Amy

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Você já conhece essa história. Mas, provavelmente, não ela completa. E, com toda a certeza, não sob essa mesma ótica. Amy conta boa parte da trajetória de uma artista única e diferenciada que teve pouco tempo para mostrar todo o seu talento. Destruída por diversos fatores, todos eles muito bem explicados neste filme, Amy Winehouse é mais um exemplo de como a fama pode tornar uma trajetória complicada em um fim trágico se junto com a pressão não existe o apoio necessário para equilibrar o ônus do sucesso. Uma lição sobre o nosso tempo.

A HISTÓRIA: Começa com um vídeo caseiro feito por Lauren Gilbert no final de sua festa de aniversário em 1998 em Southgate, na região Norte de Londres. Ela mostra os últimos amigos que ficaram na festa: Alex Steele, Juliette Ashby e Amy Winehouse. Nos últimos segundos do vídeo, Amy solta a voz ao cantar uma parte da música Parabéns para Você. Corta. Aparecem algumas fotos da artista e, em seguida ela comentando que começou em uma bandinha de jazz. Fala sobre a sua paixão para o gênero e sobre os seus ídolos. Este filme conta a trajetória de Amy Winehouse desde o princípio, quando ela foi incentivada pelo amigo Nick Shymansky a mostrar o que ela sabia fazer, passando pela gravação do primeiro disco, a fama e o final trágico da artista.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Amy): Lembro bem quando a Amy Winehouse morreu. Eu conhecia a música dela – e quem não? -, mas não era uma fã desde o início. Descobri ela um pouco tarde, inclusive – como a maior parte do público brasileiro, acredito. Bueno, quando ela morreu, todos já sabiam que ela um bocado “instável” e que era chegada na parte “drugs” da alquimia que normalmente cerca os artistas de sucesso.

Bem, esse é uma pequena parte da história. Como este filme dirigido por Asif Kapadia mostra bem, Amy Winehouse era bem mais que uma garota “instável” e que gostava de beber e de algumas vezes se drogar. Ela não era a “loucona” que parte do público pensava. Na verdade, ao assistir este filme, me lembrei bastante de Kurt Cobain. Me parece que os dois tinham em comum uma grande sensibilidade, problemas históricos da vida mal resolvidos e uma grande dificuldade de lidar com a fama e com toda a bobajada que advém dela desde que inventaram os paparazzi – e, antes deles, esta ânsia que uma fatia do público tem por cada milímetro de vida de seu “ídolo”.

O filme de Kapadia acerta na aposta de uma narrativa quase toda linear. Assim, partimos do momento em que Amy ainda não é conhecida, é apenas uma adolescente com talento em 1998 na casa de uma amiga, até a artista que grava o seu primeiro CD, estoura rapidamente e começa a ser cobrada para ser genial sempre. Um dos pontos mais interessantes do filme, para mim, foi a forma com que ele conta essa história.

Em momento algum a narrativa para, dando uma pausa nos vídeos caseiros, para entrar naquelas clássicas cenas de personagens importantes dando depoimentos para a câmera sobre a biografada. Não. O diretor utiliza vídeos caseiros, montagem de fotos, imagens dos locais aonde a história se passa, anotações de cadernos da artista, cenas de shows e de entrevistas que ela deu na TV para costurar toda a história. Os depoimentos estão lá, mas a exemplo das músicas de Amy eles aparecem como pano de fundo para contextualizar o que está sendo mostrado.

Francamente, achei brilhante. Desta forma a narrativa tem um ritmo adequado e sem quebras. A história flui o tempo inteiro e com contextualização e propriedade. Enquanto obra de cinema, é um trabalho irretocável. Além disso, achei interessante como Kapadia valoriza um dos pontos fortes da artista: as suas letras diferenciadas e bem pessoais. Em muitos momentos em que a música de Amy entra em cena, as letras são destacadas nas imagens de Kapadia. Bacana.

Este filme é, claramente, uma homenagem para Amy. Além de ser uma reflexão sobre o nosso tempo e os valores da nossa sociedade. O diretor não perde tempo. Ele rapidamente pula daquele vídeo caseiro de 1998 para janeiro de 2001, quando Amy aparece ao lado de Tyler James e de Nick Shymansky em um carro. Shymansky era amigo dela e um caçador de talentos do Nick Fuller. É ele que incentiva ela a mostrar o seu talento e é assim que ela assina o primeiro contrato e produz o primeiro disco.

A carreira dela foi meteórica. Em 2003 e 2004 ela começou a estourar, aparecendo em rádios e na TV. Em julho de 2004 ela ganha o primeiro prêmio no The Ivors. Pouco a pouco ela vai aparecendo mais. Neste início, em uma das entrevistas, ela diz que não queria fama e que não poderia suportar a fama. Ela estava certa. Realmente não aguentou o tranco, até porque ela tinha outros problemas “em casa” para resolver. E daí vem todo o contexto que o diretor Kapadia consegue nos apresentar.

Ele dá voz para todos os envolvidos na trajetória de Amy Winehouse, incluindo o pai e a mãe dela. Em alguns momentos do filme o diretor se dá ao direito de inserir vídeos caseiros mais antigos, como quando conta sobre a traição do pai dela e a separação dele da mãe de Amy quando ela era criança. Isso ele mostra na parte inicial da história para ajudar a contar um pouco da fragilidade e do “gênio” da artista.

Com a contextualização de Amy fica mais fácil entender as circunstâncias que cercaram algumas de suas principais músicas. É de arrepiar. Mesmo dando voz para todos os personagens, alguns fatos ficam evidentes. Por exemplo, depois que ela é largada por Blake Fielder, em 2005, que resolveu voltar para a namorada e deixar Amy, ela mergulha nas bebidas de forma agressiva e para na sarjeta. Alguns amigos dela resolvem intervir e recomendam que ela seja tratada, mas o pai dela não apoia essa ideia.

Mitch Winehouse parece claramente mais preocupado com a carreira e com a fama da filha do que com a saúde dela. Isso fica mais evidente depois, em outra sequência do filme na qual ele leva uma equipe de filmagens para a ilha aonde a filha tenta ter um pouco de privacidade. Aparentemente ele não está realmente preocupado com a filha, mas com ele próprio e com o dinheiro que ela pode ganhar.

O filme mostra isso com clareza e isso dói. Pensar que ela só precisava de cuidado e de alguém que ajudasse ela a fazer as escolhas certas e que ela não teve isso dos pais dela é triste. Enfim, os amigos dela resolvem intervir em novembro de 2005. Como o excelentíssimo senhor Mitch Winehouse acha que a filha não precisa de ajuda, no mês seguinte ela já está trabalhando no novo disco – esse que levaria ela a ganhar Grammy’s e a se tornar uma celebridade mundial. A partir daí, todos sabemos, foi só ladeira para baixo e tudo piorou.

Nesta parte, digamos, que eu passei a acompanhar a carreira dela. Um pouco tarde, verdade, inclusive para saber um pouco melhor sobre a história da artista. Por isso mesmo Amy surge para reparar esta visão distorcida que muitas pessoas poderiam ter dela. A garota era divertida, linda, sensível e muito simples, apesar de muito talentosa, mas foi jogada na cova dos leões da fama para ser trucidade. E sem apoio de quem ela mais confiava. Triste.

Aliás, Amy passou por aquela conjunção de fatores propícios para a desgraça. Primeiro, ela teve uma situação familiar nunca bem resolvida – o pai dela era o babaca que traiu a mãe, saiu de casa quando ela criança e que passou a ser sempre o “oráculo” dela sem ter moral para isso. A mãe, mesmo sabendo da bulimia da filha, não identificou que esse era um problema que precisava ser tratado. Quando ela gravou o primeiro disco e passou a morar sozinha, ela teve uma liberdade que antes não tinha e não soube frear os próprios impulsos.

Além disso, ela teve algumas perdas importantes e que abalaram as suas estruturas. Primeiro, o babaca do Blake Fielder, que tinha uma namorada e que ficou com Amy por um tempo, até terminar com ela e levá-la a primeira grande crise com as bebidas. Depois, a morte da avó dela, que ajudou a criá-la. Finalmente, depois que ela atinge um sucesso global, o mesmo babaca do Blake Fielder volta para ela – com certeza querendo surfar nos holofotes. Ele é o amor bandido, aquela desgraça que não ajuda ela a ser melhor, mas a afundá-la até o limite do impossível.

Claro, ela não tinha força para resistir àquilo e nem para escolher o que era melhor para ela. Chega a ser chocante ver as imagens dela antes do sucesso, com um corpo normal, e bem depois, quando ela já estourou com o disco Back to Black e se casa com Blake Fielder. Incrível. O marido dela coloca drogas mais pesadas na vida de Amy e ela só afunda cada vez mais. Com o problema da bulimia, aliado às drogas e ao álcool, a receita era de uma tragédia.

A bola estava cantada. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Os amigos mais chegados de Amy acabam desaparecendo de cena porque não aguentam ver ela tão mal. Os pais dela, aparentemente, não conseguem fazer nada para ajudá-la a tempo. Ela fica com Blake Fielder em abril de 2007 e em julho ela não consegue se apresentar direito em um show. A reação dela no palco é chocante, claramente de alguém que está viciada em crack. Depois, vendo uma entrevista dela desconexa, o espectar lembra das entrevistas dela em 2003 e 2004. Quanta diferença!

Mas não foram um ou dois avisos, foram vários. Especialmente chocante quando ela tem uma overdose, em 2007, quase morre, e ao invés de passar um tempo internada e passar por um tratamento, o pai dela chega a cogitar dela fazer uma turnê nos Estados Unidos. Ela acaba não indo, mas faz o tratamento junto com Blake Fielder que, claramente, não estava com vontade de parar com as drogas e parecia não se importar com o que poderia acontecer com a Amy. Blake Fielder era um babaca, e isso fica evidente em um vídeo que ele faz de Amy na reabilitação na Ilha Osea tirando sarro dela.

Mesmo depois, quando Blake Fielder não faz mais parte da vida dela, o estrago já foi feito. Ela não consegue voltar a ter saúde a tempo. E o final todos nós conhecemos. Uma pessoa frágil, talentosa, com muitos problemas na vida pessoal e que não teve as pessoas certas ao lado dela para ajudá-la a seguir em frente. Em determinado momento Tonny Bennet comenta que se pudesse falar para ela algo a tempo, diria para ela esperar, porque a vida nos ensina, com o tempo, a vivê-la. Ou seja, a aguentar as merdas que existem e que acontecem e a seguir em frente fazendo o nosso melhor. Infelizmente ela não teve tempo para isso.

Muito bem construído, este filme faz uma boa reflexão sobre pessoas talentosas e abandonadas como ela. De quebra, reflete sobre a crueldade do nosso tempo, quando as pessoas preferem julgar do que ajudar. Amy Winehouse e Kurt Cobain são vítimas destas situações. Talentos únicos e que tiveram uma carreira meteórica e trágica. Deveríamos refletir e aprender algo sobre isso. Tenho esperança que isso possa acontecer, especialmente se mais gente assistir a Amy. O filme deixa um gosto amargo, mas espero que seja para o bem e que possa mover algumas rodas para o lado correto desta vez. Apenas para variar.

NOTA: 9,6.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Belo trabalho do senhor Asif Kapadia na direção. Ele acerta nas escolhas e consegue dar o ritmo certo para o filme, que vai crescendo pouco a pouco e com a contextualização adequada. Como eu disse antes, ele acerta ao não colocar as pessoas para darem aqueles depoimentos clássicos para as câmeras e que, no fim das contas, apenas quebram o ritmo da narrativa. O inglês Kapadia tem 15 filmes no currículo como diretor. Entre outros ele dirigiu as ficções The Warrior e The Return e o documentário Senna. Não assisti a nenhum outro filme dele, mas fiquei curiosa para conferir o seu trabalho. Especialmente ao filme do Senna.

Essa produção tem diversos acertos técnicos. Para começar, a ótima edição de Chris King e a trilha sonora acertada e geralmente discreta de Antonio Pinto. Em alguns momentos o compositor coloca um estilo de suspense na produção. Ajuda a contar a história, sem dúvida.

Gostei, em especial, quando ele coloca programas de TV tirando “sarro” de Amy Winehouse. Na sequência, aparecem fotos dela visivelmente destruída fisicamente. Lembro bem que muita gente fazia piada sobre a “loucuragem” da Amy antes dela morrer. Realmente algo que deveria fazer as pessoas pensarem – quem sabe Amy ajude nisso?

