Jezebel

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Dois grandes atores em suas respectivas primeiras fases de suas longas e profícuas carreiras. Jezebel nos apresenta Bette Davis e Henry Fonda em um belo trabalho. Um filme que retrata os Estados Unidos dividido entre o Norte e o Sul e prestes a passar por mais uma crise envolvendo a saúde pública. Produção bastante datada, que trata de forma franca um estilo de vida que foi importante para os Estados Unidos. É um filme interessante especialmente pelo desempenho de seus astros.

A HISTÓRIA: Começa em New Orleans, em 1852. As ruas estão cheias de comerciantes e pessoas comprando de roupas, máscaras até flores. Carruagens são conduzidas por escravos negros, e senhores bem vestidos caminham pelas ruas. Em uma carruagem, Buck Cantrell (George Brent) pede para o cocheiro parar em um hotel. Ele vai, junto com Ted Dillard (Richard Cromwell), para o bar do hotel, para eles tomarem uma dose de whisky antes da festa de Julie (Bette Davis).

No bar do hotel, Buck acaba se desentendendo por causa de comentários feitos sobre Julie. Como manda o costume da época, ele deve enfrentar o desafeto em um duelo. Em seguida, Buck e Ted vão para a festa de Julie, que chega atrasada, causando comentários de reprovação em parte dos convidados.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Jezebel): Eu não vou mentir para vocês. O grande interesse desse filme é ver a dois grandes atores, que marcaram as suas épocas – e, porque não dizer, a história do cinema -, em grande fase. Bette Davis era o nome de destaque deste filme. E não por menos, já que ela tinha sido indicada ao Oscar de Melhor Atriz em 1935 e vencido o Oscar nessa mesma categoria em 1936.

Ou seja, Jezebel, quando estreou, estava sendo estrelado por uma atriz que recém tinha vencido o Oscar. Bette Davis estava em ascensão quando fez este filme. Não por acaso o seu nome aparece em tamanho maior do que o dos outros astros da produção. Ela é a protagonista, e a história orbita ao seu redor. Mas afinal de contas, o que o roteiro de Clements Ripley, Abem Finkel e John Huston nos apresenta?

Apesar do filme ter sido lançado em 1938, um ano antes do começo da Segunda Guerra Mundial, a história em si de Jezebel se passa em 1852. Importante ter isso em mente. Também é fundamental sabermos que estamos na região Sul dos Estados Unidos – o roteiro do filme nos lembrará disso inúmeras vezes.

Porque apesar de Jezebel ser um filme centrado em uma mulher que resolve romper as regras vigentes daquele período – e é sempre criticada por isso -, ele também trata, de maneira muito direta e franca, as diferenças entre os ianques (do Norte do país) e os sulistas. Ou seja, entre os que querem a abolição da escravatura e aqueles que a defendem.

Vale, nesse sentido, lembrar que este filme se passa nove anos antes do início da Guerra de Secessão – ou Guerra Civil Americana. Todo o cenário que vemos em Jezebel, das diferenças cruciais entre o Sul e o Norte dos Estados Unidos, serão a base do conflito militar que duraria quatro anos e que teria provocado cerca de 618 mil mortes – alguns projetam números até maiores do que este. De qualquer forma, um número espantoso de vítimas por um conflito que teve as suas bases um pouco esboçadas nesta produção.

Antes de falar deste fundo cultural, político, econômico e de costumes de Jezebel, vamos tratar da essência desta produção. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). A protagonista do filme, e na qual a história é centrada, é a destemida, “mimada” e temperamental Julie Marsden (Bette Davis). Ela era uma garota à frente da sua época porque, apesar de concordar com algumas convenções e de amar a sua terra natal, ela também queria romper com alguns costumes e mostrar que tinha tanto direito quanto os homens de opinar e de marcar posição.

Esse é um clássico. Uma mulher que procura romper os costumes conservadores e o “modus operandi” de uma sociedade machista para fazer-se ouvir e respeitar. Depois de namorar a Buck, Julie agora é noiva de Preston Dillard (Henry Fonda), um super partido da época por ser herdeiro de uma família respeitada e por trabalhar em um banco. Além de tudo, ele era bonito e elegante. Julie não poderia querer alguém melhor.

O problema é que logo percebemos que Julie quer tudo a sua maneira. E por uma razão idiota, porque Julie quer que o noivo vá com ela na prova do vestido que ela deseja usar no baile de gala da cidade, mas ele está ocupando em uma reunião importante no banco e não vai com ela, Julie resolve quebrar uma regra social considerada importante naquela época. A regra também é ridícula, convenhamos, mas a simbologia da atitude dela é o que muda tudo.

Como Preston resolve terminar a reunião que tinha começado no banco para defender a construção de ferrovias para investidores, Julie resolve “escandalizar” a todos ao optar por um vestido vermelho para ir para o baile. Naquela sociedade conservadora e cheia de regras, uma moça solteira só poderia ir para o baile vestida de branco. Uma pena, nesse sentido, que Jezebel ainda seja um filme preto e branco. Fiquei imaginando como, em uma produção colorida, teria sido chocante ver Julie vestida de vermelho em meio a um salão de mulheres com vestidos brancos.

Mesmo não vendo esse contraste em todo o seu esplendor por causa do preto e branco, conseguimos imaginar a cena. E sim, por causa de um costume tão idiota e de uma “cabeça dura” tão grande como Julie, ela acaba sendo deixada pelo noivo. Como a vida anda para a frente e não para trás – ainda que Julie tenha preferido ficar com a própria vida paralisada à espera de Preston -, depois de romper com a protagonista, Preston vai para o Norte do país trabalhar e lá ele conhece à Amy Bradford Dillard (Margaret Lindsay).

Os dois se casam e, após um ano do rompimento com Julie, Preston volta para o Sul por causa da epidemia de febre amarela que está assolando a região de New Orleans. Honestamente, eu não vejo que essa teria sido a melhor decisão a tomar, voltar para uma região com epidemia crescente, mas Preston é do tipo que quer ajudar o banco no qual ele é um dos responsáveis.

Além disso, claro, nesse caso, o roteiro não pode ser tão lógico porque o que importa mesmo é a nova fase de “tensão” entre Julie e Preston. Como Amy é uma garota “ianque”, do Norte do país, isso rende uma série de comentários hostis por parte de Julie e da sua eterna marionete Buck.

Olhando especificamente para a protagonista deste filme, os roteiristas parecem nos dizer que uma mulher, quando resolve ter opiniões próprias, ir contra as convenções e assumir uma postura egoísta – funções que parecem ser restritas apenas aos homens -, causa apenas dor, destruição e morte. A Jezebel do título é explicada pela tia de Julie, Belle Massey (Fay Bainter), que lembra a sobrinha de uma mulher que foi contra Deus, na Bíblia, e que tinha esse nome.

Verdade que os joguinhos e o egoísmo de Julie provocaram mais conflitos – e inclusive uma morte – do que ela gostaria. Mas será que ela foi realmente a responsável pela morte de Buck, por exemplo? Ela mesma pede para ele deixar para lá o costume dos duelos, e não confrontar Ted por uma bobagem. Mas ele é orgulhoso e defende até o final os costumes do Sul. E aí que mais uma vida se perde por uma bobagem.

Daí entramos naquele fundo social do qual eu falava antes. Jezebel trata indiretamente vários elementos que serviriam de estopim para ocorrer a Guerra de Secessão nove anos depois desta história. Por um lado, temos a uma sociedade conservadora e cheia de regras – ao ponto de uma garota ser considerada uma “pária” porque não usou uma cor de vestido em uma determinada festa. Sociedade essa que defendia o uso de escravos e colocava a honra acima da vida – vide os duelos que poderiam terminar em morte por causa de desentendimentos.

Bem diferente desta visão de mundo, temos no filme Amy e um Preston com nova visão após ter morado no Norte do país. Naquele região, as pessoas acham que os negros devem ter as mesmas oportunidades que os brancos, e que uma mulher também deve ter liberdade de escolher como ela deve se vestir. No Norte não existem tantas convenções sociais ou regras, e as máquinas começam a exigir uma nova postura dos trabalhadores – ao ponto de Preston afirmar, com todas as letras, que as máquinas vão superar o trabalho escravo em breve.

Esse choque de visões e de maneiras de encarar a realidade cria tensão na casa de Julie e da tia Belle da mesma maneira que cria divisões e conflitos em qualquer outra casa do Sul do país. Jezebel, desta forma, além de uma história de amor mal resolvida, se revela um filme que ajuda a explicar um contexto social e histórico importante por Estados Unidos.

Por tudo isso, esse filme se revela interessante. Apesar disso, um grande problema do roteiro de Jezebel é que ele é um bocado previsível. Não existe, descontados um ou dois momentos, nenhuma grande surpresa. No lugar disso, o que vemos é uma carga um tanto exagerada de melodrama – especialmente a partir do ponto em que Julie parte em “socorro” do amado que não está mais com ela. Dá para entender as escolhas dos roteiristas e do diretor William Wyler, já que este estilo deveria ser apreciado pelas audiências na época.

Mas, para o meu gosto, o filme poderia ser um pouco mais surpreendente e um pouco menos melodramático. O roteiro também não apresenta nenhuma grande novidade, ainda que Ripley, Finkel e Huston acertam ao não centrar a história apenas na garota rebelde e sua história de amor frustrada, mas também em nos apresentar um pano de fundo histórico interessante.

De qualquer forma, o grande interesse do filme está mesmo em ver Bette Davis e Henry Fonda ainda jovens e em grande momento. Uma das sequências desta produção, quando Julie encontra Preston após um ano, vestida de branco, e que se ajoelha em frente ao amado, certamente é uma das imagens mais repetidas quando tratamos do trabalho de Bette Davis. O filme merece ser visto apenas por isso, pelo desempenho da atriz e por sua troca com o grande Henry Fonda. Ambos estão muito bem. Mas o filme, infelizmente, é um pouco datado e previsível demais.

