Mother! – Mãe!

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Um dos filmes mais “malucos” e controversos que eu assisti em um longo tempo. Na verdade, se eu fosse fazer uma lista com estes predicados, provavelmente Mother! estaria no Top 5 avaliando todas as produções que eu vi até hoje na vida. Darren Aronofsky, de quem eu gosto tanto, desta vez foi um pouco longe demais. Claro que o diretor dá um show na condução da trama mas, no final, nos perguntamos para que tanto esforço. Dele e de quem assiste a este filme. Sim, há um objetivo claro nesta produção. Aronofsky, mais uma vez, alcança o seu objetivo. Mas isso não significa, exatamente, uma grande experiência para quem se lança no cinema para assistir à sua mais nova “peça de arte”.

A HISTÓRIA: Uma pessoa está pegando fogo. Enquanto as chamas queimam, uma lágrima cai pelo seu rosto. Um homem (Javier Bardem) coloca uma grande pedra transparente – que se assemelha à uma pedra preciosa – sobre um pedestal. Logo após ele fazer isso, tudo que estava queimado e que foi destruído pelas chamas volta a se regenerar e a voltar ao ponto anterior ao da destruição. A casa volta ao normal, cada detalhe, inclusive a mulher que está sobre a cama (Jennifer Lawrence). Ela acorda e caminha pela casa procurando por algo. Logo chama por “amor”, e descobrimos que ela é casada com o homem que conseguiu regenerar tudo.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Mother): Eu gosto muito do diretor Darren Aronofsky, como eu comentei antes. Ele é um dos diretores que eu gosto de acompanhar. Destes raros que eu procuro assistir a todos os filmes que ele já fez. Algumas das produções criadas por ele estão entre as minha preferidas de todos os tempos – com destaque para Requiem for a Dream.

Depois de falar sobre este contexto pessoal, como fã de cinema e de Aronofsky, devo dizer que fiquei chocada com Mother!. Mais que nada, porque achei este filme como um dos piores – se não o pior – da filmografia do diretor. E digo isso por várias razões. Mother! é pretensioso, é cansativo, e por mais que ele faça sentido se pensarmos na história dele de trás para a frente, ele me pareceu mais “sem pé e nem cabeça” do que o desejado. Desta vez, como falei lá no início, parece que Aronofsky quis dar vasão para a sua criatividade de uma forma mais visceral e “maluca” e acabou passando um pouco do limite.

Sei bem, assim como vocês, que cinema – e qualquer outro consumo artístico e cultural – é uma questão muito pessoal. O entendimento sobre cada filme e cada obra depende muito da nossa ótica, nossas experiências, crenças, valores e um longo etc. Mas, como sempre – e isso é chover no molhado -, falo por aqui sobre os filmes sob a minha ótica. Respeito as diferenças, as outras visões além da minha, mas meu papel aqui é falar sobre o que eu vi tendo como base o meu arcabouço de conhecimento e a minha ótica.

Pois bem, afinal de contas, sobre o que fala Mother!? (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). No início do filme e por um bom período dele, pensamos que esta produção trata de um casal que passa por uma certa crise e/ou que tem buscado coisas diferentes. Ainda que esta seja a aparência, alguns elementos – especialmente a direção muito bem feita de Aronofsky – nos fazem ter, permanentemente, uma certa sensação de estranheza e até de mal estar. Algo parece estar muito errado, apesar de toda a beleza que vemos na nossa frente – não apenas da protagonista, mas da casa e do cenário em que ela se move.

Então, evidentemente, aqui – e na vida mesmo -, as aparências enganam. Sim, sabemos que há algo de “muito podre no Reino da Inglaterra”. E aí passamos por um longo período de certa estranheza e angústia e, perto do fim, por uma viagem louca e frenética de cenas diversas de destruição e violência para, no fim das contas, entender o que? No final, finalmente, chegamos ao cerne da questão. Entendemos a razão deste filme existir. Ou seja, como eu disse antes, o estranhíssimo e um tanto pretensioso novo filme de Aronofsky tem sim um significado.

(SPOILER – não leia… bem, você já sabe). No final, bem no final, entendemos que a protagonista é a “musa inspiradora”, literalmente as lembranças de casa/das origens do poeta – e, claro, entendemos quem é aquele sujeito que está no comando de tudo o tempo todo. Assim, a personagem de Jennifer Lawrence, que nos créditos do filme recebe o nome de “Mother” – mas que durante o desenrolar da história é chamada de “meu amor”, “musa”, entre outros nomes – é, no fim das contas, as memórias que o protagonista tem da sua própria casa, do seu lar, de um lugar que não existe mais mas que o inspira para escrever a sua obra.

Em outras palavras, a personagem de Jennifer Lawrence é a “musa inspiradora” do poeta. Por isso mesmo que ela, após uma noite de paixão com o protagonista, consegue engravidar e, depois, dá a luz à “obra-prima” do protagonista. O personagem central de tudo isso, contudo, é o escritor/poeta interpretado por Javier Bardem. Ainda que a câmera de Aronofsky esteja permanentemente “colada” em Lawrence, acompanhando cada passo dela, toda aquela realidade e tudo que acontece com o “casal” só existe porque o personagem de Bardem existe.

No final das contas, parece que Aronofsky também brinca de ter em Lawrence a sua musa inspiradora. Afinal, é nela que a câmera dele está sempre focada ou próxima. Ela dita os movimentos do diretor. É como se ele não pudesse nunca perder de vista a sua inspiração – diferente do protagonista, que se encanta com vários outros elementos além da sua noção de “lar”. Encantado com o sucesso, muitas vezes ele se esquece da sua fonte de inspiração e dá as costas para ela.

Por sua parte, como a câmera está sempre acompanhando Lawrence, percebemos sob a ótica da inspiração os efeitos do desamor, do abandono e do esquecimento. Aquele sensação de estranheza e de certa angústia é provocada justamente pela falta de sintonia entre o que a inspiração do poeta deseja – apenas ele – e o que o próprio escritor lhe apresenta como resposta para os seus apelos.

Ou seja, para resumir, ao contrário do que pode parecer no início, este filme é uma grande reflexão sobre como as lembranças de um lar, as recordações da origem (e do amor) servem de inspiração fundamental para um artista/poeta e para a sua obra. E como este escritor/poeta/artista pode ser cruel, infiel ou inconstante em relação à sua fonte de inspiração quando começa a fazer sucesso e/ou volta a ser endeusado.

Mother!, no fim das contas, é uma viagem pessoal de Aronofsky sobre a fonte de inspiração de todo artista e de como esta fonte pode incomodar ou ser violentada/atacada de formas muito diversas em regimes totalitários, durante guerras, perseguições e uma bela variedade de conflitos. A inspiração e a arte estão sendo atacadas e sempre foram atacadas em diferentes lugares durante muitos períodos da História. E Aronofsky parece ter resolvido falar disso de uma forma bastante inusitada. Com Mother! o próprio diretor resolve fazer um trabalho mais “artístico”, mas será mesmo que ele conseguiu fazer esta entrega de forma perfeita?

Vou dividir esta resposta em duas partes. Em relação à direção, sem dúvidas Aronofsky faz mais uma entrega exemplar. Ele tem uma dinâmica interessante de câmera, cuidando de valorizar sempre a personagem de Jennifer Lawrence. Toda a narrativa está sob a ótica dela. Afinal, ela é a protagonista, a peça-chave de toda a produção. Ela inspira o artista, o poeta, e sem ela nada existiria. A musa inspiradora do protagonista e deste filme fica realmente no centro do “tablado” o tempo inteiro, e o esforço da direção de Aronofsky não é apenas de seguirmos de perto o que ela faz, mas também de sentir o mesmo que ela – incluindo bastante estranheza, confusão e mal estar.

Neste sentido, tanto a direção quanto boa parte do roteiro de Aronofsky fazem sentido e são coerentes – especialmente se pensamos no filme do final para o início. Porque, desta forma, tudo faz um pouco mais de sentido. Mas e o roteiro? Aronofsky também acerta no roteiro? É nesta parte fundamental de qualquer filme – para mim, sempre a parte central de uma produção – que o diretor/roteirista derrapa. É justamente em várias escolhas do roteiro que ele sugere ter uma obra pretensiosa demais. Vejamos.

Se a intenção do diretor era mostrar o quanto uma “musa inspiradora” é fundamental para um artista e o quanto ele pode se deixar levar pela fama, pelos fãs, pelo “circo” todo que envolve uma obra aclamada e, ao fazer isso, esquecer a sua musa e maltratá-la com esta indiferença, era preciso mesmo tanto ir-e-vir de personagens estranhos na história? O fã que chega sozinho e depois é seguido pela mulher e pelos filhos… eles realmente precisavam ocupar tanto tempo da história?

E, depois, quando o diretor vai inserindo outras pessoas em cena que “invadem” o espaço da “musa inspiradora” e que tornam a angústia dela cada vez maior, até que somos arrebatados por uma sequência maluca de diversos episódios da História em que a arte/a musa inspiradora foram atacadas, nos perguntamos: toda aquela “verborragia” cênica era realmente necessária? Ou foi apenas uma forma do diretor mostrar a sua capacidade? Da minha parte, tudo isso me pareceu o esforço de um artista de mostrar que ele sabe pintar com cores fortes e de forma “mais livre”. Mas isso nem sempre resulta em uma obra de arte como ele gostaria.

Sim, Aronofsky é um grande diretor. Ele sabe conduzir bem uma trama e os atores envolvidos neste projeto fazem um belo trabalho. Mas no final das contas Mother! se apresenta um filme longo demais, um bocado repetitivo e arrastado. E tudo para nos contar uma história sobre um artista e a sua musa inspiradora, e sobre como o mundo e os seus exageros corrompem esta relação que poderia ser perfeita. Enfim, lembrando uma obra de William Shakespeare, achei este filme “muito barulho por nada”. Ou quase isso.

