Les Amours Imaginaires – Heartbeats – Amores Imaginários

Ah, a doce ilusão do amor… Doce, sensual, cheia de artifícios, provocante, ilusória, dolorida. Les Amours Imaginaires trata destes elementos e deixa circular, em sua medula, alguns destes contos que certas vezes inventamos para nós mesmos. Com um texto muito bem escrito, uma trilha sonora deliciosa, atores ótimos e muito estilo, este filme do diretor e roteirista Xavier Dolan revela-se um deleite. Inventivo, com um ritmo que equilibra diálogos acelerados com muitas e muitas cenas em câmera lenta, Les Amours Imaginaires chega a roçar a perfeição. Mas não atinge o lugar mais alto entre os filmes porque não vai além da reflexão irônica e cai na facilidade de algumas repetições.

A HISTÓRIA: O filme começa com uma frase de Alfred De Musset: “A única verdade é o amor para além da razão”. Em seguida, começam os “depoimentos” de pessoas que se iludiram com o amor e se entregaram completamente à história mal fadadas. Sotaques diferentes, maneiras distintas de encarar o engano, trejeitos curiosos e narrativas que fazem rir ou pensar começam a surgir na tela. Até que o estilo “documentário” abre passo para a crônica de um equívoco. Conhecemos Nicolas (Niels Schneider), um sujeito do interior que se mudou há pouco para a cidade e que, em um encontro entre amigos, se destaca pela vivacidade e beleza. Imediatamente ele desperta o interesse dos amigos Marie (Monia Chokri) e Francis (Xavier Dolan). Aí começa um jogo de flertes, de atração que vai enredando os amigos cada vez mais, fazendo-os competir até o momento em que eles enfrentam a realidade do que está acontecendo e buscam uma solução e um caminho a seguir.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso só recomendo que continue a ler quem já assistiu a Les Amours Imaginaires): Quando uma pessoa está aberta ao amor e ao romance, é fácil equivocar-se. Os sinais mais idiotas parecem significativos. Frases de duplo sentido podem ganhar justamente o significado que a imaginação (e a libido) deseja. E o mais irônico de tudo isso é que a pessoa equivocada pode viver intensamente um amor de mão única – já que o outro nem ao menos percebe o que está acontecendo.

Les Amours Imaginaires é um filme bem escrito e com muito estilo que conta algumas destas crônicas do engano. Pontuando “depoimentos” que lembram as conversas com a câmera de um documentário com a narrativa de um trio amoroso fantasioso, este filme do diretor, roteirista e ator Xavier Dolan é um deleite para os olhos. Primeiro, pelos atores, belos e carismáticos. Depois, pela escolha que Nolan faz de cada cena. Esforçados na conquista, os atores principais – especialmente os personagens de Marie e Francis – sabem escolher as suas “armas”. Se vestem e se portam muito bem. E os ângulos escolhidos pelo diretor, assim como o ritmo lento que ele imprime volta e meia para ressaltar a beleza das pessoas e dos lugares, torna as cenas ainda mais prazerosas de serem assistidas.

O mérito das belas imagens também deve ser compartilhado com a diretora de fotografia Stéphanie Anne Weber Biron, que faz um belíssimo trabalho. Cineasta autoral, Dolan responde por quase todos os outros aspectos do filme – além dos já citados, ele assina também a edição, o figurino, a direção de arte e a produção de Les Amours Imaginaires. O que apenas aumenta a sua pontuação, já que a edição e a fotografia, assim como a direção e o roteiro, são os pontos fortes do filme. Junto com a fotografia e a trilha sonora. Falando nas músicas, três dominam a produção: a fantástica (e que me fez dar pequena risadas cada vez que tocava nesta produção) Bang Bang, de Dalida; Keep the Streets Empty for Me, de Fever Ray; e Pass this On, de The Knife. Todas inseridas em momentos especiais, fazendo com que elas ganhem uma relevância interessante na produção.

