algo que fui descobrir só depois, ao ler as notas de produção.

As imagens de destruição do país são, realmente, impressionantes. E, eu diria, um dos dois pontos fortes do filme. Sous Les Bombes teve algumas cenas filmadas durante os ataques israelenses ao Líbano, em 2006 – ainda que a maior parte do filme foi gravado depois – o que garantiu o registro de imagens tão incríveis e garantiram o impacto que apenas um documentário poderia provocar. A direção de fotografia é de responsabilidade de Nidal Abdel Khalek. O outro ponto forte do filme são as interpretações dos atores principais – e digo isso sem desmerecer todos os demais que aparecem contando “suas histórias”. Realmente Nada Abou Farhat e Georges Khabbaz estão afinadíssimos e convencem, ao mesmo tempo que emocionam sem exageros, em seus papéis.

Curioso que o filme bate na tecla de que a religião e a política não interessam. Pelo menos é esse o discurso de Zeina, que saiu de Dubai para encontrar o filho e a irmã e que não tem espaço em sua mente ou coração para outro desejo que não o de encontrá-los. Neste ponto o filme realmente busca o caminho humanitário, mostrando que a perda de pessoas tão próximas e queridas não tem paralelo, não podem ser comparados ou medidos com nada mais – nem religião, nem política, nem poder. Ainda assim, não escapa do filme um ou outro discurso neste sentido, seja de religião ou de política. Esses discursos estão presentes no “consolo” que outras mulheres dão a Zeina – com forte carga religiosa – e na conversa dos amigos de Tony com ele antes que o casal de “cúmplices” da “road trip” saiam rumo ao monastério e o fim da busca daquela mãe.

Aparentemente o diretor e roteirista quer deixar claro a sua postura de “nem todos os palestinos são do Hizbollah“, terroristas ou seguidores convictos da religião muçulmana. Certo que muitos que moram por ali são católicos ou seguem outras crenças, mas e os que seguem a religião de Maomé e acreditam que o que Israel fez contra eles foi injusto? Eles merecem ser alvos de ataques absurdos que podem matar qualquer pessoa, seja criança ou velho? Não, acho que não. Serei franca: não conheço a realidade mostrada pelo filme, mas a impressão que eu tenho é que a maioria das pessoas que seguem aqueles preceitos que movem o Hizbollah, por exemplo, apenas acreditam piamente naquilo, mas jamais empunhariam um fuzil para matar um israelense inocente. Talvez eu esteja sendo “inocente” neste julgamento, mas duvido que a maior parte das populações de um lado ou outro da guerra realmente desejam matar uns aos outros. Para mim, seja o exército de Israel ou os extremistas palestinos, qualquer lado que provoca o conflito na prática é uma minoria. O problema é que justamente esta minoria define a vida – e a morte – do restante da população. E o ódio apenas cresce com tudo isso.

Independente do quanto o filme pode mostrar apenas um lado da história, não deixa de ser uma produção corajosa. Especialmente porque mostra cenas de uma destruição pouco vista – ou divulgada – mundo afora. Apenas por isto, por tornar público retratos de uma realidade e de uma cultura pouco difundida – ou pior, difundida de maneira equivocada – o filme merece ser visto. Só não espere uma história cheia de “reviravoltas”… Sous Les Bombes está mais para um documentário sobre os absurdos da guerra do que para uma história bem escrita sobre pessoas que passam por ela. Ainda assim, (SPOILER – não leia se você ainda não assistiu ao filme), gostei do fato de Sous Les Bombes evitar o “final feliz”. Afinal, é muito mais comum naquela realidade uma história trágica do que uma que poderia figurar em uma novela da Globo.

NOTA: 8,8.

OBS DE PÉ DE PÁGINA:  Algo curioso que o filme trata é sobre a interferência da imprensa mundial em conflitos como este. Ainda que nenhum tema secundário seja tratado por muito tempo – ou força – nesta produção, este tópico da imprensa “afetando” a vida das pessoas comuns ganha um certo destaque. Para ser franca, não sei até que ponto os jornalistas que se “intrometem” estão errados ou certos. Vejamos: se eles encontram um órfão que se diz sozinho no mundo, por que eles não podem levá-lo para uma parte mais segura? O problema é que nem sempre estes meninos e meninas estão realmente sozinhos no mundo… e é pior ainda quando os jornalistas (e astros do cinema) não apenas levam estas crianças para outra parte dentro do próprio país, mas tiram eles de lá para levá-los para a “civilização”. Aí sim eu vejo um problema grave. Afinal, eles acabam não apenas perdendo familiares mas, também, suas raízes, tradições. Ninguém pergunta – e acho que eles, na verdade, nem tem a maturidade para escolher – para onde eles querem ir. Realmente é um assunto difícil de trabalhar. E achei bacana que o filme coloca ele na roda.

Procurando detalhes do filme, descobri que a vila onde a irmã e o filho de Zeina estavam se chama Kherbet Selem e fica realmente no Sul do Líbano. Achei curioso também que o filme mostra como as pessoas aparentemente impossibilitadas de entrar no país conseguem dar um “jeitinho” – como a mãe em busca de seu filho, que entra no Líbano via Turquia. As pessoas que estão desesperadas acabam encontrando os “furos” na fronteira necessários. Não fica claro no filme, mas Zeina chega no porto de Beirute justamente no dia do cessar-fogo israelense (que não dura muito tempo, diga-se).

Não dei muita bola para estas informações enquanto assistia ao filme, mas a verdade é que Tony tem uma história curiosa: católico, ele vive em Beirute e tem um irmão preso em Israel. Claro que conforme o tempo passa fica claro, no filme, que a viagem dele para o Sul também é motivada por razões pessoais – ele não está dando apenas uma de bom samaritano. Além do interesse na bela mulher que lhe está pagando a corrida de táxi, ele busca retomar alguns contatos que tem em suas origens. Como em qualquer “road movie”, os dois personagens viajam ao encontro de seus passados e na busca pelo que querem de suas vidas no futuro. Também não tinha reparado – só percebi isso ao ler as notas de produção do filme – que Zeina é uma xiita. Achei que esta “rivalidade” entre a xiita e o católico não fica muito clara – e nem é explorada – no filme. Mas o desejo do diretor em unir estes universos tão opostos na história de uma maneira que funciona com o tempo, ou seja, mostrando que realidades tão diferentes podem conviver com respeito e afeto através do conhecimento um do outro, é muito interessante. Ponto para ele.

O diretor Philippe Aractingi é de origem franco-libanesa. Nascido em Beirute em 1964, ele carrega na bagagem mais de 40 filmes – um diretor experiente, especialmente por filmar reportagens e documentários. Antes de Sous Les Bombes ele filmou para o cinema Bosta, em 2005, um filme que marcou a sua volta ao Líbano (mais precisamente Beirute) depois de morar por 12 anos na França. Interessante que Bosta foi selecionado pelo Líbano para representar o país na corrida pelo Oscar de 2006 – mas o filme não chegou muito longe.

Outro tema que o fime trata, ainda que de maneira “an passant”, é a atração e ao mesmo tempo a repulsa das pessoas em saírem de sua terra. Tony gostaria de ir para a Alemanha e, volta e meia, escuta uma velha fita-cassete com lições no idioma. Só que ele sabe, no fundo, que jamais poderá ir para lá. Enquanto isso, Zeina se arrepende de ter deixado o país, o Líbano, e lamenta que tanta gente se vê obrigada a deixar o seu próprio país. São duas realidades opostas retratadas em Sous Les Bombes – ambas devem refletir o sentimento do próprio diretor em relação ao seu país e à França.

Michel Léviant, que escreve o roteiro ao lado de Aractingi, é norte-americano. Ele nasceu nos Estados Unidos em 1947, mas se sente meio francês. Durante a fase em que escrevia uma tese para a UCLA ele foi o responsável por vários curtas-metragens. Passada aquela fase, ele passou a escrever para o cinema e para a TV – inclusive assumindo a direção de um filme, La Gueule du Loup (1981).

A atriz Nada Abou Farhat é a beleza árabe em pessoa. Com traços muito marcados e um olhar expressivo, ela encarna perfeitamente a mulher forte e ao mesmo tempo frágil da história. A atriz, de origem libanesa, começou a trabalhar como atriz muito jovem, acumulando até agora papéis no teatro e na televisão, essencialmente. Sua estréia no cinema ocorreu no filme anterior de Aractingi, Bosta. Por sua vez, o carismático Georges Khabbaz é uma celebridade em sua Líbano natal. Ali ele atua como músico e roteirista, ainda que seu reconhecimento realmente venha do trabalho como ator. No currículo ele tem registrado vários prêmios por seu trabalho no teatro, na televisão e no cinema. 