Quando sai do cinema, fiquei um bom tempo pensando sobre a nota que eu daria para esta produção. Admito que, por gostar tanto de Aronofsky, eu comecei dando uma nota mais alta do que esta que vocês podem conferir abaixo. Se compararmos este filme com outros muito medianos que eu comentei aqui no blog e que, por alguma razão ou outra, acabaram recebendo um 8 ou um 8,5, provavelmente concordaríamos que estes outros filmes medianos são “menores” do que Mother!. Mas a nota abaixo foi dada apenas na perspectiva deste filme, sem tentar compará-lo muito com outros.

Pensei, na verdade, mais na obra de Aronofsky e no que eu acho que ele poderia ter apresentado em uma nova produção. E tendo isto como critério, mais do que o que eu tenho visto de outros diretores, é que eu resolvi dar uma nota mais baixo. Admito, sim, que eu esperava mais de Aronofsky. Até pelo que ele já nos apresentou. E se você começou a ver este diretor com Mother!, saiba que ele é muito melhor. Da minha parte, gosto muito de Requiem for a Dream, Pi e Black Swan (comentado aqui). Procure assisti-los, caso ainda não o tenha feito.

NOTA: 7.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Eu assisti este filme no cinema. E achei interessante a reação das pessoas. Algumas desistiram do filme antes mesmo dele acabar. Notei isso, primeiro, com algumas pessoas abaixo de mim na sala acessando o tempo todo o smartphone, pouco interessadas naquela trama “circular” e repetitiva que estava passando na telona. Depois, algumas pessoas simplesmente saíram do cinema antes do final da trama. Respeito todas as opiniões, sempre, mas isso é algo que eu me recuso a fazer. Não importa o quanto o filme seja ruim ou me desagrade. Eu fico até o final.

Outras reações foram interessantes quando eu sai da sala de cinema. Na minha sessão haviam muitos jovens. Possivelmente pessoas que conheceram Aronofsky com o seu maravilhoso Black Swan, lançado em 2010. Estas pessoas saíram insatisfeitas do cinema. Algumas não entenderam a “moral da história”, o que o filme quis dizer. Outras – e dou razão para estas pessoas -, reclamaram do filme ser classificado como “horror” e “mistério”. Realmente, nada a ver ele estar na categoria “horror”. No fundo, Mother! é um drama sobre um artista e a sua busca incansável pela “fonte” de sua inspiração – a sua própria noção/lembrança de lar. Então, meus caros, é essencialmente um drama. Entendo a frustração de parte do público.

Ao fazer Mother!, Darren Aronofsky saiu muito da curva de tudo que um fã dele poderia esperar do diretor. Sim, ele é um sujeito criativo. Grande diretor, que domina muito bem os recursos e as técnicas do cinema. Mas com este filme ele caminhou em uma direção “artística” (entre aspas mesmo) muito diferente do que tínhamos assistido até então. Para mim, Mother! se assemelha muito a The Tree of Life (com crítica neste link), de Terrence Malick. Os dois filmes são controversos e dividem opiniões. São, ambos, do estilo “ame ou odeie”. E os dois sofrem do mesmo mal: tentam ser melhores do que realmente são.

Mas, admito, ainda que Mother! se assemelhe a The Tree of Life, eu ainda prefiro o primeiro. E isso tem tudo a ver com a minha admiração muito maior para Aronofsky do que para com Malick. Agora, como fã do diretor, o que eu espero é que ele nos apresente algo melhor na próxima vez.

Durante grande parte do filme, Mother! tem um grupo pequeno de atores em cena. Depois, o diretor descamba para uma “enxurrada” de pessoas que aparecem em cena como uma “invasão bárbara”. Muitos nomes, assim, aparecem quase como figurantes. De todos os atores envolvidos no projeto, sem dúvida o destaque principal vai para Jennifer Lawrence, que está linda e que faz um grande trabalho, repassando todo o desconforto e a paixão que a sua personagem pede. Em seguida, vale destacar o bom trabalho – ainda que não excepcional – de Javier Bardem como o escritor/poeta que tem uma relação profunda de amor com a sua musa inspiradora – mas que não cuida dela como deveria.

Além dos protagonistas, vale citar o bom trabalho de Ed Harris como o fã do poeta que procura o seu ídolo antes de morrer; Michelle Pfeiffer como a mulher dele; Brian Gleeson como o filho mais novo do casal e Domhnall Gleeson como o filho mais velho.

Lá pelas tantas Mother! descamba para uma violência considerável. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Esta acaba sendo a parte mais “louca” e criativa da produção – e que contrasta tanto com aquele “bucolismo” um tanto irreal anterior e que preenche boa parte do filme. Não é fácil ver a “musa” do poeta sendo agredida ferozmente. Também chega a dar um bocado de arrepios o fim que o “filho” do casal acaba tendo – mas devemos lembrar, nesta parte, que a criança era a nova obra do poeta, gerada pela união dele com a sua “musa inspiradora”. Ou seja, não era uma criança de verdade, e sim uma obra que acabou sendo vilipendiada e “devorada” pelos fãs do artista. Nesta parte, Aronofsky quer nos dizer que todos somos canibais quando se trata de uma obra. Queremos devorá-la e acabar com ela para satisfazer a nossa fome “por algo belo”. O diretor/roteirista está fazendo uma crítica mordaz sobre o consumo cultural e sobre o público que quer ter as suas vontades sempre satisfeitas, não importa como.

Comentei rapidamente, durante a semana, logo após assistir ao filme, que este não era o melhor trabalho de Aronofsky. Algumas pessoas se manifestaram com comentários lá. Agradeço à participação de Thales Salgado, Andressa Barroso Vieira e Enzo Santos. 😉 Por lá, o Thales perguntou o que eu tinha entendido sobre aquele líquido que a personagem de Jennifer Lawrence tomava de tempos em tempos. Respeito outras opiniões e formas de entender aquele trecho do filme, mas vou dizer aqui o que eu achei, beleza?

(SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Vamos olhar a questão de forma um pouco mais ampla. Quando tudo é destruído e volta a se regenerar, a “musa inspiradora” acorda e busca o seu amor, o poeta, correto? Neste começo, e por uma parte do tempo – até as “invasões bárbaras” começarem a acontecer -, a “musa” está sempre buscando o amor do poeta e vive uma certa “tranquilidade” em uma reforma do “lar” que parece ser sem fim. Neste começo pacífico, a musa literalmente sente o lar como um organismo vivo. Mas, conforme a história vai avançando e o poeta vai se distanciando da sua musa, a personagem de Lawrence vai se sentindo cada vez mais e sente que o “organismo vivo” do lar está se deteriorando, como que passando por um tipo de câncer – ou, se olharmos por outra ótica, voltando para o estágio de destruição/carvão após o fogo. A deterioração do sentido de lar – que, no fim das contas, é o que representa a musa do poeta – vai ocorrendo aos poucos e vai se manifestando de diferentes formas.

Cada ameaça para a tranquilidade e a idealização da relação entre a musa e o poeta parece provocar dor e início de perda de sentido para a musa. Sim, ela está sendo ameaçada. Os elementos externos simbolizados pelos fãs do poeta – mas que significam também dinheiro, fama, holofotes e, depois, guerra, perseguição, ditaduras, conflitos variados – representam perigo para a musa. Inicialmente este risco era enfrentado por ela com o tal líquido dourado. O que ele representa? Para mim, qualquer dose de algo que possa tranquilizar a inspiração de um artista. Aquele líquido serve como um “elixir” de inspiração. Alguns se inspiram e/ou se conectam com a sua fonte de inspiração bebendo, enquanto outros conseguem isso com drogas ou outras formas de “religar-se” com o que lhe inspira – no caso do protagonista, com a ideia de “lar” original. Então eu não acho que exista apenas uma resposta para a pergunta. Mas acho que o líquido representava uma forma da inspiração manter-se sólida apesar das ameaças externas.

Da parte técnica do filme, sem dúvida alguma o destaque vai para a direção de Aronfosky. Ele faz um belo trabalho, especialmente ao decidir sempre ter a câmera perto da protagonista Jennifer Lawrence. Claramente também ele opta por uma direção “fluída”, que faz com que o nosso olhar esteja sempre deslizando pelo espaço daquela casa que é tão protagonista quanto a musa e o poeta. Além disso, o diretor sabe valorizar bem o trabalho dos atores em cena.

Para que o filme tenha a entrega competente que ele tem – pena que o roteiro seja o ponto falho -, foi necessário o bom trabalho de outras pessoas. Destaco, neste sentido, o trabalho de Matthew Libatique na direção de fotografia; de Andrew Weisblum, com um trabalho excepcional na edição; de Philip Messina no design de produção; de Isabelle Guay e de Deborah Jensen na direção de arte; de Danny Glicker nos figurinos; de Larry Dias e Martine Kazemirchuk na decoração de set; assim como o ótimo trabalho dos 14 profissionais envolvidos com a maquiagem; dos 17 profissionais que fazem um trabalho excepcional com um elemento fundamental para a história, que é o som; e o impressionante número de 173 profissionais envolvidos nos efeitos visuais desta produção – que, ok, é um elemento importante no filme, mas que convenhamos… não o torna melhor. Para verem como o roteiro realmente é uma parte fundamental. Mother! é bem acabado, tecnicamente falando, mas não é brilhante ou inesquecível.

Estava pensando agora… alguns podem ter pensado sobre a razão do título deste filme ser “Mother!”. (SPOILER – não leia… bem, você já sabe). Para mim, este título faz referência à “mãe” de todas as artes: a inspiração que move o artista. Seja ele poeta, escritor, artista plástico, músico ou cineasta. E a “mãe” de toda a arte, segundo Aronofsky, seria a lembrança de lar que o artista tem. E isso é fato. Várias e várias obras singulares na História da humanidade, se pararmos para pensar, tem a ver com as lembranças que o artista tem e/ou a noção que ele próprio apresenta de lar, daquilo que ele entende como as suas origens e o seu amor mais duradouro.