Mas falemos da história… (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Não sei vocês, mas logo nos primeiros minutos eu percebi o engano de Marie e Francis. Era evidente que Nicolas era apenas um bom garoto, simpático e comprometido na missão de fazer novos amigos. Nada mais. Mas para Marie e Francis qualquer gesto, convite, sorriso de Nicolas parecia um indicativo de algo poderia rolar a qualquer momento. Mas não… pura ilusão. Quem dera que nós, quando vivemos a mesma situação que eles, em algum momento da vida – e sorte de quem nunca passou por isso -, tivéssemos a mesma visão clara das coisas. Mas daí não nos enganaríamos nunca com o amor. E acho que até esse erro é válido – não para que nunca mais tropecemos outra vez, mas para percebermos que não somos tão “inacessíveis” ao equívoco como, algumas vezes, tentamos acreditar. A ilusão amorosa que, mais cedo ou mais tarde, passa fatura e faz com que nos sintamos mal, no fundo de um poço imaginário (também), também serve para entendermos as nossas limitações. E superá-las.

Uma questão importante, e que Les Amours Imaginaires deixa muito claro, é que a pessoa tem que estar muito, mas muito propensa a encontrar um amor para que o seu equívoco seja igualmente imenso. (SPOILER – não leia… bem, você já sabe). Marie e Francis, mesmo sem admitir – e eles jamais admitiriam, porque querem parecer sempre muito “senhores” de si mesmos – estão desesperados para viver um grande amor. E eles caem no lugar-comum que as novelas, filmes, romances das mais variadas fontes querem fazer os seus consumidores (nós) acreditar: que só existe um grande amor. E que ele será único, imenso, totalmente diferenciado dos demais. Que ele nos fará perder o chão, as estribeiras, a razão. Ok, amores assim existem. Mas eles acontecem, surgem e se consolidam sem esperarmos. O problema nasce quando esperamos e desejamos tanto que isso aconteça que, no fim das contas, inventamos um amor assim com sinais falsos. É isso o que acontece com Marie e Francis.

Ao mesmo tempo, e isso é o supra ironismo do filme, o casal de amigos vive os seus romances ordinários – que poderiam ser também grandes amores, se eles estivessem dispostos a dar valor para o comum. Mas não, eles querem o cara mais bonito do grupo. Aquele que, quando sorri, ilumina a sala, a rua, a cidade. Eles querem o “Adonis” da turma. E para que? Ele seria uma espécie de troféu? (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Aliás, no início não fica tão evidente a disputa pessoal entre Marie e Francis. Mas pouco a pouco essa queda de braço deles vai se tornando mais evidente, ao ponto do “grand finale” tornar as ações dos amigos previsíveis e ridículas. Se ele não fosse gay – mas daí eles também não disputariam uma conquista -, eu diria que eles deveriam resolver essa questão na cama. 🙂

Há uma cena específica do filme que me chamou a atenção: quando Marie não esconde o desprezo do parceiro de cama quando ele pergunta se ela pensa em atores do cinema enquanto transa com alguém. Mesmo dizendo que quando está com ela ele não faz isso, ele admite que pensa em atrizes quando está com outras pessoas.

Achei o diálogo e esta cena especialmente irônicos – como vários outros pontos da produção – porque eles revelam o contrasenso da protagonista. Enquanto ela demonstra desprezo pelo sujeito que lhe dá prazer, apenas sexual, ela está fazendo o mesmo que ele, pensando em outra pessoa enquanto eles estão envolvidos. No caso dela, no lugar de um ator, está Nicolas.

Essa cena é bastante ilustrativa por duas razões: mostra o contrasenso e a hipocrisia das pessoas que se consideram muito racionais e acima de qualquer suspeita, como é o caso de Marie e Francis, ao mesmo tempo em que registra uma das piores experiências de quem está obcecado por uma história de amor imaginária. Estar com alguém, pele com pele, e pensar no amor impossível/imaginário é o ocaso do amor. Um alarme deveria tocar toda vez que isso acontece. 🙂 E sobre o contrasenso do “super-racional”, vejo como a única solução a humildade e a autocrítica para perceber-se em uma cilada.

Pessoas inteligentes, pragmáticas, consideradas “cool” e sensíveis não estão alheias aos erros do amor. Da mesma forma como não estão vacinadas para “bicho de pé”. 🙂 Acreditar que sim é excesso de confiança. O mais engraçado, e Les Amours Imaginaires sugere isso, é que mesmo os mais racionais, exemplificados por Marie, não evitam o erro – e a repetição dele. Eles podem até perceber o rolo em que estão se metendo antes, mas não parecem ser capazes de sair da espiral ilusória.

