Song to Song – De Canção em Canção

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Três pessoas e seus amores – especialmente, suas mulheres. O diretor Terrence Malick volta à cena com mais uma de suas narrativas diferenciadas, fragmentadas e cheias de pensamentos, palavras não ditas e muita beleza. Song to Song nos parece, mais que uma história, um compêndio de lembranças. É como se os protagonistas revisitassem as suas próprias histórias e paixões e falassem sobre tudo aquilo como pessoas um tanto “onipresentes” sobre tudo o que acontecia. Um filme muito peculiar, bem ao estilo de seu realizador.

A HISTÓRIA: Ele abre a porte devagar enquanto ela espera com o rosto perto da parede e da porta. Faye (Rooney Mara) confessa, em suas reminiscências, que houve um tempo em que sexo bom, para ela, tinha que ser violento. Faye e Cook (Michael Fassbender) se provocam sobre o chão. Faye continua comentando sobre como, para ela, era importante tentar sentir algo. E que ela decidiu experimentar tudo que podia. Por sua parte, Cook vivia a vida freneticamente. Outras pessoas aparecem em cena. Pessoas das quais vamos saber parte de suas histórias e desejos.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Song to Song): Para assistir a este filme, não é preciso nenhum manual de instruções. Mas é altamente recomendado conhecer o estilo do diretor Terrence Malick. Especialmente o seu “mais recente” estilo de contar histórias de uma forma bastante fragmentada, de jeito “confessional” e mais artística do que o normal para Hollywood.

Não adianta assistir a um filme de Malick e achar que vai encontrar pela frente uma história “regular”, “mais uma” produção de um cineasta norte-americano. Esse diretor, que ficou 20 anos sem filmar depois de ter emplacado um sucesso de crítica e público, não se importa com convenções. Ele faz cinema como lhe parece melhor e de um jeito que faz sentido para ele. Em sua trajetória há filmes mais “palatáveis” e outros nem tanto. Depois de fazer o elogiado Days of Heaven, em 1978, Malick voltaria a lançar um longa apenas em 1998, The Thin Red Line.

Entre os seus filmes, The Thin Red Line pode ser considerada uma produção mais “mainstream” ou mais “facilmente digerível” pelo grande público. Mas nem sempre o diretor trabalha com este perfil de filme. Vide The Tree of Life que, quem acompanha o blog há mais tempo, sabe que me pareceu um tanto pretensioso demais. Mas Malick não se importa realmente com o que os outros acham. Ele faz os filmes da forma com que para ele faz sentido e espera que cada um trabalhe as suas histórias como lhe convir melhor.

Da minha parte – e como vocês sabem, super respeito as opiniões contrárias -, gostei mais deste Song to Song do que de The Tree of Life. Os dois filmes são um tanto pretensioso, além de “artísticos”, mas uma boa diferença entre eles é que nesta produção mais recente não temos que ver a uma longa de sequência da “origem dos tempos” que vimos em The Tree of Life. Em Song to Song o que interessa é a reflexão de três personagens sobre as suas próprias buscas pelo amor.

Sim, como eu comentei antes, novamente aqui temos a uma narrativa bem fragmentada e sem um sequência “lógica” dos fatos. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). A história não é linear, ainda que, por um tempo, o espectador pode acreditar que sim. Mas conforme vamos acompanhando as diferentes reflexões dos personagens sobre as suas escolhas e trajetórias, percebemos que não. A sequência dos fatos não é apresentada conforme tudo aconteceu e sim conforme os personagens vão “revisitando” as suas próprias lembranças.

Ainda que o filme tenha três “narradores” – Faye, Cook e BV (Ryan Gosling) em algum momento comentam as suas próprias lembranças -, existe um certo protagonismo da personagem de Rooney Mara. Ela é praticamente onipresente na história. Mas há sequências em que ela não aparece e nas quais os personagens de Ryan Gosling e Michael Fassbender contam um pouco sobre outras de suas desventuras amorosas.

Song to Song não é muito óbvio sobre a narrativa “ir e vir” na linha temporal. Percebemos isso nos detalhes, como quando BV pergunta para Faye o que “eles” fizeram com a “professora”. Ora, ele está se referindo à mulher de Cook, Rhonda (Natalie Portman). Conforme a história apresentada por Malick, parece que Cook conhece Rhonda após ele ter “desistido” de Faye. A nossa protagonista, encantada por BV, acaba deixando para trás a relação intensa, um tanto “doentia” e “caótica” que ela tinha com Cook. Mas quando a secretária do ricaço DJ e músico vira amante dele, aparentemente, ele já era casado com Rhonda.

Como este filme é um grande compêndio de reminiscências de três pessoas sobre os seus amores e as suas trajetórias, não existe uma preocupação temporal na narrativa. Pense em você mesmo. Quando você começa a lembrar de seus amores e de suas escolhas, dificilmente você segue uma ordem realmente cronológica, não é mesmo? As lembranças vão e vem conforme a ordem que nós mesmos colocamos nas nossas recordações. Muitas vezes a ordem que damos vai do ponto mais importante para o que tem menos importância, mas esta graduação também vai mudando com o tempo.

O mesmo parece acontecer com este filme. E por fazer esta escolha Malick nos apresenta algo interessante e um tanto “inovador”. Poucos diretores – para não dizer que mais nenhum – teria a coragem de fazer um filme tão diferenciado. Mas esta parece ser a natureza de Malick. Então a narrativa é interessante. Ponto. Mas isso não torna o filme brilhante. Francamente, acho que a produção deixa a desejar um bocado na questão musical – eu esperava bem mais música embalando a trama – e, muitas vezes, a história abre espaço para um certo “puxa-saquismo” de estrelas da música.

Certo que o foco da história são personagens que vivem naquele ambiente. Mas tem pouco a acrescentar as “aparições” de famosos como Iggy Pop, Patti Smith ou os caras do Red Hot Chili Peppers (Flea, Anthony Kiedis e Chad Smith). É bacana vê-los interagindo com os personagens da história, mas achei um tanto “forçado” colocar Iggy Pop e Patti Smith em sequências maiores do que aparições relâmpago.

Além disso, apesar de eu agradecer de não ter uma longa e tediosa sequência sobre “a origem da vida e a evolução até hoje” ao estilo de The Tree of Life para encarar neste novo filme, achei que toda a “arte” do nosso amigo Malick carece um pouco de conteúdo. Ele ama belas imagens, assim como ama tirar interpretações “legítimas” de seus atores, incentivando eles a se “soltarem” a partir de seus personagens. Dá para perceber que os astros em cena – e a lista é admirável – também se divertem. Mas no final, o que fica para nós, espectadores de tudo isso?

Sim, quem ama belas cenas tem várias aqui para curtir. Os fãs dos astros escolhidos à dedo para esta produção também vão vê-los em grande forma. Belos, valorizados pelo diretor. Mas e aí? O que Song to Song nos diz, afinal? O roteiro retrata alguns ambientes e personagens que tem tudo a ver com o século 21. Jovens – ou não tão jovens assim, mas que gostariam de ser jovens para sempre – que gostam de viver cada dia ao máximo.

Que gostam, como bem define Faye, de experimentar. Muitas vezes eles exageram nesta experimentação porque querem sentir algo… preencher um vazio que, só tempos depois, eles vão descobrir que não será preenchido com música, raves eletrônicas, conhecendo famosos, enchendo a cara ou se drogando. O tempo ensina um bocado, assim como as experiências, é claro. Este é um filme sobre pessoas que olham para as suas próprias trajetórias e amores tentando aprender com elas. Colhemos o que plantamos e, algumas vezes, um pouco mais do que isso. Song to Song trata disso e de mais.

Achei esse filme interessante por ele tratar tão bem de pessoas que estão vivendo os nossos dias. Pessoas de carne e osso, como você e eu, a gente tendo ou não os mesmos ambientes em comum. Não importa se você se identifica com eles ou não. Temos em comum a nossa humanidade e nossa busca pelo amor – atual ou que ficou no passado. Como eles. Achei por isso Song to Song um filme bastante humano, apesar da forma dele ser tão diferenciada e, muitas vezes, esta forma roubar o protagonismo do conteúdo.

Algo que eu achei interessante nesta produção é como ela mostra que uma pessoa nunca é uma coisa só. Faye nos mostra isso de uma forma muito bem acabada. Ela vive diversos amores durante a produção. Está sempre disposta a “experimentar”. Os diferentes momentos – que eu chamo de retratos – da personagem são mostrados neste filme. Mas a junção deles nos revela o “filme” da vida da personagem. E nós também somos assim. Somos retrato (no momento) e também filme (na passagem do tempo). Não somos, assim, uma coisa só… somos múltiplos, complexos, simples e, conforme a vida passa, sabemos cada vez mais o que nos interessa e o que não.

Esta é a beleza da vida. E isso Song to Song nos apresenta. Bem no seu estilo, é claro. Mas esta mensagem está ali. Depois de Faye experimentar um bocado, ela sabe definir melhor quem ela é o que lhe interessa. O que lhe faz mais sentido. Esta é a beleza da passagem do tempo e do aprendizado. Os personagens deste filme e nós mesmos vamos aprendendo com os nossos erros e nossos acertos. Sabendo selecionar melhor o que nos faz bem e o que nos dá sentido. Faye descobre que tipo de amor lhe interessa, ainda que essa descoberta parece ter sido um tanto tardia – e as suas escolhas anteriores terem cobrado um preço grande dela através da culpa.

Estas questões renderiam outro texto, longas discussões, mas não vem ao acaso. O que importa mesmo é o que Song to Song nos apresenta histórias de amor e de vida interessantes e muito atuais. No mundo há muita fúria, caos, amor, alegria, culpa, entrega e desespero. Sentimentos e reações que são retratados nesta produção. Cook é um cara cheio de grana que gosta de mostrar o que o dinheiro pode comprar e trazer “de bom”. Mas ele não percebe a destruição que esse mesmo dinheiro e falta de freios pode causar – até que é tarde demais.

Quantas pessoas existem no mundo com este perfil? Quantas você já encontrou pela frente ou apenas ouviu falar? Cook realmente “contamina” todos que estão ao seu redor mas, tão cheio de si, não percebe como esta sua forma de vida nos 220 volts provoca estragos. Novamente temos pela frente a questão do “como as pessoas buscam preencher os seus próprios vazios”. Esta é uma questão existencial, tão ao gosto de Terrence Malick.

Para o meu gosto, desta vez, a reflexão existencial dele não é chata. Ela está cheia de amor, cenas provocantes e sensuais e muita, muita beleza. Nossos olhos agradecem, ainda que, no final, podemos pensar que seria interessante ter, além da forma e do visual, um pouco mais de “substância” na história. Mas isso tudo, evidentemente, vai depender do gosto do cliente.

