O Som ao Redor – Neighboring Sounds

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Todo esse som que nos rodeia também nos define. E não é pouco barulho. Afinal, escolhemos o local onde vivemos, correto? Sim e não. Como bem reflete O Som ao Redor, muitas vezes vivemos onde decidimos morar e, outra vezes, herdamos esse ambiente que acaba nos afetando diretamente. Diferenciada na narrativa, esta produção brasileira, indicada para concorrer a uma vaga no próximo Oscar de Melhor Filme Estrangeiro, surpreende nos detalhes, mas não tem o impacto que se espera de um filme vencedor.

A HISTÓRIA: Vários sons tomam conta da cena. Barulho de bichos, de caminhão freando, e aparece na tela os créditos do elenco, naquele estilo conhecido nos anos 1950 e 1960. Entra a trilha sonora, marcante. E surgem as primeiras cenas. Fotografias em preto e branco que mostram uma comunidade de trabalhadores, vastos campos e uma fazenda. Destas fotografias, passamos para duas crianças brincando.

A menina anda de patins “perseguindo” o garoto que anda de bicicleta. Eles brincam em um condomínio fechado onde estão outras crianças e alguns adultos. Algumas crianças observam um trabalhador. Em seguida, diversas cenas urbanas. Dentro de um apartamento, João (Gustavo Jahn) corre junto com Sofia (Irma Brown) para o quarto com a chegada da empregada Mariá (Mauricéia Conceição). Estas e outras histórias vão ser contadas no filme dividido em três partes.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a O Som ao Redor): Gostei demais do início deste filme. Mesmo sem aquelas fotos preto e branco fazerem sentido por boa parte da história, eu sabia que em algum momento saberíamos porque elas abriram a produção. E achei muito interessante a escolha de começar o filme apenas com diferentes tipos de som, deixar entrar a trilha sonora vigorosa de DJ Dolores e, em seguida, nos apresentar para aqueles “mundos tão diferentes” das fotografias do passado, estáticas e sem cor, e o presente colorido e movimentado de uma tarde de brincadeiras de crianças. Antagonismos que veremos em muitos momentos desta produção.

Logo percebemos também que as cenas urbanas e os sons que habitam o cotidiano de qualquer pessoa nestes cenários terão protagonismo na produção. Para quem já se aventurou recentemente a ir por aí na cidade sem música no carro ou no fone de ouvido ao pedalar ou andar, sabe que chega a ser assustadora a orquestra de sons que temos ao nosso redor. São dos mais variados possíveis. Criando, eles também, os efeitos mais diferentes nas pessoas.

Quem não está acostumado a andar com música o tempo inteiro – o que é o meu caso, porque sempre tenho alguma canção rolando no carro, quando dirijo, ou som no MP3 quando pedalo ou vou por aí – pode até sofrer com o estresse provocado pela poluição sonora urbana. No caso de O Som ao Redor, essa poluição nem é mostrada. Ela aparece aqui e ali, mas raramente misturada. Quase sempre cada som tem o seu espaço, como em uma sinfonia.

Apesar do cenário e da trilha sonora serem essencialmente urbanas neste filme, é no passado do interior, em uma fazenda onde antigamente existia um engenho, que surge a “alma” da história. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Com isso, não me refiro apenas ao segredo que será revelado no final, da vingança que motiva dois personagens importantes para a história, mas também às condições desiguais das pessoas que orbitam O Som ao Redor.

O legado de Francisco (W.J. Solha), antigo senhor de engenho, ajuda a definir parte da vida dos herdeiros, principalmente dos netos João e Dinho (Yuri Holanda), que tem papel relevante na trama, assim como de um bairro praticamente inteiro do Recife, onde essa história está ambientada. Mesmo sem o poder que tinha outrora, quando comandava um batalhão de empregados e tinha um capataz para fazer o serviço sujo, Francisco segue tendo o poder dado pelo dinheiro. Um tanto extravagante, ele aparentemente faz o que quer e quando quer. Inclusive a ponto de acobertar o neto bandido.

Através do personagem de João, que vende apartamentos, o público de fora do país pode perceber como, de fato, muitas partes do país estão mudando o perfil de suas cidades. O processo de verticalização não é algo isolado em Recife, mas um fenômeno que está ocorrendo em diversas cidades de médio porte – nas de grande ele está se espalhando para bairros onde antes o que predominavam eram residências.

Assim como achei interessante aquele começo cheio de significados e escolhas estratégicas do diretor Kleber Mendonça Filho, gostei dos detalhes dos créditos. Tanto os iniciais quantos os finais fazem lembrar os filmes antigos, especialmente os dos anos 1960. Mas essas referências também criam um problema. Afinal, esses créditos iniciais e o próprio começo da narrativa me fizeram acreditar que veríamos um filme mais denso, que resgataria a tradição de filmes tensos e que contam a história de um mistério que será revelado com uma ou duas reviravoltas no caminho.

O fato do filme ser dividido em três partes também me fez acreditar que teríamos estágios bem marcados, e história praticamente isoladas que conversariam entre si. Que nada. Boa parte de O Som ao Redor fala do vazio cotidiano. Há tédio, insegurança e insatisfação espalhados por diversas partes. João, por exemplo, odeia o próprio trabalho e parece ter dificuldade em manter um relacionamento por muito tempo. O primo dele, Dinho, vive uma vida confortável e pratica pequenos crimes para ter alguma “diversão” frente a falta de vontade de fazer outra coisa.

E há ainda a personagem que ganha atenção de grande parte desta trama. Bia (Maeve Jinkings) é uma dona de casa que fica praticamente o dia inteiro enfurnada dentro de casa. Em um local com grades, portões trancados, ela se mantém trancada tendo como principais passatempos arranjar formas de controlar o cachorro do vizinho que vive latindo, fumar maconha sempre que pode e dar alguma disciplina para o casal de filhos. O marido dela (Dida Maia) aparece pouco e praticamente não tem voz no filme. Bia parece ser incapaz de dar muito afeto, mas também sabemos pouco sobre ela – apesar do espaço enorme que ela tem no roteiro do diretor.

Menos interessante dos personagens da trama, Bia parece ter tanta relevância no filme para nos mostrar que a “nova” classe média brasileira vive aprisionada e sem muitas aspirações além daquela de comprar uma televisão nova, preferencialmente maior que a do vizinho, e de apostar em novidades importadas para resolver os problemas do cotidiano. É a vida ordinária de quem conseguiu algum conforto e faz de tudo para esconder os seus pequenos “pecados” dos demais – vide o aspirador para disfarçar a fumaça e a cortina fechada durante a masturbação com a máquina de lavar.

Mesmo sendo uma crítica interessante da classe média de jovens casais, o espaço que foi dado para Bia e família me pareceu exagerado. Aliás, acho o filme longo demais. Outras histórias, como a dos seguranças que acabam cobrando dos vizinhos uma taxa para manter aquelas ruas mais seguras ou mesmo a de João, Sofia e Francisco, que parecem mais interessantes, acabam perdendo espaço. Assim, sabemos menos do que deveríamos do passado do engenho, por exemplo, ou mesmo sobre a figura de Sofia.

Um elemento presente do início até o fim da trama é a insegurança. E com ela, os artifícios, a maioria deles inútil, aos quais as pessoas recorrem para se sentirem um pouco mais seguras. A primeira parte de O Som ao Redor, intitulada “Cães de guarda”, apresenta a vida dos personagens principais da trama e marca a chegada de Clodoaldo (Irandhir Santos) na vizinhança. Até o início do serviço prestado por ele e seu grupo, as figuras mostradas pela produção viviam na busca por pequenos prazeres enquanto se esquivavam dos contratempos provocados pela violência – seja ela o furto do aparelho de CD de um carro, seja uma agressão aparentemente gratuita de uma vizinha, como Betânia (Mariangela Valença).

Até o começo do serviço da trupe de Clodoaldo, a sugestão do roteiro é que aquela vizinhança ainda vivia uma forma primária de busca de segurança, utilizando cães – como aquele que tira o sono de Bia -, muros e uma ou outra câmera de vigilância para se proteger. Depois de quase uma hora de filme, começa a segunda parte, “Guardas noturnos”, que marca o início do trabalho de Clodoaldo, Fernando (Nivaldo Nascimento), Ronaldo (Albert Tenorio) e sua equipe no trabalho de vigilância da rua da família de Francisco e nas adjacências.

A história evolui pouco entre a primeira e a segunda parte. A grande mudança, sem dúvida, é o trabalho dos vigilantes, e a estranheza que eles despertam em alguns vizinhos. Bia, por exemplo, comenta que acha muito suspeito que dois carros foram arrombados na noite anterior à chegada deles. Nesta segunda parte, há uma sequência muito boa, que é a da reunião dos moradores do condomínio de João. A disputa das pessoas para saber quem é mais “participante” na vida comunitária e a vontade de uns em desmerecer a opinião de outros revela muito desse nosso tempo, quando as pessoas parecem competir umas com as outras a cada oportunidade – mesmo quando é para discutir a demissão de um vigilante.

Finalmente o filme entra na terceira e última parte, após quase uma hora e 20 minutos, titulada “Guarda-costas”. Daí sim, a história começa a ganhar um pouco mais em informação e interesse, com a ida de João e Sofia para as terras do antigo engenhe do avô do rapaz. Os sons daquela antiga casa de “senhor feudal”, especialmente nas dependências dos empregados, e a incursão do jovem casal por locais da cidade do interior, com destaque para a sequência do cinema abandonado, são das melhores partes do filme.

Ao retornar para aquele ambiente e caminhar com os personagens por ali, depois voltando para o centro urbano do Recife, começamos a ver as peças se juntando. Nesta terceira parte, mais que nas duas anteriores, fica ainda mais evidente as diferenças entre as classes sociais, entre os que estão na posição de “chefes” ou “empregados”. A diferença social que existia no tempo dos senhores feudais e donos de engenhos segue repercutindo na sociedade, mesmo com a ascendência da “nova classe média” brasileira.

Mas ninguém parece estar muito interessado pela vida do outro, mas sim bastante centrados em si mesmos. Exemplo disso é a família de Bia – a mãe e os filhos estão muito ocupados consigo mesmos, sem manifestarem carinho ou preocupação verdadeira uns com os outros. E isso se dissemina por quase todos os outros personagens do filme – a família de Francisco, por exemplo, mantém o costume das reuniões familiares, mas vivem cada um bastante centrado em suas próprias rotinas.

O Som ao Redor é um filme que aborda estes aspectos de forma diferente, valorizando os sentidos da audição – através do som e da trilha sonora marcante – e da visão (com sequências muito interessantes e cenas belíssimas pipocadas aqui e ali). Um bom filme, sem dúvida, mas eu esperava mais. Não apenas porque eu tinha visto que ele tinha sido selecionado para o Brasil para representar o país no próximo Oscar, mas porque eu vi que ele foi muito elogiado pela crítica internacional. Aquele começo da produção também me fez acreditar que eu veria um filme cheio de estilo e significados fortes pela frente. O trabalho de Kleber Mendonça Filho tem intenções muito claras e é bem planejado. Mas senti falta de um pouco mais de emoção ou de impacto na história.

NOTA: 9.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Excelente a direção de Kleber Mendonça Filho. Ele forja cada cena com significado, mesmo quando o que ele quer explorar, como roteirista, é o vazio das conversas desinteressantes ou o vazio do cotidiano de atos repetidos. Mas cada ângulo da câmera é bem pensado, e a dinâmica é arrastada, muitas vezes, para reforçar o sentido que Mendonça Filho quer passar. Este é o primeiro longa de ficção da carreira do diretor que, antes, em 2008, lançou o documentário Crítico, que reúne 70 depoimentos de cineastas e críticos sobre o fazer no cinema.

Após a elogiada estreia em longas de ficção com O Som ao Redor, Mendonça Filho está trabalhando no próximo longa, Bacurau, que vai dirigir ao lado de Juliano Dornelles, que atuou como designer de produção em O Som ao Redor. Previsto para ser lançado no ano que vem, o filme será um drama com roteiro dos dois realizadores. Vale acompanhá-los.

