Reservation Road – Traídos pelo Destino

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Tem alguns filmes que eu fico “alimentando” a curiosidade para vê-los há algum tempo. É como um bom feijão que você prepara… tem que primeiro escolher bem os ingredientes, depois preparar tudo e cozinhar lentamente. Pois quando um projeto me chama a atenção, fico com ele ali, guardado na memória, para quando estiver disponível eu assistí-lo com “fome”. Não sei exatamente o porquê, mas isso aconteceu com esse Reservation Road. Tinha ouvido falar do projeto há muito tempo e me interessei. Talvez pela Jennifer Connelly, que adoro, ou pelo Joaquin Phoenix ou pelo Mark Ruffalo, dois atores que eu passei a admirar com o tempo, conforme eles iam “amadurecendo” nas suas respectivas carreiras. Ou talvez porque tinha curiosidade de ver o novo trabalho do diretor irlandês Terry George, que fez antes Hotel Ruanda. Não sei exatamente a razão. O que eu sei é que eu vi o filme hoje e que gostei muito do que eu vi. O tema não é novo – claro -, mas o tratamento que foi feito dele e, principalmente, as interpretações do trio de atores principais é algo impressionante.

A HISTÓRIA: O casal Ethan (Joaquin Phoenix) e Grace Learner (Jennifer Connelly) assistem, ao lado da filha Emma (Elle Fanning), orgulhosos a apresentação do filho Josh (Sean Curley) em um concerto ao ar livre promovido pelo colégio em que eles estudam. Ao mesmo tempo, Dwight Arno (Mark Ruffalo) assiste a uma partida do Red Sox com o filho Lucas (Eddie Alderson). Enquanto a família Learner passa um dia divertido e tranquilo junto a colegas do colégio de Emma e Josh, Dwight começa a se estressar com as ligações insistentes da ex-mulher, Ruth Wheldon (Mira Sorvino), que está preocupada com o filho e quer saber porque eles estão se atrasando. Na volta para casa, a família Learner para em um posto de gasolina e Josh sai do carro para soltar uns vaga-lumes, quando Dwight perde o controle do carro depois de uma curva e atropela o garoto. Depois da morte de Josh, Ethan, Grace e Dwight vêem as suas vidas mudarem radicalmente.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – Aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta trechos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Reservation Road): O diretor e roteirista Terry George realmente faz um trabalho meticuloso e impressionante. Cada cena, cada ângulo e cada posição de câmera é planejado com uma idéia muito clara de efeito dramático. O diretor cuida para o filme ser, essencialmente, belo. Ainda que seja triste e duro, muitas vezes, mas é um filme belo. Pelo menos nas imagens e no cuidado técnico.

A história já vimos antes: um homem normal, como tantos por aí, acaba provocando um acidente fatal. Ele destrói a vida de uma família e, de quebra, a sua própria. Por outro lado, o casal que perde o filho se vê dividido entre o desafio de “seguir adiante”, tendo que cuidar de uma filha menor, e o pesadelo de ver que ninguém será responsabilizado pela morte anti-natural de “seu garoto”. Lá pelas tantas, o pai do menino acaba desconfiando da polícia e da aplicação da lei e resolva, por conta própria, buscar o culpado. E quanto mais o tempo vai passando, mais ele vai se enchendo de ódio e se aproximando da figura do justiceiro.

Mas o diferente de Reservation Road com relação a outras histórias similares é que o filme não deixa a “peteca” cair em nenhum momento. Pelo contrário. De maneira muito natural ele vai fazendo a narrativa crescer cada vez mais até o ponto do espectador ficar aflito esperando “algo ruim acontecer”. Parece quase inevitável que a tragédia inicial da morte daquele menino não seja a única da história. Além do roteiro do diretor junto com John Burnham Schwartz (também autor do livro em que a história é baseada) ser muito responsável por esse ritmo potente do filme, as interpretações dos atores são fundamentais para isso.

Eu ouso dizer que Joaquin Phoenix nunca esteve tão bem em um papel quanto neste filme. Sim, ele já fez grandes trabalhos antes, mas não vi uma interpretação tão poderosa quanto como Ethan Learner. Natural, sem vestir estereótipos, ele vai se transformando com o tempo de uma maneira incrível e perfeitamente compreensível. Jennifer Connelly também está maravilhosa em seu papel, ainda que o filme seja realmente dos dois atores principais. Mark Ruffalo chega a dar nervoso no papel de um pai que luta para viver os primeiros momentos bons ao lado do filho enquanto se vê corroído pela culpa. Tem horas que você tem vontade de bater nele por sua covardia e tem horas que você entende pelo que ele está passando. A atriz Elle Fanning acaba aparecendo pouco na história, mas também faz um belo trabalho. Aliás, a menina, que logo mais, dia 9 de abril, completará 10 anos, para mim é uma das melhores trabalhando no cinema na sua idade. Todos os filmes que ela fez até agora ela consegue uma interpretação emocionante e equilibrada. Ah, e para quem pensou, “Mas ela é parente da Dakota Fanning, a menina de Man on Fire (Chamas da Vingança) e Hide and Seek (O Amigo Oculto)?”, sim ela é a irmã mais nova de Dakota.

Todos os demais atores no filme são coadjuvantes, incluindo Mira Sorvino. Ainda que todos os demais sejam eclipsados pelos atores principais, ela e o menino que interpreta o seu filho, Eddie Alderson, estão bem.

O que eu achei impressionante do filme é como ele não escapa do que é mais viável em histórias assim: um atropelamento fatal com fuga dificilmente tem solução. Exceto, claro, se alguém tem tempo de anotar a placa ou o tipo certo do carro. No caso desta história, o fato do motorista ser um advogado habituado a processos criminais o ajudou a “acobertar” a única evidência que poderia denunciá-lo: seu automóvel. Ainda que ele tenha dado várias pistas de insegurança e ter ameaçado se entregar, a verdade é que ele não seria descoberto nunca se não fosse a casual proximidade de sua ex-mulher com a outra família – no caso a personagem de Mira Sorvino era professora de piano de Emma e se aproximou mais do outro casal após a perda de seu filho. Impressionante o final.

NOTA: 9.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Como disse anteriormente, quase todos os outros atores do elenco, com exceção de Phoenix, Connelly e Ruffalo são coadjuvantes. Ainda assim, destaco a interpretação de Antoni Corono como o Sargento Burke, aparentemente eficiente, controlado e, como quase todos os policiais, um pouco cínico. Também está bem em seu pequeno papel Gary Kohn como o marido de Ruth, Norris Wheldon. A hora que ele recebe Dwight em casa na noite em que eles estão fazendo uma festa chega a te dar coceira, porque você só fica esperando a hora da “confusão”. hehehehehehehe

Como falei antes, gostei do cuidado técnico do filme. Por isso destaco a direção de fotografia muito competente de John Lindley e a trilha sonora precisa de Mark Isham. A edição de Naomi Geraghty também merece crédito.

A história se passa em Connecticut, onde o filme realmente foi rodado – mais precisamente nas cidades de Easton, Fairfield e Stamford. Para quem achou interessante o parque que aparece na produção, ele se chama Lake Compounce Family Theme Park e fica em Bristol, Connecticut.

Nas bilheterias o filme teve um desempenho fraco. Ficou em cartaz apenas duas semanas nos Estados Unidos e conseguiu pouco mais de US$ 121,9 mil.