Amy estreou no Festival de Cinema de Cannes em maio de 2015. Depois o filme participaria, ainda, de outros 11 festivais de cinema. Nesta trajetória a produção colecionou 31 prêmios e foi indicado a outros 37, incluindo a indicação a Melhor Documentário no Oscar 2016. Entre os prêmios que recebeu, destaque para o National Board of Review como o Melhor Documentário do ano e para outros 25 prêmios como Melhor Documentário. Bela trajetória até aqui.

Este documentário faturou, apenas nos Estados Unidos, pouco mais de US$ 8,4 milhões. É uma boa bilheteria para um documentário, tipo de produção que atrai a um público mais limitado, mas o filme tem potencial para fazer muito mais ainda.

Além das cenas históricas gravadas por diferentes fontes, estilos e momentos, o filme teve cenas rodadas em Camden, em Londres, e em outras partes da cidade.

Agora, algumas curiosidades sobre a produção: Amy inicialmente foi apoiado pela família de Amy Winehouse, especialmente após o diretor ter conseguido sucesso com o filme Senna. A família da artista cedeu diversas horas de filmagens do arquivo pessoal deles e de Amy e também concordou em dar entrevista para Asif Kapadia. Mas aos poucos a família, em especial Mitch Winehouse, percebeu que o filme não traria uma imagem muito positiva dele e trataria bastante dos aspectos “negativos” da trajetória da artista.

O (não darei um nome para ele, mas vocês podem imaginar do que eu gostaria de xingá-lo) Mitch Winehouse “recomendou” que os fãs prestem atenção nas cenas raras e inéditas do arquivo pessoal de Amy mas que não levem em conta o “retrato geral” que o filme faz dela porque, segundo ele, este retrato é “absurdo”. Mesmo depois que o filme foi indicado ao Oscar, Mitch Winehouse escreveu no Twitter que “Ainda odeio o filme apesar de tudo”.

Os usuários do site IMDb deram a nota 7,9 para esta produção. Achei uma boa avaliação, mas acho que o filme merecia mais. Talvez não tenha conseguido porque ele incomode tanto ao mexer em diversas feridas. Os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 163 críticas positivas e apenas seis negativas para a produção, o que lhe garantiu 96% de aprovação e uma nota média de 8,5. Este nível de avaliação sim eu achei mais ajustado.

Esta é uma coprodução dos Estados Unidos e do Reino Unido.

CONCLUSÃO: Todos sabem como a história de Amy Winehouse terminou, mas pouco conhecem os destalhes da trajetória dela até chegar naquele momento. A artista talentosa e “louca” é de domínio público, praticamente, mas as outras facetas dela nem tanto. Este filme tem o grande mérito de mostrar a artista antes da fama e, principalmente, os bastidores de tudo que aconteceu com ela desde o momento em que ela foi descoberta e até quando ela precisava de ajuda e ninguém estava lá para realmente fazer diferença na vida dela para o bem.

Francamente, achei um filme bem feito, mas difícil de ser assistido pela mensagem que ele nos deixa. Fiquei triste depois de terminar de ver a Amy. Um grande talento que não precisava ter ido embora tão cedo se houvesse alguém perto que pudesse ter ajudado ela antes – inclusive da fama. Mais uma história de sucesso que consome uma pessoa sensível. Filme interessante, bem construído e com algumas ideias diferentes de produções do gênero. Vale conferir.

PALPITE PARA O OSCAR 2016: Até o início de janeiro, parecia que o filme The Look of Silence era o favoritíssimo na categoria Melhor Documentário no prêmio da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood. Mas nas últimas semanas Amy ganhou prêmios importantes. Por isso, parece, a decisão está entre estas duas produções. Difícil escolher entre uma delas, porque a proposta, a forma e a mensagem de cada um dos filmes são bem diferentes umas das outras.

Amy é um filme importante como documento e como reflexão sobre o que a cultura atual faz com grandes artistas. E de como é importante uma pessoa preparar-se e estar bem apoiada para enfrentar a fama. Essa mesma história é a de vários outros artistas. Além disso, esse é um filme que faz um tributo muito correto para uma artista que morreu muito jovem e de forma brutal. Não é um filme fácil por isso, mas ele garante boa música para os ouvidos. The Look of Silence (comentado aqui) é um documentário muito importante e que também faz pensar sobre uma realidade absurda.

Francamente, pelo meu gosto pessoal, prefiro a coragem e a importância social e política de The Look of Silence, além da reflexão que ele provoca. Percebemos como o mundo funciona e como absurdos acontecem com a conivência de diversas nações. Além disso, o filme faz pensar sobre o perdão e a capacidade das pessoas viverem com os próprios absurdos que elas provocaram. Ainda que eu ame música e seja bacana ver a história de uma artista consumida pelo estilo de sociedade egocêntrica e consumista atual, prefiro ainda ao debate e reflexão provocados por The Look of Silence. Ainda assim, acho que os dois tem chances de levar a estatueta. Logo mais veremos quem leva a melhor.

The Look of Silence – O Peso do Silêncio

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Esta é a segunda parte de um olhar diferenciado para o extermínio de pessoas que eram contrárias ao sistema na Indonésia quando o golpe militar tomou conta do país há 50 anos. Em 2012 o diretor Joshua Oppenheimer lançou The Act of Killing (comentado aqui no blog), um filme um tanto estarrecedor porque ele mostrava alguns dos artífices da matança “interpretando” com certo orgulho os seus “feitos”. Agora, com The Look of Silence, o diretor assume outra ótica: a das vítimas. Para mim, um filme que faz muito mais sentido que o seu antecessor. Produção forte e com momentos muito marcantes.

A HISTÓRIA: Começa com Inong sendo testado para que Adi Rukun faça um óculos para ele. Em seguida, alguns casulos aparecem se mexendo antes que nasçam as borboletas. Adi Rukun assiste a um vídeo em que um dos responsáveis pela morte de muitas pessoas após o golpe militar aparece cantando. Em seguida, o diretor Joshua Oppenheimer pergunta para o senhor que aparece no vídeo como Ali Sumito foi morto. O homem conta, dando risadas, como matou a sua vítima enquanto os seus homens tinham “medo de sangue”. Em seguida ele conta como matou outro homem. Adi Rukun assiste a tudo em silêncio. À noite, vemos caminhões trafegando na estrada.

Na contextualização do filme, sabemos que em 1965 o governo da Indonésia foi derrubado pelos militares. E que todos os que se opunham ao novo regime foram considerados “comunistas”, o que incluía membros de sindicatos, agricultores sem terra e intelectuais. Em menos de um ano, cerca de 1 milhão de “comunistas” foram mortos – e os responsáveis por estes crimes seguem no poder no país. Este filme conta a história do irmão de uma destas vítimas buscando respostas dos responsáveis por este e outros crimes.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a The Look of Silence): Este é o primeiro dos cinco filmes indicados na categoria Melhor Documentário no Oscar 2016 que eu assisto. Antes de começar a ver The Look of Silence, francamente, eu não sabia que se tratava do segundo filme da série do diretor Joshua Oppenheimer que busca contar a história real por trás da “luta contra os comunistas” desenfreada na Indonésia há 50 anos.

O filme anterior, The Act of Killing, acertou ao explorar a história de algozes como Anwar Congo e Herman Koto, mas a mistura entre realidade e encenação dos episódios dantescos acaba tirando um pouco da força da produção. Ela acabou ficando “alegórica” demais para o meu gosto. Este The Look of Silence, por outro lado, é realidade pura. Boa parte do filme conta a história da família de Ramli Rukun, um dos “comunistas” cruelmente mortos por aquela onda de violência que assolou o país em 1965.

Quando o diretor está focado na família Rukun, percebemos não apenas a condição social dos pais de Ramli e Adi, mas também o sentimento da mãe do rapaz brutalmente assassinado. Diferente do marido, que está cego, tem pouca audição e pouca capacidade de locomoção, a mãe dos rapazes está muito lúcida e consciente. Ela tem uma memória vívida de tudo que aconteceu. Ela ajuda a colocar bastante humanidade na história, assim como o filho dela, Adi Rukun, que acaba sendo praticamente o narrador do filme.

Acompanhamos os passos de Adi em busca da verdade e da reparação. Ele quer ouvir da boca dos homens que participaram diretamente da morte de tantas pessoas o que eles fizeram, como fizeram e, principalmente, porque fizeram tudo aquilo. De forma muito natural o espectador se coloca no lugar de Adi. Ele é os nossos olhos e conseguimos nos colocar no lugar dele. A perplexidade que vemos nele é também a nossa.

A brutalidade do que aconteceu na Indonésia após o golpe militar já tinha sido explorada no filme anterior de Oppenheimer, mas nesta nova produção o contexto daqueles fatos fica muito melhor explicado. Em The Look of Silence fica evidente que alguns grupos da população foram usados pelo Exército para fazer o “trabalho sujo” e matar os “insatisfeitos” ou todos aqueles que pudessem apresentar o mínimo risco para o novo regime.

Usaram esses grupos para aparentar que o levante era “popular”, ou o que muitas vezes ouvimos falar como “guerra civil”. A partir de agora, toda vez que eu ouvir que um determinado país vive “disputas internas” ou uma “guerra civil”, vou desconfiar. Normalmente o próprio governo e outras forças com interesse no país – incluindo grandes nações, como os Estados Unidos – é que “financiam” estes confrontos e o extermínio de grupos inteiros de pessoas.

Claro que estas pessoas que aceitam fazer o “trabalho sujo” ganham “recompensas” e vantagens por terem se sujado no sangue de pessoas que não tiveram julgamento ou direito de defesa. Como o filme anterior comentava e este deixa ainda mais claro, estas pessoas ganharam poder e dinheiro. Muitos se tornaram políticos e seguem no poder até agora.

Entre as pessoas que Adi Rukun procura a pedido do diretor para tirar as suas dúvidas um dos que mais me surpreendeu foi justamente M.Y. Basrun, presidente do legislativo regional atualmente e antigo chefe do Komando Aksi, responsável pelas mortes no vilarejo da família Rukun. Ele vive em uma realidade paralela, jurando que os massacres ocorreram por desejo do povo e que ele está no poder pela mesma razão e não porque aterroriza as pessoas.

No final, contudo, ele deixa claro que se Adi não mudar de postura e se as pessoas voltarem a serem “comunistas” (leia-se contra o poder estabelecido), os massacres vão voltar a acontecer. Alguém precisa de uma ameaça mais clara? Aquele insano que está no poder ameaçou, na cara dura e na frente das câmeras, Adi e, por tabela, qualquer outra pessoa que visse aquele material e que pudesse ter qualquer ideia de abrir a boca e não seguir em silêncio.

A única manifestação mais humana entre as pessoas que são questionadas por Adi Rukun acaba sendo da filha de um dos responsáveis pela matança. Enquanto o pai dela fala com muita naturalidade das mortes que ele causou e de que ele bebia sangue humano para não enlouquecer – o que Inong já havia comentado antes também -, a mulher ao lado dele está visivelmente incomodada. Adi nota isso e pergunta para ela porque ela está daquele jeito. Ela é franca em dizer que não sabia nada daquilo e, no final, pede desculpas para Adi do que o pai dela fez. Mas o pai, propriamente, não esboçou arrependimento.

Aliás, o que parece comum entre todos aqueles homens é que eles parecem ter perdido as suas almas. Não parece que eles sejam capazes de sentir nada ou ter um pingo de consciência. Chega a ser incrível. Os militares que tomaram o poder naquele país, sem dúvida, conseguiram localizar e manipular as pessoas “certas” para o serviço que eles queriam que fosse feito. Algo que impressiona no filme é isso, como os homens que praticaram aquelas atrocidades não tem remorso. E seguem justificando o que fizeram.

A exemplo de filmes recentes que tratam dos alemães na Segunda Guerra Mundial, nesta produção também fica claro que eles tentam justificar os seus atos e não se sentem responsáveis pelas mortes – afinal, eles “seguiram ordens” ou fizeram o que todos “os homens de bem faziam”. Como se cada um não tivesse a capacidade de escolher entre fazer parte do absurdo ou não.

Entre as justificativas ridículas para aquelas mortes em massa, em mais de uma ocasião neste filme vemos a questão religiosa. Ah, os comunistas “não rezavam” ou não acreditavam em Deus. E desde quando isso é justificativa para matar alguém? Eles serem adúlteros é outra desculpa. Outro argumento falso. Ninguém tem o direito de tirar a vida de ninguém e muito menos por causa de religião, fé ou comportamento que uma pessoa ou um grupo considera reprovável.

