Rester Vertical – Staying Vertical – Na Vertical

 

 

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Eis um filme “muitcho dôido!”. Não que ele seja do tipo psicodélico, mas certamente Rester Vertical foi gerado em uma das seguintes situações: ou o diretor/roteirista estava em uma grande “viagem” regada a drogas ou álcool quando escreveu esta história ou ele vivia uma grande crise de criatividade. Digo isso porque o filme se debruça na vida de um roteirista que não consegue escrever e, para o passar o tempo, resolve dar em cima, fazer sexo ou flertar com quem aparece pela frente. Basicamente isso. No final, você se pergunta qual é a razão mesmo da história. E, aparentemente, ela não tem razão alguma. Ainda que o realizador diga que o sentido dela é realmente mexer com os rótulos. Neste sentido, até pode fazer algum sentido – se nos esforçarmos para achá-lo.

A HISTÓRIA: Em uma estrada estreita cercada de verde, no início de uma reta um jovem rapaz chama a atenção de Léo (Damien Bonnard). Em seguida, ele vê um velho sentado em uma cadeira. Na entrada da casa do velho, Léo dá a volta e retorna com o veículo para falar com Yoan (Basile Meilleurat). Ele pergunta se o jovem nunca pensou em fazer cinema. Yoan diz que não, e Léo insiste se ele não gostaria de fazer uma audição. O rapaz corta o papo e vai andando em direção à casa. O velho, Marcel (Christian Bouillette), cumprimenta Léo quando ele passa. Léo caminha pelos campos olhando por todas as partes. Em certo momento, ele encontra um rebanho de ovelhas e a pastora Marie (India Hair). Eles ficam juntos naquele dia e Léo conhece a família de Marie. A partir deste dia, Léo começa a migrar do interior para a cidade e vice-versa.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Rester Vertical): Um filme que é uma grande massagem no ego de qualquer roteirista. Afinal, quem não gostaria de ficar perambulando pelo belo interior da França e volta e meia ir para a cidade ganhando dinheiro pela promessa de um trabalho que realmente não está sendo feito? Parece fácil, não é mesmo? De quebra, entre uma ida e outra vinda, o tal roteirista ainda pode ser considerado a “última bolacha do pacote” já que é praticamente desejado por todos que ele encontra no caminho – especialmente no interior.

Mas antes de falar sobre o que este filme realmente aborda – ou tenta tratar -, vamos falar um pouco sobre o começo de Rester Vertical. Não sei vocês, mas no início eu achei que o protagonista era um produtor e/ou diretor de cinema que estava em busca de novos lugares para filmar e de novos rostos/talentos para aparecer em cena em um filme qualquer. Seria interessante se fosse algo assim, porque seria possível para o diretor e roteirista Alain Guiraudie explorar um pouco mais o “fazer cinema”. Mas não.

O protagonista de Rester Vertical é um roteirista em “crise” – não sabemos o quanto esta crise é existencial ou de talento mesmo – que acaba revisitando o interior francês do qual ele tanto gosta. No início, ele parece interessado em absolutamente tudo. Parece sedento por qualquer tipo de inspiração. Algo interessante neste filme é que ele começa e termina com uma mesma “busca” do tal roteirista/protagonista. Ele quer encontrar um lobo de frente.

Esse lobo pode simbolizar muitas coisas. Para começar, os próprios medos de Léo. Depois, a necessidade dele de se manter sempre “ereto”, corajoso, capaz de enfrentar os próprios medos e o perigo que pode lhe cercar. É como se ele encarasse o perigo de frente e resolvesse vencê-lo com a sua própria bravura e sem mais recursos. O problema é que Léo tem uma visão romântica do lobo, assim como parece ter da própria vida. Sem uma entrega decente há algum tempo, sem posses, ele acha que pode apenas com a “cara e coragem” cuidar de uma criança e de si próprio.

Quando conhece Marie e ela lhe pergunta sobre a casa dele, Léo afirma que não tem casa e que vive entre hotéis e casa de amigos e conhecidos. Para quem tem uma boa conta bancária isso pode não ser problema. Mas não é o caso de Léo. Curioso que no filme inteiro nós não ficamos sabendo de nenhum amigo do roteirista. A única pessoa com quem ele fala, além daquelas do interior que ele fica conhecendo a partir do começo do filme, é o produtor que está esperando o tal roteiro que ele deveria estar escrevendo.

Além dele, que aparece lá pelas tantas no filme (interpretado por Sébastien Novac), vemos apenas a uma terapeuta, doutora Mirande (Laure Calamy). Todas as outras pessoas do entorno de Léo são aquelas que ele conhece no interior da França. Então cadê os tais amigos e conhecidos dele que o ajudam quando ele precisa? Parece que eles não existem. Léo parece ter uma visão romântica e/ou idealizada dos lobos da mesma forma com que ele tem esse tipo de visão da vida mesma. Ele acha que tudo vai se resolver por inércia e que basta ele insistir em cuidar do próprio filho – não importando se ele tem ou não condições práticas para isso.

Boa parte da história de Léo e de suas interações são meio “sem sentido”. Ele chega nas pessoas sempre com uma expressão de real interesse mas, ao mesmo tempo, ele não parece conseguir realmente se relacionar com ninguém em profundidade. Na primeira investida dele com Yoan achamos que ele estava dando uma cantada no garoto. Na sequência, ele logo fica com Marie. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Depois, ele mostra um grande interesse por um morador de rua da cidade (interpretado por Tangi Belbeoc’h) e por Marcel. Ficamos nos perguntando se ele tem realmente interesse por todos que encontra, de forma despretensiosa, por ser boa gente e atencioso, ou se ele tem segundas intenções.

Talvez um dos sentidos do personagem do Léo nesta história seja nos perguntarmos realmente sobre isso. O quanto o nosso senso de autopreservação e de certa desconfiança das pessoas afeta o nosso olhar sobre elas? Yoan não tem dúvidas de que está recebendo uma cantada de Léo e, por isso, o rechaça do início ao fim. Marcel acredita que Léo tem uma inclinação homossexual e que deseja mais do que uma simples amizade. Lá pelas tantas, o quase sogro de Léo, Jean-Louis (Raphaël Thiéry), dá em cima do roteirista sem rodeios. Léo não cede à investida, não porque ele não queira, mas porque ele não se imagina transando com o avô do filho dele – pelo menos é desta forma com que ele se justifica.

Até pela cena final entre Léo e Marcel concluímos que o roteirista é bissexual. Quando fala do filho, em certo momento, ele comenta que até gosta do fato de Marie não gostar da criança – afinal, ele poderá cuidar do filho sozinho e sem o “inconveniente” de uma mulher. Parece que ele não é tão chegada em mulheres assim. Rester Vertical sugere que ele gosta mais da companhia de homens – de qualquer idade.

Algo que eu achei incrível nesta produção é como Léo faz as vezes do “super” homem sexual. Ele parece exalar sexualidade enquanto caminha. Afinal, ou ele transa com quem aparece pelo caminho (Marie e Marcel), ou dá em cima da pessoa (Yoan e, dependendo da leitura, do morador de rua) ou recebe cantadas dela (Jean-Louis). Para mim, pareceu uma grande desculpa de Alain Guiraudie para mostrar corpos nus, genitálias em close – eu nunca me imaginei vendo um parto natural, e fui obrigada a assistir a cena nesta produção – e uma ou outra cena de sexo.

O personagem de Léo é uma grande massagem no ego de qualquer roteirista – que queira, evidentemente, ser visto como um objeto constante de desejo. Para mim, Rester Vertical é uma grande “viagem” de um realizador que quer mostrar as suas próprias desventuras e/ou fantasias. Pouco além disso. Só não dei uma nota mais baixa para a produção porque, para mim, dá para tirar dela algumas pequenas leituras interessantes. Para começar, ela quebra alguns preconceitos. Os dois mais evidentes são de que nem toda mulher precisa querer ter três filhos e ser louca por eles – vide a falta de apego de Marie pelos filhos, especialmente o recém-nascido – e de que um homem pode sim, se tiver as habilidades e o interesse, cuidar sozinho de seu próprio filho.

Acho que muitas mulheres não querem ter filhos e, como Marie, se sentem “estranhas” – para dizer o mínimo – quando acabam fazendo o que parte da sociedade acha correto (conhecer um homem e ter um filho com ele). O resultado que vemos por aí, inclusive fora das telas do cinema, é que muitas mulheres não se sentem realmente amorosas ou realizadas com os filhos que tiveram para satisfazer a outras prerrogativas que não o próprio desejo sincero delas mesmas. Depois, achei interessante que Léo tinha um “espírito” de paizão, apesar de fugir deste estereótipo, e que ele faz questão de encarar o desafio de cuidar sozinho do filho que teve com Marie. Alguns homens são perfeitamente capazes de fazer isso.

O final do filme também me pareceu interessante. Digamos que “redimiu” um pouco do recheio “viajandão” da produção. Se pensarmos no final casado com o início da produção e com a “postura” de Léo com a vida, faz todo o sentido. Uma das mensagens que podemos tirar de Rester Vertical é que é preciso encarar os nossos “lobos” internos/externos com altivez, com a cabeça erguida e com coragem, sem demonstrar medo.