Lendo as notas de produção é que soube de algo interessante: o diretor realmente esteve no Líbano durante a fase da destruição. A guerra teria começado no dia 12 de julho e ele esteve no local 10 dias depois. Então todas as cenas que se vêem de bombas caindo foram filmadas por ele. Passada a fase do conflito mais pesado, ele saiu rodando pelo país com seus dois atores… todas as outras pessoas que aparecem em cena representam “seus próprios papéis”, dos taxistas até os refugiados, dos jornalistas aos soldados. Bacana. Vou até aumentar um pouco a nota original de 8,5 por causa disso. 🙂

Agora, fica uma dúvida: porque Aractingi não filmou, de uma vez, um documentário? Quase seria mais fácil, não? E aumento a nota também porque agora se justifica uma certa “fraqueza” no roteiro: o filme foi praticamente construído conforme a equipe viajava. Pelo menos houve bastante improvisação no meio.

Os usuários do site IMDb conferiram a nota 7,1 para o filme. Vale citar que ele é uma co-produção do Líbano, da França e da Inglaterra. 

Até agora, Sous Les Bombes ganhou quatro prêmios: os de melhor atriz e de melhor filme no Festival Internacional de Cinema de Dubai; e os prêmios Alternative Vision e EIUC do Festival de Veneza. Ele chegou ainda a ser indicado ao prêmio de Melhor Filme Drama estrangeiro do Festival de Sundance deste ano, mas acabou perdendo para Ping-pongkingen.

Achei estes textos interessantes sobre o conflito israelo-palestino (texto 1 e texto 2). Para quem quer saber um pouco mais…

CONCLUSÃO: Um filme impressionante sobre a destruição no Líbano pós os ataques israelenses no país em 2006. Apesar de ser uma ficção, Sous Les Bombes retrata o momento do país logo depois do cessar-fogo daquele ano. Com dois atores muito bons e uma direção que valoriza a paisagem de destruição, Sous Les Bombes acaba servindo muito mais como registro de uma época do que como uma obra de ficção bem escrita. O roteiro é um tanto fraco ao não tratar temas importantes daquela realidade. Um verdadeiro “road trip” dramático, o filme vale para quem não tem pressa em saber o que acontece no final e também para os que não se importam de uma história linear e sem surpresas. E a mensagem inevitável do filme é: sim, a guerra é uma merda. E sim, são os inocentes que morrem mais em guerras como estas que continuam rolando mundo afora em pleno “evoluído” século 21.

PALPITE PARA O OSCAR 2009: Pela força de suas imagens e pelo caráter “humanista” de sua história, talvez Sous Les Bombes chegue a ser selecionado para uma das cinco vagas do Oscar. Mas algo joga contra ele nesta disputa: o tom um tanto “anti-israelita” da história. Ok que o filme não faz um discurso contra Israel mas, ao mesmo tempo, toda a destruição mostrada aparece com a assinatura daquele país. E todos nós sabemos que os Estados Unidos – e especialmente Hollywood – está do lado de Israel, não é mesmo? Então se for visto apenas o critério político do Oscar, o filme ficará de fora. Se os responsáveis por escolher as produções finalistas fecharem os “olhos” para a questão de Israel, talvez selecionem o filme pelo trabalho corajoso de seu diretor e equipe técnica. Afinal, eles se arriscaram (até uma certa medida) ao rodar o filme em uma zona de conflito – ainda que em uma época de cessar-fogo. Não assisti ainda aos outros concorrentes, mas já posso me arriscar ao dizer que duvido que este filme ganhe a estatueta dourada. Primeiro porque eu acho que existem outros títulos com uma história melhor trabalhada – ainda que se justifique uma certa “fraqueza” de roteiro devido às condições que o filme foi feito. Depois porque eu acho que realmente não é um tema tão “querido” pela Academia. Mas que o filme merecia estar entre os cinco finalistas, ah, isso merecia. O que vai acontecer, logo veremos…