Os usurários do site IMDb conferiram a nota 7 para o filme, enquanto que o Rotten Tomatoes registra 36 críticas positivas e 63 negativas de jornalistas que tem seus textos publicados no site.

Aqui encontrei uma pequena crítica sobre o livro. O trabalho de Schwartz realmente parece interessante.

Não sei, mas toda vez que um filme começa e vejo aquela abertura da produtora Focus Features eu tenho esperanças de algo bom que vem por aí. Nunca falo de produtoras, mas aí está uma que eu gosto.

CONCLUSÃO: Um potente filme sobre a perda de um filho e a culpa que o culpado acaba carregando por ter provocado um acidente fatal. Bem filmado e com um roteiro que não deixa a história cair até o final tem, mais que tudo, grandes interpretações, especialmente de Joaquin Phoenix. Contudo, pelas críticas que li, parece mais um destes filmes “ame ou odeie”, porque arranca ao mesmo tempo efusivos elogios e críticas pesadíssimas. Para mim é um belo filme sobre como lidamos com a perda e a culpa.

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Slipstream – Um Sonho Dentro de Um Sonho

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Acho interessante quando um ator conhecido resolve arriscar-se na direção. Existem por aí inúmeros bons exemplos de atores que se tornaram interessantes diretores, desde Clint Eastwood, Robert Redford até Denzel Washington e Sean Penn. A lista é grande, na verdade. Mas existem também tentativas de atores assumirem a direção de um filme que, digamos, não dá muito certo. Fiquei curiosa para ver o que Anthony Hopkins queria nos contar na direção e com o roteiro deste Slipstream. Em sua carreira, é o terceiro filme que dirige – fez 11 anos antes August (1996) e, em 1990, filmou Dylan Thomas: Return Journey. Nenhum dos filmes anteriores ficou conhecido. E algo me diz que este Slipstream vai seguir o caminho dos anteriores. Gostei da “ousadia” de Hopkins em fazer este filme nonsense e/ou surrealista, mas para mim foi inevitável ficar lembrando, quase durante os 96 minutos do filme, dos trabalhos de Spike Jonze, para dar um exemplo mais recente de um cineasta com a digital de fazer “filmes malucos” ou cheios de uma mistura entre realidade e sonho. O problema é que diretores como Spike Jonze acabam se mostrando realmente melhores e mais criativos do que figuras como Anthony Hopkins. Realmente o ator inglês que completou 70 anos em 2007 parece ser melhor interpretando do que dirigindo.

A HISTÓRIA: Cenas cortadas rapidamente e logo assistimos a Bette Lustig (Fionnula Flanagan) falando ao telefone. Ela comenta sobre algo trágico que aconteceu com seu amigo, Felix Bonhoeffer (Anthony Hopkins), e sobre a viagem que fará na manhã seguinte para Las Vegas com Gina (Stella Arroyave). Em seguida, imersos em uma cena que aparece na TV, passamos para a vida de Felix – ou o que parece ser sua vida. Aos poucos, contudo, a história vai se confundindo cada vez mais entre a realidade, o sonho e as memórias do roteirista Felix Bonhoeffer.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – Aviso aos navegantes que boa parte do texto a seguir conta trechos importantes do filme, por isso só recomendo que continue a ler quem já assistiu a Slipstream): Claro que o filme de Hopkins tem uma narrativa própria. E que até se demonstra interessante. Não dá, exatamente, para comparar com Spike Jonze, ainda que eu tenha lembrado muito do diretor e seu Being John Malkovich por toda a premissa de “entrar na cabeça de alguém criativo” e pela mescla entre realidade-sonho-e-imaginação. Mas as coincidências terminam aí. Porque o filme de Hopkins é bem mais fragmentado, com cenas “acidentais” bem planejadas e imersas no meio da realidade/sonho, lembranças de discursos de Nixon, de guerras, de parte da história que marcou os Estados Unidos e o mundo nas últimas décadas. Ok, essas imersões de cenas são interessantes. Pena que o resto da história seja um tanto “fraca”.

O filme, na verdade, funciona bem até pouco depois de 30 minutos. Mais precisamente, até toda a sequência da lanchonete na beira-da-estrada protagonizada por Ray (Christian Slater, ótimo no seu papel) e por Geekman (Jeffrey Tambor). Depois que Ray tem um colapso e entra em cena toda a produção do “filme dentro do filme”, a história fica meio chata. Especialmente porque acaba sendo uma crítica aos bastidores do cinema – com todo o jogo de egos entre produtores, diretores, atores e demais pessoas da produção – mais do que um filme sobre a crise de identidade de um artista (no caso o roteirista) ou a dualidade entre realidade e sonho. Acho que acaba ficando meio chato e até meio “pueril” todo o debate sobre quem é mais importante no filme: o diretor, o produtor, o roteirista ou os atores… quem tem o direito de criar e quem não tem, etc. Oras bolas, o que me importa esse jogo de cena e essa disputa entre egos por detrás de uma produção? Ok, a muita gente lhes interessa – basta olhar o sucesso das revistas de fofocas -, mas o que eu acho que realmente importa é o resultado final e não a vida pessoal das pessoas envolvidas em uma produção ou os bastidores das histórias que querem nos contar.

Mas ok, o filme acaba indo, a partir da meia hora inicial, para este caminho de bastidores do cinema. Tem algumas partes engraçadas e que são interessantes, como todo o descontrole e autoritarismo do produtor principal Harvey (John Turturro em um papel em que ele não para de gritar um segundo, mas em que está muito bem). Os diálogos de Harvey com o diretor Gavin (Gavin Grazer) realmente são ótimos. Mas o filme faz pouco mais que isso, uma crítica aos bastidores das produções hollywoodianas. Como eu disse, tem alguns acertos no jogo de cenas, especialmente quando trata mais de flertar com o sonho dentro do sonho ou, em outras palavras, com o sonho dentro da fantasia do escritor em crise e sob pressão. As cenas de sua memória e de suas referências na formação de sua personalidade jogadas no meio da narrativa são interessantes, mas só. No final das contas, o filme acaba sendo meio arrastado e repetitivo, meio chato na tentativa de ser “autoral” demais. Nem tudo que parece ser muito criativo ou arte realmente é o que pretende ser.

Ainda assim, acho bacana atores como Anthony Hopkins se arriscarem, fazerem cinema além de trabalharem como intérpretes em histórias alheias. Mais por isso que por outra coisa é que dou a nota a seguir para o filme.

NOTA: 7.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Slipstream é uma produção de baixo orçamento do ator. Basicamente, Hopkins se valeu da sua amizade e da “moral” que conquistou nestes anos todos de cinema para contar a história que quis com pessoas muito interessantes no elenco. Por isso é que, além dos atores já citados, o filme conta com interpretações interessantes de Michael Clarke Duncan, Christopher Lawford (como o engraçado Lars), Camryn Manheim (como Barbara), Lisa Pepper (como Tracy, uma atriz que, em uma das cenas iniciais do filme, com Anthony Hopkins em um restaurante à céu aberto, protagoniza um dos melhores diálogos da história), Scott L. Treger (Scott e também o cozinheiro da lanchonete na beira-da-estrada) e a russa Lana Antonova (Lily, a garçonete que aspira ser uma estrela do cinema).

