Source Code – Contra o Tempo

Como é bom assistir a um roteiro que tem originalidade. Finalmente um filme de ficção científica que não faz um “apanhadão” geral de várias ideias anteriores – sim, sempre que eu posso eu dou esta “cutucada” no fraco Inception. Source Code é destas produções que comprovam que ainda é possível ser original no cinema, mesmo que isso não signifique redescobrir a roda. E nem é preciso. Basta um roteiro que convença, que envolva e interesse do início ao final. E Source Code consegue isso. Sem contar que o filme é protagonizado pelo ótimo Jake Gyllenhaal, bem acompanhado de Michelle Monaghan e Vera Farmiga. Diversão garantida – e com uma boa dose de ideias novas, para nosso alívio.

A HISTÓRIA: Grande cidades, estradas movimentadas e um trem percorre com rapidez alguns trilhos. Um homem dentro do trem acorda relutante. Ele parece perdido. À sua frente, uma mulher agradece por um conselho que ele lhe deu. Um rapaz sentado no mesmo vagão abre uma lata de refrigerante e, em seguida, uma mulher derrama café no sapato do protagonista. A mulher à frente dele lhe chama de Sean, mas ele continua aturdido. Em seguida, um homem reclama do horário e a mulher em frente ao protagonista reclama do ex-namorado que está ligando pela terceira vez naquele dia. Ela avisa que deu aviso prévio, ele fica surpreso, e pouco depois pedem para ver o bilhete de trem dele.  Após ouvir algumas reclamações de passageiros sobre o atraso do trem, ele diz para a mulher que está a sua frente que ele não é a pessoa que ela pensa que é, mas que se chama Colter Stevens (Jake Gyllenhaal), é capitão do Exército e piloto militar em missão no Afeganistão. Ele sai do trem para tomar um ar, e pergunta onde está, quando descobre que o trem parou em Chicago. Ele volta para o vagão e vê, no reflexo da janela, um rosto que não é o seu. No banheiro, confirma a impressão. Pouco depois, ele acorda em uma sala escura e descobre, ao falar com a militar Colleen Goodwin (Vera Farmiga), que está em um missão estranha. Ele tem oito minutos da memória de Sean Fentress (Frédérick De Grandpré) para descobrir quem é o culpado e onde está a bomba que explodiu o trem em que o professor estava junto de Christina Warren (Michelle Monaghan). Se cumprir a sua missão, Stevens poderá evitar um segundo e mais destrutivo ataque terrorista nos Estados Unidos.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso só recomendo que continue a ler quem já assistiu a Source Code): A impressão inicial que eu tive de Source Code não foi das melhores. As cenas que abrem a produção, durante os créditos, são acompanhadas de uma trilha sonora exageradamente dramática. Naquele momento, pensei: “Será que esse filme vai ser um daqueles exageros em que o roteiro vai tentar, a todo momento, pregar peças no espectador? Dai-me paciência se for assim…”. A abertura do filme, parte da trilha sonora de Chris Bacon, está realmente um pouco acima do tom. Mas o exagero não atrapalha o desenrolar da história porque, afinal de contas, ela é muito boa.

Por mais que o filme, como qualquer boa história de suspense, possa dar algumas dicas aqui e ali logo no início, ele não cai em armadilhas comuns como entregar informações demais para o espectador antes da hora ou pregar peças desnecessária para tentar surpreender quem está assistindo. Não. O roteiro de Ben Ripley tem um ritmo perfeito. Ele utiliza, para começar, um artifício bastante conhecido: coloca o espectador na mesma posição “perdida” do protagonista. Assim, a história cria uma identificação entre o personagem principal e quem está assistindo ao filme. Contribui para isso, também, o carisma de Gyllenhaal, um cara que veste perfeitamente a “roupa” de herói comum.

