Contraband – Contrabando

Um garoto faz uma grande bobagem. Se mete em algo que não conhece e se dá mal. Na sequência, ele é cobrado por isso. Para sua sorte, ele tem na família um especialista no assunto. Ok, já conhecemos essa história. E nem por isso Contraband não apresenta, com honestidade e sem enrolação, o que o espectador quer ver em um filme de ação. De quebra, o serviço se torna um pouco mais complicado, e a história não economiza em ameaças e alguma pancadaria.

A HISTÓRIA: Noite. Um barco desliza pelas águas, e um helicóptero faz o mesmo pelos ares. Enquanto o helicóptero se aproxima do barco, duas lanchas ajudam a fechar o cerco. A luz do helicóptero ilumina a cabine onde está Andy (Caleb Landry Jones), e ele sai correndo. Acorda Walter (Jason Mitchell) no caminho para livrar-se das drogas. Mesmo com o alerta da polícia para não se mexer, Andy consegue jogar a bolsa com a mercadoria nas águas. Enquanto isso, em uma festa de casamento, Chris Farraday (Mark Wahlberg) faz um brinde em homenagem aos recém-casados. Na festa, Chris ouve comentários sobre o tempo em que era um mestre no contrabando, e recebe uma proposta para voltar ao ramo. Ele resiste à ideia, porque agora tem mulher e dois filhos pequenos. O problema é que Andy é o irmão mais novo de sua esposa, Kate (Kate Beckinsale) e, mesmo sem querer, Chris acaba tendo que ajudá-lo a sair de uma dívida.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Contraband): O roteiro não é nenhum primor em originalidade. Mas isso não torna Contraband, exatamente, previsível. Aquela premissa básica, citada no início deste post, de fato é conhecida. Mas o desenvolvimento da trama, especialmente as saídas criativas do protagonista para os problemas que vão surgindo e o pouco tempo para solucioná-los, torna a produção envolvente.

Eis um filme de ação clássico. Há a pressão da família envolvida, e a necessidade de um proteger o outro para sobreviver, assim como as forças contrárias a isso. Também faz parte do enredo corrupção, redes internacionais de contrabando e criminalidade, traições, perseguições e alguma pancadaria.

Pouco antes de Contraband chegar na metade, ele já nos apresenta algo elementar em qualquer filme com elementos fortes de suspense: sabemos de algo que o protagonista não sabe. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Neste caso, que o melhor amigo dele, Sebastian Abney (Ben Foster), é o maior interessado em que Chris não apenas resolva o problema de Andy, mas que ele também viaje trazendo uma encomenda de drogas – o que ele, por princípios e para não ter a vida mais complicada, caso seja necessário, se recusa a fazer. Abney é o sujeito que manda no “vilão conhecido”, Tim Briggs (Giovanni Ribisi). Colocar o espectador nesta “posição privilegiada”, de saber disto, enquanto Chris não tem esta informação, serve apenas para tornar o filme mais tenso.

O diretor Baltasar Kormákur faz um belo trabalho. Ele conduz bem a história, especialmente nas cenas de ação inteligente. Porque há perseguições e brigas, mas o elemento principal de Contraband são as saídas criativas do protagonista, comparado com Houdini, ilusionista conhecido mundialmente por enganar a todos e por não revelar os seus segredos. Conhecer os métodos de Chris é um dos atrativos da história.

O roteiro de Aaron Guzikowski acerta na dosagem da ação com as histórias pessoais dos personagens. Afinal, há intriga, disputa, ciúme, fidelidade e traição em jogo. E isso torna o filme mais completo e denso, não apenas uma simples história de ação. Interessante que Contraband é uma refilmagem do islandês Reykjavík Rotterdam, e que o ator principal desta produção, Baltasar Kormákur, foi justamente o diretor da produção hollywoodiana. Os responsáveis pelo roteiro da produção islandesa foram Arnaldur Indrioason e Óskar Jónasson, citados nos créditos de Contraband.

Ainda que o roteiro de Contraband seja competente ao traçar as cenas de ação, ele tem alguns probleminhas que acabam atrapalhando ao filme. (SPOILER – não leia… bem, você já sabe). Por exemplo, por mais que o protagonista seja conhecido como o “Houdini do contrabando”, algumas saídas dele acabam sendo mais interessantes pela falta de tempo para solucionar os problemas do que pela genialidade das soluções. Mas o que incomoda, realmente, é a parte final da produção. Como a tensão é resolvida de forma simples e um tanto difícil de engolir – especificamente o resgate de Kate.

Os atores tem desempenhos diferentes em Contraband. Mark Wahlberg está bem, assim como Ben Foster, mas Kate Beckinsale tem um desempenho sofrível. Fora a sequência em que ela apanha na saída da loja, nas demais ela parece ter as emoções neutralizadas. Não absorve a tensão de uma mãe de família em situação tão extrema – na qual estão em risco o irmão, os filhos e o marido.

Mas se há elementos que não funcionam muito bem em Contraband, algo se destaca do início ao fim da produção: a trilha sonora de Clinton Shorter. Eletrizante, pop e pesada em alguns momentos, a trilha revela-se fundamental para dar ritmo ao filme. Belo trabalho.