NOTA: 8.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Para quem se interessou em saber um pouco mais sobre os conflitos entre o Sul e o Norte dos Estados Unidos, vale dar uma lida nessa curiosa matéria da Superinteressante. Apesar daquela era revelada por Jezebel já fazer parte do passado dos Estados Unidos, certamente as suas marcas continuam ajudando a ditar o cotidiano do país em pleno 2018 – vide a questão racial mal resolvida no país, entre outras questões.

Vale comentar que Jezebel está completando, em 2018, nada menos que 80 anos de seu lançamento nos cinemas. Impressionante pensar que há oito décadas já tínhamos filmes com o zelo, o cuidado e o talento de atores como Bette Davis e Henry Fonda nos cinemas. Esse filme faz parte da história do cinema norte-americano, sem dúvidas.

O roteiro de Jezebel, escrito por Clements Ripley, Abem Finkel e John Huston, é baseado na peça de teatro de Owen Davis. Além dos três roteiristas, contribuíram para o roteiro, apesar de não terem recebido crédito por isso, Robert Buckner e Louis F. Edelman. Interessante como naquela época diversos nomes se envolviam em um mesmo roteiro – hoje, por outro lado, é mais comum que um ou dois roteiristas, no máximo, se envolvam em um projeto.

São épocas diferentes, sem dúvida. Na época de Jezebel, na era dos estúdios, o nome dos astros e estrelas, assim como os dos diretores, tinham mais relevância do que o dos roteiristas. Os projetos eram capitaneados pelos produtores e pelos estúdios muito mais do que hoje em dia.

Vou admitir algo que é difícil para “engolir” nessa produção. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Entendo que a produção retrate uma situação em pleno século 19, nos Estados Unidos, mas a ideia de que uma mulher é a origem da “desgraça” dos homens, ao estilo da Jezebel da Bíblia e de Eva, idem, me incomoda. Como eu disse antes, os homens fazem o que bem entendem, inclusive nessa história, mas a culpa acaba sendo das “ardilosas” mulheres que os provocam? Ah vá! Quando as pessoas serem realmente responsáveis pelos seus atos?

Jezebel é um filme de William Wyler, um dos grandes diretores da época dos estúdios em Hollywood. Nesta produção, ele faz um trabalho correto e bem conduzido, valorizando os cenários e os locais de luxo que ajudam a explicar a origem dos personagens. Ele também captura muito bem o ritmo de uma cidade na época e o trabalho dos atores, valorizando muito bem os talentos que foram escolhidos para esta produção. Faz um trabalho competente, ainda que, tecnicamente falando, ele não entregue nada assim de tão excepcional. Os seus ângulos e dinâmica das câmeras já tinham sido explorados com talento antes por vários nomes. Nada demais, portanto.

Bette Davis e Henry Fonda são as grandes estrelas desse filme. Com um certo destaque para a atriz, que realmente conduz a história e brilha com a sua personagem cheia de nuances. Além deles, vale citar o belo trabalho de George Brent como Buck Cantrell; de Margaret Lindsay como Amy Bradford Dillard; de Donald Crisp como o Dr. Livingstone, amigo da família Dillard e de Julie; Fay Bainter muito bem como a tia Belle Massey; Richard Cromwell como Ted Dillard, irmão mais novo de Preston e um sujeito pouco afeito a “desaforos”; Henry O’Neill como o general Theopholus Bogardus, tutor de Julie; Lew Payton como o “tio” Cato, um escravo que era empregado da família de Julie há muito tempo; Eddie “Rochester” Anderson como Gros Bat, escravo de confiança da família; e Matthew “Stymie” Beard como Ti Bat, um simpático escravo que servia como “garoto de recados” e quase um “faz tudo”.

O filme não tem muitos personagens importantes, ma tem diversos personagens com pouca relevância ou figurantes. Alguns outros nomes tem algumas falas e um pouco de importância no filme, mas nada que mereça realmente ser mencionado.

Entre os aspectos técnicos da produção, vale destacar a direção de Ernest Haller; a trilha sonora de Max Steiner; e a edição de Warren Low. Também valem ser mencionadas a direção de arte de Robert M. Haas; os figurinos de Orry-Kelly; e o departamento de arte de Fred M. MacLean, Pat Patterson e George Sweeney.

Jezebel estreou em première no dia 10 de março de 1938 em Nova York. No mesmo ano, o filme estreou em outros 11 países, incluindo uma participação no Festival de Cinema de Veneza em agosto daquele ano.

Agora, vale citar algumas curiosidades sobre esta produção. A atriz Bette Davis concluiu que William Wyler era um diretor diferenciado porque ele fazia questão de apresentar para ela o resultado das filmagens do dia. Nenhum diretor tinha feito isso com ela antes. Eles assistiram juntos, por exemplo, a uma cena em que a atriz estava descendo uma escada e que, quando foi filmada, tinha irritado Bette Davis porque Wyler tinha pedido para a sequência ser repetida pouco mais de 30 vezes. Ao rever o material, contudo, Wyler mostrou a sequência em que Bette Davis tinha feito uma expressão fugaz e que resumia bem a sua personagem. A partir daí, a atriz não questionou mais nenhuma sequência que o diretor pediu para ser repetida.

Bette Davis teria gravado cerca de 45 takes até que ela conseguiu aperfeiçoar o gesto em que ela levanta a capa da sua montaria – na parte inicial do filme. Isso demonstra, assim como o parágrafo anterior, o nível de exigência da atriz e do diretor com os detalhes desse filme. De fato, nada aparece em cena sem que tudo tenha sido ensaiado e/ou gravado até a exaustão para que ficasse “perfeito”.

Depois que o filme terminou de ser gravado, Bette Davis chorou durante alguns dias. Não apenas porque ela teria terminado uma das suas experiências cinematográficas mais gratificantes mas, também, porque ela descobriu estar grávida de William Wyler. Agora sim, faz ainda mais sentido o diretor preocupar-se em mostrar as cenas rodadas a cada dia para a sua então amada. 😉

Bette Davis recebeu o Oscar de Melhor Atriz por Jezebel em 1939. Em 2001, esse Oscar que ela recebeu pelo filme foi leiloado por US$ 57,8 mil pela Christie’s. Quem arrematou a estatueta foi Steven Spielberg que, na sequência, doou o prêmio para os arquivos da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood.

Bette Davis conheceu William Wyler durante o teste que fez para o filme A House Divided em 1931. Como estava atrasada para o teste, Davis pegou um vestido de tamanho menor do que o dela e, enquanto caminhava, ouviu o seguinte comentário de Wyler para uma pessoa de sua equipe: “O que você acha dessas damas que mostram os seus seios acreditam que podem conseguir um emprego por causa disso?”. Davis se sentiu humilhada por esse comentário e fez questão de lembrar Wyler sobre ele quando os dois se encontraram para tratar de Jezebel. A ironia do episódio é que Bette Davis era conhecida por renunciar do seu sex appeal – muitas vezes aparecendo nos testes e nos encontros com os diretores e produtores sem maquiagem.

Durante as filmagens de Jezebel, Bette Davis e William Wyler tiveram um caso. Na época, Davis era casada com Harmon Nelson. Quando Jezebel foi rodado, Nelson trabalhava, principalmente, em Nova York, e o casamento dele com Davis encaminhava-se para o fim. Enquanto isso, a atriz passava muitas noites na casa de Wyler onde, entre uma noite e outra de amor, eles também falavam do filme que estavam fazendo juntos.

Após brigar com Wyler em um determinado momento, Bette Davis embarcou em um caso com Henry Fonda. Isso aumentou muito a tensão nos sets de filmagem. Mas depois que a esposa grávida de Fonda ligou para o marido, Davis desembarcou desse caso.

Para alguns críticos, Jezebel é a versão preto e branco de Gone with the Wind, que estava em fase de pré-produção na época em que o filme de Wyler foi rodado. Francamente? Acho Gone with the Wind melhor. Mais maduro enquanto produção e com interpretações mais marcantes.

O ator Henry Fonda foi liberado de ficar junto com a equipe até o final das rodagens porque ele estava ansioso para acompanhar ao nascimento da sua filha Jane Fonda. Por isso ele gravou algumas cenas com antecedência e foi liberado. Enquanto isso, Bette Davis perdeu o pai durante as filmagens de Jezebel. Ele morreu durante o Ano Novo de 1938. Como a produção estava 24 dias atrasada, Davis tirou uma folga para ir até o funeral do pai.

A peça em que o filme foi baseado, estrelada pela “inimiga” de Bette Davis, Miriam Hopkins, foi um fracasso na Broadway. A atriz Miriam Hopkins chegou a afirmar que, em seu contrato, estava determinado que ela estrearia o filme baseado na peça. Mas a verdade é que o contrato não era determinista – apenas dizia que ela seria “considerada” caso a produção rendesse um filme.

Humphrey Bogart, que tinha acabado de trabalhar com Wyler em Dead End, alertou Bette Davis que ela poderia odiar trabalhar com o diretor já que ele tinha o hábito de pedir que uma sequência fosse rodada diversas vezes sem, contudo, orientar os atores sobre o que eles poderiam fazer diferente. No primeiro dia de filmagens, Davis teve que rodar 28 vezes uma cena considerada simples em uma loja de roupas. Inicialmente, ela não gostou daquilo. Mas quando viu o resumo das filmagens do dia e percebeu que a cada nova rodagem na sequência a interpretação dela ficava melhor, ela foi convencida pelo jeito de trabalhar do diretor.