É como a própria história da humanidade, que venceu os seus predadores/inimigos com esta mesma postura. Sim, é preciso ter altivez para encarar todos os perigos, mas nunca podemos esquecer que, às vezes, esse perigo anda em matilha. Léo vive em uma fantasia quando acredita que basta se manter “ereto” para encarar não apenas um, mas vários lobos. Ele está perdido, e logo vai descobrir sobre isso. Para sobrevivermos, precisamos mais do que altivez e coragem. É necessário inteligência para conhecer o perigo e os inimigos, humildade para conhecer os seus próprios limites e estratégia para resolver os conflitos da melhor forma possível. O protagonista desta produção, infelizmente, sabe pouco sobre tudo isso.

NOTA: 6,5.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Existe uma mensagem curiosa neste filme. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme ainda). Uma possibilidade de leitura do que Alain Guiraudie nos apresenta é aquela velha história de que “todos são gays ou, se ainda não são, um dia vão descobrir que podem vir a ser”. Pelo menos é isso o que parece estar sugerido nos comportamentos de Yoan, Jean-Louis e Marcel. Os dois últimos foram casados, o primeiro teve uma filha, mas ambos acabam buscando Léo como parceiro sexual.

Yoan não cede às cantadas do roteirista, mas Marcel vive o chamando de “bichinha” e dizendo que ele foi atrás de “paus maiores”. Ainda que ele se relacione com Marie no final, ficamos em dúvida realmente se Yoan era, a exemplo de Léo, bissexual ou não – e mesmo Léo, ao invés de ser bi, poderia ser um homossexual que resolve “encarar” Marie para ter um filho, apenas. Acho sim que muitas pessoas são homossexuais ou bissexuais – e verdade que várias delas “escondem” isso -, mas a generalização de Rester Vertical me pareceu, a exemplo do protagonista, um tanto “romântica” e/ou inocente demais. Um tanto pueril. O mundo tem mais matizes do que apenas estas cores e há sim muita gente que não tem toda esta “inclinação” de “experimentar” em algum momento da vida. Nem todos encarariam o “Léo última bolacha do pacote”.

Para o meu gosto, o roteiro de Rester Vertical é o ponto fraco da produção. O início e o fim me pareceram mais interessante que o miolo. Parece que, a exemplo do personagem de Léo, Alain Guiraudie também passou por uma “crise criativa” e não sabia muito bem o que fazer com a história. Acho que a história de Rester Vertical derrapa aqui e ali até engrenar perto do final. A direção de Guiraudie também me pareceu regular, procurando valorizar o trabalho dos atores, mas com alguma sequências um tanto desleixadas – como quando Léo caminha pelos campos ou em algumas sequências nos veículos que aparecem em cena.

Entre os atores em cena, o destaque vai mesmo para Damien Bonnard. Ele faz um bom trabalho dentro do perfil que foi construído para o personagem dele. Convence com o seu olhar atencioso e sensível. Uma bela interpretação. Os outros atores em cena me pareceram em um nível um pouco inferior. Alguns, um tanto amadores. Os que tem destaque na produção “giram em torno” de Léo, com maior importância para India Hair, Christian Bouillette, Raphaël Thiéry e Basile Meilleurat – nesta ordem de relevância. Fora Damien Bonnard, nenhum grande destaque – talvez para Christian Bouillette.

Entre os aspectos técnicos do filme, destaco a direção de fotografia de Claire Mathon, que sabe valorizar bem o interior francês; a edição de Jean-Christophe Hym; e o design de produção de Toma Baqueni.

Rester Vertical estreou no Festival de Cinema de Cannes em maio de 2016. Depois, o filme passou por outros 22 festivais em diferentes países. Nesta trajetória, a produção conquistou quatro prêmios e foi indicada a outros oito. Os prêmios que recebeu foram o de Melhor Filme dado no International Cinephile Society Awards; de Ator Mais Promissor para Damien Bonnard no Prêmio Lumiere; Melhor Filme Não-USA no Online Film Critics Society Awards; e Melhor Diretor para Alain Guiraudie no Festival de Cinema Europeu de Sevilha.

Esta produção, 100% francesa, foi totalmente rodada na França. Entre os locais das filmagens estão Marais Poitevin, Brest, Causse Méjean, Sévérac-le-Château e Coulon. Cito as cidades caso alguém queira fazer um tour pelo interior francês. 😉

Procurei saber mais sobre Alain Guiraudie já que este filme me pareceu realmente diferenciado. Podemos gostar ou não do que vemos em cena, mas algo é inegável: o diretor tem estilo. Procurando, encontrei este texto interessante de Eric Kohn, da IndieWire. Kohn comenta como, em quase 30 anos, Guiraudie desenvolveu uma filmografia “ousada e transgressora” sobre as dificuldades para a definição da identidade sexual moderna. Apesar deste tempo todo de desenvolvimento desta linha de cinema, Guiraudie recebeu mais atenção quando ganhou o prêmio de Melhor Diretor em Cannes pelo filme Stranger by the Lake.

Na avaliação de Kohn, com toda a visibilidade que teve por causa de Stranger by the Lake, Guiraudie poderia ter feito um filme mais “mainstream” na sequência mas, ao invés disso, ele apresentou uma produção ainda mais audacioso – se referindo a Rester Vertical. No texto da IndieWire é citado que Guiraudie quis fazer com Rester Vertical uma mistura de “David Lynch com Luis Buñuel” – ele não é nada modesto, não? Sobre o personagem de Léo, o diretor afirma que foi proposital a ambiguidade da definição dele na história: “Você realmente não sabe se Léo é homossexual, bissexual ou heterossexual”. Guiraudie comenta que um rótulo ou outro não se aplica ao personagem em Rester Vertical – diferente dos personagens gays de Stranger by the Lake.

Guiraudie afirma que gosta de jogar com a realidade misturada com o sonho – pensando desta forma, fica um pouco mais fácil entender as “viagens” de Rester Vertical. O diretor também comentou que vê o seu futuro na “comédia de humor negro”. Apesar do meu primeiro contato com o trabalho dele não ter sido altamente satisfatório, acho que vale acompanhar o diretor em suas próximas peripécias. Afinal, fazer algo que desagrade a vários, mas com um pouco de talento, sempre pode valer a experiência. Vejamos o que virá por aí na sequência.

Os usuários do site IMDb deram a nota 6,5 para esta produção, enquanto que os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 29 críticas positivas e 12 negativas para Rester Vertical – o que lhe dá uma aprovação de 71% e uma nota média de 6,1. Minha avaliação coincide um pouco com ambos – inicialmente eu dei 6 para o filme e, depois de avaliá-lo melhor, cheguei ao 6,5. Realmente é por aí.

CONCLUSÃO: Um filme meio que sem pé e sem cabeça. Rester Vertical parece uma grande desculpa para o diretor e roteirista Alain Guiraudie mostrar corpos nus, genitálias e uma e outra cena de sexo. No mais, temos algumas cenas bucólicas do interior, cenas esparsas na cidade e diversas sequências aparentemente sem sentido aqui e ali. O protagonista desta produção parece um cara sensível, atencioso, mas na verdade ele está um bocado perdido. Assim como o filme. Para o meu gosto, Rester Vertical é um filme um tanto pretensioso, um tanto esquisito. Preferia ter apostado as fichas em outro filme.

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Frantz

 

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Os efeitos da guerra são devastadores. Individualmente e para o coletivo de pessoas que vivem nos países que entraram em conflito. Frantz nos mostra isso com muita propriedade, precisão e sensibilidade. Com uma fotografia belíssima, uma direção atenta aos detalhes e um par de atores muito bons, esta produção nos remete para uma época em que diversas pessoas tiveram que se reinventar para encontrar, em alguma parte, as razões para seguir vivendo após sofrerem perdas irreparáveis.

A HISTÓRIA: Em 1919, na cidade alemã de Quedlinburg, Anna (Paula Beer) caminha pelas ruas até comprar na feira local algumas flores brancas. As crianças correm e brincam enquanto os adultos cuidam de seus afazeres. No caminho para o cemitério, Anna para em frente a uma loja e vê um dos novos vestidos. Quando chega no túmulo de Frantz (Anton von Lucke), ela nota que ali foram deixadas algumas rosas brancas.

Ela pergunta para o administrador do cemitério sobre quem deixou aquelas flores, e ele diz que um “estrangeiro”. Ela pergunta quem, e ele mostra para ela uma moeda francesa. Quando retorna para a casa do noivo morto na guerra, a mãe dele, Magda (Marie Gruber), comenta que o francês que deixou as flores deve ser algum amigo de Frantz da época anterior à guerra. O estrangeiro em breve vai fazer contato com os Hoffmeister e mudar a rotina deles.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Frantz): O primeiro destaque deste filme quando começamos a assisti-lo é a direção de fotografia de Pascal Marti. Muitas cenas que vemos em preto e branco são verdadeiras obras de arte. Frantz tem em seu visual realmente um grande diferencial. Mas todos nós sabemos que não basta uma bela direção de fotografia ou, em outro tipo de filme, impecáveis efeitos especiais ou visuais para termos um filme acima da média.

