We Are What We Are – Somos o que Somos

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Há vários tipos de filmes de terror. Existe aquele estilo que deixa o espectador em permanente tensão e que provoca sobressaltos pontuais, enquanto outros filmes cozinham a tensão a fogo lento. Há histórias que exploram a violência, os cortes e o sangue, enquanto outros apostam mais no terror psicológico – na sugestão e não na exposição do terrível. We Are What We Are é do estilo fogo lento, que na maior parte do tempo apenas sugere o terror, mas que também escolhe um “grand finale” que parece escolha de gente maluca. E há muitos malucos por aí.

A HISTÓRIA: Teia de aranha, barulho de pássaros, e uma frase de Alyce Parker que diz que aquilo que é feito é feito com amor e que a vontade de Deus deve ser feita. Depois, cenas de um lago e de florestas. Chove. Naquele cenário de interior, uma folha cai de uma árvore e é levada pelas águas. As mesmas que passam sob um rio, por sobre o qual trafega uma caminhonete que vai nos levar até uma casa branca por onde Emma Parker (Kassie Wesley DePaiva) olha da porta para fora. É sexta-feira. E mesmo com muita chuva, Emma dirige até a venda mais próxima. Mas ao sair de lá com compras, ela olha para a foto de uma garota desaparecida e passa mal. Enquanto isso, na casa da família, as irmãs Iris (Ambyr Childers) e Rose (Julia Garner) cuidam do caçula Rory (Jack Gore) após ler o bilhete da mãe que não vai voltar mais para casa.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso só recomendo que continue a ler quem já assistiu a We Are What We Are): Serei honesta com vocês. Este filme me deu preguiça de escrever. Ao ponto de eu ficar alguns dias me enrolando para começar este post e em dúvida em como iniciá-lo. E isso não ocorreu porque o filme é perturbador. Mas porque eu achei ele bem mais fraco do que eu esperava.

Logo no início de We Are What We Are fica claro o desejo do diretor e roteirista Jim Mickle em fazer um filme de terror com uma pegada bem “realista”. Assim, mergulhamos nas paisagens e no “jeito de ser” daquela comunidade do interior dos Estados Unidos para compreender um pouco melhor o que está por vir. Ainda assim, é preciso muita generosidade na imaginação para acreditar na história.

Vendo o cartaz de We Are What We Are e pensando no título do filme, a primeira teoria que formulei é que esta seria a história de uma família com uma história muito pesada. Talvez até de torturas, violência física e mental praticadas por um pai dominante contra as mulheres da família. Logo pensei nas histórias reais que volta e meia aparecem no noticiário e me “preparei” para ver, inclusive, um pai que abusasse sexualmente de seus filhos. Ledo engano.

No caso deste filme, a ficção fica aquém das histórias da vida real. Isso porque tudo se resume a um único mistério. Algo que perdurou por séculos e que, convenhamos, fica difícil de acreditar que nunca tenha sido descoberto. Mas um acerto no roteiro de Mickle com Nick Damici (que também interpreta ao sheriff Meeks), baseados no trabalho original de Jorge Michel Grau, é que ele não demora nada para mostrar a primeira morte. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Emma morre de um jeito estranho, “vomitando” um líquido negro que nos faz pensar se ela pode ter sido envenenada… ou se havia algo sobrenatural naquela morte.

Mas a dúvida dura praticamente nada. Porque logo percebemos que a família Parker costuma manter reféns no porão do celeiro onde apenas o patriarca, Frank (Bill Sage) pode entrar. E daí não demora muito para sabermos que eles são canibais. Pronto, mistério desvendado. E o “risco” que a família corre parece pouco ameaçador, com uma investigação bem capenga feita pelo Dr. Barrow (Michael Parks) e pelo recém formado policial Anders (Wyatt Russell).

O problema é que ainda que o roteiro acerte ao mostrar a primeira morte logo, despertando o interesse do público, We Are What We Are demora para decolar. Ao invés de entrar mais diretamente na tensão da família Parker, a história gasta um tempo precioso focando a “vida comum” daquelas pessoas. Desde o cereal que Rory não pode comer até a relação com a simpática e desimportante vizinha Marge (Kelly McGillis). Para mim, boa parte daquela “ambientação” poderia ter sido economizada para entrarmos com um pouco mais de profundidade na tradição familiar ou nos conflitos dentro da casa dos Parker.