Para os fãs do diretor e para as pessoas que gostam dos atores em cena, dificilmente este filme não será prazeroso. Para os demais – a maioria – ele será longo demais e “artístico” demais. Acho que eu fico no meio do caminho entre estas duas visões, pendendo um pouco para a primeira. Até porque, no fim das contas, o filme tem uma mensagem interessante. De que o amor pode sim preencher aquele vazio existencial do qual boa parte da história trata. Voltar para o simples, deixar tanta besteira de lado e focar no amor pode ser uma boa saída. Song to Song nos mostra isso.

NOTA: 8,5.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Como sempre, não gosto de ver muito sobre o filme que eu vou assistir antes de conferi-lo de perto. Sendo assim, para mim foi uma surpresa ver tantos astros nesta produção. Claro que eu já sabia que estavam neste filme Ryan Gosling, Michael Fassbender e Rooney Mara. Mas foi uma surpresa ver também Natalie Porman e Cate Blanchett, só para citar os papéis importantes. Além delas, fazem papéis menores outros nomes interessantes/importantes, como Holly Hunter, Bérénice Marlohe, Val Kilmer, Linda Emond, Lykke Li e Olivia Grace Applegate.

Isso para citar apenas os atores. Além deles, há muitos outros famosos da música. Além dos já citados anteriormente, vale citar John Lydon, Florence Welch, Big Freedia, Tegan e Sara Quin, entre outros.

Song to Song estreou em março de 2017 no Festival de Cinema South by Southwest. Até agosto ele terá participado de outros quatro festivais – incluindo os de Sydney e Melbourne.

Não encontrei informações sobre o quanto o filme custou, e os dados sobre o resultado dele nas bilheterias americanas ainda é restrito, de cerca de US$ 443 mil – resultado em 77 dias em que ele ficou em cartaz em apenas 95 cinemas. Ou seja, ele estreou em um circuito bastante fechado e ainda não se deu muito bem.

Agora, aquelas curiosidades “clássicas” sobre a produção. De acordo com o ator Ryan Gosling, eles filmaram sem roteiro. Isso fica um pouco evidente ao assistirmos à produção, não? Provavelmente os atores receberam linhas gerais sobre os seus personagens e as suas histórias e improvisaram a partir daí. Depois é que vieram as “reflexões” sobre as suas histórias – o que construiu a narrativa propriamente dita.

O ator Christian Bale teria, inicialmente, um papel com certa importância no filme. Mas, no fim das contas, ele acabou participando de apenas quatro dias de filmagens e, no final, o personagem dele foi cortado da produção porque ele se parecia muito com o de Michael Fassbender. Ou seja, seria mais um nome de peso no elenco. Além dele, iriam participar com cenas na produção mas acabaram tendo estas participações cortadas na edição final nomes como Haley Bennett, Trevante Rhodes, Boyd Holbrook, Callie Hernandez, Clifton Collins Jr. e Benicio Del Toro.

Esta produção foi rodada ao mesmo tempo que Knight of Cups, filme dirigido por Terrence Malick e lançado em 2015 – e que eu não assisti. 😉

Song to Song foi parcialmente rodado durante o Austin City Limits Festival 2012 e, por isso, apresenta alguns artistas que se apresentaram no evento naquele ano, como Arcade Fire, John Lydon e Iron and Wine.

O diretor e roteirista Terrence Malick fez uma primeira versão desta produção com oito horas de duração. Já pensaram? hehehehehe. Deste corte final o filme foi sendo reduzido até ficar com pouco mais de duas horas de duração – ufa!

Esta produção foi rodada durante 40 dias no período de dois anos. Quando as filmagens eram feitas, elas eram longas, começando pela manhã e tendo apenas uma pausa de 30 minutos para o almoço. Malick saia com os atores pela cidade, muitas vezes filmando eles dirigindo, para depois usar estas imagens na produção.

Inicialmente esta produção iria receber o título de Limitless. Depois, foi batizada de Weightless. Até que chegaram à versão definitiva de Song to Song. Segundo Malick, com este filme ele quis mostrar como a vida é feita de “uma série de momentos”, como canções que marcam a nossa trajetória. Faz sentido e é muito coerente com o que vemos na telona.

Na primeira sessão de exibição deste filme em Los Angeles, cerca de 15 pessoas deixaram o cinema antes do filme acabar. Realmente o filme não agradou a muita gente, basta ver as bilheterias…

O destaque do filme, além da direção “visceral” de Terrence Malick é, sem dúvidas, o trio de atores principais. Rooney Mara, Ryan Gosling e Michael Fassbender estão bem “soltinhos” e se saem muito bem em seus respectivos papéis. Dos três, sem dúvida alguma o destaque mesmo é Mara. Ela está excelente.

Da parte técnica do filme, como a beleza é um elemento fundamental da história, um dos principais destaques é a direção de fotografia do sempre ótimo Emmanuel Lubezki. Depois, vale citar o bom trabalho do trio Rehman Nizar Ali, Hank Corwin e Keith Fraase na edição; o design de produção de Jack Fisk; a direção de arte de Ruth De Jong; a decoração de set de David Hack; os figurinos de Jacqueline West; o trabalho dos 24 profissionais envolvidos no departamento de som; e o trabalho dos seis profissionais que trabalham com o departamento musical.

Esta produção foi rodada na cidade de Austin, no Texas; e nas cidades mexicanas de Progreso, Mérida e Izamal.

Nem sempre os filmes de Terrence Malick são realmente marcantes. Talvez esta seja uma particularidade do diretor. Os filmes dele nos despertam impressões enquanto os assistimos mas, depois, não perduram muito na memória. Acho que esta é a característica dos filmes sem roteiros marcantes. Tanto isso é verdade que, por exemplo, não lembrava de ter assistido a To The Wonder, produção de Malick após The Tree of Life. Reparei, ao encontrar a crítica do filme, que gostei mais dele do que do anterior. 🙂

Os usuários do site IMDb deram a nota 6 para esta produção, enquanto que os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 58 críticas negativas e 44 positivas para a produção, o que lhe garante uma aprovação de 43% e uma nota média de 5,4. Realmente os críticos parecem ter gostado pouco da produção. Curioso que os críticos aprovaram em 84% The Tree of Life. Realmente o meu gosto não bate com o deles. hehehehe

Este é um filme 100% dos Estados Unidos. Por causa disso ele entra para a lista de produções que atende a uma votação feita há tempos aqui no blog.

CONCLUSÃO: Mais um filme artístico com a assinatura de Terrence Malick. Sim, o diretor tem um estilo próprio e esta produção é mais uma chance dele mostrar isso. Explorando a beleza dos lugares e das pessoas e um estilo de vida à la “carpe diem” nos 200 volts, Song to Song nos conta algumas histórias de amor embaladas por algo de música. Mais que som, o que vemos em cena é desejo, tesão, fúria, suavidade, e muitas, muitas reminiscências. O filme inteiro é como se alguém olhasse para trás, na própria história, e divagasse sobre o que viveu. É uma produção interessante, especialmente se você gosta do diretor e/ou dos atores. Mas vá com paciência. Porque este é um filme bem ao estilo Malick. Lento e “filosófico”, muitas vezes pretensioso e um bocado bonito.

Kedi – Gatos

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Um filme sobre gatos e sobre gente. Kedi nos apresenta cenas belíssimas de felinos, dos mais variados tipos, da cidade onde eles vivem, Istambul, e também, como se não fosse possível evitar, das pessoas que convivem com estes belos animais a cada dia. Diferente do que alguém poderia pensar inicialmente, este documentário não é recomendado apenas para quem gosta de gatos. Ele deveria ser assistido por qualquer pessoa que é interessada em conhecer outras culturas e outras formas de lidar com o diferente e aprender com ele. Belo filme, em mais de um sentido.

A HISTÓRIA: Começa afirmando que “gatos vivem em Istambul” há muitos séculos. Eles viram impérios surgirem e desaparecerem, assim como presenciaram o crescimento e o encolhimento da cidade. Embora eles sejam cuidados por muitas pessoas, eles vivem se um mestre. Adorados, ignorados ou desprezados, eles fazem parte da vida de todos. Depois desta introdução, vemos imagens da cidade de Istambul e, pouco a pouco, vamos entendendo a íntima relação dos gatos com esta cidade e vice-versa.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Kedi): Eu nunca me imaginei assistindo a um filme sobre gatos que me ensinasse tanto não apenas sobre estes animais, mas também sobre uma cultura, uma cidade e alguns costumes tão diferentes daqueles da sociedade onde eu cresci. A exemplo do que o maravilhoso Human nos mostra, Kedi também reforça a compreensão de que o mundo é muito vasto e cheio de formas diferentes de viver e de encarar a vida. E que esta diversidade é a parte mais bonita da Criação.

Em Kedi, é claro, os protagonistas são os gatos. Mas eles não estão sozinhos. Ainda que sejam muito independentes, eles vivem em um determinado contexto. E é a relação dos gatos com este contexto que nos revela exatamente como eles são. A exemplo dos humanos, os gatos também não são parecidos. Cada um tem uma personalidade, uma forma de pensar e de se comportar. Para quem ama estes animais, não há dúvidas de que este filme será um verdadeiro deleite.

A verdade é que a diretora turca Ceyda Torun tem um olhar todo delicado para os gatos que vivem em sua cidade natal, Istambul. Ela consegue captar com grande maestria cenas maravilhosas destes felinos cheios de personalidade e de carisma. Em diversas sequências a câmera de Ceyda Torun “caminha” próxima do chão para se colocar no mesmo plano dos gatos. Afinal, para entendê-los melhor, é preciso seguir a ótica diferenciada que eles têm. É como se a diretora nos convidasse para nos colocarmos no lugar dos felinos.

Realmente vestir a pele deles é algo impossível, mas podemos fazer um exercício neste sentido e observá-los com atenção e com cuidado. Ceyda Torun consegue, com maestria, mostrar a beleza de diversos “personagens” felinos, contando parte de suas histórias, acompanhando muitos de seus passos e, de quebra, revelando a relação que eles tem com a cidade, os lugares e as pessoas que dividem o espaço urbano com eles. As imagens são lindas, muito bem planejadas e executadas.

Mas o que mais me impressionou nesta produção, além das belas cenas dos gatos e da cidade de Istambul, foi a forma totalmente diferenciada com que o povo da cidade trata os seus felinos. Diferente das sociedades ocidentais, onde os animais são “propriedade” de algumas pessoas ou vivem abandonados nas ruas, passando por todas as dificuldades que um animal sem cuidado pode passar, em Istambul não existe esta definição de propriedade ou de abandono. Os gatos da cidade são de todos e todos se preocupam com eles.