Verdade que a beleza de Frantz é o seu ponto forte. Mas o roteiro, apesar de um tanto “novelesco”, não deixa a desejar. Novamente percebemos um trabalho de grande sutileza e sensibilidade. O mérito é do diretor François Ozon, que escreveu o roteiro ao lado de Philippe Piazzo – os dois se inspiraram no roteiro do filme Broken Lullaby que, por sua vez, teve roteiro de Ernst Lubitsch, Reginald Berkeley, Samson Raphaelson e Ernest Vajda, e inspirado na peça de Maurice Rostand.

Não assisti ao filme original do diretor Ernst Lubitsch, que foi lançado em 1932, mas ao ver as fotos da produção, me parece que Frantz segue com bastante fidelidade a história daquela produção. A essência da história de Frantz é sobre as diferentes posturas dos homens – e podemos dizer que da humanidade – frente a um conflito que pode significar a morte de um semelhante.

Enquanto o protagonista desta história faz parte do grupo de homens que matam para se “defender” – ou simplesmente porque este ato faz “parte do jogo” de uma guerra e é o comportamento esperado em uma situação como aquela -, o personagem “ausente” (mas, na prática, bastante presente e, por isso, praticamente um protagonista também) faz parte do outro grupo, cada vez mais raro, de pacifistas que se recusam a matar, mesmo em uma guerra. Neste sentido, o Frantz que move os personagens desta produção me fez lembrar o Desmond Doss de Hacksaw Ridge (filme excelente comentado por aqui no blog).

Interessante pensar que o personagem ausente é o que move todos os demais “presentes” que vemos em cena. Frantz morreu, mas está em todas as partes. É o sentimento por ele que ocupa todos os pensamentos e os sentimentos de Anna e dos pais do jovem alemão morto em guerra, o doutor Hans (Ernst Stötzner) e a esposa Magda. Anna segue vivendo, apesar de esbanjar uma dor profunda pela perda, muito por causa do carinho que ela tem pelos pais de Frantz. E eles, por sua conta, seguem vivendo também penalizados pela ausência.

O outro personagem importante desta história, o francês Adrien Rivoire (Pierre Niney) também não consegue esquecer Frantz. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). No início, não sabemos exatamente qual é a história por trás deste sentimento um tanto obcecado de Adrien por Frantz. Pelas reações dele no início desta produção, a primeira ideia que me veio à cabeça é que ele teria tido um romance com Frantz quando o alemão foi estudar em Paris. Apesar de algumas sugestões neste sentido – as flores no túmulo, o choro franco e uma grande sensibilidade em relação à perda de Frantz -, aos poucos vamos nos questionando também se ele não poderia ter sido o algoz do jovem rapaz.

As duas possibilidades me passaram pela cabeça, até que Adrien resolve contar a verdade para Anna. Antes de fazer isso, ele conta uma série de mentiras para se aproximar da família do homem que ele matou. Corroído pela culpa, ele busca nos detalhes sobre a vida de Frantz algum consolo – uma ideia meio maluca, é verdade, por que quem em sã consciência se sentiria “consolado” ao saber detalhes da vida de alguém que ele matou? Mas talvez Adrien não buscasse realmente consolo, mas “humanizar” aquele soldado que ele atingiu mortalmente no campo de batalha.

Esta talvez seja uma das grandes mensagens deste filme. Teríamos menos guerras, conflitos, dor e perdas se pudéssemos ver “o outro” como alguém de carne e osso, sonhos e amores, tal como nós mesmos. A pessoa que é morta em um campo de batalha tem família, pai e mãe, pode ter irmãos e uma promessa para ir para o altar. E tudo isso termina e é interrompido com um tiro certeiro. Frantz, o filme, a exemplo do personagem título, é um filme claramente pacifista. Uma história importante de ser resgatada nos tempos atuais, quando pessoas seguem sendo mortas em conflitos de diferentes naturezas mundo afora.

Adrien vai para a cidade de Frantz para saber mais sobre o homem que ele matou e cuja memória “lhe atormenta” os pensamentos e os sentimentos. No fundo, ele não é um assassino, mas a guerra lhe dá este papel. Como qualquer pessoa que comete um ato que não gostaria, na essência, Adrien sofre terrivelmente com aquilo. O problema é que ele, na busca por respostas sobre Frantz, acaba com as suas mentiras entrando de uma forma inapropriada na vida dos pais e da noiva do jovem alemão que ele vitimou.

Esta é a parte cruel da produção. Os pais de Frantz encontram um certo conforto nas histórias fantasiosas de Frantz com o “amigo” Adrien por Paris ao mesmo tempo em que a inocente e bela Anna se deixa envolver pelas mesmas histórias e pela personalidade de Adrien. Os pais de Frantz e Anna estão tão envolvidos por Adrien que não existe solução fácil para aquela situação. No fim das contas, percebendo os efeitos do que está fazendo, Adrien resolve contar a verdade. E aí chegamos no que era o segundo objetivo dele ao viajar para a Alemanha.

Depois de saber mais sobre o homem que matou no campo de batalha, Adrien queria reduzir a própria dor recebendo o perdão das pessoas que ele feriu para sempre. Em um ato egoísta – na verdade ele tem este “defeito”, está pensando sempre nas suas próprias necessidades -, ele resolve contar a verdade para Anna e pede para ela o seu perdão. Ele deseja fazer o mesmo com os pais de Frantz, mas Anna se antecipa e conta ela própria uma mentira para Adrien. Ela diz que contou a verdade para os pais de Frantz, mas ela não faz nada disso.

Diferente de Adrien, Anna é uma pessoa generosa. Ela sabe que a verdade sobre Adrien vai ferir de morte, mais uma vez, os pais de Frantz. Como ela gosta demais deles, resolve preservá-los. Mas ela própria já está ferida de morte novamente. Logo depois que Adrien parte de volta para a França, Anna percebe que está apaixonada por ele. Ela pensa que é tarde demais para ela – afinal, ela está gostando justamente do homem que matou o seu grande amor, Frantz.

No desespero, ela tenta colocar fim na própria dor – o mesmo é feito por Adrien na França. Mas os dois são movidos por motivos muito diferentes. Enquanto Anna sofre por sentir o que não gostaria de sentir – amor por Adrien, o algoz de Frantz -, Adrien sofre por não ter conseguido o perdão de suas vítimas “secundárias”. Os dois acabam fracassando em suas tentativas de suicídio. E como a história não terminou, eles devem dar prosseguimento para as suas próprias vidas.

Os pais de Frantz, inocentes na história, acabam realmente vendo Adrien como um “segundo filho”, como alguém que traz para eles conforto e as melhores “lembranças” (fabricadas, mas eles não sabem disso) do filho único perdido para sempre. Por isso mesmo eles tem esperança de que Adrien possa “substituir” Frantz no coração de Anna e se casar com ela. Eles meio que “pressionam” a jovem a buscar Adrien quando a carta dela retorna sem achar o destinatário. E é assim que Anna vai para a França em busca dele cheia de esperanças de um recomeço.

E aí entra a segunda grande sacada e reviravolta da produção. Anna encontra Adrien e descobre que ele, a exemplo de Frantz, que estava com o casamento acertado com ela, está prometido para Fanny (Alice de Lencquesaing). Para mim, esta foi a parte mais dolorida do filme. É de cortar o coração ver a gentil, bondosa e inocente Anna descobrindo que Adrien tem tudo o que Frantz perdeu. Ele tem uma boa casa, a mãe protetora (Cyrielle Clair) perto dele e uma noiva com quem ele vai se casar. É de cortar o coração algumas situações pelas quais Anna passa, assim como a reação dos pais de Frantz quando reagem às mentiras que lhes fazem continuar vivendo.

Apesar da culpa que sente pela morte de Frantz, Adrien segue a sua vida com uma normalidade que choca Anna. Mas ela própria vai encontrar o seu caminho para também seguir a vida. E esta talvez seja a outra grande mensagem desta produção. Após grandes tragédias e grandes perdas as pessoas, mesmo as “sensíveis”, como gosta de repetir a mãe de Adrien, podem se reinventar e encontrar caminhos para recomeçar. E é isso que Anna e Adrien fazem, apesar da dor que nunca deixará de latejar em alguma parte de seus corações. Mas a vida segue.

A grandeza de Anna é que ela não pensa apenas nela – algo que Adrien diz que ele faz também, mas a sua maneira. Anna recomeça a vida em Paris, pensando em belezas que Frantz pode ter visto – e que ela sabe que Adrien viu, como a obra de Manet no Louvre – e embalada por possibilidades que a vida ainda pode lhe dar, ao mesmo tempo em que preserva a história “reconfortante” e mentirosa de Adrien para os pais de Frantz. Eles, por sua vez, seguem com boas lembranças e a imaginação do que pode acontecer de bom para Anna e Adrien. E o francês, por sua conta, segue vivendo não por ele, mas para não dar para a mãe dele e para Fanny a mesma dor que ele causou nas pessoas que perderam Frantz.