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Gran Torino

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Vou dar uma breve pausa na sequência de assistir aos filmes estrangeiros que estão concorrendo a uma vaga no próximo Oscar para assistir a uma produção que eu tinha muita vontade de ver: Gran Torino. O proclamado último filme da carreira de Clint Eastwood como ator parecia interessante também por outro motivo: Eastwood encarnar desta vez a um “crápula”. Em outras palavras, um racista, preconceituoso, solitário viúvo e ex-militar que não consegue se comunicar muito bem com o “mundo exterior”. Assisti ao filme que muitos consideram poder conferir, finalmente, um Oscar a Eastwood como ator e, posso dizer, realmente é uma peça de cinema muito interessante – ainda que não chegue perto de ser genial.
A HISTÓRIA: Walt Kowalski (Clint Eastwood) recebe as pessoas no velório de sua mulher. Incólume ao lado do caixão, ele reprova com o olhar a chegada dos netos e a postura dos filhos, Mitch (Brian Haley) e Steve (Brian Howe). O mesmo descontentamento ele demonstra com o sermão e, depois, com a presença do padre Janovich (Christopher Carley) em sua casa. Passada a incômoda situação, ele passa a viver sozinho com o cachorro da família, bebendo cerveja, aparando a grama e, pouco a pouco, se surpreendendo com a vida da família de coreanos que se mudou para a casa vizinha. No contato com eles, especialmente com o jovem Thao Vang Lor (o californiano Bee Vang) é que Kowalski terá suas convicções e culpas testadas – especialmente as lembranças que ele carrega de sua condecorada passagem pela Guerra da Coréia.
VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Gran Torino): Clint Eastwood é um fenômeno. Em muitos sentidos. Como escrevi recentemente em um texto para o DVDMagazine (conteúdo reproduzido neste blog na parte de “textos emigrados“), quem diria que o homem que conseguia fazer poucas expressões enquanto atuava, o que os críticos chamaram de “quase inexistentes recursos dramáticos”, se transformaria, depois, em um grande cineasta. Gosto do estilo Clint Eastwood. Artista completo e interessado por muitos elementos artísticos que compõe o cinema – como antes foram gênios do grau de Alfred Hitchcock e Stanley Kubrick) – ele se “intromete” nos detalhes de seus filmes, da trilha sonora à produção, do planejamento das cenas até detalhes nas linhas dos roteiros. E agora ele diz que vai parar de atuar.
Gran Torino, até que se prove o contrário – nunca se sabe quando um artista pode voltar atrás em uma decisão -, é o testemunho do ator Clint Eastwood. E que testemunho! A sua maneira o homem desconstrói alguns dos principais baluartes dos Estados Unidos – e, porque não dizer, da cultura ocidental. Vejamos: família, Igreja, serviço à pátria, aceitação da multiculturalidade, entre outros elementos que “nos formam e definem”. Eastwood mistura cinismo, crítica e uma certa dureza para criticar o discurso vigente e mostrar que os tapetes por aí guardam mais sujeira do que as pessoas gostam de admitir. E no final, diferente de Million Dollar Baby, ele nos surpreende com um gesto extremo de doação do protagonista. Curioso.
E vamos direto ao que interessa: a atuação dele é merecedora de um Oscar? Antes de responder a isso, quero dizer que eu não acho a premiação mais “badalada” do cinema algo realmente importante. É curiosa e vale ser acompanhada para ver o que o “mercado” anda querendo valorizar. Além de saber, é claro, o que a maior indústria do cinema anda apoiando ou desprezando. Afinal, mesmo que muitos tentem ignorar e lutar contra este fato, somos colonizados e sim, aprendemos a consumir o que o Tio Sam nos diz. Por isso mesmo acho interessante o Oscar. Mas respondendo a pergunta que abre este parágrafo: não acho, realmente, que Eastwood tenha uma interpretação digna de prêmio. Ainda assim, se ele ganhar, terá sido justo, muito justo.
Explico o que eu quero dizer: por grande parte do filme, Clint Eastwood nos lembra Joe, Monco e Blondie, seus personagens nos filmes do italiano Sergio Leone que o tornaram tão conhecido. Ou seja, poucas expressões e uma postura praticamente de estátua de mármore. Isso por boa parte do filme, não em toda. Há algumas cenas em que ele realmente se aprofunda no que é a interpretação do racista que está encarnando e nos surpreende. Não assisti ainda aos outros possíveis concorrentes nesta categoria, mas acho difícil Sean Penn ou o tão comentado Brad Pitt de The Curious Case of Benjamin Button não estarem melhor que o veterano Eastwood. Ainda assim, o homem é uma lenda. E não seria nada surpreendente a Academia se render a este californiano de 78 anos agora, em sua despedida como ator – enquanto é tempo de premiá-lo.
Mas o filme merece ser visto nem tanto pela interpretação de Eastwood mas, principalmente, pelo que ele faz atrás das câmeras. Primeiro, pela coragem de produzir este filme escrito por Nick Schenk, baseado em argumento do próprio roteirista e de Dave Johannson. O filme pode ser visto de maneira rala ou pode, como muitos filmes por aí, ser “complicado”. Se o espectador perceber os nuances da história, acaba gostando ainda mais de Gran Torino. E a marca Eastwood de uma narrativa seca, que valoriza os detalhes do cotidiano de uma vizinhança, as relações entre diferentes realidades, está ali, escarrada na tela. Uma maravilha!
Mas ainda que o filme funcione em vários momentos, ele está longe da perfeição – ou mesmo de alguns dos melhores momentos do diretor, como em Million Dollar Baby ou em Mystic River. Em Gran Torino faltou uma equipe de atores melhor para contracenar com Clint e, algumas vezes, um pouco mais de “pé no chão” do roteirista. Por exemplo: a atitude da gangue que assombra a família de Thao não me parece muito convincente. Primeiro de tudo: eles não tinham alguém melhor para assombrar e tentar convencer a entrar na gangue? Depois, uma gangue de verdade não teria dado um fim – ou pelo menos um bom susto – no tal de “americano defensor de injustiçados”? E terceiro: (SPOILER – não leia se você realmente ainda não assistiu ao filme) se ninguém denunciava o grupo, por que eles mudaram de idéia no final? Afinal, se tratou apenas de uma morte a mais… enfim, toda a parte que envolve a gangue foi mal tratada, para mim.
Também achei um bocado fraquinho o rapaz que interpreta Thao. Até boa parte do filme aquele jeito “escapista” dele parecia se encaixar bem no papel, mas lá pelas tantas… quando o círculo realmente aperta e ele se “descontrola” pedindo justiça, deu para ver, daí por diante, que o rapaz realmente é bem fraquinho. Uma pena. Talvez um ator melhor faria o filme agradar mais. Por outro lado, a garota que interpreta a irmã dele, Sue Lor (Ahney Her) é realmente encantadora, competente e carismática.
Os atores que fazem os filhos de Walt Kowalski e a nora dele, Karen (Geraldine Hughes) realmente aparecem pouco, quase nada. Praticamente pontas na história. Enquanto isso, o grande “antagonista” de Walt, o padre Janovich, rouba um bocado a cena. O ator Christopher Carley realmente está muito bem no papel.
Mas o melhor do filme é verdadeiramente a história e tudo o que ela deixa subentendida. Como eu disse lá atrás, Gran Torino é uma grande crítica e reflexão aos valores perdidos da América – e do mundo, para exagerar um pouco. A família é apenas figurativa – pouco ou nada baseada em afetos verdadeiros e em compreensão e bastante sustentada pelas aparências. Estranhos que convivem – ou conviveram – juntos. A pátria manda pessoas corretas para guerras absurdas, provocando chagas que jamais vão sumir, transformando homens comuns em assassinos que carregarão remorsos pela vida afora. A Igreja é uma instituição também de aparências, que defende dogmas e discursos irreais, pouco ou totalmente distantes da realidade das pessoas. A sociedade, a vizinhança que nos circunda, está cada vez mais mesclada, cheia de pessoas que não falam o mesmo idioma, não compartilham de uma série de significados que fazem a vida em comum possível. Clint Eastwood bate pasado e acerta em cheio. Faz uma crônica precisa e um bocado amarga de uma realidade que pode ser vista em qualquer parte. Mas não apenas isto.
Pelo andar da carruagem do filme, eu esperava um final amargo. Um pouco no estilo de Million Dollar Baby, eu previa que algo de realmente ruim iria acontecer. E daí veio o que veio. (SPOILER – não leia se não assistiu ao filme, porque agora vou estragar o final 😉 . Ironizando até mesmo a sua própria história, Clint encena um “duelo” de covardes. No melhor estilo provoque e atire, Walt Kowalski desafia a gangue de aloprados e se rende em uma execução que lhe acaba resgatando de um passado de culpas. E ele mostra, no final, que é melhor que as pessoas que empunham armas e que atiram acreditando que a violência é a única saída. Para os amantes do cinema Clint Eastwood deixa, com esta cena, com este filme, um testamento que poucos ousaram deixar. Como poucos, também, ele se reinventou e mostra, anos após ano, como é possível evoluir até o final.
NOTA: 10.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Antes que alguém me pergunte “Mas como você pôde dar uma nota 10 para este filme, depois de ter criticado tantos pontos dele?”, quero dizer que realmente está nota não tem muita lógica. Sim. Mais que lógica ela tem a expressão de um voto e de uma reverência. Certo que o ator Clint Eastwood não está em sua melhor forma. Certo que o roteiro tem algumas falhinhas aqui e ali e que outros atores não estão bem no filme. Mas algumas cenas de Gran Torino – especialmente a do “duelo” final – e alguns trechos de sua história são tão especiais, tão fortes e emblemáticos que eu não me contive. Também dei a nota acima porque gosto deste sujeito Clint Eastwood e seria uma pena dar uma nota menor para mais este esforço cinematográfico dele.
Até ver os créditos do filme a ficha não tinha caído para mim… em alguns filmes eu vi a figura de Scott Eastwood mas, para ser franca, nunca tinha ligado o nome à pessoa. Até que vejo ele aqui, no papel de Trey – o branquelo covarde que tenta ser como os “brothers”. E que interessante saber que a única cena em que ele aparecer é para ser humilhado por uma das gangues das redondezas e pelo personagem interpretado pelo pai, Clint Eastwood. Realmente curioso.
Achei curioso também um ou dois momentos em que Clint Eastwood opta pelo humor para “ganhar” o público. Como na cena do “duelo” de cuspes entre Walt Kowalski e a “avó” dos coreanos (Chee Thao) ou mesmo nas vezes em que ele está a ponto de explodir e muda de cara totalmente – como quando o filho e a nora vão apresentar para ele as opções de asilo para onde ele poderá ir. Não é sempre que Clint resolve fazer rir um pouco.
O filme está indo bem, muito bem na opinião dos espectadores e da crítica especializada. Tanto é verdade que ele conseguiu a nota 8,4 pelos usuários do site IMDb – geralmente bem difíceis de agradar – e, até agora, 60 críticas positivas e 22 negativas por parte dos críticos que publicam seus textos no Rotten Tomatoes.

Algo que me chamou a atenção no filme também é que sempre a “dureza” dos personagens masculinos foi abrandada pela chegada de mulheres. Walt Kowalski se aproxima da família de coreanos através da jovem Sue; Thao começa a ver futuro em sua vida quando é incentivado a convidar Youa (Choua Kue) para sair; e o próprio Walt Kowalski admite que a melhor escolha que ele fez na vida foi ter convidado aquela garota que seria sua esposa para sair. Curioso, mas muitas vezes realmente parece que são as mulheres que dão uma equilibrada na balança da estupidez humana, tornando os homens – e elas mesmas, no contato com eles – melhores.

Um ator que não citei até agora foi John Carroll Lynch. Ele encarna o barbeiro Martin. Junto à Clint Eastwood, ele é responsável por algumas das trocas de diálogo mais interessantes e bacanas do filme – o que demonstra, ainda mais, que um ator competente ao lado de Clint poderia ter feito uma dobradinha de primeira.

Mais uma vez o diretor aposta na mensagem da redenção.Como poucos, eu acredito, ele têm tratado nos últimos anos deste tema. De redenção, de vingança, de culpa e de temas que são tão importantes para a “aura” norte-americana. Apenas por isto ele merece aplausos.

Gran Torino teria custado aproximadamente US$ 35 milhões e faturado, até o dia 28 de dezembro, pouco mais de US$ 4,2 milhões. Pouco, diga-se. Na lista dos filmes melhor cotados na bilheteria, ele estava na posição 15 – e deve cair -, o que comprova que ele terá pouca força de “audiência” para chegar a algum prêmio.

A trilha sonora do filme é assinada por Kyle Eastwood, filho do diretor, e por Michael Stevens. Para não perder o costume, uma das músicas que compõe a trilha é de autoria de Clint Eastwood (não por acaso justamente a música Gran Torino). Desta vez ele a compôs ao lado de Jamie Cullum (que a interpreta junto com Don Runner), Kyle Eastwood e Michael Stevens.

