Fail Safe – Código de Ataque (2000)

 

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Um projeto verdadeiramente interessante. Inicialmente, ele me lembrou uma peça de teatro. Mas depois, com o recurso de closes, especialmente, e de vários cenários sendo intercalados em sequência – o que possibilita os tradicionais cortes das produções cinematográficas -, Fail Safe se mostrou realmente um belo exemplar de cinema. Grande indicação do Giancarlo, leitor deste blog, há muito e muito tempo atrás. Este é o típico filme que, sem uma indicação, dificilmente o veria. E valeu muito a pena tê-lo assistido. Acho que um belo exemplar para eu começar a minha sequência de colocar as dicas dos leitores deste espaço em dia. 

A HISTÓRIA: O General Warren Black (Harvey Keitel) acorda cedo para um dia que ele sabe que será pesado, afinal, terá que enfrentar “grandes tubarões” em uma reunião no Pentágono. Paralela a essa reunião, o General Bogan (Brian Dennehy) apresenta para o congressista Raskob (Sam Elliot) como funciona a segurança aérea dos Estados Unidos diretamente na fronteira com o inimigo, a União Soviética. Tudo segue a normalidade até que uma falha no sistema aciona o código de ataque nuclear que leva a equipe liderada pelo Coronel Jack Grady (George Clooney) a se lançar contra Moscou. Entra em ação o presidente dos Estados Unidos (Richard Dreyfuss) que tenta de tudo para impedir uma guerra nulclear desastrosa para a Humanidade.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Fail Safe): Como eu dizia inicialmente, o começo de Fail Safe – a versão do ano 2000 e não a de 1964, atenção! – me lembrou uma peça de teatro. Harvey Keitel seguia os trejeitos de um ator que encena em tempo real e sem cortes para uma platéia. A justificativa é óbvia: Fail Safe é um filme e, ao mesmo tempo, quase uma peça teatral. Isso porque, como bem confirma Walter Cronkite no início do filme, se trata de um projeto ousado da rede de televisão CBS que transmitiu, ao vivo, a “encenação” deste filme – experiência única na história da emissora em 39 anos de existência.

A idéia não era exatamente original. Pelo menos na questão de filmagem. Alfred Hitchcock já havia ousado desta maneira antes com o filme Rope, que foi rodado em um único cenário e praticamente de forma contínua – praticamente porque, na verdade, o filme foi feito em tomadas de 10 minutos que, depois editadas, deram a impressão de serem uma única tomada sequencial. Mas a exibição de Fail Safe foi algo realmente inédito na TV. Até então, nunca se havia feito um “filme” de forma contínua e que fosse exibido ao vivo – algo comum e diferente eram os “teleteatros”, ou seja, encenações dramáticas exibidos ao vivo. Então, claro que se justifica aquela sensação de “estou vendo uma peça teatral?” que volta e meia sentimos com Fail Safe. Só que o interessante é que a direção competente de Stephen Frears consegue dar ritmo para o filme e nos fazer esquecer, volta e meia, que estamos vendo uma sequencia de filmagens sem interrupção. Um dos grandes trabalhos do diretor, sem dúvida.

Mas para mim o grande nome deste filme é o de Richard Dreyfuss. Há tempos eu não assistia a uma interpretação tão impactante deste ator. Ele e Harvey Keitel mostram que dominam a interpretação como poucos no ramo. Os demais atores, em geral, também estão bem – de George Clooney a Brian Dennehy, passando por Noah Wyle e Sam Elliott -, mas ninguém se destaca mais que Dreyfuss. Sua interpretação é digna de aplausos. 

Um filme interessante por sua dinâmica e pela história, é claro. Uma crítica feroz aos avanços da tecnologia como armas para a guerra. (SPOILER – não leia se não assistiu ao filme ainda). A decisão do presidente em explodir Nova York como maneira de “apaziguar” os ânimos do presidente russo para evitar uma guerra nuclear que praticamente dizimaria a Humanidade é de matar. Necessária, mas impactante. A verdade é que quando fica evidente que nenhuma manobra será capaz de impedir o desastre, o filme ganha em força e em crítica. A que ponto quase chegamos? É a pergunta que fica no ar. E como bem denuncia a produção no final, o risco de absurdos ainda existe – afinal, atualmente, nove países tem controle de bombas nucleares. 

Dispositivos de segurança são suscetíveis a defeitos e problemas, como denuncia a obra de Eugene Burdick e Harvey Wheeler. E vivemos cada vez mais afundados em uma era tecnológica – pouco questionada, diga-se. Então quanto tempo vai demorar para que um problema “técnico” nos coloque em um verdadeiro caos? Esta é uma resposta que ninguém parece ter, mas que não custa indagar. A verdade é que hoje, mais do que em 1964 ou no ano 2000, os questionamentos de Fail Safe são importantes. Ok, não estamos mais em uma Guerra Fria. Estados Unidos e União Soviética não ficam mais medindo quem tem o porrete maior. Mas onde existe dinheiro existe busca por poder, e onde existe esse tipo de busca há também perigo.

A qualidade de Fail Safe em sua época foi questionar o que era inquestionável: a corrida armamentista e a confiança de Estados Unidos e União Soviética na alta tecnologia para “mediar” decisões vitais para a Humanidade. Hoje esta obra serve como um alerta para a segunda questão, o uso massificado e poderoso da tecnologia no mundo moderno. 

NOTA: 9.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: O projeto filmado para a TV e transmitido ao vivo no ano 2000 é uma refilmagem do material que originou o elogiado filme homônimo dirigido por Sidney Lumet em 1964. No original, fazia parte do elenco Henry Fonda (como o Presidente), Walter Matthau (como o professor Groeteschele), Dan O’Herlihy (como o General Warren A. Black) e Frank Overton (como o General Bogan), entre outros. Filmado também em preto-e-branco, Fail Safe de 1964 tinha roteiro de Walter Bernstein, inspirado no livro dos escritores Eugene Burdick e Harvey Wheeler. Em sua época, o filme concorreu a três prêmios, um no BAFTA e dois no extinto Laurel Awards.

Além dos atores já citados, Fail Safe (2000) conta com a participação de Noah Wyle como Buck, o tradutor que acompanha as negociações entre os presidentes dos Estados Unidos e da União Soviética; James Cromwell como Gordon Knapp, o “tecnólogo” que explica como uma máquina pode ter causado todo aquele caos; John Diehl como o Coronel Cascio, que reluta em atender as ordens superiores para matar compatriotas seus; Hank Azaria como o Professor Groeteschele, um maluco que tenta vender a idéia no Pentágono de extermínio dos russos – depois de dizer que eles se “entregariam” por saber que os ianques eram superiores; Norman Lloyd como o Secretário de Defesa Swenson, que tenta ser o “equilibrado” na questão; Bill Smitrovich como o General Stark; Don Cheadle como Jimmy Pierce, o homem que “cavalga” para a morte junto com Grady, entre outros.

A versão de 2000 de Fail Safe conseguiu a nota 7,1 pelos usuários do site IMDb. Por seu lado, o site Rotten Tomatoes abriga apenas cinco críticas sobre o filme – todas positivas. Ou seja: Fail Safe, versão ano 2000, tem 100% de aprovação dos críticos. Para David Cornelius, do DVDTalk.com, este é um dos “projetos para a televisão mais notáveis” que ele tem registrado em sua “memória recente”.

Fail Safe, na versão para a televisão, ganhou três prêmios e foi indicado a outros seis – incluindo um Globo de Ouro. Entre os prêmios que ganhou estão dois Emmy’s para a equipe técnica e um Saturn Award pela Academia de Ficção Científica, Fantasia e Horror.

Fail Safe, dirigido por Stephen Frears, foi exibido ao vivo pela CBS no dia 9 de abril de 2000.

CONCLUSÃO: Um filme rodado ao vivo para a televisão que trata de um texto muito bem produzido sobre os absurdos que a disputa pelo poder entre nações podem provocar – assim como do tema da tecnologia como algo que pode causar danos irreversíveis. Bem dirigido e com atuações muito boas – e uma excepcional, a de Richard Dreyfuss -, é um filme que lembra um pouco a dinâmica do teatro mas que, ao mesmo tempo, consegue trabalhar com planos de câmera (especialmente o uso de closes) que caracterizam o cinema. Um belo exemplo de um ótimo filme produzido para a TV. Vale ser visto tanto pela experiência inovadora que ele significou no ano 2000 como pelo resultado em si.

