Inch’ Allah

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A disputa entre judeus e árabes já rendeu um número invejável de filmes. Talvez, junto com o tema Segunda Guerra Mundial, este assunto seja um dos mais debatidos e focados pelo cinema nas últimas décadas. Inch’ Allah se soma a esta série de filmes mas com um diferencial: colocando no papel da protagonista uma estrangeira que trabalha para a ONU. Ela se envolve tanto com judeus quanto com árabes, fica próxima dos dois lados da disputa, e acompanha de perto a destruição que pode ocorrer sob o manto da busca pela “eternidade”.

A HISTÓRIA: Um menino judeu caminha em um dia ensolarado e com várias pessoas ao seu redor. Ouvimos música ao fundo. Parece que acompanha o garoto os pais dele. Corta. Uma mulher anda rápido com uma mochila nas costas. Ela passa pelo garoto, que está observando o músico tocar, e esbarra nele. Em seguida, a mulher para e pede um café, sentando em um restaurante. O garoto vai até um vendedor de pássaros, até que escutamos uma explosão. Corta. Um grupo de amigos brinda e toma bebida em um restaurante. Depois, Chloé (Evelyne Brochu) e Ava (Sivan Levy), que faziam parte do grupo, voltam para casa caminhando. Elas estão felizes. Mas em pouco tempo vamos conhecer de perto a vida complicada destas duas jovens.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso só recomendo que continue a ler quem já assistiu a Inch’ Allah): Como sempre, busco não saber de nada sobre a produção que eu vou assistir antes de começar a experiência de ver ao filme. Mesmo sem informações prévias sobre Inch’ Allah, me pareceu um tanto óbvio, pelo título da produção, que ela iria abordar a questão árabe.

Mas me surpreendi com o que eu vi. Algo que chama a atenção neste filme são duas abordagens diferenciadas dele em relação a outras produções que tratam da temática do conflito entre árabes e judeus (SPOILER – não leia se você ainda não assistiu ao filme): primeiro, o fato da protagonista não fazer parte de nenhum dos lados e, em segundo lugar, a história por trás de um ataque de “mulher-bomba”.

Achei corajosa a história contada pela diretora e roteirista Anaïs Barbeau-Lavalette. Porque Inch’ Allah (expressão que significa “se Deus quer”) nos apresenta uma realidade dura com múltiplas interpretações – e um final que é feito para fazer o espectador refletir.

Para começar, interessante que a protagonista é uma estrangeira. Chloé é canadense e trabalha em um posto de saúde da Organização das Nações Unidas na Palestina, próximo da fronteira e de um posto de controle de árabes. O interessante é que ela mora de um lado da fronteira, junto aos judeus, e trabalha do outro lado, atendendo a mulheres e crianças árabes.

Desta forma, a protagonista acaba desenvolvendo um contato bastante próximo com as duas realidades. E mais que isso, ela se envolve emocionalmente com a vizinha judia Ava e com uma das pacientes que ela atende na clínica, a árabe Rand (Sabrina Ouazani). Grande parte do tempo de Chloé é dedicado ao trabalho e, por consequência, à observação da realidade dos árabes. Mas uma outra parte é dedicada aos contatos por computador com a mãe (interpretada pela atriz Marie-Thérèse Fortin) e às conversas e festas ao lado de Ava.

O problema, e Inch’ Allah é bastante direto neste ponto, é que Chloé é destas pessoas que não consegue apenas “fazer o seu trabalho”. Profissional e mulher sensível, ela se envolve com as pessoas ao redor. Percebe a dor e a origem da revolta dos árabes, mas também acompanha o temor e o medo dos judeus – e o desconforto de alguns deles em participar do controle do direito de ir e vir dos árabes. O perigo está no ar, e parece ser impossível não se intoxicar com ele.

A ideia que este filme passa é que os judeus parecem estar mais propensos a medidas extremas do que os árabes. Até certo ponto, é claro. Porque Chloé acompanha pelo menos três absurdos quase em sequência: o atropelamento proposital que vitima Yossef (Ahmad Al-Zain), a proibição dos árabes em visitar suas terras originais (Chloé só consegue levar a família de Rand ao local de origem de seus ancestrais porque tem amizade com Ava) e a barreira que impediu que Rand tivesse um tratamento decente na hora do parto.

Todas estas medidas são absurdas, mas justificadas pelo temor ao descontrole árabe. E o pior é o que vem depois: todos estes abusos acarretam em um ataque suicida. E daí o que pode vir após isto? Certamente mais represálias e absurdos por parte dos judeus que, após cometerem estes atos, serão novamente atacados pelos árabes. E o círculo vicioso de ódio e de mortes parece não ter fim.

Esta é a reflexão final de Inch’ Allah que, de quebra, ainda estampa este título para questionar se, de fato, alguém pode acreditar que Deus quer esta matança e tanta injustiça. Me parece evidente que não. Mas o problema de qualquer fanatismo é realmente este. Acreditar tanto na “própria verdade” ou na interpretação que se faz das palavras de Deus para aderir a atos e condutas que são evidentemente contrárias ao que o Pai de todos, que prega o perdão e o amor, gostaria.

Achei corajosa, por tudo isso, a atitude de Barbeau-Lavalette em colocar uma estrangeira como testemunha dos fatos – estrangeira esta que acaba apoiando um ataque terrorista ao ceder ao mesmo ódio que ela viu crescer em um dos lados do conflito. É como se a responsável por esse filme estivesse dizendo que é impossível as pessoas que chegam muito perto de uma realidade ficarem isentas ao que acontece. Assim como foi uma forma dela questionar a participação estrangeira no conflito árabe e de judeus – e sabemos que, na maioria das vezes, o apoio das grandes potências “pendeu” para o lado judeu.

Os estrangeiros, segundo Inch’ Allah, acabam não sendo inocentes no conflito. De uma forma ou de outra, eles apoiam um lado. Também é curioso ver os “bastidores” de um ataque de uma mulher-bomba. Compreendemos um pouco melhor a “lógica” que está por trás destes suicídios carregados de uma fé deturpada.

A mulher-bomba revelada nesta história – charada que acaba sendo “decifrada” na reta final – encara que tem poucas perspectivas no futuro. Afinal, ela é uma “mulher desgraçada”, zombada por ter perdido o filho e o marido. Vivendo em uma cultura com aquelas valores e em um cenário bastante cruel, ela encara a morte “por uma causa” como a melhor saída – acrescentando-se que ela acredita que irá encontrar o filho morto. O que argumentar sobre tudo isso? Da minha parte, só lamento.

Parece incrível, mas a sequência de erros de diferentes partes só vai tornando a solução para estes conflitos cada vez mais difícil. Ainda assim, acho que é preciso sempre acreditar em uma solução, ter esperança que ela é possível e buscá-la. Do contrário, como bem observa o calado, mas bastante observador Safi (Hammoudeh Alkarmi), nos restaria apenas ver a uma “árvore pequena” seguindo exatamente o exemplo da “árvore maior” que começou a crescer antes que a menor. Uma analogia importante sobre o futuro complicado que crianças e jovens podem ter ao aprender com os adultos que vieram antes deles a odiar, ao invés de amar.

Belo filme, com ponderações importantes, mas que perde um pouco de força na reta final. Digo isso porque, afinal, o que justificou a adesão a de Chloé ao plano do ataque terrorista. Farta de tanta violência, ela parecia disposta a sair daquela zona de guerra. Ela começa a se despedir do trabalho e vai buscar Faysal (Yousef Sweid) e, quando não o encontra, decide aderir a uma causa como aquela? Achei bastante estranha aquela atitude.

Independente de quem seria o “transportador” da destruição, Chloé sabia que iria alimentar mais dor e perdas. E até aquele momento, ela parecia uma pessoa focada em ajudar, propensa a atuar pela paz. Esta saída “mágica” para a personagem, o que acaba levando o filme a ter um final impactante, me pareceu um tanto “falsificada”. Entendo os propósitos da realizadora, mas acho que faltaram elementos para a protagonista, que deveriam ter sido apresentados anteriormente, para justificar melhor esta “virada de conduta”. Por não me convencer como deveria na reta final, dei a nota abaixo para esta produção – apesar de suas várias qualidades.

NOTA: 8,5.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Interessante a personagem central desta história. Chloé vai até a Palestina para trabalhar em um posto regional mantido pelas Nações Unidas e mergulha fundo na realidade de conflitos da região. Ainda assim, não deixa de sair à noite, ir em restaurantes e danceterias. É uma mulher coerente com a sua idade, mas acaba percebendo que ter uma vida normal, ali, é tarefa quase impossível. Os acontecimentos vão levando Chloé a agir de forma inesperada. E apesar disto, ela segue responsável pelos próprios atos.

Umas cenas que achei interessante foram aquelas em que Chloé fala com a mãe. Vivi isso bem quando morava na Espanha e mantinha contato constante com os meus pais no Brasil. Com tanta gente migrando no mundo atualmente, movidos por diferentes razões, é cada vez mais frequente esse tipo de “convivência” facilitada pela tecnologia. Ainda bem. Assim fica muito mais fácil manter as relações familiares e as amizades. Este recorte da vida de Chloé torna a personagem ainda mais realista.

Ninguém está feliz neste filme. Especialmente se olhamos para o lado dos árabes e dos judeus. A jovem Ava trabalha no posto de controle na fronteira porque é obrigada – o serviço militar é obrigatório para homens e mulheres de Israel. Ela vive desconfortável e com receio. Da parte árabe, Faysal considera todo palestino uma arma potencial – ele deixa claro isso quando vê o ultrassom da irmã. A família vive em uma zona pobre, catando materiais com valor no lixo, e sem a possibilidade de circularem livremente.

Falando neste controle no ir e vir, algo me deixou intrigada neste filme. (SPOILER – não leia se você ainda não assistiu a Inch’ Allah). Afinal, se Chloé sempre passa pelo posto de controle dos árabes para ir trabalhar, e estando todos presos por causa de um novo ataque, com o trânsito parado, não era mais fácil eles terem ido até o posto mantido pela ONU do que tentar de todas as formas passar pelo controle militar? Será que no posto não haviam condições melhores de atendimento de Rand? Achei um pouco inconsequente aquela tentativa de transporte de Faysal – e totalmente ineficaz a intervenção aos gritos de Chloé na situação.