Daí vem a beleza da família de Rukun. Eles não querem a vingança. A matriarca confia na justiça divina, que os assassinos vão pagar nesta vida ou depois. Adi simplesmente quer enfrentar os algozes e saber se eles tem um pingo de remorso, mas ele não tem o afã de dar o troco. Eles estão certos. E o filme de Oppenheimer acerta ao questionar como a maioria, que é composta pelos familiares das vítimas, pode ainda permitir que os vilões sigam no poder. Claro que eles tem medo e são coagidos, como bem comprova a fala de M.Y. Basrun. E por isso é importante uma figura como Adi e o diretor Oppenheimer. Eles querem que a verdade venha a tona e não seja esquecida.

Um país que não fala de seus próprios problemas e do passado repressivo só pode seguir sendo perseguido pelos fantasmas do passado. Não tem como evoluir. A Alemanha conseguiu, a duras penas, colocar o tema do nazismo nos holofotes uma e outra vez. Infelizmente na Indonésia os algozes ainda estão no poder e não há liberdade para questioná-los.

Espero que, um dia, a situação daquele país mude para melhor. Para isso, como na questão dos imigrantes que estão fugindo do Oriente Médio, acredito que as nações “desenvolvidas” deveriam ser envolvidas. Interferirem, inclusive, garantindo eleições livres no país. Ajudando a conter os abusos e incentivando a liberdade de imprensa, por exemplo. Quando as nações “mais poderosas” do mundo se furtam de opinar em assuntos importantes em alguns países, menos nos menos “importantes” ou não tão “interessantes” economicamente, as tragédias acontecem. E esses países não deixam de ter responsabilidade sobre isso. Muito pelo contrário.

Por tudo isso The Look of Silence é um filme importante e necessário. Primeiro, por evidenciar, mais uma vez, os absurdos que aconteceram na Indonésia com a conivência do mundo. Depois, por mostrar que a falta de memória é um problema que deve ser enfrentado por muitos países – como antes aconteceu com a Alemanha do pós-guerra. E, finalmente, por nos ensinar que os familiares das vítimas devem ter a coragem de enfrentar os seus algozes, mesmo que isso seja muito difícil, porque ninguém deve ter medo da verdade ou de cair no equívoco da vingança.

NOTA: 9,8.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Alguns podem estranhar o “envolvimento” do diretor Joshua Oppenheimer neste documentário. Ora, meus caros, não existe documentário sem um envolvimento direto e decisivo de seu diretor. Ele coloca Adi Rukun em situações complexas, é verdade, mas certamente este era o desejo do irmão de Ramli. Ele queria ouvir aquelas pessoas e saber se existia alguma chance de redenção para aquela história lamentável.

Em muitas outras situações o diretor de um documentário também expõe a sua equipe ou algum entrevistado a riscos. Mas admito que algumas vezes achei que ele pode ter exagerado um pouco na ousadia, desta vez. Afinal, quem garante que a família de Rukun não será hostilizada após aquelas filmagens? Isso foi algo que me incomodou um pouco. Ainda que o filme seja necessário e que os envolvidos tenham sido corajosos, me preocupei por Adi e seus pais.

Pensando em alguns trechos do filme, volta e meia os entrevistados que estavam sendo confrontados por um familiar de uma vítima – o que é algo muito diferente de ser “entrevistado” por um diretor de cinema que não tinha nada a ver com aquela realidade – procuram escapar das perguntas dizendo que Adi estava falando de política e que eles não tratavam deste assunto. Ora, eis outro momento de reflexão.

Tudo é política, meus caros. E quando pessoas como aquelas ou como tantas outras no Brasil querem que cada um de nós odeie a política é porque, no fim das contas, eles querem dominar a sociedade e fazerem o que bem entenderem – de roubalheira até extermínios. Tome cuidado cada vez que alguém tente te persuadir a não falar de política. Temos que falar disso se não quisermos viver em uma realidade ilusória e passível de manipulação. Mas para os algozes de Ramli e de tantos outros bastava dizer que não queriam falar de política para isso parecer lógico. Não é.

Achei muito interessante o trabalho do diretor Joshua Oppenheimer. Ele utiliza imagens atuais que mostram como vivem e o que sentem os familiares de uma das vítimas do extermínio na Indonésia ao mesmo tempo que resgata filmagens que ele fez há mais de 10 anos com depoimentos dos responsáveis dos assassinatos em massa. Interessante ver o depoimento deles de antes, quando era um diretor estrangeiro que estava interessado na história de “heroísmo” deles, e agora, quando o irmão de uma das vítimas lhes faz perguntas contundentes. São reações diferentes que, por si só, falam muito sobre aquelas pessoas, a sociedade em que elas vivem e sobre o próprio ofício de um documentarista. Muito interessante.

Oppenheimer faz um belo trabalho. Cuidado nos detalhes e na narrativa, privilegiando o foco na família Rukun e nos outros personagens importantes para a história. Desta forma, ele ajudou não apenas a retomar fatos históricos importantes para o país, mas também a mostrar como está a Indonésia hoje em dia – pelo menos parte do país, em um vilarejo do interior. No início parece que Adi Rukun tem um pouco de medo de fazer as perguntas mais duras, mas aos poucos ele vai ganhando confiança em enfrentar aqueles homens, especialmente Amir Siahaan, comandante dos esquadrões da morte no Rio das Cobras e que enriqueceu com o que fez, e M.Y. Basrun, presidente do legislativo regional.

Esta produção tem cenas muito fortes. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Por exemplo, quando Amir Hasan e Inong falam das mortes no Rio das Cobras e contam, em detalhes, como eles mataram Ramli Rukun. O irmão dele assiste a tudo em silêncio. Não é nada fácil acompanhar ele nessa missão. Mas se para o espectador não é simples, imagine para ele. Ainda que Adi tenha nascido depois da morte de Ramli e não tenha conhecido pessoalmente o irmão, certamente a dor dele é grande ao ouvir tudo aquilo e contado daquela forma tranquila e até com os narradores se “divertindo” com os detalhes do que contavam.

Além dos personagens já citados, vale destacar as cenas em que aparece Amir Hasan, líder do esquadrão da morte que já morreu – apenas a viúva e dois filhos deles são “confrontados” por Adi; e aquelas em que Kemat, um raro sobrevivente dos assassinatos em série, aparece.

Me chamou a atenção, nos créditos finais do filme, a lista enorme de “anônimos” que foram responsáveis por diferentes funções nesta produção. Certamente os nomes deles foram suprimidos para que eles não sejam colocados em risco na Indonésia. Impressionante como há países em pleno 2016 que não permitem que as pessoas se expressem e trabalhem para contar histórias como esta, que precisam ser contadas.

The Look of Silence estreou em agosto de 2014 no Festival de Cinema de Veneza. Depois o filme passaria, ainda, por outros 55 festivais. Um número impressionante e uma jornada igualmente incrível. Nesta trajetória a produção ganhou 40 prêmios e foi indicada a outros 36, inclusive uma indicação ao Oscar.

Entre os prêmios que recebeu, destaque para 16 prêmios como Melhor Documentário; cinco prêmios no Festival de Cinema de Veneza; prêmio de Melhor Filme conferido pela Associação Internacional de Documentários; dois prêmios como Melhor Filme Estrangeiro; e para o Peace Film Award entregue para Joshua Oppenheimer no Festival Internacional de Cinema de Berlim.

Entre os nomes conhecidos da produção, destaco pelo bom trabalho o diretor de fotografia Lars Skree e o editor Nils Pagh Andersen. Também muito importante o trabalho do departamento de som com Henrik Garnov e Martin Lind.

The Look of Silence faturou pouco mais de US$ 109 mil nas bilheterias dos Estados Unidos. Uma cifra ínfima. Espero que mais gente acorde para este filme e o assista. Ele merece.

Agora, algumas curiosidades sobre o filme. Ao ler as notas de produção é que fiquei sabendo que The Look of Silence foi concedido, desde o princípio, como a segunda parte de um projeto dividido em dois filmes. O primeiro, como vocês já sabem, foi The Act of Killing. Bacana o diretor ter pensado neste projeto desta forma. Inteligente.

E uma boa notícia. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Depois desta produção ser gravada, Adi e a família dele se mudaram para o outro lado do país, a milhares de quilômetros de distância dos homens que promoveram o extermínio das pessoas no Norte de Sumatra.

De acordo com o diretor Joshua Oppenheimer, foi Adi que o obrigou a ver os perpetuadores daqueles crimes como seres humanos.

Oppenheimer deu uma câmera para Adi registrar cenas ou memórias que pudessem ser usadas na narrativa do filme. A sequência em que o pai de Adi aparece perdido foi gravada por ele.

De acordo com o diretor, este filme foi exibido em pouco mais de 3.500 ocasiões e teria sido visto por cerca de 300 mil pessoas na Indonésia. Bacana isso. Quem sabe, desta forma, através de um filme como esse, a realidade daquele país comece a mudar?

Ainda segundo Oppenheimer, este é o primeiro filme da Indonésia indicado para um Oscar – e o segundo falado em bahasa, idioma do país, que é indicado ao prêmio máximo de Hollywood (o primeiro, claro, foi o outro filme dele, The Act of Killing).

Esta produção foi rodada depois que Oppenheimer havia editado The Act of Killing.

Falando no diretor, este é apenas o quinto título no currículo de Oppenheimer por trás das câmeras. Ele estreou em 1998 com o filme The Entire History of the Louisiana Purchase. Depois ele lançou, em 2003, o documentário em vídeo The Globalisation Tapes. Em 2012 viria o elogiado e premiado The Act of Killing e, na sequência, este The Look of Silence em 2014, quando ele também assinaria um episódio da série de TV de documentários P.O.V. Ou seja, o grande projeto da vida dele, até aqui, foram estes dois filmes sobre a Indonésia e a matança que aconteceu naquele país.

No Oscar de 2014 Oppenheimer perdeu a estatueta dourada para Twenty Feet from Stardom (comentado aqui no blog). Francamente, naquele ano, achei justo. Gostei muito do filme que ganhou a disputa. Por ironia, novamente neste ao o grande rival de Oppenheimer é um filme “musical” sobre Amy Winehouse. Em 2014 eu achei que Twenty Feet from Stardom mereceu. Agora, preciso assistir ainda a Amy para poder comentar. 😉

Os usuários do site IMDb deram a nota 8,4 para esta produção. Uma avaliação muito boa se levarmos em conta o padrão do site. Os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 107 críticas positivas e apenas quatro negativas para este filme, o que lhe garante uma aprovação de 96% e uma nota média de 8,8. A nota dos críticos, em especial, me chamou a atenção. Muito boa.

Este filme contou com recursos de diferentes países para ser realizado. Aparece como coprodução da Dinamarca, Indonésia, Finlândia, Noruega, Reino Unido, Israel, França, Estados Unidos, Alemanha e Holanda. Impressionante. Isso só revela a dificuldade de fazer o filme – e, ouso dizer, de fazer documentários hoje em dia.

CONCLUSÃO: Alguns crápulas se acovardam. Outros conseguem, mesmo frente ao irmão de uma vítima de suas práticas, seguir com o tom ameaçador. A maldade humana em sua pior forma é vista nesta produção porque The Look of Silence não é uma ficção, e sim um documentário. Os absurdos que ouvimos sobre mortes cruéis e covardes aconteceram, de fato. Assumindo a ótica das vítimas, desta vez, o diretor Joshua Oppenheimer nos faz caminhar pela seara do perdão e da reparação – mesmo quando estes conceitos parecem impossíveis.

Um filme que nos faz refletir sobre a evolução das sociedades, a conivência de “economias avançadas” que ignoram absurdos praticados em algumas partes do mundo – e que continuam ocorrendo ainda hoje – e o preço que inocentes pagam por isso. Ao mesmo tempo, esta produção também nos faz refletir sobre a nossa própria capacidade de olhar com honestidade para o passado e promover uma caminhada de reparação e perdão. Produção com diferentes leituras possíveis, mas todas muito importantes e proveitosas. Grande e marcante filme, merece ser conferido.

PALPITES PARA O OSCAR 2016: Até a temporada de premiações pré-Oscar começar, The Look of Silence era o franco favorito para levar a estatueta de Melhor Documentário na maior premiação de Hollywood. Mas nas últimas semanas esse favoritismo começou a diminuir com outro documentário ganhando premiações como o Producers Guild Awards e o Critic’s Choice Awards: Amy.

Como comentei antes, The Look of Silence é apenas o primeiro dos cinco filmes indicados ao Oscar nesta categoria que eu assisto. Então é cedo para dizer se ele merece a estatueta. De qualquer forma, francamente, acho que esta nova produção assinada por Joshua Oppenheimer é muito melhor que a anterior sobre o mesmo tema. Seria interessante ver o diretor, que foi muito corajoso em abordar este assunto, sendo premiado desta vez. Falo isso pela proposta do trabalho dele e, especialmente, pela qualidade deste novo filme. Gabarito ele tem para levar a estatueta para casa. Agora é preciso conferir aos concorrentes para ter certeza se ele conseguirá este feito.