Mother! estreou no dia 5 de setembro no Festival de Cinema de Veneza. Até outubro, ele terá participado de outros sete festivais. Como estamos partindo já para o final de 2017, impossível não pensar se este filme chegará com fôlego no próximo Oscar. Da minha parte, acho que não. Mas veremos se estou certa ou errada logo mais. 😉

Esta produção teria custado cerca de US$ 33 milhões. Grande parte do recurso gasto, imagino, nos cachês dos protagonistas/elenco e com os efeitos especiais. De acordo com o site Box Office Mojo, Mother! fez cerca de US$ 15,3 milhões nos Estados Unidos e pouco mais de US$ 13 milhões nos outros países em que ele já estreou. Ou seja, até o momento, teria feito cerca de US$ 28,3 milhões. Verdade que esta produção tem uma história recente. Ainda assim, me parece, vai fechar no vermelho. E, francamente, isso não me surpreende.

Agora, algumas curiosidades sobre esta produção. De acordo com as notas de produção de Mother!, este filme tem como as suas inspirações evidentes filmes como Rosemary’s Baby, dirigido por Roman Polanski e lançado em 1968, e Collective Unconscious, dirigido por Dylon Matthews e lançado em 2004. Me chamou a atenção a nota alta deste segundo filme, com nota 9,9 no IMDb.

A atriz Jennifer Lawrence e o diretor Darren Aronofsky começaram a namorar durante as filmes de Mother!. Realmente ele parece ter achado a sua musa inspiradora. 😉 Espero que ela lhe inspire a apresentar algo melhor da próxima vez.

Para explicar um pouco a “confusão” artística de Mother!, acho interessante citar parte de algumas declarações de Aronofsky sobre o filme. Ele começa comentando que acha incrível como muitas pessoas ainda neguem a destruição do planeta que a humanidade está causando com a sua “pegada” no mundo. E que foi a angústia e o “desamparo” provocado por esta reflexão que fizeram, um certo dia, o diretor acordar de manhã com a ideia de Mother! surgida como um “sonho febril”. Enquanto os filmes anteriores do diretor surgiram após o trabalho dele no roteiro desenvolvido durante alguns anos, a primeira versão de Mother! surgiu em apenas cinco dias – isso explica o porquê deste ser o seu pior roteiro, acredito.

Um ano depois do diretor ter escrito a primeira versão do roteiro de Mother! ele já estava filmando a produção. E, dois anos depois, tinha ela pronta para apresentar para o público. Da minha parte, sempre fui da opinião que o quanto mais você trabalha e se dedica para uma história, melhor ela sai. Mother!, para mim, é o sonho filosófico de um diretor que quer denunciar algo e que apresenta isso de forma visceral. Nem sempre isso quer dizer bom.

De acordo com Aronofsky, Mother! começa como uma história sobre um casamento. No centro desta história está uma mulher que é estimulada a dar, dar, dar até não poder dar mais nada. Eventualmente, comentou o diretor, a câmera que foca esta história não consegue conter a pressão que está “fervendo” dentro desta visão. E daí a história se torna, segundo o próprio Aronofsky, “outra coisa que é difícil explicar ou descrever”. Percebemos. hehehehehe. Aronofsky também diz que não sabe identificar, exatamente, de onde tudo que ele nos apresenta neste filme veio.

Parte teve origem nas “manchetes dos jornais” de cada dia (com as suas notícias ruins), parte veio do “zumbido interminável de notificações dos nossos smartphones”, outra parte veio do apagão provocado pelo furação Sandy no Centro de Manhattan, e outras partes vieram do “coração e do instinto” do diretor. Aronofsky diz que o resultado de tudo isso é algo que ele nunca será capaz de reproduzir novamente, e que tudo acabou sendo “servido” como um bêbado que toma a sua melhor dose em um único “shot” de bebida. E que esta bebida bate no bêbado de volta. Bem, talvez essa seja a explicação, afinal, daquele líquido que a “musa” do filme toma. 😉

A atriz Jennifer Lawrence mergulhou tanto em sua personagem que, na cena do clímax da produção, a atriz começou a hiperventilar e até quebrou uma costela – certamente naquela sequência maluca de agressões que ela passa.

Mother! recebeu uma classificação “F” do CinemaScore. Este é o pior resultado que um filme pode obter. Por isso mesmo, é uma classificação rara. Apenas 19 filmes receberam, antes, a classificação “F”.

Esta produção recebeu tanto vaias quanto aplausos na sua estreia no Festival de Cinema de Veneza. Eu entendo. Como eu disse antes, é um filme controverso. Bem ao estilo “ame” ou “odeie”. Da minha parte, não achei ele tãooooo ruim assim. Mas também não achei ele ótimo. Acho que fico mais sobre o muro – e sim, ele seria melhor com meia hora a menos.

O ponto de exclamação no título do filme, segundo Aronofsky, faz alusão aos últimos 30 minutos “efusivos” da produção.

Esta produção obteve apenas US$ 7,5 milhões de resultado nas bilheterias em seu final de semana de estreia nos Estados Unidos. Este resultado torna Mother! como o pior resultado nas bilheterias para um filme estrelado por Jennifer Lawrence.

Antes de Mother! começar a ser filmado, o elenco ensaiou a produção durante três meses em um armazém para que o diretor pudesse testar os movimentos de câmera e aprender com eles para que, quando as filmagens começassem para valer, tudo estivesse fluindo como ele desejava. Deu certo. O filme realmente tem uma direção incrível.

Hummm… e agora alguns comentários do diretor que desmontam totalmente o que eu tinha entendido do filme. hahahahahaha. Mas faz parte, né? Filmes “artísticos” tem muito isso. Cada um entende de uma forma e todos estão certos sobre as suas compreensões. Mas, vejam bem… Aronofsky acabou falando sobre as intenções dele com esta produção. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Segundo o diretor, o título Mother! realmente faz alusão à Mãe Natureza. Jennifer Lawrence interpretaria essa Mãe Natureza, e os demais personagens todos fariam alusão à personagens bíblicos. Por exemplo, Javier Bardem está apenas identificado como Ele e, por isso, ele seria Deus. Ed Harris seria Adão, e Michelle Pfeiffer seria Eva. Os filhos do casal seriam Caim e Abel.

Hummmm… Posso falar e ser franca? Agora sim eu acho que ele pirou. Com todo o respeito. hahahahahaha. Sob esta ótica, a Mãe Natureza só quer saber de Deus, e Este acaba ignorando ela e deixando ela sozinha muitas vezes porque está mais fascinado com a Humanidade e a adulação que as pessoas fazem Dele? Olha, ainda prefiro a minha interpretação do filme. Me parece menos absurda. 😉 E fiquei pensando… sob esta ótica “bíblica” do diretor, quem seria o bebê devorado pelo coletivo? O nosso futuro? Ok, até faz sentido, mas acho ainda mais loucura do que a visão “artística” que eu citei acima.

Até porque, sob esta ótica “bíblica” do diretor, o Deus apresentado por ele seria egoísta, suscetível a ter o ego inflado pela Humanidade e pouco amoroso com grande parte da sua criação, representada pela Mãe Natureza, não? Beleza. Entendo que o diretor esteja bravo e que vá “contra Deus”, mas esta visão é totalmente contra a visão dos cristãos, correto? Enfim, achei, sob esta ótica, a obra ainda mais desnecessária. Mas respeito o diretor. Só acho que ele perdeu uma boa oportunidade de não entrar na seara da fé e de apresentar algo melhor…

Os usuários do site IMDb deram a nota 7,0 para esta produção. Achei ela muito boa, levando em conta o padrão do site. Por sua vez, os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 173 críticas positivas e 84 negativas para a produção, o que lhe garante uma aprovação de 67% e uma nota média de 6,7.

Para quem, como eu, gosta de saber onde os filmes foram rodados, Mother! foi totalmente filmado na cidade de Montreal, no Canadá. Ainda assim, esta é uma produção 100% dos Estados Unidos – e, por causa disso, ela atende a uma votação feita há algum tempo aqui no blog.

Honestamente? O filme merecia até menos que um 7. Mas como eu gosto do diretor… não consegui abaixar a nota menos que isso. Espero que me perdoem. 😉

CONCLUSÃO: Este é o filme mais ousado, experimental e artístico do interessante diretor Darren Aronofsky. Mas nem por isso, ou por causa de tudo isso, este não é o seu melhor filme. Está bem longe disso, na verdade. Desta vez Aronofsky abriu todas as comportas da sua imaginação para nos apresentar um filme que é um grande libelo sobre a criação artística. Ok, a obra é interessante se entendida do final para o começo. Mas e tudo que passamos até chegar ao momento da “eureca”? Achei esta produção longa demais e com tintas um tanto forçadas para apresentar o conceito que ela apresenta. Não apenas este não é o melhor filme do diretor como ela também não é tão “obra de arte” quanto o diretor gostaria. Deixa o público perplexo, mas não imprimi realmente uma marca na lembrança do cinéfilo. Será esquecido com uma certa facilidade. Uma pena.

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The Case for Christ – Em Defesa de Cristo

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A fé é uma escolha individual. Uma decisão pessoal e intransferível. O mesmo se aplica à escolha por assistir a um filme. Você sempre pode decidir por A ou por B. Dito isso, recomendo que a decisão por assistir a The Case for Christ seja feita após alguma reflexão. Esta produção conta a história de um casal de ateus que acaba se convertendo e virando cristãos. O filme é baseado em uma história real. Ou seja, com esta introdução, você já sabe um bocado sobre como a história vai se desenvolver. Então se você acha o cristianismo uma grande bobagem e/ou não faz sentido para você, a minha recomendação é que você fique longe deste filme. Para os cristãos, contudo, ele é um belo deleite. Depois eu falo sobre cinema. 😉

A HISTÓRIA: Vista da cidade. Um papel é colocado em uma máquina de escrever. Lee Strobel (Mike Vogel) pesquisa em livros, faz anotações e escreve. Corta. A história volta no tempo, quando ele (interpretado, quando jovem, por Michael Provost) começa na carreira de jornalista. Na época, ele namorava com Leslie (Erika Christensen, quando jovem, interpretada por Kelly Lamor Wilson). Vemos o romance dos dois e o trabalho premiado dele quando ele avança na carreira. Ele é um jornalista dedicado e investigativo. Se divide entre o trabalho e o casamento. Mas um incidente envolvendo a filha do casal, Alison (Haley Rosenwasser), faz com que a vida do casal Strobel mude para sempre.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a The Case for Christ): Impossível assistir a um filme tão contundente como este sobre fé sem tratar um pouco sobre o assunto. Por isso eu comentei, lá em cima, que eu acho esta produção recomendada para quem tem a fé bem definida ou para quem, sem acreditar em nada, pelo menos deixa em aberto alguma possibilidade de dúvida – ou de conversão.