Falando nos atores desta produção, tiro o meu chapéu para Evelyne Brochu. Ela está ótima como Chloé, em uma interpretação que não apenas convence, mas que também permite que cada espectador possa se identificar de uma forma ou de outra com a perplexidade que ela vive. Também estão muito bem os outros atores envolvidos na produção, com especial destaque para Sabrina Ouazani e Sivan Levy, cada uma assumindo a sua personagem de forma convincente.

Da parte técnica desta produção, destaco a ótima direção de fotografia de Philippe Lavalette e a edição de Sophie Leblond. A caracterização dos personagens e das locações funciona bem, mérito do figurino de Sophie Lefebvre, do design de produção de André-Line Beauparlant e da decoração de set de Karim Kheir e Nasser Zoubi.

Gostei do estilo da diretora e roteirista Anaïs Barbeau-Lavalette. Fora aquele “furo” no roteiro na parte derradeira da história – uma peça que não se encaixa no conjunto -, ela demonstrou segurança na narrativa e coragem com a história que queria contar. Na direção, interessante como ela buscou o realismo da personagem principal e de seu entorno, deixando a câmera sempre próxima da atriz ou, quando se afastava dela, com o propósito de mostrar o cenário que lhe rodeava. Desta forma, Barbeau-Lavalette consegue nos situar no local e no tempo, assim como valorizar o trabalho dos atores.

Procurei alguma leitura que pudesse tornar mais claro aquele ambiente apresentado por Inch’ Allah e encontrei este ótimo texto de autoria de Bernardo Kucinski. Ele fala de forma muito interessante sobre as origens do conflito entre árabes e judeus, a evolução da disputa entre eles e a situação atual, com os postos de controle e tudo o mais. Recomendo.

Procurei mais informações sobre os locais em que o filme foi rodado e encontrei apenas a informação de que Inch’ Allah foi feito na Palestina e na Jordânia.

Inch’ Allah estreou em setembro de 2012 no Festival Internacional de Cinema de Toronto. Depois, o filme participaria de outros sete festivais, incluindo os de Berlim e de Atenas. Nesta trajetória, o filme recebeu quatro prêmios e foi indicado a outros 12. Entre os que recebeu, destaque para o Prêmio Fipresci na mostra Panorama para Anaïs Barbeau-Lavalette no Festival de Berlim, e para os de Melhor Atriz Coadjuvante para Sabrina Ouazani, Melhor Filme e Melhor Direção de Arte para André-Line Beauparlant nos Prêmios Jutra entregues no Canadá.

Os usuários do site IMDb deram a nota 6,8 para esta produção. Uma boa avaliação para os padrões do site. Os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 10 textos positivos e oito negativos para Inch’ Allah, o que lhe garantiu uma aprovação de 56% – e uma nota média de 6,2.

Inch’ Allah é o sexto trabalho da diretora Anaïs Barbeau-Lavalette. Antes, ela havia estreado com um episódio na série de TV Nikan, em 2006, e feito o longa Le Ring e dois curtas (sendo um deles um documentário), além de ter codirigido o documentário Les Petits Géants com Émile Proulx-Cloutier. Depois de Inch’ Allah, ela fez um novo curta, em 2012.

Este filme é uma coprodução do Canadá e da França.

CONCLUSÃO: Este filme busca uma visão “humana” e próxima dos problemas comuns da população que sofre com a aparente “eterna” disputa entre judeus e árabes. Com uma duração adequada e interpretações convincentes, Inch’ Allah sofre um pouco com o desfecho da história. Afinal, qual é a mensagem que a diretora e roteirista Anaïs Barbeau-Lavalette quer nos passar? Possivelmente a de que a busca incessante por “reparação” ou “vingança” não levará aqueles povos a lugar algum que não a uma incessante vitimização de inocentes. Esta é uma mensagem importante a ser defendida e debatida. O filme funciona neste sentido. Mas carece de um pouco mais de vigor enquanto a história é contada. De qualquer forma, é uma produção interessante sobre um tema já bastante explorado.

The Act of Killing – O Ato de Matar

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Existem absurdos no mundo que até são difíceis de acreditar. Mas daí surgem filmes como The Act of Killing, que conseguem mergulhar na crueldade humana revelando toda a sua capacidade. Assistir a assassinos “institucionalizados” e aceitos pelos poderosos, ou seja, nunca punidos por seus crimes, revisitando os próprios delitos, é algo assustador. Não apenas porque as histórias das vítimas são dramatizadas, mas por todo o contexto que cerca estes criminosos.

A HISTÓRIA: Em um belo cenário, um monumento enorme de um peixe. Da boca dele, saem algumas belas mulheres vestidas de dourado. Corta. Na frente de uma cascata, dois homens gesticulam – um vestido todo de preto, outro, com um vestido azul. Ao redor deles, dançarinas vestidas de vermelho e branco. O diretor incentiva os personagens em cena em “encarnar” a paz e a alegria. Eles devem “atuar” bem, afinal, nada daquilo é uma “farsa”. Corta.

O filme mostra uma cidade e explica que, em 1965, o governo indonésio foi deposto pelos militares. Qualquer opositor ao sistema poderia ser considerado comunista e morto. Entre eles, estavam integrantes de sindicatos, camponeses, intelectuais e imigrantes chineses. Quando os documentaristas encontraram alguns dos assassinos da época, eles contaram com orgulho o que fizeram. Daí eles foram desafiados a recriar as cenas de matança à sua própria maneira – o que vemos nesta produção.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso só recomendo que continue a ler quem já assistiu a The Act of Killing): Esta produção acerta na mistura da farsa e da realidade. Aquelas cenas iniciais, belas e líricas, contrastam totalmente com a história dos principais personagens do filme. Anwar Congo e Herman Koto lideram os personagens neste documentário que parece até um conto de terror.

O primeiro é o “personagem principal”. Congo foi um dos executores incentivados pelos militares que tomaram o poder na Indonésia em 1965. Matou, segundo as suas próprias palavras, “milhares” de comunistas. Deveria matar até dezenas por dia. Koto é um gângster e líder paramilitar. Também torturou e matou, e segue buscando o poder e a extorsão das pessoas.

Os dois são bandidos, da pior espécie, mas acabem sendo respeitados e temidos por pessoas poderosas e simples. E conforme a história vai se desenvolvendo, parece cada vez mais difícil separar a fantasia da realidade. Porque o terror imposto por aqueles e por outros homens é tão absurdo que você fica pensando o quanto daquilo pode ser verdade ou quanto foi aumentado para “formar os personagens”.

Afinal, tanto Congo quanto Koto parecem embarcar na ilusão de serem “famosos”, de dramatizarem as próprias histórias para que o mundo conheça o ponto de vista deles. Mas a questão é que eles revelam tantos detalhes sobre as torturas e os assassinatos e explicam “racionalmente” a própria “filosofia” de bandidos que vai ficando cada vez mais difícil achar que há mais fantasia que a dura realidade por ali.

Os diretores Joshua Oppenheimer e Christine Cynn souberam conduzir as entrevistas e as dramatizações com maestria. Pouco a pouco, Congo, Koto e Adi Zulkadry, este último um “companheiro” de extermínios do “protagonista” em 1965, vão contando e “mostrando” os detalhes do que fizeram. Percebe-se que Congo se sente pressionado por pesadelos e lembranças do passado. Mas esse possível remorso não faz parte da rotina de Koto ou de Zulkadry. Este último mesmo, vive uma vida confortável e acredita que fez o que era certo ao matar inúmeros “comunistas” no passado.

E daí tem a reflexão dos realizadores do filme sobre o papel de diferentes “agentes sociais” naquele genocídio que, segundo o texto de introdução da história, teria matado “mais de um milhão de ‘comunistas'” em menos de um ano de ação de paramilitares, gangsteres e do exército golpista na Indonésia. É de arrepiar que, não apenas os “políticos” e os homens que estão no poder batem palmas para os assassinos, mas que fez parte daquele cenário de torturas e assassinatos figuras como Ibrahim Sinik, editor responsável por um grande jornal do país.

Sinik não atacava os comunistas apenas pelo jornal, mas também atuava na “escolha” de quem iria morrer – após interrogatórios e a proteção de assassinos como Congo e Zulkadry. Assustadora também a organização Pancasila Youth, que dissemina o ódio contra “comunistas” – que, como aquela introdução do filme bem define, poderia ser qualquer pessoa que se dizia contra o governo. O líder deles, Yapto Soerjosoemarno, segue a linhagem dos piores chefes de gangsteres do mundo. Ele comanda um exército que extorque comerciantes e empresários de todos os tipos e vive a “boa vida” de quem sabe meter medo nos outros. Vergonhoso.

Interessante também como o filme conduz os personagens a mostrar alguns dos locais onde os absurdos eram feitos e de como a produção revela o papel de “convencimento” realizado pela “indústria da informação” – incluindo um filme anticomunista que as crianças de todas as idades eram obrigadas a assistir uma vez por ano, pelo menos, segundo Congo.

The Act of Killing inova na narrativa, ao explorar as histórias dos assassinos além dos tradicionais “depoimentos” para as câmeras e entrevistas com os realizadores. Aqui, Congo, Koto e Zulkadry, ao lado de outros “ajudantes”, recriam a própria história. E isso mexe com a percepção deles sobre o que eles fizeram. Figuras como Zulkadry questionam a ideia do filme – porque ela “remexeria” em histórias que não seriam interessantes de serem remexidas. Figuras como Koto parecem interessadas na fama. Enquanto Congo, este sim aparentemente mais “mexido” com o passado – através de pesadelos e/ou lembranças -, acaba sendo o mais afetado por aquele processo de recriação dramático.

Esta produção, ao buscar a dramatização dos personagens diretamente envolvidos nos fatos do que aconteceu no passado, mostra também a potência da arte para mexer com histórias, recriá-las e provocar a revisão do que foi feito. Ainda assim, e isso pode até parecer desconfiança crônica, eu fiquei em dúvida sobre a sinceridade de Congo. De fato ele estava tendo uma crise de consciência e se arrependendo do que fez, repensando os próprios atos, ou apenas “atuando” no filme que gostaria de ter feito para terminar como um personagem “do bem” no fim das contas?

Questiono a capacidade de pessoas que fizeram tantas barbaridades de conseguirem sentir arrependimento de verdade. Será que Congo de fato refez o próprio caminho e, ao ser “torturado”, sentiu-se na “pele” das vítimas – algo acertadamente questionado pelos realizadores – ou é mais sincera a postura de Zulkadry, que segue a vida tranquilamente e sem qualquer peso na consciência?