Como tudo, inclusive no amor – real ou imaginário -, o que marca a diferença é a postura. A escolha. Cair no engano talvez seja inevitável. Mas perdurar nele é sim uma questão de escolha. Da mesma forma com que abrimos as portas e as janelas para um relacionamento, podemos escolher como e para quem deixar estas oportunidades abertas. Algumas vezes, por pressa ou excesso de determinação, “metemos a pata”, entendemos os sinais errados e, após a identificação do problema, seguimos dando murro em ponta de faca.

Saber onde buscar e, principalmente, entender que não é em outra pessoa que vamos encontrar o que nos falta, faz toda a diferença. Há pressões sociais, da idade, dos hormônios, das expectativas surgidas de várias partes para que nos lancemos. Mas algumas vezes o que pode marcar a diferença é fazer ouvidos “surdos” para todo esse vozerio e escutar um som muitas vezes abafado, interior. Ter paciência, distanciar-se e escutar o que nos importa. Preencher os vazios com o que importa e que não precisa de nenhuma “alma gêmea”, como nos vendem todos os manuais da “felicidade”. O amor é fundamental. Mas o real, que pode ser vivido de diferentes maneiras e com distintas pessoas. O imaginário serve apenas para experiências pessoais ruins e para fazer-se bom cinema.

NOTA: 9,5.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Xavier Dolan é um fenômeno. Aos 22 anos, o filho do ator Manuel Tadros contabiliza sete filmes, três curtas e três séries de TV no currículo como intérprete. Em 2009, ele estreou na direção e como roteirista com o elogiado J’ai Tué Ma Mère. A segunda tacada dele autoral é este divertido Les Amours Imaginaires. Para o próximo ano, está previsto o seu terceiro trabalho como roteirista e diretor, Laurence Anyways. Dolan é um nome a ser acompanhado, pois.

Alguns dos “depoimentos” que aparecem no filme se mostram mais interessantes que outros. Gostei, em especial, do texto e do desempenho da primeira atriz que aparece em cena, magra e com óculos, Anne-Élisabeth Bossé. Ela é maravilhosamente descontrolada e obcecada por seu “amado”, Jean-Marc. Irônica, um tanto surtada, ela demonstra como uma pessoa “séria e inteligente” pode ficar descontrolada por causa de um amor – ou seria apenas obsessão? Gostei também do segundo garoto, interpretado por Olivier Morin, que introduz o tema da Escala Kinsey sobre a sexualidade. Nunca é demais citar o pesquisador polêmico.

Um dos trechos dos “depoimentos” me pareceu especialmente interessante. Aquele dito pela personagem de Magalie Lépine Blondeau. Ela narra o fim de seu relacionamento e fala, lá pelas tantas: “… Estava acabado. Claro que, no começo, não queríamos admitir porque nos sentíamos mal, entende? A mudança, o transporte, todas essas coisas. Isso é jogar muita grana fora. Ao mesmo tempo, ‘meu homem está ganhando bem, agora ele pode ir se danar’. É como se nós estivéssemos… e quando digo ‘nós’, falo por mim. Eu… para mim, eu era apaixonada pelo tipo de amor que tivemos. (…) Isso não existe. O que se ama é o conceito. Você ama mais o conceito do que a ele. É a distância que você ama, mas, quando não há mais distância, quando não há mais oceano para atravessar, e o que há para atravessar é um corredor, enfim… está acabado agora”. E eis um dos pontos fundamentais… muitas vezes, não amamos ou estamos obcecados por uma determinada pessoa, mas pelo conceito de uma certa história de amor. Que, muitas vezes, para completar, é apenas imaginada.

Todos os atores que aparecem nesta produção fazem um grande trabalho, mas babei, em especial, no trio de protagonistas. Além de ótimo e inspirado diretor/roteirista, Dolan faz um grande trabalho como ator. Mas o destaque, sem dúvida, vai para Monia Chokri. Ela dá um show!