Jezebel ganhou em duas categorias do Oscar de 1939 e foi o vencedor de outros três prêmios – além de ter sido indicado a outros quatro. O filme ganhou o Oscar de Melhor Atriz para Bette Davis e de Melhor Atriz Coadjuvante para Fay Bainter. Ele ficou ainda no Top Ten Films da National Board of Review, em 1938; o National Film Registry do National Film Preservation Board dos Estados Unidos em 2009; e a Special Recommendation para William Wyler no Festival de Cinema de Veneza de 1938.

Impressionante a trajetória de Bette Davis. Ela recebeu duas vezes a estatueta de Melhor Atriz no Oscar, em 1936 por Dangerous e em 1939 por Jezebel, e foi indicada outras nove vezes ao Oscar – mas nunca mais ganhou uma estatueta. A primeira indicação dela veio em 1935, por Of Human Bondage; e a última, em 1963, por What Ever Happened to Baby Jane?

Os usuários do site IMDb deram a nota 7,6 para Jezebel, enquanto que os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 15 críticas positivas e uma negativa para a produção – o que lhe garante uma aprovação de 94% e uma nota média de 7,5.

Escolhi Jezebel para figurar na lista dos filmes da seção Um Olhar Para Trás porque este é o primeiro filme da lista destaca pelo livro 1001 Filmes para Ver Antes de Morrer. Como sempre, gosto de destacar parte da crítica da produção que é feita no livro. Em seu texto, R. Barton Palmer comenta o seguinte: “O segundo mais famoso retrato de Hollywood de uma mimada bela do Sul, Jezebel ofereceu a Bette Davis o veículo perfeito para seus talentos como atriz em um papel marcante. Davis interpreta Julie Marsden, a mais cobiçada debutante da Nova Orleans de 1850, uma sociedade regida por códigos de comportamento inflexíveis que a jovem considera sufocantes”. Como sempre, vale ler toda a crítica de Palmer, que faz uma interessante comparação de Jezebel com Gone with the Wind.

Esta é uma produção 100% dos Estados Unidos. Por isso, esse filme também figura na lista de produções que atendem a uma votação feita há algum tempo aqui no blog.

CONCLUSÃO: Essa produção se desdobra sobre um tempo dos Estados Unidos que já passou mas que, até hoje, tem os seus desdobramentos no país. Uma mulher que busca ter opinião própria sofre com uma sociedade cheia de regras e na qual os homens decidem os rumos da sociedade. Esse é um dos temas do filme. O outro é a diferença brutal entre a “forma de ser” da região Norte e Sul do país, com as suas diferenças “irreconciliáveis”. Um filme interessante, com dois atores ótimos em suas fases iniciais de carreira, mas que sofre um pouco com o fato de ser muito datado e por ficar um tanto “indeciso” sobre qual é o foco principal da história.

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First Reformed – No Coração da Escuridão

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As nossas escolhas nem sempre são óbvias. Ainda que seja verdade que muito do que fazemos, no dia a dia, seja previsível, tantas outras escolhas fogem do que poderia ser considerado como “evidente”. First Reformed trata sobre o que realmente nos move, e sobre motivações escondidas por trás de atos algumas vezes incompreensíveis para os demais. Nem tudo na vida tem explicação, por mais que nos agarremos na razão ou na fé. Ou até tudo tem explicação, mas ela nem sempre está ao nosso alcance. Estes são alguns dos assuntos deste filme.

A HISTÓRIA: Lentamente, a câmera vais e aproximando de uma igreja branca e simples. Em volta desta igreja, apenas algumas árvores e arbustos. Em uma placa, as informações sobre o local: Primeira Igreja Reformada de Snowbridge, Nova York. Planejada em 1767, construída em 1801 por colonos da Friesland Oeste, liderados pelo pastor Wortendyk, é a mais antiga igreja em atividade no Condado de Albany.

Atual líder dessa igreja histórica, o pastor Toller (Ethan Hawke) comenta que decidiu começar a escrever um diário. Ele escreve isso em um caderno, onde começará a relatar as suas experiências e reminiscências. Ele diz que o objetivo é registrar em palavras os pensamentos dele e os acontecimentos de seu dia a dia de forma objetiva. O pastor Toller afirma: “Quando se escreve sobre si, não se deve mostrar misericórdia”. A ideia dele é manter o diário por um ano. Mas muitos eventos vão acontecer antes desse prazo.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso eu recomendo que só continue a ler quem já assistiu a First Reformed): Enquanto poucas opções de filmes me chamam a atenção nos cinemas, eu vou seguindo com a minha lista de filmes que foram apontados por especialistas como alguns dos melhores do ano e com a minha “revisita”/redescoberta de clássicos do cinema. First Reformed faz parte da primeira categoria, é claro.

Inicialmente, achei a proposta do filme bastante interessante. Acredito que todos, independente da fé ou da falta de fé que tenham, têm uma certa curiosidade sobre como é a vida dos padres e pastores. O que eles fazem quando eles não estão em seu “grande momento” de ministrar missas e celebrações? Nem sempre lembramos, mas eles são pessoas comuns, homens que tem necessidades fisiológicas e capacidade física e mental limitada como qualquer outro homem que já viveu sobre a Terra.

Apesar de serem feitos de carne e osso, órgãos vitais e instintos, como todos nós, esses “homens da Igreja” são investidos de um grande diferencial: para quem tem fé e segue a religião cristã, eles são diferenciados porque são os “porta-vozes” de Deus. Eles se prepararam por diversos anos para entender a Palavra de Deus como ninguém e, ao dedicarem a sua vida para a sua religião, eles estão dedicando os seus dias para Deus e para as suas comunidades.

Para quem segue uma religião cristã, esses padres e pastores são conselheiros e pessoas para quem eles podem pedir ajuda quando necessário. Ainda que tudo isso seja verdade, também é verdade que estes líderes espirituais e comunitários também tem as suas necessidades, acertos e falhas, como qualquer outro ser humano. E as pessoas têm curiosidade para saber o que acontece com eles fora das situações mais “comuns” e evidentes e o que eles realmente pensam além das pregações.

Admito que eu sou uma destas pessoas. Que tem curiosidade sobre como é a vida, os sentimentos e pensamentos dos padres e pastores. First Reformed aparece para responder parte destas dúvidas. O protagonista deste filme, o pastor Toller, teve uma história complicada antes de fazer parte da Igreja. Mas, como ele comenta com Michael (Philip Ettinger), um ativista que vai ser pai e que não quer colocar uma criança nesse mundo em vias de destruição, após perder o filho único na Guerra do Iraque, ele foi chamado pelo pastor Jeffers (Cedrid the Entertainer) para atuar na First Reformed.

A igreja em que ele atua tem importância histórica e está perto de completar 250 anos de atividades quando Toller começa o seu próprio diário e começamos a acompanhá-lo nessa produção com roteiro e direção de Paul Schrader. No dia a dia como pastor, além de presidir algumas celebrações na igreja histórica, ele faz visitas guiadas explicando um pouco da história do local para interessados, apresenta “souvenirs” da igreja e participa das atividades da Abundant Life, igreja de Jeffers.

Faz parte do cotidiano do protagonista o trabalho de aconselhamento de pessoas da comunidade e o seu envolvimento com os jovens da Abundant Life. Logo no início desta produção, a jovem Mary (Amanda Seyfried) procura o pastor Toller pedindo ajuda. Ela quer que ele converse com Michael, o seu marido até há pouco desempregado, depressivo e que não deseja que o filho deles nasça. O exemplo do casal é bastante ilustrativo sobre os desafios que um pastor/padre tem que enfrentar no seu dia a dia.

O roteiro de Schrader é inteligente ao mostrar, logo no início, as diferentes situações que um líder espiritual e comunitário enfrente no seu dia a dia. Desde o início desta produção, o nosso protagonista divide os seus dias entre a burocracia de preparar as comemorações da data festiva da First Reformed e o aconselhamento do casal Michael e Mary. Enquanto interesses “mundanos”, econômicos e políticos envolvem o primeiro tema, no segundo tema temos dilemas espirituais e existenciais – inclusive uma questão de vida e morte.

Acho que o filme acerta ao humanizar a figura de um pastor, mostrando toda a sua busca por ajudar ao próximo e, ao mesmo tempo, as suas contradições. Nisso, Schrader vai muito bem. Mas em outros pontos, achei que o filme exagera na dose apenas para “chocar” o espectador. E sempre que um filme faz isso, exagera nas tintas e nas doses para criar um impacto em quem está assistindo, mas de uma forma um tanto “deslocada” em relação ao restante da narrativa, acho que a produção perde alguns pontos. Esse foi o caso deste First Reformed.

Para mim, foi evidente a aproximação contraditória do pastor e de Mary desde o início. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Mas, ainda que existisse certa “tensão sexual” entre eles, o pastor não faria nada se o marido dela não tivesse se matado. Isso é fato. Mas o quanto ele se sentiu responsável pela morte de Michael? Ainda que ele tivesse claro que não foi ele que apertou o gatilho, o quanto Toller não pensava se ele poderia ter evitado aquilo?

De fato, depois que Mary descobre o colete com bombas e chama Toller para dar um jeito naquilo, tanto Mary quanto o pastor não souberam lidar com o risco que a descoberta deste fato trazia para Michael. Eles não mediram bem esse risco e aconteceu o que aconteceu naquele parque para o qual o pastor é chamado.

A partir daquele momento, o que já vinha sendo ruim para Toller, apenas piora. Ele acaba questionando as questões práticas do dia a dia da igreja, como os interesses econômicos e políticos, e buscando por uma resposta para aquela pergunta cabal que Michael fez para ele: “Deus pode nos perdoar pelo que fizemos a esse mundo?”. Até aí, tudo bem. Todo esse conjunto de questionamentos e dúvidas do pastor em seu íntimo, reveladas por seu diário, são compreensíveis.