NOTA: 8,5.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: As cidades em que se passa a história deste filme acabam sendo personagens de Contraband. New Orleans, que ficou conhecida pela devastação do furacão Katrina, e a Cidade do Panamá, serviram de cenário para a história. Cada uma delas, com suas características, influenciam nas escolhas dos personagens. Um acerto do roteiro, que não torna o ambiente como algo secundário, mas importante para o desenvolvimento da trama.

Da parte técnica do filme, merecem ser destacados, além da trilha sonora, a edição de Elísabet Ronaldsdóttir e a direção de fotografia bem feita de Barry Ackroyd, que consegue manter a tensão nas cenas noturnas sem fazer a qualidade das imagens cair.

Do elenco, vale citar o bom trabalho de Lukas Haas como Danny Raymer, braço direito de Chris durante a operação; Lucky Johnson como Tarik, e Ólafur Darri Ólafsson como Olaf, ambos integrantes do grupo de contrabandistas; J.K. Simmons como o chefe do navio; e Diego Luna como o “maluqueiro” criminoso Gonzalo.

Contraband estreou no dia 12 de janeiro em mercados de pouco peso para a bilheteria mundial, como o Cazaquistão, a Rússia e Cingapura. No dia seguinte ele chegou aos Estados Unidos, Canadá, Bulgária e Paquistão.

O filme, que teria custado aproximadamente US$ 25 milhões, arrecadou pouco menos de US$ 66,5 milhões nos Estados Unidos até o dia 11 de março. Um bom resultado, especialmente porque a crítica não gostou da produção. O interessante é que, logo na estreia, Contraband conseguiu US$ 28,5 milhões nas bilheterias norte-americanas. Ou seja, o filme conseguiu se pagar nos primeiros dias. O que revela a força dos filmes de ação – e do elenco que encabeça esta produção.

Contraband marca a estreia do islandês Baltasar Kormákur como diretor em Hollywood. O primeiro filme dirigido por ele foi 101 Reykjavík, lançado no ano 2000, e que contou com recursos de cinco países europeus. Depois, ele dirigiu a outros cinco longas. O mais conhecido deles foi A Little Trip to Heaven, produção islandesa com co-produção dos Estados Unidos e estrelado por Forest Whitaker, Jeremy Renner, Julia Stiles e Peter Coyote.

Os usuários do site IMDb deram a nota 6,5 para Contraband. Nota baixa, mas melhor que a dada pelos críticos que tem seus textos linkados no Rotten Tomatoes. Eles dedicaram 77 críticas positivas e 73 negativas para o filme, o que lhe garantiu uma aprovação de 51% e uma nota média de 5,4.

Não assisti ainda a Reykjavík Rotterdam, mas fiquei com vontade de conferir o original por trás de Contraband. Especialmente pelo fato dele ter uma nota melhor no IMDb: 6,8. E também porque as produções originais tendem a ser melhores, não é mesmo?

CONCLUSÃO: Um filme de ação que fala sobre o inevitável caminho que a dívida no caminho do crime deve percorrer. Ainda que conheçamos a lógica deste caminho, sempre podem ocorrer imprevistos. Contraband segue o padrão de filmes do gênero até um ponto, mas também inova. A principal vantagem do filme, talvez, seja o trabalho do diretor, que não deixa fios soltos. Os diálogos convencem, não parecem ter saído de um manual de roteiristas. E o elenco masculino está muito bem, só Kate Beckinsale que tem muitos altos e baixos. Para quem gosta de filmes mais “realistas”, talvez a generosidade com o protagonista decepcione um pouco. Mas ele também sabe justificar o apelido de Houdini – famoso ilusionista capaz de escapar dos desafios mais complicados. Contraband pode não ser inesquecível, mas cumpre o seu papel de entretenimento. Para um filme do gênero, tão habituado a fórmulas, não é pouco.

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The Rum Diary – Diário de Um Jornalista Bêbado

Diz a lenda que todo jornalista que se preze tem que ser bom de copo. Em outras palavras, deve beber bem – ou fumar, pelo menos, porque algum vício básico o jornalista deve ter. The Rum Diary resgata esta lenda e se aprofunda nela através da história do jornalista Paul Kemp, interpretado por Johnny Depp. Quem acompanha a carreira do ator verá muitos pontos em comum entre The Rum Diary e o ótimo Fear and Loathing in Las Vegas, de 1998, dirigido por Terry Gilliam. Algo explica essa lembrança evidente: The Rum Diary é inspirado no livro de Hunter S. Thompson, o mesmo autor da obra que inspirou Gilliam. O problema deste novo filme de Depp é que ele não é melhor que o filme de Gilliam. Só mesmo os jornalistas para se identificarem com esta produção e achá-la (talvez) interessante acima da média.

A HISTÓRIA: Um avião de acrobacias vermelho percorre o céu de Porto Rico, em 1960. Ele carrega uma faixa que dá as boas vindas para a Union Carbide. O jornalista Paul Kemp (Johnny Depp) acorda com o barulho do avião no hotel em que está hospedado, recebe o café da manhã e sai para falar com o editor chefe do jornal San Juan Star, Edward J. Lotterman (Richard Jenkins). Mesmo não causando uma boa impressão, Kemp é contratado. Sua primeira missão é escrever o horóscopo diário do jornal. Pouco a pouco, ele vai adentrando na realidade de Porto Rico, mesmo sem falar espanhol, e é convocado pelo consultor de relações públicas Hal Sanderson (Aaron Eckhart), a emprestar o seu talento literário para um projeto de convencimento social de grupos imobiliários poderosos.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a The Rum Diary): Não tenho dúvidas que este filme afetará os seus distintos públicos de maneiras muito diferentes. Terá um impacto para os jornalistas, especialmente os da “velha guarda”. E terá um efeito muito mais suave para os que não vivem os prazeres e agruras desta profissão.