Além deste núcleo principal da produção, Frantz mostra um pouco do contexto social da época. Vemos claramente o ódio que seguiu alimentando corações e mentes tanto na parte da Alemanha quanto na França – esse ódio e o sentimento de “desforra” alemã seriam fervidos em fogo lento até a Segunda Guerra Mundial. Os sentimentos nacionalistas exagerados e a desumanização do oponente estão em cena e são elementos importantes nesta história – apesar de ficarem um pouco em segundo plano.

Como sempre que voltamos para a reflexão do passado, Frantz nos ensina como devemos aprender com os equívocos de épocas anteriores para tentar evitar novos ciclos de desgraça. Quem dera que todos pudessem assistir a este filme e entender as suas mensagens. Teríamos um outro tipo de sociedade, certamente. Bela produção, em todos os sentidos.

NOTA: 9,5.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Da minha parte, achei brilhante as escolhas de François Ozon e do diretor de fotografia Pascal Marti. Grande parte do filme é em preto e branco. O que apenas valoriza as imagens e dão um contexto interessante para a produção – afinal, Frantz se passa em 1919, uma época em que os filmes eram todos em preto e branco. Além disso, a escolha do preto e branco em contraste com algumas sequências coloridas ajuda a contar uma história conceitual interessante. Eis a segunda camada de interpretação da história.

Grande parte do “presente” da história deste filme é contada em preto e branco. Essas sequências representam a vida sem Frantz, uma vida sem cor, sem sentido para os pais dele e para Anna. Essa mesma realidade após a morte de Frantz tem as mesmas matizes para Adrien. Mas em alguns momentos a cor toma conta da tela. Se notarmos quando isso acontece, é quando a vida começa a invadir aquele espaço sem cor. Percebemos o colorido nas sequências em que vemos Frantz em cena e naquelas em que Anna e os pais de Frantz conseguem sentir alegria além da dor da perda. Esse é um toque genial dos realizadores. Mais um ponto sensível e muito interessante desta produção. Observe as cores. Elas tem muito a dizer.

A origem do filme Broken Lullaby, produção que inspirou Frantz, é uma peça teatral de Maurice Rostand. Nascido em Paris em 1892, Rostand era um pacifista e um dos homossexuais mais conhecidos e respeitados no período entre guerras. Como a origem desta produção tem uma ligação com a peça teatral dele, dá para entender o tom um tanto “teatral” de Frantz. Nada que prejudique a história, é claro, mas é um estilo que nem todos estão habituados a assistir – especialmente quem não viu a filmes antigos, que tinham, muitos deles, exatamente este espírito.

Em termos de interpretação, o grande destaque para mim nesta produção é o trabalho magnífico e irretocável de Paula Beer. Ela está perfeita, atenta a cada detalhe e com uma interpretação realmente convincente. Grande atriz que merece ser acompanhada. Quem faz um “dueto” interessante com ela é o ator Pierre Niney. Ele também está muito bem. Além deles, os destaques nesta produção, mas em segundo plano, são os atores Ernst Stötzer e Marie Gruber – especialmente ela, com uma interpretação tocante -, que vivem os pais de Frantz; Johann von Bülow como Kreutz, um conhecido da família de Frantz que não perde tempo em pedir a mão de Anna e tentar se casar com ela; e Anton von Lucke em aparições “mudas” como o personagem-título morto. Estes são os destaques.

Além deles, vale citar o bom trabalho de Cyrielle Clair como a esnobe e um tanto irritante mãe de Adrien; de Alice de Lencquesaing em quase uma ponta como Fanny, noiva de Adrien; Alex Wandtke como o recepcionista no hotel em que Adrien fica hospedado na pequena cidade alemã; Rainer Egger como o administrador do cemitério na Alemanha; Rainer Silberschneider como o vendedor da loja que vende para Anna um vestido para o baile; Lutz Blochberger como o homem que salva Anna no lago; e Jeanne Ferron como a tia de Adrien.

Entre os aspectos técnicos do filme, o grande destaque, sem dúvida, é a maravilhosa e inspiradora direção de fotografia de Pascal Marti. Além dele, merecem menção a trilha sonora extremamente pontual de Philippe Rombi; a excelente edição de Laure Gardette; o design de produção de Michel Barthélémy; a direção de arte de Susanne Abel; a decoração de set de Maresa Burmester e de Catherine Jarrier-Prieur; os belos e ajustados figurinos de Pascaline Chavanne; e o trabalho cuidadoso da equipe de 11 profissionais do departamento de maquiagem.

Frantz estreou no Festival de Cinema de Veneza em setembro de 2016. Depois o filme participaria, ainda, de outros 21 festivais e mostras em diferentes países. Nesta trajetória o filme conquistou três prêmios e foi indicado a outros 19. Os prêmios que ele recebeu foram o de Melhor Fotografia no Prêmio César; o de Melhor Filme Estrangeiro no Festival Internacional de Cinema de Sedona; e o de Melhor Jovem Atriz para Paula Beer no Prêmio Marcello Mastroianni no Festival de Cinema de Veneza. Belos prêmios. Todos merecidos.

Não encontrei informações sobre os custos desta produção, mas vi que Frantz fez quase US$ 881 mil nos Estados Unidos, quase 661 mil euros na França e outros 413 mil euros na Itália. Bilheterias um tanto baixas. Tenho dúvidas se o filme conseguiu algum lucro.

Esta produção, como a história mesmo sugere, foi rodada em diferentes lugares da Alemanha e da França. Foram rodadas cenas nas ruas de Quedlinburg; no cemitério de Nikolaifriedhof, em Görlitz; em Wernigerode (casa dos Hoffmeisters); em Osterwieck; em Teufelsmauer (rio onde Anna e Adrien vão e onde ele se banha); e em Bad Suderode (estação de trem onde Adrien embarca), todos na Alemanha. Na França, foram rodadas cenas no Château du Saussay, em Ballacourt-sur-Essonne (castelo dos Rivoire); no Museu do Louvre e na Ópera Nacional de Paris Palais Garnier, em Paris; em Eymoutiers (estação de trem) e em Senlis.

Os usuários do site IMDb deram a nota 7,5 para esta produção, enquanto que os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 95 críticas positivas e 11 negativas para o filme, o que lhe garante uma aprovação de 90% e uma nota média de 7,4.

Frantz é uma coprodução da Alemanha com a França. Por causa disso o filme passa a figurar na lista de produções que atende a uma votação feita há algum tempo por aqui.

CONCLUSÃO: Um filme atemporal. Não apenas por sua beleza e lirismo, mas principalmente porque ele trata de assuntos que perduram no tempo. Ainda que a produção seja ambientada no final da Primeira Guerra Mundial, a essência do que vemos em cena continua se repetindo atualmente em qualquer conflito em que pais perdem os seus filhos e noivas vêem os seus sonhos de futuro serem abortados pela morte. Um belo filme, muito bem conduzido e muito bonito visualmente – apesar da história cheia de agruras. Frantz nos faz pensar sobre a capacidade humana de superação e também de reinvenção. Possivelmente essas sejam as nossas grandes qualidades.

Colossal

Uma homenagem curiosa para o cinema e as séries de TV que utilizaram monstros e robôs gigantes para aterrorizar/encantar crianças e jovens mundo afora a partir dos anos 1950. Colossal utiliza uma boa dose de criatividade e de “licença poética” para revirar esse tipo de história e homenagear, junto com ela, a criatividade dos escritores. Este filme é uma grande viagem, na verdade. Tem um punhado de bons atores em papéis inusitados e uma trama que nos remete para a nossa própria infância.

A HISTÓRIA: Música dramática. Uma garota procura a boneca que ela perdeu. A mãe diz para ela desistir, mas a menina insiste, até que encontra a boneca. Ela está feliz, mas logo essa felicidade desaparece quando ela vê um monstro gigante caminhando por trás de um par de prédios. A menina grita enquanto o monstro se aproxima. Corta. 25 anos depois, as cidades estão repletas de prédios altos. Em uma desta metrópoles, Gloria (Anne Hathaway) chega em casa devagarinho. Ela logo vai pedindo desculpas para o namorado, Tim (Dan Stevens).

Enquanto ele termina o café da manhã, Gloria conta uma história sem pé nem cabeça. Tim fica irritado com mais uma cena destas e diz para Gloria que ela deve ir embora. Há mais de um ano desemprega e expulsa do apartamento do namorado, ela acaba voltando para a cidade natal, onde reencontra um amigo de infância, Oscar (Jason Sudeikis). Em pouco tempo um monstro começa a atacar Seul e, estranhamente, Gloria tem tudo a ver com isso.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Colossal): Gosto de produções com uma boa pegada “alternativa” e underground. Embarquei em Colossal por causa dos nomes envolvidos na produção e, como geralmente faço, por observar que o filme recebeu mais críticas positivas que negativas. Como é meu costume também, procurei não saber nada do filme antes de assisti-lo. Por isso mesmo foi uma grande surpresa a premissa central da produção.

De uma forma bastante despretensiosa e inteligente o diretor e roteirista Nacho Vigalondo explora a memória afetiva dos fãs das séries de TV e dos filmes protagonizados por robôs e monstros gigantes e ainda nos conta uma história de pessoas que realmente “não cresceram”. A protagonista desta produção é uma garota que teve sucesso em sair da pequena cidade em que nasceu mas que, ao não conseguir o sucesso desejado, acaba lidando mal com a própria frustração.