SUGESTÃO DE LEITORES: Como eu disse lá no começo, este filme foi sugerido pelo leitor Giancarlo – que, aliás, anda bastante sumido, hein? Por onde andas?? Demorei um bocado para assistí-lo, primeiro porque quase não tinha tempo de ver a filmes, depois porque fazia críticas um pouco “encomendadas” para um site do qual participava como colaborada – por isso alguns filmes eram “datados” graças a lançamentos nas videolocadoras – e, depois, por causa do Oscar. Mas agora que estou “livre, leve e solta”, vou colocando em dia a lista de filmes indicados por vocês, meus bons leitores do blog. Muito obrigada, Giancarlo, porque sem a sua sugestão eu não teria descoberto este filme verdadeiramente interessante.

Die Welle – The Wave – A Onda

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Uma das perguntas sem resposta de The Reader pode ter a sua contestação em Die Welle: afinal, como foi possível a ditadura de Hitler? E mais: ela poderia se repetir hoje em dia? A juventude atual, especialmente na Alemanha, rechaça a idéia de virar uma “massa de manobras” de um ditador. Inicialmente muita gente pode não entender como isso foi possível, mas o bem acabado filme alemão Die Welle mostra que a manipulação de grupos não é nada assim tão complexo. Basta usar um conceito bem em voga ultimamente, da ação participativa, além de observar com atenção as demandas de uma massa descontente e desunida. Com um roteiro escrito com esmero e uma direção dentro da escola do “novo cinema alemão”, Die Welle é um destes bons exemplos de filmes que podem ser feitos sobre temas bastantes atuais e que se originam da Europa.

A HISTÓRIA: O professor Rainer Wenger (Jürgen Vogel) queria dar uma classe de anarquia para seus alunos do ensino médio, mas foi “obrigado” por um colega e pela diretora da escola a preparar aulas de autocracia. Inicialmente ele fica surpresa com a sala cheia – provavelmente boa parte dos alunos está mais interessado no professor “rock’n roll” do que no tema em si, já que a maioria nem sabe do que se trata autocracia -, com um número de alunos que só aumentaria graças a sua maneira “diferente” de lecionar. Impelido por um questionamento em sala de aula e pela vontade de mostrar trabalho para os demais colegas, Rainer começa um experimento em classe que vai mudar a vida de seus alunos e criar perplexidade na comunidade local.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Die Welle): A manipulação das massas ou, em outro grau, dos indivíduos, não é algo novo. Também não é uma prática que foi abolida com o fim dos sistemas totalitário. Parece um papo chato, mas a verdade é que diariamente várias fontes e correntes estão agindo para manipular você e eu. Seja para o consumo ou para apoiar uma forma de atuar – e condenar outras; ou para apoiar umas idéias em detrimento de outras. Não importa. Diariamente somos manipulados – ou estamos sujeitos a isso.

Mas uma coisa é ser manipulado para fazer algo “inofensivo”, como comprar um produto que você não tem nenhuma necessidade, outra é ser impelido a formar um grupo fechado que exclui tudo e todos que não estiverem de acordo com seus preceitos. Sobre isso e outras “coisitas” é que trata Die Welle. No melhor estilo de experimentação em sala de aula, Rainer Wenger quer demonstrar, durante a semana de aulas de seu curso de autocracia, como é possível o surgimento de movimentos ditatoriais. Impressionante como os jovens “avoados”, desunidos e individualistas aderem a um movimento que prima pela disciplina e pela padronização dos indivíduos.

Inicialmente o que era uma “brincadeira” ganha traços de seriedade e, como pode ocorrer em qualquer situação – com ou sem experimento em sala de aula -, sai do controle através de mãos de extremistas desequilibrados. Acredito que os jovens que o filme mostra começaram a aderir as propostas do professor um pouco por “coña”, ou seja, na brincadeira. Mas depois, ao sentirem suas opiniões sendo escutadas no conjunto de um processo de “construção” do grupo, assim como de se sentirem protegidos por pessoas daquela “irmandade”, cada aluno também se sentiu forte e valorizado – coisa que muitos deles não sabiam o que era, em uma comunidade competitiva onde interessa sua origem (classe social e raça) mais do que sua capacidade individual -, transformando aquela brincadeira em algo muito sério e real.

A situação saiu do controle e o professor, avesso ao que acontecia fora da sala de aula, não se deu conta disso até que fosse tarde demais. Claro que a ânsia dele em ser valorizado e levado a sério como professor – mesma angústia daqueles jovens desorientados – ajudou em sua cegueira. A verdade é que experimentos como esse deveriam ser muito melhor controlados – e, preferencialmente, explicados. Não adianta apenas experimentar, é preciso providenciar “legendas” sobre o que se está fazendo, deixando claro motivos e riscos. Do contrário, uma idéia legítima de “apropriação” do conhecimento pode se transformar em um palco para a exposição de patologias e/ou descontroles. Como no caso do que se vê em Die Welle.

O filme, dirigido com bastante ritmo e cuidado pelo jovem Dennis Gansel, trata de vários assuntos em paralelo. Ao mesmo tempo que fala sobre a manipulação das pessoas, trata da falta de sentido e de orientação na vida dos jovens – um tema atual há algumas décadas e que algumas vezes parece apenas ter piorado. Mas ele trata também da responsabilidade dos “mestres” e da busca por valores que sejam legítimos. Mas, mais que tudo isso, Die Welle trata da capacidade do ser humano em fazer absurdos quando pode se esconder “atrás do coletivo”. Brigas de torcidas de futebol, linchamentos públicos, entre outros exemplos nos mostram de tempos em tempos que este tipo de comportamento “animal” insiste em perdurar. Pessoas “esclarecidas” e letradas se comportam como bestas quando tem ao seu lado o apoio de pessoas igualmente “cheias de razão” (estou sendo irônica, claro).

E como é inevitável, o filme mostra que existem dois lados da moeda chamada “autocracia”. Se em uma face do experimento de Rainer Wenger vemos a jovens se sentindo “poderosos” enquanto grupo unido em uma mesma “ideologia”, de outro contemplamos a exclusão sumária de qualquer forma de pensamento contrário. Não existe espaço para dúvidas ou para idéias diferentes daquela que a gestão autoritária do grupo dominante prega. Isso pode ser visto em sistemas autocratas mais óbvios, como o de uma ditadura, e até mesmo em formas “prioritárias” de pensamento em sociedades democráticas como a nossa – quem hoje em dia questiona o capitalismo, o livre consumo, o uso da internet em todos os cantos? O pensamento crítico, geralmente, não é bem visto ou considerado de “bom tom”. Mesmo na tão proclamada democracia.

NOTA: 9,5.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Die Welle é baseado em uma história real. Mas diferente do que o filme mostra, a história que inspirou o escritor nova-iorquino Todd Strasser – e, posteriormente, o trabalho dos roteiristas Peter Thorwarth e Dennis Gansel (diretor do filme) – ocorreu nos Estados Unidos. Mais precisamente na classe do professor Ron Jones, que resolveu fazer um experimento chamado de “Terceira Onda” com os alunos da escola onde lecionava em 1967, a Cubberley High School em Palo Alto – região que ficou famosa pela corrente crítica da comunicação surgida na década de 1940.

Incialmente, parece que o roteiro do diretor e de Peter Thorwarth ambientam o filme em uma cidade comum da Alemanha nos “dias atuais”… Se é bem verdade que um experimento como o da “Terceira Onda” poderia perfeitamente ser tentado hoje na Alemanha – ou em qualquer país do mundo, praticamente -, alguns detalhes do filme deixam em dúvida sobre a intenção dos realizadores em datar esta história. Digo isso porque, apesar da cara de século 21, o filme mostra carros que expõe o prefixo BE que, segundo o site IMDb, deixaram de ser usados em 1975. Curioso, não?

Die Welle é mais um bom exemplo do novíssimo cinema alemão. Uma forma de fazer filmes que prima pelo dinamismo, pela câmera acelerada, por temáticas contemporâneas tratadas de forma crítica e que, muitas vezes, enfocam a juventude daquele país. Bons exemplos deste cinema são Lola Rennt; Goodbye, Lenin! e Die Fetten Jahre sind Vorbei (ou The Edukators), só para citar alguns dos que eu já vi e recomendo.