The Rum Diary, como o nome sugere, mostra a rotina de pessoas habituadas a beber muito. De entornar copos e copos – de cerveja e, principalmente, de rum. Afinal, estamos falando de Porto Rico, um país que é considerado um “Estado livre associado”, ou seja, não é totalmente independente e nem mesmo uma parte integral dos Estados Unidos (em outras palavras, não é um dos estados dos EUA).

A história conta que Porto Rico foi conquistado pela Espanha em 1493. Em 1898, o país foi cedido para os Estados Unidos. Cem anos depois, um referendo decidiu que Porto Rico seguiria no meio do caminho entre ser independente e fazer parte integralmente dos Estados Unidos. Desde 1917, quem nasce no país é considerado cidadão estadunidense. Mas pelo fato de Porto Rico não fazer parte da União de estados do país, seus cidadãos não podem votar para presidente, mas podem ajudar a eleger os vencedores das eleições primárias. Confuso, não?

Pois The Rum Diary mostra esta confusão entre uma identidade própria de Porto Rico e sua forte dependencia dos Estados Unidos – ao ponto do país ser visto como um reduto de férias para os aposentados da classe média dos EUA.

Predomina no país, segundo este texto, uma forte presença bélica estadunidense – com sete bases militares, no total. E, desde os anos 1960, muitas empresas multinacionais começaram a investir no país estabelecendo indústrias farmacêuticas, de eletrônicos, têxteis, petroquímicas e, recentemente, de biotecnologia. Em paralelo a estes investimentos, intensificaram-se as apostas no mercado imobiliário.

Neste cenário que se desenvolve a história de The Rum Diary. Além de abordar a rotina de um grupo de jornalistas – mais precisamente, de um trio -, que adora beber e observar o cotidiano para contá-lo nas páginas de um jornal, o filme trata da dependência de Porto Rico em relação aos Estados Unidos, e de como os interesses financeiros ditam as regras de um ambiente em que predomina a desigualdade social, a falta de oportunidades e de recursos próprios de um país.

Os jornalistas vão gostar e aplaudir alguns diálogos, especialmente entre os personagens de Kemp e Lotterman. A ironia relacionada com a profissão começa com o editor chefe do jornal colocando a nova promessa da empresa para escrever o horóscopo diário. Depois, Lotterman diz que está procurando alguém com entusiasmo, com energia, “sangue novo” que aporte qualidade para o jornal.

O problema é que ele não está interessado em quem faça isso com faro jornalístico. Porque o que importa, de verdade, é que a pessoa escreva apenas o lado “agradável” de Porto Rico, ressaltando temas que sejam de interesse do estadunidense médio, que sonha em gastar o dinheiro que economizou a vida toda para desfrutar uma pequena parte da realidade vivenciada por pessoas que tiveram êxito e sucesso.

A parte irritante da produção, além dela lembrar demais a Fear and Loathing in Las Vegas, é a forma com que o protagonista é “fisgado” por Chenault (Amber Heard). Muito previsível e recorrente aquela forma de apresentação da personagem e de fascínio em relação a ela. Sabemos em que lugar aquilo vai dar, desde o princípio. E a falta de novidades neste filme é o seu principal problema.

NOTA: 7,8.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Brigas de galo, bebida com altíssimo teor alcóolico, dinheiro comprando praias que deveriam ser públicas, ilhas que são de domínio militar sendo negociadas por baixo dos panos com grandes corporações imobiliárias. The Rum Diary toda em temas diversos, mas nada que torne a história realmente fascinante. Jornalistas bêbados e o carisma de Johnny Depp parecem ser o grande chamariz da produção. Nada inovador.

As paisagens, quando elas são exploradas, são lindas. E contrastam, propositalmente, com a sujeira e a decadência das casas, rinhas de galo, bairros e ruas da periferia da cidade enfocada.

A trilha sonora é uma das qualidades desta produção. Um trabalho excelente, diversificado e envolvente de Christopher Young.

O diretor e roteirista Bruce Robinson faz um bom trabalho, inspirado no livro de Hunter S. Thompson. O escritor e jornalista ficou conhecido pela obra Medo e Delírio em Las Vegas. Ele segue o estilo de jornalismo gonzo, no qual não existe separação entre autor e personagem, ficção e não-ficção. Uma prova disso é que Hunter mudou-se para Porto Rico em 1960, tal qual o personagem de The Rum Diary. A diferença é que ele foi para lá para trabalhar em uma revista esportiva. Mais informações sobre ele neste link.

Mas Robinson acerta mais na direção do que no texto, que acaba sendo bem previsível e que não ultrapassa o grau de “curioso”. Mantendo a câmera normalmente próxima do protagonista e dos demais personagens, ele produz um filme muito dependente do trabalho dos atores, que estão bem, mas não fazem nada excepcional, e desperdiça a oportunidade de focar mais o ambiente e suas distintas matizes.

Outros da equipe técnica que fazem um bom trabalho: o diretor de fotografia Dariusz Wolski, a editora Carol Littleton, o designer de produção Chris Seagers e a figurinista Colleen Atwood.