Afinal, este filme trata, claramente, sobre um processo de conversão. Para quem é cristão, como é o meu caso, é impactante (e emocionante) ver pessoas que não acreditavam em Deus ou em Cristo passarem por buscas tão particulares e reveladoras. O casal que protagoniza este filme apresenta trajetórias muito diferentes de busca de respostas, e pela própria fé, mas é tocante como a história deles se complementa e como nos passa tanta verdade. Baseado em uma história real, este filme fala de dois de vários tipos possíveis de conversão.

Na verdade, e acredito muito nisso, cada um tem o seu processo de busca por respostas e de contato com Deus. Cada um encontra o Cristo de verdade e se converte em seu momento, com a sua maturidade na fé. E há pessoas, claro, que tem outros tipos de fé ou de crenças que podem não passar pelo entendimento de Deus ou de Cristo. E estas pessoas, como todas as demais, devem ser respeitadas e se sentirem acolhidas. Pessoalmente, eu nunca tinha visto a um filme com esta proposta.

O roteiro de Brian Bird, baseado no livro de Lee Strobel, fala de pessoas comuns. E isso ajuda muito nesta história. Conseguimos nos identificar com os personagens que vemos em cena – especialmente se nos lembramos do contexto da produção. Ou seja, estamos vendo a um casal e as suas relações em uma Chicago de 1980. Os personagens fazem sentido, naquele contexto, e quem conhece o ambiente do jornalismo, também consegue se “transportar” um pouco no passado e ver legitimidade na figura do protagonista.

Esses elementos dão peso para o filme. E é tocante ver a trajetória tão diferente de entrega e de busca por respostas e pela própria fé feita pelo casal de protagonistas. Eles são as estrelas da produção. (SPOILER – não leia se você não tiver assistido ao filme). Leslie parece já tentada a “se entregar” e tem uma experiência incrível de encontro com Deus e com a palavra Dele logo que conhece a enfermeira Alfie Davis (L. Scott Caldwell), que salva a filha dela de um engasgamento no restaurante. Grávida e mulher – ou seja, normalmente mais sensível que a maioria dos homens -, Leslie está mais propensa a questionar a própria falta de fé e a pensar que sim, podem existir outras respostas para o que ela não conhece.

Ela vai se entregando de uma forma relativamente fácil para a conversão. A Bíblia, para ela, faz todo o sentido. Diferente do que muitos podem imaginar, de fato o cristianismo, quanto mais você procura saber sobre ele, mais ele faz sentido. A Bíblia não é um texto que ficou parado no tempo, mas é a Palavra viva, e quem realmente tem fé e se converte percebe isso. Leslie acaba, assim, deixando para a trás a sua “vida antiga” e mudando definitivamente – como acontece com quem realmente se converte.

No início, ela esconde um pouco o que está acontecendo com ela. Mas isso não dura muito tempo. Quando, finalmente, ela conta para Lee o que está acontecendo, o marido não aceita isso bem. Nada bem, na verdade. Ele passa a estranhar a própria mulher e começa a questionar o próprio casamento. E o porquê disso? Basicamente porque ele está convicto de estar cheio da razão, de estar muito certo de tudo. Ele é um ateu convicto e não deixa margem para a realidade ser diferente do que ele imagina como certo.

Como jornalista, que precisa “comprovar” tudo para poder acreditar, que tem a necessidade de encontrar “a verdade” dos fatos, Lee está cheio de certezas e não consegue entender que a mulher possa “virar a casaca” e começar a ter fé. Eles são ateus e ele quer que eles continuem assim. Esse é um ponto interessante do filme, porque ela acaba tocando em algo que todos os casais vivem: as pessoas mudam com o tempo, evoluem, deixam de acreditar ou de gostar de certas coisas e passam a acreditar e gostar de outras que não gostavam/acreditavam no princípio.

Tem pessoas que têm a sabedoria de entender que é assim mesmo, e que faz parte do casamento reconstruir relações, criar pontes e voltar a dialogar com a pessoa “diferente” com que você está casado. Porque todos mudam, todos evoluem. Mas tem pessoas que não conseguem aceitar determinadas mudanças e evoluções, e isso acaba com muitas uniões e casamentos – muitas vezes porque, como o filme mostra, pessoas como Lee se sentem “traídas” pela mudança da pessoa amada.

Cheio de “lógica” e de uma busca “racional” pela “verdade” e por respostas, Lee acaba, sozinho, empreendendo a sua própria busca por uma reportagem que vai “desmascarar” a “mentira” do cristianismo. Essa é a parte interessante deste filme. Lee procura diferentes especialistas, ateus, cristãos e de outras fés, para ajudar a lhe contar a história de Cristo e, em especial, do ponto central do cristianismo: a ressurreição do Filho de Deus. Ele tem razão neste ponto. O cristianismo não existiria se Cristo tivesse morrido na cruz e não tivesse ressuscitado.

Então o que ele quer comprovar é isso, que a ressurreição não aconteceu. Para quem gosta de filmes sobre investigação e jornalismo, esta produção romantiza um pouco o processo mas, se levarmos em conta que estamos nos anos 1980, antes da internet e das entrevistas feitas por Skype e afins, The Case for Christ mostra bem como um jornalista investigativo trabalhava na época. É algo interessante. E não deixa de ser provocativo e inusitado um jornalista se lançar em uma “cruzada” contra a fé cristã. Achei interessante.

Agora, à parte da fé e do quanto pode ser tocante para um cristão assistir a histórias de conversão tão diferentes e reveladoras, The Case for Christ é um filme mediano. E por que eu falo isso? Porque a produção, de fato, pouco surpreende. Desde o início do filme e da primeira discussão entre Lee e Leslie, já sabemos por onde a história vai caminhar. (SPOILER – não leia… bem, você já sabe). Não é difícil adivinhar que Lee fará a sua “cruzada” particular e que, no final, ele vai acabar se convertendo. Então aquela parte do roteiro que mostra os conflitos do casal Strobel acaba tendo pouco efeito – sim, nos compadecemos de Leslie mas, no fim das contas, sabemos que o casal terá um final feliz.

Então as pequenas “surpresas” e momentos de tensão do filme acabam tendo pouco efeito. Já conseguimos ver o final com bastante antecedência. Olhando para esta produção apenas como uma obra de cinema, ela acaba não sendo tão impactante ou eficaz como poderia. Os atores são bons, mas algumas partes do roteiro parecem um tanto forçadas – como o isolamento de Lee como “resposta” para a fé da esposa. Apesar de não ser surpreendente, esta produção tem uma boa direção de Jon Gunn, que coloca a câmera sempre próxima dos atores.

Os personagens centrais fazem um bom trabalho, com destaque para Erika Christensen – que acaba brilhando mais até que Mike Vogel. Mas eles fazem uma boa dupla. Se, por um lado, o filme tem um desfecho meio “óbvio” e apresenta vários clichês sobre o jornalismo, por outro ele se mostra interessante pela “humanidade” do casal de protagonistas e pelas respostas que Lee vai encontrando pelo caminho.

Muitos cristãos desconhecem os fatos “científicos” que são relatados na produção. E é bacana a forma com que a investigação de Lee vai nos apresentando os diferentes pontos de vista e áreas do conhecimento que já trataram e/ou se debruçaram na ressurreição de Cristo. Particularmente, o filme só reforça algo em que eu já acreditava: o conhecimento e a ciência não negam a fé. Muito pelo contrário.

Quanto mais você se aprofunda, estuda e conhece o cristianismo, mais ele faz sentido. Mas, ainda assim, no fim das contas, a fé é sim uma decisão. Você pode abraçá-la ou negá-la. E mais importante do que essa decisão, que é muito particular, é o que você faz no seu dia a dia. Não adianta ter fé e negá-la com os seus atos. O testemunho de alguém, a forma com que ele(a) age, como trata as pessoas e todas as formas de vida ao seu redor, é o que importa acima de tudo.

Então sim, nesta crítica eu falei de fé, de religião, mas também falei de cinema. Assim como eu falo sobre outros temas quando eles são o foco de produções que vou comentando por aqui – quem acompanha este blog sabe que trata muito sobre psicologia, comportamento humano e afins. Afinal, sobre muito disso tudo que o cinema trata. Então me perdoem os que não gostam de falar de religião, mas em um filme como este, é impossível não tratar a respeito. Espero que vocês me entendam. E sim, eu respeito a todos, inclusive a quem pensa diferente de mim. 😉 Como sempre, sintam-se à vontade para discordar. 🙂

NOTA: 8.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Depois de assistir a The Case for Christ, foi inevitável, para mim, não buscar mais sobre Lee Strobel. Foi aí que eu fiquei sabendo que este jornalista se transformou em um profícuo autor de livros que tratam sobre Deus, fé e o cristianismo. Segundo o site de Strobel, ele tem 12 livros – sendo apenas um deles escrito em parceria com outro autor. Interessante como ele realmente mudou a sua vida a partir da conversão da esposa e da própria conversão. Vale dar uma olhada no site dele.

Não li o livro homônimo que deu origem a esta produção, mas imagino que o roteiro de Brian Bird seja bem fiel à obra de Strobel. Ainda assim, senti falta do filme se aprofundar mais na investigação do jornalista, dando mais espaço para as argumentações dos diferentes cientistas e especialistas. Dá para entender o esforço de Bird de equilibrar a questão pessoal dos Strobel, a família, que era um elemento muito importante e fundamental para a história, com a procura por “provas” do jornalista. Mas, ainda assim, eu teria achado mais interessante o filme explorar mais o que ele encontrou em suas buscas.