No ano passado, Slipstream concorreu a dois prêmios no Festival Internacional de Cinema de Locarno, na Suíça – as duas indicações para Anthony Hopkins. Ele perdeu o prêmio principal, o “Leopardo de Ouro”, mas ganhou o prêmio do júri jovem. A primeira exibição de Slipstrem foi feita há um ano, no Mercado Europeu de Filmes na Alemanha. Depois esteve, em maio, no Festival de Cannes – fora da competição – e no Festival Internacional de Cinema de Seattle. Em outubro, antes de estrear com cópias limitadas nos Estados Unidos, participou do Festival Internacional de Cinema de Chicago. Até agora foi um filme pouco visto e pouco comentado. E deve seguir assim. Talvez tenha um desempenho um pouco melhor quando sair em DVD.

Para quem gosta de saber as locações dos filmes, Slipstream foi todo filmado na Califórnia, incluindo Los Angeles, Palm Desert e Yucca Valley.

No site IMDb ele ganhou a nota 5,9 dos usuários, enquanto que no Rotten Tomatoes ele recebeu nove críticas positivas e 28 negativas.

De todas as atuações, gostei em especial de Anthony Hopkins (ainda que eu ache que ele parece excessivamente “perdido” durante todo o filme), da colombiana Stella Arroyave (surpreendente em seu papel), de Slater e Turturro, de Fionnula Flanagan e de Lisa Pepper. Um bom grupo em cena.

Ah, e antes que me esqueça: o filme também acaba se parecendo muito a Mulholland Dr. (Cidade dos Sonhos), filme de David Lynch que também faz uma mistura de sonho, fantasia e realidade, com direito a crítica aos bastidores e ao “glamour” do cinema. Mas, mais uma vez, recomendo mais o filme de Lynch que o de Hopkins. Tudo bem que faz tempo já que “nada se cria, tudo se copia”, mas ainda assim acho que existem boas e novas idéias no mercado e que não faz falta tantas idéias repetidas como este Slipstream.

CONCLUSÃO: Um filme que mescla imaginação, lembranças, sonho e realidade. Até a primeira meia hora, se mostra uma história interessante e instigante, mas depois acaba caindo em vários lugares-comum de outros filmes do gênero – de diretores como Spike Jonze e David Lynch que, para mim, fizeram trabalhos melhores. A partir dos 34 minutos iniciais o filme acaba caindo demais em uma “sátira” dos bastidores do cinema e fica chato, arrastado e perde boa parte do seu interesse. O final também acaba sendo meio frustrante. Os atores, no geral, estão bem, mas nada que faça o filme ser recomendado – tem vários outros mais interessantes no mercado. Ainda assim, vale pela curiosidade de ver Anthony Hopkins assinando direção e roteiro.

Mongol

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Gosto de filmes que contam histórias reais ou a saga de um povo em determinado momento da História. Dependendo do número de pessoas envolvida no projeto (geralmente se pensa no número de figurantes) ou do tempo histórico da narrativa, as pessoas costumam classificar filmes assim de “épicos”. Eu sempre acho um perigo chamar um filme de épico, porque ele parece meio “deslocado” no tempo ou até meio chato quando leva esse título. Ao menos para mim. Por isso não vou chamar Mongol de épico, mas de um grande filme histórico sobre a formação daquele povo como sociedade organizada e que dominou boa parte do mundo no final do século XII e início do século XIII. Mongol concorreu ao Oscar 2008 na categoria de Melhor Filme Estrangeiro, mas perdeu a disputa para o austríaco Die Fälscher (que está na minha lista de filmes para assistir há tempos). Ainda assim, o representante do Cazaquistão dirigido pelo russo Sergei Bodrov representou com muitos méritos e honra os países que o produziram na disputa.

A HISTÓRIA: Mongol começa com um homem preso recebendo a notícia de que o monge que enviou para saber de sua mulher está morto. O ano é 1192. Então voltamos duas décadas na história para conhecer a história de Temudjin (interpretado quando criança por Odnyam Odsuren e, quando adulto, por Tadanobu Asano), o filho do khan (chefe de uma tribo) Esugei (Ba Sen). Aos nove anos de idade, ele viaja com o pai para escolher a sua mulher na tribo dos Merkit. Muitos anos antes, Esugei havia roubado a sua mulher desta tribo e, agora, com o casamento do filho com uma de suas meninas, ele pretende selar um acordo de paz. No caminho, contudo, eles param no acampamento de Dai-Sechen (He Qi), um amigo de Esugei. Ali Temudjin conhece a Börte (interpretada quando criança por Bayertsetseg Erdenebat e, adulta, por Khulan Chuluun) e decide casar-se com ela. Pouco depois, na volta para casa, Esugei é morto por uma tribo rival. Temudjin e família são rechazados pelos demais de sua tribo e o garoto sobrevivo a duras penas. Até que adulto ele volta para casar-se com Börte. Os dois juntos vão consolidando o poder de Temudjin até que ele consegue, em 1206, unir todas as tribos mongóis sob uma mesma lei, ordem e sob seu comando.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que parte do texto à seguir conta partes importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Mongol): No resumo acima eu não quis comentar algo que talvez muitos saibam, mas que eu só fiquei sabendo no final do filme – uma surpresa que eu acho bacana (NÃO LEIA se não assistiu a Mongol): que Temudjin é o nome de batismo do personagem mundialmente conhecido Genghis Khan. Juro que não sabia que esse era o nome dele… por isso gostei de só saber no final que aquela história toda de sofrimento, perspicácia e luta era, na verdade, a história de um dos grandes líderes que o mundo já teve – e que, para muitos, foi o grande conquistador da História. Bacana saber disso só no final.

O filme é muito bem feito em vários sentidos. O roteiro do diretor Sergei Bodrov com Arif Aliyev equilibra bem os aspectos humano e histórico do personagem principal. Gosto de filmes “épicos” que fazem isso, se centram nos dilemas e decisões que fizeram pessoas “comuns” tornarem-se excepcionais. Um exemplo clássico de um filme assim é Spartacus, do mestre Stanley Kubrick, que conta com maestria a história do escravo que virou gladiador, sem nunca perder todas as tintas humanas de sua história. Pois Mongol faz o mesmo com Genghis Khan. Claro que depois fui atrás de mais informações e há partes do filme que podem ser questionadas, historicamente, mas quem disse que um filme como este precisa ser 100% fiel à História? Até porque a história mesma está sempre em discussão, com vários pesquisadores discordando entre si e “puxando a sardinha” mais para um lado ou para outro.

Gostei, então, primeiramente do roteiro. Acho que ele valoriza o papel da mulher na história – algo que a maioria das biografias de Genghis Khan ou mesmo de textos sobre o povo mongol não trata -, o que é algo muito bacana. Também valoriza muito a “quebra de paradigmas” que Temudjin estabelece no seu povo. Se alguns dizem “mas isso sempre foi feito assim”, ele diz: “sim, mas podemos fazer diferente e melhor”. Claro que eu acho que a história suaviza bastante a parte “bárbara” do personagem. Afinal, ele foi um dos grandes assassinos da história. E pelo que eu fiquei sabendo através de alguns textos sobre ele e os mongóis (cito como exemplos este e este), na verdade Genghis Khan não perdôo nenhum inimigo – inclusive Jamuha (quando criança interpretado por Amarbold Tuvshinbayar e, quando adulto, pelo ótimo Honglei Sun). Se no filme Jamuha acaba sendo libertado por Temudjin, na vida real ele foi morto pelo outro líder khan antes dele se tornar Genghis. E descobri também que Jamuha era, na verdade, um grande amigo de Temudjin com quem ele havia feito um “pacto de sangue” quando criança, mas que na prática eles não eram filhos da mesma mãe, não tinham laços familiares realmente. Detalhes, claro. Nada que desmereça o filme. Ainda assim, Mongol suaviza muito a figura de Temudjin que, na verdade, pelo que contam os historiadores, era um homem sábio, justo e um grande estrategista, verdade, mas que também foi bem cruel e vingativo – esses últimos pontos o filme não mostra.