The Act of Killing acerta na narrativa e na forma de provocação. Mas achei a produção longa demais e um tanto repetitiva. Há trechos um tanto desnecessário. Por exemplo, não entendi completamente a razão de repetir tantas cenas “líricas” e com dançarina, ou mesmo dar espaço para os “protagonistas” brincarem de cowboys ou outros personagens.

Na verdade, achei quase uma afronta aquelas sequências. Talvez esta tenha sido a intenção dos realizadores: provocar o espectador com esta “cara-de-pau” dos bandidos a ponto de embrulhar o nosso estômago. De pensarmos o quanto absurdo pode ser o ser humano. Algo é certo: eles atingem o objetivo. Mas para ser melhor, The Act of Killing deveria ser mais curto e menos repetitivo. Ir mais direto ao ponto, e buscando outros pontos de vista – o que não faria mal para a produção.

NOTA: 8.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Este é um documento impressionante sobre a capacidade de alguns humanos em provocar dor nos outros. De como podemos ser cruéis e praticar atos absurdos. Chega a ser assustador. E para isso, The Act of Killing não mostra um ato violento, apenas a “encenação” deles. E acaba sendo muito efetivo no repúdio, especialmente quando mostra os assassinos tão confiantes e orgulhosos sobre o que fizeram.

Este é apenas o terceiro filme do diretor Joshua Oppenheimer, nascido no Texas em 1974. Antes, ele dirigiu a The Entire History of the Louisiana Purchase, de 1998, e a The Globalisation Tapes, um documentário em vídeo de 2003 que ele fez ao lado de Christine Cynn – com quem assina também The Act of Killing. Cynn, por sua vez, trabalhou apenas nesta duas produções.

Como a produção mesmo sugere, The Act of Killing foi totalmente rodado na Indonésia, na cidade de Medan, capital da província da Sumatra Setentrional – localizada no costa nordeste a ilha de Sumatra. Com 265,1 quilômetros quadrados, a cidade tinha pouco mais de 2 milhões de habitantes em 2010. Aliás, a Indonésia é um país com uma população que chega a assustar. O último dado disponível aponta que o país tinha 246,9 milhões de habitantes em 2012. Para comparar com o Brasil, teríamos por aqui 23,6 habitantes por quilômetro quadrado no país, enquanto na Indonésia a proporção é de 126 habitantes/quilômetro quadrado.

The Act of Killing criou algumas reações extremas pelos locais por onde passou. Um espectador que viu o filme no Festival de Berlim disse que o diretor Joshua Oppenheimer tinha feito o mesmo que colocar “um dos oficiais da SS nazista recriando o Holocausto”. O diretor respondeu ao espectador dizendo que não considerava a comparação adequada porque “os nazistas já não estão no poder”, enquanto os membros do esquadrão da morte mostrados no documentário ainda estão sendo protegidos pelo governo da Indonésia.

Agora, uma curiosidade interessante sobre esta produção. Além de Oppenheimer e Cynn, aparece nos créditos de direção do filme o nome de “Anônimo”. Há uma explicação para isso. O codiretor do filme e pelo menos outros 20 participantes da equipe de filmagem são creditados como “Anônimos” porque eles ainda temem a vingança dos assassinos dos esquadrões da morte.

The Act of Killing estreou em agosto de 2012 no Festival de Cinema de Telluride. Depois, o filme participaria de outros 20 festivais, incluindo os de Toronto e Berlim. Nesta trajetória, o filme conseguiu a marca impressionante de 28 prêmios – e foi indicado, ainda, a outros 10. Entre os que recebeu, destaque para os de Melhor Documentário e o Prêmio do Júri Ecumênico no Festival de Berlim; Melhor Documentário no European Film Awards; e por ter aparecido no Top Five Documentaries no National Board of Review – ao lado de 20 Feet from Stardom, After Tiller, Casting By e Al Midan (também conhecido por The Square).

O filme de Joshua Oppenheimer, Christine Cynn e o “Anônimo” teria custado US$ 1 milhão. Nas bilheterias dos Estados Unidos, o filme conseguiu pouco mais de US$ 451 mil até o dia 1 de dezembro. Ou seja, falta avançar mais para conseguir pagar as despesas e ter lucro.

Os usuários do site IMDb deram a nota 8,2 para esta produção. Os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 121 textos positivos e apenas cinco negativos para a produção, o que lhe garante uma aprovação de 96% – e uma nota média de 8,7. Este é um dos raros exemplos em que a minha avaliação final acabou rendendo uma nota menor que a vista nestes sites – pelo visto, The Act of Killing realmente “me cansou” mais do que deveria. 🙂

Da parte técnica do filme, vale mesmo destacar a direção de Oppenheimer, Cynn e do “Anonymous”. No mais, competente a edição de Nils Pagh Andersen, Erick Andersson, Charlotte Munch Bengtsen, Janus Billeskov Jansen, Ariadna Fatjó-Vilas e Mariko Montpetit.

Este filme é uma coprodução da Dinamarca, Noruega e Reino Unido.

Meus bons leitores, vocês devem ter notado que “reduzi” o ânimo de publicações nesta semana. É que final de ano é tempo de festas familiares, encontro com amigos… e menos tempo para ver filmes. Mas prometo que voltarei com as publicações normais até o final da primeira quinzena de janeiro. E já na contagem regressiva para o Oscar. Sigam por aqui que eu também tentarei manter este espaço com alguma atualização. 🙂 E claro, um excelente, maravilhoso e cinematográfico 2014 para todos e cada um de vocês!

CONCLUSÃO: Difícil assistir a este filme. Primeiro, porque ele é longo demais. Depois, porque é assustador ouvir aos torturadores e assassinos recriando o que eles fizeram com a maior naturalidade e teatralidade. Eles pareciam se divertir na maior parte do tempo. E como isso seria possível? Impressionante a crueldade, assim como o contexto social que fez toda a barbaridade ser “justificada” no passado, quando aconteceram, e seguirem sendo justificadas agora. Mas tão absurdo quanto saber os detalhes do que eles fizeram é ver o discurso que justificou a matança e a ânsia dos criminosos pelo “estrelato”. A maioria deles se sente não apenas intocável, mas também “artista” por fazer um filme que mistura resgate histórico e fantasia. Assustador. E interessante, também, como a arte pode ser redentora e tocar algumas pessoas no processo – ainda que, infelizmente, não a todos.

PALPITES PARA O OSCAR 2014: Ainda é cedo para falar sobre as chances de The Act of Killing no maior prêmio da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood. Afinal, segundo a própria Academia, The Act of Killing está disputando com outras 14 produções uma das vagas entre os documentários que aparecem na lista final de indicados atrás de uma estatueta dourada.

Da lista de 15 produções que estão nesta reta final, assisti apenas a Stories We Tell (comentado aqui) e Blackfish (comentado aqui). Entre estas três produções, vejo bastante inovação em Stories We Tell e um bocado de coragem e importância social em Blackfish. The Act of Killing também apresenta certa inovação e algum interesse de resgate histórico – e consequente importância social. Mas entre os três, prefiro – nesta ordem – Stories We Tell e Blackfish.

Há outros filmes na disputa que parecem muito interessantes. Destaco, da lista, The Armstrong Lie, Dirty Wars, o elogiado Tim’s Veermer, The Square e God Loves Uganda. Mas como não assisti a nenhum deles, sou puro palpite… acho que The Act of Killing, apesar de bem premiado até o momento, não tem muitas chances de levar a estatueta dourada. Mas até pode chegar na lista dos cinco finalistas pela forma com que provoca o espectador e os entrevistados. Logo veremos…

Gloria

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Algumas buscas são, verdadeiramente, complicadas. Se você não é mais jovem, está sozinha e gosta de se divertir, é preciso ter muita coragem para procurar o que se deseja. Gloria é um filme que fala sobre uma mulher que não se cansa de buscar. Quer dizer, em certo momento, ela até se cansa. Mas depois, volta a mexer o esqueleto. Porque não dá para parar. Especialmente uma mulher como Gloria.

A HISTÓRIA: Toca uma música destas da era disco. Em um salão, muitos homens e mulheres de meia e “melhor” idade estão se divertindo dançando. A câmera vai se aproximando do bar, onde vemos a uma mulher de vestido preto, óculos e batom vermelho tomando um drink. Depois, esta mulher caminha entre as pessoas até encontrar com Joaquín. Então ela se apresenta: Gloria Cumplido (Paulina García). Ele a reconhece, mesmo que faz muito tempo que os dois não se encontram.

Ela calcula 10 ou 12 anos, desde que ela se separou do marido. Eles brindam e dançam, mas ela vai embora sozinha. Chegando em casa, ela retira um gato do vizinho do apartamento e tem dificuldade de dormir com os barulhos que o vizinho descontrolado faz. No dia seguinte, Gloria vai cantando de carro até o trabalho, de onde liga para os filhos. Em breve, em outra noite de dança no clube, ela vai conhecer a Rodolfo (Sergio Hernández), com quem vai começar uma nova relação.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Gloria): O grande trunfo deste filme, e disto eu não tenho nenhuma dúvida, é o roteiro escrito pelo diretor Sebastián Lelio junto com Gonzalo Maza. Que maravilha de texto! Nem tanto por causa dos diálogos, ainda que todos eles sejam bastante coerentes. Mas principalmente pela dinâmica da história e pela construção da personagem que dá título para o filme.

Gloria é uma mulher independente, que vive sozinha após ter se separado do marido e criado os dois filhos. Ela trabalha, para as próprias contas e sai em busca da felicidade sempre que tem uma chance. Assim, ela não se importa de ir sozinha até o baile, onde flerta com o homem que achar interessante. Sempre que é convidada, ela vai a encontros de amigos, onde ouve música, conversa e toma alguns drinks.

Em sua busca, Gloria também experimenta o yôga, faz dinâmica de teatro e canta no carro músicas conhecidas. É uma mulher fascinante, dona de si e do próprio nariz. Mas vive os dilemas da vida comum. Por exemplo, a “invasão” diária do próprio apartamento pelo gato do vizinho e pelos rompantes de descontrole de seu dono. Mesmo tendo amado os filhos e, aparentemente, ter ensinado a eles o valor da família e de serem independentes, Gloria tem que sempre tomar a dianteira e ligar para saber como eles estão.