Claro que o “banho maria” serve para alimentar a expectativa para que algo diferente aconteça. E não chega a ser um total sacrifício esperar por isso já que os atores são muito bons. Mas de fato falta ritmo para We Are What We Are. E, como eu disse, também acho que a vida real já nos apresentou casos muito mais tenebrosos que este. No fim das contas, o mais difícil de acreditar não é que os Parker eram canibais. Mas que desde 1782 aquela família preservava o costume de sequestrar e matar pessoas e que eles nunca haviam sido pegos – ou seja, mais ou menos 230 anos de crimes estranhamente “invisíveis”.

E daí vem a minha teoria de que um filme de terror tem que ter uma mínima de lógica para poder convencer. Admito um louco matando um monte de gente por puro prazer, até porque há muitos por aí, mas acreditar que os Parker seguiram com esta tradição por tanto tempo é beeeeem complicado. Sem contar que o filme me deixou com mais dúvidas do que respostas, em alguns momentos. (SPOILER – não leia… bem, você já sabe). Por exemplo: os Parker só matavam e comiam as suas vítimas no período de “quaresma” ou faziam isso o tempo inteiro?

Se a resposta é a primeira alternativa, então de fato comer carne humana uma vez por ano poderia provocar aquela “doença de kuru” – também chamada de “doença de Creutzfeldt-Jakob”? E se a resposta é a segunda alternativa, da onde os Parker arranjaram tantas vítimas em mais de 200 anos de canibalismo? Difícil acreditar em uma versão ou em outra. Se bem que faz mais sentido a primeira versão – de que eles eram canibais uma vez por ano. Buscando mais informações sobre a “doença de kuru” encontrei este texto bem elucidativo. Mas daí o que não bate na história é que a doença não se manifesta porque se come carne humana, mas sim porque alguém que tem o tal príon contamina os demais ao ser devorado.

Outro ponto que me pareceu obscuro foi o da morte da filha do casal Kimble (Traci Hovel e Nat DeWolf). Afinal, por que aquela história entrou ali no meio? Apenas como “cortina de fumaça” e para desviar a atenção do espectador? Vejamos. A garota não foi levada como refém por Frank. Mas pode ter sido morta por ele – quando o corpo dela é encontrado no rio não dá para descartar que alguém tenha se desfeito do carro e dela após um crime. Ainda que a cena sugira que ela tenha morrido afogada após cair com o carro ali. Então para que mostrar Frank na estrada caminhando em direção à ela? E se foi ele que matou a garota e depois “desovou” o carro e a vítima no rio, para que ele mataria alguém sem o propósito de “alimentar a família”? O provável é que ele fosse inocente na história – e tenha ajudado a garota na estrada mesmo. Mas achei desnecessário e um elemento a mais para confundir quem assiste.

Descontado estes dois pontos que achei dispensáveis, Mickle faz um trabalho cuidadoso a maior parte do tempo. Ele escolhe algumas cenas bem interessantes e ângulos diferenciados. Tem um estilo de direção que flui na tela, ritmado em muitas ocasiões. Os atores também fazem um bom trabalho, especialmente Bill Sage, que interpreta o sempre ameaçador Frank. As atrizes que fazem as irmãs Iris e Rose também dão conta do recado em papéis complicados. O jovem Jack Gore irrita um pouco com Rory, mas acho que esta era uma das suas funções.

Mesmo com os acertos, incluindo vários quesitos técnicos (dos quais vou falar logo abaixo), senti falta de mais cenas de abuso familiar. Porque, convenhamos, que garotas iriam concordar em seguir uma tradição familiar tão absurda apenas porque o pai dizia que tinha que ser feito e porque era a “vontade de Deus”. Aliás, o que justificaria essa “vontade divina”? Por que apenas os Parker deveriam ter o direito de comer outras pessoas – e não serem devorados? Bastante sem pé e sem cabeça… quase literalmente. 🙂

Daí quando você pensa que aquela história está absurda demais, vem o “grand finale”. hehehehehehe. Admito que achei a cena da “comilança” das meninas muito coerente com o filme. Afinal, se é para apostar no macabro, vamos apostar com todas as fichas, não é mesmo? Sem dúvida aquela sequência é a melhor do filme – para quem gosta do gênero terror, é claro. Admito que, até ali, tinha achado We Are What We Are muito “água com açúcar” na parte do terror. Mas a sequência na mesa, após uma bem difícil de acreditar perseguição de Frank (que poderia ter sido derrubado por qualquer um naquela condição frágil e já doente), serve como uma redenção do filme. Tardia, quase, mas à tempo. Um filme macabro que se justifica no final, mas que deveria ter mais força no resto do tempo.