Claro, conforme o filme vai avançando e vai se aprofundando, percebemos que na parte mais “desenvolvida” de Istambul o cuidado com os gatos se perde um bocado. Enquanto na orla e na parte menos “urbana” da cidade o sentido de comunidade e de cuidado com os gatos é preservado, nos bairros mais “desenvolvidos” existe uma possibilidade maior dos gatos serem ignorados.

Desta forma, um bocado “sem querer”, Ceyda Torun nos mostra que em áreas em que o concreto e a correria ganharam protagonismo, outros valores se perdem. Especialmente a capacidade de olhar com atenção para os lados, perceber os detalhes da cidade e as nuances de seus habitantes – sejam eles humanos, sejam eles gatos. E se pararmos para pensar, isso vale para qualquer lugar. Quando as pessoas estão correndo demais e quando elas estão mais preocupados com a segurança e em se trancar dentro de carros e de casas/apartamentos, todo o restante praticamente se perde.

O contato mais amistoso e cuidadoso entre as pessoas e delas com os animais se desvanece. Mas sempre que alguém quer resgatar isso, é possível. Basta desacelerar e começar a refletir que toda a vida é valiosa. No caso de Istambul, grande parte da cidade respeita a tradição dos gatos livres e independentes como patrimônio histórico e cultural da cidade. Interessante como as pessoas identificam a comida e a água que são deixadas para os felinos e respeitam isso. Não existe necessidade de posse e a propriedade se perde porque o carinho e o amor são livres.

A independência dos gatos é respeitada na mesma medida em que as pessoas sabem que eles precisam de atenção, de cuidado e de afeto. Homens e mulheres conseguem ter um olhar generoso para os felinos – ao menos a maioria. E este olhar cuidadoso captado com talento por Ceyda Torun nos faz pensar em como seria bacana se em todos os lugares houvesse tanto cuidado com os gatos. E não apenas com eles, mas com todos os tipos de pessoas e de animais. Afinal, toda vida é preciosa. Ou ao menos é assim que todos deveriam pensar. Já imaginaram como teríamos sociedades melhores se esta visão fosse generalizada?

Então Kedi é uma crônica interessante sobre gatos, suas histórias – contadas por outras, evidentemente -, os lugares pelos quais eles passam e as pessoas com as quais eles convivem. Como os gatos não falam, com este filme apenas lhes admiramos. E eles aparecem belos, sejam eles da raça (ou sem raça) ou da cor que for. Aprendemos e nos identificamos com eles – ou nos vemos como diferentes, mas respeitamos a distinção. Sempre é válido aprender com uma cultura tão diferente da nossa e observar como ela se organiza, se articula e se relaciona. Sempre é possível aprender algo – ou muito, no caso deste filme.

Kedi nos mostra como é diferente viver em uma cidade onde os gatos andam e vivem livremente e são cuidados por todos. Quem dera que em todas as partes fosse assim. Que os animais pudessem viver com tranquilidade e segurança e serem bem tratados (pelo menos pela maioria das pessoas, descontadas aquelas que não se importam mas que respeitam aos demais que fazem diferente). Certamente não apenas os animais ganhariam com isso, mas as pessoas também. Seríamos mais sensíveis e atentos aos detalhes, e aprenderíamos mais a respeito de nós mesmos neste contato com os gatos (e outros bichos).

O filme é lindo. Quem ama os gatos vai se apaixonar por cada cena e vai dar a nota máxima para esta produção, certamente. Eu gosto de gatos, ainda que nunca tive um para chamar de meu. Achei o filme lindo, e há um trabalho realmente primoroso da diretora em capturar não apenas as diferentes belezas dos felinos, mas também a particularidade de Istambul e de seu povo.

Só não dei uma nota maior para a produção porque eu achei que ela acaba se tornando um tanto repetitiva. Nem tanto pelos gatos, porque sempre é interessante vê-los em cena, mas principalmente pelas histórias contadas pelas pessoas da cidade. Alguns agregam valor para o filme com as suas interpretações sobre a relação deles com os gatos, assim como pela narrativa da história de alguns felinos, mas outros acabam contribuindo pouco para o filme. Ainda assim, claro, o filme é interessante por mostrar pessoas comuns e variadas como os felinos com os quais eles se relacionam. Bela produção.

NOTA: 9.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Eu já assisti a alguns documentários sobre cidades e suas pessoas, mas este é o primeiro que eu assisto sobre gatos e a sua cidade. Kedi faz uma “virada de chave” muito interessante e inteligente.

Para fazer um filme com tanta delicadeza e um olhar tão apurado, só mesmo conhecendo bem sobe o assunto que está sendo retratado. E este é o caso da diretora turca Ceyda Torun. Como o site mesmo do filme explica, ela passou os primeiros anos de sua infância convivendo nas ruas com os gatos em sua cidade natal, Istambul. Então ela tinha na memória e no coração este afeto todo pelos bichanos e um conhecimento apurado sobre a cidade e sobre os seus animais para poder nos apresentar um documentário único. Formidável!

Além de Kedi, Ceyda Torun tem no currículo apenas um curta, Consuming Love, de 2008. Ela também tem trabalhos como assistente de direção, mas ainda precisa desenvolver a sua carreira para conseguir ser mais conhecida.

Kedi tem uma direção cuidadosa, atenta e ritmada de Ceyda Torun. Certamente o olhar da diretora é um diferencial desta produção. Mas há outros elementos técnicos que também se destacam, como a linda direção de fotografia de Alp Korfali e de Charlie Wuppermann; a trilha sonora interessante e que nos ajuda a nos situar na sociedade turca feita por Kira Fontana e a edição precisa de Mo Stoebe.

Esta produção estreou no Festival de Cinema Independente de Istambul !f em fevereiro de 2016. Depois, o filme participaria, ainda, de outros nove festivais em diversos países pelo mundo. Em sua trajetória pelos festivais Kedi recebeu um prêmio, o de Melhor Filme Familiar segundo votação do júri do Festival de Cinema de Sidewalk.

Não encontrei informações sobre o custo de Kedi, mas segundo o site Box Office Mojo, esta produção faturou US$ 2,8 milhões nas bilheterias dos Estados Unidos. Não é um desempenho desprezível, especialmente porque estamos falando de um documentário sobre gatos. Mas como o filme transpassa esta noção de “documentário sobre um animal”, dá para entender o sucesso dele na propaganda boca a boca.

Como a produção mesmo sugere, Kedi foi totalmente rodado na cidade de Istambul, na Turquia. O filme, por sua vez, é uma coprodução da Turquia com os Estados Unidos.

Agora, algumas pequenas curiosidades sobre esta produção. 😉 As imagens feitas sob a “perspectiva dos gatos”, ou seja, no mesmo plano em que eles caminham, foram feitas com a adaptação de uma câmera sobre um carrinho de controle remoto.

Em alguns edifícios é possível ler a mensagem “Erdo Gone”. Esta era uma mensagem comum em Istambul e mostrava a insatisfação de grande parte da população com o governo de Recip Erdogan.

Uma das pessoas que aparecem no filme, Bulent Ustun, é um famoso criador de quadrinhos turco. Ele criou o personagem “Kotu Kedi Serafettin”.

O filme é dedicado para os gatos de Istambul e para todos os moradores da cidade que amam e que cuidam destes animais.

Gente, eu sei que ultimamente eu tenho dado um monte de 9 para os filmes aqui do blog… mas é que eles realmente mereceram um 9, o que eu posso fazer? hehehehe. Sei que vocês vão me entender. 😉

Interessante que Kedi é uma produção do YouTube. A exemplo do que o Netflix e outras empresas com modelo de negócios digital vem fazendo, o YouTube também lança uma brisa nova para a produção cinematográfica. Quem gosta de cinema agradece.

Os usuários do site IMDb deram a nota 7,9 para esta produção, enquanto que os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 85 críticas positivas e apenas duas negativas para o filme, o que garante para Kedi uma aprovação de 98% e uma nota média de 7,7.

CONCLUSÃO: Está certo o senhor que em certo momento deste filme diz que alguém que não gosta de animais não deve ser uma boa pessoa. Independente do quanto você conviva com eles ou não, mas realmente apreciar toda e qualquer vida sobre a Terra é uma questão de respeito e de evolução. Kedi nos mostra uma sociedade que convive de forma muito diferenciada com os gatos e que nos faz pensar sobre outras questões. Como, por exemplo, o respeito que somos capazes de cultivar e a liberdade que somos aptos a dar para aqueles que amamos e admiramos. Também nos faz refletir sobre a noção de propriedade e de co-dependência. Enfim, um filme belo e muito rico em significado ao mesmo tempo.

Poesía Sin Fin – Endless Poetry – Poesia Sem Fim

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O retrato de um artista quando jovem, um pouco de sua trajetória e do seu país com diversos altos e baixos. Poesía Sin Fin é uma obra interessante e que apresenta uma visão única de um artista sobre o seu próprio passado. Apenas alguém que olha para trás pode ver com tanta riqueza de detalhes, fantasia e autocrítica os passos que deu pelo caminho. Apresentando alguns recursos interessantes e uma e outra inspiração do teatro, Poesía Sin Fin nos apresenta um pouco mais sobre um Chile desigual, romântico e ao mesmo tempo transgressor. Realmente interessante para quem gosta do tema artes e para quem se interessa pela América Latina.

A HISTÓRIA: Um casal caminha com o filho ao lado em direção ao mar. A mãe, Sara (Pamela Flores), chora e é consolada pelo marido, Jaime (Brontis Jodorowsky). O garoto, filho deles, Alejandro (Jeremias Herskovits), anda sozinho por diferentes figuras que representam as suas lembranças. Alejandro Jodorowsky declama uma de suas poesias que fala sobre como ele dixou a sua terra, cheia de lágrimas, para trás. Ele retornou para a Rua Matucana que, hoje, está em decadência, mas que em sua época era parte de um bairro de trabalhadores.

As memórias dele nos levam para o passado, para esta época com cenários e pessoas muito diferentes. Quando uma pessoa era morta na rua com facilidade para, na sequência, ter os seus pertences roubados por garotos pobres que viviam pelas ruas. Os tempos eram complicados, e começamos a acompanhar aqueles anos no Chile sob a ótica de Alejandro.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Poesía Sin Fin): Esta produção chama a atenção, logo nos primeiros minutos, pelo estilo interessante – tanto visual quanto narrativo. O que vemos em cena tem um ritmo ligeiro e interessante, pelo menos no início da produção. A visão artística do roteirista e diretor Alejandro Jodorowsky é bastante desenvolvida.