Como comentei antes, boa parte desta história está centrada em dois personagens: Leslie e Lee Strobel. Consequentemente, os atores que interpretam eles é que têm destaque na produção. Os dois fazem um bom papel, mas, repetindo o que eu já falei, considero que Erika Christensen tem uma entrega mais sensível e convincente que o seu par Mike Vogel. Mas ambos estão bem. Além deles, vale citar o bom trabalho de L. Scott Caldwell como Alfie Davis, a mulher que desperta a mudança em Leslie; Faye Dunaway em uma ponta como a Dra. Roberta Waters, uma das especialistas procuradas por Lee; Frankie Faison como Joe Dubois, chefe da redação onde Lee trabalha; Robert Forster em uma ponta como Walt Strobel, pai do protagonista; Brett Rice como Ray Nelson, espécie de “conselheiro” de Lee; Rus Blackwell como Dr. William Craig, outro especialista entrevistado por Lee; Matthew Brenher como Dr. Phillip Singer, idem o anterior; Tom Nowicki como Dr. Alexander Metherell, idem o anterior; Kevin Sizemore como Dr. Gary Habermas, idem o anterior; Cindy Hogan como Lorena Strobel, mãe de Lee; Mike Pniewski como Kenny London, jornalista colega de Redação de Lee; e Miguel Pérez como o Frei Jose Maria Marquez, outro nome consultado por Lee para a sua reportagem/livro.

Nada de muito destaque entre os elementos técnicos do filme. Achei a direção de Jon Gunn boa, mas nada além da média. Ele acerta ao deixar a câmera perto dos protagonistas, explorando as “emoções” dos personagens, mas o roteiro de Brian Bird e algumas escolhas do diretor, como o quadro de “provas” que Lee apresenta para estruturar a sua reportagem, acabam lançando o filme em um lugar-comum que é um tanto desnecessário. O roteiro busca aquele equilíbrio que eu comentei antes, mas poderia ter explorado mais os especialistas consultados pelo protagonista. Afinal, este é um diferencial da produção – e nem tanto a questão familiar/pessoal dos Strobel que, de uma forma ou outra, já vimos antes.

Ainda que nenhuma característica técnica seja realmente de destaque, vale comentar os responsáveis pelos principais aspectos desta produção: Brian Shanley assina a direção de fotografia; Will Musser assina a trilha sonora; Vance Null, a edição; Mitchell Crisp, o design de produção; Natalie Rhooms, a decoração de set; e Dana Konick, os figurinos.

The Case for Christ estreou no dia 7 de abril no Canadá, nas Filipinas e nos Estados Unidos. A produção não participou de nenhum festival e também, até o momento, não ganhou nenhum prêmio – o que se entende, porque não é muito o perfil do filme.

Esta produção teria custado US$ 3 milhões e faturado, apenas nos Estados Unidos, quase US$ 14,7 milhões. Nos outros mercados em que o filme estreou ele fez outros US$ 2 milhões. Ou seja, está lucrando bem.

The Case for Christ foi rodado em Chicago, como a produção mesmo sugere, e em outras três cidades do Estado da Georgia: Covington, Madison e Atlanta. Além de ser todo rodado nos Estados Unidos, este filme é uma produção 100% americana – e, por isso, atende a uma votação feita há algum tempo aqui no blog em que vocês pediam críticas de filmes deste país.

Agora, algumas curiosidades sobre esta produção e seus personagens. Lee Strobel foi um editor premiado da editoria legal do The Chicago Tribune. Ele fez a faculdade de Jornalismo na Universidade do Missouri e um mestrado em Direito na Yale Law School.

O livro mais recente de Strobel, The Case for Grace, de 2016, ganhou como o Livro de Não-Ficção do Ano da EPCA. Strobel também é um convidado regular de canais de TV como ABC, Fox, Discovery, PBS e CNN.

Os usuários do site IMDb deram a nota 5,8 para esta produção, enquanto que os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 12 críticas positivas e 10 negativas para o filme – o que garante para ele aprovação de 55% e uma nota média de 5,6. Realmente os dois níveis de avaliação foram baixos, como vocês viram. Isso se explica, imagino, porque o filme é, realmente, mediano. Do estilo “Sessão da Tarde”. E também porque ele é claramente religioso – e isso, nem sempre, agrada ao grande público ou aos críticos. Faz parte.

CONCLUSÃO: Este é um filme com um propósito. E ele cumpre este propósito com competência. À parte disso, podemos dizer que se trata de um grande filme? Não, não é para tanto. The Case for Christ é um filme interessante, com uma história pouco conhecida, mas com uma compreensão e “simpatia” muito particulares. Literalmente ele vai agradar a gregos, mas não a troianos. Isso não é um problema para um filme. Especialmente se ele tem como bandeira a conversão de quem ainda não acredita e/ou tem fé. Como cinema, ele é apenas uma história a mais, com um roteiro previsível. Como testemunho de fé, The Case for Christ é potente. Vale para quem achará um sentido nesta história – para os demais, é bom evitar.

Atomic Blonde – Atômica

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Jogos e intrigas de espionagem e contraespionagem. Já vimos um bocado disso no cinema. Mas da forma com que isso é apresentado em Atomic Blonde… nunca! Este é um filme com uma pegada intensa, com muitas cenas de violência e de pancadaria e um arcabouço interessante de qualidades. Para começar, uma ótima direção. Depois, uma trilha sonora das melhores que eu já escutei em um filme e um elenco bastante interessante. Destaque, evidentemente, para a estrela Charlize Theron. Com Atomic Blonde ela se credenciou para seguir em uma trajetória de filmes de ação e de mulheres no comando, sem dúvidas. Belo filme.

A HISTÓRIA: Em uma gravação, o presidente dos Estados Unidos Ronald Reagan afirma que o Oriente e o Ocidente desconfiam um do outro. Na sequência, ele pede para que o Muro de Berlim seja derrubado. De fato, o Muro cairia em novembro de 1989. Mas este filme conta uma outra história. Relacionada sim com a guerra fria e com a disputa entre Estados Unidos, Inglaterra e Rússia, mas que corre por trás da “Cortina de Ferro”. Um homem corre desesperado por ruas e vielas. Quando ele acha que está livre, ele é violentamente atropelado. Mais de uma vez. James Gasciogne (Sam Hargrave) encara o inimigo, o russo Yuri Bakhtin (Jóhannes Haukur Jóhannesson), antes de levar o tiro fatal. O relógio que o russo pega do espião inglês passa a mover as ações que esta narrativa nos conta.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Atomic Blonde): Como é bom, de tempos em tempos, assistir a um filme com “pegada”, não é mesmo? Atomic Blonde tem muito disso. Começando pela direção de David Leitch. Esse dublê, que entende muito bem sobre as técnicas da pancadaria, e que tem um trabalho um pouco mais longo – 19 títulos – como ator, realmente está estreando na direção com este filme.

Antes, Leitch havia ajudado na direção de John Wick, mas sem que o seu nome fosse creditado, e dirigido o curta Deadpool: No Good Deed. E isso foi tudo. A direção para valer de um longa veio com este Atomic Blonde. Para mim, Leitch está mais que credenciado como diretor, especialmente de filmes de ação. Ele sabe tirar o melhor de cada cena e, principalmente, valorizar e apresentar algo fresco nas intermináveis e viscerais cenas de luta.

Diversas sequências deste tipo impressionam neste filme. Mas destaco, em especial, a sequência em que a protagonista Lorraine Broughton (Charlize Theron) encara um bando de policiais no apartamento que era de James Gasciogne, e as cenas em que ela enfrenta um bando de russos em uma missão quase suicida para proteger Spyglass (Eddie Marsan). Nós já vimos a muitas cenas de pancadaria e de luta no cinema, mas como estas sequências… é coisa rara. O experiente dublê David Leitch, agora na direção, consegue nos apresentar sequências realmente inesquecíveis. E isso não é algo simples ou fácil de se ver.

Esta é uma das grandes qualidades do filme. A direção de David Leitch e as sequências de ação que ele nos apresenta. Realmente são cenas estonteantes e que impressionam. A segunda grande qualidade de Atomic Blonde é a atriz Charlize Theron. Maravilhosa, ela está conseguindo se reinventar a cada papel, praticamente. E aqui, novamente, ela mostra porque é um dos grandes nomes da sua geração. Charlize Theron tem um desempenho impecável e irretocável. Ela apanha bastante, mas também consegue ser a “loira fatal” que um filme como este se propõe a apresentar.

Não importa se ela está em uma cena quente, falando francamente em um interrogatório ou sozinha em uma banheira cheia de gelo. Cada vez que ela aparece em cena ela nos convence de seu personagem e de seu papel. Ela está estonteante, mesmo cheia de hematomas. Enfim, mais um grande desempenho desta atriz – que, se o Oscar não fosse ainda tão careta, mereceria uma indicação por causa de Atomic Blonde. Também ajuda muito na valorização da personagem como a “femme fatale” clássica dos filmes de espionagem a direção de Leitch e os figurinos maravilhosos de Cindy Evans.

Uma outra qualidade marcante desta produção e que arrebatou o meu coração foi a trilha sonora cheia de rock e de intensidade. A trilha sonora desta produção, pipocada aqui e ali, é de Tyler Bates. Mas o que realmente aquece a alma de alguém que gosta de rock como eu é a seleção musical que contempla, entre outros, New Order, David Bowie, Public Enemy, George Michael, After the Fire, The Clash, Siouxsie and the Banshees, Depeche Mode, Queen e David Bowie, entre outros – a lista completa da trilha sonora vocês podem encontrar por aqui.

Outra qualidade importante do filme é que ele tem um bom ritmo e uma ótima pegada. Em poucos momentos temos uma “baixa” na adrenalina. Ainda assim, devo comentar, esta produção acaba sendo um tanto “repetitiva”. Afinal, nós temos uma premissa que fica clara logo no início: um espião russo conseguiu, matando um espião inglês, um relógio em que estão listados todos os espiões ingleses e americanos na ativa. Essas informações sigilosas, se caírem nas mãos erradas, colocam em risco toda a espionagem destas grandes potências.