Muito interessante como o roteiro vai ganhando corpo com o tempo. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). E quem pudesse esperar que uma volta ad infinitum na história, com repetidas incursões de Stevens nos oito minutos de memória preservada de Sean Fentress, pudesse tornar o filme cansativo, vai se surpreender, como eu me surpreendi, nos recursos utilizados pelo roteirista e pelo diretor Duncan Jones para não tornar estes retornos “mais do mesmo”. Inteligentes, eles criaram uma forma do personagem de Stevens retornar sempre com algum elemento novo e, mesmo o que se repetia, não parecer cansativo com ângulos e dinâmicas diferentes de filmagens.

Uma outra qualidade do roteiro: ele explica o que está acontecendo de maneira rápida, breve, sem dar muitas voltas ou complicar o que não precisa ser complicado. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Junto com Stevens, vamos descobrindo, pouco a pouco, o que está acontecendo. Sabemos, primeiro, que ele não pode evitar a catástrofe da explosão do trem. E que qualquer tentativa de fazer isso é “irrelevante”, como insiste Goodwin. Com esta informação, o personagem e os espectadores descobrem que ele está acessando sempre a memória de um morto, mas que por uma estranha razão, ele não a acessa como uma gravação de videotape, mas consegue explorar aquela realidade já passada de tempo e espaço para descobrir informações novas.

Além do mistério do trem, que por si só já tornaria a história interessante, há outro mistério paralelo. (SPOILER – não leia… bem, você já sabe). Afinal, por que a “capsula” em que Stevens está parece estar sempre com algum problema? Ele está em risco? E se está, porque as pessoas responsáveis pela missão dele não podem ajudá-lo? As respostas para os dois mistérios vão aparecendo aos poucos e simultaneamente, porque o protagonista não está interessado apenas em terminar a missão que deram para ele, mas entender o que aconteceu com ele desde a sua última memória, que era de ser um piloto de helicóptero no Afeganistão. Um pouco por “acidente” e um tanto a contragosto, o cientista Dr. Rutledge (Jeffrey Wright) explica para Stevens, bem an passant, alguns princípios de mecânica quântica. Fala de “cálculos de parábolas”, explica que “há reflexões quando uma luz se apaga”, o efeito halo, que se aplica também ao cérebro humano.

O “campo eletromagnético” do cérebro continuaria a funcionar brevemente mesmo após a morte. (SPOILER – não leia… você sabe). “O circuito continua aberto” e o cérebro consegue manter preservado os últimos oito minutos da memória da pessoa. Estes dois fatores permitem que seja criado o “código fonte”, que explora a sobreposição dos dois fenômenos. Por isso Stevens conseguiria fazer essa viagem no tempo que, na verdade, não é uma viagem no tempo, explica o Dr. Rutledge. Para ele, não seria possível Stevens viver como Fentress além daqueles oito minutos. Nas palavras do cientista, o Código Fonte seria apenas uma “realocação no tempo” que permite que o militar acesse uma “realidade paralela”. Como ele tenta salvar a Christina, mas descobre que ela continua morta “no mundo real”, a única saída para ele parece ser seguir a missão até descobrir o culpado e evitar uma próxima tragédia.

Honestamente fiquei curiosa sobre estes conceitos de mecânica quântica e fui me informar um pouco mais a respeito. Os conceitos são interessantes – falarei deles um pouco mais ali embaixo. Tenho certeza que alguns teóricos vão questionar e talvez torçam o nariz para o desenrolar desta história, mas achei ela interessante. Além dos dois mistérios serem bem explicados, o roteiro de Ripley ainda nos reserva algumas surpresas. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Primeiro, achei uma cereja no bolo a “real condição” do nosso herói. Um filme hollywoodiano padrão diria que ele teria alguma chance de sobrevivência por conta própria, certo? Mas não Source Code. Mesmo que não seja o foco principal desta história, ela deixa clara a crítica ao “vale tudo”, a obsessão dos Estados Unidos para proteger o seu povo e, se possível, o restante do mundo – mantendo uma relação de poder que para eles, mais que nada, é economicamente interessante. Em Source Code, o pai de Stevens não autorizou o uso “final” que deram para o seu filho. Pelo contrário, ele foi enganado pelo Exército. O próprio soldado Stevens não teve poder de decisão. E não há uma redenção possível neste cenário – pelo menos não uma que dependa deste Exército, de uma instituição que pode ter ótimas intenções, mas que nem sempre tem os seus métodos justificados por elas.