Dois elementos da parte técnica do filme são fundamentais para que O Som ao Redor tenha a qualidade que tem: a direção de fotografia de Pedro Sotero, que contou com a codireção de Fabricio Tadeu, e a já comentada trilha sonora de DJ Dolores. Na direção, destaque para as cenas amplas, especialmente nos ambientes abertos e nos ambientes internos quando Mendonça Filho quer dar a noção de amplitude e busca apresentar o ambiente em que vivem as pessoas, e para a valorização do trabalho dos atores nos momentos mais diferentes – de diálogos ou de “satisfação solitária” dos personagens.

Achei um pouco complexo, até pela quantidade relativamente grande de personagens secundários, encontrar o nome dos atores principais desta produção. Os protagonistas já foram citados por aqui. Além deles, vale comentar o trabalho de Lula Terra como Tio Anco, a quem João vai procurar para saber sobre o rádio com CD que foi roubado de Sofia; e de Clara Pinheiro de Oliveira como Fernanda, a filha de Bia. Queria ter identificado o nome do ator que faz o irmão dela, mas não consegui esta proeza.

Neste filme, é fundamental a captação dos diferentes sons ambientais e, claro, dos diálogos entre os atores. E aqui, novamente, percebo um problema que chega a ser costumeiro em muitos filmes nacionais. A captação de sons funcionou bem, mas em muitos momentos achei muito difícil entender o que os atores falavam. Algumas vezes, porque o som estava baixo. Em outras ocasiões porque o sotaque, bastante carregado em alguns casos, impediu a minha compreensão. Quase procurei uma forma de ver o filme com legendas para ter o entendimento de 100% dos diálogos. Mas não gostei dele tanto assim para repetir a dose, admito. 🙂

Boa parte das minhas atenções, desde o início de outubro, estão voltadas para o próximo Oscar. É que a Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood divulgou no dia 7 do mês passado a lista de 76 filmes que estão concorrendo a uma vaga na lista de indicados na categoria de Melhor Filme em Língua Estrangeira. Na mesma época, mais ou menos, começaram as primeiras apostas sobre fortes concorrentes que podem chegar até a reta final em algumas das principais categorias da premiação mais badalada do cinema mundial. O Som ao Redor, automaticamente, tinha entrado no meu radar.

Não será fácil para esta produção brasileira deixar pelo menos 71 concorrentes para trás – isso porque, normalmente, cinco filmes acabam sendo indicados na categoria para a qual ele está tentando uma vaga. Dos demais concorrentes, assisti apenas ao dinamarquês Jagten – para o qual publiquei esta crítica. Na comparação entre os dois, não tenho dúvidas de que Jagten é superior. Nesta preparação para o próximo Oscar, estou resgatando o tópico abaixo da conclusão, onde falo mais sobre as minhas impressões sobre as chances de cada filme.

O Som ao Redor teria custado aproximadamente R$ 1,86 milhão. Parte destes recursos veio através do apoio financeiro do Fundo Hubert Bals do Festival Internacional de Cinema de Rotterdam. A produção estreou no mesmo festival no dia 1 de fevereiro de 2012. Depois, O Som ao Redor fez um roteiro de festivais, passando por outras 12 premiações.

Neste caminho, conseguiu acumular 12 prêmios e ser indicado a outros cinco. Entre os que recebeu, destaque para os de Melhor Roteiro e o Prêmio do Júri do Festival Latino-americano de Cinema de Lleida; o Fipresci entregue pelo Festival Internacional de Cinema de Rotterdam; os de Melhor Longa Brasileiro pela escolha do público, Melhor Som e Melhor Diretor no Festival de Cinema de Gramado; o de Melhor Filme Brasileiro no Festival Internacional de Cinema de São Paulo; e os de Melhor Filme e Melhor Roteiro entregues pelo Festival Internacional de Cinema do Rio de Janeiro.

O candidato brasileiro ao próximo Oscar foi filmado totalmente em Pernambuco, nas cidades de Recife, Palmares e Vitória do Santo Antão.

Os usuários do site IMDb deram a nota 7 para esta produção. Uma boa avaliação. Os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes foram mais efusivos, dedicando 33 críticas positivas e apenas três negativas para O Som ao Redor, o que lhe garante uma aprovação de 92% e uma nota média de 7,8.

Este filme entra na lista de produções que eu estou comentando aqui no blog para satisfazer dois desejos: o meu de ver ao máximo de filmes indicados ao Oscar 2014, e o de vocês, caros leitores, que votaram em uma enquete aqui no blog pedindo para que eu fizesse mais críticas de filmes brasileiros. A lista está crescendo.

Segundo o site Box Office Mojo, Neighboring Sounds, como foi chamado O Som ao Redor nos Estados Unidos, teria faturado pouco mais de US$ 60,2 mil nas bilheterias do país que vai escolher os melhores do ano no Oscar. Um desempenho fraco, muito fraco.

CONCLUSÃO: A valorização da vida cotidiana e do ordinário ganha com O Som ao Redor uma nova dinâmica. Os desafios, os encontros, a noção de família e as alegrias do dia a dia dão substância para a história. Enquanto nos distraímos com o cotidiano de moradores de uma rua, a maioria inquilina de um velho senhor de engenho, a verdadeira narrativa se transveste em mais um fato ordinário. Assim, de forma bastante sutil, O Som ao Redor nos mostra como as relações de poder seguem fortes, mesmo em tempos de desenvolvimento mais igualitário e após a “evolução” da sociedade, e de que os fatos realmente relevantes muitas vezes são ignorados pelas pessoas em meio a tanto barulho cotidiano.

Um belo exercício de cinema, mas que é prejudicado por alguns detalhes e pela falta de um pouco mais de “alma” na produção. Bem feito tecnicamente, exceto por algumas capturas de diálogos, ele surpreende ao revelar como somos prisioneiros de fatos do passado e do presente. O filme faz refletir na frase “o inferno são os outros”, porque cada personagem está incomodado com o que vem “do lado de fora”, sem perceber que ele próprio também cria incômodo para os demais e para si mesmo. Apesar das reflexões interessantes, o filme não emociona ou provoca impacto como gostaríamos. Claro que o problema está na nossa expectativa e não no filme. Ainda assim, vejo O Som ao Redor como um ótimo exemplo do cinema brasileiro conceitual que dá certo, mas que precisa ainda ser aprimorado para chegar mais longe.

PALPITE PARA O OSCAR 2014: O Som ao Redor tem alma e estilo. Mas não acredito que tenha a história universal que costuma ser premiada em um Oscar. Claro que espectadores de diversas parte do mundo podem compreender a sensação de insegurança, as desigualdades sociais e até se identificarem com algumas das cenas urbanas mostradas no filme. Mas há outras leituras, como a da continuidade do coronelismo e a emergência de uma nova classe média no Brasil que provavelmente só serão bem compreendidas pelo público local. Isso prejudica o filme no exterior.

Também acho que prejudica esta produção em uma disputa pelo Oscar o fato dela não ser arrebatadora. Ela não emociona, durante a narrativa, o que não é obrigatório, mas também não surpreende com cenas de impacto ou reviravoltas. E um destes pontos sim, vejo como obrigatório para um filme ser bem sucedido no Oscar. Preciso assistir ainda aos outros filmes que estão concorrendo a uma vaga na lista dos finalistas ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro para poder opinar definitivamente. Mas acho, desde já, que O Som ao Redor até pode chegar na lista dos cinco, mas não tem potencial para ganhar a estatueta.

Digo isso porque o único filme que eu assisti da lista até agora, Jagten (ou The Hunt), tem os elementos que eu comentei antes – é impactante, emociona e tem reviravolta importante na história. Enquanto Jagten é uma pancada e se revela universal, O Som ao Redor parece ser muito cerebral e arquitetado, sem emoção ou o impacto do concorrente dinamarquês. Sem dúvida vejo muito mais potencial de Jagten. Agora, falta ver aos demais filmes bem cotados.

ATUALIZAÇÃO (21/12/2013): A Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood divulgou ontem, dia 20 de dezembro, a lista de filmes que avançaram na disputa da categoria de Melhor Filme em Língua Estrangeira. O Som ao Redor ficou de fora da lista. Seguem na disputa os seguintes filmes: The Broken Circle Breakdown (Bélgica), An Episode in the Life of an Iron Picker (Bósnia e Herzegovina), The Missing Picture (Camboja), Jagten ou The Hunt (Dinamarca), Two Lives (Alemanha), The Grandmaster (Hong Kong), The Notebook (Hungria), La Grande Bellezza ou The Great Beauty (Itália) e Omar (Palestina).

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The Way Way Back – O Verão da Minha Vida

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Um filme “bobinho” pode ser bom? Com certeza. The Way Way Back é um destes exemplares de filme sem grandes pretensões que acaba surpreendendo justamente pela suavidade. Ele faz rir menos que o previsto, por tratar-se de um filme de comédia. E ganha pontos ao abordar temas sempre relevantes apesar de não fazer grandes discursos sobre eles – para a nossa sorte. De quebra, ele ainda trata de forma bastante irônica de um tema importante para todo norte-americano (e pra gente também): as férias de Verão, que parece que sempre precisam ser extraordinárias. Se você não está buscando uma comédia escrachada e piadas fáceis, esta pode ser uma boa aposta.

A HISTÓRIA: Trent (Steve Carell) está dirigindo, mas não deixa Duncan (Liam James) em paz. Olhando pelo espelho retrovisor do carro, ele pergunta para o adolescente que nota ele se dá em uma escala de um a dez. O garoto, sentado no fundo do carro, de costas para Trent, responde que não sabe. O motorista não aceita esta resposta e diz porque acha que o jovem, filho da nova namorada dele, Pam (Toni Collette), tem uma nota baixa. Mas ele diz que tem uma boa notícia: que Duncan terá muitas pessoas para conhecer e muitas oportunidades de sair e se divertir na casa de veraneio de Trent, para onde a família está indo. De fato, Duncan terá férias diferentes e marcantes pela frente.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso só recomendo que continue a ler quem já assistiu a The Way Way Back): A primeira sensação que eu tive com o começo deste filme foi: será que ele vai seguir a linha de Little Miss Sunshine? Um grande filme, lançado em 2006 e dirigido por Jonathan Dayton e Valerie Faris e que também tinha no elenco os atores Toni Collette e Steve Carell. Se você ainda não o assistiu, recomendo. Mas para a nossa sorte, The Way Way Back não é um Little Miss Sunshine 2. Digo para a nossa sorte porque cada vez mais eu acho que o cinema deve buscar uma história nova e não seguir velhas fórmulas.

Com isso, não quero dizer que The Way Way Back seja uma verdadeira revolução. Na verdade, o filme mergulha em um tema que já foi explorado em várias outras produções de Hollywood: as férias de Verão. Mas há muitas maneiras de encarar este assunto. Esta nova produção, dirigida e com roteiro da dupla Nat Faxon e Jim Rash, procura uma abordagem engraçada e ao mesmo tempo dramática desta válvula de escape social.

Não é por acaso, e vamos descobrir isso só depois, conforme o filme se desenvolve, que The Way Way Back começa com aquela conversa cheia de pressão e um aparente rancor entre Trent e Duncan. A rivalidade entre os dois vai pontuar toda esta produção. Como ocorre com tantas outras famílias “modernas”, Duncan sente dificuldade em se adaptar ao novo namorado da mãe. Ele quer viver com o pai, mas acaba tendo que passar as férias com o “desafeto” e a filha que busca sempre ser popular, Steph (Zoe Levin).

Claramente Duncan está deslocado. Aparentemente, não apenas naquela junção de famílias, mas também na vida. Ele não sabe muito bem como se comportar entre jovens de sua idade e nem em outros ambientes. Ele é o rapaz que acaba ficando com os adultos na mesa, mas não sente que aquele é o seu lugar. Um sentimento bastante comum entre muitos adolescentes que não estão na categoria de “populares”.

Não demora muito para que Duncan sinta uma certa sintonia com Susanna (AnnaSophia Robb), que parece não fazer esforço algum para agradar a mãe esfuziante Betty (Allison Janney) ou qualquer outra pessoa. Trent faz parte de uma vizinhança que sempre se encontra no Verão. Todos se conhecem, e todos sabem que “papéis” cada um joga durante as férias. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). E elas são sinônimos de excessos, de muita bebida, drogas e de troca de casais.