NOTA: 7,8.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Da parte técnica do filme, gostei muito da direção de fotografia de Ryan Samul, da decoração de set de Daniel R. Kersting e dos figurinos de Liz Vastola. Todos estes elementos ajudam Jim Mickle a contar esta história e ambientar os personagens no contexto correto – eles vivem no melhor estilo de “família recatada e muito devota”. Também funciona a edição de Mickle e a trilha sonora de Phil Mossman, Darren Morris e Jeff Grace.

Além dos atores já citados, vale comentar que a frase que aparece no início do filme é de autoria da personagem Alyce Parker, interpretada por Odeya Rush. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Ela faz parte da reconstituição da “tradição” dos Parker e escreve a “Bíblia” da família – que ensina, entre outros pontos, como esquartejar uma pessoa.

Falando nos atores, sem dúvida os melhores em cena, além das irmãs Parker, são os que interpretam ao pai das meninas e ao médico-detetive. Agora, uma curiosidade sobre o elenco: a atriz que faz a vizinha, Marge, é ninguém mais, ninguém menos que a mesma atriz que estrelou Top Gun ao lado de Tom Cruise. Sim senhores! O tempo passa diferente para as pessoas, sem dúvida – basta olhar para Tom Cruise e outros astros que pouco envelheceram enquanto os seus pares de menos sucesso passaram por outra experiência.

Agora, vamos voltar às confusões que este filme provoca. Afinal de contas, porque vemos ao cartaz de Bridget Rafferty, sabemos da história da jovem Kimble e depois ouvimos o nome de Sra. Stratton (na verdade, Arlete Stratton, interpretada por Annemarie Lawless)? (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Imagino que jogar na tela os nomes de três vítimas diferentes seja a forma de Mickle deixar ainda mais claro que os Parker tem uma verdadeira multidão de vítimas nas “costas”. O incrível mesmo é que nunca a vizinha Marge ou qualquer outra pessoa tenha desconfiado deles, não é mesmo? Se ainda houvessem outros cúmplices… tipo o delegado, ou os próprios vizinhos, eu acharia mais fácil de acreditar.

We Are What We Are me pareceu desleixado em alguns momentos. Por exemplo, na primeira vítima dos Parker, em 1782… aquele cadáver estava beeeem mal feito. Depois, achei bem absurdo que a Sra. Stratton estava acorrentada e amordaçada tendo as mãos livres… quem, ao ser sequestrada e colocada em cativeiro, seguiria amordaçada podendo usar as mãos para tirar o pano da boca? hahahahahahaha. Detalhes que poderiam ter sido melhor cuidados.

Na verdade, acho a minha nota acima até generosa. Levando em conta todos estes pontos falhos do filme. O que acontece é que gostei do final. Ele acabou me deixando de boca aberta e garantindo alguns pontos para o filme.

Não há muitas informações sobre o custo ou a bilheteria que We Are What We Are conquistou em diferentes mercados até agora. O site Box Office Mojo, por exemplo, traz apenas a informação de que este filme estreou nos Estados Unidos no dia 27 de setembro e que teria faturado, até o final de outubro, pouco mais de US$ 81,3 mil. Uma miséria. E para ficar ainda mais claro como esta produção estreou sem força nos EUA, We Are What We Are abriu a temporada por lá em apenas duas salas de cinema.

Este filme estrou no Festival de Sundance em janeiro de 2013. Depois, ele participaria de outros 12 festivais, incluindo o de Cannes. Segundo o site IMDb, apesar desta trajetória considerável, ele não conseguiu nenhum prêmio até o momento.