E além desta “cereja no bolo”, há um outro ponto interessante no final. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Francamente, eu não esperava que Stevens estivesse certo. Quando ele faz a sua última “incursão” no Código Fonte e os oito minutos terminam, para mim só havia duas possibilidades: 1) a história dele ficaria congelada naquele momento do beijo ou 2) ele teria uma “sobrevida” de apenas mais oito minutos – afinal, ele mesmo estava sendo “desligado” e, sei que isso não tem lógica, mas achei que ele poderia ter esta “extensão” de tempo antes de “apagar” de vez. Alguns até podem fazer uma leitura do final religiosa, acreditando que ele foi para o Paraíso – e por isso seguiu ao lado de Christina, de quem ele se apaixonou.

Mas eu prefiro seguir com a lógica do próprio filme (SPOILER – não leia… bem você já sabe): Stevens e Christina continuaram vivos porque ele impediu que o trem explodisse e salvou o mundo em uma realidade paralela, como a mecânica quântica propõe. Das outras vezes, ele não seguiu vivo porque ou o trem explodiu, ou ele caiu nos trilhos ou levou tiros. Mas na vez em que ele caiu nos trilhos, por exemplo, naquela realidade paralela, é bem provável que Christina continuou viva. Tema para debates. Mas algo considero indiscutível: o filme tem uma história bem amarrada, interessante e envolvente, com uma direção que consegue manter um bom ritmo do início ao fim e um grupo de atores que vestem a camisa e convencem. Na parte técnica, tudo funciona bem. Então é um filme praticamente perfeito. Apenas detalhes não me deixam dar a nota máxima para ele. Entre outros, achei que na primeira sequência do Código Fonte ficou subentendido demais o possível culpado, assim como achei desnecessária aquela “charada” perto do final, com a longa sequência de ação congelada. Ok, foi interessante a cena, tecnicamente falando. Mas a pequena “armadilha” não fazia falta. Mas o filme é praticamente irretocável. O que, convenhamos, em uma produção do gênero, é difícil de acontecer.

NOTA: 9,8.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Vários filmes já trataram sobre viagens no tempo ou sobre realidades paralelas. Sobre este último tema, talvez um dos mais conhecidos – e cultuados, com muitos méritos – seja The Butterfly Effect. Mas mesmo tendo sido precedido por vários filmes interessantes que versam sobre alguns conceitos da mecânica e da física quântica, Source Code não derrapa nos lugares-comum e nem faz uma “releitura” do que foi feito antes. Algo difícil e, por isso mesmo, louvável. Tão diferente de Inception e sua “colagem” de outros filmes. Me perdoem os “fanáticos” por Inception, mas quem acompanha este blog há mais tempo sabe que eu tenho vários motivos para não ter “babado” sobre a produção dirigida por Christopher Nolan.

Gosto de diretores que fazem o seu trabalho e que não se imaginam os melhores realizadores de filme do mundo. Prepotência é o caminho mais rápido para um tiro no próprio pé. Por isso é interessante esse inglês Duncan Jones, um sujeito jovem, que logo mais – no dia 30 de maio – completará 40 anos. Ele ficou conhecido – e foi bastante elogiado – por Moon que, infelizmente, ainda não assisti. Antes, ele havia dirigido apenas um curta, Whistle. Agora, admito, fiquei interessada em seguir esta figura. Jones é um diretor que merece ser acompanhado.

Todos os atores de Source Code estão muito bem. Jake Gyllenhaal e Michelle Monaghan fazem um dueto interessante, divertido, e que responde a cada situação de uma maneira bastante convincente e leve. Méritos do roteiro, claro, mas também da sintonia dos intérpretes. Vera Farmiga dá mais uma demonstração de grande preparo e repertório técnico. Mesmo “contracenando” boa parte do tempo com uma tela e um microfone, ela passa todos os sentimentos que precisa passar com exatidão. Além deles, vale citar o trabalho do coadjuvante Michael Arden como Derek Frost.