Ele mistura todas as artes para fazer este filme. Muito da dinâmica que vemos em cena é do teatro – incluindo os “ajudantes de palco”, figuras que aparecem volta e meia para pegar ou trazer objetos que serão usados pelos atores em cena. Mas há também elementos fortes de artes plásticas e uma música transversal e importante – da mãe do jovem artista, que fala cantando, até outros momentos em que a música se torna uma peça importante em cena. Também há espaço para a dança e para o circo, citados em diferentes momentos.

Desta forma, de maneira muito natural e nada forçada, Jodorowsky demonstra o seu amor profundo por todas as manifestações artísticas. Com especial apreço, é claro, para a poesia – que está presente não apenas no título da produção, mas na forma de vida que ele escolhe para si. A produção começa em um momento importante para as memórias do artista. No dia em que ele vê uma morte acontecer na porta de casa e que avança com ele descobrindo a poesia em um livro de um cidadão que é expulso da loja do pai após ele ser acusado de roubo.

No livro que ele pega da cesta do cliente expulso ele encontra o poema “Romance Sonâmbulo“, de Federico Garcia Lorca, e outras preciosidades da obra do autor. Inebriado com aquelas palavras, ele decide que se tornará também um poeta. O pai, um comerciante que concentra toda a sua atenção em ganhar dinheiro, não aceita a ideia do filho. Para ele – que simboliza a classe média chilena e, cá entre nós, de diversos outros países -, o único futuro desejável para o filho é dele estudar para ser médico (e, com isso, ganhar bastante dinheiro).

A visão de Jodorowsky sobre o próprio passado parece uma grande alegoria, com todos os seus exageros e simplificações. Assim, a família da mãe é mostrada com bastante frieza, representada por um bando de gente cruel e apegada, a exemplo do pai dele, ao dinheiro, ao passado e a um monte de regras. A mãe dele, Sara, é a única vista com um pouco mais de lirismo e “bondade”. O pai é um sovina, e o pré-adolescente Alejandro resolve, em um encontro na casa da avó, dar um basta a tudo aquilo.

Ele é expulso pela tia e acaba sendo “socorrido” pelo primo Ricardo. Ele apresenta Alejandro para as irmãs Carmen e Verônica Cereceda, amantes da arte e duas “mecenas” que incentivavam artistas e potenciais artistas daquela época. E é assim que Alejandro consegue sair de casa e viver uma vida livre, onde pode escrever à vontade e conhecer muita gente interessante que frequenta a casa das irmãs. Depois de alguns anos, já adulto, ele é incentivado pelas irmãs a procurar a sua própria musa e a conhecer outros artistas em um bar da cidade.

A partir daí o filme entra em uma viagem muito particular de Jodorowsky em busca de sua própria identidade artística e como indivíduo. Nesta procura ele encontra a poetisa Stella Díaz Varín (também interpretada por Pamela Flores), com quem perde a virgindade e com quem vive um grande amor, e outras pessoas importantes para a sua trajetória, como Enrique Lihn (Leandro Taub), que se torna um grande amigo. Interessante como o filme de Jodorowsky tem poucos personagens realmente importantes e como ele utiliza alguns atores para interpretar diferentes papéis relevantes.

Essa escolha, para mim, serve para reforçar ainda mais a “confusão” um tanto onírica da lembrança do passado do roteirista e diretor – é como se ele nos dissesse que ninguém é capaz de realmente rever a própria história sem enchê-la de fantasia e de alguma inconsistência. Quando Stella aparece em cena, ainda que esteja caracterizada de forma bastante exagerada, fiquei pensando o quanto ela se parecia com a atriz que interpretava a mãe do protagonista. Depois descobri que se tratava da mesma atriz – o que faz todo o sentido.

Ainda que a caracterização diferencie bastante as duas personagens interpretadas por Pamela Flores, faz todo o sentido – e é um bocado óbvio, também – Jodorowsky ver uma grande semelhança no primeiro amor dele e a própria mãe (Freud explica). Da minha parte, achei o começo do filme e a parte final mais interessantes do que o “recheio”. Acho que há muitos momentos da busca do artista por sua própria identidade – o que inclui todo o ir e vir da relação com Stella – que poderiam ser sintetizados e que parecem muito lugar-comum.

Nestas partes eu acho que Jodorowsky perde um pouco da inovação que ele apresenta em outros momentos da produção. O começo do filme, com aquela mudança de cenário e de tempo histórico, assim como as sequências em que ele apresenta características interessantes do Chile – destaco, neste sentido, toda a sequência do Carnaval que, guardadas as devidas proporções e diferenças históricas e de latitude, nos fazem lembrar Federico Fellini e as suas próprias revisitas ao passado – são os pontos fortes da produção.

Todos os momentos em que Jodorowsky se apresenta como um amante disposto a tudo para “conhecer” o amor e para tirar proveito dele – inclusive traindo a confiança do melhor amigo e ficando com a sua ex-companheira (ou atual, não fica claro) Pequeñita (Julia Avendaño) – me pareceram um bocado um artifício de auto-elogio. Quando o diretor sai de si mesmo e olha mais para o que lhe cerca, o filme ganha em interesse.

Apenas esta inconstância da história, que acaba tendo altos e baixos entre o artista olhar mais para dentro de si ou mais para o que lhe cercava, faz o filme não ser melhor. Mas, no geral, pela visão artística interessante de Jodorowsky e pelo seu estilo felliniano, o filme mais que se justifica. Ele merece ser visto. Ele é bem feito e nos apresenta um pouco mais de um dos países latinos dos quais deveríamos saber mais – afinal, estamos todos próximos e, guardadas as devidas proporções, compartilhamos das mesmas dores e do mesmo terror de regimes absolutistas e tiranos.

NOTA: 9.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Este é o décimo trabalho do diretor Alejandro Jodorowsky. Ele estreou na direção com o curta La Cravate, em 1957. Com 20 minutos de duração, o curta de estreia dele adaptava uma história de Thomas Mann sobre um vendedor de cabeças humanas. O primeiro longa de Jodorowsky foi lançado em 1968: Fando y Lis, uma produção que já era baseada nas memórias do chileno que nasceu em Tocopilla em 1929.

Nos primeiros de sua vida, Alejandro vivia em um Chile governado pelo militar Carlos Ibáñez del Campo. Vale lembrar que Alejandro nasceu em pleno 1929, ano da eclosão de uma grande crise econômica mundial. Ou seja, aquela pobreza e violência que vemos no começo de Poesía Sin Fin não eram exageradas – apenas apresentadas de forma alegórica. Quando o general volta ao poder, como o filme mostra (ele é interpretado por Bastián Bodenhöfer), Jodorowsky resolve deixar o Chile para trás.

Poesía Sin Fin não mostra, mas antes de Jodorowsky decidir deixar o país, em 1955, imigrando definitivamente para Paris, ele saiu da cidade natal para estudar na capital chilena, Santiago. Na produção o diretor e roteirista parece ter preferido simplificar a história sugerindo que ele ficou o tempo todo na cidade dos pais. Mas a verdade é que aos 13 anos ele se mudou para Santiago, onde trabalhou como palhaço de circo e como marionetista (um pouco disso é mostrado no filme). Em Paris ele fez parte de um coletivo de artistas que produziu diversos livros e peças de teatro. E, aqui e ali, também produziu alguns filmes e curtas. Um sujeito interessante, sem dúvida.

Quem observou o nome dos atores envolvidos nesta produção percebeu que alguns dos principais dividem o mesmo sobrenome que o diretor e roteirista da produção, correto? Pois sim. Além do próprio Alejandro Jodorowsky aparecer em cena em uma autorreferência pontual, dois filhos dele fazem papéis importantes na história: Brontis interpreta a Jaime que, na verdade, foi o avô dele na vida real; e Adan interprata ao próprio pai em sua fase adulta. Além deles, Jodorowsky teve ainda outros dois filhos: Axel e Teo. Eles não aparecem em cena.

Algo curioso nesta produção é como Jodorowsky apresenta aos “figurantes” e personagens sem importância e/ou com pouca relevância para a história. Seja as pessoas das ruas, seja as que frequentam muitos dos locais em que ele vai, todas usam máscaras e/ou estão com cabeças baixas. É como se ele demonstrasse, desta forma, que aquelas pessoas não tem importância na vida dele ao mesmo tempo que faz uma leve crítica para a “massa” que não se diferenciava e que estava apática em um Chile que ficava cada vez pior, mais extremista, preconceituosos e pouco afeito ao que era diferente. Uma crítica que segue válida para diferentes latitudes nos dias de hoje.

O diretor e roteirista faz, com Poesía Sin Fin, um grande manifesto em defesa dos artistas. Ele são mostrados sempre da melhor forma, como transgressores, pessoas que se preocupavam com a beleza e com incentivar a vida em todas as partes contra um país cada vez mais cinzento. Sem dúvida alguma ele tem uma visão apaixonada para a sua trupe. E isso fica evidente neste filme.

Poesía Sin Fin é uma produção feita para o alter ego do diretor brilhar. Desta forma, claro que os destaques de interpretação são os atores escalados para vestir a “pele” de Jodorowsky: Jeremias Herskovits e, principalmente, Adan Jodorowsky. Além deles, brilha com os seus personagens caricaturais a competente Pamela Flores. Também gostei muito do trabalho de Leandro Taub, que faz um dueto interessante com Adan Jodorowsky.

Além destes atores e dos outros já citados, vale comentar as pontas de Carolyn Carlson como Maria Lefevre, que lê o tarô para Jodorowsky; Ali Ahmad Sa’Id Esber como Andrés Racz; e Felipe Ríos como o poeta Nicanor Parra, bastante admirado pelo protagonista. Eu gostaria de citar a outros nomes que tem certa relevância nesta produção mas, infelizmente, não encontrei a relação completa dos atores que participaram deste filme. Fico devendo.

Jodorowsky dedica esta produção para o amigo Michel Seydoux, produtor de cinema francês responsável, entre outros títulos, por Cyrano de Bergerac.

Pesquisando mais sobre Jodorowsky eu soube que ele era um dos grandes ídolos de John Lennon. Em 1970, por exemplo, o filme dirigido por Jodorowsky “El Topo” chegou aos Estados Unidos por influência de Lennon e virou cult. Admito que eu não tinha, até agora, assistido a um filme dele. E desconfio que este Poesía Sin Fin seja o filme menos “viajandão” e/ou com tintes psiquiátricos/artísticos dele. Comecei bem, então. 😉 Neste artigo da Wikipédia eu encontrei mais informações sobre o diretor.