Mesmo aparentemente sendo feliz com a própria independência, a protagonista desta história sente falta de um companheiro. Ou, ao menos, de ter sexo com frequência. Por isso, ela não se cansa de sair para conhecer novas pessoas. Sim, porque quando ela sai para dançar, não está saindo apenas para soltar o corpo e se divertir. Ela também flerta. E normalmente é Gloria que toma a atitude.

Por tudo isso, achei este filme tão interessante. Porque ele é realista. E conta a história comum de tantas mulheres de meia idade que casaram, criaram os filhos e, agora que eles são adultos e elas não tem mais um marido em casa para “cuidar”, buscam formas diferentes de se divertirem. E neste caminho, vão passando por distintos momentos de autodescoberta.

O roteiro, desta forma, é o ponto forte do filme. Junto com a convincente e encantadora interpretação da protagonista, a ótima Paulina García. Dito isso, só achei que o filme tem o azar de estar no meio de uma safra muito boa de produções de diversas partes do mundo que estão pré-cotadas para o Oscar de Melhor Filme em Língua Estrangeira. Sim, porque apesar de ser uma crônica interessante sobre este perfil de mulher adulta independente bem típico do nosso tempo, Gloria não tem a inventividade narrativa ou a força de estilo de outras produções desta safra.

Ainda assim, e falarei disso logo abaixo, ele está sempre cotado entre os favoritos para chegar na lista final do Oscar. Seria algo importante para o cinema chileno. E para valorizar o trabalho do diretor e roteirista Sebastián Lelio. Agora, voltando para a história de Gloria… achei interessante o choque de realidades entre a personagem principal deste filme e o personagem de Rodolfo, com quem ela engata um novo romance.

Gloria me parece ser o novo perfil de mulher chilena – perfil esse repetido em quase todas as partes do mundo: independente, dona de si, que não tem medo de tomar a iniciativa em uma festa para tentar conquistar um homem que lhe chamou a atenção. Mas Rodolfo é o modelo “antigo” (mas ainda muito presente, ao que tudo indica) de homem: aquele que assume integralmente a postura de provedor da casa, do qual a família deve depender. De quebra, e isso vamos percebendo com o desenrolar da história, ele me parece um sujeito bastante carente.

Para mim, é o modelo clássico do homem adulto: ele teve que assumir muitas responsabilidades ainda jovem e, aparentemente, não teve tempo de amadurecer emocionalmente. Não por acaso, após deixar a Marinha, Rodolfo abriu um parque onde as pessoas podem “brincar de fazer guerra” com o paintball. Separado da mulher há cerca de um ano, ele não consegue se desvencilhar da família – socorrendo a ex-mulher e as duas filhas sempre que possível. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Aliás, uma dúvida que fica nesta história é até que ponto ele realmente se separou da ex-mulher. Ainda que ele estava morando sozinho, será que realmente não continuava tendo uma relação afetiva e amorosa com a ex?

Eu não me surpreenderia se a resposta para a última pergunta fosse “sim”. Mas isso, na verdade, pouco importa. Porque ele tem atitudes realmente desprezíveis com Gloria. Atitudes estas, especialmente a que ele toma no aniversário do filho dela, Pedro (Diego Fontecilla), que apenas reforçam a minha leitura de que ele era um homem bastante inseguro. Afinal, quem mais deixaria aquela casa daquele jeito e com aquela justificativa se não tivesse uma necessidade extrema de ser visto e valorizado? Certo que ele pode ter saído também por outras razões… mas há outros indicativos da insegurança.

No discurso e em algumas atitudes, Rodolfo deixa claro que quer iniciar uma nova vida. Ele insiste com Gloria que eles podem fazer isso juntos. Rodolfo explica, por exemplo, como procurou ser um “novo homem” ao buscar uma cirurgia de redução de estômago. Mas ele comprova que para mudar não basta alterar o próprio aspecto físico. Mais importante que isso é a mudança das atitudes.

Apesar de toda a insistência que ele tem com Gloria, sempre que ele é acionado por uma das filhas, Rodolfo cede. E a segunda vez que ele “abandona” Gloria… foi muito cruel. (SPOILER – não leia… bem, você já sabe). Ela, por sua parte, tem atitudes surpreendentes. Acredito que aquele foi o principal momento de surpresa da produção, juntamente com o momento em que ela resolve, sozinha, experimentar maconha em casa. Depois de ser abandonada no restaurante por Rodolfo, Gloria embarca em uma noite de exageros, regada por muita bebida e uma ficada divertida. Suas atitudes são de uma garota muito mais jovem. Sem dúvida, Gloria sabe aproveitar a vida.

A questão que fica deste filme, tenho certeza, é que grande parte da audiência vai se perguntar “até quando?”. Existe limite para alguém viver desfrutando a vida sem barreiras como Gloria parece estar fazendo? Uma mãe que tem os filhos crescidos e que será avó pela segunda vez pode ter aquelas atitudes? Tenho certeza que Lelio construiu este filme para levantar estas questões.

Da minha parte, não acho que Gloria esteja fazendo nada demais. Admiro mulheres que são responsáveis, cumpriram o seu papel e que não se cansam de buscar a felicidade. Como elas buscam isso é um problema delas, na minha opinião, desde que elas não estejam ferindo, machucando ou fazendo mal a ninguém. E, para mim, este é o caso de Gloria.

Ela continua sendo uma mãe amorosa e atenciosa. É independente porque trabalha, paga as próprias contas, mora sozinha e dirige para onde quiser. Ainda assim, ela sofre com os problemas da vida moderna – distância dos filhos, família desfeita, dificuldade em encontrar um novo parceiro, vizinho problemático. Mas sabe levar tudo com bastante suavidade. Olha de frente para as pessoas, conhecendo os artifícios que elas usam e, mesmo assim, buscando acreditar sempre outra vez que o amor é possível. Mesmo após uma desilusão, ela encontra forças e ânimo para se jogar em uma pista de dança. Grande mulher, e que sabe se divertir!

NOTA: 9,5.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Curioso o efeito deste filme. Logo depois que o assisti, achei que ele não era “nada demais”. Tinha até pensado em uma nota 9 para Gloria. Mas aí as horas foram passando e hoje, ao pensar na história escrita por Lelio e Maza, achei o filme mais interessante do que em uma primeira reflexão. A verdade é que, conforme eu fui me lembrando da história, ela me pareceu cada vez mais interessante e bem acabada. Por isso fui aumentando a nota até a avaliação acima.

Antes falei do essencial do filme, mas deixei de fora aquele trecho em que há uma troca de diálogo sobre o Chile atual. Infelizmente, o que para mim é uma vergonha, ainda não conheço o Chile pessoalmente. Mas tenho um bom amigo de lá e conheço outras pessoas deste país que é o meu fornecedor de vinhos preferido na América. 🙂 Conhecendo as pessoas que eu conheço de lá, a minha leitura do Chile é que este é um país de gente educada e engajada. Que se preocupam com a política e com os temas contemporâneos.

Pois bem, por tudo isso, achei bem interessante o diálogo entre Gloria, Rodolfo e os amigos dele, um sociólogo e a dona de uma loja. Eles falam de um Chile que não existe mais, que é uma cópia imperfeita do que já foi e, agora, contaminada pela cobiça. Rodolfo critica a falta de líderes, enquanto Gloria reclama dos preços altos. O sociólogo faz as declarações mais interessantes e elaboradas, inclusive sobre a “revolução mais espirital” da multidão que forma as redes sociais. Interessante.

A direção de Sebastián Lelio é firme e mostra convicção na tarefa de acompanhar de perto os detalhes da vida da protagonista desta história. Assim, a câmera dele está sempre próxima dela, focada em cada uma de suas manifestações e expressões. Um trabalho atento e dedicado, que mostra a clareza do diretor na busca pelo produto de seu roteiro.

Sem dúvida Paulina García é o grande nome deste Gloria. Mas mesmo que o filme seja dela, vale comentar que o ator que divide boa parte dos cenas com Paulina, Sergio Hernández, também faz um grande trabalho. Ele seduz, no mesmo passo que sua parceira de cena, com a mesma naturalidade e fragilidade. Muito interessante o que os dois atores conseguem desenvolver em cena.

Procurei alguma entrevista com o diretor de Gloria para saber o que ele pensava sobre este filme. Encontrei esta, em espanhol, na qual ele fala sobre a ótima recepção que o filme teve no Festival de Berlim. E ele comenta também a razão de ter escolhido o Dia das Mães para que Gloria estreasse no Chile: “Porque Gloria explora o arquétipo de uma mãe. E nos puxa pela mão para enfrentarmos aspectos deste arquétipo que, como sociedade, temos a tendência de tratar de forma evasiva ou com muito eufemismo: a mãe nua ou a mãe amante. Mas também aborda a ideia da mulher que se aproxima dos 60 anos com otimismo e com a cabeça erguida. Gloria é uma mulher que reivindica o direito de sua geração de seguir vivendo, amando e sentindo e isso (porque todos nós vamos chegar lá) é algo divino de ser visto”. Bacana.

Da parte técnica do filme, vale citar a direção de fotografia com tons sempre “cálidos” e meio envelhecidos de Benjamín Echazarreta e a edição cuidadosa de Lelio com Soledad Salfate. Gostei também da trilha sonora e das escolhas bem estudadas de cada música que faz parte deste filme, mas não encontrei o nome do responsável por este trabalho meticuloso e importante para a narrativa. Pena.

Este é o décimo filme no currículo de Sebastián Lelio. O diretor de 39 anos nascido em Santiago, a capital do Chile, começou a carreira com o curta 4, de 1995. Cinco anos depois, ele estrearia em longas com Smog. Dos 10 filmes que ele dirigiu até agora, cinco são longas e cinco são curtas. Destes, ele foi responsável por todos os roteiros, exceto por El Año del Tigre, de 2011.

Gloria estreou no Festival de Berlim em fevereiro deste ano. Depois, ele passou por outros 19 festivais – um número bem significativo. Nesta trajetória, ele recebeu seis prêmios e foi indicado a outros cinco. No Festival de Berlim, Gloria recebeu os prêmios de Melhor Atriz para Paulina García, o Prize of the Guild of German Art House Cinemas e o Prêmio do Júri Ecumênico. Este último foi dado pelo “apelo refrescante e contagiante (de Gloria) de que a vida é uma festa para a qual todos nós somos convidados, independentemente da idade ou condição social, e que sua complexidade só aumenta o desafio de vivê-la integralmente”. Outro prêmio relevante recebido pelo filme foi o entregue pelo National Board of Review, que colocou Gloria no Top 5 dos Filmes em Língua Estrangeira – ao lado de Jagten (comentado aqui), Dupa Dealuri, Yi Dai Zong Shi (comentado aqui) e Kapringen.

