You’re Next – Você é o Próximo

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Há filmes de suspense e de terror que fazem os cabelos da nuca arrepiar. São produções no melhor estilo “punk” como esta You’re Next. Este gênero comporta roteiros para todos os gostos. Não sei vocês, mas sempre achei que o terror mais assustador é aquele provocado por ameaças bem reais. Normalmente, por gente – e não por maldições, espíritos ou pelo diabo propriamente dito. Se a pior maldade é aquela real, este filme é um ótimo exemplar de produção que explora este mal. Até um certo ponto, um filme clássico. Mas também inovador.

A HISTÓRIA: Pela porta semiaberta, vemos um casal transando na cama, em casa. Ele termina, ela não parece muito satisfeita. Enquanto ele vai até o banheiro tomar um banho, ela desce as escadas e olha um pouco assustada para o jardim. Ouve o tilintar de um sino feito de talheres, fecha a porta de vidro, coloca um CD para tocar e prepara uma bebida. Ele sai do banho, encontra a bebida e toma um bom gole antes de ver uma mensagem escrita no vidro: “You’re Next”.

Depois de ver a garota caída no chão, ele encontra um bandido usando uma máscara e é atingido por um machado. De dia, o casal Aubrey (Barbara Crampton) e Paul (Rob Moran) chega na propriedade, passando pelo vizinho Adam. Eles estão aguardando a chegada dos filhos para um encontro familiar, sem desconfiar que viverão um verdadeiro pesadelo iniciado pelo ataque ao vizinho Adam (não consegui descobrir quem interpreta ao personagem).

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso só recomendo que continue a ler quem já assistiu a You’re Next): Gostei do filme logo nas primeiras cenas. O diretor Adam Wingard e o roteirista Simon Barrett mostram estilo no início e seguiram com ele até o final. Primeiro, com a clássica expressão de insatisfação da garota que foi fisgada pelo vizinho da família. Depois, e especialmente, pelo cuidado em cada cena, da escolha do CD (coisa mais antiga para os dias de hoje, mas que faz a recordação de pessoas como eu, que viveram os anos 1980, voltar) até o preparo da bebida.

Cortes rápidos e uma direção preocupada em contar a história garantem o ritmo bacana do filme deste início e até o final. Claro que há algumas sequências menos interessantes. Como quando um dos irmãos da família, Crispian (AJ Bowen) se encontra com o irmão mais velho irritante, Drake (Joe Swanberg). Mas nada que tire a atenção da história ou faça ela perder energia. Até porque, depois que tudo acontece, você entende melhor a razão dos estereótipos e de algumas reações dos personagens um tanto estranhas na parte inicial do filme.

Os Estados Unidos, o Reino Unido e tantos outros países colecionam histórias de psicopatas que resolvem colocar terror na vizinhança ou em uma determinada comunidade e matar um monte de gente sem um motivo aparente. Claro que razões sempre existem, para os atos que forem, mas nem sempre elas ficam claras. Por isso mesmo, You’re Next joga com esta memória do terror dos norte-americanos – e de tantas outras pessoas, de outros países, que já viveram direta ou indiretamente um extermínio.

Claro que, por se tratar de uma reunião familiar, pensamos que há uma razão bem plausível e que será revelada até o final da trama. Há uma frase, dita no início desta história, perfeita para confundir o espectador. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Quando Crispian explica para a namorada Erin (a ótima Sharni Vinson) que o pai dele se aposentou de trabalhar na empresa KPG, da indústria armamentista, o roteirista Simon Barrett nos deixa com a impressão que aquele extermínio caseiro pode ser uma vingança contra o patriarca da família. Assim, não é tão evidente a ideia de “Siga o dinheiro”, que ficou conhecida pelo Caso Watergate – e que poderia fazer com que desconfiássemos de alguém da família mais cedo.

Pelo menos comigo foi assim. Se não foi uma surpresa total aqueles crimes terem sido orquestrados por algum dos irmãos, quando a verdade aparece, também não posso dizer que isso era totalmente previsível. Haviam outras possibilidades – como a de uma vingança por causa do passado de Paul. Até as mortes começarem, o enredo introduz os integrantes daquela família. Depois, por cerca de uma hora, o que resta é a tensão sobre quem será a próxima vítima e se alguém irá sobreviver.

Como o objetivo do filme não era gastar muito tempo com uma história familiar, os personagens centrais são apresentados rapidamente. A matriarca da família, Aubrey, parece uma mulher frágil, assustada, e que precisa de medicação constante. Em uma das sequências iniciais, quando ela ouve um barulho na casa e pede para o marido acompanhá-la para fugir do local, o roteiro também dá a entender que ela é um pouco paranoica.

Essa mulher “frágil” e que está contente por reunir, depois de bastante tempo, toda a família, é casada com Paul, que parece um homem de família clássico, amoroso e um bocado controlador. E aí vem os quatro irmãos: Drake, o mais velho, que vive pegando no pé dos outros, especialmente de Crispian, o “gordinho” que parece ter sempre sofrido bullying dos outros; Aimee (Amy Seimetz), a única menina do casal Aubrey e Paul; e Felix (Nicholas Tucci).

Todos aparecem na reunião familiar acompanhados. Crispian apresenta para os pais Erin, uma ex-aluna com quem está namorando. Drake surge com a mulher Kelly (Margaret Laney). Aimee apresenta para todos Tariq (Ti West), um cineasta de filmes mais artísticos, destes que essencialmente concorrem em festivais. E Felix introduz a esquisita Zee (Wendy Glenn). Logo de início percebemos um certo “estranhamento” de boa parte destas pessoas, especialmente dos acompanhantes dos filhos, em relação àquela reunião familiar. Nada aparentemente fora do normal – afinal, há muitas pessoas deslocadas no mundo.

Mas daí os ataques começam. E a tensão cresce, especialmente porque a sensação que Wingard e Barrett conseguem imprimir, a cada morte, é que ninguém vai restar. Será mesmo? Esta é a provocação da trama que, de forma inteligente, faz a personagem Erin crescer conforme os eventos vão acontecendo.

You’re Next é brilhante não apenas pelos detalhes da direção, mas especialmente pelo roteiro bem escrito. Gostei desta produção pelos detalhes. O filme tem tantas pérolas que é possível até fazer algumas listas. Vou comentar, neste parágrafo e no seguinte, alguns dos destaques de You’re Next.

(SPOILER – lembrando que não deve ler esta parte do texto quem não assistiu ao filme). Na lista de melhores mortes, coloco a de Aimee que, ainda que prevista, foi muito bem feita. Não sei vocês, mas eu pensei: “Ah, ok, a menina pode correr muito, mas será muito fácil matá-la com uma baita flechada”. Ela não morre assim, mas de outro jeito impactante também. Depois, muito macabra a penúltima morte… jamais teria pensado naquele uso para um liquidificador. 🙂

O roteiro de Barrett tem algumas ótimas sacadas daquele humor sinistro e/ou presente nos momentos de melhor tensão. Afinal, quem nunca deu risada ao dar uma topada em uma pedra? É deste humor nervoso, extrapolado em momentos de tensão, dor ou morte que estamos falando. A fala de Felix após espetar o irmão com quase todos os objetos presentes – no estilo “você não vai morrer?” – e a declaração da heroína Zee para a sua penúltima vítima, um inesperado culpado naquele enredo macabro, são duas preciosidades de roteiro. Estão na minha lista de melhores falas de You’re Next.

E na lista de melhores sequências, sem dúvida deve encabeçar o ranking a sequência da morte no porão, com aqueles flashes de uma câmera aumentando a tensão e a expectativa para o desfecho. Brilhante e muito eficaz. Também merecem entrar na lista as mortes de Paul e, depois, de Drake. Ainda que você esperasse que algo de ruim acontecesse com eles nas duas sequências, a decepção no olhar dos dois para a origem da vilania é impactante.

Conforme Erin vai ganhando confiança e matando os vilões, começamos a acreditar que alguém pode sair vivo daquela história. Ainda que isso seja surpreendente. Mas para a nossa sorte, Erin não vira um “Rambo”, ou uma pessoa totalmente isenta a se machucar. Pelo contrário. Ela fica com várias marcas no corpo. Não sei vocês, mas eu tinha achado estranho aquele sumiço de Crispian. Lá pelas tantas, pensei: “De duas uma… ou ele foi morto por um dos mascarados, ou vai aparecer no final, abrindo a porta da frente, e caindo na armadilha deixada por Erin”. Estava prevendo este final.

Por isso mesmo achei tão bacana o desfecho de You’re Next. Não apenas pela ótima sequência na cozinha, desde o humor da água que não estava quente até a morte macabra com o liquidificador, mas principalmente pelo que vem após o celular tocar. Bacana essa reviravolta. E legal também a surpresa da reação do policial – porque eu também tinha pensado na polícia se dando mal ao tentar resgatar algum sobrevivente, mas não esperava aquele tiro pela janela.

No fim das contas, a mensagem que fica é que não devemos repreender os pais paranoicos como o de Erin. Afinal, se ele não tivesse levado ela para o deserto e ensinado várias técnicas de sobrevivência no caso de vivermos em um mundo ainda mais caótico, ela jamais conseguiria ser a heroína desta história. Mude seus conceitos, caro leitor! 🙂

NOTA: 10.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Pobre jovem cineasta Tariq. Ele teve um pouco de tempo para defender o cinema autoral que fazia, apesar da ironia de Drake. Mas acabou sendo marcado como a primeira vítima da casa. Depois que a produção acaba, alguns fatos acabam fazendo mais sentido. Por exemplo, a razão de nem todos terem sido mortos com flechadas.

Primeiro, porque nem todos deviam mesmo ser mortos. 🙂 Depois, porque Erin tem a primeira ação de comando da situação e recomenda que todos se protejam. Mas ela poderia ter sido morta em outras ocasiões, como a primeira sequência na cozinha… a explicação no final ajuda a explicar a razão disto não ter acontecido. Ainda assim, é evidente que a determinação inicial do grupo de mascarados cai por terra quando ela mata o primeiro bandido. Porque fica, assim, vulnerável à vingança deles.

Falando nos bandidos, eu não sou boa em identificar máscaras diferentes de animais. Mas os atores podem ser identificados por elas. Além dos intérpretes já citados, que fazem parte do grupo de vítimas, interessante citar o bom trabalho dos bandidos – não pela expressão deles, mas por encarnarem tão bem a violência, o mal e o medo. São eles: L.C. Holt interpreta ao bandido com máscara de um cordeiro; Simon Barrett, o roteirista, interpreta ao bandido com uma máscara de tigre; e Lane Hughes ao que tem a máscara de uma raposa.