A história começa mostrando claramente como Gloria tem problemas com a bebida. O ponto de quebra na vida dela e que dá início ao roteiro deste filme é justamente o momento em que o namorado da protagonista se enche dos efeitos do alcoolismo na rotina da namorada e a expulsa de casa. A única saída que Gloria encontra de manter uma certa independência – ou seja, evitar a alternativa de voltar a morar com os pais – é retornar para a casa vazia da família em sua cidade natal.

Logo de cara ela “esbarra” com um amigo de infância que parece “animadíssimo” com o retorno dela para a cidade. Oscar é super prestativo, atencioso, e até um pouco exagerado em suas demonstrações de “afeto” – ele oferece para Gloria uma televisão das grandes, um emprego e, após pisar na bola, mais vários outros móveis e itens de decoração. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). A sugestão óbvia inicial é de que ele é apaixonado por Gloria desde os tempos do colégio. Ledo engano.

Uma das qualidades desta produção é que ela mostra justamente como nem tudo que parece ser bacana e legítimo é, realmente, verdadeiro. Se olharmos a essência desta história, ela trata bastante de como as aparências enganam. Afinal, o monstro gigante, feio e assustador que ataca Seul acaba se revelando “do bem”, inofensivo e bacana, enquanto o robô igualmente gigante e reluzente é “do mau”, mesquinho e vingativo. Desta forma, Vigalondo subverte alguns dos princípios das séries e filmes clássicos do gênero.

Muitas das atitudes de Gloria e de Oscar – especialmente dele – são típicas de pessoas que parece não terem crescido. Nem digo tanto sobre as brincadeiras que Gloria faz para “comprovar” que ela é o monstro que “ataca” Seul e, depois, as feitas por Oscar para testar o mesmo “poder” como robô gigante. Me refiro principalmente as ações dele de “disputa” com Gloria, em uma quebra de braço que parece não ter fim, e as dela no “enfrentamento” do amigo e no ajuste de contas com o ex-namorado.

No fim das contas, Colossal também se revela um daqueles filmes que conta uma interessante história de amadurecimento. Gloria começa perdida e sem nada e termina sabendo exatamente quem ela é. Ela é uma pessoa com valores bem definidos, preocupada com os demais e capaz de enfrentar acontecimentos malucos com um bocado de serenidade. Mesmo tendo bastante “poder” na figura do monstro que aparece em Seul, ela não se deixa deslumbrar com as possibilidades que este poder pode lhe trazer. Bem diferente do que acontece com Oscar.

Depois de passar por aquela experiência surreal e de solucionar o problema daquela forma, certamente a protagonista desta história estará muito mais preparada para enfrentar as dificuldades da vida. Este processo de amadurecimento é algo interessante em Colossal – e algo que você vai perceber apenas depois da produção terminar. Enquanto estamos assistindo ao filme, o que ressalta aos olhos é como o roteiro de Vigalongo mexe com a imaginação dos fãs das produções de monstros e robôs gigantes. Afinal, o que eles fariam se pudessem “se passar” por estes personagens?

Esta é a brincadeira central do trabalho de Vigalongo em Colossal. Mexer com a imaginação e com a paixão dos fãs do gênero. Ainda que eu conheça algumas das produções japonesas que fizeram história com personagens deste tipo, não me considero uma fã deste tipo de série de TV/filme. Por isso mesmo eu consegui assistir a Colossal de forma despretensiosa e sem tanta “paixão”.

Achei o filme divertido e com algumas tiradas bacanas – como o roteiro que Gloria cria para dar um “fim” para a seu “alter-ego” antes de Oscar radicalizar em busca dos holofotes. Ao mesmo tempo, acho que Vigalongo teve um pouco de dificuldade de “arrematar” a história. Ou seja, ele teve uma premissa interessante e algumas ideias bacanas mas demonstrou uma certa insegurança em como dar continuidade para a história. Acho que o filme perde um pouco de força com o desenrolar do roteiro e exagera um pouco a dose na disputa juvenil entre Gloria e Oscar.

No fim das contas, mais na reta final do filme, os dois parecem duas crianças brigando por causa de um mal entendido ou de um brinquedo roubado no parquinho do bairro. Dá para entender a intenção de Vigalongo em explorar este perfil de “adultos que não cresceram”, tendo questões da infância ainda mal resolvidas (no caso de Oscar), mas me pareceu um pouco forçada a forma de agir de Oscar. Talvez a escolha de Jason Sudeikis para o papel não tenha sido a melhor – ele parece sempre ter a cara de bom moço… talvez um ator que pudesse fazer mais o tipo “insensível” ou cafajeste funcionasse mais.

Colossal interessa especialmente para quem é fã de filmes/séries de TV japonesas que iniciaram a leva de produções sobre monstros e robôs gigantes. Afinal, esta produção tem um estilo “saudosista” interessante. Com um pouco de imaginação conseguimos também ver uma boa crítica de Vigalongo para a era do espetáculo, onde há muitas pessoas mais interessadas em aparecer e ficar famosas do que em construir algo que realmente perdure no tempo.

Apesar de ter estas qualidades, contudo, o filme exagera no “espírito juvenil” em diversos momentos, além de perder muito tempo na dinâmica de personagens que acabam não tendo muito interesse ou profundidade – vide os amigos de Oscar, Joel (Austin Stowell) e Garth (Tim Blake Nelson). Stowell parece estar no filme mais para acrescentar um rosto bonito na produção e uma certa “tensão de triângulo amoroso” com Oscar e Gloria do que para apresentar um personagem realmente relevante na história. Para resumir, o roteiro de Colossal poderia ser melhor.

NOTA: 8.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Colossal tem algumas sacadas visuais bem interessantes. (SPOILER – não leia… bem, você já sabe). Elas se resumem às sequências em que aparecem o monstro e o robô gigante. Destas cenas, destaco especialmente as que mostram os amigos de Gloria assistindo ao “ataque ao vivo” do monstro em Seul com os seus celulares antes de olharem ao redor e perceberem que os gestos da amiga eram os mesmos do personagem assustador. A sequência é interessante especialmente porque fala muito dos nossos dias – quando algumas pessoas “enfiam” a cara no celular – seja nas refeições, seja assistindo a um show – ao invés de perceberem o que está acontecendo ao seu próprio redor. Reveladora.

Apesar do filme ter uma certa “barrigada” lá pelas tantas – o roteiro perde um pouco de interesse quando fica centrado na queda de braço entre Oscar e Gloria -, o final redime um pouco a história de Nacho Vigalondo. Gloria “desperta” para a mais inteligente e definitiva saída para o seu problema. Além disso, a última sequência ainda abre uma frente para outras teorias sobre o que aconteceu – como a de que Gloria teria imaginado tudo em um de seus grandes porres. O roteirista acerta no final – e isso é um alívio, porque o filme corria o risco de terminar de forma bem idiota.

Entre os atores, o destaque desta produção é Anne Hathaway. Ela faz uma interpretação bastante crível em um filme nonsense, o que apenas demonstra o seu talento – não seria difícil ela cair no exagero ou apresentar um desempenho um tanto caricatural. Mas não. O espectador acredita em todas as variáveis e na inconstância da personagem vivida pela atriz. Jason Sudeikis também faz um bom trabalho, mas parece que ele não se encaixa totalmente no perfil do personagem.

Colossal é muito centrado nos personagens de Gloria e Oscar. Mas outros atores, como Austin Stowell, Tim Blake Nelson e Dan Stevens tem boas oportunidades de mostrar trabalho nesta produção. Outros nomes que vale citar são o de Hannah Cheramy como Gloria quando criança e Nathan Ellison como o Oscar da mesma época.

Da parte técnica do filme, merece destaque a trilha sonora de Bear McCreary; a direção de fotografia de Eric Kress; a edição de Ben Baudhuin e de Luke Doolan; o design de produção interessante e que faz jus aos filmes japoneses e que leva a assinatura de Sue Chan; a direção de arte de Roger Fires; o trabalho dos 17 profissionais envolvidos com o departamento de arte; o belo trabalho dos 13 profissionais responsáveis pelo departamento de som; os efeitos especiais de Tracey Blumel, Robert Musnicki e Jak Osmond; e os 33 profissionais envolvidos no trabalho fundamental dos efeitos visuais.

Colossal estreou em setembro de 2016 no Festival Internacional de Cinema de Toronto. Depois o filme participou de outros seis festivais. O próximo da lista começa no dia 1º de julho de 2017: o Festival Internacional de Cinema Fantástico Neuchatel. Nesta trajetória o filme conquistou três prêmios: Melhor Filme no Austin Fantastic Fest; Melhor Ator Coadjuvante para Jason Sudeikis e Melhor Diretor para Nacho Vigalondo no Lost Weekend Award promovido pelo Film Club.

Não encontrei informações sobre o custo do filme, mas o Box Office Mojo informa que Colossal conseguiu pouco mais de US$ 3 milhões nas bilheterias dos Estados Unidos. Uma bilheteria pequena.