Para quem gosta de saber aonde os filmes foram rodados, Gloria teve cenas rodadas em Santiago e em Viña del Mar, distante 123 quilômetros da capital chilena.

Os usuários do site IMDb deram a nota 7,1 para Gloria. Os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes foram ainda mais generosos, dedicando 24 textos positivos e apenas um negativo para a produção – o que lhe garante uma aprovação de 96% e uma nota média de 8,1.

Gloria é uma coprodução do Chile e da Espanha.

CONCLUSÃO: Um filme bastante humano e atento a um tipo de personagem pouco mostrado pelo cinema. Gloria valoriza a mulher de meia idade – ou que já passou um pouco da meia idade – e que continua procurando o amor e aquilo que ela tem prazer de fazer. Não é por acaso que a atriz que protagoniza este filme ganhou alguns prêmios. Ela está perfeita, sem parecer artificial em nenhum momento. Por isso, esta produção parece tão legítima.

Certamente conhecemos alguém com o perfil de Gloria. E isso faz com que a história se aproxime das pessoas. Bem dirigido, com um roteiro que vai crescendo com o tempo e que guarda algumas pequenas surpresas no caminho, Gloria mostra que o cinema chileno tem valor e futuro. Para arrematar, em certo momento, o filme trata da própria sociedade daquele país, em um dos diálogos mais consistentes da produção. Vale a pena assistir, especialmente pelo roteiro tratar a personagem central com tanto respeito. Ainda assim, este não é o melhor filme em língua estrangeira da temporada.

PALPITES PARA O OSCAR 2014: Gloria chamou a minha atenção logo que comecei a pesquisar sobre a opinião dos especialistas em cinema e que acompanham as bolsas de apostas para o Oscar. Tanto na lista da crítica Anne Thompson quanto na de Peter Knegt, entre outros, o filme chileno aparece entre os favoritos para uma estatueta de Melhor Filme em Língua Estrangeira.

Como eu já havia assistido a outros dos principais concorrentes, tinha grande expectativa para ver ao filme de Sebastián Lelio e, assim, fechar a “coroa” dos favoritos. Pois bem, como eu já disse por aqui e repito, cinema é uma experiência muito, muito pessoal. Por isso mesmo, devo comentar que concordo com os críticos que Gloria é um belo filme, bastante interessante, diferente, e que merece ser visto.

Mas entre os filmes que eu assisti até agora, vejo Gloria correndo por fora na disputa pela estatueta dourada. Sem dúvida prefiro Jagten, The Broken Circle Breakdown, Wadjda e La Grande Bellezza antes de Gloria. Sendo assim, se eu acho que os filmes citados merecem estar na lista de cinco, Gloria não poderia figurar na última vaga? Até pode, mas daí acho que ele concorre de “igual para igual”, praticamente, com O Som ao Redor e Le Passé.

Pelo menos em temática da história e em profundidade dos enredos. Agora, se formos analisar o apuro técnico, Yi Dai Zong Shi levaria vantagem. Isso só para falar de alguns dos filmes mais citados pelos críticos. Ainda falta assistir a outros que estão concorrendo a uma vaga para que eu possa realmente bater o martelo. Mas agora, com o que eu vi, acho que Gloria até pode figurar entre os cinco indicados ao Oscar, mas vejo como muito, muito difícil este filme levar a estatueta.

ATUALIZAÇÃO (21/12/2013): A Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood divulgou ontem, dia 20 de dezembro, a lista de filmes que avançaram na disputa da categoria de Melhor Filme em Língua Estrangeira. Gloria ficou de fora da lista. Seguem na disputa os seguintes filmes: The Broken Circle Breakdown (Bélgica), An Episode in the Life of an Iron Picker (Bósnia e Herzegovina), The Missing Picture (Camboja), Jagten ou The Hunt (Dinamarca), Two Lives (Alemanha), The Grandmaster (Hong Kong), The Notebook (Hungria), La Grande Bellezza ou The Great Beauty (Itália) e Omar (Palestina). Além de Gloria, outro filme que aparecia na lista dos especialistas como um dos favoritos, Le Passé, também ficou de fora. Interessante.

The Music Never Stopped – A Música Nunca Parou

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O choque de gerações e os problemas nas expectativas que pais tem sobre filhos e vice-versa sempre vão render pano pra manga. Ou, no caso do cinema, ótimos filmes. The Music Never Stopped entra na lista de produções que trata sobre os desentendimentos entre pais e filhos e a chance de redenção que todos nós temos na vida, esta experiência rica e generosa pela qual todos nós passamos. Um filme envolvente e que emociona. Sem grandes nomes na telona, mas com alguns atores que normalmente vemos como coadjuvantes tendo, aqui, a chance de brilhar.

A HISTÓRIA: Aparece o título do filme e quando surge a informação de que ele é baseado em uma história real, ouvimos uma canção. Junto com ela, e cada vez mais alto, o toque de um telefone daqueles antigos. O ano é 1986, e vemos uma casa de classe média, pintada de branco, com uma parede cheia de fotos de família. Sentado ouvindo música e com um cigarro encostado queimando, Henry Sawyer (J.K. Simmons) está imerso em lembranças. A mulher dele, Helen (Cara Seymour) chega em casa e pergunta se ele não está escutando o telefone. Quando ela atende a ligação, fica sabendo que o filho deles, Gabriel (Lou Taylor Pucci) foi encontrado e está no hospital. Depois de passar por uma cirurgia para a retirada de um tumor no cérebro, Gabriel vai precisar de todo o apoio familiar para ter alguma melhora.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a The Music Never Stopped): Resolvi sair um pouco da série de filmes com olhar de avaliação para o Oscar 2014 para falar deste filme que eu vejo há tempos sendo previsto para estrear nos cinemas brasileiros. E acho que esta é a produção que mais vezes eu vi ter a data divulgada e depois alterada. De qualquer forma, tive a oportunidade de assistir a The Music Never Stopped e não desperdicei esta chance. E foi um grande acerto.

Esta produção de 2011 dirigida por Jim Kohlberg é destes filmes dos quais não vamos ouvir falar tão facilmente. Primeiro, porque ele não foi badalado nos principais festivais e nem tem um elenco estelar. Sendo uma produção de orçamento modesto e sem grandes “trunfos”, The Music Never Stopped só pode ser descoberta de duas formas: meio que por acidente ou por indicação de alguém que assistiu e gostou.

Pois bem, se você, como eu, acredita que a vida só tem realmente sentido por causa das relações humanas e da música, então este filme lhe cairá como uma luva. 🙂 The Music Never Stopped me surpreendeu positivamente pela forma interessante com que a história vai sendo apresentada. Não há nenhuma reviravolta no roteiro de Gwyn Lurie e Gary Marks inspirado no ensaio The Last Hippie, publicado no livro An Anthropologist on Mars, de Oliver Sacks. Ainda que a história tenha uma constante volta no tempo, no passado dos Sawyer, não é difícil acompanhar a narrativa que segue, por mais incoerente que o dito anterior possa parecer, uma lógica linear.

Sim, porque até as lembranças dos personagens são vividas no presente. Enquanto eles lembram momentos marcantes embalados por boa música, acompanhamos estas memórias vivenciadas no presente dos personagens. Então, no fim das contas, tudo é presente. E é assim também a nossa vida, não é mesmo?

Nosso momento atual guarda muitas lembranças do passado, que algumas vezes rememoramos sem, contudo, abandonar o tempo atual. Outras vezes nos projetamos no futuro, ao sonhar o que queremos – mas esta projeção não está presente em The Music Never Stopped, que apenas vai e vem entre o presente e o passado.

Além de jogar muito bem com a memória afetiva musical dos personagens, especialmente de pai e filho, The Music Never Stopped é uma apresentação interessante daquela geração que sofreu um choque violento. Afinal, quem não sabe dos desafios vividos pelos pais que viram seus filhos indo para o Vietnã ou se rebelando contra aquela guerra? Claro que esta vivência foi especialmente forte nos Estados Unidos. Mas a verdade é que o choque de gerações, nos anos 1960 e 1970 – e até hoje, mas acredito que em medida diferente -, atingiu praticamente todas as sociedades ocidentais.

Os pais dos “filhos da contracultura” viviam preocupados em prover a família. Para isso, dedicavam grande parte de seu tempo trabalhando. Quando estavam em casa, tinham uma boa relação com os filhos quando eles eram crianças. Mas quando eles cresciam, e começavam a discordar e pensar por sua própria conta, os conflitos e a falta de comunicação prevaleciam. Pois bem, este é o cenário de The Music Never Stopped.

O herdeiro dos Sawyer acaba saindo de casa, após mais uma discussão enfurecida com o pai, e não retorna mais. Isso presumimos logo no início, mas vamos saber os detalhes muito tempo depois. E o restante do roteiro repete a história real que tantos nós conhecemos – seja presenciado os fatos, seja escutando alguém nos falar dos antepassados (nossos ou de amigos).

No início, as perspectivas não são boas para a recuperação de Gabriel. Mas sabemos que este filme não teria sido feito se a história dele não tivesse surpreendido médicos e família. Pois bem, como mandaria o figurino, na fase inicial, após a cirurgia e o estado quase catatônico do filho, Henry reage sem muita convicção de algo poderá mudar. Na verdade, ele tenta seguir a rotina – ir e voltar do trabalho e deixar a “questão do filho” para a esposa cuidar.

Mas daí que Henry é demitido. O que ele faz? Ganha um pirulito quem respondeu que ele fica em casa, meio deprimido. Henry não se mexe porque a esposa continua cumprindo o seu “dever” que é, claro, cuidar de Gabriel. Mas Helen toma uma destas atitudes que fazem as mulheres serem corajosas como são: consegue um emprego e pressiona Henry para que ele se dedique mais a Gabriel. E daí tudo muda.