A direção e o roteiro de You’re Next são ótimos. Mas há outros elementos importantes para o filme funcionar bem. Para começar, destaco a ótima edição feita pelo diretor Adam Wingard. A direção de fotografia de Andrew Droz Palermo não exige inovação, mas este profissional dá segurança para Wingard e garante que as cenas tenham o tom exato e convincente. A trilha sonora de Mads Heldtberg, Jasper Justice Lee e Kyle McKinnon segue o padrão do gênero, ampliando a tensão em momentos diversificados. Ela é eficaz, ainda que nada inovadora – lembra qualquer outra de suspense/terror.

Um trabalho fundamental neste filme é o feito pelo departamento – sim, fizeram um departamento com quatro profissionais para este filme – de maquiagem. Os profissionais desta área foram coordenados por Ailen Diaz e fazem um excelente trabalho.

You’re Next estreou há dois anos, em setembro de 2011, no Festival Internacional de Cinema de Toronto. Depois, o filme passaria, no mesmo mês de 2011, pelo Austin Fantastic Fest. E pararia, retomando o circuito de festivais apenas em fevereiro deste ano. De lá para cá, ele circulou por cinco festivais. No período, ganhou sete prêmios. Entre os destaques, o segundo lugar na escolha do público do Festival de Toronto na categoria Midnight Madness e quatro prêmios no Austin Fantastic Fest – incluindo Melhor Diretor, Melhor Filme, Melhor Atriz de Filme de Terror para Sharni Vinson e Melhor Roteiro.

Não encontrei informações sobre o orçamento de You’re Next, mas ele faz todo o estilo de ter sido um filme com um orçamento bem baixo. Mas nas bilheterias dos Estados Unidos, onde estreou em agosto deste ano, ele já acumulou pouco mais de US$ 18,3 milhões. Nada mal para um filme sem um grande nome no elenco. E efeito, certamente, da propaganda boca-a-boca.

Para quem gosta de saber sobre a locação dos filmes, You’re Next foi totalmente rodado na cidade de Columbia, no Missouri, Estados Unidos.

Pela primeira vez encontro a página oficial de um filme sem informações que me ajudassem a fazer esta crítica. Por isso mesmo, deixo por aqui a página oficial do filme no Facebook. Pelo menos ali vocês poderão saber um pouco mais sobre as repercussões desta produção.

You’re Next é o sexto longa-metragem dirigido por Adam Wingard, que cresceu no Alabama e estrou na direção aos 19 anos. O primeiro longa dele é de 2007, Home Sick. Depois de You’re Next, ele participou com segmentos em três filmes: V/H/S, The ABCs o Death e V/H/S 2. Agora ele está filmando The Guest, que conta com um novo roteiro de Simon Barrett. Vale ser acompanhado. Por falar no roteirista, You’re Next foi o sétimo longa dele, sendo que quatro destes trabalhos feitos em parceria com Wingard.

A heroína desta produção, a australiana Sharni Vinson, teve em You’re Next o seu primeiro trabalho de relevância no cinema. Antes ela havia feito dois filmes para a TV, participado de cinco séries televisivas e de apenas um longa para o cinema. Após You’re Next ela atuou em dois longas: Bait e Patrick.

Os usuários do site IMDb deram a nota 6,9 para esta produção. Foi esta avaliação que me incentivou a assistir ao filme. Isso porque a premissa da história, que eu tinha lido antes, não tinha me atraído muito… ainda bem que mudei de ideia. 🙂 A nota 6,9 é muito boa, levando em conta o padrão do site. Os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 97 textos positivos e 33 negativos para a produção, o que lhe garantiu uma aprovação de 75% e uma nota média 6,5.

Esta é uma produção 100% dos Estados Unidos. E entra aqui no blog na série de críticas que focam este país, eleito pela maioria das pessoas que votou em uma enquete aberta nesta página.

CONCLUSÃO: Esta produção é indicada para quem gosta de terror, para quem tem senso de humor e sangue frio. Isso porque You’re Next não é para “os fracos”. Se você não gosta do gênero, passe longe. Mas se você gosta, se entregue sem receio e sem muitas expectativas. Foi assim que eu me joguei para assisti-lo e não me arrependo. Pelo contrário. Para mim, You’re Next acerta em cheio na tensão, no suspense e no humor, satisfazendo algumas expectativas do público – que espera e é atendido em algumas cenas – e também surpreendendo na medida certa. Uma grata surpresa do gênero que ainda nos presenteia com uma ótima heroína. E alguém precisa mais? 🙂

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Lemale et Ha’Halal – Fill the Void – Preenchendo o Vazio

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Há tantas tradições e costumes no mundo que seria impossível, acredito, para uma única pessoa dominar o conhecimento de todos e cada um deles. Somos ignorantes, queiramos admitir isso ou não. Algo sempre desconhecemos, e vamos desconhecer até o final. Quem sabe o que é certo, ou como é possível encontrar o amor? Lemale et Há’Halal faz algo incrível que é mostrar de perto os costumes de uma família hassídica, que segue o judaísmo de uma maneira mais moderna, por assim dizer. Um mergulho interessante em uma realidade que, acredito, é desconhecida de grande parte dos ocidentais.

A HISTÓRIA: Uma mulher e uma garota mais jovem olham para todos os lados. Não demora muito para que a mulher, Rivka Mendelman (Irit Sheleg), afirme que o homem que elas estão procurando não está ali. Elas andam pelo supermercado e continuam procurando. Rivka acaba ligando para Shtreicher (Michael David Weigl), um dos rabinos da comunidade, que diz para mãe e filha procurarem na seção de laticínios.

Rivka reconhece o “alvo” porque ele é a “cópia do pai”. Esta é a primeira vez que a filha dela, Shira (Hadas Yaron) vê o possível futuro marido. Ele parece agir como um idiota, mas Shira parece encantada. Pouco depois, ela recebe a irmã, Esther (Renana Raz), que está perto de ter um filho com Yochay (Yifatch Klein). Os planos familiares, contudo, vão mudar em breve.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso só recomendo que continue a ler quem já assistiu a Lemale et Há’Halal): Como diz aquela música, “a vida é o que acontece enquanto você está ocupado fazendo outros planos”. John Lennon se inspirou na frase de Allen Saunders publicada na Reader’s Digest em 1957 (leia mais a respeito aqui). E este é parte do espírito deste filme israelense premiado.

Mas antes de falar deste espírito, quero abordar o que chama a atenção logo no início da produção: o excepcional trabalho da atriz Hadas Yaron. Ela ilumina a tela, e convence do primeiro até o último minuto no papel da jovem garota que está prestes a dar um passo decisivo na vida. Curioso como ela está empolgada, no início de Lemale et Ha’Halal, com a ideia de casar com um rapaz jovem e com quem ela nunca trocou uma palavra.

Só que aí entra o imprevisto. E aquele espírito que eu comentei antes de que a vida acontece enquanto a gente está fazendo planos. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Prestes a conversar com o jovem para quem ela está em vias de ser prometida, a nossa protagonista é surpreendida com a morte da irmã. Ela e a família reagem se agarrando à fé, mas a dor é imensa. Esses sentimentos fortes estão muito presentes no roteiro da diretora Rama Burshtein e, graças aos atores, suas falas e silêncios, transparecem e chegam até os espectadores.

E aí começa a complexidade desta produção. Totalmente compreensível o medo da mãe de Shira e Esther de sofrer mais uma perda. Afinal, se Yochay de fato se casar novamente, e com uma mulher que mora fora do país, ela terá que se separar do neto, que é a continuidade da filha que ela perdeu.

Como muitas vezes acontece na vida, fora da ficção, o surgimento de uma criança acaba provocando a reação das pessoas que perderam alguém para a morte. Essas pessoas recobram as forças, tirando energia de um local que parece impossível, após a morte de quem elas amava. Mas há alguém inocente no pedaço que exige foco, força, e isso acontece nesta história também. Por isso mesmo entendo a postura de Rivka de buscar na filha mais nova a “saída” para o risco de ver o neto ir para longe.

Ora, se Shira deve se casar, por que não com o marido da irmã que morreu? Eis a provocação principal do filme e que pode render muito debate. Porque quando Rivka dá a ideia para Yochay, ela dá a largada para um processo até então imprevisto. Interessante como um sentimento pode surgir, e forte pelo que vemos no filme de Burshtein, quando uma ideia é lançada e parece fazer sentido. Yochay começa a olhar para Shira de uma maneira totalmente diferente, e percebe o quanto ela leva jeito com o filho dele com Esther. E aí tudo começa a se mover no sentido deles ficarem juntos. Mas como uma relação precisa de duas pessoas… o desafio fica com Shira.

Ela, diferente dele, não aceita com tanta rapidez esta mudança de planos. Em certo momento, Shira comenta que ela abraçar a ideia lançada por Rivka significa abrir mão do sonho de começar a vida com um rapaz novo e inexperiente como ela. Sem dúvida, uma diferença fundamental em relação a Yochay. Sem contar que, até há pouco, ele era o marido da irmã mais velha de Shira, e não é fácil olhar para ele de outra forma – sob a ótica dela, me refiro.

Mas há questões anteriores a essa questão delicada familiar. Mais do que se adaptar à figura de Yochay de outra forma, uma questão primordial é por que, cargas d’água, Shira realmente precisa se casar? É isso o que ela quer ou ela está apenas seguindo a tradição? Fica evidente, pelo exemplo categórico de Frieda (Hila Feldman) e da tia de Shira, Hanna (Razia Israeli), que as mulheres que não casam logo, quando jovens, não são bem vistas no grupo social em que esta história se passa.

Então Shira está empolgada com o filho dos Miller e, depois, fica aparentemente dividida com a ideia de se casar com Yochay por que de fato quer um marido ou por que não lhe resta outra saída? Difícil dizer. Até porque não sabemos nunca quanto, ao certo, o que fazemos é o que realmente desejamos ou o quanto é um repeteco de conceitos que aprendemos e seguimos – muitos voluntariamente, outros não e, outros ainda, inconscientemente.

Inicialmente alguém pode defender que não lhe restava saída. Bueno, para ela seguir sendo aceita sem preconceito naquele convívio social, certamente não. Mas é sempre possível buscar uma alternativa ao que se conhece, não é mesmo? Mas no caso deste filme a complexidade é maior. Porque parece que Shira realmente quer se casar. Aos poucos, não é apenas Yochay que parece estar encantado com ela. Tudo indica que ele é correspondido.