Apesar do exagero da sequência dos créditos iniciais, é preciso admitir que a trilha sonora de Chris Bacon faz um trabalho competente de ajudar o filme a manter um ritmo interessante do início ao final. A direção de fotografia de Don Burgess também merece palmas, porque ele conseguiu solucionar algumas questões técnicas bastante complicadas de forma criativa. Para isso, ele contou com a ajuda fundamental do departamento de efeitos especiais comandado por Suzanne Simard, com uma equipe de 10 profissionais, e com a gigantesca equipe que trabalhou com os efeitos visuais. Nada menos que 160 profissionais contribuíram para que o espectador fosse inserido naqueles episódios de destruição e de ação tensa. Sem dúvida este filme sai na frente para o Oscar do próximo ano nestas categorias técnicas. Claro que é muito cedo para saber se ele terá chances, mas ele é um pré-candidato, sem dúvidas. Outro que faz um ótimo trabalho é o editor Paul Hirsch.

Source Code trata, rapidamente, de vários conceitos diferentes. O personagem do Dr. Rutledge cita a mecânica quântica, o efeito halo, cálculos de parábolas, entre outros. Fui procurar mais informações sobre cada um deles, inclusive para lembrar o que eu li, há bastante tempo atrás, sobre os conceitos de mecânica e física quântica. Com certeza há pessoas muito mais informadas, estudiosos bem mais preparados do que eu para falar a este respeito. Mas o que eu acho essencial citar é que, conforme explica este texto de forma bastante simplificada, pela Teoria dos Mundos proposta por Hugh Everett, existem vários universos que existem de forma simultânea, e que cada resultado diferente de uma situação cria um novo universo. Mas estes universos são inacessíveis uns aos outros. O texto do Jonathan Quartuccio faz um grande apanhado dos principais conceitos da mecânica quântica, por isso achei interessante citá-lo.

Recomendo também a leitura deste texto assinado pelo professor Luiz Gazzola. Ele explica, por exemplo, que a física quântica “ensina que a maior parte do universo está vazia. A matéria na verdade não possui substância. (…) Devemos, pois, pensar cada vez mais em possibilidades. Tudo é possibilidade subconsciente. Podemos transformar o meio em que vivemos. (…) Num universo onde a maior parte é vazio, a coisa mais sólida que pode existir é um pensamento.” Ele não fala muito de realidades paralelas mas, como pode-se perceber pelo resumo acima, ele trata sobre o potencial de cada indivíduo em moldar a própria realidade. O que serve para explicar Source Code também. Há ainda este outro texto, escrito em espanhol, que afirma: “todas as vertentes de um projeto/vida estão extra-dimensionadas em realidades paralelas que chamamos de multimodais, e algumas destas possibilidades podem entrar em colapso no plano terrestre em qualquer instante”. Um bocado assustador, não? 🙂 A verdade é que existem diferentes interpretações sobre os conceitos da mecânica e física quântica, por isso não pode ser considerado absurdo o que é proposto no filme – se é que alguém se importe com isso.

Ainda sobre conceitos interessantes, vale citar este texto sobre a teoria das supercordas, que afirma que existem 11 dimensões: três de natureza espacial, uma temporal e sete recurvadas, “as quais incorporam também massa atômica e carga elétrica, entre outras características. Estas outras esferas não seriam visíveis, como sugerem os estudiosos desta teoria, por não captarem a luz, essencial para que possamos ver e conhecer”. Seguindo esta lógica, as ações como vemos em determinado momento do filme não poderiam ocorrer em alguma outra realidade paralela. Longa discussão, imagino. 🙂 Finalmente, acho interessante indicar este texto sobre o efeito halo que, aparentemente, não tem nada a ver com mecânica ou física quântica. O efeito halo é “considerado o mais sério e o mais difundido de todos os erros de avaliação”. Seria uma piada do roteirista a respeito da própria história – ou melhor, da leitura do personagem do Dr. Rutledge? É de se pensar…

Uma curiosidade do filme: o Beleaguered Castle citado na produção foi inspirado em um jogo de paciência. Li que a série de TV Quantum Leap, de 1989, tem uma premissa parecida com Source Code. Como não assisti a essa série, não posso confirmar e nem negar. Mas fica a dica para quem quiser conferir. 🙂