Com o amor e a dedicação que apenas os pais, mesmo os durões, são capazes, Henry busca informações sobre como o filho pode evoluir e conseguir se recuperar da melhor forma possível. Assim, ele chega até a professora universitária e musicoterapeuta Diane Daley (Julia Ormond), que fazia pesquisas sobre o uso da música para recuperar a memória e trazer para a “realidade” pessoas que tinham passado por algum problema grave na mente.

A partir daí, mergulhamos em muitos estilos de música, do clássico até os sucessos pré e pós os anos 1950. Afinal, Gabriel nasceu em 1951. Foi apresentado a todo tipo de música de sua época e anterior a ele pelo grande apreço que o pai tinha por música. E depois, fez a sua própria história com os clássicos dos anos 1960 e 1970. As histórias dos personagens e suas memórias, que passamos a conhecer com o desenrolar do roteiro, são embaladas por músicas de Bing Crosby, Peggy Lee, Count Basie, The Tulips, The Beatles, The Grateful Dead, Buffalo Springfield, Bob Dylan, The Rolling Stones, entre outros.

Quando Henry faz a pesquisa de artigos na biblioteca da cidade e descobre o nome de Diane Daley, começa o processo de redenção do pai de família que não soube dialogar com o filho em 1968, quando o garoto tinha 17 anos, e que fica 18 anos sem vê-lo. Mas como todo processo de descoberta e autodescoberta, Henry não aceita tudo facilmente. Como a esposa dele, Helen, diz lá pelas tantas, ele é um “cabeça-dura”. E seria muito fantasioso esperar que tudo mudasse automaticamente.

Pouco a pouco Henry investe em Gabriel. E vai se surpreendendo no caminho. E eis uma das lições de The Music Never Stopped: o quanto podemos aprender uns com os outros, independente se somos pais, filhos, marido ou mulher, amigos, inimigos… Basta sair do próprio “habitat”, daquele lugar seguro que se chama “mundo das próprias certezas”, para perceber o quanto podemos aprender com o diferente. E neste processo, conhecer um pouco mais sobre nós mesmos, sobre o que gostamos ou não, sobre o que devemos valorizar ou “deixar para lá”.

Enquanto a música embala a lembrança de pai e filho, Henry tem a oportunidade de saber mais sobre Gabriel. Deixar para o passado a lembrança do menino que acertava as “charadas” quando era levado para a escola, para saber um pouco mais sobre o que pensava e sentia aquele indivíduo que ele ajudou a colocar no mundo. Com a ajuda das músicas, Gabriel volta a ter um pouco de autonomia e a ter a capacidade de vivenciar de forma consciente um pouco do presente. Uma evolução científica para Diane Daley, que acaba sendo fundamental no processo.

(SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Achei especialmente interessante a forma com que Henry assume o caso do filho como uma espécie de “missão”. Pelo menos no início. Além de encontrar a Diane, ele se desfaz de todos os discos, para os quais nutria tanto apreço, para trocá-los por títulos que ele nunca havia ouvido falar e os quais ele presumia que fossem do agrado do filho. Muito interessante este desapego de Henry, que se esforça para compreender Gabriel pela primeira vez na vida – de verdade. No fim, e isso é uma das partes brilhantes desta história, Henry acaba enxergando o mundo sob a ótica do filho – ao qual ele não compreendia até então.

Para Henry e Gabriel, assim como para mim e para qualquer pessoa que veja a música como elemento fundamental da vida, nada melhor do que imergir nas canções que apaixonam a outra pessoa para, também, nos apaixonarmos ainda mais. Tanto pela pessoa pela qual queremos saber mais, quanto pela vida e por nós mesmos. Porque a música permite isso. Conhecermos mais sobre o outro, sobre nós, a respeito do tempo da música e além.

O desfecho, pelo “andar da carruagem” da história, acaba sendo previsível. Ainda assim, nos emociona. E antes dele, me emocionou muito a sequência em que Celia (Mía Maestro) presenteia Gabriel. Cheia de significados aquela cena. Muito bonita, e uma grande sacada a forma singela com que a cena é revelada pelo diretor que faz um grande trabalho ao deixar a história ganhar protagonismo – sem grandes “invenções” no estilo de filmar.

No fim das contas, e The Music Never Stopped deixa isso muito claro, o que importa é o amor que dedicamos uns para os outros. A música, neste processo contínuo de aprendizado que temos na vida, serve como a nossa particular trilha sonora. Por ser tão potente e eficaz em carregar sentimentos e sensações, a música é capaz de verdadeiros milagres. Bom ver a mais uma história que trata disto com simplicidade e boas intenções.

NOTA: 9,7.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: A experiência deste filme foi significante para mim desde os primeiros minutos. Aquele barulho do telefone tocando alto e ninguém atendendo mexeu comigo. Me irritou. E me lembrou do tempo em que eu morava com os meus pais e que não aguentava ficar ouvindo o telefone tocando muito tempo. Por isso mesmo, não importa o que eu estivesse fazendo, normalmente corria para atender logo. Depois, conforme a história ia transcorrendo, várias outras lembranças familiares vieram à tona. Filmes… nada melhor para fazer a gente viajar em uma nova história e nas antigas também.

Os atores que vemos em tela são conhecidos. J.K. Simmons é um veterano do cinema. O ator tem nada menos que 136 trabalhos no currículo, incluindo longas, curtas, séries e filmes feitos para a TV, e até vozes para personagens de jogos de videogame. Para vocês terem uma ideia de como ele trabalha, neste momento há quatro filmes com ele em pós-produção e dois sendo rodados. Claro que ele tem tantos trabalhos no currículo porque, normalmente, faz pontas ou papéis secundários. Curioso que a carreira dele começou em 1986 em um filme para a TV. Ou seja, foram 136 trabalhos em 27 anos – uma média de cinco trabalhos por ano.

Junto com ele, outro rosto conhecido que aparece nos primeiros minutos de filme é o da atriz inglesa Cara Seymour. Diferente de J.K. Simmons, ela não tem tantos trabalhos no currículo. Segundo o site IMDb, ela participou de “apenas” 29 filmes, curtas, séries e filmes feitos para a TV até o momento. Ainda assim, a exemplo do colega de cena, Cara também é mais conhecida pelos papéis secundários. Mas neste filme, ela é a protagonista, junto com Simmons e o talentoso e jovem ator Lou Taylor Pucci. Para mim, aliás, Pucci foi a grande “novidade” de The Music Never Stopped.

Procurando saber um pouco mais sobre Pucci, observei que ele já acumula, em 11 anos de carreira, 30 trabalhos (entre longas, curtas, séries e filmes para a TV) e cinco prêmios como ator. Não lembro de tê-lo visto antes, mas notei que ele estreou com o filme Personal Velocity: Three Portraits, de 2002, e que ficou mais conhecido pelos trabalhos Thumbsucker (de 2005) e The Story of Luke (de 2012). Acho que o rapaz, de 28 anos, merece ser acompanhado. Se ele tiver as chances certas, pode estourar em breve.

Outra figura de destaque neste filme e que, a exemplo de J.K. Simmons e Cara Seymour você já deve ter visto antes, é a sempre encantadora Julia Ormond. Fazia tempo que eu não via um trabalho desta atriz inglesa. Ela está muito bem, ainda que tenha um papel menor em The Music Never Stopped. Além dela, vale citar o trabalho dos coadjuvantes Tammy Blanchard como Tamara; e Scott Adsit como o Dr. Biscow, que cuida de Gabriel.

O ponto forte de The Music Never Stopped, sem dúvida alguma, é o roteiro da dupla Gwyn Lurie e Gary Marks. Eles transportam muito bem para o cinema a história de Gabriel Sawyer. O diretor Jim Kohlberg estreia com esta produção, e faz um bom trabalho na direção, ainda que ele não tenha nenhuma grande “inventividade” – segue a fórmula tradicional, focando na interpretação dos atores e com uma dinâmica tranquila na condução das câmeras. A direção de fotografia remete a um “filme envelhecido” durante todo o tempo, escolha do diretor Stephen Kazmierski.

Da parte técnica do filme, vale destacar ainda o bom trabalho do editor Keith Reamer e a excelente trilha sonora de Paul Cantelon. Sem as músicas que ele escolheu meticulosamente, sem dúvida este filme não teria o encanto e a veracidade que tem. Impecável! Se você quiser saber todas as músicas que fazem parte deste filme, pode consultar esta lista divulgada pelo site IMDb.

Agora, algo que eu achei estranho é que tentei encontrar mais informações sobre a “história real” de Gabriel Sawyer e da pesquisadora Dianne Daley e não tive sucesso. Se alguém souber algo e puder contribuir por aqui, agradeço.

The Music Never Stopped estreou no Festival de Sundance em janeiro de 2011. Depois, em outubro daquele ano, o filme participaria do Festival de Cinema de Hamburgo. E só. Aí acabou a carreira de festivais desta produção. Nesta trajetória, ele foi indicado a apenas um prêmio, o de Melhor Roteiro Adaptado no Chlotrudis Awards. Mas ele acabou perdendo o prêmio para The Descendants, que naquele ano abocanhou uma enxurrada de prêmios – e que tem um comentário sobre ele aqui.

Esta produção teria custado cerca de US$ 4 milhões e faturado pouco mais de US$ 258 mil (sim, mil e não milhões) nas bilheterias dos Estados Unidos. Ajuda a explicar o fracasso o fato de The Music Never Stopped ter chegado a poucos cinemas – 33 foi o recorde. Ainda assim, o desempenho desta produção foi muito ruim. Uma pena.

Os usuários do site IMDb deram a nota 7,4 para The Music Never Stopped. Uma avaliação muito boa, levando em conta o padrão do site. Os críticos que tem o seus textos linkados no Rotten Tomatoes foram bem mais comedidos na avaliação, dedicando 32 textos positivos e 17 negativos para o filme – o que lhe garante uma aprovação de 65% e uma nota média de 6,4.

Esta é uma produção 100% Estados Unidos. Sendo assim, ela se soma à lista de filmes daquele país que eu venho comentando por aqui desde que vocês votaram nos EUA para uma série de críticas do blog.

CONCLUSÃO: Certamente muitos de vocês não vão concordar com a nota que eu dei para esta produção. Mas vocês sabem, tão bem quanto eu, que o cinema é uma experiência muito pessoal. Particular. E eu tenho um fraco determinante – e quem me acompanha aqui no blog já sabe disso – quando vejo filmes que falam sobre o poder da música. E sobre temas envolvendo as famílias também. Pois The Music Never Stopped é um deleite na forma com que torna a música um assunto fundamental da história. E está lá, para nos emocionar, uma profunda busca de redenção de um pai clássico, destes que trabalha a vida inteira para dar conforto para a própria família e que não consegue conhecer ao próprio filho profundamente. Mas sempre é possível recomeçar.