Do elenco, além de Johnny Depp, que aparece como um eco dele próprio do filme de Terry Gilliam, merecem destaque Aaron Eckhart, o sedutor e enigmático Sanderson; Michael Rispoli como o fotógrafo Bob Sala, que vira o melhor amigo do protagonista; Richard Jenkins, dando um show como Lotterman; Giovanni Ribisi como o sempre “over” Moberg e Bill Smitrovich como Art Zimburger, ex-fuzileiro naval e contato de Sanderson para fazer um grande empreendimento imobiliário.

The Rum Diary estrou em outubro de 2011 em uma premiere em Los Angeles. Uma semana depois, o filme entrou em cartaz na Rússia e nos festivais Gent, na Bélgica, e Austin, nos EUA.

Esta produção, rodada nas cidades de San Juan e Vega Baja, em Porto Rico, não custou barato: US$ 45 milhões. E arrecadou, até agora, muito pouco, cerca de US$ 13,1 milhões nos Estados Unidos.

Mesmo faltando originalidade para o filme, ele tem elementos para virar “cult” em algumas rodas – especialmente de jornalistas. Mesmo sem fazer muito sucesso entre a crítica, ele conseguiu um prêmio até o momento: o de trabalho excepcional de Amber Heard conferido pelo Hollywood Film Festival.

Os usuários do site IMDb deram a nota 6,3 para o filme. Os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes foram ainda mais duros com a produção, dedicando exatas 77 críticas negativas e 77 positivas para The Rum Diary – o que lhe garante uma aprovação de 50% e uma nota média de 5,6.

CONCLUSÃO: Os jornalistas vão gostar. Especialmente os mais velhos, que tem as suas próprias histórias de bebedeiras para contar. Mas os jovens da profissão, que não fazem mais o perfil de jornalistas beberrões ou fumantes, vão dar menos importância para The Rum Diary, assim como a maioria do público. Esta é uma produção interessante, que mostra como os desejso de quem tem dinheiro predominam em diversas realidades – especialmente em países menos desenvolvidos. Também trata dos bastidores de um jornal, e de parte da realidade de Porto Rico nos anos 1960. Tem um bom resgate de época, e atuações condizentes, mas lembra demais ao filme de Terry Gilliam – e é mais fraco que o original também estrelado por Johnny Depp. Vale como passatempo, mas não é indispensável.

À Margem do Lixo

Orgulhosos de seus trabalhos, organizados e militantes. À Margem do Lixo mostra uma ótica diferente dos catadores de materiais recicláveis de São Paulo. Sem narrador – o que reforça ainda mais a ótica dos realizadores – ou dados que revelem a importância daquele coletivo, o filme segue uma linha purista de documentário. Daquelas que conhecemos muito bem: o diretor e o roteirista assumem uma verdade e a perseguem até o final. Um filme interessante, que mostra parte da realidade. Como todo documentário, aliás.

A HISTÓRIA: Barracões. Um catador percorre o caminho entre eles, com o seu carrinho, enquanto um trem passa próximo. Depois, um catador corre e pasa por baixo de uma ponte, mas tem que parar para deixar o trem passar. Corta. A câmera agora mostra catadores com seus carrinhos cheios andando em meio ao trânsito de São Paulo. Eles se arriscam, mas seguem puxando quantidades incríveis de papelão e de outros produtos recicláveis. Faça chuva, faça sol. Para alguns motoristas, eles são apenas empecilhos, estorvos no trânsito já naturalmente complicado. Eles aparecem também caminhando por calçadas. Pouco a pouco, começando pelo catador conhecido como Bispo, o documentário vai contando a história destas pessoas, homens e mulheres, com um filme totalmente narrado por eles.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso só recomendo que continue a ler quem já assistiu ao filme À Margem do Lixo): Uma realidade pode ser contada de muitas e muitas maneiras. Ainda que qualquer documentário registre o que acontece da forma mais verdadeira possível, sem artifícios, ele se torna apenas um documento de parte de uma realidade mais ampla.

À Margem do Lixo é um filme panfletário. E isso não é ruim. Claramente esta produção defende a categoria dos catadores de lixo, primeiro mostrando a dureza de seu trabalho. Depois, a dignidade daquelas pessoas e o orgulho que elas sentem pelo que fazem. Finalmente, enfoca a organização e as discussões deles como grupos em busca de condições mais dignas.

Entre um argumento e outro, a produção também descola o “trabalho humano” dos catadores daquele “trabalho de máquinas” do processamento daquele material recolhido pelos heróis desta história. De um lado, gente em busca de dignidade. De outro, indústrias sem trabalhadores. Fica evidente a defesa dos realizadores de que há algo errado nestes extremos. De que falta um pouco de equilíbro na equação, e de repartir mais aquelas “riquezas”. O dinheiro parece ser feito por máquinas, em um lirismo mecânico descolado do fim humanitário de todo aquele processo, que deveria ser o de dar oportunidades, comida e estudo para pessoas batalhadoras.

O diretor Evaldo Mocarzel, responsável pelo roteiro junto com Willem Dias, faz escolhas interessante. Constrói o seu discurso de forma programática, começando pelo sacrifício dos catadores de materiais recicláveis – e que eles mesmos reconhecem que a maioria das pessoas chama de lixo – e chegando até a mobilização deles com a lógica industrial. Um dos líderes de uma das cooperativas faz um discurso com alta carga política e ideológica, encerrando a produção com uma reflexão interessante.