Source Code estreou no dia 11 de março no desconhecido Southwest Film Festival, nos Estados Unidos. Depois ele participou do Beaune Film Festival, na França, e na Mostra de Valência, na Espanha. Entrou em cartaz no circuito comercial de quatro países no dia 31 de março e, no dia seguinte, estreou em outros cinco países, incluíndo os Estados Unidos. Até o dia 15 de maio, a produção, que custou aproximadamente US$ 32 milhões, arrecadou pouco mais de US$ 52,2 milhões apenas nos Estados Unidos. Certamente ela vai lucrar mais que o dobro do custo, o que é um excelente resultado.

O filme também foi bem na avaliação de público e crítica. Os usuários do site IMDb deram a nota 7,7 para o filme, um bom conceito para os padrões do site. Os críticos que tem seus textos linkados no Rotten Tomatoes, contudo, foram mais generosos: eles dedicaram 196 críticas positivas e apenas 20 negativas para a produção, o que lhe garante uma aprovação de 91% e uma nota média de 7,5.

CONCLUSÃO: Suspense, tensão, mistério, ciência e drama em um mesmo pacote. Adicione a estes ingredientes um roteiro com uma ótima carga de originalidade, uma direção que não deixa a peteca cair, atores afinados e efeitos especiais/visuais irretocáveis. A mistura de tudo isso resulta em Source Code, um dos melhores filmes que mistura ficção científica e ação dos últimos tempos. Esqueça Inception e a salada mista que ele faz de filmes anteriores. Com Source Code, finalmente, alguma criatividade surge em cena. Certo que a ideia de brincar com conceitos de mecânica quântica não é exatamente nova, mas o diferencial é a forma com que o roteirista Ben Ripley e o ótimo diretor Duncan Jones fazem isso. E o interessante que, além de todos os ingredientes citados anteriormente, esta produção ainda tem espaço para a emoção, para “acertos de contas”, para uma leve critica ao “fim justificam os meios” do Exército dos Estados Unidos e para a saudável autocrítica de que não sabemos tudo – e que mesmo a ciência mais avançada ainda tem muito que aprender. Mas um detalhe importante: tudo isso sem sufocar ou parecer “pretensioso” demais. Source Code é um filme direto, honesto, simples e complexo ao mesmo tempo. E que, apesar de tudo isso, consegue o seu objetivo principal: entreter. De tirar o chapéu, pois.

Haevnen – In a Better World – Em Um Mundo Melhor

Realidades cheias de conflitos. A definição da coragem e da covardia. Mesmo tratando deste temas em cenários muito distantes e distintos e buscando um olhar crítico sobre eles, Haevnen, produção vencedora na categoria de Melhor Filme Estrangeiro no último Oscar, revela-se também um bocado simplista e simplória. Este não é o melhor filme da ótima diretora Susanne Bier, sem dúvida. Falta-lhe um pouco de coragem e sobra um bocado de discurso pronto e fácil. Ainda assim, não foi totalmente injusta a sua premiação no Oscar porque, afinal, Haevnen é um filme muito bem acabado e visualmente interessante.

A HISTÓRIA: Nuvens pesadas deslizam pelo céu. Um vento constante sacode as vestes e as barracas de mulheres, homens e crianças. Meninos e meninas brincam em meio à poeira e à falta de quase tudo. Um grupo corre atrás de um carro aberto que leva um grupo de médicos e enfermeiros. Um destes médicos é Anton (Mikael Persbrandt), que passa parte da vida tentando salvar pessoas naquele cenário de privações e ameaças, e outra parte lidando com o divórcio da mulher Marianne (Trine Dyrholm) e com as dúvidas e problemas do filho Elias (Markus Rygaard). Anton joga uma bola para as crianças, e isso é tudo o que elas parecem precisar para serem felizes – pelo menos naquele momento. Algo aparentemente impossível para o revoltado Christian (William Johnk Nielsen), que perdeu a mãe e não consegue lidar com esta ausência. Rejeitando o pai, Claus (Ulrich Thomsen), e qualquer sinal aparente de fraqueza, Christian se aproximará de Elias e mostrará como escolhas equivocadas podem disseminar a violência.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso só recomendo que continue a ler quem já assistiu a Haevnen): Existem, no mundo, múltiplas realidades. Há cenários de privação e outros de fartura. Verdade. Mas será que para falar sobre a origem da violência, a convicção da busca da paz pela falta de represálias, a importância da família, da vida e da morte, se faz realmente necessário confrontar um ambiente de refugiados na África com a de uma cidade típica da rica Dinamarca? Haevnen tem boas intenções, mas o filme peca por simplificações que tornam questões importantes da vida como quase exceções.