The Music Never Stopped fala disso de forma bacana, leve, e mesmo que o final seja previsível, ele não deixa de emocionar. Para mim, soou como uma produção perfeita. Inicialmente, eu havia dado um 10 para o filme, mas acabei ajustando ao nota ao perceber que lhe falta um pouco mais de ousadia na direção ou mesmo na interpretação dos atores. Tudo está muito bem, mas frente a outros filmes que levaram 10 aqui no blog recentemente, seria injusto dar a mesma avaliação para este filme – ainda que ele tenha falado tão diretamente à minha alma.

Blackfish – Blackfish: Fúria Animal

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Gosto de assistir a documentários porque a maioria deles coloca o dedo nas feridas. Claro que volta e meia nos encontramos com histórias de vida edificantes e interessantes. Mas em tantas outras vezes o foco dos diretores é um assunto que merece ser debatido e questionado. Este é o exemplo de Blackfish, uma produção que vai fundo no trabalho de organizações como o SeaWorld. O objetivo do filme é claro: questionar o trabalho nestes parques, o tratamento dado às baleias e o treinamento das equipes. Mesmo deixando a conclusão para o espectador, Blackfish é bastante claro na crítica, mexendo com um gigante do entretenimento que está na bolsa e tem muito poder no mercado.

A HISTÓRIA: Começa no dia 24 de fevereiro de 2010 no SeaWorld Orlando. Ouvimos o áudio de um atendimento do Corpo de Bombeiros. Uma mulher avisa aos bombeiros que há uma treinadora na água com uma baleia e que eles precisam de socorro. A equipe que for enviada deve ir para o Shamu Stadium. O áudio seguinte é do gabinete do delegado do condado de Orange. Um homem pede para que eles atendam ao chamado de uma pessoa morta no parque SeaWorld. Um dos treinadores teria sido comido por uma baleia. Enquanto ouvimos as gravações, acompanhamos cenas de interações de baleias com treinadores dentro destes parques em filmagens submersas. Daí corta para um comercial da SeaWorld que mostra as baleias como um sonho. E começam os depoimentos do filme que mergulha na lógica de parques como o SeaWorld, combatidos em diversos processos judiciais e por variadas personalidades e campanhas, mas que seguem abertos e faturando alto.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso só recomendo que continue a ler quem já assistiu a Blackfish): Interessante como esta produção começa com a pior notícia e depois faz uma virada radical. Saímos da informação de que uma treinadora de baleias foi morta para uma sequência de profissionais que trabalharam lá contarem as suas próprias histórias. De maneira muito estratégica a diretora Gabriela Cowperthwaite inicia com a notícia impactante para, depois, recuar apresentando o fascínio dos parques que ela irá atacar na sequência.

A estratégia funciona. E o filme, com depoimentos ricos e francos, não para até nos apresentar todos os seus argumentos contra a exploração de baleias nos parques SeaWorld. Os treinadores que passaram pela empresa contam como se interessaram pelo trabalho e como iniciaram as próprias carreiras – curioso como uma das entrevistadas, Kim Ashdown, desmistifica a preparação dos treinadores do parque. Diferente do que ela pensava, eles não precisavam saber muito sobre o cuidado dos animais. Bastava terem a personalidade adequada e saberem nadar bem.

As imagens de arquivo dos ex-treinadores são fundamentais para a narrativa. E no resgate destas imagens, Jeffrey Ventre vê a si mesmo jovem e, em seguida, ele e outros entrevistados vem a imagem de Dawn Brancheau quando eles eram jovens, em 1994. Na sequência, ficamos sabendo o quanto ela era uma das melhores, o que não evitou que ela fosse morta no trabalho.

A diretora cria impacto quando tira qualquer imagem de cena, coloca um fundo negro e “datilografa” a fala da detetive Revere, que pega o depoimento de Thomas George Tobin no caso 10-16715 do Departamento de Polícia de Orange County. Tobin é ouvido no mesmo dia em que Brancheau foi morta. Ao ser perguntado se ele viu algum sangue na água, ele diz que viu uma parte de Brancheau, que havia sido escalpelada, e que eles acreditam que o coração dela não batia mais. Seguindo o depoimento, ele conta que o braço dela foi engolido.

O espectador é apresentado, assim, a uma prévia do caso trágico. Passamos então para o caso movido pela Administração de Segurança e Saúde Ocupacional (OSHA, da sigla em inglês Occupational Safety and Health Administration) contra o SeaWorld. O argumento da organização é que trabalhar com as “orcas assassinas” é perigoso por natureza, e que a solução para o problema seria afastar as pessoas deste contato direto.

E é aí que entra a argumentação de Blackfish. Logo no início, foi impossível para mim não lembrar de outro documentário, The Cove – comentado aqui no blog -, e que acabou levando o Oscar em 2010. Depois falarei mais destas duas produções. Para defender a própria tese, a diretora de Blackfish apresenta a morte de Brancheau e a repercussão forte que ela teve na mídia para, na sequência, voltar 39 anos no tempo. 

Com algumas imagens de arquivo bastante raras, ela revela como foram feitas as primeiras capturas de baleias em 1970 em Washington. O depoimento do mergulhador John Crowe, que participou daquelas capturas, é um dos mais fortes do filme. Não apenas por explicar a crueldade da captura das baleias mais jovens, que eram separadas das mães e famílias, mas por deixar claro que eles estavam cometendo um crime ao matar alguns animais.

Como explica o pesquisador de baleias Howard Garrett, depois de serem “expulsos” de Washington por causa de uma ordem judicial em 1976, os caçadores migraram para a Islândia, onde seguiram fazendo o mesmo. Depois de Crowe dizer que a pior coisa que fez na vida foi capturar baleias, somos apresentados a imagens da captura de uma baleia assassina macho com dois anos de idade que foi capturado no Atlântico Norte em 1983. O nome dele era Tilikum. E esta baleia macho será como a protagonista da história.

O ex-treinador de Sealand, Eric Walters, conta sobre a experiência que ele teve com a Tilikum no parque. Mas as afirmações do ex-diretor de Sealand, Steve Huxter, são bem elucidativas sobre o tratamento cruel que não apenas Tilikum mas os outros animais tinham no parque. Quando as baleias não faziam o que era pedido no treinamento, elas ficavam sem comer. E as mais velhas acabavam punindo o “novato” Tilikum. Inúmeras vezes – e isso vai acontecer depois no SeaWorld também – Tilikum e outras baleias eram muito machucadas.

Agora imaginem um animal inteligente e de forte característica familiar e social sendo enclausurado e torturado de diferentes formas – seja com a privação de comida, além da de espaço, e ainda sendo machucada com certa frequência? Que tipo de reação você pode esperar de um animal acuado e que frequentemente é mal tratado? Blackfish vai alinhando estas perguntas aos poucos.

E daí surge a primeira história de morte de um treinador. Em 20 de fevereiro de 1991, uma treinadora de Sealand, Keltie Byrne, foi morta por Tilikum. A diretora Gabriela Cowperthwaite consegue depoimentos importantes de duas irmãs que presenciaram tudo, Corinne Cowell e Nadine Kallen.

Aliás, um trunfo da diretora, apesar dela não ter conseguido o depoimento de ninguém da SeaWorld para o filme, foi encontrar as pessoas certas para falar do assunto das baleias assassinas. Ela conseguiu não apenas reunir um grupo de ex-treinadores do SeaWorld importante, mas também pegar muitas testemunhas oculares de fatos importantes, resgatar imagens e depoimentos históricos (de investigações policiais e de um julgamento contra a SeaWorld) e conduzir o filme de uma maneira que prende a atenção dos espectadores do início ao fim e nos surpreende.

Antes de mostrar o que seria feito com Tilikum, o filme argumenta com o depoimento de especialista sobre como as baleias assassinas se comportam na Natureza. Eles não apenas são animais dóceis, mas como tem uma grande inteligência e capacidade de comunicação, além de compreensão sobre si próprias e sobre os outros indivíduos da espécie.

Diferente das mentiras contadas pelos treinadores de SeaWorld, baleias como aquelas podem viver até a idade máxima dos humanos – ou seja, até por volta de 100 anos. Mas na Natureza, evidentemente. Porque enclausuradas em parques aquáticos elas duram a média de 25 a 35 anos.

Blackfish é contundente com estes e outros fatos. E depois parte para a reta final da narrativa, quando sabemos que mesmo tendo sido a baleia que vitimou Keltie Byrne, Tilikum acabou sendo levada para o Whale and Dolphin Stadium da SeaWorld em 1992. De acordo com o ex-treinador Jeffrey Ventre, Tilikum tinha o dobro do tamanho do segundo maior animal do local. E a partir daí a história foca as atenções em Tilikum.

Algo importante do filme é a explicação de como funciona a maquiagem do negócio do SeaWorld. Os ex-treinadores deixam muito claro que o assunto dos “acidentes fatais” não é algo que circule no meio. Sem contar a desinformação que é repassada para as equipes dos parques repetir até cansar para o público – como a de que as baleias vivem mais nos parques do que na Natureza (!!!wtf???).

A diretora Gabriela Cowperthwaite joga muito com a expectativa do público para saber os detalhes do caso de Brancheau. Ao ponto de que pensamos que vamos chegar aos “finalmentes” do caso antes do filme chegar a uma hora de duração, mas o desfecho só acontece mais de 20 minutos depois. Entre um momento e outro, sabemos de outros acidentes fatais ou que chegaram perto de ser, e de como, repetidas vezes, SeaWorld tentou responsabilizar os treinadores pelos casos em que eles saíram feridos ou mortos.

Blackfish não entrega a conclusão de bandeja para o público. Mas apresenta todas as ferramentas para que as pessoas possam tirar as suas próprias conclusões. O filme é contundente, mas não pega tão pesado com cenas fortes como The Cove. Naquele filme, não há espaço para aceitar o absurdo da morte de golfinhos. Porque nenhum argumento – mesmo o que trata da tradição – convence. Em Blackfish ainda há algum “encantamento” pela exibição de baleias que pode resistir.