Esta é a “alma” das férias nos Estados Unidos – e em muitas outras latitudes. Parece que tudo aquilo que você deixou de fazer no resto do ano é liberado durante as férias. Relaxamento total e momento de passar todas as fronteiras – muitas, inclusive, do bom senso. Este é o pano de fundo de The Way Way Back. Sem se encaixar entre os jovens locais e com dificuldade cada vez maior de suportar Trent, Duncan descola uma bicicleta nada masculina. Esta é a primeira válvula de escape do adolescente.

Na busca de Duncan por alguma liberdade e satisfação, ele se encontra com o “eternamente jovem” Owen (Sam Rockwell). Mesmo não sendo mais um adolescente, Owen muitas vezes se comporta com o humor de um jovem. Com uma grande interpretação de Rockwell, o personagem de Owen encarna o “Peter Pan”, mas com o viés de um sujeito com grande generosidade.

Afinal, ele é o único que realmente olha para Duncan e percebe que o garoto só precisa de uma oportunidade. O protagonista deste filme necessita que alguém acredite nele para que ele possa começar a ter confiança e, consequentemente, tenha mais autoestima. Muito bacana o exemplo de Owen e a relação que ele estabelece com Duncan.

Em certo momento fica subentendido que Owen segue trabalhando na Water Wizz para seguir o legado do fundador que era, na verdade, pai do agora administrador do parque aquático. Durante o Verão, ele se solta e aproveita para ser o “rei” daquela parte da cidade. Duncan fica fascinado com o local, e com o próprio Owen. Mas, em certo momento, o herói do garoto comenta que aquele local fica vazio e horrível no Inverno.

Esta aí uma das mensagens de The Way Way Back. Quando adolescentes, podemos achar o máximo determinadas pessoas, épocas ou locais. Mas conforme o tempo passa e vemos tudo de forma mais realista, percebemos que não existem heróis, épocas ou locais perfeitos. Tudo tem pelo menos dois lados e altos e baixos. Mas não devemos desanimar com os momentos ruins, mas ter confiança que o sol vai voltar e apostar nesta “época” para curtir e disseminar o bom humor. A exemplo do que Owen faz com aquele parque e com o Verão.

Falando nesta época do ano, Trent encarna o sujeito que aguarda o Verão para extravasar e “curtir a vida adoidado”. (SPOILER – não leia… bem, você já sabe). Não demora muito para percebermos que ele é um verdadeiro “garanhão” naquela vizinhança. Por isso, não é uma novidade quando Joan (Amanda Peet) aperta ele contra a parede. Típico “machista” que precisa dar a última palavra em casa, ele segue o padrão de “faço-besteira-e-depois-peço-desculpas-e-tudo-bem”. E, evidentemente, aguarda que os demais lhe desculpem e que tudo volte ao normal, para que depois ele siga fazendo besteiras e falando mais alto.

Além da busca da autoafirmação e de “um lugar no mundo” do adolescente em vias de chegar na vida adulta, tema bastante comum no cinema, e dos outros temas citados neste texto (perfil “Peter Pan”, dificuldade de adaptação dos jovens filhos de pais separados para os novos “arranjos familiares”), The Way Way Back trata de outro tema sensível: a preocupação de mulheres que já passaram dos 40 e que se separaram sobre a possibilidade de ficarem sozinhas.

Não é por acaso que a personagem de Pam encarne o perfil de tantas mulheres que conhecemos na vida real. Não é fácil ver o amor que se acreditava ser para a “vida inteira” terminar. E tão complicado quanto é ver as oportunidades de encontrar um homem digno e interessante caírem drasticamente quando se passa de uma certa faixa etária. Sei que parece lugar-comum dizer que os homens após os 40 estão mais interessados em mulheres jovens, deixando em segundo plano as mulheres da mesma faixa etária, mas é isso o que se vê em muitas partes.

Pressionada por este cenário e não querendo ficar “sozinha”, Pam cai na armadilha de ceder em muito do que acredita e na preocupação com o próprio filho para tentar fazer o relacionamento com Trent dar certo. Afinal, o sujeito parece ter pegada… e, mesmo sendo um cretino, ele é um cara bem cuidado, bronzeado e que procura, aparentemente, sempre agradar à nova amada.

Verdade que é preciso esforço para fazer uma relação dar certo. Mas a que custo? Até onde vale à pena investir em um relacionamento quando nem todos estão satisfeitos – e no caso desta produção, fica claro que Duncan não se sente mais “em casa” desde que Trent entrou na vida daquela pequena família. Verdade também que, muitas vezes, os jovens viram “aborrecentes” e fazem de tudo para uma nova relação da mãe ou do pai não darem certos. Mas é preciso bom senso e atenção para os detalhes, para ver até que ponto pode ser “birra” do jovem que gostaria de ver os pais juntos ou de fato há incompatibilidades importantes e determinantes na nova relação.

The Way Way Back, que deveria ser, essencialmente, uma comédia, trata de todos estes temas. E o melhor: sem discursos. Tudo vai fluindo com muita tranquilidade e com um trabalho muito bom do elenco, especialmente dos atores mais experientes.

Todos estão bem, e o roteiro dos diretores Faxon e Rash mantém o interesse do espectador, ainda que o filme seja um pouco arrastado. Afinal, na maior parte do tempo parece que falta força nas piadas. O humor é ameno, assim como o drama. Por isso mesmo o filme não tem um grande impacto, apesar de ter bons momentos e ser bem feito.

A verdade é que apesar de esforçado, Liam James cansa um pouco como Duncan. Beleza o personagem dele ser um bocado deslocado, mas muitas vezes ele parece quase um autista. E nada indica que ele seja um. No fim das contas, o que parece mesmo é que o ator deu uma exagerada no tom do personagem. E sendo o protagonista, isso não ajuda ao filme.

Eu também esperava mais deste filme no quesito humor. Especialmente quando vi Jim Rash como Lewis, um dos empregados do parque aquático. Na hora lembrei dele na ótima e super recomendada série Community. Quem acompanha a série, uma das melhores de comédia da TV americana, sabe que Rash é um dos destaques da produção. Mas como roteirista, ele escreveu apenas um episódio da série.

Tendo Community como parâmetro, pensei que o filme seria melhor. Com tiradas mais engraçadas, pelo menos. Mas The Way Way Back não tem esta preocupação de fazer rir. Pelo menos não tanto quanto outros filmes do gênero. Por um lado, isso é bom. Porque melhor um roteiro um tanto ingênuo quanto este do que uma produção escatológica – e há muitas em Hollywood ultimamente. Por outro lado, eu esperava mais de um texto de Rash. Assim como esperava mais de Steve Carell – quem assistiu a The Office sabe do que estou falando. Mesmo sendo um pouco entediante, The Way Way Back tem boas intenções e um final bastante acertado.

NOTA: 8,8.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Além de ser louca por ótimos filmes, admito que sou um bocado viciada em séries de TV. Enquanto as novelas são o filé mignon da TV no Brasil, as séries de TV são o que os Estados Unidos sabe fazer de melhor – além de filmes, é claro. Outros países, como o Reino Unido, também são bons nisso. Mas os EUA são mestres. Gosto de assistir de tudo um pouco. Dramas, séries de ação e comédias.

E nesta última categoria, The Office e Community são das melhores que eu já assisti. Sendo assim, não fica difícil de imaginar o quanto eu esperava da união entre Steve Carell e Jim Rash neste The Way Way Back. Infelizmente o resultado não foi tão arrebatador quanto eu esperava, até porque os dois atores, especialmente Rash, tem papéis menores na produção estrelada por James. Ainda assim, este é um bom filme.

Talvez uma razão para o roteiro de The Way Way Back não ser tão bom quanto poderia ser, pelo menos no quesito comédia, seja que falte um pouco mais de experiência para Rash e Faxon. Os dois tem um longo currículo como atores, mas poucos trabalhos como roteiristas. Antes de The Way Way Back, a dupla tinha escrito junto com Alexander Payne o roteiro de The Descendants (que tem este comentário aqui no blog), bastante elogiado e ganhador de um Oscar. Além de The Descendants, Rash e Faxon trabalharam juntos no roteiro do filme feito para a TV Adopted e Rash escreveu um episódio da série Community e outro do programa Saturday Night Live. E só.

Falando de direção, The Way Way Back marca a estreia da dupla. Algo me diz que eles vão longe na parceria. Afinal, ambos tem moral e talento, basta investir mais em projetos que tenham marca própria.

Para mim, as melhores interpretações deste filme estão com os atores experientes. Destaque especial para Sam Rockwell, que rouba a cena sempre que aparece. Toni Collette e Allison Janney também estão muito bem. Além deles, entre os jovens, ganha destaque AnnaSophia Robb.

Além dos atores já citados, tem um certo destaque na história o trabalho de Maya Rudolph como Caitlin, uma funcionária do parque aquático que planejou trabalhar ali por um verão e acabou ficando três anos por causa de Owen; Rob Corddry como Kip, amigo de Trent e namorado/marido de Joan; River Alexander como Peter, o filho caçula e que vive sendo zoado pela mãe Betty; e o diretor Net Faxon como o braço direito de Owen no parque aquático.

Falando nos filhos que são zoados pelos pais… este é um tema importante em The Way Way Back e que vai de encontro totalmente ao tipo de debate que eu gosto de ter. Este não é o primeiro filme que comento aqui no blog e que me faz dizer que nem todo mundo foi feito para ser pai ou mãe. É preciso querer, em primeiro lugar, e é preciso ter “talento” ou vocação para isso. Há pessoas preparadas, e há outras que nunca estarão.

E é uma verdadeira tristeza ver figuras como Trent que, claramente, não foi feito para ser um pai. Ele não sabe estimular Duncan e nem orientar Steph. Na verdade, o que ele queria era ser um eterno lobo solitário, pelo visto. Betty, por mais tresloucada que seja, pelo menos tem afeto verdadeiro pelos filhos. Isso dá para notar. Ainda que ela também não saiba lidar muito bem com eles – especialmente com Peter. Pais desfuncionais, nada pior.

Da parte técnica do filme, gostei do estilo de direção da dupla Nash e Faxon. Eles valorizam o trabalho dos atores e aquela região dos Estados Unidos, colocando o cenário e o estilo de vida dos personagens como elementos centrais da história. O início do filme é muito promissor, com aquele controle exercido por Trent através do espelho do carro – quase que dizendo a Duncan e para o espectador que ele estará sempre “vigilante”, controlador. A disposição dos personagens naquele começo e a figura de Duncan de costas e “acuado” são muito reveladores. Pena que o restante do filme não siga com a mesma escolha acertada de cenas ilustrativas como esta. Há algumas, aqui e ali, mas estão espalhadas e sem a frequência que seria desejada.

Ainda seguindo nos aspectos técnicos, muito boa a direção de fotografia de John Bailey. O filme tem, de fato, cenas muito bonitas, plásticas, e uma predominância de sol fundamental para deixar The Way Way Back ainda mais firme e forte no “tempo” dramático do Verão. Há muita claridade em cena, e um tom “naturalista” importante. Muito bom também o trabalho da editora Tatiana S. Riegel, bastante precisa na função de dar dinâmica e ritmo para o material dos diretores.

Este é um filme de muitos diálogos. Por isso mesmo a trilha sonora de Rob Simonsen é bastante pontual. Aparece para preencher os momentos em que as pessoas não estão dialogando entre si. Mas ela não é apenas um “tapa-buraco”. Em diversos momentos ela tem importância narrativa. E em outros, quando não está tendo significado direto para os personagens, ajuda a explicar pelo que eles estão passando. Um belo trabalho, e bem planejado.