Como acontece, acredito, com tantas outras pessoas que acabam se dedicando à Igreja para ajudar os outros, muitas vezes é mais fácil ser misericordioso e generoso com os demais do que consigo mesmo. Dizem que muitos psicólogos estudam essa área porque eles próprios tem muitos dilemas e problemas para resolver/tratar. Acredito que o mesmo pode acontecer com quem vira um pastor/padre ou um voluntário contumaz na Igreja.

Para mim, esse é o caso do protagonista de First Reformed. Ele tem uma profunda dor da perda do filho para resolver – e, provavelmente, uma boa carga de culpa por causa dessa perda. Toller vivenciou a perda de um filho, e por causa de uma “tradição” familiar de servir à pátria que se provou fatal. Por causa disso, o casamento dele faliu. E o que lhe restou? Além de muitas dúvidas, a vontade de converter toda a sua força excedente em ajudar ao próximo.

Isso é bacana e digno de aplausos, mas como alguém já disse antes, para que você consiga ajudar a alguém, primeiro é necessário que você ajude a si mesmo. Apenas alguém que está bem consigo mesmo pode fazer realmente bem aos demais. E vemos isso claramente com Toller, que até é capaz de ajudar aos outros, mas por relativamente pouco tempo porque ele próprio não se ajuda. No escuro da noite, ele consome garrafas e garrafas de bebida e urina sangue. Ele está doente, mas não parece estar disposto a pedir ajuda.

Além disso, fora os momentos obrigatórios de celebrações, ele admite que tem dificuldade de rezar. Em seus escritos, ele também deixa claro uma boa dose de autocrítica e de questionamentos sobre a própria instituição igreja. Confrontado com questões polêmicas, Toller nem sempre tem uma resposta para dar para o interlocutor. Seja para aquela pergunta cabal feita por Michael, seja para responder “à altura” um jovem que o confronta em uma roda de conversa. De fato, os pastores e padres nem sempre tem a resposta para tudo – daí surge o famoso “Mistério” e a falta de respostas justificada pela nossa capacidade humana limitada de entender a realidade e os fatos.

Até aí, tudo certo. First Reformed apresenta consistência, questionamentos interessantes e uma humanização da figura de um pastor que raramente vemos em algum filme. Também interessante como essa produção toca em outro tema importante: a autodestruição da humanidade através da degradação dos recursos naturais. Um tema que a Igreja retratada nesta produção não toca, por razões de interesse econômico – vide a figura do empresário Balq (Michael Gaston) -, mas que o Papa Francisco já deixou claro em seu Laudato Si.

Enfim, por tudo isso e até esse ponto, First Reformed se revela como um filme muito interessante. Agora, lá pelas tantas, ele “descamba” para um lado de “chocar” a audiência que eu achei forçado. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Beleza que o pastor Toller era um sujeito crítico e cheio de autocrítica. Tudo bem que ele se sentisse um pouco culpado pela morte do próprio filho e pelo suicídio de Michael. Certo que ele estava buscando penalizar-se pelo desejo que começou a ter em relação à Mary. Mas tudo isso justificaria ele planejar virar um homem-bomba?

Achei esse “grande finale” que a produção quase teve um bocado forçado. Na verdade, toda aquela autoflagelação do pastor achei exagerada. (SPOILER – não leia… bem, você já sabe). Primeiro, aquela ideia dele de explodir Balq, Jeffers, Esther (Victoria Hill) e todas as demais pessoas que participariam das comemorações dos 250 anos da igreja First Reformed. Sério mesmo que, por mais que ele se cobrasse e questionasse os “interesses” da igreja, ele embarcaria na ideia de Michael de virar um “mártir” matando diversos inocentes?

Sim, ele sabia que estava doente e que iria morrer em um tempo relativamente curto. Isso poderia ser motivo para um ato desesperado, mas não acho que para um ato que significaria tanta destruição e perda de vidas. Depois, como o pastor Toller vê Mary no local – algo que ele não desejava ou estava esperando -, ele decide abortar a primeira ideia e aí o filme descamba para outra cena um bocado nonsense. Toller acaba se autoflagelando sem nenhum efeito realmente prático para aquilo – além de transformar a raiva e a frustração em dor.

No fim das contas, nada disso adianta para ele. A celebração cheia de interesses econômicos e políticos acontece de qualquer forma e ele e Mary acabam se envolvendo da mesma maneira. Com tudo isso, é como se First Reformed pregasse que não adianta ter convicções e boas intenções. No fim das contas, o mundo segue girando na sua lógica desigual e as pessoas continuam se rendendo aos seus instintos e não à sua razão.

Ok, é válido apresentar esse contraponto um tanto cínico e sem esperança, mas achei tanto a reta final do filme, com os seus recursos “exagerados”, quanto este tom amargo da produção um tanto distante do estilo de produção que mais me interessa. Sim, nada do que é humano me é estranho. Mas há maneiras mais ou menos esperançosas de encarar o que nos rodeia. Pessoalmente, eu vou sempre optar pela esperança. Mas First Reformed opta por outro caminho. Respeito, mas isso não faz eu gostar mais desse filme.

NOTA: 8.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Como sempre, para mim, o essencial de um filme é o seu roteiro. O que aquela obra, específica, quis nos contar. Por isso, vocês vão me desculpar, mas escrevi tanto antes… diferente do que eu tinha me proposto a fazer há não muito tempo. Tinha comentado que iria escrever menos sobre os filmes, eu sei. Mas sobre First Reformed eu achei que precisava escrever mais. E, acima, falei essencialmente do roteiro e da história do filme. Mas agora tratarei de outros aspectos da produção.

Para começar, acho que Paul Schrader acerta ao focar em um número reduzido de personagens. Como uma das intenções deste filme é “mergulhar”, se aprofundar na vida e na visão de um pastor de igreja, achei coerente ficarmos a maior parte do tempo focados nesse personagem. Como em First Reformed temos um personagem realmente importante, os outros que aparecem em cena estão ali apenas para ajudar a explicar o protagonista. Então sim, fez muito sentido e funcionou termos poucos personagens secundários e atores em cena. Uma boa escolha.

O roteiro de Paul Schraber tem qualidades e defeitos, como já tratei na crítica acima. A sua direção é correta e bastante focada nas interpretações dos personagens, como não poderia deixar de ser em um filme que pretende aprofundar-se em um personagem – e nas pessoas que convivem com ele. Ou seja, tudo muito correto, e nada acima desta correção. A direção de Schraber é segura, mas não foge da previsibilidade.

Entre os atores em cena, sem dúvida alguma o grande destaque é para o ator Ethan Hawke. Ele está muito bem, muito seguro e faz uma interpretação convincente do início ao fim. Apenas me chamou a atenção o quanto ele envelheceu. Nesse filme, mais em qualquer outro que eu assisti com ele, percebi que o tempo chegou para Hawke. Fui procurar a idade dele, e descobri que ele está prestes a completar 48 anos – ele faz aniversário no dia 6 de novembro. Então sim, teremos que nos acostumar com um Hawke mais maduro. 😉

Ethan Hawke é o destaque deste filme. Mas o que ele faz aqui pode lhe render uma indicação ao Oscar de Melhor Ator em 2019? Até pode ser que sim. Mas acho que Joaquin Phoenix em You Were Never Really Here, recentemente comentado aqui no blog, tem mais chances de emplacar uma indicação. Veremos.

Além do protagonista desta produção, chama a atenção, desde a sua primeira aparição na igreja, a jovem sempre talentosa Amanda Seyfried. (SPOILER – não leia se você ainda não assistiu a esse filme). Não vou mentir para vocês. Quando vi Amanda Seyfried naquele banco da igreja logo no início da produção, eu já suspeitava que ela teria um “flerte” com o pastor. Quem conhece a trajetória da atriz não deve ter ficado nada surpreso com isso. Ela está bem no filme, ainda que apareça pouco – na comparação com o protagonista, é claro. Ela faz um trabalho bem ponderado e interessante. Convence como alguém frágil e que ajuda a desestabilizar o pastor já instável.

Os outros atores que interpretam personagens que tem alguma relevância nessa história são: Cedric the Entertainer como o pastor Jeffers, líder da congregação em que Toller atua; Victoria Hill como Esther, coordenadora do coral de jovens da igreja e apaixonada por Toller; Philip Ettinger como Michael, ativista ambiental e marido de Mary; Michael Gaston como o empresário e “apoiador” da igreja de Jeffers, Balq; Bill Hoag como Elder, braço direito de Toller na igreja; Frank Rodriguez em uma ponta como o sheriff da cidade; e Gary Lee Mahmoud em uma ponta como o doutor que atende Toller quando ele finalmente resolve fazer os seus exames.

Diversos temas relevantes pipocam aqui e ali nessa produção. Entre outros, chama a atenção o diálogo de Toller com Michael. Algumas questões importantes são levantadas ali. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Gostei, em especial, como Toller aborda o fato de que o desespero de tirar uma criança do mundo é maior do que a aflição de colocar uma criança no mundo. Esse é um tema interessante agora que discutimos tão abertamente o aborto no Brasil. Sem dúvida, em um mundo perfeito, não teríamos aborto. Mas temos que ser realistas. E sim, o desespero é maior que a aflição. Que ninguém perca isso de vista e que tenhamos mais conscientização das pessoas.

Interessante também como Toller afirma que a coragem é a solução para o desespero. De fato, é preciso querer, ter esperança, porque isso pode superar a questão da razão e da crítica – e toda a desesperança que isso pode trazer. Para Toller, as pessoas devem aprender a conviver com a esperança e o desespero. Só assim viver seria possível. Mesmo não tendo todas as respostas – porque ninguém conhece “a mente de Deus”, como defende Toller -, podemos escolher uma vida correta, afirma o personagem. Ele tem razão sobre isso. No fim das contas, tudo na nossa vida é uma questão de escolha e de decisões que tomamos.