Além disso, até imagino o comentário de algumas pessoas justificando estes parques porque, afinal, se podem existir zoológicos, por que não poderiam existir parques com animais marinhos? E de fato, se pensarmos de forma criteriosa, nem os zoológicos se justificam. Mas daí o debate vai longe, e o foco seria outro. E a situação das baleias, aparentemente, é ainda mais cruel que a de qualquer animal de zoológico. Blackfish sabe dar o seu recado.

NOTA: 9,3.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Como eu comentei antes, a diretora Gabriela Cowperthwaite sabe valorizar o caso de Brancheau. Em diferentes momentos do filme a morte da treinadora é lembrada, apenas para deixar “viva” a curiosidade da platéia. No fim das contas, todas as peças se encaixam, o que torna ainda mais revoltante a estratégia do parque em culpar a vítima por sua própria morte.

Algo interessante da parte final de Blackfish são as opiniões opostas dos ex-treinadores Mark Simmons e John Jett. Enquanto o primeiro defende a existência destes parques porque eles teriam aproximado as pessoas dos animais marinhos e ajudado em uma “educação” natural, o segundo afirma que não vai querer que a filha dele tenha esse tipo de contato com animais que são privados de sua vida natural. Interessante a escolha da diretora em colocar pontos de vista conflitantes – ao invés de optar pelo caminho mais cômodo de deixar apenas a opinião de Jett, que evidentemente iria mais de acordo com a “teoria” que o filme quer defender.

No final do processo da OSHA contra SeaWorld, decidida no dia 30 de maio do ano passado, o juiz Ken Welsch determinou que os treinadores da rede de parques trabalhem atrás de algumas barreiras, separados das orcas. No fim das contas a morte de Brancheau provocou uma mudança na indústria. Mas o problema é que estes parques continuam existindo. E por mais que, de fato, eles propiciem algumas imagens belíssimas e uma experiência indescritível, as pessoas deveriam se perguntar a qual custo elas estão obtendo aquele prazer. Ou não?

Sou natural de um Estado em que existe uma experiência interessante – mas da qual eu nunca participei: a observação de baleias francas. Mas esta prática, que era feita em Santa Catarina, foi suspensa por decisão da Justiça em maio deste ano. A justificativa era que os barcos que levam os turistas para observar as baleias que passam pelo litoral prejudicaria os animais. Agora, imaginem que estamos falando da observação de baleias livres… e já há todo este cuidado da Justiça sobre o tema. Mas é um tipo de observação que me parece muito mais respeitosa do que os parques aquáticos que privam os animais de uma vida saudável.

Nenhum entrevistado sobra neste filme. Mas é preciso tirar o chapéu para os ex-treinadores que decidiram revelar os bastidores dos parques aquáticos. Entre outros, vale citar os nomes de John Hargrave, Samantha Berg, Mark Simmons, Carol Bay, Dean Gomersall, John Jett e Jeffrey Ventre.

Interessante como Blackfish já teve algumas reações importantes. Para começar, a Barenaked Ladies cancelou uma apresentação que faria no parque temático SeaWorld de Orlando depois que o baterista Tyler Stewart assistiu ao filme. Os fãs da banda fizeram uma petição online para que eles desistissem do show marcado para fevereiro de 2014 e foi o que eles acabaram fazendo. Aqui está a notícia completa sobre a desistência com as justificativas da banda.

Depois, foi a vez de Willie Nelson pular fora de um acordo para se apresentar no SeaWorld de Orlando. De acordo com esta notícia da CNN, a atitude do cantor pode ter sido uma resposta a uma petição online que tinha 9 mil assinaturas no último dia 6 e que pedia para Nelson não se apresentar no parque após os fatos mostrados em Blackfish. A versão oficial da SeaWorld foi que Nelson desistiu por causa de um “conflito de agendas”. Ah, ok. 🙂

Aliás, vale ressaltar que Blackfish é uma produção da CNN. O canal de TV exibiu o filme para o grande público em outubro, o que fez ele chegar a muito mais gente e ter uma repercussão maior.

Acho importante, sempre, o debate saudável. Por isso mesmo, para quem gostou do filme, recomendo a leitura de dois textos. Deste, assinado por Michael Scarpuzzi, vice-presidente de operações zoológicas do SeaWorld San Diego que defende o “outro lado do balcão”. Scarpuzzi é o contraponto de Blackfish e traz informações que o documentário ignora. E também recomendo este, assinado pela diretora Gabriela Cowperthwaite e que explica as motivações dela para filmar Blackfish. Ambos são importantes. E o de Cowperthwaite, em especial, inspirador.

O trabalho da diretora de Blackfish me parece mais uma história de Davi contra Golias. Porque ela “afronta” e provoca uma indústria bilionária. O conglomerado SeaWorld começou a sua história em 1959 com um “pequeno santuário para pássaros e jardins” chamado Busch Gardens. Em pouco tempo o local seria expandido para um zoológico, até que em 1964 foi aberta a empresa SeaWorld, tendo como sócios George Millay, Milt Shedd, Ken Norris e David DeMott.

No primeiro ano, o SeaWorld de San Diego, na Califórnia, atraiu 400 mil visitantes atrás de golfinhos e leões-marinhos. De acordo com o site da empresa, atualmente existem três parques aquáticos SeaWorld nos Estados Unidos: além do original, em San Diego, existem o de Orlando, na Flórida, e o de San Antonio, no Texas.

O grupo que administra estes complexos também trabalha com outros formatos de parques. De acordo com esta notícia da Exame, 24 milhões (!!!) de pessoas visitaram os 11 parques do grupo em 2012, o que fez com que o SeaWorld faturasse US$ 1,5 bilhão – um crescimento de 19% em dois anos. Além disso, o SeaWorld Entertainment entrou na bolsa dos EUA em abril deste ano conseguindo US$ 702 milhões. Um negócio muito lucrativo e que tem altos interesses em “abafar” propagandas contrárias como pode ser um filme como Blackfish. Então, mais uma vez, ressalto a coragem de Cowperthwaite de comprar uma briga deste tamanho!

Um dos grandes acertos de Blackfish é a duração do filme. Ele tem cerca de 1h20min de duração. Tempo ótimo, porque consegue prender a atenção do espectador do início até o fim sem cansar.

Além de dirigir, Gabriela Cowperthwaite é responsável pelo roteiro de Blackfish, que assina junto de Eli B. Despres; pela edição do filme, que também divide com Despres; além de ser coprodutora. Ela apresenta uma direção segura e consegue uma narrativa bastante ajustada e com propósitos claros. Achei um trabalho bem honesto. A edição conta muito para o efeito final.

Blackfish estreou no Festival de Sundance em janeiro. De lá para cá, o filme participou de outros 11 festivais. Neste caminho, foi indicado a dois prêmios, mas não ganhou nenhum até o momento.

Não há informações sobre o custo de Blackfish. Mas até o dia 13 de outubro o filme tinha conseguido pouco mais de US$ 2 milhões nas bilheterias dos Estados Unidos. Não é muito, mas também não é algo que pode ser desprezado para um documentário.

Este é apenas o segundo documentário dirigido por Gabriela Cowperthwaite. Antes, ela havia feito a City Lax: An Urban Lacrosse Story junto com Tor Myhren.

Os usuários do site IMDb deram a nota 8 para Blackfish, o que é uma boa avaliação. Os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes também foram enfáticos: dedicaram 103 textos positivos e apenas dois negativos para a produção, o que lhe garante uma aprovação de 98% e uma nota média de 7,9.

Este é um filme 100% Estados Unidos. Sendo assim, como vocês sabem, ele entra naquela lista de produções que atendem ao resultado de uma das votações feitas por aqui.

CONCLUSÃO: Esta é uma produção corajosa porque confronta interesses muito poderosos. E não é nada fácil fazer isso. Mas a diretora Gabriela Cowperthwaite não voltou atrás e seguiu com o propósito de fazer um documentário sobre os absurdos que são feitos com as fofíssimas baleias que milhares – ou milhões? – de pessoas adoram ver nos parques SeaWorld e similares. A nota acima vale por esta coragem. Porque o filme, ainda que bem planejado e bem conduzido, não tem o impacto que outra produção recente teve. The Cove foi muito mais contundente na denúncia do que os exploradores da vida marinha são capazes de fazer. Também a temática de The Cove era mais complexa. Consequentemente, rendeu um filme melhor. Mas este Blackfish é bastante honesto e acrescenta mais uma boa colherada de informações para que as pessoas tomem consciência desta indústria lucrativa e que explora os animais e muitos trabalhadores. Quem sabe, um dia, possamos nos divertir sem explorar e castigar outros animais.

PALPITES PARA O OSCAR 2014: Este é apenas o segundo documentário que eu assisto da lista dos 15 pré-indicados ao Oscar do próximo ano. Ainda falta assistir a outras produções bem cotadas. Mas o que eu posso comentar, desde agora, que a coragem de Blackfish e a qualidade da produção podem levá-la até a reta final, na lista dos cinco indicados. Se conseguir isso, a diretora Gabriela Cowperthwaise já terá conseguido uma grande vitória.

Este filme lembra, por muitas razões, como eu comentei anteriormente, o premiado com um Oscar The Cove. Mas Blackfish sai perdendo, na comparação. Além de ter saído na frente, The Cove me pareceu muito mais contundente – mesmo não tratando tão diretamente dos parques aquático como é o caso deste Blackfish. De qualquer forma, o filme de Cowperthwaise faz uma contribuição importante para o debate. E mostra grande coragem de enfrentar o poderia do grupo SeaWorld.

Agora, falando exclusivamente de cinema e de inovação, devo dizer que gostei mais de Stories We Tell – comentado aqui no blog. O filme dirigido por Sarah Polley me pareceu mais ousado na proposta e na linguagem, além de tocar em temas contemporâneos muito interessantes.

Claro que pelo ponto de vista de importância social, Blackfish sai ganhando. Sem contar que o filme rompe a aura de inocência e de beleza de uma experiência importante para milhões de norte-americanos e turistas de outros países que, durante décadas, visitaram os parques SeaWorld. Ainda assim, tratando apenas de cinema, acredito que Stories We Tell se mostre uma obra com uma diferenciação maior. Meu voto, se ele contasse (hehehehe), iria para Stories We Tell. De qualquer forma, acredito que as duas produções tem grandes chances de chegar na lista de finalistas do Oscar. Agora, falta assistir às demais.