Só que o peso não é pouco sobre Shira. Afinal, ela chega a pensar que está traindo a memória da irmã ao pensar em ficar com o até há pouco marido dela. Sem dúvida o roteiro de Burshtein não fecha a questão, mas sugere que Shira gosta da ideia de casar com Yochay, só que se sente desconfortável por causa da irmã morta e, também, mas em menor grau, pelo fato de abandonar a ideia de começar a vida com alguém tão inexperiente quanto ela. Mas, talvez por ter 18 anos, Shira dá a entender que está dividida, que não está segura sobre o que quer. Se algumas vezes parece que ela está interessada por Yochay, em outras – como quando está vestida de noiva – parece que ela está indo para o sacrifício.

A incógnita de Shira é alimentada por sentimentos como desejo, culpa e responsabilidade. Uma das sequências mais angustiantes é quando ela retorna da conversa com o rabino e fica em uma espécie de luto – não sabemos o quanto por causa da mãe ou o quanto porque ela não consegue superar as barreiras para dizer que quer ficar com Yochay.

No fim das contas ela cede e, para o desespero do espectador, que ficou impressionado com a força desta história, o filme termina exatamente no momento em que pode nos indicar se a decisão de Shira e Yochay foi acertada. Mas o que Lemale et Ha’Halal sugere é que isso pouco importa. Afinal, para um relacionamento dar certo é preciso, primeiro, querer. E essa vontade, amparada pela tradição e pelos costumes fortes de uma comunidade, parece ser o suficiente para tudo dar certo.

Lemale et Ha’Halal nos faz pensar o quanto os conceitos de “dar certo” ou “ser feliz” dependem apenas da nossa vontade e/ou de seguir as regras que estão colocadas ao nosso redor. Francamente, acho que a vontade é muito mais determinante para a felicidade do que normalmente gostamos de admitir. Seja para nos “aprisionarmos” ou no movimento de “libertação”. Shira e Yochay se decidiram e tiveram vontade de dar certo. Provavelmente vão conseguir.

Fazer planos é importante, mas tão vital quanto é termos sempre em mente que a vida está aí para nos surpreender. E que as mudanças de planos que ela traz podem ser muito positivas. Basta encontrarmos o que faz sentido e deixarmos o medo e a culpa de lado, como parece que Shira fez nesta história.

NOTA: 9,3.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Gostei muito da direção de Rama Burshtein. Lemale et Ha’Halal é um filme com muitas cenas de interior. Há poucas externas. Mas nem por isso é uma produção monótona. O segredo da diretora e roteirista foi valorizar o trabalho dos atores, todos muito bons, e também escolher, volta e meia, um ângulo diferente para não tornar a narrativa monótona ou previsível. Se o roteiro prevê muitos silêncios e diálogos econômicos, sem nenhum sinal das frases de efeito, resta a direção imprimir um ritmo cuidadoso e envolvente.

Da parte técnica do filme, gostei muito da direção de fotografia de Asaf Sudri. Ele é o responsável por deixar a imagem sempre saturada, o que algumas vezes ajuda a narrativa a ficar carregada e, em outras ocasiões, torna o filme ainda mais “atemporal”.

Para um filme com uma trilha sonora muito pontual e econômica, assinada por Yitzhak Azulay, fundamental o trabalho dos profissionais de departamento de som Aviv Aldema, Nin Hazan, Keren Biton e Neal Gibbs que, entre outras funções, foram responsáveis por uma excepcional captação de sons ambientes.

Além dos atores já citados, que “carregam” o filme, vale destacar o competente trabalho de Chayim Sharir como Aharon, pai de Shira e de Esther e um homem bastante generoso com a comunidade em que vive.

Algo que eu achei interessante nesta história foi a liberdade que Aharon dá para a filha opinar. E não apenas ele. O próprio rabino com quem eles vão falar sobre a união de Shira e Yochay insiste bastante para que ela diga se está decidida. Se é isto mesmo que ela deseja. Ou seja, o pré-conceito de que uma comunidade tradicional judaica impõe o casamento cai por terra. Agora, há ainda o ponto que eu comentei antes: quem não se casa, é marginalizada. Então, de fato, até que ponto vai a escolha de Shira? De qualquer forma, acho importante destacar a insistência dos homens mais velhos desta história em pedir para que Shira só faça uma escolha se estiver convicta.

Segundo o site IMDb este é o filme de estreia de Rama Burshtein. Que belo trabalho para uma estreia! Fiquei curiosa para saber mais sobre a diretora, e só encontrei informações em sites estrangeiros. De acordo com este texto de Emily Wax, do The Washington Post, Bushtein é a primeira judia ultraortodoxa que escreveu e dirigiu um filme para o grande público. “Um feito notável, já que a grande comunidade da qual ela faz parte normalmente proíbe assistir televisão e filmes seculares” (lendo-se como secular tudo que está fora da religião). Tão raro quanto o feito da diretora, escreve Wax, é o tipo de filme que Lemale representa: um que mostre uma comunidade ortodoxa “por dentro”.

De acordo com a matéria de Wax, Burshtein tem 45 anos, é mãe de quatro filhos, nasceu em Nova York e, agora, mora em Israel. A diretora disse: “Sou uma contadora de histórias mais do que qualquer coisa, e percebi que nós não tínhamos uma voz cultural. A maioria dos filmes sobre a (minha) comunidade é feita por pessoas de fora e estão enraizados em conflitos entre o religioso e o secular. Eu queria contar uma história profundamente humana”. Ela não apenas tem toda a razão, como também conseguiu o que pretendia.

Agora, algo interessante sobre a diretora: ela é uma “baal teshuva”, ou seja, uma judia secular que voltou para a comunidade. Antes de se tornar religiosa, Burshtein se formou, em 1995, na Sam Spiegel Film and Television School, em Jerusalém. A diretora se inspirou em uma conversa que ouviu em um hospital, de uma garota que estava debatendo se deveria casar com o ex-marido de uma irmã. Ainda que esse tipo de casamento não seja incomum, segundo o texto de Wax, as mulheres não podem recusar o casamento.

Para quem ficou mais interessado pela diretora e pela história de Lemale et Ha’Halal, recomendo esta entrevista que ela deu para Erica Abeel, do Huffington Post. Entre outros pontos, ela argumenta que esta produção não trata de casamento arranjado, e sim que as garotas da comunidade dela podem escolher o marido. Diferente da nossa realidade, em que buscamos nossos “candidatos” a parceiros em bares e festas, na comunidade dela os jovens confiam nos pais para que eles levem para casa candidatos que as garotas e os garotos vão conhecer e escolher. Interessante. Uma ótica bem diferente.

E lendo esta outra entrevista da diretora para Fred Topel, do site CraveOnline, descobri que eu fiz a leitura certa de Lemale et Ha’Halal. 🙂 De fato o filme valoriza o compromisso, o desejo de duas pessoas de se unirem e fazerem dar certo. Segundo a opinião da diretora, é daí que surge e cresce o amor, desta vontade. Faz sentido.

Lemale et Ha’Halal estreou em julho de 2012 no festival de cinema de Jerusalém. Depois, o filme passou por outros nove festivais. Nesta trajetória, Lemale ganhou 12 prêmios e foi indicado a outros 13. Entre os que recebeu estão sete no Ophirs, o equivalente ao Oscar em Israel. E por falar em Oscar, este filme foi o representante de Israel entre os indicados ao maior prêmio da indústria do cinema dos Estados Unidos deste ano.

Além dos sete prêmios no Ophirs, Lemale levou para casa o prêmio de Melhor Drama segundo o júri do Festival Internacional de Cinema de São Paulo, no ano passado; e dois prêmios no Festival de Veneza 2012 – uma menção honrosa para Rama Burshtein e o prêmio de Melhor Atriz para Hadas Yaron. Merecido. A atriz faz um trabalho excepcional.

Gosto quando o título original é respeito. Este é o caso desta produção. Parabéns aos distribuidores no Brasil. Faz muito sentido o nome escolhido originalmente.

Não consegui encontrar informações sobre o custo de Lemale et Ha’Halal ou mesmo o resultado da bilheteria no mercado mundial. Mas nos cinemas dos Estados Unidos ele conseguiu pouco mais de US$ 1,77 milhão até o dia 22 de setembro – após ter estreado em maio.

Os usuários do site IMDb deram a nota 6,5 para esta produção. Os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes foram mais generosos, dedicando 41 textos positivos e apenas oito negativos para o filme, o que lhe garante uma aprovação de 84% e uma nota média de 7,5. Muito boa essa nota, na média, para os padrões do site.

Este é um filme 100% de Israel.

CONCLUSÃO: Um filme cheio de sentimentos, costumes que não conhecemos e de silêncios muito expressivos. Lemale et Há’Halal é uma produção diferenciada, que foge do modelo que o grande público conhece como cinema comercial. Aqui não interessa emocionar, ou surpreender o espectador. O que importa é contar uma história que plasme os costumes, sentimentos e dilemas que circulam ao redor de uma família que segue a filosofia hassídica, um conjunto de ensinamentos do judaísmo.

Os atores são ótimos, especialmente os protagonistas, e há muito sentimento por todas as partes. O dilema da jovem que perde a irmã e deve decidir entre fazer a felicidade de todos sem saber ao certo o que quer para si mesma é de cortar o coração e tem muita força. Um filme sensível, nada parecido com os sucessos de Hollywood, e que nos apresenta de maneira muito direta dúvidas e sentimentos que não dependem de culturas ou religiões porque eles são universais. Vale conferir este olhar diferente sobre o amor, a família, costumes e tradições.

We’re the Millers – Família do Bagulho

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Há tempos eu não assistia a uma comédia. E é bom mudar, volta e meia, o estilo. Talvez por isso eu tenha gostado deste simplório We’re the Millers. A premissa é interessante, o desenvolvimento um tanto previsível, mas este filme tem algumas boas sacadas e atores que claramente se divertiram. Além disso, me surpreendi com Jason Sudeikis, protagonista desta produção. Não lembro de ter assistido a outro trabalho dele, e acho que ele se saiu muito bem.

A HISTÓRIA: Alguns dos vídeos mais assistidos da internet. Todos engraçados e no melhor estilo “pegadinha”. Vários – ou todos – serão reconhecidos pelo público. Enquanto fala com a mãe no telefone, David Clark (Jason Sudeikis) assiste a estes vídeos no computador. Ela pergunta se ele está escutando, e David disfarça e diz que sim. Em seguida, ele começa a receber pedidos. Abre uma caixa, se abastece com diferentes tipos de maconha e com algum dinheiro.