Outro tema que o filme trata é sobre a dificuldade dos professores hoje em dia em conseguirem ensinar algo… antes do experimento de Rainer começar, praticamente todos os alunos estavam desinteressados no tema e no que a aula podia render. Só quando ele começou o experimento e, com ele, a revelar o conhecimento através da “participação” dos alunos é que a classe ganhou outra dinâmica. Os jovens se sentiram interessados e motivados para aprender, afinal, trouxeram para a sua vida cotidiana idéias que tinham em sala de aula. Este tipo de aula atualmente é praticamente considerada “padrão” nas escolas, quando professores são incentivados a dar classes de intercâmbio constante entre ensinamentos do professor e dos alunos – vide Paulo Freire e sua concepção que ganhou admiração mundial. Ou seja: o que se vê ali não é de todo absurdo, o problema é a forma com que a idéia cresceu e perdeu o controle. O que faltou, para mim, foi a contextualização e as explicações dos objetivos e do sentido por parte do professor. Mas algo é fato: definitivamente não é fácil ser professor hoje em dia.

O elenco todo, formado basicamente por jovens, está muito bem. Destaco, do núcleo principal da história, Frederick Lau como Tim Stoltefuss, o garoto que leva mais a sério o experimento da “Onda” (e que demonstra, para mim, propensão ao desequilíbrio e ao extremismo desde o início, levando muito a sério a brincadeira); Max Riemelt como Marco, um dos líderes da juventude local e namorado de Karo, interpretada por Jennifer Ulrich, uma das duas vozes dissonantes do “movimento”; Christiane Paul como Anke Wenger, professora e esposa de Rainer; Jacob Matschenz como Dennis, um dos garotos que procura defender o movimento até depois que ele já se mostrou desastroso.

Também destaco a brasileira (pois sim!!) Cristina do Rego como Lisa, amiga de Karo que acaba mudando totalmente seu comportamento quando ganha “força” através do grupo; Elyas M’Barek como Sinan, o jogador de pólo aquático que era um bocado desprezado por suas origens até o movimento começar; Maximilian Vollmar como Bomber, um dos “guardas” da Onda que acaba ficando perplexo com seu desfecho; Max Mauff como Kevin, o dissidente do movimento no início, um bocado “do contra”, e que acaba sendo “levado” pelos colegas para dentro da Onda; Amelie Kiefer como Mona, amiga de Karo que também fica contra o movimento; e por aí eu seguiria… No geral, os atores fizeram um belo trabalho.

Mas ainda que eu destaque todos os atores citados anteriormente, os grandes nomes do elenco são mesmo Jürgen Vogel e Frederick Lau. Ambos fazem papéis difíceis sem cairem no extremismo que seria “compreensível”. Em lugar disso, apresentam seus personagens de maneira bastante verossímel. Também gostei muito da atriz Christiane Paul, competente e muito bonita. E, quem diria, temos até a uma brasileira em um dos papéis principais!! 

Die Welle teria custado € 5 milhões (de euros) e faturado, apenas na Alemanha, pouco mais de US$ 20 milhões – não me perguntem porque eles não calcularam a bilheteria também em euros… isso é uma incógnita para mim. O filme foi realmente um sucesso comercial no país que viu o nazismo tomar conta da sociedade há 70 anos.

O filme tem uma trilha sonora muito boa – especialmente para os que gostam de rock’n roll – assinada por Heiko Maile. Entre os destaque, clássicos como Rock ‘n’ Roll High School, dos Ramones, que abre o filme a todo volumen na apresentação do professor Rainer Wenger (que também veste uma camiseta da banda); Rock & Roll Queen, do grupo The Subways, entre outros grupos “rockzeira”.

Da equipe técnica do filme, vale a pena destacar o trabalho do diretor de fotografia Torsten Breuer e do editor Ueli Christen

Em sua trajetória, Die Welle ganhou dois prêmios e foi indicado a outros seis. O filme mereceu, segundo os críticos, o prêmio de Melhor Ator Coadjuvante para Frederick Lau no German Film Awards, assim como, na mesma premiação, o produtor Christian Becker levou o bronze na categoria de Melhor Filme. O filme ainda foi indicado no Festival de Sundance na categoria “World Cinema – Dramatic”, mas perdeu na disputa para Ping-pongkingen.

Os usuários do site IMDb conferiram a nota 7,5 para o filme – para os padrões do site, está bem. Como é de costume no Rotten Tomatoes, site que abriga textos de críticos dos Estados Unidos, existem poucos textos sobre o filme alemão – exceto pelos ganhadores de Oscar e premiações afins, os críticos de lá não costumam assistir a muitos filmes estrangeiros. Ainda assim, o site abriga oito críticas positivas e quatro negativas para Die Welle – o que significa uma aprovação de 67%.

CONCLUSÃO: Um bom exemplo do “novíssimo” cinema alemão, Die Welle trata da possibilidade do ressurgimento de movimentos totalitários e excluentes, inspirado em uma história real de experimento em sala de aula feito nos Estados Unidos em 1967. O filme tem um ritmo veloz, bem dirigido, com um roteiro que consegue segurar a atenção e manter um certo suspense – sem transformar a história em algo pesado ou fictício demais – e, para fechar a regra de um bom filme, com interpretações bastante convincentes. Uma história curiosa sobre a manipulação de pessoas, a falta de rumo e de valores de uma sociedade consumista e individualista e os rumos que ela pode tomar. Bacana por ser crítico e, principalmente, bem narrado. E, para nossa surpresa, com uma brasileira entre as atrizes principais.

SUGESTÃO DE LEITORES: Este é o primeiro filme de uma série que vou assistir do cinema alemão. Afinal, foi a Alemanha o país que ganhou na enquete que eu propus aqui no blog durante algumas semanas. A idéia é assistir a filmes recentes e a alguns “clássicos” que eu ainda não vi do cinema daquele país. Mas vou avisando que filmes como os que eu citei neste texto e que eu já vi não pretendo ver novamente… mas vou, sempre que possível, citando algumas produções excelentes da Alemanha que eu já tenha visto – sempre que elas tiverem algo a ver com o filme que estou comentando. Também aceito sugestões… como sempre.

Também queria registrar que esse filme foi indicado, há muito tempo atrás, por minha amiga e leitora deste blog, Vanessa. Humpf!!! Finalmente assisti ao filme, hein? E gostei muito do que eu vi. É o típico filme “pop” crítico bacana de se ver. Obrigada pela sugestão.

Os premiados do Oscar 2009 – Avaliação

Como promessa é dívida… ontem à noite, dia 22 de fevereiro, eu acompanhei online os premiados do Oscar 2009 e, agora, dou uma “melhorada” no que publiquei durante a noite/madrugada. Ontem fui escrevendo aqui, na ordem em que iam saindo os vencedores, a lista de premiados com alguns comentários.

Gostei desta lista como foi publicada, ou seja, deixando alguns dos prêmios mais importantes para o final. Como muita gente já deve saber, Slumdog Millionaire (no Brasil, Quem Quer Ser um Milionário?) foi o grande, grande vencedor da noite. A produção relativamente “independente” abocanhou oito das nove estatuetas pelas quais estava concorrendo. Para mim foi uma alegria, porque estava na torcida por ele. E, no geral, Slumdog conseguiu passar o rodo… fazia tempo que um filme não chegava tão perto de conseguir 100% de aproveitamento ao ser indicado em tantas categorias.

Como era esperado, se houve um grande vencedor, do outro lado da moeda teve que existir um grande perdedor. Esta foi a situação de The Curious Case of Benjamin Button (O Curioso Caso de Benjamin Button), indicado a 13 prêmios e premiado com apenas três – e todos em categorias técnicas, ou seja, que tem pouco (ou nenhum) apelo ao público. Outros perdedores importantes da noite foram: Doubt (Dúvida no Brasil), que saiu da premiação com as mãos abanando, depois de ter sido indicado em quatro categorias (e ter cinco chances de premiar alguém); Frost/Nixon, que também ficou a ver navios, depois de ter sido indicado a cinco prêmios; e Vals Im Bashir, filme israelense considerado por muitos o favorito (eu era uma voz dissonante deste côro) e que perdeu seu posto de melhor do ano em língua não-inglesa para o japonês Okuribito (Departures para o mercado internacional).