Gostei muito dos atores em geral. Todos estão muito bem. Com destaque, claro, para o casal protagonista, o japonês Tadanobu Asano – fiquei louca para ver os outros filmes dele – e a atriz Khulan Chuluun. Asano, por incrível que pareça, tem apenas 35 anos… sinal que a equipe de maquiagem de Mongol fez um excelente trabalho de caracterização do personagem, especialmente quando ele está preso. Gostei muito do garoto Odnyam Odsuren, que interpreta o Temudjin jovem. Na verdade, todos estão muito bem. Além dos atores já citados, destaco a interpretação de Aliya como Oelun, a mãe de Temudjin; de Amadu Mamadakov como Tarugai, o homem que persegue Temudjin quando ele é criança e que maltrata a sua família; e de Sun Ben Hon como o Monge que ajuda Temudjin.

Além do elenco em geral, o filme se destaca por uma fotografia deslumbrante. As paisagens na China e no Cazaquistão, na verdade, ajudam muito. heheheheehehehheehehe. Ainda assim, claro, não deixa de ser um belo trabalho dos diretores de fotografia Rogier Stoffers e Sergei Trofimov. Muito boa também a trilha sonora do finlandês Tuomas Kantelinen.

Ah, já ia me esquecendo: outro ponto “falho” do roteiro é que ele só mostra os adultérios de Börte para ajudar Temudjin e para que ela conseguisse sobreviver sem ele, mas não mostra os vários filhos que ele teve fora do casamento – algo que a História comprova. Resumindo: Mongol é um grande filme, mas falha um pouco ao mostrar só as qualidades de Genghis Khan, sem enfocar o personagem em toda a sua complexidade – incluindo os defeitos, é claro. Na verdade, parece mais um filme encomendado pelo governo da Mongólia do que um filme que busca resgatar a história de um grande líder histórico.

NOTA: 9.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Como eu disse antes, o filme começa no ano de 1192, quando Temudjin está preso, e depois volta 20 anos… no final, a história segue até 1206, quando o personagem é eleito como Genghis Khan e une, pela primeira vez na história daquele povo, todas as tribos sob um mesmo governo e um mesmo sistema. Aliás, os mongóis só dejam de ser tribos nômades com poderes isolados depois que a figura de Temudjin aparece na história. Sob seu comando eles chegariam a dominar grande parte do mundo conhecido na época, ampliando muitíssimo o que era o território original do povo mongol.

O filme foi indicado, até agora, a um total de 10 prêmios. Destes, ganhou dois: melhor figurino para Karin Lohr e melhor som para Stephan Konken no Prêmio Golden Eagle, na Rússia. Mas para a grande mídia, ele realmente recebeu destaque após ser indicado ao Oscar como Melhor Filme Estrangeiro. Há poucos dias, mais precisamente em 17 de março, o filme ganhou no Asian Films Awards, em Hong Kong, o prêmio de Melhor Ator Coadjuvante para o chinês Honglei Sun. Atualmente o filme concorre em seis categorias no Nika Awards, um dos mais importantes – se não o principal – prêmio de cinema na Rússia. Levando em conta que o diretor e roteirista é russo, eu diria que ele tem boas chances de ganhar alguns prêmios… hehehehehehehehehehehe

Falando no diretor, Sergei Bodrov é considerado na Rússia um dos grandes nomes do cinema moderno naquele país. O filme mais conhecido dele, antes de Mongol, foi Nomad, que também conta uma história do Cazaquistão.

Mongol registra a nota 7,5 no IMDb, além de acumular duas críticas positivas no Rotten Tomatoes – e só isso! Parece que os críticos não viram ao filme indicado ao Oscar… heheheheheheheheehehe.

O filme teria custado aproximadamente US$ 20 milhões – se fosse uma produção de Hollywood, por toda a “engenharia” que o filme pede, com certeza teria custado pelo menos cinco ou seis vezes mais.

Mongol é uma co-produção do Cazaquistão, Rússia, Mongólia e Alemanha.

CONCLUSÃO: Um filme competente sobre a história do povo mongol se transformando de tribos isoladas para uma sociedade organizada que seria responsável pela dominação de grande parte do mundo no início do século 13. Na verdade o filme conta a história de Temudjin, o homem que foi responsável por este feito. Bem dirigido, com um roteiro competente – ainda que deixe boa parte da História de lado -, uma equipe de atores afinada e uma fotografia impressionante, é um filme que tenta resgatar a história humana e social daquele povo mas que, também, tem várias cenas de violência e de batalhas sanguinolentas. Interessante.

Youth Without Youth – Uma Segunda Juventude

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Francis Ford Coppola, um dos grandes nomes do cinema dos Estados Unidos, ficou oficialmente 10 anos sem filmar. Uma década de ausência deste gênio do cinema – que faz parte, junto com Steven Spielberg, George Lucas e Martin Scorsese do grupo que formou o “novo cinema de Hollywood” a partir dos anos 60 e 70 – é muito tempo. Digo que ele ficou oficialmente fora da direção porque ele participou, ainda que sem fazer parte dos créditos, das filmagens de Supernova, produção do ano 2000. O filme anterior, o que ele filmou por último oficialmente, foi The Rainmaker (O Homem que Fazia Chover), em 1997. Exatamente 10 anos antes deste Youth Without Youth. Fiquei louca ao saber de sua volta como diretor e estava sedenta para ver este filme. Vale dizer, claro, que nestes 10 anos Coppola não ficou afastado dos cinemas. Pelo contrário. Como produtor ele trabalhou muito. Foi responsável por nada menos que 18 produções para os cinemas (entre elas os filmes de sua filha, Sofia Coppola), seis filmes para a TV e três séries televisivas – inclusive quatro episódios de The 4400. Mas o fato é que, independente do trabalho como produtor, há dez anos ele não escrevia um roteiro ou coordenava todo o trabalho que envolve um filme, atuando como diretor de atores e condutor de uma narrativa. Sei que para um gênio do cinema como ele é quase um “sacrilégio” dizer algo assim, mas na verdade a sua volta como diretor é frustrante. Talvez Youth Without Youth agrade em cheio a muita gente, mas para mim pareceu um filme de David Lynch feito por alguém que não é David Lynch. Ou seja: um filme destes que tu fala “que loucura”, “que viagem”, durante o tempo em que estás vendo a história, e que te deixa com um monte de dúvidas até que tu vai juntando todas as peças do quebra-cabeças. O que não é um problema, mas quando o diretor por trás disso é David Lynch. O problema é quando alguém como Coppola tenta fazer algo assim… e não consegue. O resultado acaba sendo um quebra-cabeças meio falso, meio chato, que se explica demais e que não deixa os “fios soltos” como deveria. Uma pena.