A direção de fotografia correta, ainda que nada excepcional, é de Tom Stern, velho colaborador de Clint Eastwood – com quem começou a trabalhar em Blood Work, de 2002. De seus últimos trabalhos como diretor de fotografia, destaco o resultado conseguido por ele em Things We Lost in the Fire.

Para quem ficou curioso de saber onde foi filmado Gran Torino, ou melhor, sobre que local Clint Eastwood planejou a sua visão da “típica vizinhança estadunidense”, a produção foi toda rodada no Estado de Michigan, em cidades como Detroit, Gran Rapids e Warren.

Como eu dizia antes, Gran Torino critica alguns dos principais baluartes da cultura ocidental. A Igreja, por exemplo… Walt Kowalski aponta o dedo (figurativamente) para o padre Janovich e lhe acusa de não saber nada sobre a vida ou a morte. Pai de dois homens feitos e avô, ele não sente que têm uma família – que existe, no duro mesmo, apenas na fachada. Walt Kowalski não tem e nunca teve intimidade com nenhum membro da família – exceto com a mulher, que acaba de perder. Como a maioria dos norte-americanos e dos povos de países desenvolvidos, ele olha com certo desprezo e um bocado de amargura para essa “gente” que vai ocupando, pouco a pouco, a vizinhança. Uma “gente” com cultura e traços raciais diferentes, muitos nada integrados ao país que adotaram como seus – aliás, gostei muito do filme nesta parte, em que os mais “velhos” da comunidade coreana realmente não se comunicam em inglês (o que realmente acontece) e apenas os mais jovens conseguem se integrar melhor. E olha lá, porque eles até falam o idioma do país em que estão perfeitamente, mas isso não garante que eles serão bem recebidos na cultura que adotaram – o que provoca uma certa resistência aos costumes locais e, em alguns casos, desperta o lado criminoso de parte dos jovens.

De qualquer forma, Walt Kowalski acaba encarnando toda a frustração de gerações de pessoas que não vêem na Igreja, na família ou na propriedade mais o significado outrora proclamado. Percebem que nos dias atuais tudo isso não lhes garante segurança, satisfação ou paz de espírito. Para mim, Gran Torino é um grande filme sobre a crise particular e coletiva dos tempos atuais, em que falta fé e, para alguns, sobra honra e coragem de, algumas vezes, se sacrificar pelo que eles consideram correto. E, no caso de Walt Kowalski, se sacrificar para dar oportunidade para um jovem que tem uma vida inteira pela frente. Aliás, mesmo o gesto de Walt pode ser questionado… afinal, ele só se sacrificou sabendo que passaria por coisas piores. Resolveu “fugir” de uma maneira mais rápida – ainda que honrada. Mesmo o nosso herói não parece ser perfeito ou tão honrado quanto gostaríamos que fosse. Mais uma qualidade deste trabalho de Clint Eastwood que, aos 78 anos de idade, nos comprova que os heróis não existem.

Gran Torino ganhou, até agora, dois prêmios da National Board of Review, uma associação que escolhe os melhores filmes do ano desde 1920. Formada por profissionais do cinema, professores, estudantes e historiadores, a associação conferiu os prêmios de melhor roteiro original para Gran Torino e o de melhor ator para Clint Eastwood. O ator aindaconcorreu ao prêmio de melhor do ano pela Associação de Críticos de Cinema de Chicago (mas ele perdeu a disputa para Mickey Rourke por The Wrestler) e concorre, atualmente, ao prêmio de melhor música por Gran Torino no Globo de Ouro.

CONCLUSÃO: Clint Eastwood destila mais uma vez o seu estilo de tratar de maneira crua e direta alguns dos problemas da América sem, desta vez, abrir espaço para muitas concessões. O seu autoproclamado último papel no cinema pode despertar o desgosto em muitos espectadores – afinal, seu personagem, por mais que “evolua” durante a história, perto do final continua menosprezando a “matriarca” dos coreanos com os quais ele se vê obrigado a conviver. Um filme pesado, ácido e cínico que desmonta os ideários de família, religião, lealdade e convicções ao mesmo tempo que defende idéias como justiça e a busca pela redenção. Uma bela peça de cinema em que faltam boas atuações mas onde sobra o cuidado do diretor em contar uma história que será um pouco difícil de tragar para muitos.

PALPITE PARA O OSCAR 2009: As bolsas de apostas apontam para uma indicação de Clint Eastwood como melhor ator. Pessoalmente, acho que mais do que ser indicado como ator, ele merecia ser indicado – e ganhar – a estatueta como diretor. Realmente vejo que o trabalho de Clint Eastwood, há bastante tempo já, se mostra primoroso como o maestro da obra mais do que um simples músico. De qualquer forma, acho realmente que ele será indicado ao Oscar de ator e que, se a Academia realmente quiser “render homenagens” a ele, até pode premiá-lo – ainda que eu ache que o ano parece ser de outras interpretações. Dificilmente Gran Torino chegará com força para ser indicado como melhor filme. Talvez Clint seja indicado como diretor – mas tenho minhas dúvidas  – ou mesmo o roteiro chegue a ser indicado. De qualquer forma, qualquer prêmio para este filme será bem-vindo – especialmente para “revelá-lo” para as audiências que o estão ignorando um pouquinho.

Tummien Perhosten Koti – The Home of Dark Butterflies

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Tem pessoas que realmente não deveriam ter filhos. Despreparados para manter um relacionamento saudável, elas acabam transferindo para meninos e meninas inocentes violência, ciúmes, diferentes manifestações de maldade e descontrole. A produção finlandesa Tummien Perhosten Koti (batizado no mercado internacional por The Home of Dark Butterflies) trata justamente sobre lares problemáticos e o resultado disto na vida de crianças e jovens. O filme foi selecionado por seu país para tentar uma vaga no próximo Oscar. Sensível, com uma fotografia de tirar o chapéu, Tummien Perhosten Koti convence com uma história bem contada, ainda que canse um pouco por utilizar alguns recursos batidos sem necessidade.

A HISTÓRIA: Juhani Johansson (Samu Uutela quando criança, Niilo Syväoja na adolescência) busca o cachorro de estimação com o pai, Erik (Pertti Sveholm). Depois de encontrá-lo morto, o garoto participa de um estranho e etílico “cerimonial fúnebre” com os pais e o irmão pequeno Sauli (Kiira Sivonen). Corta a cena e somos transportados sete anos no futuro, quando Juhani é levado para “a Ilha”, um local isolado onde jovens problemáticos passam por um tratamento “corretivo” sob a tutela de Olavi Harjula (Tommi Korpela). Naquele ambiente de “reformatório”, Juhani têm que lidar com o passado – presente através de lembranças e da reaparição do pai – e com situações de conflito com os jovens problemáticos que vivem por ali e com “fantasmas” como o ciúmes e a morte.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Tummien Perhosten Koti): A produção que representa a Finlândia na corrida para o Oscar 2009 começa bem. É angustiando ouvir aquele pai alcóolatra falando aquelas barbaridades… e tudo indica que realmente algo de muito ruim vai acontecer. Mais cedo ou mais tarde. O filme, aliás, tenta manter o “segredo” sobre o que teria acontecido com o caçula dos Johansson praticamente até o final. Claro que, para mim, não havia muita dúvida sobre o que tinha acontecido. Ainda que a idéia do roteirista Marko Leino (baseado no livro de Leena Lander) tenha sido a de deixar “no ar” a culpabilidade do crime – que nem sabemos ao certo qual seria -, para mim ficou um bocado óbvio, desde o princípio, a inocência de Juhani. E não porque o rapaz faz qualquer um simpatizar com ele logo de cara – aliás, muito pelo contrário.

Niilo Syväoja encarna muito bem o papel que ele tem que interpretar. Tanto que não consegue, por boa parte do filme, “ganhar” o espectador. Você tem pena do garoto porque guarda aquela imagem do “funeral” absurdo do cão de estimação na cabeça e acaba “presumindo” o que aconteceu com ele pouco depois. Mas cada vez que ele resisti com o olhar de aço e o silêncio desafiador/de auto-proteção a uma investida de fora, ele cria no espectador também uma certa “resistência” a abraçá-lo com a torcida para que ele se livre de todo aquele pesadelo. No fundo, o diretor Dome Karukoski e o roteirista conseguem jogar com essa “dualidade” de Juhani – a de vítima e a de “problemático”/culpado – a favor do filme. Porque, conforme o personagemvai passando por “provações” e vai se modificando no caminho, vamos também baixando nossas resistências e conseguimos ver tudo de forma mais clara.

Merece um capítulo especial o trabalho fantástico do diretor de fotografia Pini Hellstedt junto com a escolha de ângulos e a dinâmica das imagens do diretor Karukoski. Os melhores momentos do filme são aqueles em que os detalhes sobresaem na narrativa, em que as lentes perdem a pressa e enfocam o belo naquele ambiente de disciplina rígida e “correção” de caráter.