Bom, mas deixando de enrolação, vamos ao texto que eu publiquei na noite de domingo e madrugada de segunda (praticamente inalterado, apenas acrescentei os demais concorrentes em cada categoria que acabaram sendo subjugados):

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Prometo que amanhã (segunda-feira) vou melhorar a edição desta página… mas, enquanto isso, vamos comentando por aqui, assim meio “brutalmente”, sobre os premiados da noite do Oscar.

maisonenpetit2Não deu outra no Melhor Curta de Animação, hein? Foi Kunio Kato mesmo quem levou para casa a estatueta, com seu La Maison en Petits Cubes. Como eu tinha comentado antes no post específico desse tema, mesmo assistindo apenas o trailer no Youtube, parecia que ele era um dos dois favoritos. Parabéns!! Ainda que eu tenha gostado tanto de Lavatory-Lovestory… 😉

Outros indicados: Lavatory – Lovestory, Oktapodi, Presto, This Way Up. Observação: (existe um texto específico sobre os indicados aqui no blog).

E a bendita Penélope Cruz levou para a Espanha mesmo a estatueta de Melhor Atriz Coadjuvante… ¡vaya! Parabéns para ela. Ainda que eu ache que, realmente, ela não merecia. Ela está linda em Vicky Cristina Barcelona? Ok, ela está. Tem momentos em que ela está bem no papel. Sim, também. Mas não o suficiente para ganhar de Amy Adams ou de Marisa Tomei. Mas enfim, a Academia quis premiá-la, paciência. Agora é aguentar (se bem que eu agora mesmo não preciso mais… hehehehehehehe) toda a comemoração ufanista dos espanhóis…

As outras indicadas: Viola Davis e Amy Adams por Doubt; Taraji P. Henson por The Curious Case of Benjamin Button; Marisa Tomei por The Wrestler. Observação: todos os filmes desta categoria foram comentados no blog.

Na categoria roteiros… Slumdog Millionaire levou para casa o primeiro de vários prêmios que deve receber nesta noite. Ganhou na categoria Melhor Roteiro Adaptado. Estatueta merecedíssima para Simon Beaufoy. Alguns devem ter se surpreendido com Milk ter levado em Melhor Roteiro Original… afinal, a maioria dos palpiteiros apontavam para Wall-E. Como eu não assisti a animação, quero registrar minhas palmas para Milk. Verdadeiramente foi um grande trabalho do roteirista Dustin Lance Black.

Os outros indicados em Melhor Roteiro Adaptado: Doubt, The Curious Case of Benjamin Button, Frost/Nixon, The Reader. E os indicados em Melhor Roteiro Original: Milk, Wall-E, In Bruges, Happy-Go-Lucky, Frost Riven. Observação: quase todos os filmes indicados têm críticas específicas aqui no blog (exceto por Wall-E e Happy-Go-Lucky).

Ah, e claro, falando nele… Wall-E ganhou como Melhor Animação do ano. Prêmio esperadíssimo – e, dizem, super merecido. Tenho ainda que assistí-lo.

Os outros indicados: Kung Fu Panda, Bolt.

thecuriouscase31O Curioso Caso de Benjamin Button levou dois prêmios super esperados: Melhor Direção de Arte e Melhor Maquiagem. Este segundo, cá entre nós, não tinha nem o que duvidar. Exceto os super fãs de Batman que torciam para o filme ganhar tudo em que concorria, os demais mortais sabiam que esta era uma categoria certeira para Benjamin Button. Provavelmente o filma ficará com estas duas estatuetas na noite e nada mais.

Os outros indicados em Melhor Direção de Arte: Changeling, Revolutionary Road, The Dark Knight, The Duchess. E em Melhor Maquiagem: The Dark Knight, Hellboy 2.

GRANDE Slumdog Millionaire!!! Levou para casa o Oscar de Melhor Fotografia! Uma estatueta muito, mas muito merecida para Anthony Dod Mantle… algo me diz que está será a noite deste filme (oba!!).

Os outros indicados: Changeling, The Dark Knight, The Reader, The Curious Case of Benjamin Button.

A Duquesa levou o Oscar na categoria Melhor Figurino. Por se tratar de um filme de época – ainda não o assisti -, também era algo previsível. Filmes de época sempre levam uma vantagem nesta categoria – por motivos óbvios.

Os outros indicados: Australia, The Curious Case of Benjamin Button, Milk, Revolutionary Road.

O alemão Jochen Alexander Freydank levou a estatueta de Melhor Curta-metragem com seu Spielzeugland (Toyland).

Os outros indicados: Auf der Strecke (On the Line), Manon on the Asphalt, New Boy, The Pig.

Puxa, puxa… que dó não ver ao próprio Heath Ledger subir ao palco do Kodak Theater para receber o seu tão merecido Oscar. O ator, como esperado por 10 em 10 apostadores, foi reconhecido como o Melhor Ator Coadjuvante do ano. Pena que ele tenha partido tão cedo…

Os outros indicados: Josh Brolin por Milk; Robert Downey Jr. por Tropic Thunder; Philip Seymour Hoffman por Doubt; Michael Shannon por Revolutionary Road.

Era esperado também que Man on Wire levasse a estatueta de Melhor Documentário. Grande trabalho do diretor inglês James Marsh comentado aqui neste blog anteriormente. Com um cuidado técnico belíssimo, o filme mistura fotografias e vídeos antigos de Philippe Petit e de seus amigos com recriações muito poéticas feitas com atores. Um belo filme, realmente.

Os outros indicados: The Betrayal (Nerakhoon), Encounters at the End of the World, The Garden, Trouble the Water. Observação: o documentário vencedor têm crítica neste blog.

O trabalho de Megan Mylan intitulado Smile Pinki ganhou como Melhor Documentário em Curta-metragem. Eu tinha buscado mais informações sobre este curta há algum tempo atrás e tinha encontrado o seu trailer. Ele conta a história de uma menina indiana que nasceu com uma fenda palatina e que, por ser pobre, busca a ajuda de um médico voluntário. Parece interessante.

Os outros indicados: The Conscience of Nhem En, The Final Inch, The Witness – From the Balcony of Room 306.

Slumdog Millionaire ainda levou os prêmios em Melhor Mixagem de Som – achei que nesta ele perderia para The Dark Knight. Mas tudo certo para Batman, porque ele levou a estatueta em uma categoria “meio-irmã”: Melhor Edição de Som.

Os outros indicados em Melhor Mixagem de Som: The Curious Case of Benjamin Button, The Dark Knight, Wall-E, Wanted. E em Edição de Som: Iron Man, Wall-E, Slumdog Millionaire, Wanted. Observação: o único Oscar “perdido” por Slumdog foi nesta última categoria, Melhor Edição de Som. Em todas as outras em que estava concorrendo, ele venceu.

Benjamin Button conseguiu mais um prêmio técnico: Melhores Efeitos Especiais. Outra em que eu achava que The Dark Knight se sairia melhor.

Os outros concorrentes: The Dark Knight, Iron Man.

slumdog2Mais uma para o grande Slumdog: Melhor Edição. Bem, nesta categoria nem tinha o que dizer. Um dos grandes méritos do filme é justamente a sua edição, um trabalho de primeiríssima de Chris Dickens. Merecedíssimo! E pelo jeito será uma noite de lavada do meu filme preferido na premiação… Slumdog acaba de receber o Oscar de Melhor Trilha Sonora Original para o indiano A. R. Rahman. Muito bem!

Os outros concorrentes em Melhor Edição: The Curious Case of Benjamin Button, The Dark Knight, Frost/Nixon, Milk. E em Melhor Trilha Sonora Original: The Curious Case of Benjamin Button, Defiance, Milk, Wall-E.

Opa! E mais uma para Slumdog… para minha surpresa, ele levou ainda em Melhor Canção Original. A premiada foi Jai Ho. E vamos que vamos passando o rodo!

Os outros concorrentes: Down to Earth, de Peter Gabriel, por Wall-E; O Saya, de A. R. Rahman e Maya Arulpragasam, por Slumdog Millionaire.

E me desculpem todos os que adoraram o filme Vals Im Bashir, mas quem levou a estatueta de Melhor Filme Estrangeiro este ano foi o Japão. Parabéns para Departures – logo que puder, vou assistí-lo e comentar sobre esta produção por aqui. De qualquer forma, repito o que eu disse antes: não achava que o filme de Ari Folman merecesse ganhar. E ainda que a comunidade judaica nos Estados Unidos – especialmente em Hollywood – tem força, muita força, gostei de ver que no lugar do lobby feito pelo filme ganhou outro em seu lugar. E a escola japonesa merece respeito!

Os outros concorrentes: The Baader-Meinhof Komplex, Entre Les Murs, Revanche, Vals Im Bashir.