Afinal, o único caminho possível, já que todos nós integramos um sistema baseado no capitalismo, na livre concorrência, na globalização e tudo o mais que vem na rasteira disso, é seguir a mesma lógica? Adequar-se para sobreviver? Certamente não dá para nadar sozinho contra a maré. Mas encontrar alternativas sem repetir as mesmas fórmulas de exploração e de desumanização parece ser mais legítimo, especialmente para coletivos muitas vezes marginalizados, do que seguir repetindo velhas fórmulas.

Mocarzel e os diretores de fotografia Gustavo Hadba e André Lavenère fazem um grande trabalho na captação do cotidiano daqueles trabalhadores. Eles focam a realidade de alguns deles, tentando aprofundar em suas visões de mundo. Pena que muito do documentário fique restrito apenas ao trabalho. Fora a história da mulher que leva e busca a filha da escola todos os dias, antes e depois do trabalho como catadora, os demais tem pouco da vida pessoal mostrada pela produção.

Claramente À Margem do Lixo não está preocupado em resgatar as histórias de vida e o cotidiano daquelas pessoas de uma maneira mais ampla. Claro que é um acerto da produção colocá-los para comentar as suas próprias cenas. Ao invés de termos um narrador “onipresente”, dos roteiristas chamarem alguém para falar sobre aquela realidade e aquelas cenas, assistimos aos “atores” que vivem na pele aquele cotidiano falando sobre ele. Bacana.

Só que senti falta de conhecer mais sobre eles. Além do momento da narração. De saber o que eles fazem antes de pegarem o carrinho ou o caminhão para catar os materiais por São Paulo. E o que eles fazem depois? Descontado o caso da mulher com a filha, que também tem a intimidade pouco mostrada, do restante sabemos quase nada. Desta forma, o documentário não se aprofunda naquelas pessoas que, muitas vezes, nem são identificadas. Essa é uma carência da produção.

Por outro lado, ela deixa evidente a vontade de mostrar como as cooperativas funcionam. Logo após a história do Bispo, que emociona por revelar em detalhes a força que ele tem que fazer, seus sacrifícios e o orgulho que ele sente do que faz, assistimos às primeiras cenas das reuniões de lideranças das cooperativas.

Essas discussões permeiam todo o filme, assim como cada etapa da produção é cortada por imagens de máquinas processando todo aquele material. Belo trabalho, nestas sequências, tanto do diretor quanto do editor, Willem Dias. Eles fazem a “trilha sonora” destas sequências com os barulhos das máquinas – sob a batuta dos músicos Thiago Cury e Marcus Siqueira.

No total, são sete personagens que vão nos contando essa história através de seus exemplos. Conscientes, eles sabem como ninguém por que dificuldades passaram e, mais que isso, o que falta ser feito para que o trabalho deles, importante para a sociedade, seja mais valorizado. Há frases e discursos muito sábios neste filme, assim como outros um pouco datados – como aqueles que tratam de problemas pontuais que os grupos estão vivendo na cidade de São Paulo, sem a possibilidade de se encontrarem com o prefeito, e com o risco de ver os seus trabalhos privatizados e executados por grandes empresas.

Mesmo com os problemas citados anteriormente, À Margem do Lixo é um documentário importante, que dá voz para pessoas que tem o que falar. Emociona, ao evidenciar a luta deles, e provoca reflexão em vários sentidos. Por exemplo, em uma crítica recorrente de alguns daqueles catadores de que eles não devem ser tratados como “coitadinhos” e serem conduzidos por entidades – ONGs ou grupos associados à igrejas. Mas que eles querem ter apenas a oportunidade de trabalhar dignamente, com respeito. Cada vez mais conscientes e mobilizados, aqueles grupos parecem preparados para brigarem por melhores condições.

Se este documentário ajudar para que estas pessoas deixem de ser “invisíveis” nas ruas, calçadas e demais espaços urbanos, ele já terá feito o seu papel. Começando pelos motoristas, que devem esquecer um pouco a pressa e entender que a rua é feita para todos. Especialmente para quem está trabalhando. Belo trabalho, com uma lógica bem definida e que constrói bem a sua narração a partir destas convicções. Para ficar melhor, faltou uma aprofundada maior na vida daquelas pessoas, dar nome para eles – não é porque a sociedade os ignora que os realizadores também precisam torná-los “sem identidade” – e mostrar alguns números que contextualizariam este tipo de trabalho.

NOTA: 8,5.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: O filme, propriamente, merecia uma nota menor que essa. Talvez um 8, ou 7,8. Mas por ser tão cheio de boas intenções, resolvi melhorar um pouco o conceito que eu daria para a produção. Evaldo Mocarzel merece ter o trabalho acompanhado. E as pessoas retratadas neste filme, ter suas vidas retratadas e difundidas.

Falando em divulgação, vale comentar como cheguei a este filme. Uma cópia dele foi enviada para a redação do Diário Catarinense, onde eu trabalho. E como estou contribuindo como crítica de cinema para o jornal, passaram ele para mim. À Margem do Lixo faz parte de um projeto muito bacana, chamado Cine Mais Cultura. Através dele, o filme será distribuído, a partir deste mês e até maio, a 1109 cineclubes de quase 700 cidades de todos os estados do país.