Les Amours Imaginaires custou, aproximadamente, 600 mil dólares canadenses (cerca de R$ 1,04 milhão). O filme não conseguiu emplacar nas bilheterias de seu país de origem, o que sempre é ruim. Segundo o site IMDb, a produção acumulou pouco mais de 411 mil dólares canadenses nos cinemas. Nos Estados Unidos, onde Dolan é conhecido quase que apenas nos circuitos alternativos, o filme teve um desempenho pífio: acumulou pouco menos de US$ 63 mil. Nada, comparado com qualquer filme mediano made in USA. Mas o fato dele ter ficado restrito a, no máximo, seis cinemas, ajuda a explicar esse resultado. Uma pena o filme ter sido ignorado desta maneira.

A estreia de Les Amours Imaginaires ocorreu no Festival de Cannes em maio de 2010. Depois de participar do evento, ele percorreu ainda 30 festivais e mostras pelo mundo. Um número impressionante e que torna a produção de Nolan uma espécime legítima de “filme de festival”.

Nesta trajetória, Les Amours Imaginaires ganhou três prêmios e foi indicado a outros oito. Entre os que levou para casa, estão os prêmios Regards Jeunes do Festival de Cannes; o de melhor fotografia no Festival Internacional de Cinema de Hamptons; e um prêmio especial no festival canadense Jutra por ter sido o filme do país melhor sucedido fora de Quebec.

Os usuários do site IMDb deram a nota 6,9 para a produção. Achei uma nota muito baixa, mesmo para os padrões exigentes de quem está inscrito e vota no site. Os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes foram um pouco mais generosos: dedicaram 48 críticas positivas e 18 negativas para Les Amours Imaginaires – o que lhe garantiu uma aprovação de 73% (e uma nota média de 6,9).

Um dos críticos linkados no Rotten Tomatoes que escreveu um texto negativo para o filme de Dolan foi Steven Rea, do Philadelphia Inquirer. Na parte conclusiva de sua crítica, Rea disse que, “infelizmente, apesar de que Heartbeats seja muito bonito de se ver, ele não mostra muita coisa acontecendo, afinal”. Tenho que concordar com ele. Esse certo “vazio” narrativo – ou uma certa previsibilidade da história, apesar do visual surpreendente e interessante – me impede de dar a nota máxima para a produção. Apesar de muito bem acabado e interessante, este filme carece de um pouco de conteúdo, apesar das aparências. Rea segue escrevendo que, para preencher as relações melancólicas do trio de protagonistas, o diretor utiliza depoimentos ao estilo de documentário. Mesmo criticando Les Amours Imaginaires, Rea afirma que Dolan é um talento que merece ser assistido – e que promete melhorar conforme for amadurecendo.

O crítico Wesley Morris, do Boston Globe, foi um pouco mais generoso em seu texto. Ele comenta que o filme de Dolan “transforma” uma premissa “slim – dois rapazes, uma garota e uma cidade – em um desfile de passeios slow-motion e olhares saudosos”. No momento mais decisivo de seu texto, Morris afirma que o “ardor” de Les Amours Imaginaires “não está na perseguição de Marie ou Francis por Nicholas (ou na perseguição de Nicholas por eles) mas no frescor desta perseguição feita pela filmagem de Dolan. Estas situações conhecidas parecem novas para ele. Enfim, o trágico e incrível sobre a atração é como ela faz uma lavagem cerebral para que seja possível acreditar que ela é tudo que existe”. Tenho que concordar com ele. Les Amours Imaginaires é um filme que funciona porque o olhar de Dolan lança vivacidade e inovação em uma história conhecida. Eis seu mérito principal.

CONCLUSÃO: Esse filme deverá despertar o amor e a ira/impaciência de gregos e troianos. Os primeiros, que já se equivocaram verdadeiramente e com apetite no amor alguma vez na vida, darão risadas, vão entender cada uma das piadas e ironias finas de Les Amours Imaginaires. Os segundos, muito racionais, acharão as histórias retratadas pelo filme coisa de “gente tonta”, não encontrarão sentido no filme, porque tem a “certeza” que jamais se iludiriam com sinais inexistentes de interesse por parte de outra pessoa. Paciência. Como eu estou com os gregos e já me equivoquei no amor, fantasiando sinais que não existiam – e dando importância demais para palavras ditas sem pensar -, assisti a este filme me deliciando. Independente se você é grego ou troiano, recomendo que assista a esse filme sem grandes pretensões, sabendo que ele é uma crônica das histórias de muitas pessoas – e lembre que nem sempre o cinema precisa representar a sua história; então faça um esforço para conhecer a de outras pessoas (isso sempre faz bem e amplia horizontes). Bem dirigido, com uma escolha cuidadosa de ângulos de câmera e ritmo para a história, Les Amours Imaginaires consegue um belo equilíbrio entre um ótimo texto e imagens preciosas, com muito estilo. Ele só não é perfeito porque acaba excedendo nas sequências de câmera lenta e não ultrapassa a fronteira de uma crônica divertida dos enganos amorosos – faltou aquela cereja do bolo. Mas nada que tire a graça do filme, que vale a pena ser visto.