Vejamos: diariamente, nos centros urbanos ou rurais da parte que for do planeta, as pessoas não fazem escolhas? Elas decidem, por exemplo, se respeitam ou não os seus semelhantes. Independente da religião ou da crença que podem seguir. Decidem se tratam os demais como devem ser tratados, ou se não fazem isso. Frente à violência, escolhem o caminho da represália ou do perdão. Alimentam o ódio ou o amor. Sei que estas linhas, para alguns, pode parecer discurso “babaca” ou inocente, mas a verdade – e que muitos tem dificuldade de admitir – é que escolhemos o estilo de vida que temos a cada passo, a cada escolha.

Em Haevnen, o roteirista Anders Thomas Jensen nos apresenta, sempre, uma oposição de realidades. Há dois núcleos familiares muito distintos em cena. Dois países com realidades opostas – um com fartura e vida social muito bem organizada, outro com escassez de quase tudo e cotidiano imprevisível e um bocado caótico. Mas existem também providenciais similaridades. Mesmo muito diferentes, os dois núcleos familiares que acompanhamos foram desfeitos. A história também fica centrada, a maior parte do tempo – exceto quando as atenções estão para a África sob a ótica de Anton -, nas posturas de dois adolescentes.

A primeira questão importante de Haevnen é a ideia do perigo do núcleo familiar desfeito. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Tanto a casa de Christian quanto a de Elias nunca está completa. No caso de Christian, a figura materna desapareceu. Não chegamos nem a conhecê-la. Com a morte da mãe, o garoto perde, aparentemente, o seu referencial mais amoroso. Ele parece não ter muita intimidade com o pai e se sente, assim, “sozinho no mundo”. O caminho que ele escolhe, para lidar com a dor, é a represália a todo mal que encontra à sua volta. Na leitura de alguns, ele se torna um garoto revoltado e amargurado.

No caso de Elias, a figura paterna está, quase sempre, ausente. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Mas não pela perda maior e irreversível da morte, mas porque o pai dele é um médico dedicado a causas humanitárias. Essa ausência constante termina com o casamento de Anton e Marianne, e Elias deve enfrentar esta situação de “agravamento” da perda da figura paterna. Como ele resolve a questão? De forma pacífica, tentando entender o que está acontecendo, até que é contaminado pela revolta de Elias – que não faz o garoto mudar de atitude, mas que lhe absorve, mesmo assim, em seu redemoinho de sentimentos raivosos e vingativos.

Apenas pelas atitudes dos garotos, temos oposições de “visões de mundo”. E o mais interessante, neste aspecto – e alguns psicólogos podem falar melhor a respeito – é que eles reproduzem ou são “produtos” do ambiente familiar. Mas não apenas dele, é claro. Christian parece seguir um comportamento mais “frio”, distanciado, a síntese da forma com que o pai dele aparece na trama. Mas há poucos elementos para analisar a formação do garoto. Primeiro porque o ótimo ator Ulrich Thomsen, que interpreta a Claus, aparece pouquíssimo na história – e ele nem pode ser taxada muito como “omisso”. Depois, porque não sabemos nada sobre a mãe de Christian.