Entre os aspectos técnicos do filme, destaco os efeitos visuais do trio Felipe Astorga, Didier le Fouest e Vincent Perzo; a trilha sonora de Adan Jodorowsky; a direção de fotografia perfeita de Christopher Doyle; a edição de Maryline Monthieux; e os figurinos de Pascale Montandon-Jodorowsky.

Poesía Sin Fin estreou no Festival de Cinema de Cannes em maio de 2016. Depois o filme passaria por outros 20 festivais – a produção, claramente, tem um perfil muito mais de festivais ou de circuitos pequenos do que o perfil para ser exibido em vários cinemas.

Nesta trajetória, o filme ganhou um prêmio e foi indicado a outros dois. O único prêmio que ele recebeu foi o de Melhor Narrativa segundo a escolha do público no Festival Internacional de Cinema de San Francisco.

Este é o segundo dos cinco filmes de memórias que Alejandro Jodorowsky planeja realizar. O primeiro da série foi La Danza de la Realidad, de 2013. Eu não assisti a este filme, mas agora eu acho que entendo melhor o que Jodorowsky nos apresentou inclusive em Poesía Sin Fin. No filme de 2013 ele mostrou a primeira parte da vida dele, especialmente a infância, até quando eles deixaram a cidade em que ele nasceu. O segundo filme, Poesía Sin Fin, na verdade é ambientado em Santiago, na Capital. Ah sim, daí faz mais sentido. 😉

Aliás, como o filme mesmo sugere, esta produção foi totalmente rodada em Santiago do Chile.

Os usuários do site IMDb deram a nota 7,7 para esta produção, enquanto que os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 22 críticas positivas e apenas uma negativa para a produção, o que lhe garante uma aprovação de 96% e uma nota média de 7,2.

Este filme é uma coprodução do Chile com a França.

CONCLUSÃO: A visão de um artista é sempre diferenciada. Mais inspirada, provocadora e/ou atenta aos detalhes do que a de um “cidadão comum”. Isto fica evidente com este Poesía Sin Fin, uma ode de seu realizador para o país que ele deixou para trás e para todas as experiência que viveu por lá. Ao mesmo tempo que descobrimos pontos interessantes da vida dele e sobre o Chile, também pensamos sobre a nossa própria trajetória. A veríamos de forma tão generosa ao mesmo tempo que precisaríamos recontá-la para fazer as pazes com quem não conseguimos na vida real? Um belo filme por todos os seus detalhes e, claro, descontando as repetições e os momentos menos interessantes da revisita ao passado de Alejandro Jodorowsky.

Star Wars Episode IV: A New Hope – Star Wars – Guerra nas Estrelas – Guerra nas Estrelas Episódio IV: Uma Nova Esperança

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Personagens interessantes, atores carismáticos e um enredo recheado de ação e de pitadas de comédia e de filosofia. Star Wars Episode IV: A New Hope (conhecido no ano de lançamento apenas como Star Wars) levou os filmes de ficção científica para um novo patamar – muito mais pop do que o cinema poderia imaginar até então. Assistir ao filme 40 anos depois dele ser lançado mostra que alguns elementos dele ficaram realmente datados – mas estes elementos são muito sutis. O filme continua encantando, mesmo tanto tempo depois, e mostra que sobrevive ao passar do tempo por apresentar muitas qualidades e uma e outra cena que entrou para a história do cinema.

A HISTÓRIA: “A long time ago in a galaxy far, far away…” (Há muito tempo, em uma galáxia muito, muito distante…”) Star Wars. Em um período de guerra civil, espaçonaves rebeldes, partindo de uma base secreta, atacam e conquistam a sua primeira vitória contra o perverso Império Galáctico. Durante a batalha, espiões rebeldes conseguem roubar os planos secretos da arma definitiva do Império, a Estrela da Morte, uma estação que é capaz de destruir um planeta inteiro.

Perseguida pelos agentes do Império, a princesa Leia (Carrie Fisher) viaja para casa protegendo os planos que podem salvar o seu povo e restaurar a liberdade na galáxia… Após esta introdução, o filme começa a contar a história da perseguição dos rebeldes, a missão dada pela princeia Leia para R2-D2 (Kenny Baker) que, acompanhado de C-3PO (Anthony Daniels), acaba caindo no planeta de Luke Skywalker (Mark Hamill). É lá que o jovem órfão irá, motivado pela mensagem da princesa Leia, procurar o antigo jedi Ben Obi-Wan Kenobi (Alec Guiness) e começar a sua longa aventura.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes desta produção, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Star Wars Episode IV): Quem tem 30 anos de idade ou mais dificilmente vai conseguir assistir a este filme sem ter diversas “emoções”. Nossas caixinhas de boas lembranças são acionadas a cada acorde da música fantástica de John Williams, especialmente na introdução clássica feita em Star Wars. Difícil não ficar arrepiado(a) ou levemente excitado(a) com aquela introdução.

A primeira vez que eu assisti a Star Wars Episode IV foi na década de 1980, quando eu era criança – ou seja, provável que eu tenha assistido em meados daquela década. Depois, devo ter assistido nos anos 1990 mais uma vez, e isso foi tudo. Quem tem 30 anos ou mais deve ter tido a mesma experiência – afinal, esta produção passava muito naquelas décadas logo após ela ter sido lançada. O filme que consagrou George Lucas virou um clássico instantâneo e uma produção difícil de ser ignorada.

Como a maioria dos clássicos do cinema, Star Wars também pode ser assistido de duas formas diferentes: fazendo um esforço para situar o filme no contexto de sua época e imaginar o impacto que a produção teve naquele momento e vendo ela com os “olhos atuais”, avaliando o quanto o filme consegue ainda ser “fresco” e/ou o quanto ele consegue provocar impacto. Nestas duas provas Star Wars Episode IV passa com louvor.

Primeiro, pensando neste filme sendo lançado há 40 anos, na segunda metade dos anos 1970. Aquela década foi muito interessante em termos artísticos, especialmente com a música e o cinema, e marcada por diversas guerras, conflitos e por uma crise do petróleo que afetou diversos países – especialmente os Estados Unidos. Ainda que a corrida espacial e armamentista encerraram durante esta década, estes eram assuntos presentes por boa parte do período. As pessoas sonhavam com o que havia além da Terra – afinal, o homem havia chegada à lua apenas oito anos antes de Star Wars ser lançado, em 1969.

Neste contexto é que o primeiro filme de Star Wars foi lançado. A produção é instigante do início ao fim. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Ela começa com ação e com expectativa, com a invasão da nave da princesa Leia, e termina também com uma perseguição eletrizante – com o jovem Luke Skywalker sendo ajudado pela Força na hora de dar um tiro certeiro e destruir a Estrela da Morte. O ritmo desta produção, junto com algumas cenas que viraram clássicas e que foram cuidadosamente planejadas por George Lucas são algumas das grandes qualidades deste filme.

As outras são os personagens, interessantes e interpretados de forma muito carismática pelo ótimo elenco escolhido por Lucas, e as qualidades técnicas de Star Wars em uma época em que os efeitos especiais eram feitos “na unha” e sem a ajuda de computação gráfica. Neste sentido, dão um show os efeitos especiais mecânicos que permitiram as perseguições espaciais – a sequência final do filme, mesmo um tanto “tosca” segundo os critérios atuais, é de tirar o fôlego e cumpre muito bem o seu papel -, os efeitos sonoros e a trilha sonora marcante e fundamental de John Williams.

Se qualquer um destes elementos não tivesse a qualidade que têm em Star Wars, certamente o filme não seria envolvente e interessante como ele de fato é. O roteiro propriamente não é tão excepcional assim. Verdade que ele envolve bem a audiência e consegue entregar de forma cirúrgica apenas o que interessa para Lucas atrair o público para o filme seguinte da saga – e para os outros que ainda viriam. Mas se analisarmos bem o que Episode IV nos apresenta, ele tem um humor um tanto juvenil e simplório. Ele devia combinar bem para a época e para Lucas realizar os seus planos de mostrar a evolução dos personagens, mas não deixa de chamar a atenção este caráter um tanto “pueril” desta primeira história.

Luke Skywalker é um jovem órfão que não sabe praticamente nada de suas origens. Ele está louco para sair do local isolado em que ele vive com o tio Owen (Phil Brown) e a tia Beru (Shelagh Fraser) e buscar as aventuras que tanto deseja fora dali. No fim das contas e de maneira trágica ele consegue realizar este sonho. Ele se torna um herói e, nos filmes seguintes, vai descobrir a verdade sobre o próprio passado. Em Star Wars Episode IV somos apresentados a ele e a outros personagens importantes da saga.

Todos parecem um tanto juvenis nesta produção. E isso parece ter sido meticulosamente calculado por George Lucas. A escolha combinava com a época, podia fazer o filme chegar a todos os públicos (inclusive crianças e jovens) e, claro, abria margem para apresentar uma narrativa mais densa e de amadurecimento destes mesmos personagens no futuro. Na verdade, George Lucas foi muito inteligente em suas escolhas. Este filme funciona bem de forma isolada e consegue, ao mesmo tempo, atrair o interesse para que o público não resista a acompanhar a saga. Não por acaso Star Wars movimentou multidões de “seguidores” e de adeptos com o passar das décadas.

Além de tudo isso, digo que é emocionante ver a grandes atores e personagens em cena. Impossível não ficar arrepiado(a) com a cena em que Luke Skywalker sai da mesa com os tios para encarar o pôr do sol com dois sóis ou aquela em que Ben Obi-Wan Kenobi filosofa com Luke sobre a última vez em que alguém lhe chamou de Obi-Wan. Também é emocionante ver aos carismáticos R2-D2 e C-3PO em suas primeiras trocas de farpas e finas ironias caminhando para cima e para baixo. E quando o jovem Harrison Ford entra em cena? O ator é o mais carismático de todos e mostra neste filme, assim como nos demais da saga e nas produções Indiana Jones, porque é um nome inevitável na história do cinema.

Sim, Star Wars Episode IV é um filme imperdível e inevitável. Se você gosta de cinema, não tem como ignorá-lo. A boa nova sobre isso é que esta produção é fácil de assistir. A narrativa envolvente, com várias sequências de ação e com a apresentação de personagens interessantes torna a experiência fácil – diferente de outros clássicos mais densos. Com um tom um tanto juvenil, este filme também pode ser assistido por todos os públicos sem maiores problemas – outras produções da saga tem uma complexidade maior e não podemos falar delas da mesma forma. De quebra, você tem uma pequena aula de cinema na sua frente.