Steve Jobs

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Um personagem de relevância histórica é sempre difícil de retratar em apenas um filme. Basta lembrar de grandes lideranças políticas ou de grandes artistas e os filmes que tentaram contar a suas histórias ou parte delas para ter isto claro. Mas algumas produções conseguem se dar melhor que outras nesta tarefa. Steve Jobs é um destes filmes que fica no meio do caminho. Ele tem qualidades, mas deixa bastante a desejar – especialmente se você conhece um pouco sobre a história do personagem retratado. Francamente, depois de assisti-lo, fico surpresa com as indicações que recebeu para o Oscar. Para mim, não passa de um filme razoável.

A HISTÓRIA: Começa com aquele vídeo histórico com a entrevista que um jornalista da rede ABC fez com o escritor Arthur C. Clarke, de 2001: A Space Odyssey. O jornalista apresenta para o escritor o seu filho Jonathan, comentando que ele será um adulto – a entrevista acontece em 1974 – no ano que o autor projetou em seu livro, e pergunta como será o mundo em 2001. Clarke prevê que todos terão um computador e que as pessoas terão mais liberdade e autonomia por causa disso. Corta.

Passamos para 1984, em Cupertino, na Califórnia, quando Steve Jobs (Michael Fassbender) se prepara para lançar o Macintosh para uma grande e sedenta plateia. Nos bastidores ele discute com Andy Hertzfeld (Michael Stuhlbarg) porque o computador não conseguirá responder “olá” durante a apresentação. A partir deste momento conhecemos mais sobre a personalidade e a vida do homem que transformara a Apple e o consumo de tecnologia no muno.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Steve Jobs): Honestamente, se não fosse pelo Oscar, eu não teria assistido a Steve Jobs. Digo isso porque, como comentei lá no início, sempre acho complicado um filme de duas horas ou pouco mais apresentar um recorte interessante de um personagem histórico interessante e controverso, como é o caso do ícone da informática em questão.

Enfrentei a missão por causa do meu desafio pessoal de assistir ao máximo de filmes que estão concorrendo ao Oscar. Além disso, admito, tinha curiosidade de ver o desempenho de Michael Fassbender e Kate Winslet nesta produção. Afinal, os dois estão sendo volta e meio lembrados em premiações como duas das melhores interpretações de 2015. Não sou uma fanática por Steve Jobs, daquelas que sabe tudo sobre a vida dele. Mas já li um bocado, vi alguns de seus vídeos disponíveis no YouTube – de apresentações de produtos, como o lançamento do iPod e do iPhone, até entrevistas com ele – e, por isso, sei que ele não era um gênio sem problemas.

Muito pelo contrário. Steve Jobs era um visionário com pés, canelas e pernas de barro. Talvez por isso ele chame tanto a atenção. Faz parte da atratividade dele, evidentemente, também ele ter ajudado a mudar uma indústria e a empresa que ele ajudou a fundar e recuperar fazer parte da vida de milhões de pessoas no mundo inteiro. Tivemos vários outros gênios na história da humanidade, muitos deles muito maiores que Steve Jobs – que tal falar de Copérnico, Galileu Galilei, Da Vinci, Darwin e Einstein, só para citar alguns dos óbvios?

Todos viveram em uma época em que não era possível utilizar a mídia global a seu favor e nem promover grandes eventos para o lançamento de suas últimas “descobertas”. Também havia uma capacidade de documentação e registro muito, mas muito menor do que aquela vivida por Steve Jobs. A favor dele, além de uma bela capacidade de persuasão e de convencimento da mídia – falando bem ou mal dele, mas normalmente bem -, havia o fato de tudo poder ser gravado, documentado, transmitido e propagado para milhões como nunca antes na história.

Steve Jobs, o filme, faz um recorte bem pequeno da trajetória de Steve Jobs. O filme vai do lançamento do Macintosh, em 1984, passando pela saída traumática dele da Apple até o retorno do executivo para a companhia para o lançamento do iMac em 1998. Inicialmente, acho estranho contar de forma linear e tão limitada a vida de um personagem como este, tendo a possibilidade de utilizar outros recursos, como flashbacks para contar fatos importantes do passado – esse recurso até é utilizado, mas pouco e de forma muito pontual – e um roteiro e uma edição mais elaborada para contar uma parte maior da vida de Jobs.

Agora, entendo a escolha do roteirista Aaron Sorkin e do diretor Danny Boyle de centrar este filme apenas no período entre 1984 e 1998. Com esta escolha eles tentam resumir este personagem complexo e conturbado em um conceito: um homem brilhante, um tanto cruel, obcecado pelo trabalho e pelos detalhes, frio com a maioria das pessoas mas capaz de mostrar também algum sentimento e, principalmente, obcecado pela Apple e por fazer uma desforra contra todos aqueles que foram contra ele e/ou não entenderam a sua genialidade antes.

O problema é que esta é apenas uma parte da história de Jobs. Verdade que ele era tudo isso, mas ele era também um sujeito muito preocupado com o design e com o “estado de arte” da tecnologia. Ele poderia ser um pouco egocêntrico, mas ele não queria só ser o centro das atenções e retomar o posto que havia perdido na Apple. Ele queria, de fato, comprovar a própria teoria de que as pessoas poderiam ter bons equipamentos, úteis para as suas vidas e que ajudariam a revolucionar o mundo – como previu o Arthur C. Clarke que aparece no vídeo que abre o filme.

Entendo que Sorkin e Boyle escolheram o período citado por mostrar que este gênio da informática teve dois “fracassos” importantes antes de conseguir o primeiro sucesso. Isto é algo fundamental para as pessoas que atuam na área e para a cultura dos Estados Unidos.

Lá, diferente do Brasil, se aceita e até se estimula que um empreender tente e erre antes de simplesmente não tentar. Os fracassos fazem parte do processo. Neste sentido, Steve Jobs acerta ao mostrar como o protagonista desta história se deu mal com o lançamento do Macintosh e, depois, com o lançamento do Cubo da NeXT antes de ter sucesso comercial pela primeira vez.

Mas aí, justamente aí, está um dos grandes problemas deste filme. Algo que me incomodou quando saímos do lançamento do Cubo para “viajarmos” direto no tempo para o lançamento do iMac em 1998. Quem leu a obra de Walter Isaacson, no qual o roteiro de Sorkin teria se baseado ou, como eu, ao menos leu alguns trechos deste livro, sabe que há um capítulo importante neste período temporal de Jobs que fez toda a diferença para a vida dele e para esta história.

Esse capítulo tem a ver com a compra da Pixar por Jobs em 1986. Tudo o que ele fez no estúdio simplesmente é ignorado pelo filme de Sorkin/Boyle. Achei lamentável. Até porque não era difícil falar a respeito – mesmo que a intenção dos realizadores era mostrar sempre os bastidores e momentos de “tensão” que antecederam a algumas de suas famosas apresentações de novos produtos. Além disso, me pareceu exagerada a força que o roteiro fez para mostrar a relação (ou falta dela, em muitos momentos) de Jobs com a filha Lisa (Makenzie Moss quando ela tinha cinco anos, Ripley Sobo quando ela tinha nove e a brasileira Perla Haney-Jardine quando ela tinha 19 anos).

Neste filme percebemos muito o lado perfeccionista e cruel de Steve Jobs, seja no trato dele com a equipe com a qual ele trabalhava e que eram subordinados dele, seja na forma com que ele lidava com a ex-namorada Chrisann Brennan (Katherine Waterston) ou com Lisa. Parece que Sorkin fez questão de mostrar bastante da relação de Jobs com Lisa, em especial, para tentar “humanizá-lo”. Como se o robô fosse, pouco a pouco, se tornando humano. Sabemos que Jobs, de fato, foi com o tempo suavizando um pouco o trato, mas a verdade é que ele nunca deixou de ser perfeccionista e um tanto “babaca” com as demais pessoas.

Isso acontece com muitos de nós, diga-se de passagem. Somos mais diretos, afoitos e temos muita pressa para conquistar o que queremos quando somos muito jovens. Com o tempo, a maturidade nos ensina a desacelerar e a relaxar. Inevitável que isso tivesse acontecido com Jobs. Mas esta reflexão não aparece tanto no filme quanto desejado. Também achei estranho tantas discussões ao estilo “lavar a roupa suja” do protagonista com John Sculley (Jeff Daniels) e Steve Wozniak (Seth Rogen) enquanto o roteiro ignora a Pixar e os outros relacionamentos que Jobs teve na vida – apenas em um breve momento o roteiro cita Joan Baez, mas é só.

Toda obra, e os filmes estão incluídos nesta categoria, defende uma ideia. Isso acontece em Steve Jobs também. Mas a ideia que o filme defende é deficitária. Este é o problema. Esta produção é muito menor do que poderia ser. Verdade que ela tem o mérito, ao menos, de não endeusar Jobs. Menos mal. Ele tinha diversos pecados e falhas, como tantos outros gênios antes e depois dele – mas sem tanta documentação a respeito, volto a ressaltar.

O filme mostra parte delas, mas ignora muitas de suas qualidades – apenas algumas são enfocadas na história. Na maior parte do tempo ele parece apenas um grande babaca obcecado pelo trabalho e por apresentações de produtos perfeitas e que não sabia lidar com as pessoas, nem amar a filha, nem reconhecer os colegas que tinham feito os produtos que ele apresentava com tanta soberba. E ainda que ele fosse um pouco disso, certamente ele era mais do que este retrato imperfeito.

Também senti falta de algo importante no filme: um pouco mais sobre a história por trás dos três aparatos destacados nas apresentações de Jobs. Afinal, como surgiram as “viradas de chave” do Macintosh, do Cube da NeXT e do iMac? Em que pontos Jobs foi decisivo e em que pontos outras pessoas foram determinantes? Claro, alguém pode argumentar, que Sorkin não poderia ter se aprofundado na personalidade de Jobs ao mesmo tempo em que detalhava cada uma destas inovações. Mas acho que ele não precisava nem ir tanto ao céu e nem ir tanto a Terra.

Sorkin poderia perfeitamente ter encurtado as várias discussões entre o protagonista e Wozniak ou de Jobs com Sculley e ter colocado um pouco mais de dinâmica e edição em contar um pouco dos bastidores dos laboratórios e não apenas da “coxia” das apresentações dos produtos. Na verdade, achei o filme bem devagar, em muitos momentos, com um ritmo lento demais e sem a necessária profundidade narrativa ou do personagem central.

Alguns momentos da história também me pareceram forçados para arrancar algum “sentimento” do espectador – especialmente na reta final envolvendo a personagem de Joanna Hoffman (Kate Winslet) e a de Lisa em relação a Jobs. Vi uma forçada de barra desnecessária ali. E quanto às interpretações… Fassbender e Winslet estão bem. O filme é centrado bastante nos dois. Mas não vi em nenhum deles uma interpreta digna do Oscar. E mesmo eles terem sido indicados achei um pouco de bondade da Academia. Se eu votasse, não teria colocado eles lá.

NOTA: 7 6,8.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Gosto muito do diretor Danny Boyle. Ele está na lista dos diretores que eu gosto sempre de acompanhar. Por isso mesmo achei este Steve Jobs um ponto fora da curva da filmografia dele. Para mim, um de seus filmes mais fracos e, sem dúvida alguma, menos ousados. Claro que ele faz um bom trabalho, como não poderia deixar de ser. Boyle acompanha de perto os atores principais, especialmente Fassbender e Winslet. Acerta ao mostrar os comentários da imprensa após cada lançamento fracassado, dando um certo “contexto histórico” – ainda que limitado – para a história. Mas, cá entre nós, nada inovador.

O roteirista Aaron Sorkin realmente é um dos “queridinhos de Hollywood”. Só isso poderia explicar ele ganhando o Globo de Ouro de Melhor Roteiro por este filme. Para mim o roteiro de Steve Jobs é um dos pontos fracos da produção. E deveria ser exigido que constasse, em alguma parte, que o roteiro é “levemente” baseado no livro de Walter Isaacson.

Porque o livro homônimo dele sim trata Jobs de maneira muito mais ampla e justa, contando a história completa deste personagem, todas as suas nuances, crises, carreira e vida pessoal. Muito diferente do filme. Além disso, me parece um crime Steve Jobs ganhar o Globo de Ouro concorrendo com Room (comentado aqui), Spotlight (com crítica neste link) e mesmo The Big Short (crítica por aqui). Qualquer um destes três tem um roteiro muito, mas muito melhor que Steve Jobs.