Entre os aspectos técnicos desta produção, vale destacar a direção de fotografia de Alexander Dynan e a edição de Benjamin Rodriguez Jr. Além destes aspectos, vale citar a trilha sonora de Brian Williams; o design de produção de Grace Yun; a direção de arte de Raphael Sorcio; a decoração de set de Nadya Gurevich; e os figurinos de Olga Mill.

First Reformed estreou em agosto de 2017 no Festival de Cinema de Veneza. O filme participaria de 16 outros festivais de cinema em diversos Estados americanos e em outros países antes de estrear em circuito comercial nos Estados Unidos em maio de 2018. Até julho deste ano, o filme passou ainda por outros três festivais de cinema.

Nessa trajetória de festivais, First Reformed ganhou três prêmios e foi indicado a outros oito. Os prêmios que ele recebeu foram o de Melhor Diretor para Paul Schrader no FEST International Film Festival; o Narrative Feature Competition no Montclair Film Festival; e o Green Drop Award para Paul Schrader no Festival de Cinema de Veneza.

Agora, vale parar para citar algumas curiosidades sobre esta produção. De acordo com o diretor e roteirista Paul Schrader, esse é um filme totalmente diferente a tudo que ele já fez. Para o diretor, First Reformed segue a linha de produções de Ingmar Bergman, Robert Bresson e Andrei Tarkovsky.

A atriz Amanda Seyfried estava, de fato, grávida durante as filmagens de First Reformed – filmagens essas que duraram 20 dias, apenas.

Durante uma entrevista no Festival de Cinema de Roterdã, Paul Schrader comentou que só quando foi editar o filme ele notou as semelhanças de First Reformed com Taxi Driver, que também teve roteiro escrito por ele. Faz muito, mas muito tempo que eu assisti a Taxi Driver. Então tenho que rever ao filme mas, inicialmente, não vejo muitas semelhanças entre eles não… Alguém me ajuda com essa dúvida? Eles têm ou não algo a ver?

As filmagens externas e internas na igreja foram rodadas na Igreja Episcopal de Zion, na cidade de Douglaston, no Queens. O filme inteiro foi rodado no Queens e no Brooklyn, bairros famosos de Nova York.

Os usuários do site IMDb deram a nota 7,3 para First Reformed, enquanto que os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 163 críticas positivas e 12 negativas para esta produção – o que lhe garante uma aprovação de 93% e uma nota média de 8,3. As notas para esta produção estão bem acima da média. Só eu que realmente não me emocionei com a produção, pelo visto. 😉

First Reformed ostenta o metascore 85 no site Metacritic, além do selo “Metacritic Must-See” – selo de recomendação do site. Realmente o filme caiu no gosto dos críticos. De acordo com o site Box Office Mojo, First Reformed arrecadou US$ 3,45 milhões nas bilheterias dos Estados Unidos. Ou seja, um filme elogiado e recomendado mas pouco visto nos cinemas até agora.

First Reformed é uma produção 100% dos Estados Unidos. Por causa disso, esse filme entra na lista de produções que atendem a uma votação feita há algum tempo aqui no site.

CONCLUSÃO: Algumas vezes é mais fácil ajudar do que ser ajudado. Fazer algo por alguém que precisa do que ajudar a si mesmo. First Reformed parece nos falar claramente sobre isso. E sobre como nem tudo que é aparente realmente é importante. Muitas vezes as pessoas tem uma determinada motivação escondida para fazerem o que fazem. E nem sempre a ajuda chega a tempo. Esse é um filme com atuações competentes e que levanta alguns temas interessantes, mas que me pareceu exagerar em algumas doses para “chocar” o espectador. Para mim, faltou um pouco mais de conteúdo para a história.

The Crowd – A Turba

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O cinema foi construído com filmes incríveis e uma vasta coletânea de cenas marcantes. Certamente uma destas sequências que marcaram a história do cinema faz parte deste The Crowd. Impressiona pensar que este filme, dirigido por King Vidor, completou 90 anos em 2018. Uma história impactante para a época, certamente, e que mesmo tantas décadas depois, ainda causa impacto. Apenas um dos “patriarcas” do cinema e um dos nomes que inspiraram vários outros realizadores seria capaz de fazer isso.

A HISTÓRIA: 4 de julho de 1900. O país está em festa! Fogos de artifício! Desfiles! Piqueniques! Todos celebrando o aniversário dos 124 anos da América! Na frente de uma casa de estilo vitoriano com a bandeira americana, vemos a um desfile de charretes e de pessoas orgulhosas. Mas a narrativa pergunta o que “uma pequena coisa” como a Declaração da Independência pode ser comparada ao grande evento que está acontecendo na casa dos Sims.

Na residência, um pai orgulhoso espera ansioso pelo nascimento de seu filho. A criança nasce, o médico dá algumas palmadinhas no bebê e o pai diz que “o mundo irá ouvir falar desse menino”. O pai comenta que garantirá todas as oportunidades possíveis para o filho Johnny. Doze anos depois, o garoto tem um futuro promissor. Recita poesias, toca piano e canta em um coral, como antes fizeram ex-presidentes como Lincoln e Washington. Essa produção vai contar a história de Johnny, que simboliza a de tantos outros americanos.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso só recomendo que continue a ler quem já assistiu a The Crowd): Fiquei impressionada com esse filme. Mais que nada, com a técnica diversificada e interessante adotada por King Vidor no longínquo ano de 1928. Impressionante assistir a um filme como esse, tão bem acabado e com uma narrativa envolvente, apesar da “estranheza” que o cinema mudo desperta nas pessoas atualmente.

Mas olhando especificamente para a técnica, para os ângulos e para a dinâmica das câmeras, King Vidor nos apresenta neste The Crowd um belo repertório que seria, no futuro, adotado por dezenas de outros diretores. A dinâmica inicial do filme, para mim, é o que a produção tem de melhor. Não apenas a apresentação do protagonista e das suas origens, mas também o exame do diretor da vida “comum” americana e a forma com que ele retrata Nova York e a vida em uma grande cidade.

O roteiro de King Vidor e de John V.A. Weaver, com legendas/titulares de Joseph Farnham, nos conta uma história muito interessante, na essência. The Crowd é a narrativa de um garotinho que nasce enchendo o pai de esperanças, com sonhos de ser alguém grande, mas que cai na vida regular de outros milhões. John vai para Nova York aos 21 anos e diz que tudo que ele deseja é uma oportunidade. Com ela em mãos, ele vai conseguir realizar os seus sonhos de grandeza.

Em resumo, The Crowd nos fala do bom e velho “sonho americano”. Daquela sociedade em que todos tem a oportunidade de realizarem os seus sonhos e de serem grandes. Mas o fato é que poucos acabam se diferenciando da multidão. E esse filme, de fato, trata sobre isso. Sobre o sujeito comum que faz parte de uma grande repartição e que acaba seguindo o mesmo “comportamento de manada” da maioria.

Um dia importante na vida de John foi quando, ao invés de sair do trabalho para estudar, ele sai para passear com o colega Bert (Bert Roach) e duas garotas que ele convidou para sair. Nesse dia o protagonista deste filme deixa para trás a possibilidade de tornar-se alguém diferenciado ao investir nos estudos e, em troca disso, ele se apaixona por Mary (Eleanor Boardman).

Claro que conhecer a garota não é o seu problema. Mas o próprio comportamento de John após ele se casar. A partir daí, ele se acostuma ao menor esforço possível e continua apenas com a rotina de casa-trabalho-casa. Não volta a estudar e não se esforça em fazer nada além do básico. Aos poucos, ele cai na rotina com a esposa, e passa a criticá-la por ninharias do cotidiano. O casamento se desgasta, mas antes de abandonar a residência, Mary conta para o marido que está grávida.

Desta forma, pouco a pouco, o protagonista de The Crowd vai se distanciando cada vez mais do sonho de ser alguém diferenciado e que terá relevância na sociedade para tornar-se um sujeito extremamente comum. Para mim, o filme perde um pouco o interesse justamente quando entra no modelo de vida comum da época. Ou seja, com John deixando todas as responsabilidades da casa para Mary, inclusive os cuidados dos filhos (interpretados por Freddie Burke Frederick e por Alice Mildred Puter).

Por sua própria escolha e postura, John se torna um sujeito comum, nada extraordinário. Essas dificuldades cotidianas, o desgaste do casamento e a frustração do homem que percebe a diferença brutal entre a sua realidade e os sonhos originais, são mostradas com maestria por King Vidor. Ainda que não exista muita surpresa nessa fase do filme, a narrativa é envolvente por causa do trabalho dos atores, da trilha sonora e da busca constante de King Vidor de mesclar drama com comédia.

Assim, depois daquele começo envolvente, The Crowd cai um pouquinho em uma história morna, até que um grande momento na vida de John e Mary é seguido de um fato dramático e crucial. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Logo depois de um dia na praia, John pensa em uma campanha que acaba rendendo um ótimo prêmio em dinheiro para a família. Para a época, US$ 500 era uma pequena fortuna. John chega em casa com presentes e com o prêmio.

O momento é de muita comemoração mas, em seguida, vemos a uma das cenas mais impactantes que eu já vi em um filme das primeiras décadas do cinema. O atropelamento fatal da filha do casal é perfeitamente filmado por King Vidor, que demonstra, naquela sequência, maestria em causar impacto nos espectadores. Se, hoje em dia, achamos aquela cena impactante, imagina as pessoas em 1928? Não por acaso esse filme marcou a época e essa cena, muitas vezes, é lembrada como uma das sequências mais importantes da história da Sétima Arte.

Desta forma, King Vidor não nos conta apenas a história de um sujeito comum e de uma família “ordinária”. Ele nos mostra a beleza, a alegria, a suavidade, o amor, a brutalidade e a tristeza que uma vida normal pode contemplar. Mas há crítica social nessa produção também.