De acordo com o material que acompanha o filme, participarão desta distribuição os filiados ao Conselho Nacional de Cineclubes, entidade da sociedade civil que representa os cineclubes brasileiros, e contemplados do Programa Cine Mais Cultura, do Ministério da Cultura, uma ação que disponibiliza por meio de editais equipamentos de projeção digital, obras brasileiras do catálogo da Programadora Brasil e oficina de capacitação cineclubista, atendendo prioritariamente periferias de grandes centros urbanos e municípios em vulnerabilidade social. Muito bacana!

À Margem do Lixo integra uma tetralogia que foi iniciada pela produção À Margem da Imagem, de 2003, que “discute a estetização da miséria e o roubo da imagem de quem está na exclusão social mais absoluta”, seguida de À Margem do Concreto, de 2005, que trata dos sem-teto de São Paulo. Ainda falta a produção que irá fechar este ciclo.

No material de divulgação deste filme, o diretor Evaldo Mocarzel explicou desta forma esta produção: “O documentário tenta focalizar a indústria da reciclagem a partir do catador. O Brasil é líder mundial da reciclagem de alumínio. 87% do alumínio produzido é reciclado. A lucratividade desta indústria é sustentada de muitas maneiras pela economia informal e pela miséria destes catadores”.

Jornalista, Mocarzel enfatizou a diferença entre uma reportagem e um documentário: “No documentário, você pode fazer uma imersão em um tema e não tem que ouvir todos os lados. Se eu colocasse um dono de fábrica (de reciclagem de materiais), eu estaria criando uma armadilha ética condenável. Eu queria um filme que falasse sobre o trabalho. Eu queria um cinema de propaganda da luta e da militância”. Sem dúvida alguma ele conseguiu fazer isso. Gostar ou não é uma tarefa para o espectador.

Lançado em novembro de 2008 no Festival de Brasília, À Margem do Lixo estreou em poucos cinemas do país, em circuito comercial, três anos depois, em novembro do ano passado. Agora, chega até os cineclubes, como comentei antes.

Segundo o site IMDb, À Margem do Lixo teria custado cerca de R$ 500 mil para ser produzido. Praticamente desconhecido, ele não foi avaliado pelo site e nem por qualquer crítico linkado no Rotten Tomatoes.

Até o momento, À Margem do Lixo ganhou cinco prêmios. No 41º Festival de Brasília, entregue em 2008, recebeu o Prêmio Especial do Júri, o de Melhor Filme pelo Júri Popular, o Prêmio Aquisição TV Brasil e o de Melhor Fotografia. No 12º Festival Internacional de Cine de Derechos Humanos, promovido na Argentina, recebeu o prêmio de Melhor Documentário.

CONCLUSÃO: Um filme interessante, que evidencia os rostos e as vozes de gente importante e normalmente esquecida pelas câmeras. Ainda assim, À Margem do Lixo peca por não se aprofundar. Faltaram dados, ou um pouco mais de contexto sobre a importância daqueles homens e mulheres. Algo que fizesse este filme chegar ao nível de outras produções que ganham projeção mundial. Com isso não quero dizer que o diretor deveria abrir mão de sua argumentação – pelo contrário. Mas sair do simples registro da realidade – ainda que feito de uma forma maravilhosa e bela – para dimensionar com informações o que aquelas pessoas estavam dizendo, tornaria o filme mais interessante. Da forma com que ficou, é apenas mais um documentário sem grande projeção. Um documento histórico, mas que não transcende o nosso tempo.

The Grey – A Perseguição

O que pode ser pior do que trabalhar em um local inóspito, gelado, cheio de neve por todos os lados e cercado por sujeitos durões, que curtem um bar e uma briga? E se na saída deste local, o avião em que você está cair, em local ainda mais inóspito? The Grey mostra que realidades complicadas podem sempre ficar ainda mais complicadas. No melhor estilo de “nada que está ruim não pode piorar”. Um filme angustiante, com um grande ator à frente do elenco, e que segura a tensão até o final. Belo trabalho do diretor Joe Carnahan, que tem um estilo seco e direto. Como uma história assim exige.

A HISTÓRIA: Cenário com montanhas geladas e trilha sonora composta de uivos. Instalações fumegantes, e a voz grave de Ottway (Liam Neeson) fala sobre um trabalho no fim do mundo. Ele se define como “um matador assalariado de uma grande companhia petrolífera”. No início, você pensa que ele está fazendo uma fina ironia mas, de fato, ele é um matador. De lobos. Ottway cuida da segurança dos funcionários da companhia, eliminando os animais ferozes quando eles se aproximam demais. Sujeito cheio de arrependimentos, Ottway segue o seu caminho meio que por inércia, até o dia em que eles tem que sair às pressas do local antes da chegada de uma tempestade de gelo. Eles embarcam em um avião, que sofre um acidente. A partir daí, Ottway e os sobreviventes terão que enfrentar as piores condições e perigos na busca pela sobrevivência.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a The Grey): Poucos tem a coragem do diretor e roteirista Joe Carnahan para fazer um filme como este. Porque, pela densidade e desesperança convicta desta produção, ela pode ser tudo, menos um projeto que renderá uma grande bilheteria. As pessoas não querem saber de filmes como este. Querem assistir a fantasias, ou comédias escrachadas e repetitivas. Tudo que lhes faça esquecer um pouco da dureza de suas próprias realidades. Prova disso são as últimas grandes bilheterias de Hollywood.