ESTOU SOLTANDO FOGOS!!! Grande Danny Boyle!!! O cérebro de Slumdog Millionaire acaba de “embolsar” a sua estatueta como Melhor Diretor. Nada mal para este inglês ousado e maravilhoso.

Os outros concorrentes: Stephen Daldry por The Reader; David Fincher por The Curious Case of Benjamin Button; Gus Van Sant por Milk; Ron Howard por Frost/Nixon. Observação: o trabalho de todos os concorrentes foi comentado neste blog nas críticas de seus respectivos filmes.

E não teve para ninguém: Kate Winslet levou a estatueta de Melhor Atriz por seu trabalho em The Reader. Outro prêmio muito merecido, porque esta atriz literalmente foi crescendo praticamente trabalho após trabalho. Sem contar que ela veio de duas grandes interpretações: uma em The Reader e a outra em Revolutionary Road.

As outras concorrentes: Meryl Streep por Doubt; Anne Hathaway por Rachel Getting Married; Angelina Jolie por Changeling; Melissa Leo por Frost River. Observação: o trabalho de todas as concorrentes foi comentado neste blog nas críticas de seus respectivos filmes.

Mas na categoria onde existia alguma dúvida… a de Melhor Ator… deu mesmo Sean Penn na cabeça. Merecedíssimo, vamos! Ele está fantástico em Milk. Ainda que, eu admito, se Mickey Rourke tivesse ganho eu também ficaria feliz. Mas Penn, por seu trabalho como ator, diretor, produtor e etcétera (de outros filmes, me refiro), merecia levar uma estatueta para casa. Boa!! Além do mais, se Rourke realmente está “ressurgindo” das cinzas, ele terá outras oportunidades de levar um prêmio deste para casa.

Os outros concorrentes: Mickey Rourke por The Wrestler; Frank Langella por Frost/Nixon; Richard Jenkins por The Visitor; Brad Pitt por The Curious Case of Benjamin Button. Observação: o trabalho de todos os concorrentes foi comentado neste blog nas críticas de seus respectivos filmes.

E, finalmente, o prêmio mais importante e esperado da noite… Melhor Filme para Slumdog Millionaire! Bravo, bravíssimo!! Dos filmes concorrentes, verdadeiramente era o melhor. Parabéns para Danny Boyle, Simon Beaufoy, a co-diretora Loveleen Tandan (que ajudou a filmar na Índia), aos atores, especialmente Dev Patel, Freida Pinto, e todos os garotos que participaram deste projeto. Filmaço recomendado para qualquer pessoa. E algo que vi hoje e que me deixou feliz: ele voltou a estar entre a lista dos cinco filmes mais assistidos nos Estados Unidos. Até o momento, faturou pouco mais de US$ 88 milhões nos Estados Unidos – e com os oito Oscar’s da noite, só deve aumentar esta cifra. Vai que é sua, Slumdog!!

Os outros concorrentes: Milk, The Curious Case of Benjamin Button, The Reader, Frost/Nixon. Observação: todos os concorrentes têm críticas específicas publicadas aqui no blog.

Charlie Bartlett – Charlie, Um Grande Garoto

 

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Os filmes sobre os colegiais norte-americanos cansam. Normalmente, basta você ver dois deles para ter “visto todos”. Apenas com algumas exceções a regra de histórias e “universo” repetido se quebra. Do contrário, as histórias sempre giram em tornos de grupos rivais muito bem estabelecidos – normalmente os “jogadores de futebol” versus os “nerds”, mais “garotas gostosas” versus “garotas estranhas”, e por aí vai – e de uma mesma “busca” dos garotos e garotas por festas, liberdade e sexo. Certo. Mas para a alegria dos que gostam de cinema, volta e meia, aparece um filme que tira sarro de tudo isso… este é o caso de Charlie Bartlett. Ainda que ele faça isso, contudo, não se trata de um daqueles filmes escatológicos e com cara de “vamos nos portar como colegiais e sacanear os filmes alheios” (como é o caso da grife Scary Movie ou de Superhero Movie). Não. Charlie Bartlett é um filme “sério” que brinca com estereótipos na mesma medida em que promulga mensagens para a garotada.

A HISTÓRIA: Charlie Bartlett (Anton Yelchin) escuta mais uma conversa da mãe, Marilyn (Hope Davis) com o diretor de sua escola. E, mais uma vez, ele constata que foi expulso do local justamente na época em que ele começava a conseguir o que mais queria: popularidade. Marilyn, se sentindo um bocado perdida e culpada pelo desempenho do filho, resolve colocá-lo em uma escola pública – até porque não resta nenhuma particular para ele se matricular (ele foi expulso de todas). Desta maneira ele deixa a bolha de vidro em que vivia, estudando e convivendo com pessoas de alta classe como ele, para sentir um pouco da “realidade” de jovens que estudam em colégios públicos. Ali ele encontra um celeiro de histórias diferentes que lhe fazem virar o psicólogo da garotada – em mais uma busca por popularidade.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto a seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler esta parte quem já assistiu a Charlie Bartlett): Este filme é daqueles para “chocar” pais e mães. Afinal, eles pensam que estão dando autorização para seus jovens filhos para assistir a “mais um” filme destes juvenis e, quando se dão conta, percebem que deixaram o povo assistir a história de um garoto capaz de quase tudo para se tornar popular. Ele falsifica carteiras de motorista para os colegas, receita remédios de “tarja preta”, ou seja, de uso bastante controlado, para os adolescentes em crise, entre outras “coisitas”. Lendo assim, parece até absurdo. O cara é um “contraventor” (como gostam de falar os policiais). Mas o que se vê na superfície é apenas isso, a superfície. 

Charlie Bartlett, o filme, consegue captar o que para mim é uma das essências da juventude: a constatação de que estamos perdidos. No sentido de que, nesta época da vida, as certezas da infância caem por terra e as pessoas começam a perceber a complexidade do mundo e da vida. Ainda que depois, na fase adulta, muitos esqueçam todo esse “choque” de realidade e voltem a aceitar uma vida de certezas e conformidade, mas digamos que a adolescência é a fase decisiva do início (e pode ser fim) dos conflitos internos.

E Charlie Bartlett (o personagem) percebe isso muito cedo, quando se confronta com as realidades bem diferentes de um colégio público – acredito que na vida das escolas particulares a conduta das pessoas seja tão mais “uniformizada” quanto as suas roupas, no geral. E resolve, em busca de sua tão sonhada popularidade (a cena inicial, em que ele é aclamado em um palco como em um concerto de rock, é genial e resume bastante o desejo deste e de muitos jovens), agir.

Com a facilidade de quem é herdeiro de uma família rica e que tem uma história complicada na bagagem, ele recorre ao seu psicólogo particular – e a vários outros – para conseguir um arsenal de medicamentos para quase todos os tipos de doenças psicológicas. Mas antes, é claro, ele se afunda em livros de psicologia e se arma de argumentos para lidar com personagens como o valentão Murphey Bivens (Tyler Hilton), que lhe recepcionou no colégio com pancadaria. A cena em que Charlie “rapta” o valentão com a ajuda do amigo “retardado” (ou usando o termo politicamente correto, deficiente mental) Len Arbuckle (Dylan Taylor) é exemplar sobre a perspicácia do garoto. No melhor estilo “se você não pode vencê-los, junte-se a eles”, Charlie traz para o seu lado o valentão – e, com isso, deixa de ser seu novo saco de pancadas. De quebra, ele ajuda Murphey a resolver os seus problemas. Nada mal.

Fora a questão de Charlie ser realmente um “criminoso”, por vender remédios que ele não poderia e de “exercer a profissão” (entre aspas, realmente) de psicólogo/psiquiatra sem ter credenciais para isso, o garoto mostra a inteligência de quem pode se tornar, no futuro, um Bill Gates da vida. Explico: como poucos (poucos mesmo!) ele percebe oportunidades de negócio em praticamente todos os lugares à sua volta. Isso não é fácil. Esse talento, acredito, poucos tem. Mas Charlie é assim. Do problema psicológico do depressivo Kip Crombwell (Mark Rendall) ele vê um filão de negócios: o tratamento dos seus jovens colegas em um consultório-banheiro do colégio. Depois, quando uma nova crise de Kip faz Charlie repensar a venda dos remédios, ele encontra na peça escrita pelo colega uma oportunidade de valorizar o talento de pessoas como Murphey e Susan Gardner (Kat Dennings), filha do diretor Nathan (Robert Downey Jr.), com quem ele namora. E, de quebra, claro, “limpar” a sua barra. Genial esse garoto!