Inside Job – Trabalho Interno

Vivemos ainda na sombra de 2008. Não tivemos um ano tão decisivo neste novo milênio do que aquele em que bancos colapsaram e uma crise econômica ainda sem fim ganhou forma e fôlego. Ok, tivemos 2001 e os ataques terroristas nos Estados Unidos, que trouxeram uma onda de medo e represálias. Mas se analisarmos o que teve um efeito multiplicador mais extenso, com a capacidade de afetar a vida de todas as pessoas, direta ou indiretamente, no mundo inteiro, sem dúvida foram os eventos que começaram antes de 2008, mas que naquele ano se mostraram evidentes com todas as suas garras. O documentário Inside Job, ganhador do último Oscar, tenta explicar um pouco do que aconteceu em 2008. As causas da crise financeira e econômica que continua até hoje. Um filme ousado, que dá nome aos bois, mas que nem por isso consegue explicar o quadro inteiro do problema.

A HISTÓRIA: Cenas da Islândia. E dados sobre o país: população, 320 mil; produto interno bruto, US$ 13 bilhões; perdas bancárias, US$ 100 bilhões. Um país que servia como exemplo para o mundo por sua democracia estável, pelo alto padrão de vida dos habitantes e pelo baixíssimo nível de desemprego e dívida pública e que viu este quadro mudar nos últimos anos. O filme começa mostrando como a situação na Islândia foi se deteriorando. Mostra as decisões políticas fundamentais para que isso acontecesse, iniciadas no ano 2000. As políticas de desregulamentação adotadas pelo governo e a privatização dos três maiores bancos do país foram um divisor de águas na história da Islândia. Depois de mostrar cenas com belezas naturais do país, a exploração da multinacional Alcoa de parte destes recursos, o filme mostra manifestações da população indignada de setembro de 2008. O diretor explica que os três bancos privatizados, que nunca tinham operado fora do país, em cinco anos emprestaram US$ 120 bilhões, 10 vezes a economia da Islândia. Criaram novos ricos da noite para o dia, sem critério. Inflacionaram o mercado, criando bolhas de valorização irreal – multiplicando o preço de ações e o valor dos imóveis. O exemplo da Islândia serve de ponto de partida para mostrar a onda que se espalhou por diversas economias, baseada nos mesmo princípios, e que contaminou o mundo, nos levando a maior crise econômica da história desde a quebra da Bolsa de Nova York em 1929.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Inside Job): Onde há fumaça, há fogo. Essa parece ser a leitura mais óbvia da primeira cena de Inside Job. O diretor e roteirista Charles Ferguson tenta mostrar o que se esconde por trás da cortina de fumaça. E consegue, mesmo que em parte. Ele dá nome a muitos responsáveis pela crise financeira e econômica desencadeada em 2008, mas senti falta dele aprofundar-se mais. Não apenas entrevistando muitos destes responsáveis ou pessoas próximas a eles, mas também em ampliar um pouco mais o foco. Ficaram de fora deste filme, por exemplo, os especuladores individuais ou corporativos.

Mesmo assim, descontadas estas “ausências”, eis um grande filme. Especialmente por seu caráter didático e pelos entrevistados interessantes que o diretor conseguiu abarcar. Na parte da Islândia, ele entrevista a Gylfi Zoega, professor de Economia da Universidade da Islândia; Andri Magnason, escritor e cineasta; e Sigridur Benediktsdottir, integrante do comitê especial de investigação do Parlamento da Islândia. Eles fazem uma leitura concisa do impressionante o efeito devastador que a crise teve naquele país. Depois que os bancos locais quebraram, no final de 2008, o desemprego no país triplicou em seis meses. Triplicou! Ok que a Islândia é um país com uma população “pequena”, de 320 mil habitantes, mas já imaginaram o desemprego triplicar, seja no coletivo que for, em apenas seis meses? Impressionante.