Como o cenário é um elemento importante da história, acho importante comentar onde The Way Way Back foi rodado. Esta produção está ambientada nas cidades de Marshfield, Wareham, Onset, Duxbury e East Wareham (onde fica o parque Water Wizz), todas em Massachusetts, Estados Unidos. Caso alguém quiser fazer um roteiro reconstruindo este filme. 🙂

Agora, algumas curiosidades sobre esta produção. O diretor e roteirista Jim Rash disse que a inspiração para The Way Way Back foi a sequência inicial do filme, porque ele teve um diálogo parecido com aquele entre Trent e Duncan quando tinha 14 anos e falava com o padrasto.

Como eu imaginava, The Way Way Back foi gravado em um parque aquático real usando frequentadores do local como figurantes. Segundo os produtores, Sam Rockwell costumava improvisar sempre utilizando o auto-falante do local. Em uma certa ocasião ele esqueceu que haviam muitas crianças no local e fez uma piada indecente sobre herpes. Na sequência ele teve que pedir desculpas para o proprietário do parque para que a equipe pudesse seguir trabalhando no filme e no local.

Inicialmente esta produção, com roteiro escrito em 2007, ia levar o nome de The Way Back. Mas os realizadores decidiram mudar o título para que ele não fosse confundido com o filme homônimo lançado em 2010. A ideia do título faz referência ao “way back seat”, uma expressão coloquial dos anos 1970 nos Estados Unidos para o terceiro lugar, espaço muitas vezes oculto no bagageiro de um veículo “station wagon”.

Para economizar dinheiro, os diretores resolveram não alugar trailers para os atores. Ao invés disso, eles alugaram uma casa durante o tempo de filmagens – seis semanas – onde os atores poderiam descansar entre uma gravação e outra. A residência virou ponto de encontro do elenco e da equipe do filme que, muitas vezes, se encontrava no local mesmo nos finais de semana e em dias de folga. Isso explica a sintonia entre as pessoas do elenco.

Inicialmente a personagem de Caitlyn teria pouco espaço no filme. Mas nas versões finais do roteiro ela ganhou a característica de ser mais velha – e não uma adolescente – e de ter mais interações com Owen. Quando Maya Rudolph entrou em cena, os diretores resolveram que ela ganharia importância e deixaram na mão dela e de Sam Rockwell o trabalho para que eles criassem uma dinâmica mais ativa entre os personagens.

Por pouco Steve Carell não pula fora do projeto. Isso porque ele iria passar férias com a família em Massachusetts, como eles fazem todos os Verões. Para a sorte dos realizadores, eles descobriram com o avanço do projeto que o local em que iriam filmar The Way Way Back ficava perto da casa de veraneio dos Carell. Por isso deu certo dele participar do filme.

The Way Way Back teria custado US$ 4,6 milhões, um orçamento bem enxuto para um filme nos Estados Unidos. E o resultado que a produção obteve, até agora, foi excelente. Apenas nas bilheterias dos Estados Unidos ele fez pouco mais de US$ 21,4 milhões. Nos outros mercados em que já estreou, ele acumula outro US$ 1,69 milhão. Um belo lucro.

Este filme estreou no Festival de Sundance em janeiro deste ano. Depois, The Way Way Back participou de outros sete festivais. Neste caminho, recebeu dois prêmios e foi indicado a um terceiro. Ele ganhou os prêmios de Melhor Filme e Melhor Produção dos Estados Unidos no Festival de Cinema de Newport Beach.

Esta é uma produção 100% Estados Unidos. Por isso mesmo ela entra na lista de filmes daquele país que atendem a um pedido de vocês, caros leitores, para que eu comentasse uma série de produções daquela nacionalidade. Sigo na luta! 🙂

Eu sempre fui do grupo de pessoas que adorava a chegada do Verão para passar as férias na praia. Por isso mesmo, não tenho o “apego sentimental” com o parque aquático mostrado neste filme. Ainda assim, tenho certeza que muita gente vai se identificar com este cenário e relembrar momentos marcantes do passado. E desta forma, The Way Way Back ganhará uns pontos importantes – eu entendo isso, mas não compartilho desta referência sentimental.

Os usuários do site IMDb deram a nota 7,5 para The Way Way Back. Uma avaliação muito boa, levando em conta o padrão do site. Os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 140 textos positivos e apenas 24 negativos para o filme, o que lhe garante uma aprovação de 85% (muito boa) e uma nota média de 7,3.

Desta vez não achei ruim o título do filme no lançamento no Brasil. Afinal, seria muito complicado traduzir o sentido original. E “O Verão da Minha Vida” combina com a história. Escolha acertada.

CONCLUSÃO: Curioso como o tema da adolescência parece interminável para o cinema. Não se trata apenas da passagem da vida inocente da infância para a vida cheia de responsabilidades dos adultos. Mas o tema da autoafirmação, do autoconhecimento e da busca do próprio caminho estão no centro do picadeiro. Tudo isso acaba sendo importante em The Way Way Back não apenas porque temos um protagonista adolescente, mas porque acompanhamos umas férias de Verão da família dele. E não existe nada mais adolescente que um Verão no litoral – seja ele no hemisfério norte ou na parte sul do globo.

The Way Way Back revela de forma muito honesta como somos cobrados a desempenhar um determinado papel na vida adulta ao mesmo tempo em que muitas pessoas nunca conseguem, aparentemente, crescer. Ao mesmo tempo, há temas sérios em jogo, como a desestruturação familiar, o medo da solidão, o desafio de pertencer a algum lugar e o inevitável e já comentado desafio de um jovem encontrar o seu próprio caminho. Um filme interessante, que acaba não se destacando por elemento algum, mas que entretém e que também faz pensar. Boa diversão, mas sem nenhum grande “achado”.

Kick-Ass 2

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Fazer a continuação de um filme bom é sempre um baita desafio. Porque dita a história do cinema que a segunda produção de uma história que não terminou no filme original tende a ser mais fraca que o original. São raras, muito raras as exceções que mostram que o segundo filme foi melhor que o primeiro. Este não é o caso de Kick-Ass 2. Tudo o que eu tinha elogiado na crítica do Kick-Ass original, que você pode ler aqui, morreu neste segundo filme. Então posso dizer: Kick-Ass 2 é totalmente dispensável.

A HISTÓRIA: Mindy Macready (Chloë Grace Moretz) explica para Dave Lizewski (Aaron Taylor-Johnson) que a bala de uma pistola viaja a mais de mil quilômetros por hora. Ele ouve e diz que não vai levar um tiro para experimentar a sensação. Mindy não lhe dá ouvidos e atira. Esta cena faz parte da preparação que Dave pediu para Mindy, a única heroína de verdade que ele conhece. Passaram quatro anos desde o último filme, e agora Mindy vive sob a tutela do policial Marcus Williams (Morris Chestnut). Ao invés de frequentar as aulas na escola, ela segue se preparando para manter a forma como Hit-Girl. Enquanto isso, Dave tinha deixado a fantasia de Kick-Ass, mas estava se sentindo entediado na faculdade.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso só recomendo que continue a ler quem já assistiu a Kick-Ass 2): Quando o filme original desta franquia adaptada de uma HQ estreou, me surpreendi com o que eu vi. Ainda que Kick-Ass tivesse vários problemas na adaptação, como bem explicou por aqui o leitor Panthro Samah no comentário escrito no final da crítica publicada em 2010, eu gostei do produto final pela ousadia de romper expectativas e renovar um gênero do cinema bastante desgastado já, que é o dos filmes sobre heróis com superpoderes.

Por esta razão, quando ficou claro que Kick-Ass teria uma continuação, eu pensei: “Bem, continuações sempre são complicadas, mas acho que vale a pena conferir o que virá por aí de um filme que ousou em várias direções”. Ao conferir Kick-Ass 2 percebi que a regra poucas vezes quebrada de que continuações são piores que os originais se confirmou.

Este novo filme, agora dirigido por Jeff Wadlow – quem dirigiu Kick-Ass foi Matthew Vaughn – deixa toda a inovação da primeira produção da grife para trás. O filme ficou careta, por assim dizer. Sem o importante personagem de Damon Macready/Big Daddy, interpretado por Nicolas Cage, a continuação fica centrada no momento de incertezas vivido por Hit-Girl e Kick-Ass. Eles não sabem muito bem que “personagem” seguir… se dos jovens estudantes com suas crises de afirmação social ou a dos heróis que enfrentam bandidos.

Grande parte da história fica girando nesta busca dos dois personagens. Mindy Macready resolve investir nas descobertas juvenis de uma garota que sofre “bullying” no ensino médio. Acaba enfrentando a “maldade” de figuras como a jovem popular da escola, Brooke (Claudia Lee). Algo muito óbvio e menos interessante que o que vimos no filme passado, quando uma menina de 11 anos era treinada para ser implacável pelo pai e não vivia a própria infância. Agora, Mindy cresceu, tem 15 anos e parece ter sido suavizada. Ou, pelo menos, parece muito menos radical que a menina que assistimos em Kick-Ass.

No caminho, um elemento fundamental se perdeu: Mindy adolescente não choca como a garota do filme anterior. O mesmo acontece quando vemos a uma fotografia de guerra. Se é uma criança que empunha um rifle, o impacto é muito diferente do que se o garoto é um adolescente, há poucos anos de entrar na vida adulta. Claro que ver crianças e jovens imersos em contextos de violência não é algo aceitável, muito menos desejável. Mas o impacto de uma criança sendo explorada neste contexto sempre vai chocar mais que vermos a um adolescente na mesma posição.

Desta forma, a protagonista de Kick-Ass 2 nos choca menos que a mesma personagem no filme anterior. E o mesmo acontece com Dave/Kick-Ass. Neste novo filme, ele parece mais pateta e desajeitado que antes. Mesmo que ele se envolva sexualmente com Night Bitch (Lindy Booth), não assistimos a nenhuma cena picante, ou provocadora. Kick-Ass 2 se firma, assim, como uma produção “água-com-açúcar”. Suaviza nas cenas de violência e nas de pegada sexual. Desta forma, deixa de ter qualquer inovação e passa a integrar a imensa lista de filmes sem identidade e que parecem todos iguais.

Além de gastar muito tempo com a indecisão dos personagens principais sobre os seus “verdadeiros papéis no mundo”, Kick-Ass 2 segue avançando na ideia lançada pelo original de que os heróis ordinários são tudo o que a sociedade precisa. Assim, o roteiro escrito pelo diretor Jeff Wadlow baseado na HQ de Mark Millar e John Romita Jr. segue dando espaço para a importância da comunicação estabelecida pela internet para reunir pessoas interessadas em uma mesma causa. Um tema que ficou ainda mais importante com as manifestações sociais no Brasil e em outras parte do mundo neste ano e nos anteriores. Mas um argumento que, evidentemente, já está batido e não apresenta mais nenhuma “sacada”.

Por tudo que eu comentei até aqui, Kick-Ass 2 nasce defasado, antigo, sem muito propósito. Wadlow perdeu uma boa oportunidade de fazer um belo filme, que seguisse ou pelo menos honrasse o original. Mas que nada. O diretor e roteirista executa uma produção sem graça e que tem os seus melhores momentos na escolha dos nomes dos heróis e anti-heróis que vão se enfrentar no final.

Para não dizer que o filme todo é inteiramente um lixo, acho que o único ponto de reflexão que ele sucinta e que é interessante é esta aparente imutável vontade das pessoas de serem aceitas pelas outras e formarem grupos. Diferente de alguns heróis de HQ, em Kick-Ass 2 não há espaço para o “lobo solitário”, para aquele herói que procura fazer justiça com as próprias mãos de forma solitária – seja porque gosta de agir assim, seja porque não quer colocar as pessoas que ama em risco. Algo comum nas HQs.

Não. Em Kick-Ass 2 os protagonistas e as pessoas que lhes cercam acreditam em ação coletiva. Eles querem ser aceitos pelos outros e querem fazer parte de um grupo – seja o da escola, no caso de Mindy, seja o de uma liga de justiceiros, no caso de Dave. Algo interessante de perceber nesta história, especialmente porque ela mostra jovens que cresceram imersos na internet e nas mensagens trocadas por celulares. Contrariando muitos pais preocupados e os teóricos que dizem que a internet pode isolar as pessoas, Kick-Ass 2 aposta na vertente de que a tecnologia serve para tirar os jovens do isolamento.