Toda a parte em que Charlie encarna um psicólogo/psiquiatra achei ótima. No WC ao lado desfilam jovens com problemas de afirmação como garotas que não sabem se colocam silicone nos seios ou não; problemas de aceitação – normalmente envolvendo os pais ou os colegas; dúvidas sobre a própria sexualidade, sobre escolhas futuras, etcétera, etcétera. Em poucos minutos vemos uma lista de alguns dos principais questionamentos dos adolescentes – e de muitos adultos – passarem pela telona. E este é apenas um dos méritos do ótimo roteiro de Gustin Nash.

Outro ponto que me chamou a atenção é a constante “queda-de-braço” entre o diretor da escola, Nathan Gardner, e o jovem e recém-incorporado aluno Charlie Bartlett. Entram em jogo não apenas a questão da autoafirmação de um e de outro – ambos buscam o respeito alheio ou, em algumas situações, serem “populares” -, mas também a “disputa” pela encantadora Susan, que é filha de um e namorada do outro. Freud explicaria estas questões. E eu acrescentaria algo: o curioso do filme é que ele mostra como Nathan e Charlie são mais parecidos do que o primeiro gostaria de admitir. Afinal, ambos agem como adolescentes, em muitos momentos – e não apenas agem, mas pensam como tal.

(SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). A diferença se percebe no final do filme, quando Nathan responde para Charlie o que é mais importante do que “ser popular”: “é o que você faz com essa popularidade”. Boa. Com essa resposta, Nathan também revela o que ele deixou escapar… afinal, como professor, ele era popular. Mas ao assumir uma posição ascendente, de maior responsabilidade, ele perdeu a “mão” e o respeito dos alunos. Aprendeu que não bastava ser popular – e que essa “posição” pode ser perdida muito facilmente. O importante era realmente fazer o certo na hora devida. E muitas vezes, afinal de contas, a popularidade não tem nada a ver com o mérito.

NOTA: 9.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Uma das coisas bacanas deste filme é que ele é divertido do início ao fim. Desde a cena a cena do delírio de Charlie Bartlett até a sua nova tentativa de “abraçar uma oportunidade”, transcorrem uma série de histórias e de sacadas muito boas. E sem nenhuma forçada de barra. O mérito principal é do roteirista Gustin Nash e do diretor Jon Poll. Sem contar os atores, claro. Aliás, muito, muito bons. Bastante acima da média. O protagonista, vivido por Anton Yelchin, encanta e surpreende. Gostei muito do garoto. Robert Downey Jr. comprova, mais uma vez, que voltou com tudo nos últimos anos. Está muito bem. Hope Davis, em especial, faz uma mãe incrivelmente humana, complexa e de humor variável – e sem ter uma interpretação “forçada”. Para mim, ela é um dos destaques e das boas surpresas do filme. Kat Dennings, que interpreta Susan, também está ótima, mostrando bastante carisma e um bocado de talento. No geral, todos estão muito bem. 

E falando no destaque do garoto Anton Yelchin… fiquei surpresa em saber que ele é russo. Pois sim. Nasceu na antiga Leningrado, atualmente St. Petersburgo, na Rússia. Depois de Charlie Bartlett, ele filmou nada menos que seis filmes. Pois sim, o garoto que no próximo dia 11 de março completa 20 anos andou trabalhando bastante! Primeiro, fez um papel secundário no filme You and I, do diretor Roland Joffé. Depois, interpretou Dorian Spitz, ao lado de Susan Sarandon e Eva Amurri, em Middle of Nowhere. Fez parte do elenco de um dos “curtas” que compõe o filme New York, I Love You; e ainda participou do elenco dos esperados Star Trek e Terminator Salvation. Segundo alguns rumores, teria filmado ainda Memoirs of a Teenage Amnesiac.

Falando em elenco, vale citar outros nomes “secundários”: Megan Park como Whitney Drummond, a menina que “deu” para quase todo o time de futebol americano e que é a paixão do encrenqueiro Murphey; Derek McGrath como o superintendente Sedgwick, o chefe incrédulo de Nathan Gardner; Stephen Young como o ótimo Dr. Stan Weathers, psicólogo de Charlie; Jake Epstein como Dustin Lauderbach, líder do grupo de teatro e do movimento contra as câmeras de vigilância na escola; e Jonathan Malen como Jordan Sunder, o “pau-mandado” do valentão Murphey.

Agora, algo que achei curioso: certo que o diretor Nathan Gardner não tinha mais “moral” ou respeito dos seus comandados, mas o que justificaria a falta de atitude dele com os alunos em geral? Por exemplo, o que impedia o diretor de ter uma atitude razoável de repressão contra o valentão Murphey? Medo de apanhar? Pode até ser. Mas se ele levasse na cara, como de fato levou lá pelas tantas, não seria razoável dar queixa na polícia e resolver o caso definitivamente? Não entendi porque ele realmente deixou tudo sair do controle daquela forma. Certo que a exposição da filha Susan, aluna da mesma escola, devia lhe “segurar” um bocado, mas curioso que este fato não prejudicou suas ações contra Charlie… eu diria que este é um dos poucos pontos questionáveis do roteiro – até aqui, ótimo. Também não gostei muito da parte em que Charlie diz quase choramingando “sou apenas um garoto”. Certo. Podíamos ter passado sem essa. Logo mais ele não terá essa desculpa – vide sua versão crescida, Nathan Gardner. 

O filme é recheado de frases ótimas, tanto no roteiro quanto no material que “acompanha” esta história. Desde a frase que aparece na camiseta de Charlie durante uma das consultas com o seu psicólogo (“Pessoas como você são a causa de pessoas como eu precisarem de medicação”) até a que acompanha o material de divulgação do filme (“Popularidade é um estado da mente”). Digamos assim que Charlie Bartlett é uma produção um bocado anarquista. 😉

Ah, e algo que esqueci de comentar antes: um dos conceitos bacanas do filme é o de que todos, sem exceção, tem seus problemas, seus dilemas e dúvidas. Não importa se o cara é o capitão do time de futebol americano, ou se a garota faz sucesso entre os caras, todos tem algo que não funciona em suas vidas. Esta é uma das mensagens da história. Outra é que ninguém precisa de um líder… que todos são capazes de seguirem seus caminhos por suas próprias pernas, basta acreditarem um pouco em seus potenciais. Prova disso é o que conseguem fazer Dustin e Kip. 

Algo curioso: o diretor Jon Poll, que também é produtor e editor, dirigiu apenas um filme antes de Charlie Bartlett – The Tree, de 1982, que também tem o seu roteiro. Depois de Charlie Bartlett, de 2007, ele trabalha neste ano na direção de Something Borrowed, atualmente em fase de pré-produção. Por sua vez, o roteirista de Charlie Bartlett, Gustin Nash, estreou nos cinemas com este filme. Antes, ele havia escrito parte do roteiro da série animada Da Mob. Em 2009, como Poll, ele volta a trabalhar em um novo projeto: Youth in Revolt, dirigido pelo portoriquenho Miguel Arteta, atualmente em fase de rodagem. Vale a pena conferir o que esses dois estão aprontando.

Charlie Bartlett conseguiu uma nota razoável para os padrões do site IMDb: 7,2. Por sua vez, os críticos que tem textos publicados no site Rotten Tomatoes foram menos efusivos do que eu ou do que os usuários do IMDB: eles dedicaram 67 críticas positivas e 56 negativas para o filme. Praticamente um empate técnico – o filme recebeu uma aprovação de 54%, para ser precisa. O problema principal do filme, para os críticos, é que ele trata de assuntos interessantes e começa bem, mas depois se perde. Não concordo, mas respeito a opinião deles. 🙂

Este filme não concorreu a prêmio algum, mas conseguiu uma bilheteria razoável para uma produção sem grande orçamento: quase US$ 4 milhões nos Estados Unidos. Um número que não deve ser desprezado – ainda que esteja distante anos-luz dos “blockbusters” da vida.