A HISTÓRIA: Dominic Matei (Tim Roth) é um professor universitário na cidade de Piatra Neamt, na Romênia, atormentado com a lembrança de um amor antigo, Laura (Alexandra Maria Lara), que ele perdeu quando era ainda jovem. Ele já passou dos 70 anos de idade e continua vivendo em Piatra Neamt, sua cidade-natal. Enquanto lembra de sua antiga paixão, ele também luta para continuar sua grande obra, um livro que busca as origens da fala, da comunicação e do pensamento humano. Cansado de sua rotina e se vendo incapaz de terminar o livro, em uma noite de Natal em que sofre com a insônia, ele resolve fazer uma viagem até Bucarest na Páscoa, onde ele poderá tomar uma atitude definitiva em sua vida. Só que logo depois de chegar na cidade ele é acertado por um raio ao atravessar uma rua. Ao invés de morrer, ele acaba passando por uma experiência incrível: começa a rejuvenescer e a assumir capacidades sobre-humanas. Com a ajuda do médico Professor Stanciulescu (Bruno Ganz), ele recupera a sua saúde e começa a empreender uma fuga dos nazistas que cada vez mais dominam a Europa e que estão interessados em seu caso raro. Depois de passar por diversas experiências e cidades, escondendo-se como um espião, ele encontra, nas montanhas de Ticino (próximo da cidade de Pavia, na Itália), a Veronica (Alexandra Maria Lara), que parece ser a reencarnação de seu antigo amor.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que grande parte do texto à seguir conta partes importantes do filme, por isso só recomendo que continue a ler quem já assistiu a Youth Without Youth): Antes que alguém me entenda mal, quero explicar o que eu quis dizer com a introdução ali de cima. Eu não acho que um diretor tem que fazer o mesmo sempre, seguir uma “mesma linha” e que ele não pode fazer algo totalmente diferente lá pelas tantas. Acho sim que inovações e lances ousados são bem-vindos. Mas o que eu acho também é que cada um tem as suas identidades, as suas peculariedades, e que quando se arrisca a fazer algo que “não é o seu” pode acertar ou errar feio. No caso de Coppola, eu acho que ele tenta fazer algo bem diferente do que já vimos ele fazendo até aqui, como diretor, e não se sai bem.

O filme aborda vários temas e usa diferentes recursos para contar a história de Dominic Matei. Mas entre os recursos está a distorção de imagens, cenas invertidas e demais elementos que nos remetem a cenas “oníricas” (de sonho e/ou ilusão, delírio), diálogos entre o personagem principal e sua outra personalidade – ou entidade, como preferirem; entre outros. Acho que o jogo de realidade e ficção em uma narrativa para o cinema já foi usada muitas vezes de maneira mais convincente. Antes citei a David Lynch, para mim um mestre em confundir e em fazer filmes que “brincam” muito com os conceitos de realidade, fantasia, ilusão, múltiplas interpretações e etc. O problema é que Coppola tenta isso aqui e, infelizmente, não funciona. Uma das razões principais, para mim, é o que pode justamente agradar a muita gente: Coppola se explica demais. Enquanto Lynch pouco se importa se o espectador vai entender o seu filme de uma maneira ou outra – afinal, todas as maneiras de entender uma obra estão certas -, Coppola se preocupa em mostrar várias cenas “desnecessárias” para, afinal, explicar o seu filme.

Vejamos: quando Dominic chega na cidade de Bucarest, um close no jornal da vendedora na saída da estação nos revela a data precisa de sua viagem – 24 de abril de 1938. Depois que ele é atingido pelo raio e pelas outras notícias que vemos nos jornais, se “justifica” a ascensão dos nazistas na Europa e a “pressão” cada vez maior em buscar o homem que “rejuvenesceu” e que, tudo indica, parece ter adquirido poderes após uma forte descarga elétrica. Quando Dominic regressa à sua cidade-natal, Piatra Neamt, no final do filme, aparece no quadro de fora da estação de trem a data 20 de dezembro de 1969. Então quando Dominic, utilizando o nome de Martin Audricourt, registra-se no hotel perto do Cafe Select, faltam poucos dias para começar a década de 70 na Romênia. Praticamente na cena final, quando um desconhecido pega o passaporte de Dominic para ver a identidade do homem deitado na neve, conseguimos ler (com a ajuda de um “pause”, é claro) que o passaporte da República de Honduras – falso, é claro – leva o nome de Martin Audricourt e sua data de nascimento: 24 de abril de 1938. Detalhe: os “amigos” que Dominic encontra no Cafe Select insistem com ele que todos estão vivendo a noite do dia 20 de dezembro de 1938.

Por que comentei todas estas datas, nomes e fatos? Simples: para mostrar como Coppola se preocupou em explicar o seu filme. Até que alguém perceba estes detalhes o filme pode ser entendido, basicamente, de duas maneiras: 1) Dominic viaja até Bucarest e lá, depois de ser atingido por um raio, ele vai para um hospital e, milagrosamente, começa a se recuperar e a rejuvenescer. Aos poucos ele também vai descobrindo alguns “poderes”, como o controle de objetos ao seu redor – como na roleta do cassino – ou de vontades alheias (como na cena com o perseguidor nazista). Depois de reencontrar seu grande amor reencarnada em Veronica, ele consegue perdê-la mais uma vez e, retornando à sua cidade-natal, “mata” a sua outra personalidade/anjo da guarda. Ao visitar o Cafe Select, ele “encontra” em sonho seus antigos amigos para, em seguida, envelhecer rapidamente e morrer na neve com mais de 100 anos de idade – e com um passaporte falso com o qual vivia sendo encontrado no seu bolso; 2) Dominic viaja até Bucarest e lá, depois de ser atingido por um raio, ele vai para um hospital onde é tratado dos ferimentos. Durante o tempo de recuperação, ele sonha com uma outra realidade, na qual ele rejuvenesce, viaja pela Europa com várias identidades, é perseguido por nazista e acaba encontrando a Laura outra vez, desta vez com o nome de Veronica. Depois de passar por esta experiência “onírica”, ele volta no dia 20 de dezembro de 1938 – quase depois de oito meses – para a sua cidade-natal, onde hospeda-se em um hotel e reencontra, no Cafe Select, a vários amigos. Na saída do café ele perde todos os dentes e acaba morrendo antes de chegar no hotel.

Até que Coppola mostra em close as várias “coincidências” de datas e nomes – como a data de “nascimento” de Martin Audricourt ser a mesma do acidente com o raio -, você tem basicamente dois caminhos a seguir: ou acredita que tudo o que o filme mostra realmente aconteceu, ou seja, que Dominic rejuvenesceu e adquiriu superpoderes depois de ser atingido por um raio; ou acredita que toda a parte posterior ao raio e até a sua ida ao Cafe Select no final seja fruto de sonhos e de sua imaginação delirante e um pouco senil. Só que Coppola não nos dá o “gostinho” de ter dúvidas, de poder concordar ou discordar um dos outros – o que Lynch, ainda bem, sempre faz. Coppola, ao mostrar o passaporte de Audricourt no final, nos diz: sim, este homem foi encontrado caído na neve aparentando ter muito mais de 70 anos, em 1969, mas com um passaporte no bolso com data de nascimento de 1938. Ou seja: impossível, se não fosse pelo fato daquele homem realmente ter rejuvenescido de maneira inexplicável e de ter permanecido jovem até aquela data.