Então é preciso ter coragem para fazer um filme como The Grey. Porque ele não alivia. Pelo contrário. Vai ficando cada vez mais tenso e forte conforme a história se desenvolve. E a beleza desta produção é que ela não é apenas isso. Um filme sobre situações extremas e o choque entre o homem racional e a sua parte irracional e/ou primitiva.

O protagonista, por exemplo, não é apenas uma figura dura, mas também um homem adulto que é capaz de olhar para o passado e citar a poesia do pai, ter foco em saídas corajosas no presente enquanto ele lembra da voz doce da amada perdida. E não é apenas ele que tem a história destrinchada. Outros personagens que o acompanham também tem suas memórias, temores e momentos de valentia. Esses elementos fazem toda a diferença em The Grey.

O cenário do filme parece impossível para qualquer ser humano. E, ainda assim, aquelas pessoas insistem em buscar a vida por lá. Contra todas as adversidades. Essa teimosia mostra a valentia do espírito daquelas pessoas, ou apenas uma falta extrema de alternativas? As duas respostas são válidas.

Porque os personagens de The Grey mostram valentia e ao mesmo tempo desespero. Eles estão naquela parte do mundo porque o homem é ambicioso. Porque aqueles sujeitos “desprezados” em qualquer socidade “desenvolvida” acabam sendo convocados por uma companhia que quer faturar alto explorando o petróleo, esse líquido negro tão valioso. Claro que eles não são, apenas, vítimas. Muitos deles tem um passado de delitos, ou de equívocos. Ninguém para em um lugar como aquele se não tem algumas cicatrizes espalhadas pelo corpo e pela alma.

Até o nome do filme parece nos dar uma dica sobre a essência da história. Certo que, em certo momento, o “assado” de um lobo explica um pouco do “cinza” do título. Mas não acredito que seja apenas isto. The Grey revela que a vida não é preto no branco, ou simples de elucidar. Homens “brutos” também amam, já revelaria um clássico do cinema. Não apenas Ottway tem memórias calorosas e apaixonadas para revisitar. Cada um daqueles homens teve uma namorada, uma mulher ou filhos que lhes fazem resgatar forças para seguir, ainda que o caminho adiante pareça cada vez pior.

Os personagens desta história podem parecer renegados, brutos, sempre próximos de algum gesto descontrolado – especialmente após alguns tragos. Mas eles também são capazes dos melhores gestos de irmandade, de bravura – além daquele estágio de pura luta pela sobrevivência. Nem sempre, mais uma vez, é possível resumir as situações em preto ou branco. A vida, talvez em grande parte do tempo, esteja mais para tons de cinza.

Além destas questões filosóficas e de “fundo”, The Grey se revela um ótimo filme de ação. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Há cenas impressionantes, como aquela do acidente de avião, e outras de perseguição e ataque dos lobos. Claro que algumas sequências deixaram a desejar – especialmente algumas envolvendo efeitos especiais relacionados com as feras. Mas, na maior parte do tempo, Carnahan soube equilibar, junto com o roteirista Ian Mackenzie Jeffers, autor do conto Ghost Walker, no qual o filme é inspirado, os momentos de tensão, suspense, ação e de aprofundamento/proximidade em relação aos personagens.

Como argumentei lá no início, incrível como o pior dos cenários pode ficar ainda mais complicado. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Trabalhar e viver no ambiente mostrado no início de The Grey já é algo difícil. Para piorar, aqueles homens sofrem um acidente de avião. Estão perdidos no gelo, suscetíveis à tempestades, sem comida, sem perspectiva de serem resgatados. E ainda há a ameaça, não apenas pela noite, mas também durante o dia, de uma matilha de lobos furiosos. Caramba! Este aumento da tensão e as perdas que vão se acumulando, elevam a tensão. O filme acerta ao não aliviar.

Liam Neeson está matador. A voz dele, densa, encorpada, não poderia ser substituída por nenhuma outra. Seu olhar e atitude, que lembram a dos lobos que ele combate desde o início, dão o tom exato para o personagem – criando legitimidade e, ao mesmo tempo, ainda mais tensão para esta história. Brilhante. Os demais atores estão bem, ainda que nenhum tenha o mesmo destaque que Neeson.

O roteiro está muito bem escrito, mas para não dizer que ele é perfeito, ele demora um pouco para engrenar e tem algumas participações um tanto mal construídas. Por exemplo, o personagem de Flannery (Joe Anderson), que morre logo no início. Todos sentem muito a perda dele, mas isso não afeta aos espectadores, porque não sabemos nada a seu respeito. Faltaram umas linhas e/ou um pouco mais de tempo para mostrar a importância dele para aquele grupo. Algo similar acontece com Burke (Nonso Anozie). Um pouco mais de elementos sobre os personagens não faria mal para o filme.

Outros elementos importantes para o filme funcionar bem são a direção de fotografia de Masanobu Takayanagi, a trilha sonora marcante de Marc Streitenfeld e a edição da dupla Roger Barton e Jason Hellmann.