Em seguida, parte para fazer negócios, vendendo para diferentes públicos. Após fazer uma venda em um café, ele esbarra com um antigo colega, Rick Nathanson (Thomas Lennon), que fala de sua família, deixando David com uma visível ponta de inveja. Mais tarde, ele é assaltado e acaba devendo US$ 43 mil para Brad Gurdlinger (Ed Helms), chefe local e para quem ele trabalha. Sem saída, David aceita um trabalho de risco para o qual ele forma uma família de fachada.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a We’re the Millers): Tentei não contar muito sobre o filme no resumo acima. Afinal, são as pequenas “surpresas” desta história que fazem ela ser interessante. We’re the Millers tem algumas boas sacadas, que vou comentar na sequência, o que não é suficiente para fazer o filme ser genial. Um problema desta produção é que ela tem uma condução um bocado previsível. Mesmo tendo piadas claramente politicamente incorretas, o enredo não surpreende após a primeira reviravolta. O que não é bom.

Mas vamos ao que interessa. Falar sobre as qualidades desta produção. Para começar, ela tem uma premissa muito boa – apesar de manjada: um sujeito que começa a vender drogas na faculdade segue fazendo isso depois de formado e, após marcar bobeira e ser assaltado, é ameaçado pelo chefe do tráfico. Quantos filmes você já viu em que um bandido se ferra ao dever para outro?

Pois bem, o protagonista de We’re the Millers acaba sem saída após ajudar Kenny Rossmore (Will Poulter) quando ele resolve defender a Casey Mathis (Emma Roberts), uma garota que vive perambulando pelas ruas. Na própria visão um tanto cínica de Clark, ele marcou bobeira. Difícil acreditar que além de perder a mochila, ele ainda abriu a casa para os jovens assaltantes… mas ok, o filme precisava se justificar.

Desta forma, David está ferrado e aceita trazer mercadoria para Gurdlinger desde o México em um motor home gigantesco. Lendo até aqui, o roteiro do quarteto Bob Fisher, Steve Faber, Sean Anders e John Morris, inspirado em uma história dos dois primeiros, não parece muito original, certo? De fato, não é. Assim como não é exatamente inovadora a sequência, quando David e “família” encontram outra família esquisitona e que exemplifica os “norte-americanos médios” pelo caminho. Mas We’re the Millers se mostra interessante nos detalhes.

Para começar, há uma nuance interessante nos personagens de David e de Rose O’Reilly (Jennifer Aniston): mesmo não sabendo a idade exata deles, presumimos que eles passaram dos 30 e que continuam fazendo os “bicos” que tinham agarrado quando eram jovens. É o típico exemplo considerado fracassado de deixar “a vida me levar”. Nos olhares da sociedade, até dá para entender um cara que venda maconha na faculdade, possivelmente para pagar os estudos, e uma mulher que faça strip-tease pela mesma razão. Mas e quando eles seguem fazendo isso após os estudos? “Losers”, certo?

Mesmo dizendo que inveja o “amigo” por ele ser solteiro, não ter que se incomodar com uma família, e por seguir vendendo drogas – o que lhe daria “liberdade” -, Nathanson não esconde o olhar de surpresa com alguma reprovação. Ele representa o americano médio. E convenhamos, vender drogas ou dançar pole dance para ganhar a vida não são, por assim dizer, o sonho de qualquer pai ou mãe para os seus filhos. Nem os próprios personagens que assumem estas “carreiras” no filme estão satisfeitos consigo mesmos.

Este primeiro sutil questionamento sobre pessoas que não sabem que rumo dar para a própria vida é o primeiro ponto interessante de We’re the Millers. O segundo é o trabalho do quarteto de roteiristas em esquecer por alguns momentos o politicamente correto e também em investir em referências “pop” aqui e ali.

Para exemplificar este último ponto, cito o que para mim foi a primeira grande sacada desta produção – e que rendeu a minha primeira risada (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme): quando David é solto pelos capangas de Gurdlinger sobre um enorme plástico no escritório do traficante. A referência a Dexter foi uma tirada inteligente. O filme tem outras destas, mas não são muitas. Como aquela do “insight” de Clark ao ver a reação do policial ao ajudar a uma família de “americanos turistas idiotas”. Neste e em outros momentos o filme não mostrará sutileza alguma.

E este é, sem dúvida, o estilo de humor que o norte-americano adora. Vide o mega sucesso da grife The Hangover (o primeiro filme foi comentado aqui no blog). A ideia é aquela do ambiente universitário dos Estados Unidos, onde uns sacaneiam os outros o tempo todo, se possível. Tirar sarro é o lema destes filmes. We’re the Millers segue esta linha, mas sem ter que recorrer a tantos estereótipos quanto The Hangover. Menos mal.

Algo que prejudica este filme é que a ideia de alguém que precisa de dinheiro mergulhar no ambiente das drogas como alternativa para resolver os seus problemas nunca mais será a mesma após a brilhante série Breaking Bad. Daí que para embarcar em We’re the Millers, se você acompanha a Breaking Bad, será fundamental pensar que este filme é uma comédia. E que não tem a pretensão de reinventar esta roda. Se pensar desta forma, você poderá se divertir.

A terceira boa sacada do filme é a encaretada de David e Casey – porque Kenny já tinha o estilo careta. Impressionante o que um corte de cabelo pode fazer para a imagem de uma pessoa. 🙂 Depois, o filme embarca em uma rotina bonitinha e nada inovadora até a primeira reviravolta do roteiro.

(SPOILER – não leia… bem, você já sabe). Não sei vocês, mas eu estava achando aquela missão dos “Millers” muito tranquila, mesmo com a aparição do policial mexicano (Luis Guzmán) pelo caminho. Então, ao menos para mim, não foi uma grande surpresa a aparição do verdadeiro Pablo Chacón (Tomer Sisley). Ainda que não tenha sido totalmente surpreendente, devo admitir que o estilo da virada funciona muito bem.

E há todas as sequências politicamente incorretas – que, quando bem encaixadas, funcionam bem. Para começar, David exigindo que o quase adolescente Kenny se “sacrificasse pela equipe” com o policial mexicano. Ele poderia ser mais escroto? Como adulto e chefe da operação, David deveria assumir a missão, não é mesmo? Mas no roteiro deste filme o importante é tentar surpreender o espectador. E algumas vezes eles conseguem. Outra sequência claramente neste sentido é aquela da noite no acampamento dos Millers com os Fitzgerald – o pai Don (Nick Offerman), a mãe Edie (Kathryn Hahn) e a filha Melissa (Molly C. Quinn).

Pena que o filme abrace o humor pastelão – vide o atropelamento do capanga One-Eye (Matthew Willig), a queima dos “fogos-de-artifício” pedida por Casey, a sequência da aranha e o confronto com os bandidos. Humor que deve estar bem ao gosto dos norte-americanos, mas que parece um tanto simplório pra gente. Ou não?

Enfim… estas piadinhas, assim como o previsível envolvimento dos Millers – ainda que um tanto difícil de acreditar – acabam sendo os pontos fracos do filme. Porque simplórios e bastante previsíveis. Esse é o lado ruim da balança. Mas há o lado bom, que são as sacadas. E mais.

Acho que o ótimo trabalho do protagonista, Jason Sudeikis, é uma das razões para assistir a esta produção. Além de muito expressivo, ele faz um trabalho na medida, tornando o personagem dele bastante crível. Apesar de David agir como um idiota boa parte do tempo, ele tem carisma e, por isso, provoca empatia. Também gostei do trabalho de Jennifer Aniston, que também faz um trabalho em que dá pra gente acreditar no que vê. E, não tenho dúvidas, ela fará a alegria do público masculino. Afinal, aparece em mais de uma sequência dando um show com seu corpão. 🙂

Para um filme assim funcionar, os atores são fundamentais. Além dos adultos da história, os jovens que fazem parceria com Sudeikis e Aniston também se saem muito bem. Mesmo sem grande invenção no estilo, a direção de Rawson Marshall Thurber vai bem. Há pelo menos uma sequência interessante: aquela da chegada do pai e dos filhos dos “Millers” no aeroporto. Boa sequência, com ajuda da trilha sonora de Ludwig Göransson e Theodore Shapiro e da edição de Michael L. Sale.

E assim, com estes acertos, este filme faz rir em um par de momentos e termina bem, sem se render ao modelo de “família perfeita” – até porque seria forçar muito a barra. Além disso, o filme inteiro ironiza este modelo, assim como as famílias de norte-americanos que saem por aí de férias parecendo uns idiotas. Não é a melhor comédia de todos os tempos, mas funciona em vários momentos.

NOTA: 8.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Todos os personagens principais tem histórias convincentes. Com uma exceção. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Afinal, a mãe de Kenny saiu para beber com um “amigo” uma semana antes da história do filme começar e nunca mais voltou? Ou o personagem encararia deixar a casa para seguir a proposta que aparece no final do filme assim, facilmente? Ok, até dá para acreditar nesta versão. Mas me pareceu pouco convincente. Exceto se estes desaparecimentos da mãe fossem frequentes e o garoto estivesse louco para sair de casa e viu na oportunidade que surgiu a deixa perfeita. Até pode ser… Mas acho que faltou um pouco de contextualização aí.

Há tempos eu não assistia a um filme com quatro roteiristas. Não é uma prática muito comum em Hollywood.

No final desta produção, há algumas cenas de “erros de gravação”. Elas sempre valem ser vistas. E neste filme, dão a entender que os atores tiveram espaço para improvisar e que fizeram isso em vários momentos. Em alguns, claro, eram simples “pegadinhas” para aparecer nos extras. Em outros momentos, acredito que o diretor escolheu a melhor improvisação para deixar no filme.

Mais uma vez a tradução do nome original do filme para o mercado brasileiro foi lamentável. Convenhamos que Família do Bagulho é horrível, né? Melhor seria algo uma tradução literal como Nós somos os Millers ou Conheça os Millers ou sei lá. Mas Família do Bagulho é terrível.

Os atores importantes desta produção já foram citados. Mas não custa comentar o trabalho secundário de algumas pessoas relativamente conhecidas. Mark L. Young interpreta a Scottie P., o garoto que impressiona Casey no hospital e com quem ela tem um rolinho na sequência; Ken Marino faz uma ponta como Todd, que coordena o clube de strip-tease onde Rose trabalha; e Laura-Leigh interpreta a Kymberly, a novata animada do clube.

Sem dúvida uma das melhores “pegadinhas” do filme, que aparece após o término da história, é aquela com referência a Friends. Bela sacada.

Agora, uma curiosidade sobre We’re the Millers: antes de Jason Sudeikis ser confirmado para o papel principal deste filme, foram cogitados para o papel Jason Bateman, Will Arnett e Steve Buscemi. O último mesmo… achei nada a ver.