Em certo momento, o roteiro de Vidor e de Weaver questionam como, para a “multidão”, só interessa as pessoas produtivas e que tem uma vida como a de todos os demais. Quando John pede demissão e fica desempregado, ele sente o desprezo dos demais por não ser um “provedor” eficiente para a família dele.

Nesse ponto, o roteiro afirma como “a turba” só está tranquila e satisfeita quando todos seguem o padrão e se parecem. Por incrível que pareça, até hoje, 90 anos depois, muitas vezes parece que é assim que funciona. Quem difere da maioria e quem procura ser um “espírito livre”, como comenta Nietzsche, ou é tachado de maluco, ou simplesmente é ignorado pelos demais. A pessoa não se “encaixa”, e The Crowd demonstra muito bem, em diversas cenas, como tudo que muitos querem é se sentir “pertencendo” à multidão.

No fim das contas, em certo momento da vida, até podemos pensar em fazer a diferença e em sermos pessoas “diferenciadas” ou “especiais”. Mas depois, por causa das cobranças e da exigência da mediocridade, tudo o que queremos é sermos “mais um”. Ao menos é essa reflexão que King Vidor nos apresenta nesse The Crowd. Sem dúvida alguma um grande trabalho de um grande diretor.

Tecnicamente inovador e com narrativa envolvente, o filme acerta, especialmente, quando reflete sobre os sonhos do indivíduo em contraste com as expectativas da coletividade. Interessante ver a trajetória do protagonista, com começo tão promissor e cheio de sonhos do pai dele, com o homem que ele se tornou no final.

Algo que John aprendeu – e que The Crowd parece nos ensinar – é que, no final das contas, ser um sujeito comum não é tão ruim assim. A lição do palhaço e a do espetáculo com todos se comportando igual faz pensar – e mostra a necessária humildade que John e todos nós deveríamos ter. Para a época em que este filme foi feito, sem dúvida alguma ele está acima da média. Merece ser visto e apreciado.

NOTA: 9,3.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Ufa! Estamos em agosto e, finalmente, retomo por aqui a seção Um Olhar para Trás com produções que estão fazendo “aniversário” em 2018. Começo esse resgate com The Crowd porque este é um dos filmes que aparecem na obra 1001 Filmes Para Ver Antes de Morrer. A ideia é ir intercalando esses filmes recomendados pelos especialistas como alguns dos melhores de todos os tempos com novas produções que estão saindo nos cinemas nesse ano.

Como manda o manual dos filmes mudos, The Crowd tem na trilha sonora dramática e cuidadosamente planejada de Carl Davis um de seus trunfos e elementos principais. Sem diálogos, os filmes mudos precisavam dessas trilhas sonoras para ajudar na narrativa, dando o tom exato de cada fase e momento da produção. Um trabalho excelente e sem retoques de Carl Davis nesse filme.

Além da trilha sonora, claro que o grande ponto de atenção nesse filme é a direção de King Vidor. Ele dá uma pequena aula de cinema, mostrando algumas dinâmicas de câmera e ângulos que seriam depois utilizados por diversos outros realizadores. Bastante dinâmico, The Crowd também tem na edição ágil de Hugh Wynn um ponto fundamental. Além destes nomes, vale citar o trabalho de Henry Sharp na direção de fotografia; de Cedric Gibbons e de A. Arnold Gillespie no Departamento de Arte; e do grande produtor Irving Thalberg na produção.

O roteiro, como comentei antes, tem um grande começo e, depois, perde um pouco a “novidade” e a força. Ainda assim, dá para perceber que The Crowd foi um trabalho feito com muito esmero e cuidado. Os roteiristas King Vidor e John V.A. Weaver, com a ajuda dos titulares/legendas de Joseph Farnham, cuidaram de equilibrar sempre o drama, o romance e a comédia. Nunca pesaram a mão muito em um destes elementos – talvez, um pouco demais, na comédia. Mas algo compreensível para a época. O filme nasceu de uma história original de King Vidor e contou com uma adaptação desta história feita por Harry Behn – que não teve esse trabalho de adaptação creditado.

Para o filme funcionar como ele funciona, grande parte do mérito é dos atores principais. James Murray como John e Eleanor Boardman como Mary fazem um trabalho excepcional. Muito carismáticos e expressivos, eles seguram a narrativa do início ao fim. Além deles, vale citar o trabalho de Bert Roach como Bert, um amigo não muito amigo de John; Estelle Clark como Jane, amiga de Mary; Daniel G. Tomlinson como Jim e Dell Henderson como Dick, irmãos de Mary; Lucy Beaumont como a mãe da protagonista; e Freddie Burke Frederick e Alice Mildred Puter como os filhos do casal John e Mary.

The Crowd estreou no dia 18 de fevereiro de 1928 em Nova York. Naquele mesmo ano ele estreou no Reino Unido, na Argentina e na Espanha. Essa produção ganhou um prêmio do National Film Preservation Board em 1989 e concorreu e duas categorias do Oscar 1929 – mas não levou nenhuma estatueta para casa.

Agora, vale comentar algumas curiosidades sobre esse filme e as pessoas envolvidas nele. Algum tempo depois de The Crowd ter sido lançado, o alcoolismo cobrou o seu preço do protagonista desta produção. James Murray, alcoólatra, acabou mendigando nas ruas. Ironicamente, uma das pessoas para quem Murray pediu dinheiro foi King Vidor, que acabou oferecendo para o ator um papel no filme que é um tipo de sequência de The Crowd, Our Daily Bread, lançado em 1934. Murray recusou o trabalho, pensando que ele tinha sido oferecido para ele apenas por pena. O ator acabou morrendo afogado em 1936, com apenas 35 anos de idade.

Apesar do sucesso de crítica e de público – o filme foi bem nas bilheterias, na época -, o chefe da MGM, Louis B. Mayer, menosprezou The Crowd. Em parte, por causa do “tema deprimente” do filme. E, por outro lado, porque Mayer achou o filme “obsceno” por apresentar um banheiro com um sanitário aparecendo.

King Vidor rodou diversas cenas nas ruas de Nova York mostrando multidões reais. Essas cenas incluíram não apenas moradores da cidade, ao invés de figurantes, mas também ônibus, trens e até policiais reais. Essa escolha dá para perceber quando vemos ao filme, e é uma das “graças” da fase inicial dessa produção.

O diretor filmou nada menos que nove finais diferentes para The Crowd antes de escolher o final que vemos em cena. A razão para ele rodar tantas versões é que King Vidor sabia que a MGM não gostava de lançar uma produção sem um final positivo. Isso explica melhor aquela reviravolta um tanto estranha do final desta produção. Ela, em si, não faz tanto sentido, mas por causa deste detalhe do estúdio, fica mais fácil de entender.

Na década de 1960, perguntaram para Jean-Luc Godard porque ninguém mais estava fazendo filmes sobre pessoas comuns. Ele respondeu: “Por que refazer The Crowd? Isso já foi feito”. Realmente. Achei esta produção um dos filmes mais emblemático sobre o “sujeito comum”.

Antes de fazer The Crowd, King Vidor tinha alcançado um grande sucesso nas bilheterias com os seus filmes anteriores. Com esse prestígio, ele conseguiu convencer o chefe de produção do estúdio MGM, Irving Thalberg, de que tinha chegado a hora de fazer um filme mais “experimental”. Thalberg gostou da ideia, até porque ele achava que os estúdios, de tempos em tempos, deveriam fazer filmes que lhe dessem prestígio – e não apenas lucro. Mas o chefe da MGM, Louis B. Mayer, não gostou nada de The Crowd. Ela achava que o filme abordava um “assunto sombrio” e tinha um “final triste”. Na fase de apresentações dos filmes para o Oscar, Mayer chegou a pedir para os colegas que não votassem em The Crowd para o prêmio. Realmente ele jogou contra “o time”. 😉

King Vidor não quis nenhuma grande estrela nesta produção. Na época, James Murray era um extra do estúdio que foi descoberto pelo diretor, e Eleanor Boardman era uma atriz com pouco destaque até então – além de ser a segunda mulher do diretor.

Thalberg achou que o filme não decolaria – mas topou realizar a produção porque King Vidor já tinha dado muito lucro para a MGM. Para a surpresa dele – e de outras pessoas -, The Crowd arrecadou mais do que o dobro dos seus custos.

Agora, vale comentar o trecho inicial do texto de The Crowd escrito por David Sterritt para o livro 1001 Filmes para Ver Antes de Morrer: “‘Você tem que ser bom naquela cidade se quiser vencer a multidão’. É o que diz o jovem John quando vê pela primeira vez a cidade de Nova York, a empolgante metrópole na qual ele tem certeza de que seus talentos o farão se destacar da massa. As coisas não saem como planeja o herói de The Crowd, que, na verdade, não deveria ser chamado de herói, uma vez que a intenção do diretor King Vidor era retratar um homem tão comum que poderia ter sido retirado a esmo da turba urbana do título. Ele começa a história como um recém-nascido como qualquer outro e termina como um burguês nova-iorquino como qualquer outro. Nesse meio-tempo, passa por experiências tão enfadonhas que somente um estúdio tão ousado quanto a MGM sob o regime de Irving G. Thalberg poderia ter considerado o material digno de um drama hollywoodiano”.

Como sempre, o texto do livro merece ser apreciado na íntegra. Recomendo.

Os usuários do site IMDb deram a nota 8,0 para esta produção, enquanto que os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 22 críticas positivas e apenas uma negativa para The Crowd – o que garante para o filme uma aprovação de 96% e uma nota média de 9,1.

The Crowd é uma produção 100% dos Estados Unidos. Por causa disso, esse filme entra na lista de produções que atendem a uma votação feita há algum tempo aqui no blog. The Crowd também faz parte da lista de produções que integram a seção aqui do blog Um Olhar para Trás.