Gosto do Oscar e tudo o mais, mas devo ser franca: ainda bem que a premiação é hoje e que eu poderei, a partir de agora, me dedicar apenas a assistir aos filmes do país escolhido na enquete, aqueles que foram indicados pelos leitores deste blog e, claro, parte da minha “pequena listinha” de filmes menos óbvios dos que estes do Oscar. 😉

CONCLUSÃO: Um filme sobre colegiais que aposta em altas doses de psicoanálise e um bocado de anarquia. Politicamente incorreto em vários pontos, (até por isso) não deixa de ser divertido ao contar as desventuras de um adolescente que cresceu cercado de muito dinheiro e sem uma família estruturada. Ainda assim, com muita responsabilidade: tendo que cuidar da mãe e de sua carência afetiva – projetada na necessidade de se sentir popular na escola. Em pouco mais de uma hora e meia de filme entramos “fundo” nos complexos do garoto e de seus colegas adolescentes, sem que isso se transforme em algo didático ou chato. Com um bom elenco, um ótimo roteiro e uma direção competente, Charlie Bartlett é um destes filmes despretensiosos que vale a pena assistir para dar umas risadas e ver como a vida pode ser complicada ou simples, dependendo do ponto-de-vista.

Vicky Cristina Barcelona

 

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Demorei para assistir a esse filme propositalmente. Afinal, me deixava um pouco com o pé atrás dois fatos: primeiro, o filme ser uma homenagem a Barcelona; segundo, ter Penélope Cruz em um desempenho digno de Oscar (na opinião de muitos). É que estas duas afirmações me causam estranheza… sempre acho que a homenagem de um diretor a uma cidade pode ser desastrosa – ou, no mínimo, mentirosa. Depois, nunca vi Penélope Cruz como uma atriz merecedora de qualquer prêmio, muito menos o Oscar. Mas agora que assisti ao filme, posso admitir que é uma história bacana, curiosa, bem ao estilo Woody Allen. Além do mais, para a sorte do espectador, Vicky Cristina Barcelona mostra mais as duas amigas norte-americanas e o espanhol conquistador do que a louca espanhola vivida por Penélope.

A HISTÓRIA: Vicky (a londrina Rebecca Hall) e Cristina (Scarlett Johansson) são melhores amigas desde o colegial. Ainda que coincidam suas opiniões e gostos em quase tudo, do amor elas esperam coisas muito diferentes. Movidas também por interesses distintos elas resolvem passar as férias de Verão na Espanha, sendo hospedadas mais precisamente na casa de familiares de Vicky em Barcelona. Elas chegam na melhor época do ano, quando as cidades espanholas fervilham (literalmente). Neste cenário elas vão reavaliar suas convicções amorosas ao conhecerem o pintor Juan Antonio Gonzalo (Javier Bardem) e sua ex-mulher, também artista, Maria Elena (Penélope Cruz).

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Vicky Cristina Barcelona): Woody Allen é aquele sujeito que todos conhecem – que adora falar de sexo, amor, mulheres e cidades. Novamente aqui ele faz o que sabe melhor: equilibrar ironia com uma visão um bocado cínica sobre os relacionamentos e o amor. A diferença é que em lugar de Nova York, sua cidade natal e que ele adora homenagear, agora ele escolheu a Barcelona, uma das cidades européis pela qual ele se diz encantado.

Retomando o que eu dizia lá no início desta crítica, sempre que um diretor resolve homenager uma cidade, seu trabalho pode sair desastroso ou, pelo menos, ser mentiroso. Essa “máxima” vale especialmente para os diretores que falam das cidades que não conhecem tão a fundo, ou seja, quando tentam entender a “essência” de um lugar no qual não viveram tempo suficiente para nem mesmo tocá-la.

Bacana Woody Allen se interessar por Barcelona, especialmente porque ele se esforça em mostrar o que a cidade tem de melhor: a arquitetura de Antoní Gaudí e algumas obras de Joan Miró. Também pareceu interessante a forma com que ele mostrou a “boemia” das noites de Verão espanhol em Oviedo – gostei do fato dele ter migrado durante parte do filme para outra cidade que não fosse Barcelona. Até aí, tudo bem. Mas como praticamente toda homenagem a um determinado lugar, a visão da Espanha de Woody Allen é um bocado simplista. Por sua ótica, por ali é fácil se viver em contato direto com a natureza e de maneira verdadeiramente libertária e artística. 

Talvez em algumas rodas muito específicas isso seja possível – ainda que eu ache difícil isso ocorrer como se mostra em Barcelona, uma das principais cidades do país, considerada por muitos a capital espanhola da arte, onde os espaços são cada vez mais disputados e escassos. Exceto se os personagens moram em “las afueras” de Barcelona, ou seja, em algum “pueblecito” que está próximo da capital da Cataluña. Também, pelo filme de Woody Allen, todos parecem serem muito “prafrentex” em terras espanholas… todos são bacanas, interessantes, divertidos. E o resto das variações que por lá existem? Ficam de fora da história, claro.

Mas ok, sabemos que o cinema não é nenhum tratado realista. Ainda bem. 😉 Então o filme é bacana sim por mostrar lugares que não são conhecidos por todos, pontos turísticos e lugares mais inusitados em Barcelona, Oviedo e Ávila (onde mora Julio Josep, interpretado por Josep Maria Domènech, pai do pintor Juan Antonio). Agora, só achei um bocado “rasos” os personagens espanhóis – todos são muito passionais para o meu gosto. Certo que muitos espanhóis tem esse estilo “à flor da pele”, mas seria um pouco de exagero pensar que a maioria é assim. Mas para Woody Allen os homens e mulheres de lá são artísticos e podem ser vistos como um apaixonado e galanteador (Don?) Juan e por sua ainda mais passional e um tanto tresloucada ex-mulher Maria Elena.

Aliás, achei a personagem interpretada por Penélope Cruz uma versão um tanto mais enlouquecida de uma tentativa de Frida Kahlo… seria saudade daquela mulher realmente trangressora, artista e visionária? E que, aliás, não era espanhola, mas mexicana. 😉 De qualquer forma, Woody Allen me pareceu em busca de uma mulher com aquele perfil – só que tudo que ele conseguiu foi uma versão fora de controle interpretada por Penélope Cruz. Certo que existe um ou outro momento em que a atriz está bem, mas no geral… achei, como sempre, bem fraquinha. Mediana, talvez. Mas longe de merecer um prêmio como o Oscar por sua interpretação. Mas é até natural ela ter sido indicada – primeiro porque é do interesse da Academia valorizar talentos “latinos”, depois porque este ano foi realmente fraco no quesito intérpretes femininas.

Mas se descontamos os exageros de Woody Allen em simplificar a história e parte dos personagens, o que se vê é mais um de seus contos saborosos sobre uma revisão de conceitos referentes ao amor. Sim, porque Vicky Cristina Barcelona, além de ser uma boa desculpa para o diretor filmar na Espanha, é uma história engraçadinha sobre essa busca infindável do amor – da qual o próprio Allen é a encarnação – e, principalmente, sobre como nossas certezas sobre este e outros conceitos podem (e devem) mudar com o tempo. E isso independente se essas mudanças vão provocar rupturas ou não em nossas vidas.

A única personagem que parece verdadeiramente confortável no final é a de Cristina, porque ela está convencida que nenhuma relação com “amarras” pode lhe completar e, sabendo isso, ela parte para mais uma fase de “solteirice” até que ela encontre um novo (e fugaz) amor. Ou, quem sabe, um dia ela refaça essas suas convicções? O que de fato acontece com Vicky e com Judy Nash (Patricia Clarkson), mulher de Mark (Kevin Dunn), os anfitriões que recebem as amigas em Barcelona.

Judy vê em Vicky a sua chance de redenção – algo que acaba não ocorrendo. Ela tem essa visão porque a jovem garota, recém-casada, se confessa apaixonada por um amor de Verão – algo idealizado que, certamente, com o tempo, se mostraria ilusório. E aqui se encontra mais uma crítica mordaz do diretor e roteirista: afinal, os amores idealizados nunca podem dar certo – ainda que a idéia deles seja predominante no mundo moderno. E o mais curioso: mesmo os casamentos “realistas”, como o de Vicky e Doug, não parecem a solução. Nesta história, pelo menos, Woody Allen ironiza os casais em geral e a instituição casamento especificamente – como ele sempre faz, aliás. Nada mal para um homem que aos 73 anos tem três casamentos no currículo – o último e atual, com Soon-Yi Previn, 38 anos mais jovem que ele, lhe rendeu dois filhos. 

O importante, no final, parece ser realmente a ironia e nossa capacidade de rir dos nossos próprios erros, acertos, equívocos, dúvidas e certezas. Talvez esta seja a grande mensagem do filme e da obra de Woody Allen.