Conhecida por suas habilidades apuradas, a espiã inglesa Lorraine Broughton é convocada para recuperar esta lista e, se possível, identificar o agente duplo que está criando muitas dores de cabeça para os ingleses ao trabalhar na surdina para os russos. O roteiro de Kurt Johnstad, baseado nos quadrinhos The Coldest City da dupla Antony Johnston e Sam Hart, é envolvente, mas acaba não conseguindo evitar um certo desenvolvimento previsível para a história. Verdade que a direção visceral e atenta aos detalhes de David Leitch consegue dar um ritmo veloz para a produção de tal maneira que quase não conseguimos parar para pensar nisso, em como a história vai por caminhos previsíveis.

Ainda que boa parte do roteiro já é esperado – como aquele velho jogo de “gato e rato” entre Lorraine, o espião inglês David Percival (James McAvoy) e os russos -, as reviravoltas que a história dá, especialmente na reta final, é o que torna o filme realmente interessante. Digamos que o final, que muitas vezes atrapalha algumas produções, no caso de Atomic Blonde, redime o filme de suas partes mais “previsíveis”. (SPOILER – não leia os próximos parágrafos se você ainda não assistiu ao filme).

Sim, é verdade que era um bocado previsível aquela permanente desconfiança entre os diferentes espiões que aparecem em cena. Os russos, claro, eram sempre os “inimigos” em comum. Depois, tínhamos três espiões que ficavam, aparentemente, o tempo todo se “medindo” e desconfiados uns com os outros: Lorraine, David e a francesa Delphine Lasalle (Sofia Boutella). Mas, especialmente para o que interessava nesta história, que era descobrir o “agente duplo”, era um tanto óbvio que esta descoberta estaria entre Lorraine ou David – ou, para não ir muito longe, e ainda ser plausível, alguns dos “figurões” da espionagem inglesa ou americana, como era o caso de Emmett Kurzfeld (John Goodman), Eric Gray (Toby Jones), os dois que interrogam Lorraine sobre o que aconteceu em Berlim, e o Chefe C (James Faulkner), que acompanha tudo por perto.

O interessante do roteiro é que a desconfiança sobre se Lorraine e David eram o agente duplo, permanece quase até o final. Ficamos com a “pulga atrás da orelha” também porque, segundo o que o roteiro de Johnstad sugere, grande parte do filme é narrado por Lorraine. Como ela está sendo interrogada após os fatos de Berlim e ficamos sabendo do que aconteceu lá a partir do depoimento dela, parte do que vemos poderia ser mentira, certo? Mas não. O filme não chega a este requinte.

Ainda assim, é interessante o “twist” final. Aparentemente Lorraine mente para Emmett, Eric e C dizendo que o agente duplo era David quando, na verdade, ela era esse agente duplo. Bem na reta final, quando ela se encontra com o chefão russo, Aleksander Bremovych (Roland Moller), parece que temos a confirmação de tudo isso. Mas aí ele decide matá-la, e descobrimos que David encontrou no tal relógio a informação que Lorraine não era uma agente dupla, mas tripla. 😉 Assumindo uma identidade inglesa, ela fornecia (e colhia) informações estratégicas para os russos mas, no fim das contas, trabalhava mesmo para os americanos. Essa reviravolta final foi especialmente bacana.

Por um bom tempo eu fiquei tentada a dar uma nota 10 para este filme. Mas aí fiquei analisando um pouco melhor, e achei alguns pequenos defeitos na produção – nada que lhe tire os méritos, mas algo que talvez me impeça de dar um 10 para ela. Além do filme ficar um pouco arrastado e previsível naquele jogo de gato-e-rato de Lorraine com David, achei que o roteiro perdeu a chance de tornar o mistério mais interessante ao focar em poucos personagens. Também não vi muito sentido em ter ficado em Berlim apenas um espião do lado ocidental importante – David. Não parece muito lógico isso – especialmente porque a cidade estava apinhada de russos ainda.

Além disso, acho que a personagem de Delphine foi um tanto desnecessária naquele contexto. Verdade que a atriz é boa e ela dá uma “apimentada” na estadia de Lorraine em Berlim, mas para a história ela pouco serve de ponto de intriga ou de dúvida sobre “quem é o agente duplo”. Lembrando que o agente duplo era inglês – e ela, francesa. Então sim, acho que faltou incluir mais um ou dois espiões franceses e/ou americanos na história para que o roteiro ficasse melhor e para que tivéssemos mais dúvidas do que iria acontecer.

Mas fora isso, este filme é perfeito em seu estilo e na forma com que a história se desenrola. As cenas de ação, de luta e de perseguição são impecáveis, uma verdadeira aula de direção, de interpretação e de edição. Um filme envolvente, com uma trilha sonora magnífica e com bastante pegada e adrenalina. Apenas para o roteiro faltou pouco para ser perfeito. Mas nada que estrague a experiência e o prazer de ver uma Charlize Theron arrasadora.

NOTA: 9,8.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Charlize Theron combina, definitivamente, com o papel de estrela de filmes de ação. A atriz tem talento, já demonstrado em filme com diversos perfis, mas tem fibra, carisma e entrega suficiente para estrelar, especificamente, filmes como Atomic Blonde. Gostei muito do papel dela e acredito que, pelo estilo do filme, poderemos ter alguma continuação no futuro. Seria interessante.

Ainda que eu tenha um ou dois poréns com o roteiro deste filme – como já comentei antes -, acho que a história acerta ao se ambientar nos bastidores de um acontecimento histórico importante, como foi a Queda do Muro do Berlim. Apesar de bem documentado, aquele fato realmente dá margem para alguns filmes como este, que tem um certo tom de “teoria da conspiração”. 😉

Atomic Blonde estreou em março de 2017 no Festival de Cinema South by Southwest. Depois, o filme participou do Festival Internacional de Cinema Fantasia, no Canadá, em julho; e no Festival de Cinema de Locarno, na Suíça, em agosto.

Em sua trajetória, o filme ganhou três prêmios e foi indicado a outros quatro. Os prêmios que ele recebeu foram todos entregues pelo Golden Trailer Awards: Best Summer 2017 Blockbuster, Best Motion/Title Graphics e Melhor Edição de Som.

Atomic Blonde teria custado US$ 30 milhões e faturado, apenas nos Estados Unidos, pouco mais de US$ 51 milhões. Nos outros mercados em que o filme já estreou ele fez outros US$ 43 milhões. Ou seja, no total, pouco mais de US$ 94 milhões – está no lucro, pois. Merecido!

Agora, aquelas curiosidades bacanas sobre o filme. Durante as filmagens de Atomic Blonde a atriz Charlize Theron rachou dois dentes. Para fazer o papel da protagonista, Theron contou com oito treinadores que a ajudaram a dar conta do recado de um papel tão vigoroso e com desempenho físico tão intenso.

Antes das filmagens desta produção começarem, o ator James McAvoy quebrou a mão no set de Split (comentado por aqui). Daí que ele teve que aguentar todas as cenas de ação de Atomic Blonde com a mão ferida.

Ainda que a cena de luta no apartamento de Gasciogne parece ter sido toda rodada na sequência, sem interrupção – a cena inteira dura 10 minutos -, na verdade aquela sequência é fruto de uma edição perfeita de quase 40 filmagens que foram feitas separadamente. A maior parte do trabalho, e não apenas nesta sequência, teve que contar com o apoio de efeitos especiais para “preencher” pequenos furos nas sequências.

Interessante que a atriz Charlize Theron, além de estrela desta produção, é uma das produtoras do filme. Segundo as notas sobre a produção, a atriz passou mais de cinco anos trabalhando para fazer este projeto sair do papel. Bacana!

Entre os atores desta produção, o destaque é realmente Charlize Theron. Ela está perfeita em um papel difícil – tanto pelo vigor físico e pelas ótimas cenas de ação quanto por todas a sequências em que os detalhes do gestual e da sua expressão são determinantes. Além dela, vale destacar o bom trabalho de alguns coadjuvantes, como Eddie Marsan como Spyglass; John Goodman como Emmett Kurzfeld; Toby Jones como Eric Gray; Roland Moller como Aleksander Bremovych; Bill Skarsgard como Merkel, alemão que ajuda a protagonista em momentos decisivos; e Til Schweiger em uma ponta interessante como o relojoeiro onde fatos cruciais aconteceram.

Outro nome importante da produção, James McAvoy está bem, mas nada além do já esperado do ator. Também valem ser citados, por fazerem um bom trabalho, mas nada perto de ser um grande destaque, os atores James Faulkner como C; Sofia Boutella como Delphine Lasalle; Sam Hargrave em uma micro ponta como James Gasciogne; e Jóhannes Haukur Jóhannesson também em uma micro ponta como Yuri Bakhtin.

Entre os aspectos técnicos do filme, sem dúvida alguma os elogios principais vão para a direção de David Leitch. Ele fez um trabalho excelente, especialmente nas cenas de ação – em outras partes, ele não se mostra tão original mas, ainda assim, sabe “beber” das melhores fontes. Então ele está de parabéns. Além dele, vale destacar a ótima direção de fotografia de Jonathan Sela; a maravilhosa e marcante trilha sonora de Tyler Bates; a edição muito difícil, cuidadosa e exemplar de Elísabet Ronaldsdóttir; o trabalho excelente do departamento de maquiagem com 11 profissionais; o competente efeitos especiais com 14 profissionais; e os efeitos visuais fundamentais que movimentaram 74 profissionais.

Além de tudo isso, vale citar o design de produção de David Scheunemann; a direção de arte de Zsuzsa Kismarty-Lechner, de Tibor Lázár e de Wolfgang Metschan; a decoração de set de Zsuzsa Mihalek e de Mark Rosinski; e os figurinos maravilhosos e já citados antes de Cindy Evans.