Eu até simpatizo com o ator Seth Rogen mas, francamente, acho que um ator mais “de peso” e, talvez, mais velho, deveria ter encarnado Steve Wozniak. Faria mais sentido.

Como comentei antes, o filme é bastante centrado na interpretação de Michael Fassbender e de Kate Winslet. Até porque boa parte da história é feita sobre a interação dos dois. Ambos estão bem, mas nada extraordinário. Cite já alguns coadjuvantes de renome, como Jeff Daniels, Seth Rogen e Michael Stuhlbarg. Os três estão bem, mas algo esperado de atores deste nível – novamente, nada demais. Do elenco de apoio, gostei em especial da interpretação de Katherine Waterston como Chrisann Brennan e da carioca Perla Haney-Jardine como a filha de Jobs quando ela tinha 19 anos. Não lembro de ter visto Haney-Jardine em cena antes. Acho que ela tem carisma e promete. Pode estourar em breve – se tiver boas oportunidades para isso. É alguém interessante para ser acompanhada.

Além desse povo, aparece um pouco mais em cena, entre os coadjuvantes, John Ortiz como o jornalista Joel Pforzheimer.

Da parte técnica do filme, achei interessante o visual conferido em cada momento da história. Mérito do diretor Danny Boyle e, principalmente, das escolhas do diretor de fotografia Alwin H. Küchler. Boa também a edição de Elliot Graham. A trilha sonora de Daniel Pemberton aparece pouco, até porque o filme tem na verborragia dos diálogos de Jobs um de seus elementos centrais, dando pouco espaço para uma trilha sonora. Os demais elementos, como direção de arte, design de produção, decoração de set e figurinos são bem feitos, mas nada a destacar.

Steve Jobs estreou em setembro no Festival de Cinema de Telluride. Depois, o filme participaria ainda de outros seis festivais e mostras de cinema pelo mundo. Nesta trajetória o filme acumulou 12 prêmios e foi indicado a outros 83, incluindo duas indicações ao Oscar. Entre os prêmios que recebeu, destaque para os de Melhor Roteiro e de Melhor Atriz Coadjuvante no Globo de Ouro; e para nove prêmios de Melhor Ator para Michael Fassbender.

Este filme teria custado US$ 30 milhões e faturado, nos Estados Unidos, até o dia 10 de dezembro, quase US$ 17,8 milhões. Nos outros mercados em que ele estreou ele faturou quase US$ 11,2 milhões. Ou seja, no total, ele ainda não conseguiu cobrir nem os gastos com as filmagens – e há ainda outros custos para cobrir. Em resumo, talvez ele não consiga se pagar. Cá entre nós, não me surpreende. O filme realmente não é digno de uma boa propaganda boca a boca. Ele está muito aquém do personagem que tenta retratar.

Steve Jobs foi totalmente rodado nos Estados Unidos, em locais como Berkeley, Cupertino, San Francisco (no War Memorial Opera House e no Davies Symphony Hall) e em Palo Alto.

Agora, algumas curiosidades sobre o filme. Para marcar bem a passagem de tempo, Steve Jobs foi filmado com equipamentos diferentes para cada momento da história. Na primeira parte, em 1984, o filme foi rodado em 16 mm; a segunda parte, em 1988, em 35 mm, e a última, em 1998, em digital.

Michael Fassbender chegou a dizer que o ator Christian Bale deveria ter feito o papel de Jobs. E esta produção, inicialmente, ia ser rodada por David Fincher. Mas a Sony resolveu não aceitar as exigências dele – como pagamento de US$ 10 milhões e controle criativo total sobre a produção – e, por isso, o filme ficou com Danny Boyle. Quando o diretor assumiu o projeto, Jobs foi oferecido para Leonardo DiCaprio, que não topou, e depois para Bale, que também recusou.

O cofundador da Apple Steve Wozniak teria trabalhado como consultor do filme. Por isso, talvez, o personagem dele aparece duas vezes basicamente discursando o mesmo. 😉

Algo curioso: DiCaprio não aceitou fazer Steve Jobs para poder, no lugar, embarcar em The Revenant. E é bem possível que ele ganhe o Oscar por causa desta decisão. Cá entre nós, comparando os filmes e roteiros, sem dúvida alguma ele acertou na aposta.

Inicialmente Aaron Sorkin queria Tom Cruise para interpretar Jobs. Sério?

Agora, mais razões para não gostar do roteiro de Sorkin. O que motivou, inclusive, que eu abaixasse um pouco mais a nota. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Algumas cenas “cruciais” da produção nunca aconteceram na vida real. Por exemplo, aquela em que Lisa faz um desenho no Macintosh. Outra que nunca aconteceu foi a “reconciliação” entre John Sculley e Jobs e a maioria dos argumentos utilizados por Steve Wozniak com Jobs, além da sequência final entre Jobs e a filha (esta, na verdade, ao menos para mim, já estava na cara que tinha sido forçada).

Busquei no livro de Isaacson essa parte sobre a paternidade de Lisa Brennan. O livro é claro sobre como tudo aconteceu e explica que Jobs simplesmente decidiu ignorar que ele era pai da menina. É como se ele pudesse “escolher” entre ser pai ou não e ter optado pela segunda opção – mesmo sendo óbvio que Lisa era a sua filha. No livro, comenta-se, que ele fez isso porque tinha outros planos para a sua vida – como fazer a carreira que ele fez. Ou seja, um belo de um babaca e covarde.

O computador que ele lançou com o nome de Lisa era, de fato, uma homenagem para a filha que ele negava até então. Outra verdade é que inventaram um acrônimo que não significava nada para tentar “esconder” a homenagem para a menina. Em outro momento do livro Isaacson comenta que quando Lisa ficou maior, ela e o pai viviam uma relação de altos e baixos. Os dois eram temperamentais e tinham dificuldade de pedir desculpas. Chegaram a ficar mais de um ano sem se falarem.

Os usuários do site IMDb deram a nota 7,5 para esta produção. Uma boa avaliação, levando em conta o padrão do site. Os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 198 críticas positivas e 34 negativas para a produção, o que lhe garante uma aprovação de 85% e uma nota média de 7,6. Este é um dos raros casos em que eu não consigo ter uma visão tão positiva quanto o resto do público e da crítica – vocês sabem que eu costumo ser bondosa. 😉

Este filme é uma coprodução dos Estados Unidos com o Reino Unido.

CONCLUSÃO: Há alguns anos eu ganhei o livro Steve Jobs, de Walter Isaacson, de presente. Até hoje não li a obra inteira, apenas trechos aqui e ali. Mas por atuar como jornalista e cobrar as áreas de economia e tecnologia, impossível não ter lido, nestes anos todos, tantas histórias e partes sobre a vida e a obra de Jobs. Por isso mesmo achei este filme bastante menor do que ele poderia ser. Verdade que a história acerta ao mostrar dois grandes fracassos do ícone da tecnologia antes dele começar a acertar e iniciar o processo que tornaria a Apple a empresa mais valiosa do mundo.

Mas fora isso, muito da personalidade e da história do retratado fica de fora – e detalhe, com “esquecimentos” importantes no período retratado. As interpretações dos atores principais são boas e coerentes, mas nada demais. Em resumo, um filme apenas mediano. Se tiveres outra opção para assistir e que tem a tendência de ser melhor, recomendo passar para uma segunda opção.

PALPITES PARA O OSCAR 2016: Steve Jobs acabou sendo indicado em apenas duas categorias do prêmio máximo da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood. Ele disputa como Melhor Ator para Michael Fassbender e como Melhor Atriz Coadjuvante para Kate Winslet. Francamente? Se for feita a justiça, ele não levará em nenhuma destas duas categorias.

Sem dúvida alguma Leonardo DiCaprio e Eddie Redmayne estão melhores e The Revenant e The Danish Girl (comentado aqui), respectivamente. E o mesmo pode ser dito de Matt Damon por seu trabalho em The Martian (com crítica neste link). Então, só em Melhor Ator, temos três nomes mais fortes que Fassbender na disputa. Se ele ganhasse, para mim, seria a maior zebra da noite.

O mesmo posso dizer da categoria Melhor Atriz Coadjuvante. Alicia Vikander, para mim, é o nome do ano. Ela merece levar o Oscar. Mas se ela não levar, prefiro Rooney Mara em Carol (com crítica neste link) do que Winslet em Steve Jobs. Nada contra os atores, quero deixar claro, mas para mim há uma diferença grande de performance entre eles. Sendo assim, não será nenhuma surpresa se Steve Jobs não ganhar nada no Oscar deste ano.

The Danish Girl – A Garota Dinamarquesa

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Esse filme será difícil de ser assistido por alguns, será uma verdadeira revelação para outros e, para um terceiro grupo, ele pode parecer uma redenção. Tudo vai depender sob que ótica você irá assistir a The Danish Girl. Da minha parte, ele foi difícil de ser visto, ao mesmo tempo que ele foi um eficaz cartão de visitas para uma realidade até agora desconhecida. Com atores de primeiríssima linha, especialmente com mais uma atuação inspirada de Eddie Redmayne, The Danish Girl se revela um filme necessário. Especialmente para ajudar a quebrar preconceitos ainda existentes.

A HISTÓRIA: Um conjunto de belas paisagens. Elas servem de inspiração para Einar Wegener (Eddie Redmayne). Gerda (Alicia Vikander), mulher dele, observa um de seus quadros. Perto dela, Einar é paparicado pela forma com que ele retrata Vejle. Os dois se olham, enquanto o agente dele, Rasmussen (Adrian Schiller) tenta exaltar o talento do artista. Essa história começa em Copenhagen em 1926. No dia seguinte Gerda acorda Einar, que a chama para a cama novamente. O casal de artistas é uma inspiração, ainda que eles tenham apelos muito diferentes. Em breve, contudo, Einar deixará aflorar a verdade sobre si mesmo, o que vai mudar a vida do casal.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a The Danish Girl): Este filme não é fácil de ser visto. Pelo menos pela maioria das pessoas, eu aposto. Para mim não foi fácil. Primeiro porque é sempre duro ver o sofrimento alheio. E em The Danish Girl há bastante sofrimento. Mas ele não é tudo nesta história, é claro. Neste filme também há muito amor e a busca pela própria verdade. Ainda que esta verdade seja dura de aceitar, algumas vezes.

Serei franca em dizer que este filme mexeu com os meus preconceitos – ou com a minha dificuldade de entender o que é diferente de mim. (SPOILER – não leia se você não tiver assistido ao filme). Assistindo a The Danish Girl percebi que é muito mais simples entender um homem que se apaixona por um homem e uma mulher que se apaixona por uma mulher do que me colocar no lugar de quem não aceita o próprio corpo e faz cirurgias arriscadas para ter o outro sexo – que, evidentemente, é o que ele entende como sendo o seu.

Em outras palavras, para mim foi muito mais simples me identificar com Gerda do que com Einar/Lili. E neste ponto reside uma das belezas desta produção com roteiro de Lucinda Coxon baseado no livro de David Ebershoff. Ela provoca quem não compartilha com a visão de mundo e de realidade de Lili a conhecer mais de perto a intimidade dos transexuais/transgêneros.

Agora, o contato não é delicado. Pelo contrário. Não estamos do lado de fora, conhecendo a mudança de Einar para Lili como simples espectadores. Estamos dentro do quarto do casal Gerda e Einar. “Estamos” presentes no estúdio em que Gerda está trabalhando no retrato da amiga do casal, Ulla (Amber Heard), quando a modelo se atrasa e ela pede para o marido vestir as meias e a sapatilha para se passar pela amiga, momento em que Einar sente a sua verdadeira identidade começar a aflorar.

O filme não demora para mostra esta ruptura na vida do casal e a evolução deste quadro. Ainda assim, temos tempo de conhecer um Einar antes da mudança. Ele era um artista talentoso e sensível, se vestia bem e não tinha, aparentemente, nenhuma atração por homens ou vontade de se passar por mulher. Pelo menos até aceitar a provocação de Gerda e se vestir como mulher para acompanhá-la em mais um dos eventos chatos com artista que ele odiava.

Inicialmente eles pareciam estar apenas brincando e “jogando”. Afinal, no início, Einar continuava atraído pela esposa. Mas conforme ele foi dando espaço para Lili, tudo começou a mudar. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). De forma maravilhosa o grande ator Eddie Redmayne foi deixando claro que Einar se sentia muito mais vivo e “inteiro” sendo Lili. Não demorou muito para que ele só quisesse dar espaço para ela – e para que Einar praticamente desaparecesse.