Uma outra sacada que achei muito boa foi aquela da música da “comemoração”. David é franco em dizer que nunca gostou da música que está tocando, nem quando ela foi um sucesso. Boa! 🙂 Mas eu estou com o restante dos Millers, acho a música bacaninha. Não lembrava de quem era. E para quem também quer lembrar, informo: trata-se de Waterfalls, de TLC. A trilha é bem diversa, mas vale destacar ainda South of The Border (Down Mexico Way), de Frank Sinatra; Shakey Ground, de Beck; Sweet Emotion, do Aerosmith; e I’ll Be There For You, de The Rembrandts.

We’re the Millers estreou no dia 3 de agosto no desconhecido Traverse City Film Festival. Depois, passou também pelo festival de Locarno. Mas, até o momento, não ganhou nenhum prêmio.

Esta produção foi totalmente rodada nos Estados Unidos, nas cidades de Wilmington, na Carolina do Norte, e Santa Fe, no Novo México. Lembrando que esta é uma produção 100% dos Estados Unidos.

Da parte técnica do filme, acredito que já comentei os pontos principais. O roteiro funciona bem, com algumas boas sacadas, mas poderia ter um pouquinho mais de inovação. Alguma outra reviravolta na história ou uma “moral” menos óbvia seria interessante. Claro que é bonitinho pensar que “nós escolhemos a nossa própria família”, e que ela é importante para qualquer pessoa. Mas a condução da história foi um pouco morna demais. Além do roteiro, a direção é competente, mas sem grandes invenções. A trilha sonora funciona, assim como a edição. E isso é tudo.

Este é apenas o terceiro longa do diretor Rawson Marshall Thurber. A primeira produção com a assinatura dele foi a comédia Dodgeball: A True Underdog Story, de 2004, que tem a nota 6,6 segundo a avaliação dos usuários do IMDb. E a segunda, The Mysteries of Pittsburgh, de 2008, com nota 5,3 no mesmo site.

Bacana ver Ed Helms em ação, mesmo que ele esteja em um papel secundário. Fiquei fã do ator não por ele estar em The Hangover, mas pelo trabalho na excelente série The Office, versão dos EUA.

Este filme, por cair tão bem no gosto do norte-americano, está sendo um grande sucesso no país. We’re the Millers teria custado cerca de US$ 70 milhões e faturado, até hoje, dia 22 de setembro, quase US$ 138,2 milhões apenas nos Estados Unidos, segundo o site Box Office. Nos demais mercados em que já estreou, a produção teria acumulado mais US$ 209,4 milhões. Um baita êxito comercial, pois.

We’re the Millers é destes filmes que faz sucesso entre o público, mas nem tanto entre a crítica. Uma prova disto é que os usuários do site IMDb deram a nota 7,2 para a produção, uma avaliação muito boa pelos padrões do site. Mas os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes foram menos generosos. Eles publicaram 75 críticas negativas e 67 positivas para a produção, o que garante para We’re the Millers uma aprovação de 47% e uma nota média de 5,4.

Entre os críticos que não gostaram do filme está Cath Clarke, da Time Out. Ela escreveu (aqui o original): “Talvez Jennifer Aniston queira mostrar ao mundo o que uma dieta e o yoga feitos sete dias por semana podem fazer para uma garota. Não consigo imaginar outra explicação relativamente decente para o strip-tease desesperado do meio para o final de We’re the Millers (que não tem nada a ver com o enredo)”. Ah, vá! Acho que ela não gostou de ver Aniston tão bem… e em uma comédia, quantas coisas são colocadas sem terem todo o sentido do mundo no roteiro? Se formos exigir lógica em todas as comédias, ferrou! 🙂 Agora, concordo com ela sobre a piada sem graça e “clonada” da aranha. Eu teria tirado ela do filme.

Por outro lado, Mick La Salle, do San Francisco Chronicle, gostou do filme. Ele escreveu (aqui o original): “As comédias estão ficando cada vez mais vulgares, o que não é, necessariamente, uma coisa ruim. (… We’re the Millers) passa a comédia e tem algo estranho em seu núcleo – um cinismo profundo sobre a família e, ao mesmo tempo, um desejo de família, os dois ao mesmo tempo. Mas o roteiro é demais uma colcha de retalhos para expressar qualquer coisa profunda ou inconsciente”. Tenho que concordar com ele. De fato, We’re the Millers tem este flerte, mas que não prossegue. Possivelmente o problema para o filme ir além é ter tantos roteiristas.

Esta é mais uma produção dos Estados Unidos que entra na lista dos filmes que eu comento após vocês, meus bons leitores, terem escolhido este país como alvo para uma série de críticas. Inicialmente, coloquei os filmes desta “barca” e as críticas de filmes feitos no Brasil – que também foi escolhido em uma enquete aqui no site – na categoria “Sugestões de Leitores”.

Mas andei refletindo a este respeito e não achei correto. Afinal, essa categoria é para críticas de filmes que vocês indicaram diretamente. Então, para contemplar estes países que vão ganhando as enquetes aqui no blog, criei a categoria “Votações no blog”. Todos os filmes que eu comentar por causa das enquetes vão entrar nesta categoria. Aliás, lembro e estimulo vocês a votar na enquete que está aberta aqui na coluna direta do blog. Bora lá!

CONCLUSÃO: Este filme não vai mudar a sua vida e nem fazer você pensar nela. Mas alguma risada, com certeza, ele vai te dar de presente. O que mais esperar de um filme do gênero? Alguma inovação? Se possível. We’re the Millers não inova na narrativa, não tem ousadia na direção ou interpretações de tirar o fôlego. Ou seja, é uma produção mediana. Com algumas boas tiradas aqui e ali, e uma bela escalação de elenco. Se você não tiver um filme melhor para assistir, pelo menos este não é um desperdício de tempo. Poderia ser um pouco mais cínico, ou picante, mas cumpre o seu papel, com aquele humor que cai como uma luva no gosto do público dos Estados Unidos – e um pouco no nosso.

Elysium

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Eis mais uma obra de um cineasta multicultural e que gosta de utilizar diferentes referências em sua obra. E o melhor: com dois ótimos desempenhos de atores brasileiros. Elysium é mais uma demonstração do talento do diretor e roteirista Neill Blomkamp que reforça nesta nova produção o estilo de cinema moderno e com preocupação social que tínhamos visto antes em District 9. Novamente o espectador tem aqui uma história futurística, mas que trata de desigualdades sociais, segregação e a busca pela sobrevivência. Mas com alguns toques diferentes.

A HISTÓRIA: Lixões e favelas por todos os lados. No final do século 21, a Terra sofre com o excesso de poluição e de habitantes. Cenas gerais de Los Angeles mostram prédios em decadência acentuada, como frutas em decomposição. Fora da Terra, vista do alto com aquela bela imagem tradicional, os ricos mantêm o padrão de vida em um complexo de alta tecnologia chamado Elysium. Lá não existe poluição e nem superpopulação.

Na Terra, o garoto Max (Maxwell Perry Cotton quando criança, Matt Damon na vida adulta) olha para Elysium e sonha com o dia em que poderá levar Frey (Valentina Giron quando criança, Alice Braga na vida adulta) para lá. No futuro, na Los Angeles de 2154, Max tenta levar uma vida regrada, enquanto cumpre liberdade condicional, mas após um acidente no trabalho, ele empreende uma cruzada para tentar furar o bloqueio de Elysium e buscar a cura por lá.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso só recomendo que continue a ler quem já assistiu a Elysium): Quem assistiu a District 9 (comentado aqui no blog) vai encontrar muitos elementos em comum em Elysium. Para começar, o ambiente futurista. Depois, a crítica nas entrelinhas para a desigualdade social que vivemos atualmente, só que potencializada com o passar do tempo. Novamente o diretor Neill Blomkamp não coloca as suas fichas em um futuro cheio de esperança para a Humanidade.

Pelo contrário. Ele acredita na filosofia popularizada por Thomas Hobbes de que o homem é o lobo do homem. Novamente a pobreza e a degradação viraram paisagem costumeira nas grandes cidades. Só que diferente de District 9, os guetos futuristas dividem as pessoas em diferentes órbitas. Enquanto os ricos vivem no paraíso com vistas para o azul da Terra e para o infinito do restante da nossa galáxia, os demais humanos se lascam por aqui mesmo, sofrendo com doenças cada vez mais frequentes causadas pela escassez de recursos e pela poluição.

E aí surge o primeiro questionamento sobre Elysium: por que cargas d’água os ricos resolveram fazer o seu oasis particular tão perto da Terra, tornando-se alvos relativamente fáceis a ataques dos terráqueos “pobretões”? A resposta passa pelo estilo de vida que os ricos parecem ter assumido em Elysium. Lá, todos vivem “na gaita” o tempo todo. Pelo menos é o que o roteiro de Blomkamp sugere.

Há alguns homens de negócios, mas as empresas deles, como a Armadyne, de John Carlyle (William Fichtner), funcionam na Terra, explorando uma mão de obra barata. Alguém precisa fabricar os robôs que fazem o trabalho pesado em Elysium e na Terra, e estas pessoas só podem ser os pobretões que não tem dinheiro para pagar pela tecnologia que promete resolver todos os problemas de saúde na estação futurista que orbita próxima da Terra.

Impossível não lembrar de The Terminator, um clássico do gênero, e pensar que mais eficaz que fazer missões para invadir Elysium, sendo que a maioria acabava em naves destruídas, seria promover uma rebelião contra as máquinas e os humanos que estavam por trás delas na Terra, não? Elysium funciona bem enquanto está acontecendo, porque o filme não para. A ação planejada por Blomkamp impede que o espectador pense nos detalhes sobre o que está vendo.

Claro que durante o filme eu já achei estranha aquela escolha de local para Elysium, assim como a lógica do revolucionário Spider (Wagner Moura), que queria que todas as pessoas na Terra tivessem os mesmos direitos que os ricaços de Elysium. A proposta é idealista e inviável, evidentemente. E isso você consegue pensar durante o filme. Mas quando ele termina, muitos outros questionamentos surgem. Mas afinal, por que a ideologia de Spider, apesar de bonita, é inviável e absurda?

Porque de acordo com o roteiro de Blomkamp, os ricaços de Elysium tem a seu dispor tecnologia que cura todas as doenças e, assim, dá “vida eterna” para quem pode pagar por isso. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Certo. E o que acontece quando esse tratamento é dado para todas as pessoas? Bem, segundo a introdução do filme, a Terra já está superpovoada. Agora, imagine as pessoas parando de morrer? O mundo seria totalmente inviável. Não teria cópias de Elysium suficientes para abrigar esta lógica um bocado pueril.