Falando no IMDb, se eu fosse levar em conta a opinião dos usuários do site, não teria assistido a We Are What We Are. Afinal, eles deram apenas a nota 5,7 para esta produção. Para comparar, o filme original, o mexicano Somos Lo Que Hay, de 2010, dirigido por Jorge Michel Grau, ostenta a nota 5,6 no site. Ou seja, ambos bem abaixo da média que considero ideal – a partir de 6,5, pelo menos. Mas o que me convenceu a assistir a este filme foi a avaliação dos críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes. Eles dedicaram 49 críticas positivas e oito negativas para o filme, o que lhe garante uma aprovação de 86% e uma nota média de 7,1. Muito boa esta nota, levando em conta a tendência do site.

Este é um filme 100% dos Estados Unidos – o que faz a lista de produções que atendem a uma votação aqui no site apenas “engrossar”.

CONCLUSÃO: Honestamente, eu esperava mais de We Are What We Are. Mesmo sem conhecer o filme original, de 2010, esperava por uma produção com rasgos mais doentios, por assim dizer. Ou, pelo menos, com maior tensão. Acho que a história cozinha tão lentamente que chega a dar um pouco de sono… tudo para, claro, chegarmos a um final macabro e extremamente esquisito. O que combina com o filme, é claro. Mas ainda que o desfecho seja coerente, há outras partes que não são, e o sentimento que esperamos de um filme assim na maior parte do tempo não acontece. Ainda assim, esta produção acerta na escolha do elenco e do “clima” da produção. Mas lhe faltam outros predicados para ser mais marcante. É bom, mas há outros do gênero muito melhores.

Stories We Tell – Histórias Que Contamos

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Cada pessoa é uma ilha, um indivíduo completo e cheio de referências, de heranças, capaz de sobreviver por conta própria até um certo ponto mas que se conecta com outras ilhas por escolha e seguindo a característica das relações da nossa sociedade. Mas o que acontece quando uma ilha destas submergiu, não está mais visível, mas as outras ilhas que a conheceram resolvem falar sobre ela? A quem interessa a nossa história, ou a história de qualquer indivíduo? Por que as pessoas querem lembrar, querem ter legado, desejam saber mais sobre as suas origens? Stories We Tell é um destes documentários fascinantes, de derrubar o queixo, não apenas pela história que conta, mas pelas perguntas que desperta em quem assiste ao filme. Um público que não sairá igual após a sessão.

A HISTÓRIA: Cenas de estrada com uma paisagem cheia de neve. O narrador comenta que quando alguém está no meio de uma história, ela não se parece em nada como uma história. Na verdade, tudo parece confuso. Ele dá vários exemplos desta confusão e afirma que apenas tempos depois é possível perceber o que aconteceu como uma história. E isso acontece quando você conta o que aconteceu a si mesmo ou a outra pessoa. Corta. Michael Polley pergunta para a filha, Sarah Polley, diretora do filme, quanto ele deve subir. Ela responde que três andares. Ele continua subindo, até chegar ao estúdio em que vai gravar o áudio como narrador deste filme, um documentário sobre a história da família Polley.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Stories We Tell): Este filme é um verdadeiro perigo. Porque ele merecia um longo texto sobre tudo o que abriga. Impossível escrever aqui, no blog, mesmo que os textos normalmente sejam extensos, tudo o que deveria ser dito sobre Stories We Tell. Mas tentarei falar dos pontos principais.

Toda família é uma confusão. Há segredos, aqui e ali, e leituras muito diferentes sobre as mesmas pessoas. Nenhuma história é simples, aparentemente, e há muito em jogo que jamais será entendido ou explicado. Stories We Tell trata destes pontos, mas vai além. Este documentário fala do próprio interesse ou repulsa das pessoas por exporem as próprias intimidades. Achei muito, mas muito corajoso mesmo o projeto de Sarah Polley em contar a história familiar. Resgatar a memória da mãe morta, personagem onipresente do filme e que jamais terá a capacidade de explicar a própria versão dos fatos. E não é isso que acontece ao nosso redor cotidianamente?

Quantos personagens conhecemos, sejam familiares ou históricos, dos quais ouvimos falar mas que nunca tiveram uma oportunidade de explicar-se? O que sabemos sobre eles é a verdade? E aí Stories We Tell nos lança, mais para o final do filme, a derradeira pergunta: o que é a verdade? Como jornalista, há muito tempo estou convencida de que a verdade não existe. O que conhecemos são fragmentos da verdade. E apenas isso. Porque a verdade completa, plena, não está ao alcance de ninguém. Ainda assim, o que conhecemos não pode ser considerado mentira.