Outro tema clássico que o filme resgata é o de que o ensino médio é o momento perfeito para criar traumas para o resto da vida, algo muito típico nos Estados Unidos, aparece com tudo nesta produção. Provavelmente uma forma de Wadlow tornar o filme mais “palatável” entre os jovens. O que é ruim, evidentemente. Afinal, toda vez que um filme se esforça para ser aceito, ele perde a chance de fazer algo diferente. Uma pena. Um desperdício.

NOTA: 4.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Algo me chamou a atenção logo no início deste filme. Afinal, quanto tempo se passou desde a história anterior? Pela idade de Mindy, calculamos quatro anos – afinal, em Kick-Ass ela tinha 11 e, agora, tem 15. Mas quando Dave assiste TV com os amigos Marty (Clark Duke) e Todd (Augustus Prew), no noticiário a repórter comenta que o “movimento” dos heróis começou dois anos antes. Para mim, uma falha evidente no roteiro de Wadlow, porque a história, de fato, teria um hiato de quatro anos.

Bastante estranho ver o quanto a atriz Chloë Grace Moretz se desenvolveu no período. Sem dúvida, para a personagem de Mindy/Hit-Girl, ela tinha muito mais “graça” quando era uma criança.

Para a sorte de quem assistiu a este filme, ele tem menos de duas horas de duração. Aliás, ele poderia até ter menos do que os 107 minutos que possui. Uma hora e meia estava de ótimo tamanho. Como eu acho que a maioria dos filmes deveria ter. Poucos são os que valem duas horas ou mais. Muito, muito poucos.

No vácuo deixado pela morte do personagem de Nicolas Cage no filme anterior, os produtores escalaram Jim Carrey para o papel de Colonel Stars and Stripes. Em teoria, os dois atores se “igualariam” na importância e como chamariz do público. Mas francamente? Sem poder fazer as caras e bocas com as quais está acostumado, Carrey acaba ficando bastante apagado, diferente de Cage que faz um bom trabalho como o pai de Hit-Girl no filme original.

Sem um roteiro decente para seguir, até os protagonistas Aaron Taylor-Johnson e Chloë Grace Moretz parecem menos interessantes nesta continuação. Claro que eles se esforçam, mas acabam tendo que falar frases simplórias e viver personagens rasos em Kick-Ass 2. O vilão do filme, encarnado por Christopher Mintz-Plasse no papel de Chris D’Amico/The Motherfucker, também é menos interessante que o mafioso Frank D’Amico, interpretado por Mark Strong.

Além dos atores já citados, vale comentar o trabalho de outras figuras que aparecem bastante nesta história. Donald Faison interpreta a Dr. Gravity, um dos heróis que se junta à Kick-Ass; Matt Steinberg é o Mr. Radical; Steven Mackintosh e Monica Dolan interpretam aos pais do menino que desapareceu e que resolvem virar “heróis”; Robert Emms interpreta a Insect Man; Garrett M. Brown faz as vezes de pai de Dave; e John Leguizamo interpreta a Javier, que trabalhou para o pai e para a mãe de Chris D’Amico antes de ajudar o adolescente a trilhar o caminho da vingança.

Falando no pai do Dave… (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Achei interessante que os protagonistas de Kick-Ass, no fim deste segundo filme, acabam ficando “sozinhos” no mundo, não é mesmo? Dave e Mindy já não tinham a figura materna. Após estes dois filmes, eles perdem também as figuras paternas. E o vilão Chris, que havia perdido o pai no filme anterior, também perde a mãe nesta sequência. Seria uma forma dos autores reforçarem a perda de “valor” das famílias e de dizer que estamos sozinhos no mundo? Curioso. Ah sim, e sigo sem ter lido o HQ original. 🙂 Um dia, quem sabe?

Da parte dos vilões, vale destacar o trabalho de Olga Kurkulina como Mother Russia; Tom Wu como Genghis Carnage; e Andy Nyman como The Tumor. Eles são contratados por Javier e passam a formar o “grupo de elite” de Chris – ainda que, de fato, apenas a vilã russa assuma a ação. Aliás, o filme ficar centrado no embate entre duas “ligas”, uma de heróis e outra de vilões, apenas resume a ideia do original a uma disputa comandada por adolescentes e gente sem muito o que fazer além de se caracterizar como nos HQs que eles gostam de ler.

Kick-Ass 2 mereceria uma nota até mais baixa que aquele 4 ali de cima. Mas resolvi dar esta nota porque, afinal de contas, a ideia de que as coisas podem sair mal quando as pessoas perdem a noção do perigo de fazer “justiça com as próprias mãos” continua ali. O filme perde em muitos sentidos em relação ao original, mas alguns alertas que ele faz, seja sobre o ponto anterior, seja sobre a violência presente em diferentes ambientes – como a dos adolescentes que praticam bullying na escola. Se o filme agradar aos jovens e fizer eles pensarem sobre isso, não terá sido um total desperdício.

Mais uma vez, a exemplo do Kick-Ass original, nesta sequência a trilha sonora acaba ganhando destaque. Um trabalho bem feito pela dupla Henry Jackman e Matthew Margeson, ainda que a trilha de Kick-Ass me pareceu ainda mais interessante. Mas no trabalho feito nesta sequência, até uma música brasileira está no meio… A Minha Menina, de Jorge Ben Jor, aqui interpretada por The Bees, aparece justamente no momento em que Kick-Ass é agarrado pela Night Bitch no banheiro. Como manda a “tradição”, a música brasileira é sempre provocativa e, normalmente, ligada a cenas sensuais. 🙂

Fora a trilha sonora de Kick-Ass 2, há pouco a destacar da parte técnica. Talvez a edição de Eddie Hamilton, que é bem feita, os figurinos de Sammy Sheldon, a maquiagem da equipe de Lisa Martin e os efeitos especiais coordenados por Laird McMurray. Estes últimos funcionam razoavelmente bem, ainda que a sequência da Hit-Girl sobre o veículo tenha me parecido um tanto mal feita. Além destes profissionais, vale nomear Tim Maurice-Jones como diretor de fotografia, ainda que ele não faça nada demais.

E agora, uma curiosidade sobre Kick-Ass 2: o ator Jim Carrey se recusou a participar da tradicional “turnê” de eventos de divulgação do filme porque ele não concorda com o conteúdo violento ou com o uso de armas para defesa pessoal ou qualquer outro tipo de violência armada. Curioso, não? Então porque cargas d’água ele se envolveu nesta produção? Só para faturar mais uns milhões de dólares? Isso que eu chamo de hipocrisia.

No quarto de Dave há dois cartazes: de American Jesus e Superior. Estes dois títulos são trabalhos do autor da HQ Kick-Ass Mark Millar.

Kick-Ass 2 foi rodado em diversos locais de Toronto, no Canadá, e nos estúdios Pinewood no Reino Unido.

Esta sequência adaptada das HQs estreou no dia 14 de agosto deste ano na Irlanda, no Reino Unido e nas Filipinas. Até o momento, o filme não participou de nenhum festival. Ainda assim, ganhou um prêmio, o Summer’s Biggest Teen Bad A** conferido para Chloë Grace Moretz no MTV Movie Awards. Este prêmio foi criado pela Seventeen Magazine exclusivamente para a última edição do prêmio da MTV.

Kick-Ass 2 teria custado cerca de US$ 28 milhões. Apenas nos Estados Unidos, ele teria faturado quase US$ 28,8 milhões após seis semanas de exibição. No restante dos mercados em que estreou, ele conseguiu outros US$ 30,76 milhões. Ou seja, segue um caminho de obter lucro.

Esta sequência é apenas o terceiro longa da carreira do diretor Jeff Wadlow. Antes de Kick-Ass 2, ele dirigiu três curtas e os filmes Cry_Wolf e Never Back Down. Não assisti a nenhum dos dois, mas eles também não me chamaram a atenção. Acho que os produtores de Kick-Ass poderiam ter entregue a sequência do filme em outras mão, não?

Os usuários do site IMDb deram a nota 7 para Kick-Ass 2. Esta nota, e a vontade de assistir a sequência do filme anterior, do qual eu tinha gostado, me levaram a ver esta nova produção. Achei a avaliação dos usuários do IMDb muuuuuito generosa. E que pode enganar os desavisados. Os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes foram mais duros com o filme. Eles dedicaram 105 críticas negativas e 44 positivas para a produção, o que lhe garante uma aprovação de 30% e uma nota média de 4,7.

Kick-Ass 2 é uma coprodução dos Estados Unidos e do Reino Unido. Assim sendo, ele também entra na lista de filmes que atendem ao pedido dos leitores deste blog, que solicitaram uma série de críticas de filmes made in USA.

CONCLUSÃO: Chamou a minha atenção, em 2010, a violência, a ironia e as boas sacadas de Kick-Ass. Naquela época, no texto que escrevi sobre Kick-Ass, eu já comentava que haveria uma sequência. Como gostei do original, me joguei para ver este segundo filme. Pena que toda a força de Kick-Ass desapareceu no caminho. Menos violento, sem boas tiradas e aquela ironia ácida, Kick-Ass 2 é um filme que praticamente nega o primeiro, porque por boa parte do tempo trilha o caminho do “politicamente correto” e suaviza o drama e o dilema dos protagonistas. Um verdadeiro desperdício.

Prisoners – Os Suspeitos

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Filmes policiais nos provocam. Afinal, sobram histórias de crimes ao nosso redor. Desaparecimentos, sequestros, mistérios que nos afetam direta ou indiretamente. Quando um roteiro de filme do gênero é bem escrito, nos fascina pelo mistério. Não por acaso, Seven é um dos meus filmes favoritos do gênero e de sempre. Desde o excelente filme de David Fincher, uma produção do gênero não mexia tanto comigo como esta Prisoners. Envolvente, bem escrito, mas com alguns probleminhas aqui e ali, este é um filme que respeita o gênero policial e a nossa inteligência.

A HISTÓRIA: Cenário de árvores e neve. Keller Dover (Hugh Jackman) reza um Pai Nosso. Lentamente, um cervo começa a aparecer na cena. A câmera vai se afastando, e aparece à esquerda um rifle. O filho de Keller, Ralph (Dylan Minnette) dispara e acerta no alvo, sendo cumprimentado pelo pai. Na volta para casa, Keller explica para o filho o que a esposa lhe ensinou de mais valioso: estar sempre preparado. Ele diz que não importa o que aconteça, a família deles precisa estar preparada para enfrentar problemas. Por isso, ele mantém um estoque de suprimentos em casa. Mas nenhuma preparação vai impedir que a caçula da família, Anna (Erin Gerasimovich), e a filha de um casal de amigos, Joy Birch (Kyla Drew Simmons), desapareçam, tornando a vida de Keller e dos demais um verdadeiro purgatório.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Prisoners): Algo que me chamou a atenção neste filme, desde o princípio, é como ele alimenta a nossa dúvida. Afinal, o que aconteceu com aquelas duas meninas? Será possível que aquele trailer detonado que parou na vizinhança pode não ter nada a ver com o sumiço delas? Pouco provável, não é mesmo? E o estranho Alex Jones (Paul Dano) de fato tem a maturidade de uma criança de 10 anos e não fez nada ou é um sujeito dissimulado?

Estas são apenas algumas das várias perguntas que alimentam o imaginário do espectador enquanto a ação de Prisoners vai se desenvolvendo. E claro, como pede um bom filme policial, o detetive Loki (Jake Gyllenhaal) vai seguindo várias pistas e o próprio instinto e lançando informações que parecem desconexas, sem muito sentido, na nossa frente. Enquanto o próprio detetive tenta ligar os pontos, o espectador é convidado a fazer o mesmo pelo roteiro de Aaron Guzikowski.

Diferente de outros filmes, como muitas produções de Alfred Hitchcock, em Prisoners não temos o privilégio de saber mais da história do que os personagens envolvidos. Sem uma posição privilegiada, nos resta seguir os passos da dupla de protagonistas, o detetive Loki e o pai Keller, para saber quem está mais próximo da verdade. Tendo o risco de nenhum deles estar avançando na direção certa. Esta dúvida constante, esta incerteza é o que torna Prisoners angustiante e atraente.