Claro que há um razão de ser para o diretor e roteirista tocar neste ponto das possíveis desigualdades sociais. Ele foca na segregação das pessoas que tem diferentes formas de conseguir assistência à saúde quando elas precisam porque este é um filme feito em Hollywood. Nada melhor que ambientar a produção em Los Angeles, uma das principais cidades do país onde a saúde é um caso sério, difícil de ser resolvido, e que virou tema de batalha quase campal nos últimos três anos. Barack Obama foi eleito prometendo mudanças sérias no sistema de saúde dos Estados Unidos.

O chamado Obamacare dividiu o país em profundos debates. Elysium roça neste assunto que é importante para qualquer país, independente do sistema de saúde adotado. Vide o Brasil, que funciona com outra lógica, e onde a assistência médica é complicada da sua própria maneira. Igualmente criticada e alvo de polêmica, como o recente programa Mais Médicos.

Bueno, explicado o contexto da ficção, o importante é que a vontade do diretor e roteirista em deixar a fantasia com uma corrente amarrada na realidade segue forte. Para o meu gosto, vejo como importante um cineasta definir um estilo de fazer filmes e manter-se coerente com ele. Neste sentido, Elysium tem boas intenções.

Apesar desta assistência médica perfeita inviável que é o alvo principal dos personagens centrais do filme, a produção tem um bom ritmo, efeitos especiais de primeira, uma boa condução da história e, o que de fato nos interessa, ótimas atuações. Os brasileiros – e não quero ser preconceituosa com o comentário, mas o passado alguma vezes nos condena – desta vez fazem um belo trabalho. Wagner Moura e Alice Braga tem papéis de destaque na produção.

Diferente de outros filmes em que tivemos a paixão verde-e-amarela de pontas erroneamente inflada, neste caso realmente há protagonismo de conterrâneos em um filmão de Hollywood. Eles, assim como o amigo de Max, Julio, vivido pelo sempre ótimo Diego Luna, fazem interpretações convincentes.

Mesmo Wagner Moura afirmando em uma entrevista para a Folha de S. Paulo recente de que prefere exagerar nos personagens, apostando no estilo “axé acting”, do que fazendo interpretações abaixo do tom, achei o trabalho do brasileiro exatamente no nível adequado. Convenhamos que o personagem dele é naturalmente exagerado, porque vive sempre pisando na linha tênue entre o vilão e o herói. Aquele que busca uma saída honrosa para todo mundo e que, ao mesmo tempo, explora muita gente.

Natural que a atitude dele em cena tenha que ser exagerada em alguns momentos – mas totalmente dentro do esperado para o personagem. Alice Braga também está muito bem. Apesar de ser a “mocinha” da produção, contudo, ele é uma das personagens que menos aparece. E, assim como quase todos os outros, tem pouco de sua história aprofundada. Em um filme em que a ação, as perseguições e o velho jogo-do-gato-correndo-atrás-do-rato acabam sendo o miolo da história, sobra pouco espaço para aprofundar a história dos personagens. Senti um pouco de falta disso.

Ainda assim, Alice Braga está bem sempre que aparece. Linda, quando sorri é impossível pensar que Max vai ficar focado em si mesmo por muito tempo. 🙂 Além do pano de fundo da assistência de saúde ruim, Elysium faz uma crítica a outro tema polêmico e bastante atual: a postura que os departamentos de segurança de alguns países que são líderes mundiais assumem frente à diferentes “ameaças”. Essa crítica pode ser vista na definição de dois personagens.

Primeiro, a secretária de Defesa Delacourt, interpretada por Jodie Foster, que não pensa nem meio segundo em autorizar a explosão de duas naves com 46 pessoas inocentes e nada armadas dentro. Depois, aparece na figura do vilão desta história, Kruger, interpretado por Sharlto Copley, um agente não autorizado e “secreto” que é acionado sempre que necessário para fazer o serviço sujo.

Não apenas Guantánamo, mas tantas outras histórias recentes e reais demonstram que há abusos do “sistema”, seja nas ordens, seja na dinâmica da ação, em nome da “segurança” de uma nação poderosa. Finalmente, há um outro ponto que Elysium roça e que pode incomodar a algumas pessoas: o povo que ficou na Terra, pelo menos o que vive em Los Angeles, vive falando espanhol e inglês. Este detalhe faz uma clara alusão aos imigrantes que enchem cada vez mais as ruas de qualquer metrópole do planeta. No futuro longínquo, afinal, não seria nada absurdo pensar nos “pobres” dos Estados Unidos falando inglês e espanhol misturado.

Mesmo sendo compreensível, não deixa de ser estranho ver isso na telona. Comento estes pontos porque Elysium, sem dúvida, é um filme clássico de ficção científica com várias “mensagens subliminares” estrategicamente pensadas pelo seu realizador. Esse é o estilo de Neill Blomkamp, pelo menos até agora. Logo mais veremos até quando ele vai estender a mistura entre futurismo com críticas contemporâneas, quase um realismo fantástico, se ele comportasse o que ainda não existe. 🙂

No fim das contas, o que importa é que a narrativa de Elysium funciona, porque envolve o espectador e deixa algumas boas críticas no ar. Mesmo sendo pouco viável em termos lógicos, muitas vezes, ele tem um belo acabamento técnico, envolvimento dos atores, estilo de diretor/roteirista e toda aquela parafernália de quem curte os filmes de ficção científica. Divirta-se!

NOTA: 9.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Neill Blomkamp dirigiu cinco curtas antes de District 9. Não assisti a nenhum deles para saber se ele tinha um estilo definido desde sempre. Mas o longa que impressionou a tanta gente em 2009 e este novo Elysium sugerem que ele gosta de trabalhar aqueles conceitos comentados logo acima. Agora, ele trabalha na pré-produção de Chappie.

O que este próximo tem em comum com os anteriores? O que sabemos, desde já, é que ele é uma ficção científica. Esta característica segue os anteriores, verdade. Mas, ao mesmo tempo, Chappie será uma comédia. Será que também com uma certa crítica social? Em 2015, quando o filme for lançado, saberemos. É esperar para ver.

Como eu disse antes, Elysium é muito bem acabado tecnicamente. Como um filme deste porte e com estas características exige. Mas da parte técnica tenho que destacar, em especial, a excelente edição da dupla Julian Clarke e Lee Smith. Sem o trabalho deles, este filme certamente não teria o ritmo que Blomkamp queria que ele tivesse. Belo e difícil trabalho.

Muito boa a direção do realizador sul-africano que, como em District 9, toma a câmera no braço e faz muitas sequências no melhor estilo de “filme de guerra realista”. Mas, distinto da produção anterior, em Elysium há sequências mais lentas, panorâmicas, que dão tempo para mostrar o espaço conquistado e valorizar os “dramas humanos”, especialmente nas capturas de gente ou nos raros momentos em que os personagens tem tempo para se emocionarem.

Dos atores principais deste filme, só fiquei com pena da Jodie Foster. O papel dela é tão raso que ela não pode fazer muito com aquele perfil de “megera má”, com tudo que a redundância pode reforçar do conceito. Ela está bem, claro. Até porque eu não consigo vê-la mal em qualquer filme. Mas seu papel é muito raso, como outros deste filme – vide os da Alice Braga e do Diego Luna.

Dos coadjuvantes deste filme, vale comentar a atuação de Josh Blacker como Crowe, um dos homens de confiança do vilão Kruger e que, normalmente, fica vigiando a Frey e sua filha Matilda, interpretada por Emma Tremblay; Brandon Auret como Drake, outra figura importante nos confrontos da turma de Kruger; Jose Pablo Cantillo como o tatuadão Dr. Frankenstein amigo de Spider e que transforma o moribundo Max em uma semi-máquina de exterminar; e Faran Tahir como o presidente Patel, que tenta frear Delacourt.

Da parte técnica do filme, achei um pouco exagerada, acima do tom a trilha sonora de Ryan Amon. A direção de fotografia de Trent Opaloch, por outro lado, é precisa. E vale destacar o fantástico o design de produção de Philip Ivey; os efeitos especiais da equipe de 31 profissionais comandada por Kuba Roth; a maquiagem da equipe de Fay von Schroeder e Leeann Charette; e os efeitos visuais que mobilizaram a impressionante equipe de mais de 200 profissionais – não terminei de contar porque me cansei 🙂

Não sei se Elysium terá fôlego para chegar com força para ser indicado a algum Globo de Ouro ou Oscar, mas acho que especialmente os quesitos técnicos mereciam entrar na disputa por uma vaga. Só acho que ele ficou distante de qualquer indicação… veremos, parte 2.

E agora, uma curiosidade sobre Elysium. Originalmente, o papel de Delacourt havia sido escrito para um homem. Agora, cá entre nós, bem melhor a Jodie Foster, né? Com tantas mulheres em posição de comando, nada melhor que colocar uma em posição tão de comando no filme. Aprovada a mudança.

Vindo da África do Sul, Blomkamp é legitimamente preocupado com a segregação, incluindo a história do apartheid. Pois bem, depois de falar disto indiretamente em District 9 – e aqui em Elysium também -, Blomkamp dá um pequeno lembrete do tema em um detalhe que aparece neste lançamento. Quando Kruger pega o lança-foguetes de um veículo, é possível ver o nome da “agência” para a qual ele trabalha: Civil Cooperation Bureau. Durante o apartheid na África do Sul existia um esquadrão de ataque patrocinado pelo governo que se chamava The South African Civil Cooperation Bureau.

Prova de que as pessoas deste filme são imortais é que John Carlyle teria nascido em 2010, segundo o dado biográfico dele que aparece no display do computador. Ou seja, para o tempo de Elysium, ele teria 144 anos. E bem conservado. 🙂

E uma última curiosidade: a parte central de Elysium se passa em 2154, exatamente o mesmo ano em que a história de Avatar é ambientada.

Elysium estreou em Taiwan no dia 7 de agosto e, no dia seguinte, em Israel e na Ucrânia. Na sequência, foi entrando em cartaz nos demais países mundo afora. Esta megaprodução teria custado cerca de US$ 155 milhões. Apenas nos Estados Unidos o filme fez pouco mais de US$ 89,1 milhões até esta quinta-feira, dia 19 de setembro. No restante do mundo, ele teria acumulado pouco mais de US$ 233,25 milhões. Ou seja, está pago e terá algum lucro – descontados os outros gastos que não estão apenas na feitura do filme.

Esta produção foi filmada em British Columbia, no Canadá, na Cidade do México e em Nayarit, no México. Ainda assim, é uma produção 100% dos Estados Unidos.