CONCLUSÃO: Bom voltar a revisitar a lista dos grandes filmes do cinema mundial de todos os tempos. Essa produção, uma das principais da carreira do grande diretor King Vidor, realmente merece ser apreciada. Nesse filme, encontramos algumas das técnicas principais de direção que fizeram parte de grande parte do cinema. E mesmo que a história de The Crowd hoje pareça um pouco “datada”, ela levanta ao menos um grande tema ainda pertinente: o “poder das massas” e a necessidade do homem e da mulher modernas fazerem parte dessa “massa”.

Um filme impressionante pelas técnicas utilizadas, pelo belo trabalho dos atores, pelo tema central e, principalmente, por uma das cenas mais impactantes que eu já vi em um filme dos anos 1920. Para quem gosta de “visitar” aos grandes nomes do cinema e as suas obras-primas, não dá para escapar deste The Crowd. Tecnicamente muito bem feito, o filme só não emplaca uma nota maior porque ele realmente tem uma narrativa de família e de sociedade muito datada. Ainda assim, como comentei antes, é imperdível para quem gosta de filmes clássicos.

You Were Never Really Here – Você Nunca Esteve Realmente Aqui

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Conhecemos os “monstros” apenas pelo que falam sobre eles. Mas dificilmente conhecemos as suas histórias, famílias, sacrifícios e “preparativos” para que eles consigam fazer o que fazem. You Were Never Really Here fala de mais de um tipo de monstro, mas sempre aproximando as câmeras (e, por consequência, os espectadores) por uma ótica com a qual não estamos acostumados. É um filme que faz pensar, inclusive sobre o que achamos dessa história, no final das contas. Eu gostei, mas é inevitável ficar com um certo “gosto amargo” no final.

A HISTÓRIA: Contagem regressiva e palavras de repressão. A necessidade de fazer melhor. Escuro e algumas pequenas luzes aqui e ali. Alguém respira com esforço com um saco plástico na cabeça. A lembrança de um garoto que diz que precisa fazer melhor. A foto de uma garota e a voz em um rádio. A foto é queimada e jogada em uma lata de lixo. Em seguida, ela é acompanhada por uma Bíblia.

Diversos preparativos, como o plástico no detector de fumaça, a limpeza do martelo ensanguentado e o papel com o sangue jogado no vaso sanitário. O quarto é limpo, e só depois Joe (Joaquin Phoenix) sai do local cuidando para não ser visto. Ele está envolvido com histórias de violência, mas só com o tempo vamos descobrir qual é o papel dele nesse contexto.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso só recomendo que continue a ler quem já assistiu a You Were Never Really Here): Não sei para vocês, mas para mim este ano está passando de forma extremamente rápida. Eu não consegui ver a todos os filmes que eu queria, nem no cinema, nem em casa. Não consegui, por exemplo, voltar no tempo para ver os clássicos – mas pretendo fazer isso em breve.

Refletindo sobre os filmes que eu perdi em 2018, até o momento, resolvi dar uma olhada nas listas que diversos sites especializados – especialmente os estrangeiros – fazem sobre os melhores filme do ano “até aqui”. Cruzando essas listas, cheguei a alguns títulos que “me escaparam”. E foi aí que eu cheguei nesse You Were Never Really Here.

Não vou mentir para vocês. Esse filme é diferenciado. Pela forma, com uma narrativa pouco afeita à explicações e mais centrada em mostrar os fatos e os sentimentos dos personagens – assim como as suas lembranças -, e pelo conteúdo. O nosso protagonista não é nenhum herói. Não é um justiceiro. É um sujeito que está mais para sobrevivente do que para herói.

No final das contas, quem é o Joe que vemos em cena? (SPOILER – não leia esse trecho se você ainda não assistiu ao filme). Ele é o filho único (parece, ao menos) de uma senhora idosa, matador de aluguel especializado em localizar e resgatar garotas sequestradas e/ou desaparecidas e que, por tudo que é sugerido nessa história, também passou por abusos na infância. Ou seja, temos em cena um personagem complexo e que, geralmente, é encarado como um “monstro” pela frieza com que ele mata as pessoas.

Para fazer o que ele faz, Joe se prepara de forma constante. Treina para enfrentar a dor e a asfixia. Parece, mesmo nos momentos mais “calmos” e em casa, ter um certo “instinto” violento. Vide como ele lida com a mãe idosa e que tem as suas próprias dificuldades e dilemas para enfrentar. Achei muito interessante como a diretora e roteirista Lynne Ramsay encara esse personagem controverso.

Começamos a acompanhá-lo sem saber exatamente quem temos na nossa frente. O espectador de You Were Never Really Here fica um bom tempo perdido, apenas observando, até que a história se desenrola o suficiente para sabermos um pouco mais sobre aquele sujeito. E algo importante desse filme: Lynne Ramsay nos mostra apenas o necessário sobre o personagem. Ele não é dissecado ou explicado. E isso é uma das razões que fazem esse filme provocar um certo “desconforto”. Falarei mais sobre isso adiante.

No início da produção, cheguei a pensar que ele poderia ser um estuprador, pedófilo e/ou assassino comum. Um cara violento que tem “vida dupla”: cuida da mãe idosa, quando está em casa, mas viaja para dar vasão para os seus instintos sexuais e violentos. Essa foi a dúvida inicial desta produção. Mas, conforme a história avança, entendemos qual é o papel verdadeiro do personagem.

No final das contas, ele é apenas o “peão” de John McCleary (John Doman), um sujeito que é procurado pelas pessoas que tem dinheiro – muito delas, poderosas – e que precisam de alguém que as ajude a recuperar as suas filhas ou filhos sequestrados, fujões e toda a diversidade de variáveis entre esses dois extremos. Joe se especializou em procurar essas pessoas e em acabar com os envolvidos nesses “desvios” dos filhos de alguém que pode pagar pelo resgate.

Ele próprio é filho, e viu a mãe sofrer nas mãos do pai. Agora, ele procura os filhos de outras pessoas para resgatá-los. Ele mesmo, talvez, precisasse ter sido resgatado. Mas ninguém fez isso por ele. You Were Never Really Here cria angústia porque nos mostra o dia a dia desse “monstro”. Acompanhamos as suas angústias, a sua forma de encarar o cotidiano e, dentro disso, os seus preparativos para enfrentar a dor – como passar por sessões de asfixia. Também acompanhamos as suas lembranças fragmentadas. Nada ali é simples, ou fácil. Existe dor e existe angústia.

Por tudo isso, não vou mentir para vocês: fiquei um bom tempo pensando sobre o que eu tinha achado sobre esse filme. You Were Never Really Here não é uma produção simples. Por ser complexa e por nos fazer pensar em muitos pontos e sentir um bocado de angústia, essa produção não é simples de analisar. Mas, talvez por tudo isso, ela seja tão interessante. Inicialmente, eu não a colocaria entre as melhores do ano. Mas pela proposta diferenciada que ela apresenta, talvez ela até esteja nessa lista, realmente.

Por jogar luzes nos tipos de personagens diferenciados focados nessa produção, pela narrativa fragmentada – que mistura linearidade e também fragmentos de memória e sentimentos -, pela ótima atuação de Joaquin Phoenix e por detalhes como a excelente trilha sonora, You Were Never Really Here revela-se uma produção diferenciada. Não é nada comum encontrar um filme que foca pela perspectiva do personagem um sujeito “maldito” como Joe.

Como eu disse lá no princípio, sabemos que pessoas extremamente machucadas e violentas como o protagonista deste filme existem, mas poucas vezes paramos para pensar em como é o dia a dia dessas pessoas. You Were Never Really Here também ajuda a desmontar um pouco a ideia que temos do “monstro” – afinal, pelo que ele passou para chegar até ali? Que elementos fizeram ele se moldar e construir daquela forma? A que “propósito” ele serve e que tipo de papéis ele desempenha? Ele é apenas um monstro ou também alguém capaz de bons gestos?

Tudo isso é muito complexo, e essa complexidade vemos em cena nesse filme. Tanto é verdade que o caso central dessa história, o resgate da filha do senador Albert Votto (Alex Manette), também se revela mais complexo do que inicialmente ele parecia ser. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Nada fica totalmente explicitado, mas tudo indica, pela narrativa de Lynne Ramsay, que o pai “concordou” – até um certo momento – na garota ser explorada sexualmente por diversas pessoas poderosas (do governador Williams, interpretado por Alessandro Nivola, até outros homens).

O quanto o pai da garota estava envolvido nos abusos que ela sofreu, nunca saberemos – o filme sugere muitos elementos, mas não deixa todos os pormenores claros. Mas algo é fato: o senador não era um pai apenas “preocupado” com a filha e inocente na história. Existiam muitos interesses envolvidos no “sequestro” de Nina Votto (Ekaterina Samsonov).

Tanto é verdade que Joe passa a ser perseguido, inclusive por agentes corruptos. Ele consegue, por todo o preparo que tinha, escapar vivo, e ainda manter Nina a salvo mesmo não tendo mais o “compromisso” – ao menos do contratante – para fazer isso. Para ele, a resolução daquele caso passa a ser uma questão de honra porque ele reconhece a si mesmo na garota. Ambos passaram por abusos e por violência ainda muito jovens. São inocentes que nunca mais serão os mesmos porque tiveram essa inocência roubada.

Claro, alguém vai dizer: “Mas nada justifica o que Joe faz. Matar tantas pessoas com sangue frio e violência”. Não estou justificando o que ele faz, mas apenas observando o que a narrativa de You Were Never Really Here nos apresenta. Pessoas submetidas a determinadas situações na vida não podem sair incólumes de tudo aquilo. Marcas, cicatrizes, feridas que nunca cicatrizam… tudo isso cobrará um preço e terá as suas consequências. Apesar disso, as pessoas não são apenas um personagem. Ninguém é liso como uma tábua. Somos mais complexos do que gostaríamos de admitir, muitas vezes.