Mas como afirma Zoega em um trecho de sua entrevista, o que aconteceu na Islândia ocorreu também em outros países. Como Nova York, por exemplo. E a partir daquela introdução islandesa, Inside Job se concentra na crise dos Estados Unidos. Entra na mira de Ferguson entrevistados como Paul Volcker, presidente do Banco Central dos Estados Unidos; Dominique Strauss-Kahn, então diretor geral do FMI; George Soros, um dos maiores investidores (e bilionários) da História; Barney Frank, presidente do Comitê de Serviços Financeiros da Câmara dos Deputados dos Estados Unidos; David McCormick, sub-secretário do Tesouro da administração Bush; Scott Talbott, lobista chefe para o Financial Services Roundtable; Andrew Sheng, chefe da assessoria da comissão regulatória do Banco Chinês; Lee Hsien Loong, primeiro ministro de Cingapura; Christine Lagarde, então ministra de Finanças da França; Gillian Tett, editora do The Financial Times; Nouriel Roubini, professor da New York University Business School; Glenn Hubbard, conselheiro econômico chefe da administração Bush da Columbia Business School; Eliot Spitzer, governador de Nova York; Samuel Hayes, professor emérito da Harvard Business School; entre outros.

A lista fala por si mesma. O diretor conseguiu entrevistar pessoas de renome e importantes para a história recente da crise econômica. Mas várias outras pessoas ficaram de fora – representantes de alguns dos principais culpados listados pelo diretor, como políticos que fizeram as mudanças de legislação necessárias para que houvesse a possibilidade de uma crise financeira; representantes de bancos que criaram produtos questionáveis e incentivaram os seus investidores a aplicar suas economias neles; responsáveis por empresas de auditoria e agências de classificação de crédito americanas que deram notas de confiança irreais, assim como reguladores do governo que não fizeram bem o seu papel. Impossível não sentir falta desta gente falando – e lembrar do estilo escrachado de Michael Moore em fazer isso, ainda que, muitas vezes, sem o efeito desejado.

Algo positivo em Inside Job é o ritmo do filme. Dinâmico, com uma ótima trilha sonora, o filme vai da Islândia, passando pela apresentação dos principais entrevistados da produção, até as cenas dos noticiários de várias partes do mundo no fatídico dia 15 de setembro de 2008, quando o banco de investimento Lehman Brothers quebrou e o Merrill Lynch foi posto à venda, em apenas 10 minutos. Palmas para a percepção de ritmo e de introdução do diretor, em um trabalho conjunto com os editores Chad Beck e Adam Bolt e a trilha sonora de Alex Heffes. Segundo a narrativa do ator Matt Damon, o resultado imediato da quebra do Lehman Brothers e o colapso da maior companhia de seguros do mundo, a AIG (American International Building) desencadeou a crise financeira global. Que, em outras palavras e de forma mais prática, resultou em uma recessão global “que custou ao mundo dezenas de trilhões de dólares”, deixando “30 milhões de pessoas desempregadas e dobrou a dívida nacional dos EUA”. Como resume Roubini, o custo prático pode significar 15 milhões de pessoas no mundo voltando (ou entrando pela primeira vez) para a linha abaixo da pobreza.

O diretor Ferguson defende – porque todo documentário é a defesa de uma ideia, de uma tese – que esta crise e o seu alto custo que ainda está sendo pago não foi acidental. No documentário, ele tenta explicá-la e, principalmente, encontrar alguns de seus culpados. Acho importante esse tipo de trabalho, mesmo quando ele se mostra parcial – não no sentido de defesa de tese, porque todo filme é assim, mas por não mostrar o quadro completo do problema, e sim apenas parte dele. Isso porque não é sempre que um diretor consegue fazer um trabalho lógico, didático e que tenha também a coragem de expor pessoas, empresas e instituições. Palmas para Ferguson. E também para a Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood, que conferiu um Oscar para este filme – colocando-o ainda mais em evidência.