Ah sim, e há tudo aquilo que os fãs da saga gostam de ressaltar. A filosofia por trás da obra de George Lucas começa a ser apresentada neste filme. Bebendo de diferentes fontes históricas, da filosofia e até da religião, Lucas cria a sua própria “religião”. Há diferentes formas de interpretar o trabalho de Lucas que começa a ser apresentado neste Star Wars Episode IV.

Mas claramente ele se inspira em fatos da História, que teve vários casos de ditadura – inclusive naqueles anos 1970 – e de divisão preto versus branco (vide Guerra Fria, capitalistas versus comunistas e tantas outras disputas) assim como bebe em mitologias e religiões para tratar de uma Força (Deus ou a força “universal” que você quiser escolher) que estaria em todas as partes e que, segundo este primeiro Star Wars, emanaria de cada ser vivo e poderia ser usada para o Bem ou para o Mal.

Não é por acaso o uso das cores na produção – o negro simboliza a escolha pelo Mal feita por Darth Vader (David Prowse, com voz de James Earl Jones) e o branco de Luke Skywalker representa o Bem. As roupas de Obi-Wan também lembram a dos jesuítas e mostram um certo “equilíbrio” da Força. E por aí seguem as referências. Star Wars mudou a história do cinema e da ficção científica. Muito do que vemos neste filme inaugural iriam inspirar diversas outras produções e outros tipos de produtos. Aliás, quem lembra dos primeiros jogos legais para computador vai lembrar de diversas sequências deste filme que podiam ser jogadas pelos fãs depois. Enfim, esta produção é um grande deleite, não importa sob que ótica você a analise.

NOTA: 10.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Como eu comentei antes, Star Wars Episode IV tem um certo tom “pueril” que representa bastante a sua época e a estratégia de chegar a todos os públicos de George Lucas. Esse tom pode ser visto no comportamento dos personagens principais da produção e também nos detalhes de todos os personagens – como nas “batalhas” atrapalhadas entre os soldados do Império e os rebeldes. Neste sentido o filme é um pouco datado, mas nada que ofusque as suas qualidades.

Os números do que George Lucas começou com esta produção impressionam. Primeiro que, segundo o site The Numbers, até hoje Star Wars Episode IV consegue ser o filme recordista em bilheteria nos Estados Unidos (se levarmos em conta a inflação desde que a produção foi lançada) com nada menos que US$ 1,42 bilhão como resultado. Star Wars Episode VII: The Force Awakens é o recorde nas bilheterias se não fizermos este reajuste da inflação – ele fez US$ 936,66 milhões apenas nos Estados Unidos. Observando as bilheterias mundiais, contudo, o sucesso da saga é menor – ela perde para Avatar, com US$ 2,02 bilhões.

Mas os números de Star Wars são superlativos também quando comparamos as principais franquias do cinema – e olhando apenas para os filmes, porque se fôssemos analisar os produtos derivados deles, os números seriam muito maiores. A saga Star Wars com 12 filmes lançados e previstos entre 1977 e 2019 contabiliza uma bilheteria ajustada pela inflação de US$ 6,35 bilhões. Este número a coloca à frente da franquia James Bond, que vem em segundo lugar com 25 filmes entre 1963 e 2015 e US$ 5,47 bilhões (corrigidos pela inflação) e dos filmes do Universo Marvel com 22 produções entre 2008 e 2019 e US$ 4,97 bilhões. Certamente a única ameaça para a saga de George Lucas é a dos filmes Marvel.

Entre os atores desta produção, o destaque vai para Harrison Ford como Han Solo; Mark Hamill como Luke Skywalker; Alec Guiness como Ben Obi-Wan Kenobi; e Carrie Fisher como a princesa Leia Organa. Sem mostrar o rosto, mas tendo uma presença marcante e “sentimental” na lembrança dos fãs, vale destacar também Peter Mayhew como Chewbacca; Kenny Baker como R2-D2 e Anthony Daniels como C-3PO. Estes são os inevitáveis. Também não dá para ignorar a presença forte, ainda que com menos destaque neste filme do que no seguinte, do Darth Vader interpretado aqui por David Prowse.

Entre os personagens que perduraram menos tempo na saga e que aparecem neste filme com certa relevância, vale destacar Peter Cushing como o Grande Moff Tarkin, comandante que tenta acabar com os rebeldes usando a Estrela da Morte; Phil Brown como o tio Owen; Shelag Fraser como a tia Beru; Jack Purvis como o chefe Jawa, que pressiona Solo; Denis Lawson como Red Two, amigo de Luke; Drewe Henley como Red Leader, que comanda o grupo que tenta acabar com a Estrela da Morte; e Angus MacInnes como Gold Leader, que comanda o outro grupo no ataque.

Da parte técnica do filme, a menção especial vai para a trilha sonora inesquecível de John Williams. Não por acaso ele se tornou um dos grandes compositores do cinema de todos os tempos. A música de Star Wars é um de seus trabalhos mais icônicos. Mas vale destacar também outros profissionais que fazem um trabalho excepcional neste filme, como o diretor de fotografia Gilbert Taylor; o design de produção de John Barry; os figurinos de John Mollo; a edição de Richard Crew, Paul Hirsch, Marcia Lucas e George Lucas; o departamento de arte que faz um trabalho fundamental em uma época sem computação gráfica e que era composto por 21 profissionais; o departamento de som, sem o qual este filme não teria a qualidade que ele tem, e que era composto por 21 profissionais; os efeitos especiais feitos por John Schoonraad, John Stears, Tony Dyson, Bob Keen, Robert Nugent e Petro Vlahos; os efeitos visuais fundamentais realizados com miniaturas e com efeitos de lentes por 80 profissionais – e mais uma equipe considerável no relançamento do filme em 1997.

Este filme foi dirigido e teve o roteiro escrito por George Lucas. Diferente do que alguns desavisados podem pensar, este foi apenas um dos quatro filmes da saga Star Wars que ele dirigiu. Além desta produção inaugural da saga, ele dirigiu apenas os Episódios I, II e II, lançados, respectivamente, em 1999, 2002 e 2005. Os filmes que seguiram ao clássico Episode IV não foram dirigidos por Lucas e sim por Irvin Kershner e por Richard Marquand, nesta sequência. Antes de se consagrar com Star Wars Episode IV, Lucas havia dirigido, essencialmente, a curtas, e aos longas THX 1138 (lançado em 1971) e American Graffiti (de 1973). Depois vieram os quatro filmes Star Wars e nada mais. Realmente um realizador de uma saga só – a mais lucrativa da História, é preciso dizer. Imagina se as ideias dele para Star Wars não dessem certo? A história de Lucas seria diferente, certamente.

Star Wars Episode IV estreou no dia 25 de maio de 1977 nos Estados Unidos. No mesmo ano o filme estreou em vários países e, em janeiro de 1978, entrou no circuito dos cinemas do Brasil. No dia 31 de janeiro de 1997, quando a produção completou 20 anos, ela foi relançada em uma versão com recursos adicionais de efeitos especiais feitos em computador nos cinemas dos Estados Unidos – e em outros países.

Este primeiro filme da saga Star Wars teria custado US$ 11 milhões. Em sua época, sem aplicar o reajuste inflacionário, a produção fez US$ 289,9 milhões apenas nos Estados Unidos – e outros US$ 410 milhões no restante do mundo. Ou seja, aquela fortuna, para os padrões da época, de US$ 11 milhões de custo, foi multiplicada nos cinemas e garantiu um belo lucro que salvou a Fox da falência – o estúdio estava mal das pernas nos anos 1970 – e que garantiu a aposentadoria de George Lucas (ou quase isso). Além disso, Star Wars foi a primeira saga a obter uma verdadeira fortuna de merchandising e de produtos derivados do filme.

Star Wars Episode IV foi rodado em cinco países. A saber: no Tikal National Park, da Guatemala (Fourth moon of Yavin); em Ajim (Mos Eisley, Tatooine), Chott el Djerid, Sidi Driss Hotel em Matmata e Sidi Bouhlel em Tozeur (Tatooine), na Tunísia; Yuma e no Death Valley National Park (Tatooine), nos Estados Unidos; Calakmul, no México; e nos estúdios Elstree e Shepperton e nos hangares Cardington Airship (base rebelde Yavin 4) na Inglaterra.

O site IMDb apresenta nada menos que 408 curiosidades sobre esta produção. Vou citar por aqui apenas algumas delas. O diretor e roteirista George Lucas estava tão certo de que Star Wars Episode IV seria um fracasso que, ao invés de assistir à estreia da produção, ele viajou para umas férias no Hawaii com o seu bom amigo Steven Spielberg. Foi nesta viagem que eles tiveram a ideia para o filme Raiders of the Lost Ark (um dos meus preferidos de todos os tempos).

Este foi o primeiro filme da História a fazer mais de US$ 300 milhões nos cinemas.

A decisão de George Lucas de receber um salário mais baixo que o normal, para a época, para dirigir Star Wars Episode IV em troca de ter todos os direitos de merchandising de Star Wars foi considerada uma decisão tola na ocasião. Mas ele não poderia ter se dado melhor na vida. Na época, contudo, esta jogada parecia bastante ousada. Afinal, até então, brinquedos baseados em filmes nunca tinham dado muito dinheiro – mas Star Wars mudou esta lógica e abriu frente para várias outras produções fazerem o mesmo.

Quando a 20th Century Fox foi distribuir Star Wars Episode IV nos Estados Unidos, menos de 40 salas de cinema toparam exibir a produção. Para forçar os cinemas a passar o filme, a Fox disse que só liberaria o blockbuster potencial The Other Side of Midnight para quem exibisse, antes, Star Wars. E foi assim que o filme de Lucas chegou ao máximo de salas possível se tornou um fenômeno das bilheterias.

A música temática de John Williams ocupa a primeira posição na na lista AFI’s 100 Years of Film Scores.

Por falar em listas, Star Wars está na lista de filmes que aparecem na obra “1001 Filmes Para Ver Antes de Morrer” e que norteia a minha revisão de clássicos feita aqui no blog. O texto de Joanna Berry começa assim: “Ninguém esperava que o filme do roteirista e diretor George Lucas fosse um sucesso. Em se tratando de um ‘faroeste de ficção científica’ cujo elenco principal era essencialmente desconhecido (Harrison Ford, Mark Hamill e Carrie Fisher), os chefões do estúdio estavam tão convencido de que o filme iria fracassar que gentilmente cederam a Lucas, de graça, os direitos de merchandising de qualquer produto relacionado a Guerra nas Estrelas”.