Para quem gosta de saber onde os filmes foram rodados, Atomic Blonde teve cenas gravadas na cidade de Budapeste, na Hungria; em Berlim, na Alemanha; em Londres, no Reino Unido; e no Studio Babelsberg, na cidade de Potsdam, na Alemanha. Entre os pontos turísticos de Berlim que aparecem na produção estão o Gedächtniskirche e a Breitscheidplatz.

Os usuários do site IMDb deram a nota 7,1 para esta produção, enquanto que os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 180 críticas positivas e 61 negativas para esta produção, o que lhe garante uma aprovação de 75% e uma nota média de 6,4. Bem, como vocês viram, eu gostei mais do filme do que esta maioria. 😉

Este filme é uma coprodução da Alemanha, da Suécia e dos Estados Unidos. Como algumas votações feitas aqui no blog há tempos pediram filmes da Alemanha e dos Estados Unidos, esta crítica acaba fazendo parte da lista de filmes que atendem a pedidos aqui no blog. Fica o registro, pois.

CONCLUSÃO: Honestamente? Achei este um dos melhores filmes de espionagem de todos os tempos. Pode parecer exagero, mas eu colocaria ele no Top 10 do gênero. Com uma direção muito bem feita, com uma protagonista com desempenho impecável, recheado de muita ação, violência e uma boa carga de humor, embalado por uma trilha sonora impecável e maravilhosa, Atomic Blonde é um filme envolvente e interessante. Só não é perfeito por um ou dois detalhes do roteiro. A história também acaba “cansando” um pouco por ser um tanto “repetitiva” e rasa, mas as reviravoltas do roteiro compensam um pouco estas pequenas falhas. Se você gosta de filmes de espionagem e não se importa (ou até gosta) de pancaria, este é o seu filme.

L’ombre Des Femmes – In The Shadow of Women – À Sombra de Uma Mulher

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Tem filmes que você assiste com um certo sorriso no canto da boca. No final, você fica um tempo pensando se gostou ou não do que viu. Geralmente estas produções tratam de forma sincera questões com as quais você já se deparou. Este é bem o caso de L’ombre Des Femmes. Esta produção francesa é interessante no estilo/forma por ser curta e em preto e branco. Mas a história… nos faz pensar em pessoas que conhecemos ou que já passaram por nossa vida e também nos faz refletir sobre os nossos modelos de sociedade. É um filme “singelo”, entre aspas. Ele não nos apresenta, realmente, nenhuma grande ideia nova. Mas nos faz pensar além do gostaríamos, muitas vezes.

A HISTÓRIA: Pierre (Stanislas Merhar) olha para um papel. Em seguida, olha ao redor e como um pedaço de um baguete. Ele segue olhando para aquele papel, como se estivesse decorando o que está vendo. Corta. Em casa, Manon (Clotilde Courau) seca os cabelos. Alguém toca a campainha e abre a porta. Manon acredita que seja Pierre. Mas não. Caminha pelo apartamento o proprietário do local (Claude Desmecht), que questiona a inquilina em diversos pontos, inclusive lhe cobrando o aluguel que Manon está devendo. Pierre a consola, e diz para ela parar de chorar. Na sequência, o narrador nos conta um pouco da história deste casal.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes deste filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a L’ombre Des Femmes): Cada vez mais eu gosto de filmes curtos. Quando vi que esta produção teria pouco mais de uma hora de duração, achei perfeito. Essa talvez seja uma influência das séries que eu ando assistindo – e há vários anos. Tenho achado, com bastante frequência, que uma boa história não precisa de mais de duas horas para ser contada. Muitas, aliás, podem ter 1h30 ou menos. Este é o caso deste L’ombre Des Femmes.

O diretor Philippe Garrel, que escreveu o roteiro junto com Jean-Claude Carrière, Caroline Deruas-Garrel e Arlette Langmann, resolveu grande parte da “enrolação” que a trama poderia ter utilizando um narrador para nos apresentar aspectos da história. Essa decisão funcionou muito bem. Desta forma, temos um filme ágil e que vai direto ao ponto. O narrador nos ajuda a contextualizar os personagens centrais e a entendermos as suas relações melhor.

No fundo, L’ombre Des Femmes fala sobre casais e sobre a busca particular e individual pela própria felicidade e por sentido. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Olhando de maneira ligeira para esta produção, ela poderia ser resumida como a história de um sujeito que trai a mulher, sem culpa, porque acredita que é isso “o que os homens fazem”, mas que não aceita quando ele próprio é traído. Convenhamos, esta é a narrativa de boa parte das nossas sociedades machistas, onde os homens acreditam realmente que tem direitos acima das mulheres.

Garrel aborda estas questões de forma muito direta e franca. Ao mesmo tempo, acompanhamos os protagonistas nas suas buscas particulares por encontrar sentido para as suas existências. Manon faz isso dedicando o seu tempo e talento para o trabalho do marido. Ela ama ele e admira o que ele faz. Pierre, por sua vez, busca seguir fazendo documentários, mesmo que isso não lhes pague as contas. Ambos, no dia a dia, devem buscar saídas para a “vida ordinária” enquanto tentam fazer, em paralelo, o que eles acreditam.

Essa é a vida adulta, todos nós sabemos. Quem nunca teve que encarar afazeres no dia a dia que não lhe faziam muito sentido mas que precisavam ser feitos para que você conseguisse pagar as contas e sobreviver, apostando no dia em que aqueles “sacrifícios” lhe trariam a oportunidade de fazer o que realmente lhe importa? A diferença é que Pierre parece consumido pelo cotidiano. Ele vive espalhando papéis pelo bairro para conseguir um emprego, enquanto filma um documentário que é um projeto muito particular.

Em casa, ele parece morrer de tédio. Não consegue mais olhar para Manon como deveria. Este “tédio” todo faz com que ele se encante pela primeira mulher que lhe “dá mole”. Como muitos homens na vida real, Pierre acredita que está se eximindo de qualquer responsabilidade pelo simples fato que falou, logo de cara, para a amante, Elisabeth (Lena Paugam), que ele era casado. Ora, se ela sabe disso, não deve ter maiores esperanças em relação a ele ou expectativas, correto? Pierre é, me desculpem os sensíveis, o canalha clássico.

Ele considera mesmo que tem o direito de trair e de ficar com quem ele quiser, não importando que, com isso, ele está sendo desonesto com a mulher com quem ele divide um teto. O importante, para ele, é que ele tem uma amante à sua disposição que “sabe a verdade”. Elisabeth é vista como um objeto, um pedaço de carne que ele pode utilizar quando deseja. Em “retribuição”, ele ajuda ela aqui e ali com alguns afazeres domésticos e, claro, com toda a sua “masculinidade”.

Desta forma, Elisabeth deveria ser um robô ou alguém insensível como ele. Afinal, por saber que ele é casado, ela não deve nutrir realmente algum sentimento por Pierre. Mas as pessoas – especialmente as mulheres – são assim? Difícil, não? Como alguém se envolve com outra pessoa e acha que é possível desligar os sentimentos com um botão? Não tem lógica. Ao menos para as mulheres. Os homens, aparentemente, foram forjados para não sentir, não se envolver quando isso não lhes interessa. Para a maioria das mulheres, isso parece algo incrível, inalcançável.

Como esperado, Elisabeth não é um robô e nem uma pessoa que não alimenta o desejo (bastante irreal, devemos admitir) de ter Pierre para si. Ela não quer ser a amante, mas ser “promovida” a condição de companheira de Pierre. Claro, são erros comuns e um caminho bastante óbvio para um roteiro. L’ombre Des Femmes não é, realmente, inovador em sua história. O que chama a atenção no filme é a forma direta com que ele trata os personagens e a forma cuidadosa com que o diretor valoriza os atores em cena.

Elisabeth cai no lugar-comum de querer ficar com Pierre. (SPOILER – não leia… bem, você já sabe). Aos poucos, ela vai se tornando a mulher que procura conhecer a “rival” e que busca realmente minar a relação do amado com a sua mulher. Enquanto isso, Manon surpreende um pouco ao se jogar, ela mesma, em um romance fora do casamento (com o personagem interpretado por Mounir Margoum). Quando Elisabeth descobre isso, resolve que é por aí que ela vai conseguir o que quer – ficar com Pierre para si.

O problema é que Pierre traiu Manon não porque não a amava, mas porque ele próprio estava precisando se autoafirmar. Quantos homens não tem o sucesso que eles acham que deveriam ter e que, sem muita autoestima, resolvem trair para se sentirem “desejados” ou “poderosos”? Eles não param para pensar no que lhes faz sentido, no que eles realmente querem. Sem pensar, eles se abraçam no instinto mais “primitivo”, tentando preencher as suas carências pulando a cerca. Sentindo-se, assim, desejados e “valorizados”.

É nesta cilada e nesta ilusão que o nosso protagonista cai. Pierre satisfaz os seus desejos imediatos pulando a cerca, mas quando percebe que a mulher também está usufruindo deste prazer com um outro homem, ele não consegue olhar mais para ela da mesma forma. É o clássico comportamento machista predominante de “eu posso fazer, você não”. L’ombre Des Femmes revela, assim, uma incoerência nata desta sociedade que vê homens e mulheres de forma desigual. O diretor desta produção e os roteiristas apresentam isso de forma direta e muito franca.

Esta é a parte positiva do filme. A forma com que Garrel e a sua turma demonstram toda esta incoerência da sociedade e de parte das pessoas que fazem este entendimento persistir com o passar do tempo. Pierre não admite a traição de Manon e não consegue olhar mais para ela da mesma forma. Ele próprio acaba seguindo a mulher, a exemplo do que Elisabeth fez com ele. Mas e o lado de Manon? Ela mesma confronta ele, em um determinado momento, dizendo que não aguenta mais ser a “culpada” pela ruína do casamento quando ele também a traiu.

Agora, nem tudo são flores. (SPOILER – não leia… bem, você já sabe). Enquanto Manon tem a maturidade de seguir em frente, Pierre não consegue fazer o mesmo. Ele não lida nada bem com a traição e acaba radicalizando com o seu “orgulho” ferido de macho contrariado. Até aí, tudo normal, temos “a vida como ela é”, em muitos casos. Pierre acaba se desfazendo de Elisabeth e arruinando a relação com Mainon. O problema e um certo “gosto amargo” que esta produção deixa no final é quando Manon, após se separar de Pierre, resolve ceder novamente aos apelos dele.