Vejamos. Os sentimentos de uma pessoa sobre o que aconteceu são parte da verdade. E para aquela pessoa, naquelas circunstâncias, são a própria verdade. Daí que seja tão importante Stories We Tell e toda a reflexão que você pode ter feito sobre isso antes ou depois do filme. Saber que o que você presenciou, viu e sentiu é a verdade mas que existem outras verdades tão importantes e relevantes quanto é fundamental. Para não ficarmos tão cheios de nós mesmos, da nossa capacidade de compreender ou de acreditar que tudo pode ser explicado de forma simples. A vida não é assim. E as famílias, consequentemente, também não.

Mas vamos falar diretamente do trabalho de Sarah Polley. Achei fascinante como ela conduziu esta história. Primeiramente, ela mergulha o espectador no meio de uma narrativa confusa. Como a introdução do filme mesmo explica, é como se a gente estivesse vivendo aqueles fatos, no meio da história e, consequentemente, sem perceber que ela é uma história. Quer dizer, até sabemos que ela é uma história, mas somos incapazes de entendê-la. Ajuda neste processo o fato da diretora não identificar as pessoas mais que com o nome delas. Então é com o passar do tempo que entendemos quem é quem. Qual é a relação entre as pessoas.

Esta escolha da diretora faz com que tudo seja uma surpresa para quem assiste a esta história. E ela vai ficando mais e mais complicada e interessante com o tempo. Também bacana a forma com que Sarah foca o próprio trabalho, mostrando desde a chegada do pai dela no estúdio até o trabalho dos dois juntos. Ela não desaparece do processo, como uma narradora “oculta”. Até porque, e o nosso grande Eduardo Coutinho já tinha nos mostrado isso, ela é parte da história. Nada mais justo que vermos como ela trabalha e como ela conseguiu fazer este documentário.

Só depois de bastante tempo é que vamos entender a importância daquelas palavras do narrador. O que desperta a vontade de assistir novamente ao filme, para perceber as palavras de outra forma. Afinal, a história se torna mais fascinante conforme ela evoluiu e entendemos a responsabilidade e o papel de cada um dos “personagens” que aparecem nela. E essa lógica é como a vida mesma. Só vamos perceber a importância e o papel que nós mesmos e a outras pessoas que conhecemos desempenham ou desempenharam conforme o tempo passa.

Impossível assistir Stories We Tell e não ficar fascinado pela história dos Polley e dos Gulkin na mesma medida em que refletimos sobre a nossa própria história. E das nossas famílias. O quanto você sabe sobre o seu pai, ou sua mãe? Além da história deles, sobre o que eles sentiram ou pensaram? E você mesmo, o quanto você é transparente com os demais? No fim das contas, fica evidente que a tentativa de Sarah em contar a história da própria família e, consequentemente, dela própria, é falha. Como será falha qualquer tentativa de tentar chegar na verdade completa.

Mas tentar é importante. E é tão bonito! E o que eu achei mais bacana desta fascinante e muito humana história de Stories We Tell é a forma com que cada pessoa enxerga tudo o que aconteceu. Cada um tem a própria ótica mas, e o bacana de tudo isso, é que os filhos de Diane não olham para ela com dureza. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Pelo contrário. Exceto talvez por Mark, o mais sério dos irmãos de Sarah e o que parece ter se decepcionado mais com a mãe ao descobrir que ela foi infiel no casamento com Michael, os demais tinham uma leitura aparentemente bastante justa sobre as diferenças do casal Diane e Michael e sobre o “bacana” que foi a mãe deles ter se sentido valorizada e encontrado o amor junto a Harry.

Achei essa visão generosa muito interessante. E um desafio para a maturidade de qualquer filho que, normalmente, tem a tendência de buscar a perfeição nos pais. Mas vamos lá, nossos pais são humanos como a gente. E se nós somos falhos e cometemos erros, por que nossos pais não seriam assim também? E afinal de contas, o que de fato é errar? O primeiro choque de Stories We Tell para mim foi quando os entrevistados no filme revelam que Diane pensou em abortar a última filha que era, justamente… Sarah! Uau! Inicialmente, me coloquei no lugar dela e fiquei pensando o quanto difícil deve ser você saber que os seus pais pensaram em não ter você.