A beleza desse filme é justamente essa. Nos mostrar que a vida é mais complexa do que parece. Até procuramos simplificá-la, muitas vezes. Mas sim, a complexidade faz parte do dia a dia. Esse filme é duro. Mostra pessoas e cenários que nem sempre estamos dispostos a encarar. Mas, justamente por focar isso de forma tão franca, You Were Never Really Here se revela diferenciado e interessante. Não é fácil, não é simples, e cria um bocado de desconforto. Mas é uma experiência interessante de cinema.

NOTA: 9.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Admito que eu não estou bem certa, ainda, sobre o que eu penso sobre esse filme e sobre tudo o que eu escrevi por aqui. E esse indicador já mostra como You Were Never Really Here é interessante. Normalmente, um filme me faz pensar de forma clara depois que ele termina e/ou me faz experimentar determinados sentimentos enquanto eu o estou assistindo. Mas nada disso se revela tão complexo, no final das contas.

Não foi isso que aconteceu com esta produção. Ela é complexa sim, e bem acima da média nesse quesito. O que é interessante e exige mais do espectador. Exigiu mais de mim. Até agora estou na dúvida sobre o que eu vi, senti e pensei. Poucos filmes me provocaram isso.

Com You Were Never Really Here eu começo a focar na lista de produções que muitos críticos e publicações relacionaram como as melhores do ano até julho. Esse filme apareceu em várias listas, por isso comecei com ele. Mas vou focar em outros também – e vou sinalizando sempre quais são essas produções bem elogiadas pelos especialistas na área.

Algo que me chamou a atenção nesse filme logo no início: a excelente e importantíssima trilha sonora de Jonny Greenwood. O trabalho dele é um dos diferenciais e um dos personagens de You Were Never Really Here. A trilha sonora do filme, bastante pontual, ajuda a criar os sentimentos e o incômodo que esse filme desperta.

Além da trilha sonora, merece aplausos a direção de fotografia de Thomas Townend. Outro elemento feito com esmero e que casa muito bem com as exigências da detalhista diretora Lynne Ramsay. O roteiro dela, bastante focado no protagonista, suas ideias, sentimentos e cotidiano, também merece aplausos. Algo que You Were Never Really Here apresenta é uma narrativa diferenciada, nada preocupada com a expectativa do público acostumado com narrativas simplistas dos “blockbusters”.

Lynne Ramsay nos apresenta um filme com uma marca própria e com muita personalidade. Apesar de muito violento, You Were Never Really Here também é belo. Mais uma “contradição” que reforça como este filme aborda a complexidade da vida, dos fatos e do ser humano. Vale lembrar que Lynne Ramsay escreveu esse roteiro baseada no livro de Jonatham Ames – fiquei curiosa, aliás, para ler essa obra. Deve ser muito interessante.

Como diretora, Lynne Ramsay tem apenas oito trabalhos, sendo três deles curtas. Ela estrou na direção de longas em 1999, com Ratcatcher. Depois, lembro dela ter ficado conhecida por We Need to Talk About Kevin, de 2011. Muitos falaram daquele filme, mas eu acabei “perdendo” ele em meio às outras produções lançadas naquele ano. Depois de We Need to Talk About Kevin, You Were Never Really Here é o primeiro longa da diretora. Gostei do que eu vi aqui, ainda que eu achei o filme um tanto “hermético” demais para o meu gosto. Mas ele é bom.

Os grandes destaques técnicos desta produção são a trilha sonora, a direção e a direção de fotografia, todas já mencionadas. Mas vale destacar, ainda, o ótimo trabalho feito pelos 23 profissionais envolvidos com o Departamento de Som – outro elemento bastante importante para o filme; a ótima edição de Joe Bini; e o design de produção de Tim Grimes; a direção de arte de Eric Dean e a decoração de set de Kendall Anderson.

You Were Never Really Here estreou no Festival de Cinema de Cannes em maio de 2017. Depois, o filme participou de outros 18 festivais em diversos países. Nessa trajetória, o filme ganhou cinco prêmios e foi indicado a outros nove. You Were Never Really Here ganhou os prêmios de Melhor Ator para Joaquim Phoenix e de Melhor Roteiro para Lynne Ramsay no Festival de Cinema de Cannes; o de Melhor Ator para Joaquim Phoenix no Film Club’s The Lost Weekend; o de Melhor Filme não lançado em 2017 e o de Melhor Diretora para Lynne Ramsay no International Cinephile Society Awards.

Agora, algumas curiosidades sobre esta produção. You Were Never Really Here foi inscrito no Festival de Cannes quando ainda não estava finalizado. A produção foi concluída apenas alguns dias antes do festival estrear, e a diretora Lynne Ramsay disse que ele foi exibido no evento em uma versão inacabada. Mesmo assim, ele venceu em duas categorias. Interessante.

Em uma entrevista para a Rolling Stone, Joaquim Phoenix disse que a diretora Lynne Ramsay deu para ele ouvir um áudio que misturava fogos de artifício com tiros para exemplificar para o ator o que se passava na cabeça de Joe.

Na obra que originou esse filme, o personagem Joe utiliza muitos “adereços”, como luvas de látex e gadgets. A diretora Lynne Ramsay revelou que foi o ator Joaquim Phoenix quem sugeriu que eles se livrassem desses “adereços” para que o personagem parecesse mais autêntico.

Na estreia em Cannes, You Were Never Really Here chegou a ser aplaudido durante sete minutos após a sua exibição.

O título do filme é explicado no livro original pelas habilidades de Joe. Ele emprega as habilidades adquiridas em sua experiência anterior no FBI e como militar para nunca deixar vestígios nas suas “novas missões”. Entre outras estratégias, ele utiliza identidades falsas, luvas cirúrgicas e esconde o rosto das câmeras para simular essa ideia de que ele “nunca esteve” em um determinado local.

Falando no personagem de Joaquim Phoenix, sem dúvida alguma o ator é o centro das atenções e um dos destaques desta produção. E não poderia ser para menos, já que toda a história orbita em torno de seu personagem. Phoenix faz um trabalho excepcional – quem sabe, digno de uma indicação ao Oscar? Ainda é cedo para saber, porque falta assistir a muita gente ainda. Mas ele está, de fato, muito bem nesse filme.

Além dele, vale contar outros trabalhos secundários, como Ekaterina Samsonov como Nina Votto; John Doman como John McCleary; Frank Pando como Angel, um dos pontos de “pagamento” dos trabalhos de Joe; Judith Roberts ótima como a mãe de Joe; Vinicius Damasceno em uma super ponta como Moises, o filho de Angel que acaba vendo Joe em um local em que ele não deveria e que coloca fim na “parceria” de Joe com Angel; Dante Pereira-Olson como Joe quando criança; Alex Manette em uma ponta também como o senador Albert Votto; Scott Price como o matador de aluguel que morre na cozinha de Joe; e Alessandro Nivola em uma super ponta como o senador Williams – ele literalmente entra mudo e sai calado do filme.

Mudou um pouco a minha leitura sobre esse filme depois que escrevi a crítica acima e fui procurar mais informações sobre You Were Never Really Here. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Como eu não li a obra que deu origem a esse filme, só lendo a respeito da produção é que fiquei sabendo que Joe era um veterano de guerra – a cena que vemos de um garoto sendo morto foi no Afeganistão – e que ele chegou a trabalhar no FBI. Ou seja, possivelmente fatos traumáticos dele como veterano pesaram mais para a formação da personalidade dele do que o pai abusivo. Também fiquei na dúvida a respeito dele ter sido abusado sexualmente – talvez as cicatrizes dele tivessem mais a ver com torturas, preparativos para a guerra e tudo o mais do que para a questão de abuso sexual. Isso realmente dá uma outra perspectiva para o filme.

Os usuários do site IMDb deram a nota 6,9 para esta produção, enquanto que os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 171 críticas positivas e 25 negativas para o filme – o que lhe garante uma aprovação de 87% e uma nota média de 8,1. Especialmente a opinião dos críticos chama a atenção – não é fácil um filme receber uma nota tão alta no Rotten Tomatoes.

O mesmo podemos falar sobre a avaliação de You Were Never Really Here no site Metacritic. O filme apresenta o “metascore” 84 e o selo de “Must-see”, ou seja, a recomendação de que ele deve ser visto. Esse metascore é fruto de 38 críticas positivas e de três medianas. Alguns críticos de sites conhecidos, como Variety, RogerEbert.com e Time deram a nota máxima para o filme.

De acordo com o site Box Office Mojo, You Were Never Really Here faturou US$ 2,53 milhões nos Estados Unidos. Um resultado baixo, o que demonstra como esse filme repercutiu mais nos festivais e entre os críticos do que entre o público. É um filme alternativo e de “nicho”, certamente.

You Were Never Really Here é uma coprodução do Reino Unido, da França e dos Estados Unidos.

CONCLUSÃO: Difícil pensar nessa produção e não lembrar do título “Os Brutos Também Amam”. Nem tanto pelas produções serem próximas, mas porque este You Were Never Really Here tem um protagonista que pode ser considerado “bruto”, mas não insensível. Pessoas machucadas, feridas e traumatizadas podem se encontrar e se ajudar nas mais diferentes (e inusitadas) situações.

A beleza desse filme talvez seja colocar luz sobre essas histórias e mostrar, mesmo em meio à tanta violência e dor, que há sim uma saída para todos. Um filme com uma narrativa diferenciada e bons atores, que só peca um pouco por nos “requentar” uma história conhecida. A novidade está realmente na ótica da narrativa, que passa para o lado de um personagem um tanto “maldito” e pouco retratado no cinema. Interessante, provocador e um tanto incômodo. Nem tanto pela forma, neste caso, mas mais pelo conteúdo mesmo. Vale ser visto, mas eu não o colocaria na lista dos grandes filmes deste ano.