A beleza de The Danish Girl é nos mostrar essa autodescoberta de Einar como Lili com muita franqueza. Mas a honestidade não torna tudo mais simples. De qualquer forma, para quem nunca tinha realmente se interessado ou tido a oportunidade de se colocar na ótica de um transgênero, este filme é um verdadeiro achado. Em The Danish Girl fica muito evidente o que se passa com um homem que passou uma parte considerável da vida escondendo o que realmente sentia sobre si mesmo e que, em determinado momento, resolve ser verdadeiro consigo mesmo.

A descoberta e a transição são dolorosas. Ainda assim, em diversos momentos, dá para perceber a liberdade e a alegria que Einar sente ao caminhar naquela direção de se assumir. Isso tudo é verdade e um desafio para quem não é transgênero. Me colocando no lugar deles, também entendo que este filme seja uma verdadeira redenção e uma inspiração. Mas serei franca em dizer que me coloquei demais no lugar de Gerda. Impossível não ficar assustada, como ela, com a primeira noite em que Lili saiu de casa e com o que viria depois.

A interpretação de Alicia Vikander é perfeita neste sentido. Ela fica assustada com as mudanças pelas quais passa Einar. Até porque ela não demora muito para perceber que, finalmente, ela está conhecendo de verdade a pessoa com quem ela se casou. Na medida em que a verdade não consegue mais ser escondida, o casal passa por um doloroso processo de aceitação e de mudança. Não tem como não sentir a dor de Gerda ao ver que ela está perdendo o seu marido.

Daí também, serei franca, um pouco da minha dificuldade também de entender Einar/Lili. (SPOILER – não leia… bem, você já sabe). Como até ele experimentar as roupas e se sentir uma mulher ele tinha tanta atração e parecia apaixonado por Gerda? Entendo quem faça isso para “acobertar” a própria identidade enquanto tem uma vida dupla, por pressão social, mas alguém que parece realmente eliminar parte fundamental da própria identidade e viver uma outra persona por tanto tempo me parece algo incrível. Sei que os psicólogos podem explicar e que o fato da história se passar nos anos 1920 ajuda nesta explicação, mas ainda assim me parece incrível.

Por causa disso Gerda acredita que se casou com uma certa pessoa e que a conhecia, mas não. E o processo de descoberta de Einar e de Gerda é complicado. Primeiro ele mesmo parece não entender pelo que está passando. Muito menos ela. No início, me incomodou também o fato dele não ter coragem de falar a verdade para Gerda e sair escondido para se encontrar com Henrik (Ben Whishaw). Sempre sou à favor das pessoas jogarem aberto. A verdade deveria prevalecer. Bueno, isso acaba acontecendo mas, até lá, é duro ver o que acontece com Einar/Lili e Gerda.

Também não é nada fácil ver todas as soluções malucas e absurdas que diferentes médicos e “especialistas” dão para o caso de Lili. É de cortar o coração. Ninguém, por mais que a maioria não entenda pelo que está passando, dever ser sujeito àquelas dores e torturas. Mas todos sabemos como a sociedade lidava com este e com outros “problemas” há diversas décadas atrás.

Nestas horas – e em outras também – percebemos como sim, evoluímos com o passar do tempo. Mas algo que parece ainda não ter evoluído muito, e aí está a importância de The Danish Girl, é a aceitação e entendimento dos transgêneros pela maioria da sociedade. Ainda falta mais falarmos do assunto e conhecermos histórias como a de Lili. Talvez, com o tempo, elas se tornem tão naturais quanto as histórias de amor entre homossexuais.

Por falar em amor, uma das grandes mensagens de The Danish Girl é o imenso amor que existe entre Gerda e Einar/Lili. Enquanto Lili luta por sobreviver e por ser cada vez mais coerente consigo mesma, Gerda segura as pontas e enfrenta toda a dor de perder o marido para que Lili possa ganhar a vida. Impressionante a entrega de Gerda e o amor verdadeiro que ela sentia por Einar/Lili. Francamente, não sei se eu conseguiria fazer o mesmo. Provavelmente não. Mas Gerda nos ensina isso, que o mais bonito amor é aquele que quer que a outra pessoa seja feliz, que se sinta inteira e viva. Não há amor aonde o outro tem que mentir para si mesmo.

Claro que junto com esse amor gigante de Gerda por Einar/Lili está o amor de Lili pela própria verdade. A busca incessante de Einar para dar lugar para a sua verdadeira identidade é comovente e, certamente, inspirador para quem passa pelo menos. The Danish Girl consegue demonstrar isso mesmo para quem não faz parte deste grupo. Este, sem dúvida, é um grande mérito da produção. Conquista dos ótimos atores envolvidos no projeto, especialmente Eddie Redmayne e Alicia Vikander, e também da ótima direção de Tom Hooper.

O roteiro de Coxon e a direção de Hooper não embelezam a pílula. Pelo contrário. E isso é mais um ato corajoso dos realizadores deste filme. Francamente, gostei muito do resultado. Mas acho que o filme peca um pouco por não nos contextualizar mais na história de Einar. Talvez algum flashback do passado ou ele contando mais para Gerda sobre a sua trajetória, sentimentos e dificuldades poderia tornar o filme mais completo. De qualquer forma, é uma bela produção. E muito necessária, já que pouco ainda se fala, e de forma tão franca e humana, dos transgêneros no cinema. Sem contar que este é um trabalho exemplar dos atores principais. Maravilhosos, os dois.

NOTA: 9.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Eddie Redmayne realmente é um ator diferenciado. Ele consegue dar vida para Lili de uma forma genuína e que convence – quantos atores que você acompanha conseguiriam fazer o mesmo? Quantos não pareceriam forçados? Sei que ele tem Leonardo DiCaprio no papel da vida dele para enfrentar no Oscar, mas não dá para ignorar o excelente trabalho de Redmayne neste filme. Se ele seguir inspirado como agora, não tenho dúvida que outros prêmios virão.

Muito importante para The Danish Girl que o filme tenha, além de um Redmayne inspirado, uma Alicia Vikander igualmente em ótima forma. A atriz interpreta com maestria Gerda, fazendo muitas pessoas se sensibilizarem pelo que ela está passando na história. Francamente, o papel dela é muito diferente do de Rooney Mara em Carol, quando a interpretação é muito mais contida e nos detalhes – como na troca de olhares. No caso de Vikander a interpretação é muito mais direta, franca e entregue porque a personagem dela pede isso. Mara, por outro lado, faz uma entrega perfeita também, mas de outra forma.

Complicado escolher entre as duas. Assim como é complicado escolher entre Redmayne e DiCaprio. Para mim, todos estão perfeitos. A diferença talvez seja na classificação de “interpretação da vida” dos atores. DiCaprio realmente faz o melhor papel da carreira. Não conheço muito da trajetória de Vikander para dizer o mesmo dela, mas me parece que ela ganhou outro status a partir deste filme. Então, se formos olhar por esta ótica, talvez Vikander tenha uma vantagem sobre Mara. Agora, é preciso ainda ver a Kate Winslet em Steve Jobs – falo mais do Oscar logo abaixo.

Eu gosto muito do que Redmayne faz, mas tenho que confessar algo: me irrita um pouco o cacoete dele de piscar os olhos como se o personagem de Lili/Einar tivesse uma certa timidez que algumas vezes deve ser administrada através daquela piscada. Não sei, isso me faz lembrar de outros papéis dele. Acho que ele poderia utilizar outros recursos para variar um pouco.

A direção de Tom Hooper me pareceu soberba. Ele acerta ao estar atento a cada detalhe da interpretação dos atores na mesma medida em que ele valoriza a beleza dos lugares – afinal, este filme, ao ter dois protagonistas que são pintores, exige um apreço pelo visual diferenciado. Neste sentido, contribui para o bom trabalho visto no filme o diretor de fotografia Danny Cohen. Belo trabalho o dos dois.

Falando nas qualidades técnicas do filme, é preciso ressaltar o bom trabalho de Alexandre Desplat na trilha sonora; a edição competente de Melanie Oliver; o design de produção requintado e certeiro de Eve Stewart; a direção de arte de Grant Armstrong e Tom Weaving; a decoração de set de Michael Standish; os figurinos perfeitos e muito bem pesquisados/criados por Paco Delgado; e o excelente trabalho de maquiagem dos 10 profissionais liderados por Caroline Case, Annette Field e Pari Khadem. Exemplar também o trabalho do departamento de arte que conta com 32 profissionais talentosos.

Este filme é capitaneado e tem na interpretação de Redmayne e Vikander uma de suas fortalezas. Mas é preciso enaltecer também o bom trabalho dos coadjuvantes. Destaque para Adrian Schiller como Rasmussen, que representa Einar e, rapidamente, entende o novo talento que aflora em Gerda a partir dos quadros inspirados em Lili; Amber Heard linda e com interpretação convincente como Ulla; Ben Whishaw ótimo como Henrik; Pip Torrens um tanto assustador como o Dr. Hexler, o primeiro a “tratar” Einar; Matthias Schoenaerts perfeito e maravilhoso como Hans Axgil, amigo de infância de Einar e grande parceiro de Gerda e Lili; e o grande Sebastian Koch muito bem como o médico Warnekros, o primeiro a entender os transexuais e fazer cirurgias de readequação genital.

Para quem ficou interessado pelo tema, assim como eu, recomendo a leitura de algumas perguntas e respostas sobre transgêneros e transexuais disponíveis aqui no site iGay.

The Danish Girl estreou em setembro de 2015 no Festival de Cinema de Veneza. Depois, o filme participaria ainda de outros cinco festivais de cinema. Em sua trajetória, até agora, o filme recebeu 18 prêmios e foi indicado a outros 63, incluindo quatro indicações ao Oscar. Entre os prêmios que recebeu, destaque para 10 premiações para Alicia Vikander como Melhor Atriz Coadjuvante, como “Performance Arrebatadora” de uma Atriz ou Atriz do Ano (prêmio que ela normalmente recebeu junto com a interpretação em outros filmes); e para um prêmio para Eddie Redmayne como Melhor Ator e outro para Tom Hooper como Melhor Diretor – além de um Queer Lion para ele no Festival de Cinema de Veneza.

Esta produção teria custado US$ 25 milhões e faturado, até ontem, dia 20 de janeiro, pouco mais de US$ 9,1 milhões nas bilheterias dos Estados Unidos. Nos outros mercados em que o filme já estreou ele fez outros US$ 13 milhões. No total, quase US$ 22,2 milhões. Ou seja, ele está longe ainda de se pagar – levando em conta que qualquer estúdio gasta muito mais do que apenas os recursos para a produção do filme. É preciso adicionar ainda os gastos com distribuição e publicidade. The Danish Girl precisa melhorar o desempenho para conseguir pagar o investido.

The Danish Girl foi filmado em Copenhagem, na Dinamarca; em Bruxelas, na Bélgica; em Londres e Hertfordshire, no Reino Unido; em Vigra Island e em Mount Mannen, na Noruega; e em Berlim, na Alemanha. Diversos lugares, não? Sem dúvida uma boa parte do orçamento foi nestes deslocamentos da equipe e elenco.

Agora, algumas curiosidades sobre o filme. The Danish Girl é baseado no livro homônimo de David Ebershoff que, na verdade, recria de forma ficcional a vida de Einar Wegener/Lili Elbe. Ou seja, não se trata de uma biografia real. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Relatos históricos apontam que Gerda Wegener era lésbica e que preferia a feminilidade de Lili do que a masculinidade de Einar. Além disso, eles teriam um relacionamento aberto e, quando o casamento deles terminou, cada um foi para um lado. Ou seja, uma história beeeeem diferente do filme. E, cá entre nós, que faz mais sentido. É bacana pensar em um amor de entrega tão grande quanto o que vemos de Gerda no filme, mas me parece que a história real é mais plausível.

Uma fonte mais fidedigna do que aconteceu com Einar/Lili está no livro Man into Woman, assinado por Niels Hoyer. Esse nome, Niels Hoyer, na verdade é o pseudônimo para Ernst Ludwig Hathorn Jacobson, editor de Lili que reuniu as cartas e o que ela escreveu em seu diário para que este material fosse transformado no livro autobiográfico. Este sim deve ser interessante de ler.

A verdadeira origem de Gerda Wegener não é americana e sim dinamarquesa. Gerda Gottlieb Wegener Porta nasceu no dia 15 de março de 1886 e faleceu no dia 28 de julho de 1940. Ela foi “tranformada” por Ebershoff em americana para agradar aos leitores dos Estados Unidos. A história real aponta para que Gerda era lésbica e tinha um relacionamento aberto com Einar/Lili. Na verdade, o relacionamento delas tinha mais a ver com o de irmãs do que de amantes ou cônjuges. No livro/filme Gerda aparece como uma esposa fiel que nunca deixou Lili. Bem, a história real não foi bem essa. Mais uma razão para eu deixar a nota do filme aonde ela está.