Mas algo muito diferente acontece com Elias. Sabemos mais da mãe dele do que do pai de Christian. E, como um dos grandes nomes da produção, sabemos muito mais sobre o pai do garoto. Se por um lado, aparentemente, temos a uma família de bons recursos e um tanto “sem diálogo” e com pouco afeto, como parece ser o caso de Christian, por outro temos a uma família preocupada com o caráter humano, com a preservação da vida e com o diálogo, no caso de Elias.

E daí talvez surja um dos poucos elementos realmente interessantes deste filme: por mais óbvia e esquemática que seja uma realidade apresentada, o roteirista Jensen e a diretora Susanne Bier nos mostram, de forma menos escancarada, como nenhuma realidade “perfeita” ou “corrompida” é composta por apenas um destes elementos. A filosofia e convicção pacifista e humanitária de Anton e da mulher tem limites, como comprova a atitude dele com um dos vilões do Quênia. E a indiferença e o pragmatismo do pai de Christian se mostram um argumento fácil de ser comprovado cada vez que ele se aproxima do filho e não consegue romper a armadura que o garoto vestiu desde que perdeu a mãe. (SPOILER – não leia… bem, você já sabe). Finalmente, o próprio Christian, tão cheio de razão, percebe que não importa toda a lógica ou senso de “justiça” torto do mundo: a violência nunca dará bons frutos. Quando ele percebe o peso de seus atos, apenas um gesto de perdão pode redimir a todos.

Agora, voltando a um lugar-comum que me irritou um pouco: fica evidente, logo pelas primeiras cenas do filme, a preocupação dos realizadores em contrastar a realidade de miséria pura de um país africano com a da fartura de um país desenvolvido. Fazia falta esta simplificação de propósito? Será que em uma África carente não convivem também pessoas que lutam pela paz com aquelas que buscam semear a violência? E o mesmo não pode ser encontrado na Dinamarca? Por que contrastar crianças de extrema carência com aquelas que parecem “ter tudo”. Talvez foi a forma da diretora e do roteirista fazer o espectador refletir que nem tudo é o que parece. Ou que nem tudo é tão óbvio quanto costumamos pensar. Na miséria da África pode existir mais alegria em coisas simples do que na “fácil” Dinamarca para onde Anton volta sempre. Mas há perigo e pessoas dispostas a semear a violência em todas as partes. Parece que a minoria tenta preservar o direito de não reagir a uma agressão na mesma moeda. Mas mesmos estes tem seus momentos de fraqueza.

Sim, Haevnen é um filme sobre realidades conflitantes e que nunca estão alheias a contaminação de princípios. O que torna o filme, até certo ponto, uma produção sem muita esperança, diferente do que o título possa sugerir. O paraíso não está na “miséria e simplicidade” da África. Nem nas ruas bem organizadas da Dinamarca. Talvez a única chance de termos algo parecido com o paraíso esteja nos gestos finais de Anton e Elias, que representam o amor através do perdão. Defender isto é sempre difícil e exige sacrifícios. Mas é possível. Por estas ideias e pela beleza da direção de Susanne Bier, pelas interpretações dos atores principais e pela direção de fotografia de Morten Soborg o filme, no fim das contas, possa merecer a nossa atenção. Apesar da preguiça que ele desperta, muitas vezes, das simplificações, estigmas e lugares-comum da história.

NOTA: 8.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Haevnen não é um grande papa-prêmios. Pelo contrário. Ele ganhou apenas as duas premiações mais badaladas de Hollywood: o Globo de Ouro e o Oscar deste ano como Melhor Filme Estrangeiro. E só. Pouco para um filme ser consagrado. E cá entre nós, acho que foi bastante, para a qualidade da produção. Gosto da diretora Susanne Bier, mas acho que precisamos ter um ano muito fraco de candidatos para Haevnen ser considerada a melhor produção do ano. Dos outros concorrentes do Oscar deste ano, assisti apenas ao grego Kynodontas e, francamente, achei este último, pelo menos, mais original. E impactante. Se boas intenções ganhassem o Oscar, certamente Haevnen foi o merecedor. Mas se for avaliada a originalidade, Kynodontas merecia mais. Só depois de assistir aos outros três é que poderei dizer, com todas as letras, se houve alguma injustiça este ano.