Eu quase preferia, na verdade, que tudo tivesse sido um sonho de Dominic. Me explico: a razão dele ter morrido foi um pouco ridícula. Afinal, só porque ele quebrou o espelho em que sua outra personalidade estava refletida, simbolicamente o “matando”, ele também morreu? Algo meio “O Retrato de Dorian Gray” mas sem a lógica do livro de Oscar Wilde? Hummmmmm… odeio “cópias” ou “homenagens” mal explicadas. Também acho deprimente o fato de que Dominic, ao ter uma segunda chance com o seu grande amor, ter sido, mais uma vez, incapaz de amá-la, incapaz de conseguir viver este grande amor – o que, justamente, era o que ele mais lamentava no início do filme. Ok, que ele lamentava isto e também não terminar o seu livro… mas o que acontece com ele depois é a prova de que o egoísmo fala mais alto que o amor. Porque ele acaba preferindo “evoluir” com a sua obra do que cuidando de Veronica/Laura, do que vivendo a sua grande história de amor. Acho triste isso, um homem com mais de 70 anos não ter aprendido ainda o que realmente vale a pena.

Além do mais, ele arrogante grava fitas para a posteridade, para a “era pós-guerra nuclear”… pretensioso, ele crê que pode dar “esperança” para as gerações futuras, sobreviventes de uma época de desilusão e de catástrofe. Sinceramente? O exemplo dele; de um homem que consegue poderes sobre-humanos e que não os utiliza para o bem de ninguém além do seu próprio, que vive mais preocupado em descobrir os seus “novos talentos” do que em agir de alguma maneira para mudar a realidade absurda que o cerca – durante a Segunda Guerra Mundial -, que acaba preferindo fazer mal para a mulher que ama apenas para conseguir alguma informação para a sua obra inacabada; não serve para ninguém.

Outro ponto um pouco absurdo é que achei muito fácil o processo de “evolução” humana… afinal, bastou um sujeito de pouco mais de 70 anos levar um raio na cabeça para conseguir rejuvenescer e adquirir superpoderes! Fácil, não? O pior é que Deus jogou suas fichas no sujeito errado. hehehehehehehehehehehe

Tirando todos estes elementos que me incomodaram, o filme até que tenta tratar de vários assuntos interessantes. Tem como pano de fundo o início da Segunda Guerra Mundial e o crescimento do poder nazista na Europa do final dos anos 30 e início dos 40; trata do tema da reencarnação, assim como do retrocesso à vidas passadas (ainda que involuntário ou, de outro ponto de vista, da possessão de um corpo por uma entidade antiga); e da busca pela origem da linguagem, da comunicação e de como isto define todo o pensamento humano. São três temas interessantes que foram, contudo, tratados um pouco “correndo” pelo roteirista. Falando nele, vale lembrar que Coppola se baseou no livro de Mircea Eliade para escrever o roteiro de Youth Without Youth.

Um tema que seria interessante refletir, se não fosse a decisão de Coppola em nos “explicar” o filme através dos detalhes, é o de como agimos quando vemos próximos o nosso fim. Podemos, como Dominic no início do filme, pensar em tudo o que deixamos de viver e fazer, por nossa incapacidade, ou podemos “sonhar” com uma realidade diferente, nos permitindo viver histórias impossíveis que gostaríamos que fossem realidade. Acho que seria mais bacana pensar em toda a história que vimos como uma fantasia, como um sonho de Dominic, uma manifestação da sua vontade de ter uma “segunda chance”. Só acho uma pena que ele não tenha aproveitado esta oportunidade… o que pode levar a outra tema: que talvez nós, realmente, sejamos incapazes de mudar algo que já aconteceu. E que existem possibilidades, histórias que realmente não devem acontecer. Mas isso seria papo para outro filme, uma história que nos deixasse a interpretação aberta. O que não é o caso deste filme.

NOTA: 6.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: No final das contas, achei Youth Without Youth um filme cheio de fantasia distorcionada, de histórias frustadas e de contra-exemplos. Não é um filme bonito, não é um filme que inspira. Além disto, achei o Tim Roth muito fraco na pele do personagem principal. Alexandra Maria Lara está lindíssima e encantadora, como sempre, mas até ela “escorrega” em algumas cenas – como na despedida de Veronica e Dominic. Bruno Ganz está bem, como sempre. André Hennicke como o nazista Josef Rudolf parece caricatural. Enquanto isso, Alexandra Pirici está bem no papel da “mulher do quarto 6”. Ela tem charme e tem o peso certo para cada cena.

Uma curiosidade: a ótima atriz Anamaria Marinca, protagonista de 4 Luni, 3 Saptamani si 2 Zile (4 Meses, 3 Semanas e 2 Dias) faz uma ponta no final do filme como a recepcionista do hotel em que se hospeda Audricourt. Aliás, falando no hotel: o fato de Dominic se hospedar em um hotel com sua identidade falsa na volta de Bucarest só reforça a idéia de que ele volta para a sua cidade 31 anos depois de ter saído dali. Afinal, se ele ainda tivesse a casa em que vivia, ele não precisaria ficar em um hotel, não é mesmo?

Youth Without Youth recebeu a nota 6,7 dos usuários do site IMDb. Os críticos que tem suas opiniões publicadas no Rotten Tomatoes conferiram 63 críticas negativas e 24 positivas para o filme. Parece que, sem querer, meu comentário segue a maioria – hehehehehehhehehehe. Juro que não tinha lido estas notas antes de escrever meu comentário. Aliás, eu geralmente escrevo o que eu penso e só depois vou atrás de mais informações para colocar aqui como curiosidades – para tirar dúvidas de quem possa se perguntar sobre minhas influências, hehehehehehehehe.

O filme estreou nos Estados Unidos no dia 16 de dezembro de 2007. Até o dia 24 de fevereiro ele tinha conseguido uma bilheteria de pouco mais de US$ 239,4 mil. Pouco, muito pouco. Pelo jeito ele será meio que um fracasso.

Falando em fracasso… achei horrível o cartaz do filme. Brega, digamos. Aliás, a questão das rosas vermelhas jamais é explicada na história. Afinal, por que Dominic tinha tanto fascínio por estas flores? Eu não sei, pelo menos. Ah, e alguém pode dizer que o cartaz segue a mesma idéia da abertura do filme, com aquele resgate das antigas aberturas de Hollywood. Ok, até que a idéia de Coppola com a abertura “das antigas” ficou legal, mas já o cartaz… achei feio mesmo!

O filme realmente foi feito na Bulgária e na Romênia. No primeiro país a equipe de filmagens trabalhou em Balchik. Na Romênia eles já filmaram em várias partes, incluindo Bucarest e Neamt (na Moldávia).

Algo curioso de Youth Without Youth é que o filme reúne na mesma produção, ainda que eles não contracenem em nenhum minuto, aos atores Bruno Ganz e Alexandra Maria Lara – os dois ficaram internacionalmente conhecidos por seus excelentes trabalhos em Der Untergang (A Queda – As Últimas Horas de Hitler), de 2004.