Ferguson argumenta que a crise foi “causada por uma indústria fora de controle”. Ele se refere ao sistema financeiro. Na primeira parte do filme, ele mostra “como chegamos até aqui” e, depois, começa a apontar alguns dos responsáveis por todo esse problema. O bacana desta forma de narrar escolhida por Ferguson é que ela faz um rápido repasse histórico, mostrando como os Estados Unidos avançaram após a Grande Depressão. Apenas por isso, Inside Job é um filme importante e que poderá ser utilizado nas escolas, universidades e similares. Não como ponto final na discussão mas, provavelmente, como um elemento a mais para ela. Algo positivo em Inside Job é o espectador ter acesso a alguns dos melhores especialistas em sistemas financeiros e lógica de mercado do mundo. Além da rápida aula de história, podemos entender um pouco melhor como foram feitas as desregulamentações de mercado e de que forma surgiram os novos produtos oferecidos pelo sistema financeiro – a diferença deles com os anteriores.

Importante também a forma com que Ferguson demonstra as relações de poder e a “contaminação” de diferentes governos dos Estados Unidos por interesses de banqueiros e executivos do sistema financeiro. As “relações perigosas” são colocadas às claras. Com isso, o espectador passa a prestar mais atenção em informativos e estudos divulgados por determinados bancos e agências contratadas por eles, por conglomerados financeiros ou companhias de seguros. Uma mudança fundamental, segundo a tese de Ferguson, que permitiu a crise financeira e global foi a desregulamentação de derivativos e outras inovações financeiras a partir dos anos 2000. O diretor mostra como o sistema financeiro ficou mais “rentável, concentrado e poderoso” a partir dos anos 2001, e lista quem concentrava todo este poder: os bancos de investimento Goldman Sachs, Morgan Stanley, Lehman Brothers, Merrill Lynch e Bear Stearns; os conglomerados financeiros Citigroup e JP Morgan; as companhias de seguros AIG, MBIA e AMBAC; e as três agências de classificação de risco Moody’s, Standard & Poor’s e Fitch.

O diretor explica como funciona a “cadeia alimentar da titularização, um novo sistema que ligava trilhões de dólares de hipotecas e outros empréstimos com investidores em todo o mundo”. Com exemplos simples, Ferguson mostra como o sistema financeiro mudou o seu sistema de atuar, tornando o capital muito mais inseguro do que em qualquer outra época histórica. Consequentemente, ele trata da bolha imobiliária nos Estados Unidos – mesma lógica vista na Espanha e em outras partes e que pode continuar acontecendo se não forem estabelecidas regras e limites muito claros. De fato, muita gente ganhou muito dinheiro com toda essa crise e caos, ao custo do emprego e das rendas de tantas e tantas outras pessoas ao redor do mundo – algumas co-responsáveis, por assim dizer, porque aplicaram os seus investimentos em opções de alto risco, mas outras que nunca tiveram nem a possibilidade de fazer isso porque nunca tiveram sobra de capital para tanto.

Muito interessante a forma com que Ferguson nos conta essa história, utilizando de recursos diversos, desde bancos de imagens – fotografias e vídeos – até gravações em áudio e a reprodução de documentos importantes. Boa parte das pessoas, empresas e instituições que ele não conseguiu entrevistar “aparecem” no filme por meio destes recursos. Na verdade, Inside Job é uma aula de como fazer um documentário com poucos recursos – e de que não conseguir todas as entrevistas que se gostaria não é uma justificativa para desistir de um projeto. E mesmo deixando parte dos “culpados” e da lógica econômica mundial de fora, ele faz um bom trabalho. Até porque poucos filmes, até agora, se dedicaram a mostrar as relações de interesse envolvendo o sistema financeiro e os políticos, por exemplo, e de como todo (ou quase todo) o sistema de decisão, que deveria ser democrático e pensar no interesse da maioria, está contaminado pelo interesse de alguns poucos. Eis um importante soco no estômago e que deve fazer as pessoas repensarem algumas lógicas e em quem confiar.

NOTA: 9,3.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Antes de filmar Inside Job, o diretor Charles Ferguson havia feito apenas um outro trabalho: No End in Sight, de 2007. Sua estréia na direção (a qual eu ainda não assisti) faz um exame crítico da administração Bush no que se refere à invasão do Iraque. Estampando a nota 8,3 no site IMDb, No End in Sight concorreu ao Oscar de 2008 – mas perdeu a estatueta para Taxi to the Dark Side. Na época, Ferguson não apenas recebeu ótimas notas e elogios, mas também conseguiu oito prêmios – incluindo um prêmio especial do júri do festival de Sundance. Uma bela estreia, pois.