Não é por acaso que o roteiro fica centrado nas ações destes dois personagens, o detetive e o pai desesperado. No caso de um desaparecimento, quando a polícia funciona, são estes dois agentes, a polícia e a família, mais diretamente afetados pelo acontecimento. Gostei da forma com que Prisoners mostra estes dois elementos. Temos um detetive que parece dedicado ao trabalho, mas que cria dúvidas sobre a sua competência para o espectador na medida em que o tempo vai passando e ele não consegue nada de muito concreto sobre o caso; e temos o pai de família que funciona com a visão de mundo de que ele é o provedor e o protetor, a pessoa que deve garantir a segurança de todos e resolver o problema.

Interessante esta leitura feita pelo roteiro de Guzikowski porque, bem sabemos, em muitos locais – e não apenas nesta ficção ambientada nos Estados Unidos – as coisas funcionam com esta lógica. Percebo que grande parte da população, inclusive no Brasil, pensa bastante com a lógica de “fazer as coisas a sua maneira”. Ou, em um contexto como o mostrado pelo filme, em pensar que a justiça deve ser feita de qualquer forma, a qualquer custo, e que a solução dos problemas está na mão dos envolvidos.

(SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Neste ponto Prisoners nos apresenta dúvida suficiente para pensar se as atitudes de Keller são exageradas ou estão indo na direção certa e necessária, ainda que não seja bonito ver alguém ser tão maltratado, agredido, torturado como Alex. E daí jogam um papel importante o casal Nancy (Viola Davis) e Franklin Birch (Terrence Howard), pais de Joy. Eles querem, evidentemente, que a filha seja resgatada com vida. Assim, tem o mesmo desejo essencial de Keller. Mas é evidente que Franklin não concorda com os métodos e com o grau de crueldade a que chega o amigo. Ainda assim, o que ele faz?

Ele divide o problema com a mulher. Não consegue carregar aquele “fardo” sozinho. E aí os Birch tomam a atitude de muita gente que legitima os absurdos cometidos na nossa e em tantas outras sociedade: eles lavam as próprias mãos. Nancy diz que não vai contribuir para que as torturas continuem, mas que eles também não devem fazer nada para impedir Keller. Esta ânsia por “justiça com as próprias mãos” está difundida e é muito perigosa, além de absurda.

Certo que alguém pode dizer que Keller poderia estar certo. Verdade. Mas de fato ele precisava fazer aquilo? A polícia não chegaria à verdade mais cedo ou mais tarde? A justificativa de Keller é que, quando isso acontecesse, poderia ser tarde demais para a filha dele e dos Birch. Bem, esse é o risco que se corre sempre que um crime é cometido. Mas nem por isso temos o direito de sair culpando pessoas e exigindo que elas paguem por algo que não temos certeza que ocorreu.

A sociedade existe com leis e regras justamente para não vivermos no caos. Imaginaram todos fazendo o que acham certo, sem seguir o que está estabelecido? Seria uma verdadeira loucura e, tenho certeza, muitas outras injustiças seriam cometidas. A Justiça é falha, verdade. Assim como a polícia nem sempre consegue resolver todos os crimes. Mas sem a confiança da sociedade nestas instituições tudo seria ainda pior. Viveríamos na barbárie.

Prisoners trata um pouco de tudo isso. Sobre este desejo das pessoas, especialmente dos “chefes de família”, de ter controle sobre tudo, de resolver os seus problemas sem ter a paciência ou a confiança necessárias nas instituições estabelecidas. Hugh Jackman convence muito bem como o pai desesperado e que segue a própria convicção tendo o resgate da filha e de sua amiga como seu único propósito. Mas quantas pessoas bacanas, corretas e com “fé” podem agir de forma equivocada e provocar absurdos tendo esta arrogância de saber o que é “melhor” a todo o momento?

As pessoas cheias de certezas são as mais perigosas que podem existir. A arrogância é um perigo, assim como a certeza de que temos o controle sobre tudo o que nos cerca. Isso é impossível. Interessante como a família Dover acredita nisto, que estão muito preparados para tudo – mantendo, inclusive, um grande estoque de mantimentos para qualquer catástrofe ou eventualidade que possa acontecer. Acreditando serem muito espertos, e preparados, eles não aceitam quando algo inesperado como o sumiço de Anna acontece. Difícil lidar com pessoas assim, e mais difícil ainda é perceber que há muita gente por aí com esta postura.

Não deixa de ser tragicamente cômico que este filme comece com um Pai Nosso. Porque tudo o que Keller e sua família parece carecer é de fé. Eles não acreditam na polícia. Não apenas Keller resolve fazer a “justiça com as próprias mãos” e resolver o problema sozinho, por não acreditar na eficiência de Loki, como a esposa dele, Grace (Maria Bello) não consegue sair da cama. Parece em depressão constante. Claro que dá para entendê-los. Afinal, o sumiço de uma filha deve ser algo horrível de enfrentar. Mas onde ficou a fé deles? Essa crise de valores, ou de ser coerente com o que se acredita e como se age, é uma leitura crítica interessante dos nosso tempo.

O outro protagonista desta história, o detetive Loki, por sua vez, demonstra uma fé aparentemente incansável no próprio trabalho. Ele segue todas as pistas que considera importantes e não perde a esperança de conseguir chegar a um bom resultado. E aí surge uma das razões principais para o roteiro de Guzikowski funcionar tão bem: o espectador passa a conhecer vários elementos que parecem não se encaixar com a história do sumiço de Anna e Joy.

Como por exemplo a história do padre Patrick Dunn (Len Cariou) e do homem que Loki encontra morto no porão dele. O que ela tem a ver com o caso que o detetive está investigando agora? E por que a senhora Milland (Sandra Ellis Lafferty) tem tanta certeza que a mesma pessoa que levou o filho dela, há 26 anos, cometeu o mesmo crime agora contra Anna e Joy? Puro chute? Ou estas histórias podem estar relacionadas? Não faz muito sentido, mas também seria estranho elas estarem no filme se fossem totalmente descoladas da trama.

Quando o personagem de Bob Taylor (David Dastmalchian) aparece em cena, as dúvidas aumentam. Suspeitíssimo, ele cria tensão ao entrar nas casas dos Birch e dos Dover. O que ele foi fazer lá? Ele é o parceiro de crime de Alex? Sem dúvida o filme ganha com este personagem, enquanto o tempo passa e a pressão fica cada vez maior para que um desfecho aconteça. Você chega a pensar que tudo aquilo pode ser um grande engano, ou que as meninas nunca mais serão encontradas. Muitas dúvidas no ar.

O desafio de um roteiro de filme policial não é apenas envolver o espectador com tensão, cenas de ação e com pistas jogadas aqui e ali para tornar a história interessante. No final, tudo precisa se encaixar e fazer sentido. Cada fato relevante mostrado no filme precisa estar conectado e fazer sentido. E isso acontece em Prisoners. Todos os elementos se encaixam. Mas há pelo menos dois pontos que não se encaixam muito bem e que acabam incomodando e prejudicando o resultado final.

(SPOILER – não leia… bem, você já sabe). Para começar, se de fato Alex era inocente e tinha a mentalidade de uma criança de 10 anos, por que ele não reagiu antes falando a verdade para Keller? Impossível alguém acreditar que uma pessoa aguentaria tanta tortura e agressões apenas com medo de sofrer ainda mais ao dedurar a “tia” Holly Jones (Melissa Leo). Certamente ela e o marido educaram o garoto com medo, mas ainda assim é difícil acreditar que sob tanta tortura ele não falaria que deixou as meninas para a sequestradora. E o longo sequestro de Alex também justifica porque ele ficou com aquela mentalidade subdesenvolvida – afinal, ele não estudou e, certamente, foi bastante maltratado.

Outro ponto difícil de engolir tem a ver com o final. O detetive Loki faz barulho com o carro ao chegar, bate na porta e ainda chama a Holly. E, mesmo assim, a mulher segue com a rotina e não pensa em dispensar o policial ou se ver livre dele de outra maneira? Por que ela desistiria no final? Não faz sentido.

Esses dois pontos incomodam porque o restante do filme funciona muito bem. Além de questionar pontos importantes sobre a perda de fé, a loucura e as formas com que as pessoas lidam com a perda e o imprevisto, Prisoners amarra bem todas as pontas. Só não convence nos dois pontos citados, além de ser difícil de acreditar na resolução final para o drama de Keller. Por quanto tempo ele fez barulho? E como ninguém ouviu antes? O detetive Loki parece que é o único herói desta produção, que consegue envolver bem o espectador e que tem muitas qualidades, mas alguns probleminhas que poderiam ter sido evitados.

NOTA: 9,2.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Foi difícil chegar a uma nota para este filme. Inicialmente, cheguei a avaliá-lo até melhor. Movida pela tensão criada pela história logo depois que Prisoners terminou. Mas os dias foram passando e, quanto mais eu pensava nos pontos que não se encaixavam, mas eu achava que deveria diminuir a nota do filme. Cheguei na avaliação acima porque acho que Prisoners toca em pontos importantes e que precisam ser discutidos. Se não fosse assim, talvez as pequenas mas importantes falhas do roteiro fariam ele descer ainda mas na minha avaliação.

O diretor Denis Villeneuve faz um belo trabalho. Além de destacar a interpretação dos atores, e de colocá-los sempre em sequências bastante extremas, ele não economia nas cenas noturnas e de impacto. O filme tem ritmo e valoriza o bom roteiro de Guzikowski. Mais um belo trabalho do diretor canadense que já acumula 53 prêmios na carreira que tem apenas seis longas, quatro curtas, uma série de TV e a participação em outro longa com um segmento até agora.

O personagem de Bob Taylor acaba se revelando ainda mais interessante no final. Ele e Alex Jones ganham uma dimensão totalmente diferente. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme ainda). Descobrimos que Bob foi o segundo garoto sequestrado pelo casal Jones e que, depois de fugir, nunca mais se recuperou. Ele descobriu o livro Finding the Invisible Man e resolveu recriar o roteiro de terror que viveu de uma forma bastante sinistra. E sem ser compreendido. O símbolo do labirinto, compartilhado por Bob e Alex, tinha origem no medalhão do marido de Holly, o mesmo homem que acaba sendo preso após confessar para o padre Patrick Dunn que havia matado a 16 crianças. Bob e Alex foram tão traumatizados que não conseguiram se livrar daquele terror, mas o detetive Loki acaba chegando à verdade.

Aliás, outro ponto interessante deste filme é a ironia do final. (SPOILER – não leia… bem, você já sabe). Desprezível a violência empregada por Keller contra Alex que, no fim das contas, foi a maior vítima de toda esta história. Mas se não fosse o cativeiro que ele provocou, o detetive Loki não teria ido até a casa de Holly para avisá-la do resgate de Alex e, consequentemente, não teria descoberto a verdade. Interessante esta provocação da história, após fazer toda aquele reflexão de que a justiça com as próprias mãos pode ser bastante injusta.

Os atores envolvidos nesta história fazem um belo trabalho. A ponto de convencer o espectador sobre o momento que cada um deles vive. O destaque, claro, fica para Jake Gyllenhaal e Hugh Jackman, que dominam a cena. Em papéis menores, mas igualmente convincentes, estão Viola Davis, Maria Bello e Terrence Howard. Mesmo aparecendo muito menos que os protagonistas, os suspeitos desta produção se saíram muito bem. Em papéis delicados, os atores Paul Dano e David Dastmalchian convencem pelo tanto que eles se revelam “desfuncionais”. Melissa Leo também está bem, se bem que eu acho que o excesso de maquiagem/caracterização atrapalha um pouco a atriz.

Da parte técnica do filme, vale destacar o ótimo trabalho do veterano diretor de fotografia Roger Deakins. Ele tem que lidar com várias cenas escuras e em penumbra e consegue um belo resultado final. Muito bom também o trabalho de edição da dupla Joel Cox e Gary Roach. A trilha sonora de Jóhann Johannsson é fundamental para o filme, ainda que não seja nada inovadora. Ela apenas segue o peso e o estilo de outros filmes de suspense policial.