Depois deste filme, Coppola começou a trabalhar em Tetro, um filme previsto para 2009. Desta vez, mais uma vez, ele será responsável pelo roteiro e pela direção. As informações preliminares é de que fazem parte do elenco Matt Dillon, Rodrigo de la Serna (o parceiro de Gael García Bernal em Diários de Motocicleta) e Maribel Verdú (a madrileña talentosa de El Laberinto del Fauno). Parece um projeto interessante – e esperamos que produza um filme melhor que este Youth Without Youth. Além deste filme, Coppola está trabalhando como produtor de On the Road, o esperado novo filme de Walter Salles baseado na obra e Jack Kerouac.

Buscando mais informações depois de ver o filme, descobri que Mircea Eliade, o autor da obra que inspirou Coppola, foi um escritor rumano que viveu de 1907 até 1986 e é considerado um dos mais importantes historiadores das religiões. Uma curiosidade a respeito dele: apesar de ter nascido na Romênia, ele fez faculdade na cidade de Bucarest – onde se passa uma parte importante da história de Youth Without Youth. Ele também viveu na Índia – para onde o filme nos transporta lá pelas tantas. Depois de começar a ler sua biografia, lembrei que já li alguns trechos de seus livros. Como muito bem comenta este texto, na volta da Índia ele começou a escrever livros de dois tipos, basicamente: estudos rigorosos do fenômeno religioso em diversas culturas; e obras com base autobiográfica nas quais recriava de maneira “fantástica” as experiências espirituais que havia vivido. Ele falava oito idiomas: rumano, francês, alemão, italiano, inglês, hebraico, persa e sânscrito. Uau!!! Mas algo curioso: no período em que deu aulas em Bucarest, de 1932 a 1940, ele colaborava com jornais de extrema direita e mantinha vínculos com o movimento fascista. Sinistro!

Ah, e já ia me esquecendo de um detalhe: o ator Matt Damon, conhecido por interpretar o “mestre” da espionagem Jason Bourne, faz uma ponta como um repórter da revista Life interessado em “colaborar” com Dominic. Só achei a passagem dele totalmente “deslocada” na história e sem grande sentido, mas tudo bem. Foi curioso ver ele no “outro papel”, assediando a um homem que tenta manter a sua identidade falsa a qualquer custo.

O filme é uma co-produção dos Estados Unidos com a Alemanha, Itália, França e a Romênia. Durante a história são faladas seis línguas: inglês, sânscrito, alemão, francês, italiano e rumeno.

CONCLUSÃO: Primeiro filme com roteiro e direção de Francis Ford Coppola em uma década, fica abaixo da média deste grande nome do cinema dos Estados Unidos. Confuso, irregular, o filme que poderia deixar muitas leituras em aberto para o espectador se apressa em “explicar” o que é real ou fantasioso. Um desperdício. Além do mais, tem um ator principal com desempenho fraco. Fica muito abaixo do que se podia esperar de um filme baseado em alguma obra de Mircea Eliade.

Margot at the Wedding – Margot e o Casamento

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Eu tenho uma verdadeira admiração pelo trabalho de algumas atrizes. Dentre muitas delas, incluo na lista Nicole Kidman e Jennifer Jason Leigh. E foi por elas que eu assisti a Margot at the Wedding. Depois é que fiquei sabendo que se trata de um filme com direção e roteiro de Noah Baumbach, o homem que impressionou a muitos com o seu The Squid and the Whale (A Lula e a Baleia). Eu assisti ao filme com Jeff Daniels e Laura Linney e gostei do que vi. Quando soube que se tratava do mesmo cérebro por detrás dos dois filmes, entendi muita coisa. Afinal, Margot at the Wedding “sofre” com o mesmo “excesso” de realismo e de franqueza que se percebe em The Squid and the Whale. Mas, para mim, esse novo título é ainda melhor que o anterior. Ou, pelo menos, é diferente. Ainda que guarde várias semelhanças, é claro. Mas de fato gostei mais deste último, com um trabalho incrível das atrizes mencionadas e, para minha surpresa, do ator Jack Black – que prova que pode fazer um trabalho mais denso do que as comédias que estamos acostumados a ver, ainda que seu papel seja um pouco cômico.

A HISTÓRIA: Margot (Nicole Kidman) viaja com o filho Claude (Zane Pais) para o casamento da irmã Pauline (Jennifer Jason Leigh). As duas não se falam há algum tempo, mas Margot diz que é importante a presença dela e do filho para apoiá-la neste momento. Detalhe: Margot não entende, em nenhum momento, como Pauline irá se casar com um homem como Malcolm (Jack Black), um sujeito sem trabalho definido que já foi músico e que atualmente divide o tempo escrevendo cartas para jornais e revistas e pintando algumas obras. Chegando na casa de Pauline, Margot revela que terá em poucos dias um compromisso profissional, uma conversa em uma livraria com leitores de sua última obra. Aos poucos as diferenças familiares vão aflorando, assim como a relação conflituosa entre Margot e seu marido Jim (John Turturro) e a relação dúbia dela com o também escritor Dick Koosman (Ciarán Hinds).

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que parte do texto à seguir conta trechos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Margot at the Wedding): Noah Baumbach mostrou, com seu filme anterior, uma peculariedade: o talento para escrever roteiros muito, mas muito bons, e para sacar grandes interpretações de seus atores. Também demonstrou que tem uma mão certeira para “desvelar” os bastidores das famílias com um certo “nível cultural” nos Estados Unidos. E, claro, esta radiografia não se aplica apenas àquele país, mas acho que pode ser plausível em qualquer classe média ou média-alta com um certo “nível” de apreço pela cultura e/ou formada por gente com talento para as artes em qualquer parte do mundo – incluindo no Brasil.

Pois o diretor e roteirista sigue destilando a sua crítica ácida e realista deste tipo de família em Margot at the Wedding. Só que agora o foco sai um pouco do “casal e seus filhos”, ponto central de The Squid and the Whale, e se amplia para uma relação centrada em duas irmãs e suas respectivas famílias. Então aqui também se percebe de maneira muito forte a relação pais e filhos, assim como a decadência da instituição família com a presença sempre “ameaçadora” da infidelidade, mas o foco se amplia para a relação de intimidade, competição, amor e repulsa entre irmãs e, em paralelo, com a vizinhança.

Como no filme anterior de Baumbach, o carro-chefe aqui é realmente o roteiro. Ao invés de um casal de escritores com talento e com ego em conflito, visto em The Squid, aqui a personagem-título é uma escritora de talento que vive uma crise existencial sem se dar conta. Antes de ser confrontada com a realidade, ela se sente na posição de julgar a tudo e a todos. Critica a irmã, o futuro marido, os vizinhos deles, o próprio filho… A metralhadora giratória não poupa ninguém. Gosto de gente sincera, mas Margot chega a ser cruel. Ela não tem, muitas vezes, aquele senso crítico de saber quando ficar calada… não. Ela segue como uma criança que fala absolutamente tudo o que pensa, não importando o quanto isso pode machucar uma outra pessoa por nada, sem nenhuma razão prática ou sentido de “ajuda”. Mas claro, não apenas Margot é assim. O seu filho Claude, criado com o lema de “nada a esconder”, segue a mesma tendência. A verdade é que a maioria dos personagens do filme são assim. Não por acaso você espera, durante toda a história, que alguma merda aconteça a qualquer momento.