Ainda assim, nem tudo é perfeito em Tummien Perhosten Koti. Achei um bocado excessivas e pouco verossímeis (ou convincentes, ao menos) as cenas todas das lembranças da “noite fatídica” da família Johansson. É natural que lembranças como aquela assombrem uma pessoa por muito tempo na sua vida, mas a sensação que o filme nos deixa é que Juhani simplesmente não conseguia ter uma noite em paz na sua vida. Certo que ele tinha passado de uma casa de pais adotivos para a outra sem conseguir dar certo em parte alguma, mas realmente dá para acreditar que sete anos depois daquela noite ele estivesse tão perturbado diariamente? Se isso tivesse acontecido, acho que ele teria realmente pirado e virado um criminoso ou um suicida, por exemplo. Enfim… achei um bocado exagerada essa mensagem de “atormentado full time”. Um pouco menos da exposição desta idéia já seria o suficiente.

Também achei um tanto forçada a analogia das “borboletas” que precisam de ajuda para sair do casulo e sobreviver com a oportunidade que deve ser dada para aqueles rapazes. A idéia é bonita e, bem escrita, no papel, deve funcionar. Mas da maneira um tanto “displicente” com que foi apresentada no filme, ficou um pouco fajuta.

O que vale a pena mesmo nesta história é o trabalho de atores como Tommi Korpela, que vive um administrador de reformatório com pulso firme e um bocado idealista; de Niilo Syväoja como o jovem sobrevivente que consegue enfrentar tudo sem se tornar um sujeito de mármore; de Marjut Maristo como a encantadora Vanamo, filha de Olavi e responsável por “amolecer” o olhar rígido de Juhani; Kristiina Halttu como Irene, a mulher insatisfeita de Olavi; e Kati Outinen como Tyyne, a única empregada do projeto da Ilha que continua no lugar.

Os jovens que “recebem” Juhani de uma maneira que lembra o “modus operandi” de presidiários estão bem, mas fazem um trabalho dentro da normalidade. São eles: Eero Milonoff (Salmi), que se destaca mais que os outros da metade para a frente, quando seu personagem se torna mais “complexo” e ousado; Roope Karisto (Sjöblom), que também se destaca do grupo; Ville Saksela (Rinne), Henri Huttunen (Simola), Iiro Panula (Sulkava), Niko Vakkuri (Hämäläinen). Vale citar ainda o trabalho de Matleena Kuusniemi como Maire, a mãe de Juhani que fala, literalmente, uma frase no filme todo. 😉

NOTA: 9.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Para quem gostou da trilha sonora, perfeita ao pontuar cada momento do filme, ela é de autoria de Panu Aaltio.

Sei que nem tudo em um roteiro precisa ser explicado, mas me incomodou um pouco quando Juhani deixa subentendido que já “esperava” pela morte de Simola. Estranho, porque não imagino o rapaz confessando alguma “vontade” como esta para o “amigo” nada próximo.

Os usuários do site IMDb deram uma nota razoável para Tummien Perhosten Koti: 7,3.

Este é o quarto filme do diretor Dome Karukoski – que, inclusive, faz uma “pontinha” na história ao interpretar um dos policiais do filme. O interessante é que ele tem uma carreira bem curta: estreou no cinema como diretor há apenas 5 anos com dois curtas-metragens – e há apenas três anos fazendo longas. E já tem outro filme para ser lançado em 2009: Kielletty Hedelmä, batizado como Forbidden Fruit para o mercado internacional – algo como Fruta Perdida. Aos 32 anos ele realmente parece um nome a se ter em conta no mercado competitivo mundial.

Obviamente o trabalho do diretor de fotografia Pini Hellstedt não será indicado ao Oscar, mas bem que ele merecia. Foi uma das melhores fotografias para o cinema que eu vi neste ano.

No final o filme faz meio que um “discurso” pedindo o apoio para jovens infratores… afinal, normalmente, eles são fruto de lares desequilibrados, de violência e de uma vida bruta. A verdade é que, exceto por raríssimas exceções, as crianças e jovens “infratores” que nos circundam atualmente precisavam mesmo é que suas idades fossem respeitadas e que eles tivessem menos dureza na vida, menos “ferro e fogo” e crueldade lhes pressionando. Sei que é cada vez mais difícil ver crianças tendo espaço para serem crianças e jovens tendo espaço para se desenvolverem sem o consumismo e a ganância como mote principal, mas essa rota “menos acelerada” seria o ideal e o caminho.

Faltam realmente oportunidades para as pessoas, e isso é uma lástima.

CONCLUSÃO: Um filme muito bem acabado e com uma boa dose de sensibilidade sobre jovens “infratores” e problemáticos que passam por uma experiência de “correção” de seus caminhos e de busca de oportunidades. Com uma fotografia impecável e com interpretações regulares – com dois ou três atores que se sobresaem -, é um filme interessante também sobre a loucura que pode ser vivida em alguns lares. Uma produção que aborda de forma curiosa também problemas conjugais sérios, como o ciúme doentio e a infidelidade, assim como o alcoolismo e a descoberta da sexualidade. Interessante e acima da média, especialmente por suas qualidades técnicas.

PALPITE PARA O OSCAR 2009: Acho difícil o filme ser finalista na categoria de filme estrangeiro. Ainda que tecnicamente falando ele é praticamente impecável, lhe falta um pouco mais de força nas interpretações e um pouco de criatividade no roteiro. No final, não deixa de ser um filme bonito e tocante, mas lhe falta talento e fôlego. Dos filmes que eu vi até agora e que são pré-candidatos ao Oscar, é o que tem menos chances de chegar lá porque lhe falta força no roteiro.

NOTA DA PRODUÇÃO: Agora que atualizei o texto e voltei da minha semana de “férias”, resta deixar por aqui o desejo de um 2009 maravilhosamente melhor que este ano que está terminando.

To Verdener – Worlds Apart

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Tem filmes realmente potentes. Alguns, pelo tema tratado na história. Outros, pela forma, pela capacidade narrativa e pela excelência no uso dos recursos cinematográficos. Outros, ainda, pelo “magnetismo”, pela junção perfeita entre história, interpretação e narrativa. Para mim, To Verdener, o concorrente dinamarquês a uma vaga no Oscar 2009, consegue reunir todos estes quesitos. Fiquei realmente maravilhada com o filme. Este é o segundo título dos pré-candidatos a Melhor Filme Estrangeiro do próximo Oscar que assisto. E ainda que eu saiba que Gomorra é um filme mais potente que este, To Verdener realmente me conquistou. O tema que ele trata é polêmico – mexe com a religião. Mas o filme me conquistou não apenas em contar uma realidade que eu desconhecia – o mesmo mérito de Gomorra – mas, especialmente, pelo carisma de seus atores e pelo trabalho dos roteiristas e do diretor.

A HISTÓRIA: A família de Sara (Rosalinde Mynster) é Testemunha de Jeová. Eles vivem os preceitos da religião à risca, participando semanalmente de suas reuniões congregacionais, pregando em visitas à residências, mantendo-se afastados de tudo que “faz Deus infeliz”. O primeiro problema na família surge quando o pai de Sara, Andreas (Jens Jorn Spottag), admite adultério e a esposa dele, Karen (Sarah Boberg) não aceita o arrependimento dele e resolve se separar. Andreas acaba sendo apoiado pelos filhos, Sara, Elisabeth (Sarah Juel Werner) e August (Jacob Ottensten). Mas o maior problema ainda está por surgir: Sara conhece Teis (Johan Philip Asbaek) em uma festa com a amiga Thea (Catrine Beck) e acaba se apaixonado por ele, o que coloca em risco a sua permanência na comunidade de Testemunhas de Jeová e, por consequência, a sua relação com os familiares.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta os trechos principais do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a To Verdener): O filme é daqueles que vai crescendo conforme o tempo passa. O que é um ponto bastante positivo e nem sempre “óbvio”, já que ultimamente o que se vê muito por aí são filmes com uma “barrigada” no meio (ou seja, uma parte bem desinteressante seguida do “gran finale”) ou muitos altos e baixos na história. Bem, sem falar os filmes que vão ladeira abaixo lá pelas tantas e terminam em total decepção. To Verdener não é nada disso.