E ela segue: “Obviamente, não perceberam o enorme potencial do filme e jamais esperaram que fosse gerar duas continuações, três capítulos ‘anteriores’, um derivativo baseado nos Ewoks, desenhos animados, jogos de computador, brinquedos, trilhas sonoras, livros, enormes vendas de vídeos e DVDs, doces, roupas, roupa de cama e até mesmo comida. O filme, que custou US$ 11 milhões e rendeu mais de US$ 460 milhões, não parecia ter o potencial para se tornar um enorme sucesso”.

Depois de resumir a história, Joanna Berry continua: “Guerra nas Estrelas poderia ter sido incrivelmente tolo, considerando-se que, em meados dos anos 1970, as pessoas esperavam que ‘ficção científica’ fosse algo similar aos cenários de plástico de Jornada nas Estrelas ou com efeitos como a ‘calota pendurada em um fio’ de Ed Wood em seu Plano 9 do Espaço Sideral. Mas Lucas tinhas ideias mais grandiosas. Duas décadas antes que imagens de computador fossem usadas para criar mundos fantásticos, Lucas, usando modelos ultradetalhados, truques inteligentes e locações bem escolhidas – as cenas que mostram o planeta desértico de Tatooine, onde Luke morava, foram filmadas em cenários construídos na Tunísia (reutilizadas em 1999, em Guerra nas Estrelas: Episódio I – A Ameaça Fantasma) -, conta a história de outro universo, no qual o maligno Império dominado por Darth Vader (David Prowse, com a voz de James Earl Jones) está no controle. Mas as forças rebeldes estão se reunindo para tentar derrubar os tiranos”.

Vale seguir citando o texto de Joanna Berry – e, claro, você conferir o livro, que é excelente: “Lucas criou uma mitologia que foi abraçada com entusiasmo por pessoas de todas as idades. além de dar origem a várias criaturas de uma galáxia muito, muito distante, sua linha de narrativa do bem contra o mal nos apresentou a pessoas e objetos que, desde então, tornaram-se parte de diversos idiomas de nosso planeta: o Millennium Falcon (a nave espacial de Han Solo, que Lucas originalmente imaginou com o aspecto de um hambúrguer voador), os sabres de luz (a arma similar a uma espada, com seu som característico), os Stormtroopers imperiais e, naturalmente, os cavaleiros Jedi (hoje uma parte tão integral de nosso inconsciente coletivo que uma campanha via internet sugerindo que as pessoas respondessem ‘Jedi’ a um item sobre religião num formulário de recenseamento no Reino Unido teve enorme sucesso). Ao dar vida a Guerra nas Estrelas, Lucas conseguiu criar muito mais do ue apenas um filme: criou um mundo, um novo estilo de cinema e uma ópera espacial inesquecível que jamais foi superada”.

Ela está certíssima. Star Wars supera em muito a capacidade de um filme de encantar e de entreter.

Star Wars Episode IV ganhou 56 prêmios, incluindo seis estatuetas do Oscar. Além disso, esta produção foi indicada a outros 28 prêmios. Os prêmios da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood que o filme recebeu foram de Melhor Direção de Arte-Decoração de Set, Melhor Figurino, Melhor Som, Melhor Edição, Melhores Efeitos-Efeitos Especiais e Melhor Trilha Sonora Original. Ainda que tenha recebido este número significativo de estatuetas, Star Wars perdeu nas categorias principais – Melhor Filme, Melhor Ator Coadjuvante para Alec Guiness, Melhor Diretor e Melhor Roteiro Original. Quem ganhou o Oscar de Melhor Filme em 1978? Annie Hall, de Woody Allen.

Esta produção de Lucas ganhou também o Globo de Ouro de Melhor Trilha Sonora; dois Bafta’s, de Melhor Som e o Anthony Asquith Award for Film Music para John Williams; 13 prêmios na Academy of Science Fiction, Fantasy & Horror Films entregues em 1978 – incluindo Melhor Filme de Ficção Científica, Melhor Diretor, Melhor Roteiro, entre outros; três prêmios Grammy; nove prêmios Guiness World Record.

Os usuários do site IMDb deram a nota 8,7 para esta produção, enquanto que os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 98 críticas positivas e sete negativas para o filme – o que lhe garante uma aprovação de 93% e uma nota média de 8,6. Especialmente a nota recebida pelo filme chama a atenção – muito acima de muitas outras produções. O nível de aprovação, contudo, não é tão alto.

Esta produção é 100% dos Estados Unidos. Por isso o filme entra para a lista de produções que atende a uma votação feita aqui no blog há algum tempo.

CONCLUSÃO: Um clássico que segue cumprindo bem o seu papel mesmo tanto tempo depois de ter sido lançado. O filme mais rentável da história do cinema americano tem uma série de fãs e, mais que isso, de fanáticos admiradores. Mas não é por isso que eu dei a nota máxima para Star Wars Episode IV: A New Hope. Este filme merece a melhor avaliação porque ele cumpre com maestria o seu papel. Ele entretêm ao mesmo tempo que apresenta alguns dos elementos que tornariam a saga criada por George Lucas como a mais rentável de todos os tempos. Bem conduzido e com cenas que marcam a memória de qualquer um, Star Wars Episode IV revela todo o potencial do cinema quando ele é bem planejado e bem feito. Se você ainda não assistiu – o que é algo difícil -, não pense duas vezes em colocar esta sua dívida particular em dia.

Mal de Pierres – From the Land of the Moon – Um Instante de Amor

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Algumas vezes o mais difícil é deixar-se amar. Mal de Pierres nos apresenta uma história contundente que versa sobre sanidade e loucura, amar e ser amado, vigilar e cuidar, conhecer ao outro e a si mesmo. É preciso coragem para ver o mundo como se quer, mesmo que isso seja uma loucura. Mas a maior coragem de todas é ver o mundo como ele é e (apesar ou por causa disso) realmente interessar-se pelos outros que nos rodeiam. Um filme interessante, envolvente, que vai se descortinando aos poucos na nossa frente.

A HISTÓRIA: Em um carro, Gabrielle (Marion Cotillard) organiza os lenços bordados à mão. Tira algumas comidas que ela preparou e dá para o filho, Marc (Victor Quilichini), e para o marido, José Rabascal (Alex Brendemühl). Eles estão viajando pelo interior da França com destino a Lyon, onde Marc fará uma audição em um conservatório. No caminho, Gabrielle coloca uma música clássica no rádio, mas o filho diz que aquele não é o momento. Eles chegam à noite no hotel e, no dia seguinte, seguem para a audição.

No caminho, o taxista tem que parar porque um vidraceiro está entregando uma encomenda. Quando eles finalmente conseguem avançar, Gabrielle pede para eles pararem quando ela vê o nome da Rua Commines. Ela corre até um prédio e vê um sobrenome familiar entre os proprietários: Sr. Sauvage. A partir daí conhecemos a história desta mulher e o porquê dela ter se emocionado tanto por ter encontrado aquele nome no prédio.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importante do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Mal de Pierres): Gosto de filmes que vão se apresentando aos poucos depois de nos fisgarem com uma isca certeira. Isso acontece com Mal de Pierres. Esta produção inicia a sua jornada nos mostrando uma Gabrielle aparentemente controlada, uma mãe e esposa atenciosa, “normal”, que apenas tem um rompante ao ver ao nome de uma rua que lhe é familiar. Na sequência, como tantos outros filmes, a história volta para o passado para contar mais sobre Gabrielle e sobre as razões da Rua Commines mexer daquela forma com ela.

A partir daí o filme percorre uma narrativa linear. Ainda que esta forma de tratar uma história seja bem conhecida, a forma com que o roteiro de Nicole Garcia e Jacques Fieschi, que tiveram a colaboração de Natalie Carter, é construído, como se fosse cheio de camadas que vão sendo apresentadas aos poucos, faz o espectador ficar interessado por cada nova “fase” da história.

Retomamos a história de Gabrielle em um momento específico. Como o filme começa mostrando ela com marido e filho, Mal de Pierres começa justamente na fase um pouco anterior a ela ficar comprometida com José Rabascal. Daí percebemos que ela não era “muito certa”, ao menos para os padrões da comunidade em que ela vivia e segundo a ótica da família dela. E aí o filme abre uma frente interessante sobre o que é ser “certo” ou ser “errado”.

A volta para o passado nos mostra como Gabrielle era fascinada, obcecada, possivelmente até o ponto do descontrole, pelo professor Jean Claude Tauran (Arthur Igual), que era casado e que tinha uma mulher grávida. Jean Claude não dá bola para os “delírios” apaixonados de Gabrielle, e ela sofre com a rejeição. Claramente a garota tem um desejo sexual considerável, com muitas fantasias eróticas e uma vontade enorme de se jogar em um amor romântico que lhe satisfaça todos os seus desejos e fantasias.

Preocupada com a filha, Adèle (Brigitte Roüan) percebe o olhar interessado de José Rabascal para Gabrielle e corre para tentar “arranjar” que os dois fiquem juntos. Rabascal diz que não tem nada – posses ou recursos – para oferecer por Gabrielle ou para dar segurança para os dois, mas Adèle diz que ele tem uma profissão (ele é pedreiro) e que isso será o suficiente para a nova família dar certo. Adèle também afirma que, diferente do que outros comentam, Gabrielle não é louca.

Bem, conforme a história vai se desenrolando, fica a critério do público “medir” o quanto ela é louca ou não. Mal de Pierres acaba questionando a nossa noção de loucura. Afinal, o que é ser louco? Claro que Gabrielle não tem um comportamento “usual”. Ela tem muitos rompantes e parece só fazer o que lhe dá na telha. Isso surpreende e choca as pessoas, como hoje em dia muitos se sentem incomodados com quem pensa diferente.

A verdade é que Gabrielle é uma garota cheia de desejos e que não costuma se deixar levar pelo que os outros querem ou exigem dela. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Assim, ela até se “deixa” casar com Rabascal, mas afirma que não vai ter relações com ele. De fato eles se casam desta forma e ficam nesta situação por muito tempo. Com isso, descobrimos muito sobre Rabascal. Outro homem teria agido de forma muito pior e radical, mas ele realmente gosta de Gabrielle e sabe respeitar a postura e a posição da mulher.

Gabrielle acaba cedendo, após um longo período, e abre espaço para ter relações com o marido. Mas ela deixa claro que não gosta dele, de verdade, e parece resistir o quanto pode para gostar dele. Quando finalmente é diagnosticada da forma correta – ela tem pedra nos rins, o “mal de pierres” do título -, Gabrielle é internada para receber um tratamento que vai livrá-la daquele sofrimento. Afinal, Rabascal quer um filho, e para que uma gravidez consiga chegar ao fim, Gabrielle precisa tratar o “mal de pierres”.