O elenco de Haevnen faz um belo trabalho. Merece uma menção especial os atores Mikael Persbrandt, Markus Rygaard e William Johnk Nielsen – ainda que este último, algumas vezes, cai tanto no estereótipo que chega a cansar. Além dos outros atores citados, vale a pena citar os coadjuvantes Wil Johnson, como o médico Najeeb; e Odiege Matthew como o asqueroso Big Man. Da equipe técnica, além da excelente direção de fotografia de Morten Soborg, merece menção a trilha sonora de Johan Söderqvist e a edição da dupla Pernille Bech Christensen e Morten Egholm. Pena que o ótimo ator Ulrich Thomsen seja disperdiçado na história, aparecendo pouco no filme.

Esta produção foi filmada no Quênia e em quatro cidades dinamarquesas: Faborg, Rudkobing, Svendborg e Tasinge.

Mesmo ganhando o Oscar e o Globo de Ouro, Haevnen teve um desempenho irrisório nas bilheterias dos Estados Unidos. A produção, que estreou no dia 3 de abril, arrecadou pouco mais de US$ 512,4 mil dólares até o dia 8 de maio.

Haevnen ganhou poucos prêmios, mas não foi por falta de participação em festivais. Após estrear na Dinamarca em agosto de 2010, o filme passou por 12 festivais mundo afora, incluindo os do Rio, de São Paulo, o de Sundance e o de Toronto.

Os usuários do site IMDb deram a nota 7,7 para o filme. Os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes ficaram muito perto deste número, dedicando 64 críticas positivas e 22 negativas para a produção, o que lhe garante uma aprovação de 74%.

Agora, um momento de confissão: fiquei muito, mas muito tempo mesmo sem publicar um texto novo aqui no blog. Certo que uma parte da justificativa para isso foi o excesso de trabalho no jornal em que atuo como repórter. Mas outro motivo foi também uma certa “decepção” que tive com este filme. Por gostar da diretora, do roteirista e de alguns dos atores da produção, sou franca em dizer que eu esperava mais. E também por ele ter ganho o Oscar. Achei o resultado final muito fraco perto do potencial dos realizadores. E daí me deu um certo “desânimo” em escrever a respeito, nas poucas vezes que tive oportunidade desde o Oscar. Fui adiando, adiando, até que resolvi me “livrar” logo do texto para, finalmente, me lançar em outros filmes. Melhores, piores, só o tempo dirá. Obrigada aos que tiveram paciência de esperar e espero, sinceramente, que textos melhores venham por aí. 🙂

Uma curiosidade sobre o filme: o texto que Christian lê no funeral da mãe é de Hans Christian Andersen, The Nightingale.

CONCLUSÃO: A embalagem é bonita, mas o conteúdo, muito manjado. Haevnen tem um ótima direção de fotografia e boas intenções, mas patina em lugares-comum e na simplificação da dualidade. É realmente necessário comparar um acampamento de refugiados em permanente tensão na África com o ambiente escolar conflituoso de uma cidade na Dinamarca? O único ponto interessante na aproximação destes extremos, para mim, foi a reflexão “ligeira” sobre os contrastes do mundo que podem ser vivenciados por um mesmo indivíduo, personificado pelo médico Anton (Mikael Persbrandt). Através dele, percebemos como a globalização pode aproximar mundos tão díspares e, sem planejar muito, ensinar princípios de humildade, igualdade e de combate à violência para jovens de partes muito diferentes do globo. Esta é a mensagem bacana e necessária do filme. Mas a forma com que estes conceitos são apresentados chegam a cansar, pela previsibilidade do roteiro e a sua simplificação extrema. Nem todos são vítimas na África e nem todos os órfãos de mãe revoltados podem assumir toda a culpa de uma lógica violenta em uma sociedade em que existe fartura. O mundo e as pessoas são mais complexos do que isto. Mas nada, em parte alguma, pode ser tão complicado que não haja solução. E ela reside, sempre, no olhar atento e afetuoso para o outro, na decisão pela não-violência, no amor e no perdão. Talvez por esta mensagem de um paraíso possível, ainda que difícil de alcançar, o filme valha.