No início, Nicole Kidman queria estrelar e produzir o filme, com ela interpretando Einar/Lili. Para o papel de Gerda foram escaladas e depois pularam fora do projeto Charlize Theron, Gwyneth Paltrow, Uma Thurman, Marion Cotillard e Rachel Weisz. Tenho certeza que um projeto envolvendo Kidman e qualquer uma destas atrizes teria sido interessante mas, francamente, eu acho que foi muito mais justo com a história e interessante termos um homem passando pela experiência de Einar/Lili. Me parece muito mais lógico.

Einar/Lili não foi a primeira pessoa a se submeter à cirurgia de redefinição de sexo, mas esteve entre as primeiras. Carla van Crist, Toni Ebel e Dorchen Ritcher tinham feito a cirurgia antes de Lili. Magnus Hirschfeld fundou em Berlim em 1919 o Instituto Sexual de Berlim, nos mesmos moldes do Instituto Kinsey. Os nazistas destruíram os arquivos do instituto em 1933, por isso não é possível saber exatamente quem foi a primeira pessoa a fazer a cirurgia de redefinição de sexo.

Os personagens de Hans Axgil e Henrik não existiram na vida real. Eles foram inventados pelo autor do romance (e, consequentemente, aparecem no filme). (SPOILER – não leia… bem, você já sabe). O namorado de Lili quando ela morreu era um negociar de arte chamado Claude Lejeune, com quem ela esperava casar e ter um filho. Gerda também não estava perto de Lili quando ela morreu e sim estava casada com um oficial italiano chamado Fernando Porta. Ela se casou com ele em 1931 e os dois foram morar juntos na Itália. Dez anos depois, no Marrocos, Gerda soube da morte de Lili. Fernando Porta acabou com as economias da artista que, em 1936, resolveu se divorciar dele. Ela não teve filhos e não se casou novamente. Voltando para a Dinamarca, Gerda começou a beber muito e morreu pobre em 1940.

O casamento de Einar e Gerda durou 26 anos, entre os anos 1904 e 1930. Ele tinha 22 anos e ela 18 quando se casaram. Lili tinha 47 anos quando fez a cirurgia para redefinir o seu sexo e morreu aos 48 anos graças à rejeição de órgãos após fazer um transplante de útero. Gerda tinha 44 anos durante os eventos retratados no filme e morreu aos 54 anos vítima de um ataque cardíaco.

The Danish Girl inspirou mais pesquisas sobre o período retratado, assim como uma exposição das obras de Gerda que retratam Lili que será feita em Copenhage.

Dois atores transgêneros fazem duas super pontas neste filme. A atriz Rebecca Root interpreta a uma das enfermeiras de Lili e Jake Graf, um homem transgênero, faz uma ponta ao lado de Matthias Schoenaerts na galeria de arte em que estão sendo expostas as obras de Gerda.

No dia 23 de novembro a Casa Branca promoveu o evento Champions of Change em que foram homenageadas as pessoas por trás de The Danish Girl, Tangerine e da série Transparent.

Os quadros mostrados no filme são uma adaptação da obra de Gerda feitas pelo designer de produção Eve Stewart e pela artista britânica Susannah Brough. Não foram utilizada réplicas do trabalho de Gerda porque eles quiseram fazer quadros que parecessem com Redmayne e com Amber Heard.

Muitos estranharam (como eu) que Alicia Vikander foi nomeada como Melhor Atriz Coadjuvante. Isso porque ela acaba aparecendo mais até que Eddie Redmayne no filme. Mas há uma razão para isso: os produtores de The Danish Girl quiseram que ela fosse indicada a Melhor Atriz Coadjuvante porque acharam que ela teria mais chances de ganhar o Oscar. A atriz acabou não comentando esta polêmica.

O nome pós-transição adotado por Einar foi o de Ilse Elvenes. Quem deu o nome de Lili Elbe para ele foi a jornalista de Copenhagen Louise Lassen. Esta é uma de várias imprecisões da história de Einar.

No livro e na primeira versão do roteiro deste filme a personagem de Amber Heard era uma cantora de ópera chamada Anna Fonsmark. Mas no final, para o filme, a personagem passou a ser a bailarina Ulla Paulson. O personagem é inspirado em duas amigas de Einar: a atriz dinamarquesa Anna Larssen Bjorner e a bailarina do mesmo país Ulla Poulsen Skou.

Outra fantasia que não tem a ver com a história real. Lili e Gerda se mudaram para Paris em 1912 – detalhe que o filme começa em 1926. Paris foi uma cidade bastante liberal nos anos 1910 e 1920 e, justamente por isso, as duas se mudaram para lá. Na capital francesa Gerda vivia abertamente como lésbica. Por isso mesmo a cena em que Einar é espancado por dois homens em Paris não teria acontecido realmente.

Um fato interessante que foi deixado fora do roteiro do filme – assim como o transplante de útero que matou Lili e que foi a quinta cirurgia dela: o terceiro médico que ela consultou a diagnosticou como intersexual e afirmou que ela teria órgãos sexuais femininos rudimentares. As análises hormonais feitas pouco antes da primeira cirurgia dela indicaram que ela tinha mais hormônios femininos que masculinos no corpo – o que sugere que ela tivesse o cromossomo XXY, da Síndrome de Klinefelter, algo que seria reconhecido pela Medicina apenas a partir de 1942.

Esta é uma coprodução do Reino Unido com os Estados Unidos, a Bélgica, a Dinamarca e a Alemanha.

Os usuários do site IMDb deram a nota 6,8 para esta produção. Provavelmente uma das menores notas entre os filmes indicados ao Oscar 2016. Os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 118 críticas positivas e 47 negativas para a produção, o que lhe garantiu uma aprovação de 72% e uma nota média de 6,6. Também uma das avaliações mais baixas entre os filmes bem cotados nesta sequência de premiações em Hollywood.

CONCLUSÃO: Uma grande, imensa história de amor, e um filme que fala sobre a coragem de alguém que resolve assumir a sua própria identidade, mesmo que ela afronte o que a sociedade considere natural. The Danish Girl é um filme corajoso e duro, mas importante. Ele questiona a nossa própria capacidade de entender o que é diferente. Não é exatamente fácil assisti-lo. Mas isso pouco importa. Com grandes atuações e uma direção sensível e cuidadosa, é um belo filme na aparência e na mensagem.  E as premiações que deram destaque para ele até agora, como o Oscar, estão de parabéns por colocar um título tão diferente em evidência. Importante.

PALPITES PARA O OSCAR 2016: The Danish Girl está concorrendo em quatro categorias da premiação máxima da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood: Melhor Ator (Eddie Redmayne), Melhor Atriz Coadjuvante (Alicia Vikander), Melhor Design de Produção e Melhor Figurino.

A melhor chance do filme, me parece, está na categoria Melhor Atriz Coadjuvante. Alicia Vikander enfrenta Kate Winslet, que já foi premiada por Steve Jobs, e Rooney Mara, que está espetacular também em Carol (comentado aqui). Francamente, se eu votasse no Oscar, eu ficaria em dúvida entre Vikander e Mara. São interpretações com tonalidades muito diferentes, mas acha que as duas estão impecáveis. Não assisti ainda a Winslet. Preciso ver Steve Jobs para opinar definitivamente sobre esta categoria.

O ator Eddie Redmayne está ótimo, mais uma vez, nesta produção, mas ele tem um páreo duríssimo ao concorrer com Leonardo DiCaprio. O favorito é o protagonista de The Revenant (com crítica neste link). Redmayne só leva a estatueta para casa se a Academia demonstrar, mais uma vez, que tem bronca com DiCaprio.

Agora, as duas indicações técnicas do filme. Na categoria Melhor Figurino The Danish Girl tem uma parada dura. Para mim, o favorito nesta categoria é Mad Max: Fury Road (comentado aqui), seguido de Cinderella e de Carol. Como não assisti a Cinderella, pessoalmente o meu voto iria para Carol, mas acho que Mad Max: Fury Road pode faturar. The Danish Girl corre um pouco por fora.

A categoria Melhor Design de Produção também está bem concorrida. The Danish Girl e Bridge of Spies concorrem por fora, com a decisão nesta categoria tendo Mad Max: Fury Road, The Revenant e The Martian (com crítica aqui) como as produções que estão se digladiando pela estatueta. Pessoalmente, eu ficaria dividida entre Mad Max e The Martian. Ou seja, The Danish Girl tem sérias chances de não levar nenhuma estatueta para casa. As melhores chances, se for levar algo, estão nas categorias dos atores. Veremos.

Brooklyn

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Morar fora de seu habitat natural nunca é algo simples. Mas retornar para “casa” também não é. Até porque, depois de algum tempo, você descobre que a noção de “casa” é muito relativa. Brooklyn nos conta a história de uma imigrante irlandesa que adota os Estados Unidos como a sua nova morada. A trajetória dela resume a de tantos outros imigrantes que fizeram não apenas os Estados Unidos, mas tantos outros países mundo afora.

A HISTÓRIA: Eilis (Saoirse Ronan) sai de casa quando ainda está escuro. Ao lado de Miss Kelly (Brid Brennan) e de Mary (Maeve McGrath) ela participa da missa antes de ir trabalhar no armazém de Miss Kelly. Chegando no local, Eilis pede para falar com a empregadora, mas ela comenta que aquele não é um bom momento. Depois da missa das 9h, o armazém fica cheio. Miss Kelly tem um jeito bem diferenciado de tratar os clientes, o que visivelmente incomoda Eilis.

Quando o estabelecimento fecha, Eilis comunica que está se mudando para a América. Quem arranjou tudo foi o padre Flood (Jim Broadbent), que atendeu a um pedido da irmã mais velha de Eilis, Rose (Fiona Glascott). Acompanhamos a jornada da jovem irlandesa nos Estados Unidos, com ela indo morar e trabalhar no Brooklyn, bairro com grande população vinda da Irlanda.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso só recomendo que continue a ler quem já assistiu a Brooklyn): O Oscar 2016 está com uma seleção interessante. Ao mesmo tempo que temos filmes ousados na direção e no roteiro, como The Revenant, Room e Mad Max: Fury Road, temos produções muito sensíveis e delicadas, como Carol e esta Brooklyn.

Antes de assistir a este filme, como mandam as minhas regras próprias, eu não sabia nada de Brooklyn. Apenas, claro, que ele tinha uma elogiada atuação de Saoirse Ronan. De fato a atriz é um dos pontos fortes do filme, assim como Cate Blanchett e Rooney Mara são a fortaleza de Carol (com crítica aqui no blog).

A diferença é que a interpretação de Ronan é muito mais “entregue” e destemida do que as interpretações de Blanchett e Mara, destacadas pela expressão dos sentimentos, em muitos momentos, apenas pelos olhares. Ronan não. Ela demonstra uma certa obstinação desde o início, mas com a diferença que faz você sair de um local aonde conhece a todos, está cercada de família e de amigas, para outro local aonde está praticamente sozinha. Quando se muda desta forma de cenário, é inevitável que a pessoa também mude por dentro.

Assim como Carol, Brooklyn é um interessante retrato de uma época e de um local. Nos dois filmes o contexto histórico e social jogam um papel importante. No caso de Brooklyn, é especialmente interessante observar as diferenças entre o local de origem da protagonista, uma Irlanda provinciana aonde as pessoas prezam tanto a ida regular na Igreja quanto a vigilância sobre os vizinhos e conhecidos, e os Estados Unidos que começa a ser cosmopolita e aonde há excesso de gente, de ilusões e de sonhos, com cada pessoa lutando para sobreviver e crescer da melhor forma possível.

Diferente de Carol, Brooklyn mergulha de forma mais franca no romance clássico e sem amarras como o caso proibido do outro filme. De forma muito coerente, Ronan demonstra toda a tristeza de Eilis na primeira fase dela nos Estados Unidos, quando ela ainda tenta se adaptar ao jeito mais franco e mais exigente da sociedade norte-americana. Neste contexto e tentando fugir da nova inquilina da pensão aonde ela mora, a esquisita Dolores (Jenn Murray), Eilis conhece em um baile da colônia irlandesa o italiano Tony (Emory Cohen).