O êxito de Inside Job foi diferente. Em sua trajetória, o filme conquistou menos prêmios que a produção anterior de Ferguson, “apenas” seis. Mas levou para casa, diferente do outro filme, o Oscar. E como o mundo inteiro olha para o Oscar, mais que para outras premiações… sem dúvida Inside Job levou vantagem. Além do Oscar, Inside Job ganhou os prêmios do Directors Guild of America (pelo trabalho como diretor de documentário), da Sociedade Nacional de Críticos de Cinema dos EUA, do Writers Guild of America (como melhor roteiro para documentário) e dos círculos de críticos de Nova York e Southeastern. Além destes prêmios, Inside Job concorreu a outros 11.

Francamente, e quem acompanha o blog sabe disso, neste último Oscar eu estava torcendo pelo documentário Exit Through the Gift Shop, dirigido por Banksy e Jaimie D’Cruz. Adorei o filme. E ainda que continue tendo uma “quedinha” maior por ele, por sua ousadia, inovação e humor, devo tirar o chapéu para Inside Job. Sem dúvida Ferguson faz um grande e importante trabalho. E como os dois filmes tratam de temas tão diferentes e de forma também diversa, fica difícil escolher entre um ou outro. Ainda assim, acho que pela importância da produção, Inside Job mereceu mais o Oscar do que Exit Through the Gift Shop. Pelo menos, com a estatueta, ele ganhou outra projeção – e provavelmente tenha chegado a muito mais pessoas do que se não tivesse ganho a estatueta.

Curioso que um filme tão detalhista tenha errado no início em dois momentos: na grafia dos nomes de Dominique Strauss-Kahn e Paul Volcker – que aparecem como “Dominque Straus-Kahn” e “Vocker”.

O mérito pelo roteiro competente de Inside Job é de Ferguson. Mas ele não fez o trabalho todo sozinho. Contou com a ajuda de Chad Beck e Adam Bolt. Além deles e dos outros profissionais citados, vale a pena comentar o trabalho competente dos diretores de fotografia Svetlana Cvetko e Kalyanne Mam.

Inside Job estreou em fevereiro de 2010 na Bélgica e, em maio, participou do Festival de Cannes. A produção passou ainda por outros nove festivais, incluindo os do Rio e de São Paulo. Nos Estados Unidos, a produção acumulou pouco mais de US$ 4,3 milhões nas bilheterias – o melhor resultado entre os documentários que concorreram ao Oscar deste ano. O melhor desempenho, atrás dele, foi de Exit Through the Gift Shop, que acumulou pouco menos de US$ 3,3 milhões nos Estados Unidos.

Os usuários do site IMDb deram a nota 8,2 para Inside Job. Os críticos que tem seus textos linkados no Rotten Tomatoes foram bem mais generosos: dedicaram 131 críticas positivas e apenas quatro negativas para a produção, o que lhe garante uma aprovação de 97% – e uma nota média de 8,2, esta sim, similar àquela do IMDb.

CONCLUSÃO: Eis um filme necessário. Inside Job explica alguns conceitos difíceis e importantes da economia. Apresenta nomes, de pessoas, empresas e instituições que participaram do surgimento da crise financeira e econômica global. Por tudo isso, ele tem méritos. Mas ao focar a atenção apenas nos bancos e no sistema financeiro, o documentário não explica todo o quadro. A responsabilidade dos especuladores, de empresas e de outros atores do sistema econômico, assim como dos políticos e gestores de outros países fica de fora do foco do diretor Charles Ferguson. No fim das contas e tornando tudo mais simples, o centro da crise está no excesso de dinheiro entregue para pessoas sem condições de gestioná-lo. O capital descolado do material e do trabalho ganhou nos especuladores – individuais e empresariais – o seu elemento bomba. E o maior problema é que a essência do problema não foi alterada. Continuamos seguindo a mesma lógica. A dúvida é até quando. Inside Job está aí para explicar parte da origem destes problemas. Mas outros documentários serão necessários para explicar o quadro todo.