Agora, algumas curiosidades sobre esta produção. Hugh Jackman entrou no projeto quando Antoine Fuqua era o diretor escalado para Prisoners. Depois, os dois saíram do projeto. Após vários anos de desenvolvimento para o filme sair do papel, Jackman acabou voltando.

Mark Wahlberg e Christian Bale chegaram a ser cogitados para estrelar o filme tendo Bryan Singer como diretor. Hummm… essa junção teria sido interessante também.

Prisoners estreou em agosto deste ano no Festival de Cinema de Telluride. Depois, ele passou pelos festivais de Toronto, San Sebastián e Zurique. Nesta trajetória, a produção ganhou dois prêmios: Melhor Ator Coadjuvante para Jake Gyllenhaal no Hollywood Film Festival e o terceiro lugar na escolha da audiência no Festival de Cinema de Toronto.

Aliás, gostei muito do nome original deste filme. Prisoners… o conceito de prisioneiros pode ser aplicado a vários personagens deste filme. Não apenas às vítimas diretas, as crianças, mas também aos familiares, que ficam aprisionados no drama da falta de respostas, e aos personagens Bob e Alex.

No Brasil, o filme acabou levando o nome de Os Suspeitos. Não é um nome equivocado, evidentemente. Mas acho que o original tinha mais força. Sem contar que já existe um filme com este nome no mercado nacional – tradução de The Usual Suspects, ótimo filme de 1995 dirigido por Bryan Singer.

Prisoners teria custado cerca de US$ 46 milhões. Nas bilheterias dos Estados Unidos, até ontem, dia 18, o filme faturou pouco mais de US$ 55,8 milhões. Nos demais mercados onde o filme já estreou, ele teria acumulado outros US$ 22,6 milhões. Ou seja, está dando lucro.

Esta produção foi filmada em três cidades do estado da Georgia, nos Estados Unidos: Porterdale, Conyers e Atlanta.

Os usuários do site IMDb deram a nota 8,1 para Prisoners. Uma excelente nota, levando em conta o padrão do site. Os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 170 textos positivos e 39 negativos para Prisoners, o que lhe garante uma aprovação de 81% e uma nota média de 7,3.

A disputa entre os bonitões neste filme é dura. E os papéis que eles desempenham não favorecem muito para as fãs. 🙂 Mas apesar do cacoete com o olho, acho que eu votaria no Jake Gyllenhaal como o mais interessante do filme.

Esta é uma produção 100% dos Estados Unidos. Sendo assim, ela se soma a outras publicadas recentemente aqui no blog e que satisfazem a votação em que os EUA ganharam como alvo de uma série de críticas aqui no site. Espero que esteja sendo do agrado de vocês, caros leitores.

CONCLUSÃO: Crimes envolvendo crianças são mais cruéis. Mexem com qualquer pessoa, sendo ela mãe, pai, ou não tendo filhos. Prisoners pega o espectador pelo estômago quando duas meninas desaparecem e o tempo corre sem uma solução para o mistério. Um policial e um pai dividem a atenção na busca pela verdade. Busca essa que coloca a nossa apreensão e crença em uma solução em xeque. Normalmente, as pessoas querem que os bandidos se ferrem.

Mas e quando não temos certeza sobre quem é o bandido? E mesmo tendo esta certeza… a melhor saída é realmente a vingança? Este filme vai bem, coloca muitas pistas no caminho e explica tudo no final de forma satisfatória. Mesmo assim, tem alguns probleminhas para convencer ao público nos detalhes, o que não permite que ele seja perfeito. Mas é bom e angustiante.

Lore

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Uma época trágica, de grande sacrifício e perdas sempre tem muitas histórias impressionantes. Algumas contadas com muito mais frequência que outras. Lore é um destes filmes que conta algumas destas histórias menos conhecidas. Normalmente, quando lembramos do final da Segunda Guerra Mundial, somos apresentados a histórias de guerra heroicas, ou sobre algum sacrifício envolvendo a sobrevivência de judeus. Mas o que aconteceu com os filhos de alemães que se envolveram diretamente com o nazismo? Esta história pouco ou nada contada é o foco desta produção impressionante.

A HISTÓRIA: Enquanto toma banho e penteia o cabelo de forma enérgica, Lore (Saskia Rosendahl) conta os passos de um jogo de amarelinha que leva do inferno até o céu. A irmã dela, Liesel (Nele Trebs) está brincando, fora de casa, quando o cão da família começa a latir. Elas estão na Alemanha nazista. Lore olha pela janela, e vê que um caminhão do Exército alemão chegou. Descendo a escada, ouve a mãe, Asta (Ursina Lardi), e o pai, Peter (Hans-Jochen Wagner), conversando. Ele diz que eles poderão levar apenas o que couber no caminhão. Asta não parece satisfeita. Em pouco tempo, Lore, Liesel, os gêmeos Gunter (André Frid) e Jürgen (Mika Seidel) e o bebê Peter (Nick Holaschke) fogem com a mãe. Este será apenas o início do calvário desta família de alemães no final da Segunda Guerra Mundial.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes deste filme, por isso eu recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Lore): Uma ótima direção se percebe nos detalhes, em cada escolha de cena e no estilo da narrativa. Por isso mesmo, o trabalho da diretora Cate Shortland chamou a minha atenção logo nos primeiros minutos, com os enquadramentos e os cortes da narrativa diferenciados, poéticos, belos e rítmicos que mostravam o cotidiano de Lore e da família dela.

Esta característica no trabalho de Shortland se mantém durante todo o filme. Em vários momentos o espectador é surpreendido com um ângulo diferenciado, o foco em um detalhe da cena ou na interpretação dos ótimos atores envolvidos. Mas apenas uma ótima direção não é suficiente para fazer um grande filme. É peça fundamental também o roteiro. E Lore, para a nossa alegria, tem um trabalho primoroso de Shortland com Robin Mukherjee, que trabalharam sobre uma das três histórias contadas no livro The Dark Room, de Rachel Seiffert.

Mergulhamos na vida da família da protagonista quando eles devem abandonar a casa da família porque o Terceiro Reich está por um triz. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Esses momentos de ruptura sempre guardam uma força narrativa impressionante. Ainda mais quando não se trata da ruptura na vida de apenas uma pessoa. Mas, neste caso, de uma família e de uma nação. Quando Shortland escolhe acompanhar de perto, muito perto a Lore, que rapidamente acaba virando a líder daquela família de alemães, ela convida o espectador a ficar tão perplexo quanto aqueles “inocentes” personagens sobre tudo o que vai se descortinar aos poucos à frente de seus olhos.

A alegoria deste filme é envolvente e fascinante. Normalmente, como eu disse lá no início, somos apresentados às histórias das principais vítimas do extermínio nazista. Principalmente ao drama dos judeus. Ou então à histórias de heróis de guerra. Todas elas muito importantes, não tenho dúvida alguma. Especialmente a das vítimas do regime nazista. Afinal, só mesmo fazendo o registro histórico daqueles fatos absurdos e volta e meia relembrando o que aconteceu para tentar não repetir os mesmos erros. Ainda assim, eu sempre tive uma grande curiosidade para saber mais sobre a história menos contada.

E ela envolve o povo alemão. Alguns filmes abordaram esta ótica da história, mas eles são pouco frequentes – um exemplo relativamente recente foi Good, que tem uma crítica aqui no blog. Desde que comecei a estudar sobre a II Guerra Mundial na escola, sempre quis saber mais sobre a ótica dos alemães. Afinal, como eles permitiram que um regime como o nazista fizesse os absurdos que fez? A maioria sabia o que estava acontecendo, de fato, incluindo os campos de extermínio, ou eram enganados pela eficaz propaganda nazista? Quantos se preocupavam mais com o êxito econômico do regime e ignoravam, propositalmente, a “limpa racial” que acontecia paralelamente?

Nunca tive respostas satisfatórias para estas perguntas. E por mais que a Alemanha tenha se recuperado muito bem da divisão do país e de todas as sanções que vieram após o fim da guerra, é evidente que as cicatrizes naquele país continuam abertas. Pois bem, Lore ajuda a contar um pouco desta história menos conhecida. Através da história ficcional de Lore e de sua família, acompanhamos a luta pela sobrevivência dos herdeiros de um comandante nazista, responsável pela operação em um dos vários campos de extermínio.

Apesar de ser uma ficção, este filme tem uma história muito convincente e que, quem sabe, não guarda um bom paralelo na vida real? Para mim, uma das características mais marcantes do filme é que temos uma divisão fundamental entre os adultos e as crianças desta história. A maioria dos velhos sabia muito bem o que estava acontecendo, e lamentaram a morte de Hitler e o fim da Alemanha como eles conheciam. Mas os jovens e as crianças viviam na ignorância, acreditando na história que os seus familiares contavam – e nestas histórias, claro, Hitler era um semi-deus, perfeito, e não havia nada de horror nazista.

Desta forma, a trajetória de Lore e de seus irmãos, com tudo o que acontece ao redor deles, nos leva pelas mãos para mergulhar na transição entre a alegoria da infância e da inocência/ignorância para a passagem para a vida adulta e para o confronto com a dura realidade, seus crimes e imperfeições. Nem todas as crianças passam pelo mesmo choque, ou conseguem ter a mesma leitura da realidade. O que parece ter acontecido com a população da Alemanha que acaba sendo dividida em diversos setores.

Quando Asta decide deixar os filhos e recomenda que Lore procure a avó deles, perto de Husum, no Norte da Alemanha, quase na fronteira com a Dinamarca, ela faz isso antes que os Aliados a encontrem. Ela sabe que será presa e que os seus filhos serão levados, ou ficarão desprotegidos. Certo que o abandono de Asta também não ajuda nada aos filhos. Pelo contrário.

Impressionante a força da protagonista, interpretada pela fantástica Saskia Rosendahl, para levar a família adiante. E ela também tem sorte. Sim, porque se não tivesse encontrado pelo caminho a Thomas (Kai-Peter Malina), dificilmente Lore e os irmãos teriam chegado tão longe. E a aparição daquele jovem na história apenas torna ela mais interessante, criando a tensão sexual e o perigo constante que fazem o espectador esperar pelo pior a qualquer momento.

Lore encontra Thomas em uma casa onde, bem próximo dali, uma mulher havia sido estuprada e morta. Ele seria o culpado? Esta pergunta ficou na minha mente a partir de então. Rapaz de poucas palavras, mas de olhar fixo em Lore, Thomas é uma incógnita. Até que começa a defender aquela família – para, ele também, é preciso dizer, seguir adiante. Mas não sabemos até quando aquela paz aparente entre filhos de alemães e um judeu sobrevivente vai persistir.

A impressão que o roteiro nos dá é que a missão que Lore recebe da mãe é bastante absurda. Logo no início eu tive a impressão de que ela praticamente teve que cruzar o país carregando os irmãos. Quando a avó pergunta para Lore de onde eles estavam vindo, ela diz que eles tinham saído da Floresta Negra. Pois bem, procurando a distância entre a Floresta Negra, que fica no Sul da Alemanha, perto da Suíça, e a cidade de Husum que, como eu disse antes, fica ao Norte, vi que a protagonista desta história percorreu uma distância que hoje é medida entre 880 quilômetros e 930 quilômetros – dependendo da rota adotada. Imaginaram fazer boa parte desta distância à pé e sem dinheiro?

Neste caminho, a protagonista e os demais personagens nos apresentam a realidade da Alemanha logo após o fim da Segunda Guerra Mundial. Havia muita fome, violência, mortes e controle do movimento e da vida das pessoas. O país foi dividido entre os vencedores, e os alemães eram vistos com desconfiança. Quem teve ligação com o regime nazista foi perseguido, julgado, morto ou exilado. Claro que as pessoas ligadas ao nazismo cometeram absurdos, mas será mesmo que todos os alemães podiam ser considerados culpados pelo que aconteceu?