A partir daí o filme mergulha no romance entre os dois. Cohen parece um Al Pacino jovem. Ele tem talento, carisma e uma bela sintonia com Ronan. O casal convence. E aí vem um dos grandes acertos do roteiro de Nick Hornby inspirado no romance de Colm Tóibín: quebrar toda a sequência óbvia de eventos com um fato trágico na história. Além de dar uma nova dinâmica para o filme, esse fato também reproduz o que acontece na vida real. Não estamos no controle das nossas vidas e, quando menos esperamos, fatos marcantes acabam mudando tudo o que esperávamos que aconteceria depois.

Muito antes do que o esperado Eilis se vê obrigada a voltar para a Irlanda. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). E para surpresa dela, e do espectador também, ela acaba encontrando a realidade em casa diferente. Tudo parece conspirar para que ela fique lá cuidando da mãe, Mary Lacey (Jane Brennan) e ganhando dinheiro em um bom emprego, que antes era da irmã. Para completar o cenário, ela fica encantada com Jim Farrell (Domhall Gleeson), amigo de sua melhor amiga, Nancy (Eileen O’Higgins), que está prestes a se casar.

O que pareceria ser uma nova e feliz vida nos Estados Unidos acaba ficando em segundo plano. Ela está em casa, se sente bem e feliz. De uma forma que não era antes no mesmo lugar. Mas será que o lugar mudou ou foi ela? Em breve ela terá a resposta para isso. A verdade é que sempre mudamos quando nos desafiamos para isso. Eilis não é mais a mesma e, ao mudar, ela também moveu a roda das oportunidades ao seu redor. A casa que ela conhecia não é a mesma – por um lado, mais triste e vazia, por outro, mais promissora e interessante.

A vida é cheia de possibilidades e cada vez que fazemos uma escolha abrimos certos caminhos e damos costas para outros. Mas se Eilis está em dúvida sobre que caminho seguir – ou pelo menos é isso que o roteiro de Brooklyn sugere -, em breve uma coincidência destas de “mundo menor que uma noz” vai fazer ela lembrar de escolhas que fez e que devem moldar os seus passos.

Interessante como Eilis, assim como nós mesmos, é surpreendida pelos fatos. Ela tinha certeza que iria visitar a mãe na Irlanda e que logo voltaria para a sua nova vida nos Estados Unidos. O que ela não esperava é que a sua casa antiga estivesse tão diferente e com novas possibilidades.

Se não fosse a intromissão de Miss Kelly será que Eilis poderia ter escolhido outro destino? Pode ser que sim, pode ser que não. Nunca saberemos. Ela estava dividida entre obrigações – com a mãe, com Tony – e entre futuros possíveis na Irlanda ou nos Estados Unidos. Mas como não podemos abraçar o mundo, mais cedo ou mais tarde ela teria que tomar uma decisão. A intrometida Miss Kelly apenas apressou uma solução para o problema. Ainda que Eilis já parecia estar propensa a esta decisão.

Desta forma Brooklyn se revela um filme interessante não apenas por tratar de imigração ou por ser uma história de romance clássico. Ele chama a atenção por tratar dos sentimentos de pertencimento a um lugar que todos nós vivenciamos e sobre as escolhas que fazemos na nossa vida e o que elas podem acarretar para o nosso futuro.

Quando saímos de um lugar e caminhamos para a frente, nunca mais podemos olhar a paisagem da mesma forma. A ótica do lugar novo é diferente, para o bem e para o mal. Neste contexto, devemos nos contentar em sentir sempre saudade de algo, mas ter coragem para abraçar as escolhas que fizemos e, assim, vivenciar a felicidade. Sabendo que nunca mais pertenceremos a um lugar totalmente, e que são as pessoas que fazem os lugares e cada um de nós nos sentir em casa ou não. Brooklyn é um filme sobre o desabrochar de uma mulher e sobre a descoberta de uma sociedade mais livre. Vale o ingresso

NOTA: 9,3.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Este filme tem uma escolha interessante de atores. Apesar de estar centrado no trabalho de Saoirse Ronan, sem dúvida alguma a protagonista feita para brilhar nesta produção, Brooklyn tem um elenco de apoio de peso. Entre os nomes interessantes estão os do já citados Jim Broadbent como o padre Flood; Jane Brennan como Mary Lacey; Fiona Glascott como Rose; Eileen O’Higgins como Nancy; Emory Cohen como Tony e Domhall Gleeson (que parece estar em todas) como Jim Farrell.

Mas além deles, que já foram citados, vale comentar o bom trabalho de Eva Birthistle em uma super ponta como Georgina, a mulher que divide a cabine no navio com Eilis na viagem de ida para os Estados Unidos; Peter Campion como George Sheridan, que se casa com Nancy; Julie Walters quase irreconhecível como Mrs. Keogh, dona da pensão aonde Eilis fica hospedada; Emily Bett Rickards como a deslumbrada Patty, que faz dupla junto com a atriz Nora-Jane Noone, que interpreta Sheila, como as fofoqueiras e engraçadinhas da pensão; e Jessica Paré, que me faz sempre lembrar de Mad Men, como Miss Fortiri, a chefe direta de Eilis na loja de departamento em que ela trabalha no Brooklyn.

Como esta produção se passa nos anos 1950, acaba sendo fundamental para a história diversos aspectos técnicos que ajudam Brooklyn a ser um filme de época. Neste sentido destaco, em especial, o design de produção de François Séguin; a direção de arte de Irene O’Brien e Robert Parle; a decoração de set de Suzanne Cloutier, Jenny Oman e Louise Tremblay; e os figurinos acertados de Odile Dicks-Mireaux.

Algo admirável neste filme é como o diretor John Crowley conduz a narrativa. Ele está sempre atento às expressões da protagonista e dos demais atores em cena. Além disso, claro, ele não ignora os belos cenários e a contextualização das duas sociedades retratadas. Neste sentido, merece ser mencionado também o trabalho do competente diretor de fotografia Yves Bélanger. Outro item importante para o filme é a trilha sonora de Michael Brook, bastante emotiva na maior parte do tempo.

Brooklyn teve uma história longa até chegar ao Oscar. O filme estreou em janeiro de 2015 no Festival de Cinema de Sundance. Depois ele passaria por outros 21 festivais mundo afora. Nesta trajetória a produção colecionou 21 prêmios e foi indicada a outros 105, incluindo três indicações ao Oscar 2016. Entre os prêmios que recebeu, destaque para sete prêmios como Melhor Atriz para Saoirse Ronan; para quatro prêmios conferidos pelo público como Melhor Filme; para um prêmio como Melhor Roteiro Adaptado; e para dois prêmios como Melhor Design de Produção.

Esta produção teve cenas rodadas em Enniscorthy, na Irlanda; em Montreal, no Canadá; e em Coney Island e no Brooklyn, nos Estados Unidos.

Brooklyn teve uma bilheteria bastante singela, até agora, nos Estados Unidos. O filme conseguiu fazer, até ontem, dia 18 de janeiro, pouco mais de US$ 25,1 milhões. Não encontrei informações sobre o custo da produção.

Este filme, aliás, é uma coprodução da Irlanda, do Reino Unido e do Canadá. Uma exceção entre os filmes que estão concorrendo ao Oscar de Melhor Filme – o único que não tem os Estados Unidos como produtor ou coprodutor.

Agora, algumas curiosidades sobre Brooklyn. O diretor John Crowley dividiu o filme em três movimentos visuais diferentes. O primeiro é aquele que acompanha a protagonista antes dela sair da Irlanda e viajar pela primeira vez para os Estados Unidos e se caracteriza por enquadramentos apertados e cheios de tons de verde. O segundo movimento começa quando Eilis chega no Brooklyn e as imagens passam a ser mais amplas e abertas, com cores mais vivas e alegres para marcar a América de 1952 que vivia o auge da cultura pop. O terceiro movimento está na segunda viagem dela para os Estados Unidos, quando as imagens ficam mais brilhantes, com mais glamour e “sutilmente mais colorido” do que no primeiro movimento. O objetivo do diretor era mostrar a mudança pela qual Eilis passou e, no final, ressaltar como ela estava mais sonhadora do que no início. Interessante.

A atriz Saoirse Ronan nasceu no Bronx, em Nova York, mas foi criada na Irlanda por seus pais, que eram irlandeses. Por isso mesmo ela considera Brooklyn como um de seus filmes mais pessoais. Além disso, essa é a primeira vez que ela utiliza o seu sotaque irlandês em uma produção.

Saoirse Ronan estava em uma manicure em Dublin quando recebeu uma ligação dizendo que ela estava concorrendo ao Globo de Ouro pelo seu papel como Eilis. Ela ficou tão contente que mandou comprar champanhe para todos que estavam no salão. Gracioso! 😉

O vestido amarelo que Eilis utilizada em uma cena é o preferido da figurinista Odile Dicks-Mireaux. Ele foi comprado em uma loja em Montreal.

A ideia para o romance do escritor irlandês Colm Tóibín surgiu de uma memória de infância dele. O autor lembrou de uma mulher que havia comentado sobre a viagem de sua filha de Enniscorthy, na Irlanda, para o Brooklyn. No ano 2000 Tóibín escreveu uma história curta a partir desta lembrança, mas decidiu ampliá-la depois que ele mesmo morou nos Estados Unidos por algum tempo. O autor também revelou que foi inspirado pela obra de Jane Austen – faz todo o sentido pelo “espírito” que este filme tem.

O Brooklyn que aparece no filme foi ambientado na canadense Montreal por uma questão orçamentária. Sairia muito caro mudar o Brooklyn do tempo atual para o estilo que o bairro tinha nos anos 1950.

Outra curiosidade técnica importante do filme: nas cenas de close-up da atriz Saoirse Ronan o diretor de fotografia Yves Bélanger utilizou lanternas individuais para os olhos da atriz com o objetivo de adicionar mais brilho para as suas expressões. Bélanger também utilizou uma câmera de mão Alexa e uma combinação de luzes de estúdio e de iluminação natural para capturar uma representação mais real e pessoal dos anos 1950.

Michael Brook decidiu usar o violino como o instrumento da personagem de Eilis. Quem executa o violino nas cenas com a atriz é a mulher de Brook, Julie Rogers.

Entre os filmes irlandeses, Brooklyn foi o que teve a melhor estreia em 19 anos. Naquele país o filme teve a maior presença em cinemas da história, superando o filme Michael Collins, de 1996.

Brooklyn foi aplaudido de pé quando estreou no Festival de Cinema de Sundance.

Não li o livro de Tóibín, mas segundo as notas de produção de Brooklyn, o filme tem um final diferente do livro. Quem tiver lido a obra original, por favor, pode comentar aqui qual é a grande diferença do final? Desde já eu agradeço. 😉

Os usuários do site IMDb deram a nota 7,8 para esta produção, uma boa avaliação levando em conta o padrão do site. Os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 182 críticas positivas e quatro negativas para a produção, o que lhe garante uma aprovação de 98% e uma nota média de 8,6. Bela avaliação, aliás.

CONCLUSÃO: Diferentes paixões movem quem sai de seu lugar de origem e passa a viver em outra parte. Brooklyn conta a história de uma garota que empreende esta jornada sozinha, a exemplo de tantas outras pessoas. Bem conduzido e com uma interpretação muito sensível de Saoirse Ronan, Brooklyn reforça a boa safra do cinema nesta temporada do Oscar.

Além de enfocar um assunto tão em voga quanto a imigração, ele trata de outros temas importantes na formação da Irlanda e dos Estados Unidos, como a religião, os costumes e a busca por autonomia das mulheres. Com roteiro bem construído, Brooklyn dá espaço para Saoirse Ronan brilhar. Além da imigração e da contextualização de época, este filme é um grande romance. Bem ao gosto dos ingleses, coprodutores do filme. Vale especialmente pelo contexto histórico, pelo conjunto da obra e por Ronan.

PALPITES PARA O OSCAR 2016: Brooklyn foi indicado em três categorias da premiação anual da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood. Além de concorrer a Melhor Filme e Melhor Atriz (Saioirse Ronan), a produção concorre também como Melhor Roteiro Adaptado. Francamente, vejo poucas chances dele ganhar qualquer um destes prêmios.

Melhor Filme está fora de cogitação. Melhor Atriz parece estar definido para Brie Larson, de Room (comentado aqui no blog). Outro páreo duro para Ronan, caso Larson perca, seria Cate Blanchett por Carol (com crítica neste link), outro filme de época. Fechando a lista de possibilidades, Brooklyn concorre com The Big Short, Carol, The Martian e Room como Melhor Roteiro Adaptado.

The Big Short parece levar uma certa vantagem, ainda que a minha torcida vá para Room. The Martian e Carol também são grandes adaptações. Não vejo muitas chances para Brooklyn. Ou seja, no fim das contas, o filme deve sair de mãos abanando no Oscar. Não porque não tenha qualidades, mas porque os concorrentes são melhores.