Agora, algumas curiosidades sobre esta produção. A atriz Anne Hathaway estava na terceira semana de sua gravidez quando começaram as filmagens de Colossal.

Colossal sofreu um processo judicial em maio de 2015 com a alegação de que o filme tinha muitas semelhanças com Godzilla, produção de 2014.

A frase escrita pelo monstro em coreano, “Sinto muito, foi um erro. Não vai acontecer de novo” é, literalmente, a frase que o Rei Juan Carlos I, da Espanha, disse após ser ferido tentando caçar um elefante em Botsuana.

Para quem gosta de saber onde os filmes foram rodados, vale comentar que Colossal foi feito em cidades do Canadá, como Vancouver, Langley e Fort Langley; e na cidade de Seul, na Coreia do Sul.

Os usuários do site IMDb deram a nota 6,3 para esta produção, enquanto que os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 149 críticas positivas e 38 negativas para a produção – o que lhe garante uma aprovação de 80% e uma nota média de 7,2.

Para quem não tem um histórico muito grande de séries de TV e de filmes que inspiraram Colossal por abordarem monstros e robôs gigantes, vale citar este post do InfanTV sobre o Robô Gigante e este outro texto com os “20 melhores filmes de monstro da História” da Rolling Stone.

Este filme é uma coprodução dos Estados Unidos, do Canadá, da Espanha e da Coreia do Sul. Aliás, vale comentar que o diretor e roteirista Nacho Vigalondo é espanhol, natural de Cabezón de la Sal, cidade da província da Cantábria. Ele foi indicado ao Oscar de Melhor Curta em 2005 pela produção 7:35 de la Mañana. Com 40 anos de idade, Vigalondo tem 21 títulos no currículo como diretor – 11 deles são curtas.

Ah, algo bacana deste filme e que alguns cartazes dele valorizam bem é que não deixa de ser interessante pensar que Gloria é quem deu início a todo o terror mostrado na história em Seul e que foi ela mesma quem deu um fim naquela situação. Por ter problema com o álcool e, sem Oscar, ser uma garota desempregada e sem muitas perspectivas de uma vida melhor a curto prazo, Gloria acaba simbolizando o valor que todas as pessoas com estes perfis podem ter. Ninguém deve (ou deveria) ser julgado pela “capa”, por seus problemas ou limitações. Esta pode ser vista como uma das boas mensagens desta produção. Também achei interessante a ideia que os “desastres” no mundo muitas vezes são causados por nós e também podem ser resolvidos pela gente – vide os problemas no clima e agressões à Natureza.

CONCLUSÃO: Eis um filme que consegue, ao mesmo tempo, fazer uma boa viagem ao passado e um resgate curioso de um gênero que ficou bastante datado. Com muita criatividade e uma boa dose de nonsense, Colossal nos remete ao tempo do parquinho, da escola e das manhãs e/ou tardes de séries japonesas exageradas – e vistas, hoje, como peças cômicas. Ao mesmo tempo que este filme faz muito marmanjo/a reviver as próprias lembranças, ele também nos faz pensar sobre as escolhas que fazemos na vida e sobre feridas que não foram curadas. É uma produção interessante, com algumas tiradas bacanas, mas parece um tanto perdida lá pelas tantas. Pode valer como passatempo, especialmente para quem curtia filmes e séries de monstros e robôs gigantes. Afinal, esta produção é um belo exercício de imaginação e de satisfação para este público, em especial.

Kiki, El Amor Se Hace – Kiki Love to Love – Kiki: Os Segredos do Desejo

O sangue latino representado em uma profusão de desejos, de libido e de algumas taras. Kiki, El Amor Se Hace resgata um cinema espanhol que há tempos não tínhamos o prazer de assistir. Um filme que fala sobre tesão, sobre sexo e sobre amor através de várias histórias cheias de humor, irreverência e com uma mistura de origens que representa bem o nosso tempo. Um filme delicioso, picante e um bocado provocador. Uma delícia, destas que quem conheceu Almodóvar em sua fase inicial tinha saudade de assistir.

A HISTÓRIA: O casal Natalia (Natalia de Molina) e Alejandro (Álex García) se devoram em várias sequências provocadoras. Algumas partes das cenas de sexo são substituídas por reações de animais e por outros objetos. No final, Alejandro pergunta como foi o sexo. O quanto ele foi bom. Natalia parece um pouco irritada com o questionamento e fala que estava pensando na semana passada, quando foi assaltada no posto de gasolina. Ela fala para o namorado que gozou quando foi rendida pelo assaltante. Alejandro fica perturbado quando ela diz que aquele foi o maior orgasmo que ela já teve. Nesta história, conhecemos não apenas a harpaxofilia (excitação causada ao ser vítima de um roubo), mas outras “filias” (excitações e maneiras de chegar ao orgasmo) apresentadas por outros casais que vivem em Madrid.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes desta produção, por isso recomendo que só continue a assistir quem já viu a Kiki, El Amor Se Hace): Que saudades de filmes como este! Produções que não tem pudor ao tratar de algo tão natural para a nossa raça humana – e para todas as raças, na verdade, como bem demonstra as cenas de abertura desta produção – como é o sexo e a nossa sexualidade. O desejo faz parte da vida e esta produção, acima de tudo, trata de pessoas comuns – certo que algumas com alguns “gatilhos” de excitação bem diferenciados, mas isso faz parte da diversidade que Kiki, El Amor Se Hace quer retratar.

Sexo e desejo são temas onipresentes, assim como o orgasmo, o casamento e o encantamento. Sou suspeita para falar, por ter morado por alguns anos em Madrid, mas esta produção me fez voltar para a capital espanhola por causa de toda a sua verdade. Sim, aquelas pessoas que você está assistindo em cena você encontra em Madrid facilmente. Incrível. Os personagens são ótimos, e os atores… sem eles este filme não teria a qualidade que tem.

Porque fazer comédia não é algo realmente fácil. Especialmente quando falamos de sexo e de sexualidade, o limiar entre fazer algo engraçado e apresentar algo exagerado, machista ou sexista é muito pequeno. É mais fácil errar nas comédias que tratam sobre o tema do que acertar. Ícone do cinema espanhol, Pedro Almodóvar em seu início de carreira soube acertar na comédia e no fetichismo. Mesmo quando exagerava, fazia isso funcionar. Pois bem, como eu comentei lá no início, há muito tempo eu não assistia a um filme com as características de Almodóvar e tão bem feito.

Os espanhóis tem uma maneira de levar a vida e de encarar a vida muito típica. Toda essa “essência latina”, muito espanhola, está presente em Kiki. Isso é uma das qualidades do filme que mais me impressionaram. Os personagens em cena, os seus sotaques, maneiras de agir e de encarar as relações e a vida são muito verdadeiros – como eu citei antes, você realmente encontra pessoas como as que vemos neste filme na Espanha. Com um bocado de facilidade. Por conhecer bem aquela realidade, me deliciei com cada sotaque e com cada personagem.

Sei que a nota máxima abaixo pode parecer um pouco exagerada. Especialmente se você não conheceu muito bem os espanhóis. Mas independente deste fato, acredito que para todos que assistirem este filme o roteiro de Paco León e Fernando Pérez, baseados no filme de Josh Lawson (que escreveu o roteiro e dirigiu The Little Death, lançado em 2014), será uma experiência interessante e divertida em diversos momentos. Afinal, estamos tratando do que é humano, demasiado humano, e sempre que o foco de uma produção é essa, o material rende interesse e inclusive alguns debates.

Para mim, o roteiro de Kiki é delicioso. Ao focar a história em quatro casais – Natalia e Alejandro, Paco e Ana, Candela e Antonio, Paloma e José Luis – e ainda em uma garota solteira que parece meio “deslocada” do padrão (só parece, depois vamos entender a razão dela estar em cena), Kiki consegue fazer um quadro bem interessante das relações humanas. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Natalia e Alejandro estão namorando e ela acredita que ele vai pedir ela em casamento em breve – o que de fato acontece conforme a história avança.

Paco (Paco León, também roteirista e diretor) e Ana (Ana Katz) estão há vários anos juntos e estão em crise. Como eles se gostam, ante de se separarem, eles decidem fazer terapia de casal. E é aí que eles começam um longo processo para reavivar a relação. Candela (Candela Peña) e Antonio (Luis Callejo) estão há bastante tempo juntos, caíram um bocado na rotina, especialmente porque ela tenta engravidar há algum tempo e não consegue. Paloma (Mari Paz Sayago) e José Luis (Luis Bermejo) estão casados também há bastante tempo, mas o casamento mudou – e o sexo terminou – quando ela passou a se locomover em uma cadeira de rodas.

Todos os casais tem momentos ótimos. Honestamente, não consigo dizer qual é o mais interessante – achei todos muito bem interpretados e cada um deles com um nível de profundidade e característica diferente. Sem dúvida alguma o casal Paloma e José Luis é o mais “lírico” e com uma pegada menos divertida e mais sensível. Paco e Ana vivem as situações mais inusitadas porque são mais jovens e estão mais “abertos” a experimentar. Candela e Antonio são muito interessantes porque eles tem um pouco mais de idade e se parecem muito com os espanhóis do interior e/ou que vivem nas “afueras” da capital.