Sim, acredito que o casal poderia ter amadurecido e chegado a conclusão que eles poderiam ser felizes novamente. O problema é a essência de Pierre. Será mesmo que ele conseguiria ser honesto com Manon novamente? Ele será capaz de deixar a sua ótica machista e de supremacia sobre ela de lado? Vai superar isso? Tenho sérias dúvidas. Quem tem uma visão romantizada das relações vai apostar nisso. Que Pierre aprendeu com os próprios erros e que realmente será capaz de ter uma relação madura com Manon. Eu, particularmente, duvido muito disso.

Então admito que me incomodou um pouco o fato de Manon não conseguir virar a página. Seguir a vida sozinha e/ou encontrando um novo amor, talvez alguém um pouco mais preparado para tratar uma mulher como ela merece. Agora, se Pierre amadureceu, acredito sim que ele e Manon podem voltar a ser felizes. Para isso, basta os dois se esforçarem, verdadeiramente, e serem sinceros consigo mesmos, em primeiro lugar, para logo conseguirem ser sinceros um com o outro. Não é fácil, mas acredito sim que é possível.

NOTA: 9.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Sim, eu sei. Ultimamente eu tenho dado muitos 9. 😉 Fico um bom tempo pensando sobre a nota que eu gostaria de dar para cada filme. E, muitas vezes, não consigo sair do bendito 9. Mais uma vez isso aconteceu. Não vejo a hora de encontrar algo para o qual eu queira dar o tão desejado 10. Que isso aconteça logo, pois! 😉

Este filme tem uma série de qualidades. Para começar, o roteiro direto e muito preciso de Philippe Garrel, Jean-Claude Carrière, Caroline Deruas-Garrel e Arlette Langmann. Eles não tem papas na língua e não escreve nada que realmente não precisa estar em cena. O filme é enxuto, direto, e o público agradece quando é assim.

O interessante do trabalho deste quarteto é que apesar do roteiro ser muito franco e direto, a história não corre com uma velocidade acima do indicado. Não. Nada disso. O diretor Philippe Garrel consegue valorizar os ótimos atores em cena e fazer com que as suas ações e reações tenham coerência. Com bastante facilidade o público consegue colocar-se no lugar deles ou, ao menos, pensar em alguém que se parece com os personagens. O uso do narrador para contextualizar a história, como comentei antes, ajuda a dar agilidade e flexibilidade para a trama. Elimina “enrolações” e permite que o roteiro foque nas relações que realmente interessam.

Por falar do elenco desta produção, L’ombre Des Femmes acerta ao apostar em um núcleo pequeno de personagens. Essencialmente, este é um filme sobre um casal e as suas relações próximas. Assim, brilham em cena a excelente Clotilde Courau e o interessante (ainda que nos desperte ojeriza) Stanislas Merhar. A atriz se destaca, especialmente, pelo carisma e pelas reações muitas vezes viscerais. Ele, por sua interpretação contida que, em certos momentos, chega quase a se assemelhar ao silêncio antes da explosão. Muito bom e complementar o trabalho dos dois.

Além dos protagonistas apresentarem uma grande sintonia em cena, vale também destacar alguns personagens coadjuvantes que fazem um bom trabalho. O destaque, entre os coadjuvantes, sem dúvida é de Lena Paugam, que interpreta Elisabeth. Mas vale citar também o trabalho de Vimala Pons como Lisa, amiga de Manon; Antoinette Moya como a mãe da protagonista; Jean Pommier como Henri, o “velho resistente” que vira o foco de um documentário de Pierre; Thérèse Quentin como a mulher de Henri; Mounir Margoum como o amante de Manon; Claude Desmecht como o proprietário do apartamento onde Manon mora; e Louis Garrel como o narrador.

Entre as qualidades técnicas do filme, sem dúvida alguma o destaque é a direção de fotografia de Renato Berta. Um trabalho impecável e muito, muito interessante e bonito. A fotografia é um dos pontos fortes desta produção. Também vale destacar a ótima edição de François Gédigier; os figurinos escolhidos à dedo por Justine Pearce; a trilha sonora clássica e bastante pontual de Jean-Louis Aubert; e o design de produção e a direção de arte de Emmanuel de Chauvigny.

Agora, algo temos que admitir. O final deste filme tem uma fina ironia. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Na igreja, Manon faz um paralelo entre o falso “resistente” Henri, que eles foram velar, e a história do próprio casal. O que Henri contava era uma mentira, e a busca do próprio casal por “felicidade” extra-conjugal também se mostrou uma mentira, como ela mesma comenta. Os dois acabaram sozinhos e infelizes. Neste ponto que ela percebe que talvez a história dos dois mereça uma nova oportunidade. Quem sabe, agora sem mentiras ou ilusões, realmente eles possam dar certo? Algumas vezes as pessoas evoluem. Vamos acreditar que isso aconteceu com os dois – assim teríamos, de fato, um final feliz.

Ainda que todo o elenco seja competente, achei a atriz Clotilde Courau realmente deslumbrante. Ela é encantadora, tem carisma e, quando sorri, a tela parece se iluminar. Stanislas Merhar, que parece cheio de tédio durante o filme inteiro, finalmente sorri no final. Então sim, é um final feliz. Não sabemos o quanto ele vai durar, mas isso não o torna menos feliz. E sim, sorrir faz toda a diferença. Na vida e na arte. 😉

L’ombre Des Femmes estreou em maio de 2015 no Festival de Cinema de Cannes. Até agosto de 2016 esta produção passou por outros 14 festivais em diversos países. Nesta trajetória, o filme conquistou três prêmios e foi indicado a outros dois. Os prêmios que recebeu foram o de Melhor Filme no Athens Panorama of European Cinema, em 2015; o de Melhor Filme não lançado em 2015 no International Cinephile Society Awards de 2016; e o de Melhor Atriz para Clotilde Courau no Festival de Cinema Europeu de Sevilha.

Não encontrei informações sobre os custos desta produção. Apenas fiquei sabendo que L’ombre Des Femmes fez pouco mais de US$ 50 mil nas bilheterias dos Estados Unidos – a produção estreou, na verdade, em apenas dois cinemas. Algo insignificante, mas que também não nos dá uma ideia do desempenho da produção nos cinemas.

Para quem gosta de saber onde os filmes foram rodados, L’ombre Des Femmes foi totalmente filmado em Paris.

O diretor Philippe Garrel é um veterano do cinema francês. Ele começou a sua carreira por trás das câmeras em 1964 com o curta Les Enfants Désaccordés. O primeiro longa assinado por ele foi Anémone, de 1968. Diretor, roteirista, editor, ator e produtor, Garrel têm 11 prêmios na carreira. Por duas vezes ele foi premiado no Festival de Cinema de Cannes: em 1984, com Liberté, la Nuit; e em 2017 com L’amant d’un Jour. Entre os seus filmes, um dos mais premiados foi Les Amants Réguliers, estrelado por Louis Garrel, grande ator que é filho do diretor.

Outro destaque de L’ombre Des Femmes, a atriz Clotilde Courau também é uma veterana do cinema francês. Aos 48 anos de idade, ela têm 47 trabalhos como atriz. Em sua trajetória, Clotilde ganhou cinco prêmios. Além do já citado por L’ombre Des Femmes, ela foi premiada por Le Petit Criminel e com outros três prêmios por sua carreira.

L’ombre Des Femmes é uma coprodução da França com a Suíça.

Os usuários do site IMDb deram a nota 6,5 para esta produção, enquanto que os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 31 críticas positivas e apenas cinco negativas para o filme, o que lhe garante uma aprovação de 86% e uma nota média de 7,4.

Agora, falemos um pouquinho sobre o título desta produção. (SPOILER – não leia… bem, você já sabe). L’ombre Des Femmes quer dizer, literalmente, “À Sombra das Mulheres”. Um título interessante para esta produção… Especialmente se pensamos que o protagonista se acha realmente “predominante” por boa parte da história. Ainda que o roteiro diga, lá pelas tantas, que Manon parece viver à sombra de Pierre, o título e o final da narrativa dá a entender que era o inverso. E mais do que Pierre viver à sombra de Manon, ele vive à sombra do sexo feminino. Ou seja, tem os seus passos determinados pelas mulheres. Interessante. No fundo, o machista que “pega todas” não percebe o quanto o seu desejo é o que lhe domina – e não o inverso. Por isso acho que o título faz muito sentido.

Por outro lado, a tradução do título para o português me pareceu um tanto precipitada/equivocada. “À Sombra de Uma Mulher” modifica a interpretação comentada há pouco. Dá a entender que Pierre vive à sombra de Manon, mas não é assim. A interpretação do título original é mais ampla e mais interessante.

Uma outra curiosidade sobre o filme que me ocorreu agora. (SPOILER – não… bem, você já sabe). Não deixa de ser mais uma fina ironia o protagonista desta produção ser um diretor de documentários que não consegue enxergar na sua frente uma mentira. Ele não percebe que Henri está contando uma história mentirosa na mesma medida em que, na vida pessoal, não consegue ver que vive uma mentira dentro de casa. Irônico e interessante. Uma forma de nos mostrar como muitas vezes em “casa de ferreiro, espeto de pau”. 😉

CONCLUSÃO: Um filme sincero, destes que nos fazem pensar sobre crenças, comportamentos, amor, desejo, fidelidade, liberdade e escolhas. Pois sim. Como comentei lá no início, L’ombre Des Femmes é um filme singelo, sem um história complicada e que vai direto ao ponto. Apesar de ter uma história aparentemente bem simples, esta produção nos faz pensar sobre algumas certezas e práticas. De tão sincero, este filme surpreende. Passa rápido, mas nos deixa com uma vontade de “quero mais”. Ele segue na nossa mente um bom tempo depois de terminar. É interessante, vale ser conferido, ainda que não esteja na lista dos melhores do ano – mas isso pouco importa, não é mesmo?