Inicialmente a protagonista resiste – parece que ela tem medo de enfrentar qualquer mudança em sua vida. Gabrielle está acostumada a sofrer, a ter aquelas crises horríveis de muita dor. Pensar em acabar com aquilo e de ter mais uma grande mudança na vida, que seria ter um filho, a aterroriza. O marido, diferente da família dela, que sempre achou que aquelas dores fossem “fantasias” da garota, não tem dúvidas de que ela deve ser tratada. Desta forma Gabrielle vai para um local remoto onde fica por seis semanas e onde conhece o seu novo “amor”, o tenente André Sauvage (Louis Garrel).

Enquanto está no tratamento, Gabrielle faz amizade com Agostine (Aloïse Sauvage) e perambula por todos os lugares interessada por tudo e por todos. Nestas andanças, contudo, ela fica fascinada mesmo por Sauvage. Como aconteceu com Jean Claude, ela fica fascinada pelo intelecto e pelos conhecimentos de Sauvage. Se apaixona e fantasia um grande amor com ele apenas porque vive de “amor romântico”, aquele tipo de encanto que foge do realismo/da realidade. Não interessa para Gabrielle realmente como são as pessoas pelas quais ela está apaixonada. Ela fantasia e cria em sua cabeça os amores perfeitos que ela imagina que a vão levar de sua vida “medíocre” para uma realidade de êxtase constante.

Realmente alguém que vive deste tipo de amor pode ficar louco(a). Isso acontece com Gabrielle, até que ela tem que se “conformar” com Rabascal quando Sauvage não lhe responde a nenhuma de suas cartas. A partir do nascimento do filho, Marc (interpretado por Ange Black-Bereyziat e por Victor Quilichini), e da vida com Rabascal, Gabrielle parece começar a ter mais contato com a realidade, deixa de fantasiar amores impossíveis e, finalmente, se sente um pouco realizada e aparenta maior normalidade. Ela passa a amar e deixa, um pouco ao menos, que a amem.

Até aí, o filme parece um bocado “normal”, com uma narrativa bem conduzida e ótimas atuações. Mas aí a diretora Nicole Garcia nos presenteia com uma reviravolta interessante perto do final. (SPOILER – não leia… bem, você já sabe). Gabrielle descobre, assim como quem assiste à sua história, de que não houve nenhum grande romance entre ela e Sauvage. Realmente quando ele é levado da clínica onde eles se conheceram, ele não retorna mais. O grande arrebatamento entre os dois faz parte apenas das fantasias de uma Gabrielle que tem dificuldade de viver o amor real e que precisava, no fundo, de um tratamento psicológico além do que buscava a livrar das pedras nos rins.

Bem na reta final da produção Gabrielle descobre toda a verdade e, finalmente, consegue olhar com atenção para Rabascal. Ele sempre a amou e aceitou todos os delírios e inconstâncias da mulher enquanto ela não lhe dava amor porque ele não era um “intelectual”. Rabascal era um espanhol que fugiu de seu país por causa da guerra. Era um sujeito simples, trabalhador, muito diferente do ideal de romance de Gabrielle. Mas no final ela aprende a admirar o marido, a olhar para ele sem fantasias, mas com carinho e amor. Ela finalmente deixa ele a amar de verdade e, consequentemente, consegue entregar para ele o seu amor. Um belo final para um filme com algumas camadas muito interessantes.

NOTA: 9.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Esta não é uma produção brilhante. Daquelas que quando nos pedem uma indicação de um grande filme, o nome da produção logo nos vem à mente. Mas desta última safra de filmes em cartaz nos cinemas, sem dúvida, Mal de Pierres é um dos títulos que vale conferir e indicar. Especialmente se você gosta de produções sobre o gênero humano e as relações entre pessoas e sociedade. Porque esta produção fala de amor, de expectativas, de aceitação e de autodescoberta. Uma produção simples, mas muito honesta e sensível. Vale conferir.

Além de um roteiro bem construído, baseado na obra de Milena Agus, Mal de Pierres tem uma direção cuidadosa e bem planejada de Nicole Garcia. Ela consegue valorizar as ótimas interpretações de seu elenco, especialmente de Marion Cotillard, ao mesmo tempo em que valoriza as belíssimas paisagens francesas e os entornos onde Gabrielle cresceu e onde foi viver após casar com Rabascal. Com olhar atento aos detalhes, Nicole Garcia nos apresenta um filme interessante e que tem diversos grandes momentos de construção dramática que fisga o espectador e o mantém atento o tempo todo.

Marion Cotillard… o que dizer sobre ela? Sempre gostei da atriz. Para mim, é uma das grandes de sua geração na França. Neste filme ela mostrar todo o seu talento com uma personagem que lhe ajuda a dar um show. Gabrielle tem diversos rompantes, caprichos e uma mudança durante a história realmente interessante. Elementos perfeitos para uma grande atriz como Marion Cotillard dar um show. Sem dúvida alguma este é um de seus grandes trabalhos. A atriz se entregou à personagem como poucas conseguiriam e isso faz o filme ter a verdade que ele tem.

Além de Marion Cotillard, que é, de longe, o grande destaque da produção, vale também comentar alguns outros trabalhos muito, muito bons. Junto com Marion, o destaque desta produção é Alex Brendemühl. O personagem dele é do tipo “quieto”, mas ele tem uma presença marcante em cena. Passa, a exemplo de Cotillard, muita verdade em cada gesto e em cada palavra que fala. Além dele, vale comentar o bom trabalho de Louis Garrel como André Sauvage; de Brigitte Roüan como a mãe de Gabrielle; e de Aloïse Sauvage como Agostine, uma das funcionárias do spa e que se torna amiga de Gabrielle.

Outros atores que tem um certo destaque nesta produção, apesar do trabalho deles realmente não ser de grande destaque, são Victorie Du Bois como Jeannine, irmã de Gabrielle; Daniel Para como Martin, pai de Gabrielle e de Jeannine; Ange Black-Bereyziat e Victor Quilichini como os filhos de Gabrielle aos sete e aos 14 anos, respectivamente; e Arthur Igual como o professor Jean Claude.

O filme tem uma série de qualidades técnicas. Para começar, a excelente e linda direção de fotografia de Christophe Beaucarne. Depois, a marcante e bastante expressiva trilha sonora clássica de Daniel Pemberton. Também vale comentar a boa edição de Simon Jacquet; o design de produção de Arnaud de Moleron; a direção de arte de Sandrine Jarron; a decoração de set de Cécile Deleu; e os figurinos de Catherine Leterrier.

Mal de Pierres estreou no Festival de Cinema de Cannes em maio de 2016. Depois, o filme passou por outros sete festivais em diversos países. Nesta trajetória a produção acumulou 13 indicações a prêmios, mas não conseguiu emplacar em nenhum lugar.

Agora, algumas curiosidades sobre a produção. Mal de Pierres foi aplaudido durante sete minutos no final de sua exibição no Festival de Cannes. Realmente, o filme impressiona. Por todas as suas qualidades e por sua proposta interessante de discussão de diversos temas.

Como eu comentei antes, o título original em francês, “Mal de Pierres”, teria uma tradução simples de “mal das pedras”. Ele faz referência às “pedras nos rins” que é a doença que a protagonista da produção tem. Já o título que o filme recebeu nos Estados Unidos, “From the Land of the Moon”, que traduzindo de forma simples significa “vinda do mundo da lua”, é inspirado em um trecho do romance que inspirou esta produção e que afirma que “durante toda a vida tinham dito dela que ela era como alguém vindo do mundo da lua” – referindo-se à Gabrielle.

No romance que inspirou este filme, aliás, a história se desenvolve toda na Sardenha, região conhecida da Itália. No filme, contudo, grande parte da produção se passa na cidade costeira francesa de La Ciotat, em Provence e em Lyon, ambos na França, e nos Alpes suíços (parte do tratamento da protagonista). Interessante saber que a história original se passa na Itália e não na França porque realmente existem muitos trechos que nos remetem muito à Itália. Um exemplo é o casamento de Gabrielle e José Rabascal.

Esta produção marca a volta de Marion Cotillard para o cinema francês após quatro anos – o primeiro filme dela feito na França após De Rouille et D’Os.

Nicole Garcia tem uma longa carreira como atriz, com nada menos que 84 trabalhos no currículo, mas nos últimos 30 anos ela uma vez ou outra se aventura na direção também. O trabalho dela de estreia nesta função foi com o curta 15 Août, em 1986. O primeiro longa veio em 1990, Un Week-End Sur Deux. Desde 2002 ela teve três longas indicados à Palma de Ouro em Cannes, mas nunca ganhou o prêmio – ao menos até agora. Os prêmios que ela recebeu, até o momento, foram todos como atriz.

Mal de Pierres foi rodado na cidade suíça de Davos; nas cidades francesas de Lyon, Provence-Alpes-Côte d’Azur, Valensole, Puimoisson, Brunet, Céreste, Aix-les-Bains, Moustiers-Sainte-Marie, La Ciotat, Lourmarin e Paris; e na cidade de Villaluenga del Rosario, em Cádiz, na Espanha (cena final). Um filme bem “viajado”, pois. 😉

Este filme é uma coprodução da França, da Bélgica e do Canadá.

Os usuários do site IMDb deram a nota 6,8 para esta produção, enquanto que os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 19 críticas negativas e apenas oito positivas para o filme, fazendo com que Mal de Pierres tivesse um nível de aprovação de apenas 30%. A nota média dada para a produção segundo o Rotten Tomatoes foi de 4,5. Normalmente eu não assisto a um filme que receba nota tão baixa deste site, mas admito que eu quis assistir a Mal de Pierres por causa de Marion Cotillard. E não me arrependo.

CONCLUSÃO: Um grande trabalho da atriz Marion Cotillard. Me arrisco a dizer que este é um de seus melhores trabalhos. A atriz vive com muita vontade e esmero uma personagem complexa e interessante. Mal de Pierres é um filme que nos mostra, com uma narrativa muito bem pensada, como todos tem o direito de amar e de ser amados. Mesmo aqueles que são considerados “incapazes” de fazer isso – ou, na maioria das vezes, aqueles que são incompreendidos. Com um roteiro envolvente e que sabe surpreender no momento mais adequado, Mal de Pierres se revela uma bela surpresa. Vale conferir pelo roteiro, por Marion Cotillard e pelo seu interessante parceiro de cena, o ator Alex Brendemühl.