Ainda que todos os casais sejam humanos, demasiado humanos, e, também por isso, bastante interessantes, e ainda que eles vivam situações cômicas em pelo menos uma parte da história, a sequência que me fez rir de dar gargalhada foi a de Sandra (Alexandra Jiménez) quando ela entrevista Javier (Javier Rey). Essa situação é bastante comum em Madrid, de alguém buscar um companheiro para “compartir piso”. Existem situações como aquela, de fazer “uma entrevista” com o candidato. Então não é difícil se colocar no lugar de Javier ou de Sandra naquela situação. Para mim, o grande momento do filme – ainda que existam várias outras sequências muito boas.

Gosto de filmes que tratam de questões do dia a dia de forma tão franca e natural. E olha que em Kiki existem várias “filias” inusitadas – muito bem apresentadas pelo diretor, aliás. Então temos a parte curiosa da sexualidade e do comportamento humano e temos também situações e/ou pessoas com as quais nos identificamos. Seja porque temos algo em comum com elas, seja porque já encontramos pessoas parecidas ou vivenciamos situações com algumas daquelas características. Um filme de comédia que consegue criar empatia tem meio caminho andado para o sucesso.

O bacana deste filme é que ele demonstra aquilo que aprendemos na música Paula e Bebeto, do grande Milton Nascimento: qualquer maneira de amor vale a pena/ qualquer maneira de amor vale amar. Kiki mostra justamente a parte divertida e bacana do amor. Não importa os teus gostos, fetiches, o que te dá ou não tesão: todo mundo tem o direito de amar e de ser amado – desde que não agrida ninguém, é claro. Respeitando o outro, tudo vale o esforço e a tentativa. Se as duas pessoas envolvidas estão de acordo, bacana.

Desta maneira que este filme, além de divertir e de informar sobre algumas “filias”, ainda nos mostra que “all you need is love”, como cantavam The Beatles. Ninguém é tão esquisito – e que o diga Sandra – que não merece ser visto com atenção e verdadeiro interesse por alguém. Também existe a história de cada um dos casais que demonstra, bem ao estilo de cada “pareja”, como o amor é capaz de entender e aceitar o que lhe é estranho – novamente, desde que não agrida o outro e que haja sentimento verdadeiro em jogo. No fim das contas, Kiki é um belo filme de amor – com um bocado de “picante” e sem sexo explícito.

Então analisando o roteiro, muito bem escrito, com situações e diálogos interessantes e a comédia no ponto certo, e analisando o elenco, que tem um trabalho irretocável – e isso é bastante raro -, não consigo ver pontos negativos nesta produção. O filme não é brilhante, daqueles que você vai lembrar daqui a 20 anos – quer dizer, acho que não. Mas ele é muito bem acabado. Atento aos detalhes, funciona bem do início ao fim. Não deixa pontas soltas e convence o espectador. Dá para pedir mais? Para o meu gosto, não. Se você quer rir e se divertir, esta é uma boa pedida.

NOTA: 10.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Serei redundante. Para mim, o roteiro e o trabalho dos atores acima da média são o ponto forte de Kiki, El Amor Se Hace. Não é tão simples quando gostaríamos encontrar belos roteiros e atuações todas boas em um filme, especialmente de comédia. Por isso mesmo eu me surpreendi tanto com esta produção. Há tempos eu não via um filme tão bom vindo da Espanha – de qualquer gênero, mas especialmente de comédia.

Enquanto eu assistia ao filme eu não sabia que um dos roteirista e o diretor da produção eram o ator que interpreta o personagem Paco na história. Com uma carreira maior como ator, Paco León também se aventura como roteirista e como diretor. A estreia dele nas duas funções foi feita com a série de TV Ácaros, com seis episódios escritos por ele e exibidos em 2006 e 2007. A estreia no cinema como roteirista e diretor ocorreu em 2012 com Carmina o Revienta. Depois ainda vieram dois curtas e o longa Carmina y Amén. Ou seja, Kiki é o terceiro longa de León como diretor e roteirista. Fiquei curiosa para ver os trabalhos anteriores. Acho que depois de Kiki vale ficar de olho nele.

Também acho que vale conferir o trabalho do roteirista e diretor (e também ator) Josh Lawson que inspirou Kiki. The Little Death tem uma avaliação maior que Kiki no IMDb – 7,1 para o filme de Lawson, enquanto Kiki tem 6,6. Fiquei curiosa para ver o original – que parece ser bem diferente. Falando em avaliações, Kiki recebeu 11 críticas positivas e apenas duas negativas pelos críticos do site Rotten Tomatoes – o que garantiu para o filme uma aprovação de 85% e uma nota média 6. No Rotten Tomatoes o filme The Little Death tem apenas 60% de aprovação – minha vontade de assistir ele já diminuiu um pouquinho. 😉

Gostei do trabalho de todos os atores, mas acho que alguns se destacaram nesta produção. Gostei, especialmente, do trabalho de Alexandra Jiménez, de Natalia de Molina, de Paco León, de Ana Katz e de Candela Peña. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Além deles e dos atores já citados, vale comentar o bom trabalho dos atores coadjuvantes Eduardo Recabarren, que interpreta o terapeuta do casal Paco e Ana; Belén Cuesta, que interpreta Belén, amiga de Paco e que acaba fazendo um triângulo amoroso com ele e Ana; Maite Sandoval ótima como Maite, empregada de Paloma e José Luis; e David Mora como Rubén, surdo-mudo que vive de olho em Sandra.

Da parte técnica do filme, destaco a direção de fotografia de Kiko de la Rica; a edição de Alberto de Toro; os figurinos de Javier Bernal e de Pepe Patatín; e a direção de arte de Vicent Díaz e Montse Sanz.

Kiki El Amor Se Hace estreou no dia 1º de abril de 2016 na Espanha. Depois, o filme participou de cinco festivais. Em sua trajetória, o filme conquistou três prêmios e foi indicado a outros sete. Os prêmios que ele recebeu foram o de Melhor Filme Comédia e o de Melhor Trailer no Prêmio Feroz, na Espanha; e o de Melhor Atriz Coadjuvante para Candela Peña dado pela Spanish Actors Union.

A história de Kiki se passa inteira em Madrid. O filme, de fato, foi rodado na capital espanhola e em locais que fazem parte da comunidade madrilenha, como Navalcarnero, Alcorcón, Torrejón de la Calzada, Villanueva del Pardillo e Las Rozas. Também foram rodadas algumas cenas em Valsaín, que faz parte de Segóvia, distrito de Castilla y León.

Ah, e acho que vale uma curiosidade sobre esta produção. Eu fiquei me perguntando porque o filme se chama Kiki – afinal, não há nenhum personagem com esse nome. Pois bem, ao acessar o site oficial da produção eu fiquei sabendo o porquê deste nome. Segundo o site, “Um bom ‘kiki’ é uma relação sexual sem mais reflexão ou impedimento que fazer o que se gosta, quando, como e com quem lhe interesse para quem o faz: genital, oral, rindo, temendo, cheirando, chupando, apalpando, sem roupa, disfarçados, de pé, deitados, contra uma árvore… qualquer forma que se goste e que se comparta”. Entenderam? Kiki é um bom sexo, sem culpas, sem análise, feito com liberdade. Kiki também é como o site define as “filias”, e dá uma lista delas (algumas vemos no filme): harpaxofilia, erotolalia, dacrifilia, dendrofilia, somnofilia e elifilia.

CONCLUSÃO: Possivelmente a nota que eu dei acima para Kiki, El Amor Se Hace, seja um tanto exagerada. Pode ser. Mas a verdade é que há tempos eu não assistia a um filme espanhol tão bom. Para quem lembra da fase inicial de Almodóvar, como eu disse lá no início, e gostava desta fase, este será um belo achado. Um filme envolvente, bem escrito, com personagens muito bem desenvolvidos e com um grupo de atores escolhido à dedo – e muito competente. Só consegui ver qualidades nesta produção. Até porque ela trata de sexo e amor, dois temas universais, com muita franqueza e sem preconceitos. Uma bela comédia que trata sobre muitos elementos dos nossos dias. Divertido, cumpre bem o seu papel.

Nieve Negra – Black Snow – Neve Negra

Um filme que parece ser de outra latitude e que requenta uma história que já assistimos antes. Nieve Negra chama a atenção por ser estrelado por Ricardo Darín, um dos grandes atores da história do cinema argentino, mas deixa a desejar. A produção tem uma narrativa bastante previsível e, quando resolve “surpreender”, revela muitas incongruências e situações um bocado sem sentido.