Os usuários do site IMDb gostaram do filme, a ponto de dar para ele a nota 7. Uma bela avaliação para os padrões do site. Os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes foram um pouco menos generosos. Eles dedicaram 151 críticas positivas e 71 negativas para a produção, o que lhe garante uma aprovação de 68% e uma nota média de 6,5.

E com este filme, engordo a lista de produções dos Estados Unidos que estou comentando por aqui após vocês, caros leitores, terem votado no país em uma enquete aqui do blog.

Ah, e antes de partir para a conclusão, vale deixar alguns textos sobre o Obamacare e afins. Aqui, um resumão sobre o governo do presidente dos Estados Unidos; neste texto, uma boa explicação sobre a reforma no sistema de saúde que Obama conseguiu aprovar em 2010; e aqui um outro explicando a campanha de defesa do presidente de suas propostas.

CONCLUSÃO: Neill Blomkamp virou uma referência em filmes de ação que se passam no futuro. E mesmo com essa ambientação futurística, as produções do diretor tem uma forte carga de reflexão contemporânea. Elysium marca o avanço no cinema de Blomkamp, que dá mais um show no domínio técnico dos recursos que ele tem disponível e também no domínio narrativo. Menos inovador que o anterior District 9, Elysium revela o que o diretor é capaz de fazer com um orçamento maior.

O visual desta produção, assim como os efeitos especiais e a escolha de ótimos atores mostra que ele sabe utilizar bem os recursos que tem disponíveis conforme vai ganhando pontos na indústria. Belo entretenimento, e com algumas pitadas de questionamento social. É o bom cinema de Blomkamp reforçando as suas credenciais. Vejamos se em uma próxima vez ele dá um passo à frente, até para não ficar muito repetitivo – dois filmes futuristas com estas características estão de bom tamanho, certo? Mesmo lembrando bastante District 9, Elysium é uma ótima experiência de cinema com argumentos, ainda que eles sejam um bocado absurdos. Vale ser visto, especialmente se você quiser abraçar a diversão e deixar para lá a lógica. Afinal, este é o típico filme em que os atores e os efeitos especiais fazem a gente esquecer as imperfeições.

Lovelace

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A história de uma mulher que marcou o debate público dos Estados durante uma década, aproximadamente, entre o início dos anos 1970 e dos anos 1980. E ela não fez isso de forma planejada. Mas quando se viu frente aos holofotes, resolveu tomar uma atitude e mudar a rota previsível. Usando literalmente a garganta, seja para ganhar dinheiro ou para denunciar, Linda Lovelace chocou a opinião pública norte-americana, dividiu opiniões, criou furor no setor da pornografia e, agora, rendeu a cinebiografia que leva o seu nome artístico. Lovelace conta a história desta mulher, trazendo uma Amanda Seyfried um pouco mais ousada do que o seu público está acostumado a presenciar.

A HISTÓRIA: Sonzeira e um retroprojetor de um cinema qualquer. Na frente dos espectadores, o início do filme Deep Throat, de 1972. Após aplausos, uma voz apresenta a protagonista do filme: Linda Lovelace (Amanda Seyfried). Corta. Ela aparece fumando em uma banheira, pensativa. Junto com a música alta, um trecho de uma entrevista de Linda, quando lhe perguntam qual é a história dela antes de tornar-se uma estrela de filme pornô e a garota-propaganda da revolução sexual nos Estados Unidos. Corta. Na televisão, o apresentador constata que Deep Throat tornou-se um dos filmes de maior êxito do cinema e que um tribunal de Manhattan havia considerado a produção obscena e exigido que ela saísse de cartaz dos cinemas de Nova York. A pergunta sobre quem é a real Linda Lovelace conta a história da mulher na banheira, protagonista de um dos filmes pornô mais polêmico de todos os tempos.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso só recomendo que continue a ler quem já assistiu a Lovelace): Eu perdi o filme Deep Throat, mas tinha ouvido falar dele. Francamente, os filmes pornô nunca foram o meu forte. 🙂 Sempre preferi outras opções nas videolocadoras, quando elas eram a minha alternativa mais frequente para assistir a filmes diferentes – antes da proliferação dos cinemas e de outras formas de conseguir produções de todos os tipos. Mas interessada pela história do cinema mundial, impossível não ter ouvido falar da conhecida Garganta Profunda.

Ainda assim, até Lovelace, eu não sabia nada sobre a história da protagonista do conhecido filme do cinema pornô. Não sabia, por exemplo, que ela tinha virado uma inusitada ídola de parte do movimento feminista. Algo difícil de acreditar se pensarmos em uma estrela do cinema pornô – já que este tipo de filme, originalmente, guardada as devidas exceções, plasma um tipo de degradação da mulher difícil de ser aceita por quem defende a valorização do “sexo frágil”.

Pois bem, tudo em Lovelace foi novidade para mim. E admito, me fez mergulhar na história da mulher “homenageada” com a produção depois que o filme terminou. E foi aí, vendo a vídeos originais dela, que eu percebi com toda a clareza o que tinha apenas desconfiado antes: Lovelace fica muito aquém do que poderia ter sido se os realizadores tivessem sido um pouco mais ousados.

O primeiro elemento que chama a atenção nesta cinebiografia sobre a estrela de Deep Throat é a trilha sonora. Excelente, por sinal. Em seguida, ganha destaque a direção de fotografia e a ambientação de Lovelace nos anos 1970. Não por acaso, esta produção me lembrou demais a Boogie Nights. E, guardada a devida proporção, Amanda Seyfried me lembrou bastante a Julianne Moore no filme de 1997 que tem a mesma “identidade” deste novo filme. Menos puritano e simplista que Lovelace, Boogie Nights, contudo, é melhor.

Aliás, Amanda Seyfried caminha para o aprimoramento da própria carreira. Ela claramente está selecionando papéis de gêneros muito diversos e, como fez antes a própria Julianne Moore, incluiu nesta diversificação papéis mais “ousados” na mescla entre violência e sexo. Para os fãs da atriz, o importante é que ela se sai bem em Lovelace e passa no teste. Ela e o experiente e normalmente acima da média ator Peter Sarsgaard são o melhor deste filme dirigido pela dupla Rob Epstein e Jeffrey Friedman.

A direção deles também vai bem. Eles focam as atenções no trabalho dos atores e confiam em uma equipe técnica que sabe o que está fazendo. Mas o problema de Lovelace é realmente o roteiro. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme ainda). Andy Bellin procurou a via do exagero no drama, especialmente no “resgate familiar” que Linda procura no final da produção. Mas ao valorizar as lágrimas de crocodilo dos pais da protagonista, a roteirista deixou de fora uma contextualização sobre a protagonista que faz falta para o filme. Teria sido muito mais interessante, por exemplo, explicar melhor porque Linda Lovelace foi tão importante para o debate da pornografia nos Estados Unidos. Uma forma de fazer isso seria reencenar debates na televisão com ela, assim como a exposição de Chuck (Peter Sarsgaard) na imprensa.

Mas não. A roteirista prefere o caminho do sentimentalismo barato e previsível. Com isso, o filme perde em informações e também no impacto. Fica mais superficial do que poderia, e torna a história de Linda Lovelace menos interessante. Para solucionar este problema, só mesmo partindo para uma pesquisa por sua própria conta. Há alguns vídeos no YouTube com a personagem principal desta trama e com o marido bandido dela que valem ser vistos.

Sobre a narrativa de Lovelace, gostei do roteiro ter começado nas vésperas da mudança definitiva na vida da protagonista, mais precisamente em 1970, quando Linda tinha 21 anos. O filme foca a casa em que ela residia com os pais, Dorothy (Sharon Stone) e John Boreman (Robert Patrick) e, na sequência, apresenta a melhor amiga de Linda, Patsy (Juno Temple), e o primeiro encontro delas com Chuck. Até aí tudo muito bem, com algumas ressalvas – sobre as quais falarei em seguida.

Um acerto do roteiro de Bellin foi contar a história de Linda sob a ótica “otimista”, que é a que o grande público conheceu e predominou em um primeiro momento, para depois retornar no tempo histórico para contar os outros matizes do que havia acontecido – e em tons muito mais obscuros. Esta foi uma escolha interessante e que dá fôlego para a produção chegar até o final despertando interesse. Ainda assim, o desfecho de Lovelace carece de impacto. No lugar do melodrama, sem dúvida, teria sido mais interessante refilmar os debates televisionados, como eu comentei antes.

Agora, as ressalvas que faço do início do filme e de alguns trechos posteriores. Para começar, vamos combinar que é beeeem exagerada a versão de que Linda era quase uma puritana, não é mesmo? Logo no início do filme, ela fica um tanto “escandalizada” com a amiga Patsy falando de boquete e querendo, no quintal da casa de Linda, liberar o laço do biquíni para que elas não ficassem com o bronzeado perfeito comprometido. Daí, depois, ela abraça todas as fantasias sexuais de Chuck e vira uma especialista no boquete? Difícil de acreditar, não é mesmo?

Essas cinebiografias que procuram “santificar” o homenageado me cansam. Um filme do gênero fica realmente interessante se tenta abarcar todas as facetas de quem é retratado. Além de falhar neste quesito no início da produção, tornando Linda puritana demais, Lovelace exagera nos tons dos pais da protagonista, displicentes até quase o exagero, assim como na exigência de “redenção” deles no final. Certo que ela se reaproximasse dos pais, mas daquela forma tão “perfeitinha”? Outros pontos da história real de Linda também ficam de fora, como a relação forçada que ela acaba desenvolvendo com Sammy Davis Jr. (interpretado por Ron Pritchard em uma ponta).

Além disso, o filme apenas cita a guerra entre o lado mais puritanista e o “safado” da cultura e da política norte-americana. Nixon até aparece em algum vídeo, aqui e ali, mas o filme nem esboça uma contextualização sobre a importância que Deep Throat teve na derrocada do presidente norte-americana. Não foi por acaso que Walter Mark Felt, informante-chave dos jornalistas Bob Woodward e Carl Bernstein no Caso Watergate recebeu o apelido de Deep Throat. O filme era sensação na época.

Mesmo com estas falhas e desperdícios do roteiro, Lovelace retoma uma história interessante. E que me fez lembrar outro tipo de comparação extremista. Afinal, como o Capitão Nascimento de Tropa de Elite um dia criticou as pessoas que compram drogas por alimentar a violência e os mais diferentes crimes, quem gasta dinheiro com pornografia está, da mesma forma, promovendo a degradação humana nas mais diferentes formas. Muitos podem argumentar que esta é uma visão exagerada e que a base de comparação não é a mesma.