Interessante, e o filme mostra bem isso, que os próprios alemães se tratavam de forma desigual. Fica evidente que muitos adultos, que provavelmente discordavam dos caminhos da ditadura de Hitler, passaram a tratar com desconfiança os seus pares com o fim da guerra. Quando descobriam a ligação das pessoas com o regime, como é o caso dos camponeses que vivem perto da família quando ela se refugia após sair de casa, reagem com repúdio e discriminação. Sob esta ótica, a história do filme sugere que nem todos pensavam igual na Alemanha nazista. E o clima que percebemos, com o fim da guerra, é de “cada um por si e salve-se quem puder”.

Havia alguma solidariedade, como os centros para ajuda onde as pessoas podiam tomar banho e pegar alguma comida, mostrado quase no meio do filme. Mas esta “solidariedade” era acompanhada de uma exigência: os alemães deveriam olhar várias fotos que mostravam o Holocausto. E aí outra parte do roteiro interessante: a reação de muitas pessoas que, mesmo colocadas frente ao inevitável, seguiam negando que aquilo havia ocorrido. Algo que continua até hoje – a incrível negação da realidade abominável daqueles anos.

Neste momento do filme, Lore vê pela primeira vez a história perfeita contada por sua família começar a ruir. (SPOILER – não leia… bem, você já sabe). Ela acredita que identificou o pai em uma foto de um campo de extermínio. Mais tarde, ao confirmar a impressão, ela se desfaz das “provas”. E vive o conflito que muitos alemães viveriam naqueles anos e nas gerações seguintes: afinal, em que história eles deveriam acreditar? No caso de Lore, naquela que a mãe e o pai sempre lhe contaram, ou naquela que ela começa a perceber ao ter que cruzar a Alemanha carregando os irmãos?

Quando Lore percebe que o caminho deles acaba ficando quase impossível de ser separado do de Thomas, as dúvidas apenas crescem. Afinal, ele é um judeu, um parasita, enganador, conforme ela sempre aprendeu em casa. Evidente que a garota sente atração e repúdio em relação a ele, em uma mistura entre o que ela aprendeu até então e a sua nova fase, de entrada na vida adulta. Ao mesmo tempo, me impressionou a atitude de Thomas, de ajudar Lore e aos irmãos, mesmo eles sendo “inimigos”.

E aí surge uma das reflexões do filme. Afinal, aqueles descendentes de nazistas mereciam ser punidos? Thomas deveria se vingar deles pelo que os pais haviam feito? Evidente que não. Mas daí a ajudá-los por tanto tempo… acabei temendo pelo que pudesse acontecer no final da história. Na dúvida se ele estava fazendo aquilo por altruísmo ou com alguma intenção ruim bem camuflada.

Mas voltando para a peregrinação de Lore, que também foi sentimental e filosófica – mais que apenas de uma longa viagem. Em um certo momento do filme, na troca de diálogos mais poderosa do roteiro, quando Thomas está ameaçando ir embora, a protagonista lhe confronta dizendo que ele é um mentiroso compulsivo, que não consegue evitar a mentira. Inicialmente ela atribui as mentiras aos judeus – afinal, ele é um deles. Mas depois, comenta que elas estão por toda a parte. Bingo! Esta é a leitura que Lore faz a duras penas. E tanto ela, quanto Thomas e nós, sabemos que ela não está se referindo apenas aos judeus, mas a todas as mentiras que pairam naquela Alemanha que ela não conhecia.

Pouco depois, temos uma outra grande surpresa no roteiro – ela não seria a primeira, e nem a mais forte delas. Quando descobrimos que Thomas andava com documentos que não eram dele, uma série de perguntas para as quais nunca teremos respostas se abrem. Afinal, ele não era realmente judeu? Ou ele era judeu e apenas andava com os documentos de outro homem? Não é a impressão que Jürgen passa quando conta a Lore que o rapaz usava documentos de um judeu porque os americanos gostavam deles. Mas se ele não era judeu, porque havia sido preso? Sim, porque ele tinha no braço os números de quem havia passado por um campo de concentração. Se ele não havia sido preso porque era judeu, ele fazia parte de que grupo de perseguidos? Nunca saberemos.

Mas esta revelação abre um precedente de dúvidas interessante. Toda a generosidade que Thomas parecia ter sido capaz de fazer, como judeu, ajudando a filhos de alemães que haviam perseguido o seu povo, poderia ser falsa. Talvez ele fosse um comunista, ou um homossexual – por isso ele havia rejeitado Lore? Não importa. E talvez seja essa uma das principais mensagens deste filme. Tanto ninguém deveria ser perseguido por ter uma determinada característica, como a generosidade que aquele rapaz é capaz de ter não deve ser atribuída a um determinado grupo. As pessoas sempre são responsáveis pelos seus atos, e tem escolhas para fazer.

Sei que me alonguei demais, desta vez, mas achei este filme fascinante. E se a narrativa inteira é cheia de belas imagens, um ótimo ritmo, desempenhos marcantes dos atores e reviravoltas importantes, o que dizer do final de Lore? Achei simplesmente perfeito. Depois que ela e os irmãos tem uma perda terrível e chegam em “local seguro”, a avó deles (Eva-Maria Hagen) segue querendo seguir com os mesmos valores e a educação de antes. E afirma que os netos não devem pensar que os pais deles fizeram qualquer coisa de errado – pensamento que muitos alemães tinham após a guerra e que muitos seguiram tendo depois. Mas tudo tinha mudado.

Lore, Liesel e Jürgen não eram mais os mesmos, assim como as novas gerações daquele país. Eles estão cansados de mentiras e de regras que não valem mais. E esse sentimento de fúria e indignação não poderia ser melhor exemplificado do que na destruição que Lore faz no quarto com aqueles símbolos de um passado que tinha chegado ao fim. Genial.

NOTA: 10.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Tudo funciona bem neste filme. Antes, elogiei a direção diferenciada de Cate Shortland e o roteiro bem escrito e envolvente escrito por ela e Robin Mukherjee. Pois bem, mas estes são apenas alguns fatores fundamentais para Lore dar certo. Devemos acrescentar à lista a ótima, detalhista e poética direção de fotografia de Adam Arkapaw; a clássica, envolvente e emocionante trilha sonora de Max Richter; e a precisa e irretocável edição de Veronika Jenet.

Por tratar-se de um filme de época, Lore precisa que outros elementos técnicos funcionem bem para transportar o espectador para o tempo da história. Então merece ser citado o excelente trabalho de Silke Fischer e Jochen Dehn no design de produção; novamente Jochen Dehn, mas agora na direção de arte; e o de Stefanie Bieker nos figurinos. Outro aspecto técnico bem preciso, sem exageros, e que acaba tendo uma importância grande nesta produção é o da equipe de maquiagem coordenada por Ulrike Borrmann, Antje Dahm e Kathrin Westerhausen.

Fiquei tão fascinada com este filme que eu quis saber um pouco mais sobre o livro The Dark Room, de Rachel Seiffert, que inspirou o roteiro de Lore. Encontrei neste texto do The Guardian algumas informações sobre a obra. Soube, por exemplo, que The Dark Room narra três histórias diferentes ligadas pela narrativa da “perda da inocência de uma nação”. A primeira envolve um jovem alemão, Helmut, com idade para servir o exército, muito patriota, mas que é incapaz de se juntar às tropas porque tem uma paralisia parcial em um dos braços. A segunda história é a de Lore e seus irmãos. E a terceira foca Michael, um professor que vive 50 anos após o fim da guerra e que fica dividido entre o resgate do passado do avô e a falta de culpa dos alunos pelo que foi feito no passado.

Assim como me interessei por The Dark Room, procurei saber mais sobre esta incrível diretora Cate Shortland. Pois bem, ela é australiana e tem 45 anos. Estreou na direção em 1998 com o curta Pentuphouse. Depois, ela dirigiria outros dois curtas e capítulos de duas séries de TV antes de estrear no comando de um longa-metragem. Essa estreia em longas ocorreu em 2004 com Somersault, um filme que eu não assisti mas que, pelo que eu li rapidamente, aborda amor e sexo. Dois anos depois, surgiria The Silence, um filme feito para a TV e, no ano passado, este Lore.

Outro nome que me impressionou neste filme foi o da protagonista Saskia Rosendahl. E o mais incrível: Lore foi o seu primeiro papel no cinema! Uau!! Depois desta estreia, a atriz que fala alemão, inglês e espanhol e sabe tocar violão participou de outras quatro produções, sendo uma delas feita para a TV. Além dela, achei excelente o trabalho de Kai-Peter Malina como Thomas. Os dois ajudam a sustentar o filme.

Lore estreou no Festival Internacional de Cinema de Sydney em junho de 2012. Depois, o filme participaria de outros 21 festivais. Número impressionante. Nesta trajetória, ele ganhou 17 prêmios e foi indicado a outros 23. Entre os prêmios que recebeu, destaque para os de Melhor Diretora para Cate Shortland e Melhor Atuação de um Jovem Ator para Saskia Rosendahl conferidos pelo Círculo de Críticos de Cinema da Austrália; Melhor Filme segundo os críticos do Festival de Cinema de Hamburgo; Prêmio do Público para Cate Shortland no Festival Internacional de Cinema de Locarno; Melhor Atriz para Saskia Rosendahl, Melhor Direção de Fotografia, Melhor Trilha Sonora e Melhor Filme no Festilva de Cinema de Estocolmo; e Melhor Novo Diretor para Cate Shortland no Festival Internacional de Cinema de Valladolid. Só para citar os principais.

Falando em prêmios, Lore foi o indicado da Austrália para o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro na edição 2013. Mas não chegou até a lista dos cinco finalistas. Lembrando quem chegou na reta final: Amour, No, Rebelle, En Kongelig Affaere e Kon-Tiki. Destes, assisti apenas ao premiado Amour e também a Kon-Tiki. Amour, de fato, é maravilhoso. Mas entre Lore e Kon-Tiki, sem dúvida prefiro o primeiro. Assim, posso dizer que foi uma pena o filme, que é uma coprodução da Austrália, Alemanha e Reino Unido, não ter chegado até a lista de finalistas do Oscar.

Lore teria custado 4,3 milhões de euros e faturado, nas bilheterias dos Estados Unidos, quase US$ 969 mil. E na Austrália, pouco mais de 296,5 mil dólares australianos. Tem que ver o desempenho no restante dos mercados, acumulado. Mas os dados disponíveis são preocupantes e mostram que o filme pode não ter lucro.

Apesar de ser uma produção de três países, Lore foi totalmente rodado na Alemanha, em diferentes cidades.

Os usuários do site IMDb deram a nota 7 para Lore. Uma boa avaliação para o padrão do site, mas nada muito excepcional. Os críticos que tem os textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 92 textos positivos e sete negativos para a produção, o que lhe garante uma aprovação de 93% e uma nota média de 7,6. Poucas vezes vi os críticos darem uma nota melhor que o público. Esta é uma destas ocasiões.

Encontrei dois cartazes de Lore. E admito que fiquei em dúvida por bastante tempo sobre qual eu deveria colocar aqui. Escolhi o que abre esta crítica, mas admito que gostei muito do outro também. Oh, dúvida cruel! Acabei escolhendo o cartaz alemão, mas o que foi para os Estados Unidos era mais impactante. Só que como trazia a bandeira nazista, poderia dar a impressão que era algum tipo de “propaganda”. Talvez por isso que o filme não tenha se saído também nos EUA.

CONCLUSÃO: Saber mais sobre o nosso passado é algo fundamental. Não apenas para entender como chegamos até aqui, mas também para aprender com os erros e com a dor para que eles não se repitam mais. E por mais que você achei que não tem nada a ver com a Alemanha nazista, toda a civilização moderna foi influenciada em maior ou menor grau por aqueles fatos. Por isso mesmo, acho tão impressionante quando um filme como Lore tem a coragem de voltar atrás na história para fazer um libelo impressionante sobre marcas que aquela época deixou em pessoas inocentes.

Filmes históricos sempre valem a pena. Especialmente quando tem como característica principal resgatar a vida de pessoas comuns e o que elas aprenderam com a dura realidade que viveram. Lore tem uma história impressionante, na qual não sobra nenhuma linha – seja de diálogos, seja da narrativa. Muito bem dirigido e com ótimos atores, este filme é um libelo a um futuro sem os absurdos que vivemos em diversas fases do passado. Imperdível.