O roteiro de Steen Bille e do diretor Niels Arden Oplev segue o Bê-a-bá de qualquer história e vai apresentando a realidade aos poucos. Para a sorte do espectador, não existe nenhum grande “discurso” sobre a realidade das famílias Testemunhas de Jeová. Ok que Sara explica, aqui e ali, sobre a sua religião para Teis e seus pais, mas na maior parte do tempo simplesmente acompanhas o dia-a-dia daquelas pessoas. Imagino o quanto o filme pode chocar as pessoas que seguem a religião retratada… isso se elas terão a permissão para ver o filme, não é? Mas os que assistirem, acredito, verão muito de suas realidades – ou de histórias que escutaram na Igreja – no filme.

Não conheço muito sobre os preceitos dos Testemunha de Jeová. Sei o que a maioria sabe: que eles não permitem a transfusão de sangue e que, por isso, várias pessoas já morreram para respeitar a sua fé. Também sabia que eles acreditam no Armagedom e que apenas serão salvos – ou continuarão vivos pela eternidade – os que acreditam em Jeová. Mas eu não sabia, por exemplo, que as pessoas que não seguem o que os “anciãos” pregam e os preceitos da religião podem ser expulsos e, quando isso acontece, ninguém da “comunidade” pode falar ou ter contato com eles. E isso inclui os seus familiares. Fiquei ainda mais espantada com isso. Isso que eu chamo de levar a religião ao extremo. Em resumo: ou você aceita o que lhe é dito sem questionar ou você é obrigado a ficar longe das pessoas que são a base de sua existência – no caso de Sara, dos pais e dos irmãos. Que tipo de amor e de fé pode aconselhar algo assim?

Também fiquei surpresa ao saber que eles são proibidos de votar e de participar do serviço militar. Também não podem celebrar aniversários (???). Claro que o filme não trata com profundidade todos os temas – não entendi, por exemplo, porque eles são proibidos de votar. Ainda bem, porque a idéia da história não é fazer um discurso contra ou à favor da religião, mas dramatizar uma história real e focar dois pontos, em especial: a família e a busca pela “verdade” típica da juventude.

O primeiro momento importante do filme é quando Andreas admite que foi infiel. Ele manipula de tal maneira as filhas que elas acabam ficando do lado dele – mesmo quando foi ele quem provocou a falta de confiança da mulher. Ele acaba sendo tão covarde que, junto com a mulher, coloca os filhos em uma situação absurda: a de decidir quem deve continuar na casa da família e, consequentemente, com quem eles querem ficar. No fundo, a mãe de Sara tem dúvidas sobre a vida religiosa que está seguindo – mas, sabendo o que acontece com quem deixa o grupo, ela não tem coragem de sair e ser proibida de ter contato com os filhos. (SPOILER – não leia se realmente não viu ao filme). Entendo a atitude dela especialmente pela experiência de ter sido separada do filho mais velho, Jonas (Thomas Knuth-Winterfeldt).

Mas o grande mérito do filme, além da história bem contada, são as interpretações. Especialmente da protagonista, vivida pela talentosíssima e carismática atriz Rosalinde Mynster. A garota realmente rouba a cena. Interpreta todos os nuances da personagem com suavidade e de maneira natural. E olha que o papel dela não é nada fácil. Afinal, ela está dividida entre a fé e a emoção, entre o que aprendeu desde o berço e o que está descobrindo por conta própria ao ter contato independente com o mundo. Ela faz um dueto realmente afinado com o ator Johan Philip Asbaek, que também tem carisma. Além deles, o ator Jens Jorn Spottag dá uma lição de competência. Na verdade, todos os atores em cena estão muito bem.

Fiquei especialmente chocada com a mudança que Sara acaba fazendo na própria vida. Toda a dissimulação orquestrada por ela – com a ajuda do irmão mais velho – para simular que ela estava vivendo com a mãe e não com Teis. (SPOILER – Não leia se não assistiu ao filme). Mas chega um momento em que ela percebe que não vai conseguir ficar com ele, porque a pressão sobre o casal é muito grande… o surpreendente, contudo, é que ela não volta atrás, como o irmão mais velho, mas decide enfrentar o mundo sozinha. Realmente ela teve muita coragem e, mais que isso, muita maturidade para tomar esta atitude. Ainda que, admito, eu gostaria de ver ela dando certo com o Teis – afinal, eles ficaram tão bem juntos. 😉

NOTA: 9,2.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Sei que muitos vão olhar para esta nota e dizer: “Mas então ela achou To Verdener melhor que Gomorra?”. Bem, sei que Gomorra é um filme muito mais pesado e inovador que este To Verdener, mas acho os dois muito corajosos – cada um a seu estilo e com sua temática. E a verdade é que para mim é inevitável dizer que simpatizei mais com este filme dinamarquês do que com o italiano. Sei lá, mas nesta comparação eu acho que vou ser mais “tradicionalista” – me incomodou um pouco, para ser franca, o tom “ficção-documentário” de Gomorra e a crueza de suas imagens. Não pela violência em cena, mas pelo tom de quase “amadorismo”. Também acho que é um filme mais difícil de ser “acompanhado” do que este To Verdener, que tem narrativa bem simples e bem feita.

Falando do sucesso do filme enquanto narrativa, faltou falar antes do trabalho do diretor Niels Arden Oplev. Ele realmente consegue, como maestro desta obra, orquestrar muito bem os atores e, com a ajuda do diretor de fotografia Lars Vestergaard, conseguir algumas cenas muito bonitas plasticamente.

Além dos atores já citados, queria destacar o trabalho de Anders W. Berthelsen como John, um dos principais “anciãos” da congregação retratada. Impressionante o trabalho dele.

Falando em impressionante, algo que achei bastante curioso: o quanto os Testemunhas de Jeová são desconfiados a respeito de seus membros e, especialmente, das pessoas que tentam se aproximar deles. Prova disto é a maneira com que Teis é recebido pelas pessoas quando ele tenta entrar na congregação.

Segundo as notas de produção do filme, o diretor Niels Arden Oplev se graduou na Escola Nacional de Cinema da Dinamarca em 1989 – ele tem 47 anos. A estréia de Oplev como diretor ocorreu com o curta-metragem Nogen, de 1992. Em 1996 ele filmou Portland, um drama estrelado porAnders W. Berthelsen (a parceria dos dois é antiga). Com Portland ele chegou até o Festival de Berlim. Seu segundo filme, Fukssvansen, de 2001 (também com Berthelsen), foi consagrado pelo festival de cinema dinamarquês.

Niels Arden Oplev também dirigiu séries televisivas consagradas, como Rejseholdet (ou Unit One) e Ornen: En Krimi-odyssé (ou The Eagle) – ambas premiadas com o Emmy. O último filme dele antes de To Verdener, Drommen, de 2006, foi o filme mais assistido em seu país naquele ano e recebeu, de quebra, o Urso de Cristal no Festival de Berlim – além de outros 15 prêmios. E, para variar, Berthelsen estava na produção. Nada mal a quantidade de prêmios do diretor, hein? Mas o mais bacana é que ele vai trabalhar agora no primeiro filme da trilogia baseada na obra The Millenium do escritor Stieg Larsson. Fiquem de olho nele! O homem vai longe.

O filme deixa claro, do crédito inicial até o final, que é baseado em uma história real. Mas eu não sabia que ele tinha sido inspirado em um artigo de jornal que contava a história de Tabita, uma adolescente de 17 anos que resolveu quebrar com as tradições dos Testemunhas de Jeová ao escolher o amor e a liberdade no lugar dos preceitos de sua religião.

O filme se saiu bem na avaliação dos usuários do site IMDb: conseguiu a nota 7,1. Como sempre acontece com os filmes estrangeiros, fui consultar o site Rotten Tomatoes sem muitas esperanças de encontrar várias críticas a respeito de To Verdener, mas para a minha surpresa, não encontrei texto algum. Isso já dá uma “palhinha” das chances do filme no Oscar, não é mesmo? Se nem os críticos sabem a respeito dele… Por outro lado, gostei das discussões a respeito dele em comunidades de religiosos – ou seria de “ex-Testemunhas de Jeová” – como esta.

Pontos fortes do filme: o momento da “confissão” de Sara com os “anciãos” e o diálogo final dela com o pai. Realmente, magistral o debate sobre o “egoísmo”, não? Pessoalmente, adorei.

O filme estreou no Festival de Berlim deste ano e ganhou o Prêmio Signis no Festival Internacional de Cinema de Tróia, promovido na cidade de Setúbal, em Portugal. Pouco conhecido o prêmio este, o que faz o filme perder força para chegar ao Oscar.

Algo que me impactou muito no filme foi a força da personagem de Sara. Afinal, ela quebrou com todos os preceitos e dogmas por ela aprendidos até então, se separando de tudo e de todos. Isso que eu chamo de uma libertação total – e raríssima de acontecer.