NOTA: 8.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Algo que achei realmente curioso: se Vicky era uma pessoa tão racional e que sabia o que esperar do amor, como ela foi cair de forma tão fácil na conversa do galanteador Juan Antonio? Não parecia óbvio que ele sabia o que fazer para conquistar uma mulher como ela, agindo na medida certa, calculando os passos, para conquistá-la? No melhor estilo Don Juan, com Cristina ele sabia que tinha que agir de forma diferente – o que realmente fez. De qualquer forma, seja com uma ou com outra, Juan Antonio tinha claro como deveria agir para conseguir o que queria. Mas era óbvio que ele não poderia ser aquele homem “apaixonado” e ideal que Vicky colocou na cabeça. Contos de fadas não existem, ela deveria saber – se fosse realmente tão racional como o narrador nos fala no início do filme. E aí está o golpe de mestre de Woody Allen: ninguém é exatamente o que o narrador comenta ou, melhor dizendo, aquilo que aparenta ou que quer fazer os outros acreditarem que seja.

A música espanhola é realmente maravilhosa e apaixonante. Para quem ficou interessado em saber mais sobre os artistas que aparecem tocando violão no filme, os nomes deles são Juan Quesada (em Barcelona) e Emilio de Benito (em Oviedo), os dois músicos profissionais e relativamente bem conhecidos em solo espanhol – ambos originários do flamenco, que é uma delícia (eu diria que se trata da “alma” espanhola).

Aos interessados na história das cidades e nos locais que são mostrados no filme, recomendo estes links – sobre Barcelona, este e este; e sobre os locais revelados por Woody Allen em Oviedo e Ávila, este. Gostei de saber que a imagem do Cristo crucificado que aparece no filme está localizada na Igreja San Julián de los Prados, construída no estilo pré-românico e que, segundo a prefeitura de Oviedo, se trata do último exemplar daquele estilo artístico na Europa. 

Achei um bocado unidimensional (também) o personagem de Doug (Chris Messina), o noivo e depois marido de Vicky. Certo que o cara podia ter complexidade zero, como aparece no filme, mas sei lá… acho difícil acreditar que alguém virtualmente tão inteligente quanto Vicky se interessaria por um cara tão “raso”. Mais um personagem da história que parece ter sido simplificado ao máximo para “casar” melhor com a história que o diretor queria contar. O ator, por sua parte, faz um belo trabalho, assim como Rebecca Hall, que me surpreendeu bastante positivamente, e Scarlett Johansson. Javier Bardem e Penélope Cruz estão bem como “encarnações” da paixão espanhola, ainda que seus personagens acabem sendo um tanto que rasos demais.

A nota que eu dei tem mais a ver com a beleza e o charme espanhol retratados em tela do que com a história propriamente dita. Se fosse levar em conta apenas o roteiro, a nota seria menor. Mas a virtude dos protagonistas, a direção segura de Woody Allen e a homenagem para meu “segundo país” valem uma nota melhorzinha. 😉

Nada como uma cena lésbica para incendiar os corações masculinos, não? Achei especialmente curiosa a ironia do diretor/roteirista com a reação de “interesse contido” do tradicionalista Doug. O rapaz só não propõe um relacionamento à três com Vicky e Cristina com medo de receber uma cortada definitiva da mulher – ou talvez porque ele não se sinta especialmente atraído pela amiga dela.

Acho mais certo que sua preocupação em estar sempre enquadrado nos padrões sociais ter sido o principal freio para conter aquele interesse visível na história de Cristina com Maria Elena. Ou, talvez, ele tenha mesmo repúdio a idéia de compartir a mulher com outra pessoa. Independente de qual seja a resposta, fica clara a provocação de Woody Allen para com os padrões sociais aceitos e aqueles que são reprimidos – vide Freud e a noção de libido. Mas claro, tudo isso é estritamente “pincelado” pelo diretor que larga muitas cores sobre a tela, mas não faz questão de explicar a sua arte. Acho que essa característica também faz o filme merecer uma nota um pouquinho melhor – ignorando o “raso” que são quase todos seus personagens.

Vicky Cristina Barcelona foi bem na avaliação do público e da crítica – especialmente da crítica. Os usuários do site IMDb conferiram a nota 7,5 para o filme, enquanto que os críticos que tem textos publicados no Rotten Tomatoes dedicaram 148 críticas positivas e 32 negativas para o filme – em uma aprovação de 82%, nada mal. 

O filme teria custado aproximadamente US$ 15,5 milhões e faturado, até o dia 8 de fevereiro, quase US$ 23,2 milhões apenas nos Estados Unidos. Woody Allen deve estar feliz que esse seu último filme se pagou – algo que, aparentemente, o anterior (Cassandra’s Dream) não conseguiu. Dos oito filmes dirigidos e escritos por Woody Allen nos anos 2000, aparentemente apenas Scoop e Match Point conseguiram se pagar e ainda fazer uma “caixinha” para o diretor.

Até agora Vicky Cristina Barcelona recebeu 14 prêmios e foi indicado a outros 26. A maioria deles foi ganho por Penélope Cruz, que pouco a pouco foi colecionando troféus como melhor atriz coadjuvante do ano em festivais e em círculos de associações de críticos. Além dos prêmios para a intérprete espanhola, se destacam o Globo de Ouro ganho pela produção como a melhor do ano na categoria “comédia ou musical” e o de melhor filme em língua não-catalã no festival Gaudí – declaradamente pró-Cataluña. Entre os importantes prêmios ganhos por Penélope Cruz estão o BAFTA e o National Board of Review

Algo que eu não tinha deixado tão claro antes – na primeira versão deste texto: a trilha sonora do filme é uma delícia, especialmente pela música Barcelona, interpretada por Giulia y los Tellarini, que abre e fecha a produção. E no meio se escuta ainda o clássico Granada, de Isaac Albéniz, tocado no violão por Emilio de Benito, além de Paco de Lucía com sua Entre Dos Aguas. Uma delícia. Ah, e outro clássico no violão de Juan Quesada: Asturias, composta também por Isaac Albéniz. 

Sei que várias pessoas não enxergam muita lógica na comparação, mas sim, eu prefiro Madrid que Barcelona – pelo menos para viver (além do link anterior, deixo este e este sobre Madrid). E para os curiosos, de verdade julho e agosto são os melhores meses para conhecer a Espanha – ainda que sejam, também, dois dos mais concorridos e dos mais caros, especialmente porque todos os espanhóis que podem tentam sair de férias em agosto, o que faz tudo ficar ainda mais disputado.

CONCLUSÃO: Um filme no melhor estilo Woody Allen de ironizar o amor e os jogos românticos, tem como vantagem mostrar parte da cultura espanhola – seja para o bem ou para o mal. Acerta em alguns pontos, como na escolha do elenco e na eleição dos locais focados pela câmera, mas erra na simplificação dos personagens e na construção de um estereótipo nada sutil ou original do “sangue latino” incorporado pelos espanhóis. Se mostra interessante pelas ironias e pelo questionamento das certezas/escolhas no campo amoroso – algo que, digamos, é um pouco de lugar-comum na obra de Woody Allen. Ainda assim, se trata de um filme mais popular, ou seja, trabalhado de forma que pode cair melhor no gosto do público do que outras obras menos “fáceis” do diretor. Vale como passatempo – e por mostrar parte da cultura espanhola, como obras de Gaudí e Miró, a boemia e a música daquele país.

PALPITE PARA O OSCAR: Seria perfeitamente previsível se Penélope Cruz ganhasse o Oscar de atriz coadjuvante este ano. Afinal, sempre é bem-vinda a premiação de uma atriz latina – obviamente pela grande massa de “hablantes hispanos” nos Estados Unidos. Além do mais, sempre vale a pena aproximar Hollywood da Europa – ainda que de uma maneira um tanto contida, afinal, se trata de escolas e mercados diferentes. Mas ao mesmo tempo seria perfeitamente compreensível se ela perder a estatueta para atrizes como Amy Adams ou (com menos chances) Marisa Tomei.

Pessoalmente, depois de ter assistido a todas as interpretações que valeram as indicações ao Oscar, prefiro realmente Amy Adams. Ainda que eu ache que a disputa este ano está um tanto “fraquinha”, a atriz de Doubt parece fazer um trabalho mais técnico e maduro que o das concorrentes. Se bem que eu acho igualmente interessante o desempenho de Marisa Tomei. Acredito que existe um empate técnico entre as duas. Sendo assim, meus votos seriam, na ordem, para Adams e Tomei e, em seguida, para Penélope Cruz. Ficariam de fora da disputa Viola Davis e Taraji P. Henson.