A HISTÓRIA: Neblina e neve em um local com muito gelo. Um menino caminha entre as árvores e sobre a neve com uma arma até que se vira ao escutar o próprio nome. Corta. Em um avião, Marcos (Leonardo Sbaraglia) acaricia o cabelo da esposa, Laura (Laia Costa). Eles estão viajando da Europa para a Argentina, terra natal dele, para resolver as pendências após a morte do pai de Marcos. Logo que chegam em casa, Marcos atende o telefone e fala com Sepia (Federico Luppi). Marcos pergunta porque a casa está toda desarrumada, e Sepia diz que foi o irmão dele, Salvador (Ricardo Darín). Sepia diz que Marcos deve pegar uma carta que o pai dele deixou e que deveria falar com o irmão sobre a oferta dos canadenses. Marcos tenta escapar, mas acaba indo para a propriedade da família e encontrando Salvador.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Nieve Negra): Os primeiros minutos desta produção são um bom cartão de visitas da proposta do diretor Martin Hodara, que escreveu o roteiro de Nieve Negra junto com Leonel D’Agostino. Aquela sequência inicial de Juan (Iván Luengo) caminhando com uma arma entre algumas árvores de um bosque e sobre a neve se parece com tantas outras de filmes europeus. Digo que é um bom cartão de visitas porque o restante da história também caminha por semelhanças como esta.

Os europeus são mestres em contar histórias de dramas familiares com boas doses de suspense e de tensão. Também não são raras as histórias de adultério ou de outro tipo de relação amorosa que acaba “estragando tudo”. Nieve Negra caminha por essa seara, contando um drama familiar com uma tragédia no meio e alguns “temperos” que vamos descobrir apenas no final.

Francamente, por mais que Hodara e D’Agostino se “esforcem” para surpreender o espectador, eu não achei as “sacadas” do filme realmente surpreendentes. (SPOILER – não leia se você não viu o filme ainda). Não sei vocês, mas não demorou muito tempo para que eu desconfiasse de Marcos como o verdadeiro “assassino” de Juan. Talvez por causa das reações de Salvador, que parecia ser um sujeito que carregava uma culpa há muito tempo que não lhe pertencia – algo que se confirma no final.

Mas nem precisei chegar na derradeira “cena revelação” do crime para matar a charada. Estava na cara que Salvador não era o culpado… e se não era ele, sobrava apenas o outro irmão, Marcos. A justificativa para o crime me pareceu bastante forçada. Mas mais forçada que esta justificativa foi mesmo a reta final da produção. Vejamos algumas incongruências que realmente me incomodaram.

(SPOILER – realmente não leia se você não assistiu ao filme). Primeiro, vamos falar sobre a essência da história. Marcos matou Juan, de forma proposital e covarde, pelas costas. Muito tempo depois, ele volta para a cidade natal e para a propriedade onde o crime aconteceu e faz de conta que não teve nada a ver com aquilo. Ele repete a história “oficial” de que quem atirou em Juan foi Salvador. Ora, se ele matou o irmão mais novo e tanto tempo depois ele ainda coloca a culpa em Salvador, de duas uma: ou ele “perdeu a memória” e realmente não lembra do que aconteceu (bem difícil de acreditar, não?) ou ele é um grande cínico que lembra de tudo e que atua como um grande “ator” enganando a todos.

Honestamente, acho muito difícil ele ter feito uma lavagem cerebral tão grande que não lembra de como Juan realmente foi morto e da relação que ele tinha com a própria irmã. E se, como parece mais lógico, ele está apenas fingindo e mentindo e, no fundo, sabe exatamente o que aconteceu no passado, que maluquice é aquela que Laura faz no final? Se ele lembra do que aconteceu, claro que ele vai reconhecer o bilhete que ele próprio escreveu e vai saber que Laura cortou um pedaço dele e que ela descobriu a verdade. O que explicaria ela se arriscar desta forma? Não faz o mínimo sentido.

Outra forma de encarar aquele final é pensar que Laura, desconfiando que o marido estava mentindo e “fazendo de conta”, resolveu mostrar para ele que ela sabia a verdade, mas que ia fingir como ele para que os dois ficassem juntos. Ainda que esta seja a alternativa que faça mais sentido, acho a saída para a encruzilhada da trama muito estranha. Primeiro que uma mulher com o mínimo de crítica pensaria que deveria fugir de uma relação com um sujeito que tem tanto sangue frio quanto Marcos – que matou o irmão pelas costas e que tinha uma relação amorosa com a própria irmã. Que tipo de sujeito é esse? E uma mulher em sã consciência vai querer se relacionar com um cara assim? Difícil de acreditar.

Mas as incongruências não param para aí. O que realmente me incomodou foi a sequência sem sentido no final. Primeiro, Marcos, sabendo que a mulher estava grávida, realmente cogitar deles ficarem dentro de um carro em uma tempestade de neve. Sem sentido. Por mais que o irmão tinha ameaçado ele, um sujeito com o mínimo de bom senso jamais ia buscar como saída aquela falta de solução que era ficar dentro do carro com aquela neve toda. Depois, muito difícil de acreditar que Laura acertaria Salvador atirando de dentro do rancho para fora – justamente ela que não tinha tanta experiência assim em lidar com uma arma.

Só que o roteiro de Hodara e D’Agostino consegue derrapar ainda mais. Depois que Marcos é levado para a delegacia, não faz sentido nenhum para a história que Laura fique naquela casa no meio do nada e sozinha em meio a uma temporada de tempestades de neve, não é mesmo? Não faz sentido algum. Faria muito mais sentido ela ir com Sepia para a cidade e ficar esperando Marcos na casa do pai dele ou mesmo ficar uma noite na casa de Sepia. A última alternativa seria ela ficar lá na propriedade em lugar ermo. Claro que eles optaram por esta alternativa nada lógica para que Laura descobrisse a verdade. Mas me pareceu uma forçada de barra grande demais para ser engolida.

Em resumo, os roteiristas poderiam ter trabalhado melhor a história e deixado ela sem tantos furos e derrapadas. Me incomoda quando um roteiro é desleixado, e isso me pareceu acontecer em Nieve Negra. A qualidade do filme é que escolheram um bom elenco para dividir a cena, com evidente destaque para o trio Leonardo Sbaraglia, Ricardo Darín e Laia Costa. Os outros atores em cena fazem papéis menores. Eles estão bem, mas o roteiro realmente não os ajuda muito. Sem dúvida alguma há filmes argentinos muito melhores no mercado. Procure que vale a pena.

NOTA: 7.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: As intenções de Martin Hodara em fazer este filme, tenho certeza, eram boas. Mas o diretor e roteirista precisa melhorar bastante a forma de contar histórias e, principalmente, buscar um pouco mais de características dentro da Argentina em lugar de “copiar” tanto o estilo europeu. Certamente vai lhe fazer bem. E o público também agradece. Afinal, se for para ver a um filme estilo europeu, melhor mesmo é assistirmos a uma produção destas legítima e direto da fonte.

Este é apenas o segundo filme dirigido por Martin Hodara. Antes ele dirigiu a dois curtas, em 1987 e 1991, em em 2007, La Señal. A maior experiência de Hodara é na função de assistente de direção ou segundo diretor – ele tem 12 trabalhos neste rol. Ou seja, ainda que tenha um bocado de experiência no cinema, parece que ele precisa aprimorar melhor o seu trabalho antes de apresentar algo realmente bom.

Nieve Negra estreou na Argentina no dia 19 de janeiro deste ano. Depois o filme estreou no Uruguai e, em março, participou do Festival de Cinema de Málaga, na Espanha. No Brasil ele estreou nesta semana, no dia 8 de junho.

Algumas cenas da produção foram rodadas em Andorra, onde havia a neve que os produtores não encontraram na Patagônia.

Este filme é uma coprodução da Argentina com a Espanha.

Da parte técnica do filme, vale destacar a boa direção de fotografia de Arnau Valls Colomer; a edição de Alejandro Carrillo Penovi; o design de produção um tanto óbvio de Marcela Bazzano e Josep Rosell; e a trilha sonora de Zacarías M. de la Riva.

Como eu comentei antes, os nomes fortes desta produção são, na ordem de importância, Leonardo Sbaraglia, Ricardo Darín e Laia Costa. Além deles, vale comentar o bom – e alguns momentos razoável – trabalho de Dolores Fonzi como Sabrina, irmã de Marcos e Salvador; Andrés Herrera como o pai dos três; Mikel Iglesias como Salvador na juventude; Iván Luengo como Juan; Federico Luppi como Sepia, advogado interessado nas vendas da propriedade, amigo do pai dos garotos e quem acaba ajudando Marcos; Biel Montoro como o Marcos adolescente; e Liah O’Prey como a Sabrina jovem. O elenco realmente é bastante restrito e diminuto.

Os usuários do site IMDb deram a nota 6,2 para esta produção, enquanto que os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram três críticas positivas e duas negativas para a produção, o que garante para Nieve Negra uma aprovação de 60% e uma nota média 6. Francamente, estou com eles. Facilmente este filme poderia ter levado um 6 ou pouco mais que isso.

CONCLUSÃO: O bom e velho drama familiar com uma “tragédia” no meio e uma ou duas tentativas de surpreender o espectador. Nieve Negra tem bons atores, mas sofre com um roteiro fraco e com uma busca um tanto forçada por um estilo de filme tradicional na Europa mas que não parece combinar muito com a latitude latino-americana. Assista apenas se você não dispensa um filme estrelado pelo Ricardo Darín. Porque enquanto obra de cinema, existem muitas outras produções melhores no mercado.