Outro ponto curioso do filme: o eterno “perdão” dos dissidentes. Quer dizer que a pessoa pode cometer o erro que for que, se afirmar que está arrependida, pode voltar a ser aceita como se nada tivesse acontecido? E os que questionam algo ou querem saber além do que é pregado pela sua Igreja devem ser afastados do convívio comunitário? Curioso, não?

O único ponto forçado do filme, para mim, foi o antagonismo dos pais de Teis com a realidade Sara. Afinal, eles precisavam ser ateus e confrontar tanto a garota? Nem tanto o pai, mais a mãe do garoto. Achei os comentários dela normalmente um bocado violentos e preconceituosos com a religião de Sara – como quando comenta que eles são uma “seita”. Independente de concordar ou não com eles, mas achei um pouco pesada a atitude dela.

Achei curioso também o “movimento desesperado” de Sara para “equilibrar” a sua certeza na fé depois de ter sido tão profundamente abalada pela paixão por Teis. Me refiro ao momento em que ela decide ser missionária – incluindo seu curto discurso em uma convenção anual com centenas de pessoas. Era uma maneira dela de seguir em algo que, no fundo, ela não acreditava mais – mas que tentava seguir para não se separar de sua família.

Rosalinde Mynster deve ter herdado o seu talento… ela é filha dos atores Karen-Lise Mynster e Soren Spanning (ambos já haviam trabalhado com Niels Arden Oplev em suas séries).

Dizem que a religião Testemunhas de Jeová foi uma das mais perseguidas do século 20… que coisa louca, não? Afinal, independente de se acreditar ou não no que eles dizem e pregam, mas eles não são piores do que outras religiões para serem perseguidos.

CONCLUSÃO: Um filme polêmico sobre os bastidores da vida dos Testemunhas de Jeová. Bem equilibrado na narrativa, ele se baseia na história real de uma jovem de 17 anos que se viu dividida entre a vida na comunidade em que foi criada e a vontade de relacionar-se com um garoto que não era de sua congregação. Com atuações realmente inspiradas e uma direção cuidadosa, o filme vai crescendo com o tempo e se mostra naturalmente humano e cheio de coragem.

PALPITE PARA O OSCAR 2009: Dificilmente To Verdener chegará a figurar entre os cinco indicados para o prêmio. Primeiro, porque não parece estar sendo muito assistido pela crítica nos Estados Unidos. Depois, porque ele não vêm “fortificado” por prêmios em festivais internacionais, diferente de seus concorrentes Gomorra, Entre Les Murs, e outros. Também acho difícil o Oscar ter coragem de indicar e, principalmente, premiar um filme que “critica” uma religião – ainda que, na verdade, To Verdener não faz nenhuma crítica escancarada, apenas retrata uma realidade que se critica por si mesma. De qualquer forma, pessoalmente, acho que o filme deveria chegar a ser indicado… mas, na prática, acredito que isso não vai acontecer. Por gosto pessoal, quase prefiro ele que Gomorra – ainda que o filme italiano seja muito mais complexo, duro e melhor escrito que To Verdener.

ATUALIZAÇÃO (em 4/1/2009): Para quem leu esse texto antes e agora viu que eu baixei a nota dele, vou me justificar: depois que eu assisti a Milk e resolvi dar para ele a note 9,5, pensei que outros filmes comentados aqui antes estavam supervalorizados, como este To Verdener. Por isso resolvi dar uma nota que eu achei mais justa para ele e os demais filmes que haviam ganho uma nota bem elevada nos últimos tempos.

Eagle Eye – Controle Absoluto

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Um conceito indiscutível atualmente – mais do que em qualquer outra época da nossa trajetória humana – é de que toda ação provoca uma reação. Ou, em outras palavras, que cada gesto, cada atitude, cada ato provoca mudanças ao nosso redor que acabam transformando tudo – ou, pelo menos, muitas coisas. Pois Eagle Eye começa com essa idéia, de que uma decisão sobre o terrorismo pode levar não apenas a muitas mortes de civis mas, pior que isso, a um intricado plano de ataque mortífero no território teoricamente mais seguro do planeta: os Estados Unidos. E envolvendo civis aparentemente inocentes.

A HISTÓRIA: O governo dos Estados Unidos busca um procurado terrorista em um território inóspito no Oriente Médio. Mesmo utilizando os recursos mais avançados de espionagem, eles conseguem uma confirmação de apenas 51% da identidade de Majid Al-Khoei. Na hora H o presidente (Madison Mason) decide atacar – mesmo indo contra o parecer do secretário de Defesa George Callister (Michael Chiklis) -, o que acaba criando uma crise internacional e uma série de ataques terroristas contra embaixadas norte-americanas em vários países. Inesperadamente, o jovem atendente de uma loja de fotocópias, Jerry Damon Shaw (Shia LaBeouf), e a assistente legal e mãe de um garoto (Cameron Boyce) que estuda música, Rachel Holloman (Michelle Monaghan), se vêem envolvidos em um complexo plano para atacar figuras fundamentais do poder norte-americano.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir estraga as surpresas principais do filme, revelando momentos importantes da história, por isso indico que continue a ler apenas quem já assistiu a Eagle Eye): Adoro filmes que parecem uma coisa e se mostram outra completamente diferente. Inicialmente este Eagle Eye parecia um enredo de plano anti-terrorista e a devida represália dos “inimigos” dos Estados Unidos. Ledo engano. O filme é bem mais interessante do que isso.

SPOILER – Realmente não siga lendo se não assistiu ao filme e se não quiser estragar as principais surpresas dele. Quando o enredo passou de ser apenas um jogo de Estados Unidos versus Terroristas e passou a trazer para os dias atuais de paranóia a figura de um super-computador como o HAL 9000, do clássico 2001 – Uma Odisséia no Espaço, de Stanley Kubrick, eu ganhei o meu dia. Achei fantástica essa “adaptação” realista daquela figura onipresente e onisciente tão conhecida para os dias atuais. Eagle Eye acaba transportando para o cinema também a paranóia de muita gente sobre a capacidade cada vez maior do controle social através de celulares, cartões de banco e computadores, para citar apenas os bens mais “rastreáveis”. No fundo, o filme é um prato cheio de idéias bastante exploradas em outros meios – filmes, livros, estudos científicos e “teorias da conspiração” – que, misturadas, se transformam em um interessante enredo de ação e suspense.

Não é todos os dias – e, na verdade, algumas vezes não é nem uma vez por semestre – em que encontramos um filme de ação realmente inteligente. E, dizendo isso, não quero dizer que ele seja complexo demais ou cheio de “discursos”, mas que ele tem boas idéias apresentadas de maneira convincente e, o melhor, sem estragar o ritmo dos filmes do gênero. Pois Eagle Eye consegue essa façanha. Mérito dos roteiristas John Glenn, Travis Wright, Hillary Seitz e Dan McDermott (este último o autor também da idéia original que gerou o posterior roteiro) e, principalmente, do diretor D.J. Caruso.

O filme realmente tem um ritmo eletrizante e instigante. Por boa parte do tempo você realmente acredita que Jerry Shaw e Rachel Holloman estão sendo vítimas de um grupo de terroristas eficaz. Até um certo ponto, inclusive, temos dúvida se Shaw, especialmente, é o rapaz que diz ser – um “sem futuro” que trabalha em uma loja chamada Copy Cabana – vamos combinar que este nome é de rolar de rir. Ninguém pensou no trocadilho com Copacabana? Hilário!

A dúvida sobre Shaw não dura muito. Acho que, mais precisamente, dura até o envolvimento de Rachel Holloman no jogo de gato-e-rato. Afinal, ela realmente não tem nenhum perfil para ser terrorista. E daí entra em cena outra idéia ainda mais complicada: de que qualquer pessoa pode ser “acionada” de uma hora para a outra e obrigada a seguir ordens para salvar a própria pele – ou a de outras pessoas. Uma idéia um tanto exagerada, é verdade, mas que acaba sendo convincente no filme. 😉

Mas o bacana mesmo é quando entra em cena o supercomputador Ária. Desenhado para ser o “cérebro pensante” que controla todas as informações de civis disponíveis eletronicamente, Ária foi criado para ajudar o governo estadunidense em controlar a defesa em seu próprio território e auxiliar nas decisões de segurança nacional. Mas como ocorreu com o famoso HAL 9000, Ária “sai dos trilhos” quando analisa os erros humanos e decide, por sua conta, tomar as rédeas da situação. Claro que não vamos exagerar… Ária não tem a complexidade de HAL 9000 e nem Eagle Eye tem a filosofia de 2001 – Uma Odisséia no Espaço. Mas realmente é interessante ver uma adaptação daquela idéia para a vida “normal” e praticamente possível desta fobia pela segurança dos Estados Unidos.