Bueno… cada um pensa de uma forma e encaminha a vida de uma maneira. Da minha parte, acho estes argumentos extremistas válidos. No caso das drogas, acho muito mais válido quem planta o seu próprio pé de maconha para consumo do que quem paga para ter o produto para um traficante – que sim, está envolvido nos mais diferentes tipos de crime. Da mesma forma, vejo como legítimo o estilo “galinha” de ser, dos eternos insatisfeitos pelo prazer e que pulam de galho em galho atrás de sexo. Melhor do que aqueles que pagam por sexo ou que consomem pornografia porque há muitas pessoas por trás destas práticas que vivem de violência dos mais diferentes tipos.

Não compartilho, pessoalmente, de nenhuma destas práticas, mas entendo quem faça algumas delas – exceto as da pornografia e do patrocínio dos traficantes. Alguém pode dizer que há mulheres que gostam de sexo ao ponto de que elas se prostituem ou fazem filmes pornô (existe, realmente, diferença entre uma coisa e outra? não vejo…) para ter o número de parceiros desejados e/ou ainda ganhar um bom dinheiro com o que curtem fazer. Até pode ser. Mas para quantas mulheres como estas existem aquelas que são exploradas, seja por não terem outra alternativa de renda (realmente?) ou pela coerção ou violência de parceiros ou outras pessoas com as quais se envolveram?

Da minha parte, acho a pornografia, seja ela qual for, uma grande fonte de degradação humana. Por que se as pessoas gostam de se expor desta forma, para que precisariam ganhar dinheiro por isso? Fariam de graça, não é mesmo? Fariam apenas porque gostam, e não porque precisam de dinheiro, ou porque acham que estas práticas são a única forma que elas tem de seguirem vivas. Linda Lovelace chamou a atenção para isso. E ainda que eu não ache que ela fosse tão puritana quanto o filme sugere, ou que ela mesma tenha dito, acredito sim que ela foi explorada e que, de forma muito corajosa, decidiu dar um basta para aquela vida e chamar a atenção do mundo para esta situação.

Não por acaso ela foi apoiada por muitas feministas. Pessoas que acham que nenhuma mulher deveria ser explorada. Neste sentido, estou com elas. Acho que toda mulher deve ter a liberdade de fazer o que quiser. Inclusive filmes pornô, fotografias com elas nuas, ou sexo com várias pessoas diferentes todos os dias. Desde que elas não sejam forçadas a estes atos, ou que precisem ganhar dinheiro por eles para sobreviver. Do contrário, estamos apenas falando de degradação.

NOTA: 7,8.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Algo que Lovelace me despertou foi a curiosidade. Para saber mais sobre a personagem desta cinebiografia e, também, sobre o filme clássico do cinema pornô que ela estrelou. Procurando mais informações sobre ambos, fiquei sabendo de alguns pontos interessantes.

Deep Throat, lançado em 1972, foi dirigido por Gerard Damiano, que teve 51 títulos no currículo de diretor. O filme, que teria custado US$ 20 mil e faturado, apenas nos EUA, US$ 45 milhões. De acordo com Lovelace, a produção acumulou US$ 600 milhões – acredito que este valor é corrigido e contempla o faturamento global da produção. Até porque a diferença é muito grande do resultado bruto nos EUA e essa outra projeção.

No currículo da Linda Lovelace original aparecem dois curtas, anteriores a Deep Throat: Sex for Sale, de 1971, e The Foot, de 1972. Depois do sucesso retumbante de Deep Throat, ela faria Deep Throat Part II, lançado em 1974. Não encontrei informações sobre a bilheteria, mas não tenho dúvidas de que ele faturou muito mais do que custou. Porque está é uma característica dos filmes do gênero: ter um orçamento baixíssimo e conseguir um bom lucro sempre – ou quase sempre.

Em 1978, como bem explica Lovelace, Linda lança Ordeal, livro que questiona o que contaram sobre ela até aquele momento. A obra contou com a ajuda do jornalista Mike McGrady. A partir daí, ela é entrevistada por Bob Langley no Saturday Night at the Mill; aparece nos programas Today, NBC Tonight, entre outros; além de ser foco, em 2001, do documentário para a TV The Real Linda Lovelace.

Assisti a boa parte de The Real Linda Lovelace no YouTube após conferir Lovelace. De acordo com o documentário, quando estreou em 1972, Deep Throat atraiu casais, profissionais dos mais diferentes ramos da economia, assim como muitas celebridades. Entre os defensores do filme, que começou a ser questionado pela Justiça, estavam o apresentador Johnny Carson, o ator Jack Nicholson e o escritor Truman Capote.

No ano seguinte, em 1973, Deep Throat estreou nos cinemas de outros países e virou fenômeno de mídia. Linda Lovelace apareceu em reportagens de jornais e revistas, incluindo a capa da Esquire e um ensaio fotográfico para a Playboy de Hugh Hefner. Johnny Carson a entrevistou em rede nacional, nos EUA. Depois de lançar o livro que contaria o “lado B” do sucesso de Deep Throat, Linda é entrevistada, em 1979, no NBC Tonight. O mesmo programa focaria a ex-atriz pornô em 1981. Trechos destes programas estão no YouTube.

Assistindo a The Real Linda Lovelace, algo achei estranho na comparação com o filme Lovelace. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Segundo o documentário feito para a TV, baseado nos livros de Linda, Chuck teria feito ela transar com cinco homens em um quarto de um motel barato em 1971. No filme Lovelace, contudo, este fato teria ocorrido após o sucesso de Deep Throat. Uma falha estranha no roteiro. E dispensável.

Em uma participação de Linda no Sin on Saturdany Night da BBC, em 1981, um homem da plateia pergunta como ela pode dizer que foi obrigada a fazer Deep Throat e tudo o mais por Chuck já que ela sempre aparecia sorrindo. Linda, com certa tranquilidade, responde que ela tinha uma escolha: ou fazia sorrindo, ou morria. E ela escolheu viver. Esse tipo de pergunta e resposta é que seria interessante ver em Lovelace.

Falando em vídeos sobre Linda e Chuck no YouTube, vale dar uma conferida nesta entrevista dada por Chuck em 1976; neste outro vídeo que aborda a polêmica que Deep Throat levantou; e este que reproduz The Real Linda Lovelace.

Agora, voltando a falar de Lovelace. A parte técnica do filme funciona muito bem. Vale destacar a direção de fotografia que lembra o tipo de imagens dos filmes dos anos 1970 e as imagens vinculadas na TV no início dos anos 1980 feita por Eric Alan Edwards; a trilha sonora com um ótimo resgate pop da época feita por Stephen Trask; os figurinos de Karyn Wagner; e o conjunto que dá a “contextualização ambiental” de época do design de produção de William Arnold, direção de arte de Gary Myers e decoração de set de David Smith.

Esta produção conseguiu reunir alguns nomes de primeira linha em papéis secundários – sim, porque Lovelace é bastante centrado na interpretação de Amanda Seyfried e Peter Sarsgaard. Sharon Stone e Robert Patrick estão apenas medianos. Além dos protagonistas, destaque para o trabalho de Adam Brody como Harry Reems, estrela de Deep Throat ao lado de Linda e um “astro” do cinema pornô daquela época. Além deles, merecem menção por um trabalho “centrado” os atores Juno Temple; Chris Noth, que interpreta a Anthony Romano, um dos produtores de Deep Throat; Bobby Cannavale, que interpreta a Butchie Peraino, outro produtor do filme de 1972; Hank Azaria como Gerry Damiano, roteirista e diretor de Deep Throat; James Franco como Hugh Hefner e Wes Bentley como o fotógrafo Thomas. Além deles, há superpontas de Chloë Sevigny como uma jornalista feminista e de Eric Roberts como Nat Laurendi, que faz um exame de polígrafo antes de Linda lançar o livro de 1978.

Lovelace teria custado US$ 10 milhões. Para mim, uma verdadeira fortuna para uma produção com este perfil. A produção, que estreou em alguns cinemas dos Estados Unidos no dia 9 de agosto, faturou, até agora, quase US$ 356,6 mil. Ou seja: risco gigantesco deste filme ser um fracasso nas bilheterias. Muito diferente de Deep Throat.

O filme sobre Linda Lovelace estreou em janeiro deste ano no Festival de Sundance. Depois, ele passaria por outros seis festivais, incluindo o de Berlim. Em nenhum deles ele foi premiado.

E agora, algumas curiosidades sobre Lovelace: Kate Hudson e Olivia Wilde foram cogitadas para interpretar a protagonista, mas acabaram pulando fora do projeto. James Franco também foi cogitado para interpreta a Chuck Traynor.

Sobre a bilheteria que Deep Throat deve ter feito, uma explicação sobre aquele inflacionado US$ 600 milhões: de acordo com Roger Ebert, como a máfia tinha a maioria dos cinemas pornôs da época, durante o período de exibição do filme ela inflacionava o caixa dos cinemas com dinheiro vindo da venda de drogas e da prostituição. Uma forma de “lavar” o rendimento do crime organizado.

Os usuários do site IMDb deram a nota 6,1 para Lovelace. Uma boa avaliação, levando em consideração os padrões do site. Mas os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes foram menos generosos. Eles dedicaram 55 textos positivos e 50 negativos para a produção, o que lhe garante uma aprovação de 52% e uma nota média de 5,6.

Adiciono este filme na lista de produções dos Estados Unidos que eu estou comentando após uma votação de vocês, meus caros leitores, aqui no blog.

Lovelace rendeu alguns cartazes muito bacanas. Fiquei muito em dúvida entre dois deles, para colocar aqui no blog. Mas bati martelo no que abre este texto porque achei ele mais estiloso. 🙂

CONCLUSÃO: Linda Lovelace fez parte da vida de muitos homens e mulheres que se renderam a Deep Throat em algum momento de suas vidas. Não foi o meu caso. Ainda assim, sem ter esta “memória afetiva” sobre a protagonista do filme pornô, achei interessante o que eu vi em Lovelace. Mas este é um filme menor e mais “careta” do que poderia ter sido. Achei o trabalho do roteirista e dos diretores um tanto preguiçoso demais. Afinal, estamos falando da figura controversa que mexeu com a libido e com diversos conceitos da sociedade norte-americana há três ou quatro décadas atrás. Essa produção, por esta fraqueza na entrega, acaba sendo interessante por resgatar uma história interessante, mas não mexe tanto com o espectador do que poderia se tivesse sido melhor acabada. De qualquer forma, sempre vale retomar uma história como essa, nem que for para reabrir um debate sobre a pornografia em uma mesa de bar.