O filme trata de muitos temas, mas um me chamou a atenção em especial: de como podemos ser, ao mesmo tempo, tão próximos e tão estranhos de pessoas que amamos. No caso de Margot e da irmã Pauline, elas dividem uma série de vivências, segredos e mantêm um elo de ligação que apenas podemos nutrir com irmãos ou com amigos com quem crescemos juntos. É uma espécie de comunicação e de “sentir” que não precisa de palavras. Mas, ao mesmo tempo, elas viveram histórias e passaram por situações diferentes e que não foram compartilhadas entre as duas. O resultado é que estas experiências e sensações diferentes as separam, porque ajudaram a formá-las de maneira distinta, da mesma forma que as situações que elas compartilharam e que criaram o elo que as une. O interessante deste tema é que o mesmo acontece com todas as pessoas deste mundo, incluindo eu e você. Temos pessoas que amamos muito e com quem compartilhos uma intimidade e uma “sintonia” incrível e, ainda assim, somos estranhos em vários sentidos para estas mesmas pessoas. Isso porque compatilhamos muitas coisas, mas outras não. Outras são impossíveis de compartilhar, praticamente. E neste espaço sem compartir é que pode ser criado uma série de sentimentos de descompasso. Como no caso de Margot e de Pauline, em que não sabemos até que ponto existe a vontade de proteger ou de competir, até onde vai o amor ou o ódio, a verdade ou a mentira.

Uma das primeiras – de muitas – cenas fortes e interessantes do filme é quando Claude caminha até a parte que separa os vagões do trem em que viaja com a mãe e começa a gritar. Essa vontade de gritar, de extravasar uma angústia reprimida, poderá ser sentida depois em quase todos os personagens. Pelo menos nos centrais: Margot, Pauline e Malcolm. É a velha história da briga entre a sinceridade e o jogo social de manter-se controlado. Todos são muito sinceros no filme, chegando, como eu disse antes, até ao ponto de serem algumas vezes cruéis – especialmente Margot. Mas, ao mesmo tempo, aos poucos vamos vendo como todos também dissimulam o que sentem, disfarçam, jogam “o jogo” que se espera que as pessoas joguem na sociedade.

Outro tema importante no filme é a dificuldade das pessoas em manter relações de dependência ou “para a vida inteira”. Margot sofre com isso, intensamente. E vamos percebendo aos poucos, especialmente com a pergunta de Dick na livraria. No final, ela gostaria de fazer o que vimos antes em The Hours… O bacana é que o filme não cai no óbvio, mesmo aí, e nos mostra que uma coisa é certa: sempre, sempre mesmo, nós temos escolhas.

NOTA: 8.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Como comentei lá no início, me impressionou com a interpretação de Jack Black. Para muitos ele talvez esteja fazendo o de sempre: o papel de um “loser” (perdedor) um pouco cômico. Mas para mim ele atingiu um outro nível de interpretação neste filme. Achei que ele sim mantêm o estilo loser-paranóico-engraçado que já fez antes, mas com uma dose maior de inconstância e de realismo, sem ser tão estereotipado como em outros filmes. Gostei.

Nicole Kidman e Jennifer Jason Leigh estão escandalosamente naturais e perfeitas em seus papéis. Acho que são duas grandes intepretações, merecedoras de prêmios. Falando nisso, até agora Margot at the Wedding foi indicado a seis prêmios, mas não ganhou nenhum. Duas indicações foram para o filme. As outra quatro para o elenco – sendo duas para Jennifer Jason Leigh, uma para Nicole Kidman e a outra para todo o grupo de atores.

Margot at the Wedding custou US$ 10 milhões e arrecadou, até 31 de janeiro, apenas nos Estados Unidos, pouco mais de US$ 1,9 milhões. Algo baixo, muito baixo, especialmente pelos atores conhecidos que fazem parte do elenco e pelo diretor, que ficou meio que “queridinho” no meio depois de The Squid.

Para quem, como eu, gosta de saber das locações dos filmes, comento que Margot foi todo filmado no Estado de Nova York, em diferentes locais, como o Bronx e Long Island.

Gostei muito da direção de fotografia assinada pelo nova-iorquino Harris Savides.

O garoto que interpreta Claude, Zane Pais, faz aqui a sua estréia nos cinemas. E o faz muito bem! Ainda que em um papel muito menor, está bem a atriz Flora Cross como Ingrid, a filha de Pauline que anda em uma fase de descoberta sexual e de curiosidade por possíveis gays que a rodeiam. Merece citação também Halley Feiffer como Maisy Koosman, a filha de Dick que trabalha como babá esperádica de Ingrid na casa de Pauline e Malcolm. Interessante como toda vez que ela aparece no filme ela literalmente rouba a cena.

Uma curiosidade: o diretor Baumbach é casado com a atriz Jennifer Jason Leigh. Eu não sabia disso até ver uma foto deles com as mãos dadas na divulgação do filme. hahahahahahahahaha. Os dois se casaram em setembro de 2005, mas estavam juntos há quatro anos antes da cerimônia oficial.

No site IMDb o filme registra a baixa nota 6,4, enquanto no Rotten Tomatoes ele acumula 79 críticas positivas e 74 positivas. Parece que realmente é um filme que agrada as pessoas na mesma medida que as desagrada. hahahahahahaha

Outro tema que eu achei interessante do filme (NÃO LEIA se você não assistiu a Margot ainda): como pessoas talentosas como Margot, muito seguras de si, que buscam a sinceridade e a transparência constantemente, podem ser tão cínicas e tão inconstantes. Ao mesmo tempo em que ela critica a irmã por não contar a filha e ao noivo que ela está grávida, ela é incapaz de falar para o filho que está prestes a deixar o marido para ficar com o amante. Como alguém pode ser tão hipócrita. E, ao mesmo tempo, eu diria, tão humana? Afinal, ela é a prova de quem somos cada um de nós para apontar para o outro e criticá-lo, já que temos os mesmos defeitos ou, se não os mesmos, outros distintos. Ela é ótima para apontar os defeitos alheios, mas age muito mal quando tem que aceitar os seus próprios. Interessante. Para refletir. Outro ponto que achei interessante foi o que ela se cobra muito e cobra dos demais também, assim como o fato dela ter a consciência de que está perdendo a sua humanidade, algumas vezes – como na sequência do cão atropelado. Mas, no fundo, ela não sabe o que fazer com tudo isso, porque está dividida, está perdida. Uma interessante crônica sobre algumas crises que afetam a tantas pessoas na nossa sociedade atual.

Levando em conta as notas no IMDb e no Rotten Tomatoes eu acho que será o típico filme que não irá agradar, MESMO, a gregos e troianos. Pelo contrário. Parece que será o típico filme do “ame ou deixe-o”. No meu caso, estou para o lado dos que gostaram.

Ainda assim, tenho que admitir que o filme tem algumas cenas infames. Por isso dei a nota que dei para ele… entre elas, menciono a de Malcolm analisando os seus órgãos genitais e fazendo comentários deles na frente do espelho e o momento em que Pauline faz cocô nas calças… realmente são duas cenas e algumas frases no roteiro que eu achei por demais escatológicas.

CONCLUSÃO: Filme potente e que alguns podem considerar muito cínico ou forte sobre algumas questões muito comuns na nossa sociedade pós-moderna, como a difícil relação entre pais e filhos, entre dependência emocional/afetiva e a busca da independência, entre a prática do “jogo social” e o que alguns buscam praticar como “sinceridade extrema”. Bem dirigido e com um roteiro interessante, tem grandes interpretações do seu elenco, em especial de Nicole Kidman e Jennifer Jason Leigh.