Vale um capítulo à parte algumas das várias referências do filme. Começando pelos “codinomes” utilizados no início de Eagle Eye: Valhalla, Thor e Loki. Todos com origem em lendas nórdicas. Valhalla, uma palavra menos conhecida do “trinômio de identidades”, seria o lugar, na mitologia nórdica ou escandinava, onde os guerreiros vikings eram recebidos depois da morte. E os outros dois nomes… para os fãs de HQ’s eles são velhos conhecidos: Thor e Loki são os filhos de Odin, o “Deus supremo de Asgard” (o céu dos nórdicos). E mesmo Ária… o nome não tem origem nórdica, mas musical. Ela se refere a uma composição escrita para um solista. Nada mais propício nesta história, verdade?

O interessante do filme é que ele acaba mexendo em vários elementos possíveis. Vejamos: não seria a primeira vez que os Estados Unidos atacam um alvo sem ter certeza sobre possíveis culpados. Também não seria algo inédito que, após um ataque equivocado, embaixadas e outros alvos civis norte-americanos fossem atacados como retaliação por homens-bomba ou por terroristas. Também se sabe que governos como o dos Estados Unidos gasta bilhões de dólares por ano para investir em sistemas de informação, tecnologia e monitoramente de dados. Há quem especule que um computador como o Ária está quase em funcionamento. Ele ainda é ficção… ainda.

Finalmente assisti a um filme com Shia LaBeouf que eu gostei. Em Eagle Eye ele acaba “interpretando” um papel duplo: dos gêmeos Jerry e Ethan. Ok que, no final, Ethan praticamente não aparece na história. Mas apenas a interpretação dele de Jerry vale o dinheiro que lhe pagaram. Gostei também de Michelle Monaghan. Mas o curioso mesmo foi ver nomes como Billy Bob Thorton e Rosario Dawson em papéis coadjuvantes. Pois sim… Billy Bob Thorton interpreta o agente do FBI Thomas Morgan, enquanto Rosario Dawson interpreta Zoe Perez, do setor de Investigações Especiais da Força Aérea – da qual fazia parte Ethan Shaw.

As única “barrigadas” do filme, para mim, ocorrem depois que o “mistério” é desvendado. Ou seja: a operação um bocado desesperada de Zoe Perez e do Major William Bowman (Anthony Mackie). Aliás, eu diria que os ataques da dupla contra Ária e a “defesa” dela são os únicos momentos praticamente “dispensáveis” do filme. O restante está bem costurado e acaba ficando interessante na história – exceto talvez o final dos “tiros para o ar”, um tanto “antiquado” e previsível demais. Aliás, alguém poderia me explicar porque nos filmes eles nunca atiram nas cabeças das pessoas?? 😉 Também achei um pouco ridícula a “facilidade” do acesso de Jerry até o local da apresentação dos músicos mirins… ok, não se pode pedir lógica todo o tempo em um filme de ação, mas eles estavam indo tão bem até ali…

No geral, o filme é muito bom e acima da média do gênero. Não por acaso um dos produtores de Eagle Eye é o “visionário” Steven Spielberg. Vale citar o trabalho mais que competente do diretor de fotografia Dariusz Wolski e do compositor Brian Tyler. Gostei também da edição correta de Jim Page.

NOTA: 9.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Eagley Eye custou um bocado para os estúdios envolvidos na produção:  a “bagatela” de US$ 80 milhões. Mas o filme mandou bem e conseguiu lucrar… apenas nos Estados Unidos ele faturou pouco mais de US$ 100 milhões. Somado a isto temos que somar o restante da bilheteria no mundo e, com certeza, o sucesso que o filme fará nas videolocadoras.

D.J. Caruso tinha filmado antes Disturbia, outro filme estrelado por Shia LaBeouf – que eu ainda não assisti, mas está na minha lista. Antes ele dirigiu a Two for the Money, com Al Pacino e Matthew McConaughey. Mas o forte dele até hoje foi, realmente, as produções para a TV – incluindo séries como The Shield e Smallville. Acho que ele tem futuro.

Por sua vez, o homem “por trás” da idéia original do filme e um de seus roteiristas, Dan McDermott, estreou nos roteiros com este filme. Antes ele tinha escrito 13 episódios da série Angela’s Eyes.

Mas se o filme foi razoavelmente bem de bilheteria, não se pode dizer o mesmo a respeito da crítica… os usuários do site IMDb conferiram apenas a nota 6,8 para o filme, enquanto que os críticos que têm textos publicados no Rotten Tomatoes dedicaram 116 críticas negativas e apenas 43 positivas para a produção. Especialmente os críticos torceram o nariz para o filme.

Eagle Eye é uma co-produção da Alemanha com os Estados Unidos, mas foi todo filmado no segundo país – com locações na Califórnia, em Chicago (Illinois) e na Flórida.

Algo que não comentei antes: ainda que o “mote” principal de Eagle Eye não seja esse, mas o filme acaba tratando um bocado do tema “família” na história, seja pelo personagem de Jerry Shaw, seja pelo de Rachel Holloman. Ambos lutam para preservar os seus laços familiares, ainda que tentem fazer isso preservando muito o seu espaço e “liberdade”.

Curioso que as notas de produção do filme declaram que a idéia original de Eagle Eye surgiu há vários anos na cabeça de Spielberg. O diretor, contudo, mesmo fascinado pela idéia de que a “tecnologia está em tudo”, não teve a coragem de produzir este filme antes porque achava que ele pareceria muito “ficção científica”. Acho que ele teria conseguido um efeito muito melhor se tivesse “adiantado” uma tendência. Agora, o filme parece quase previsível demais. Curioso também que Spielberg tinha planejado filmar Eagle Eye mas que, ao se envolver no novo Indiana Jones, ele acabou entregando o projeto para o diretor do sucesso Disturbia – filmado pela DreamWorks, estúdio do qual ele é sócio.

Para muitos – como para mim – a aparição de Shia LaBeouf foi algo meteórico. Mas buscando mais informações sobre o ator reparei que ele tem 10 anos de carreira… começou a trabalhar mais “seriamente” em 1998 ao contracenar no filme para a TV da Disney Meu Amigo Einstein. Depois, ainda na Disney, ele estrelou a série Mano a Mana que lhe rendeu, em 2003, um Emmy por melhor atuação em série de TV dramática. Quem diria!! Ainda assim, segundo sua biografia, LaBeouf começou a carreira aos 11 anos quando contratou um agente para ajudá-lo a trabalhar – a vocação teria surgido antes, aos três anos, quando “interpretava” papéis para distrair os pais em casa.

Eagle Eye ganhou um prêmio que eu nem sabia que existia: “melhor equipe de trabalho” no California on Location Awards, um prêmio criado em 1994/1995 que celebra o trabalho de excelência dos profissionais locais.

Não sei se eu fui a única a ficar me perguntando: “Mas realmente o gêmeo Jerry Shaw poderia se passar pelo irmão em uma identificação como a que pede Ária?”. A verdade é que fui buscar mais informações e os chamados gêmeos monozigóticos possuem, realmente, uma carga genética idêntica. Mas daí ao tom de voz e tudo o mais ser identificado como igual pela máquina… não tenho tanta certeza se isso é possível. Mas ok, não vou complicar mais a análise deste filme – ou seja, uma obra de ficção e que não precisa ser “plausível”.

CONCLUSÃO: Um competente filme de ação sobre o potencial de erros da política de defesa dos Estados Unidos e os possíveis efeitos que podem acarretar a partir destes equívocos. Um filme que trata sobre terrorismo na mesma medida que aborda o uso da tecnologia para o controle “social” ou de “massas” com a desculpa de preservar a segurança de algumas nações. Eagle Eye acaba se mostrando um filme com ritmo e, ao mesmo tempo, com bastante inteligência. Tem interpretações condizentes com a história e uma condução técnica muito boa. Recomendado especialmente para quem assistiu a 2001 – Uma Odisséia no Espaço de Stanley Kubrick. 🙂

ATUALIZAÇÃO (em 4/1/2009): Para quem leu esse texto antes e agora viu que eu baixei a nota dele, vou me justificar: depois que eu assisti a Milk e resolvi dar para ele a note 9,5, pensei que outros filmes comentados aqui antes estavam supervalorizados, como este Eagle Eye. Por isso resolvi dar uma nota que eu achei mais justa para ele e os demais filmes que haviam ganho uma nota bem elevada nos últimos tempos.