E algo que o filme faz pensar e que vale o ingresso: o que as pessoas normalmente pensariam após sobreviver a uma queda de avião como aquela? Que Deus tem um plano maior para elas, certo? (SPOILER – não leia… bem, você já sabe). E eis uma das sacadas do roteiro. Lá pelas tantas, em desespero – e com razões para isso -, Ottway chega a pedir uma explicação sobre o que está acontecendo para Deus. Mas eis a questão, não existe nenhum plano superior. Aqueles homens não foram “poupados” porque vão ajudar a mudar o mundo. Mas no tempo que eles ganharam, eles tem a oportunidade de aprender algumas coisas.

De aprender com o sofrimento e com o medo. Com a dor e a proximidade de pessoas que eles não imaginariam conhecer mais de perto. Assim como com uma rápida olhada para o passado e para o amor que os une a pessoas que não estão ali. Mas Deus não fará um milagre e soltará raios para exterminar as ameaças. Os homens devem lutar por suas vidas, fazer a parte que lhes deve. Talvez essa seja uma das grandes reflexões da história. Viva ou morra hoje. Isto pode acontecer em um dia, para qualquer um de nós. Mas lutar até o fim é que nos faz maiores. The Grey mostra isso.

NOTA: 9,5.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: The Grey foi totalmente rodado no Canadá. Mais precisamente nas cidades de Edmonton, Smithers, Vancouver e Whistler. Em outras palavras, sim, na neve. Essa era uma dúvida que eu tinha. Se aquela equipe e atores tinha realmente penado no gelo ou a maioria das cenas tinham sido apenas simuladas em estúdio – o que parecia ser difícil de fazer, pela maioria dos cenários serem abertos. Mas nunca se sabe, com a alta tecnologia de efeitos especiais…

De fato, lendo sobre as notas da produção, vi que o ator Liam Neeson comentou que, na maioria das cenas, rodadas em Smithers, a sensação térmica era de – 40ºC. Sim, 40 graus NEGATIVOS. Honestamente, eu nem consigo imaginar como é caminhar, quanto mais trabalhar – leia-se atuar – nesta temperatura. Impressionante.

As cenas de tempestade de neve foram reais – nada forjado com equipamentos do cinema. Incrível. Mais alguns argumentos para que Neeson seja, finalmente, indicado e/ou vencedor de algum prêmio importante, como o Oscar. Interpretar com tanta convicção o personagem dele sob condições reais como aquelas não é para qualquer um. Eu diria que nem 10% dos astros de Hollywood encarariam algo assim.

Para se preparar para este papel, Neeson também consumiu carne de lobo – isso que eu chamo de “entrar” no personagem. 🙂

Há uma cena rápida, após os créditos finais. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Mas ela não ajuda muito a “matar a charada”. Nesta imagem final, o lobo alfa aparece ofegante, e a cabeça de Ottway está repousada sobre o estômago do lobo. Não fica claro quem venceu a disputa. Ou se houve vencedor. Claro que a imagem remete a uma cena mais no início do filme, em que Ottway repousa a mão sobre o estômago do lobo que ele abateu. Mas no final, não se sabe se, novamente, ele espera o último suspiro do lobo ou se ele também está dando o último suspiro. Nunca saberemos. E é bom assim. Cada um faz a sua aposta e tem a sua resposta – e todas são válidas.

The Grey teria custado US$ 25 milhões. Não é uma cifra desprezível, mas podemos dizer que os recursos foram bem gastos – levando em conta as condições e locais em que o filme foi rodado. Para a minha satisfação, esta produção não apenas se pagou, mas está dando lucro. Até o dia 25 de março, o filme tinha faturado pouco mais de US$ 51,3 milhões apenas nos Estados Unidos. Vida longa para ele, pois.

Os usuários do site IMDb gostaram do filme. Eles garantiram a nota 7,1 para The Grey – bela avaliação, para os padrões do site, e especialmente porque este não é um filme para “grandes públicos”. Os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes também aprovaram a produção, dedicando a ela 135 textos positivos e 37 negativos – o que lhe garante uma aprovação de 78% e uma nota média 6,8. Achei a nota dos críticos um pouco baixa, mas paciência.

The Grey estreou nos Estados Unidos em um circuito fechado no dia 11 de dezembro, mas entrou em cartaz pra valer em seis países no final de janeiro. Até o momento, o filme foi indicado apenas a um prêmio, o de melhor filme de terror/thriller na premiação da Academy of Science Fiction, Fantasy & Horror Films dos Estados Unidos.

Este é o sétimo trabalho do diretor Joe Carnahan. Antes ele dirigiu a Narc, Smokin’ Aces e The A-Team.

CONCLUSÃO: Você tem as piores condições possíveis e imagináveis para seguir vivo e, ainda assim, você continua seguindo. Isso porque, não muito tempo antes, você tinha pensado em desistir de tudo. The Grey fala da força da natureza, e do esforço do homem em tentar controlá-la, superar os seus próprios limites e tudo o mais que vem ao seu encontro. O homem também é feito de instinto, e desta vontade incontrolável para seguir vivo. The Grey trata destas forças e desejos, assim como faz um resgate interessante de um grupo de homens que, normalmente, não aparece no centro de uma história de Hollywood. Mais um grande trabalho de Liam Neeson, e de um diretor que não pensa duas vezes em se arriscar em uma história selvagem e dura. Bela surpresa – especialmente se você gosta de filmes diretos e que não buscam uma solução simples para realidades complicadas.