Mas daí, por várias razões, Diane mudou de ideia. E Sarah nasceu. E o mundo ganhou uma ótima atriz e diretora. E conforme Stories We Tell vai se desenvolvendo, passamos a entender melhor o porquê da ideia do aborto ter passado pela cabeça de Diane. E não foi apenas porque ela tinha mais de 40 anos. E daí surgem os outros “choques” da história. Interessante como todos lidaram com os novos fatos, especialmente Sarah.

Este filme, que pelo gosto de Harry Gulkin seria totalmente narrado por ele – que chegou a escrever um livro a este respeito, mas teve a ideia criticada por Sarah -, ganha diversas matizes pela forma com que a diretora resolveu contar a história. Além dos depoimentos de pessoas diretamente envolvidas nos fatos, temos a narração de Michael, que nada mais é que um corajoso texto de sua autoria escrito logo após saber da real paternidade de Sarah, e uma interessante troca de e-mails pessoais entre a diretora e seus dois pais.

Dando ritmo e dinâmica para o filme, além dele seguir uma lógica temática do início ao fim – começando pelas cenas de bastidores e dos principais entrevistados se arrumando para as perguntas frente às câmeras até as perguntas similares sobre o câncer de Diane e etc. -, ajuda na narrativa o vasto material de imagens de época pessoais da família. Elas estão presentes desde o princípio, garantindo que Stories We Tell tenha uma personagem ausente que ajuda a contar a história o tempo inteiro: Diane, através destas imagens de arquivo e com as pessoas falando dela.

Agora, não demora muito para o espectador perguntar-se sobre o que teria levado Sarah Polley a expor a família e a si própria tanto assim? E o mais bacana de Stories We Tell é que esta pergunta está presente. Assim como o “desconforto” de alguns dos entrevistados, especialmente os pais de Sarah, Michael e Harry, em não terem o controle da história nas mãos. Isto é o que torna este filme tão diferenciado. Porque ele não conta apenas uma história muito humana e fascinante, mas também questiona a si próprio e as motivações das pessoas. Além do próprio sentido da exposição e da verdade. Quantos filmes você conhece que já fizeram ou fazem isso?

Para mim, houve dois momentos especialmente importantes. Quando Michael, depois de saber de toda a verdade, pondera sobre “porque falamos, falamos e sem transmitir o que realmente somos” e quando, motivada por um e-mail de Michael, Sarah pensa sobre as razões “escondidas” que podem estar motivando-a a fazer este filme – além daqueles citados antes, de resgate da memória familiar e para discutir o próprio sentido de verdade.

De fato, muitas vezes na nossa vida percebemos que falamos demais. Não por ser exagerado, mas porque muito foi dito de fato. E no fim das contas, o que de verdade cada um de nós falou sobre si mesmo? O quanto fomos e/ou somos verdadeiros? E o quanto representamos por uma série de convenções ou necessidades? O questionamento de Michael é válido. Assim como a reflexão de Sarah sobre a própria motivação. E o questionamento dela é pertinente para qualquer um de nós em época de Facebook, Twitter e afins: por que, afinal, nos expomos?

No caso de Sarah, fica evidente que ela está buscando a identidade da mãe que morreu. E não apenas dela, mas da própria família e, por consequência, de si mesma. No fim das contas, ela presta uma corajosa homenagem para a mãe e, por tabela, a todas as mães e famílias que seguem dando continuidade para a humanidade.

A história também conta a busca da diretora pelo próprio pai – evidentemente. Mas não é apenas isto. Diz aquela velha frase que “recordar é viver”. E resgatar a história de alguém é como que tentar prolongar aquela vida, aquelas lembranças e sentimentos. Por isso homenageamos os mortos. E por isso seguimos contando as nossas próprias histórias.

Não tenho dúvidas de que a exposição das pessoas atualmente, muito mais simples e ampla do que antigamente, é esta nossa busca por permanecer. Por seguir com alguma presença e relevância além da nossa insignificância e mortalidade. O ser humano, acredito que desde o princípio, tenta ser menos efêmero do que é de fato. Acho que esta é uma condição tão inerente a nossa condição quanto a de querer viver o máximo possível – sentido de sobrevivência.

Stories We Tell fala de tudo isso de uma forma muito bonita, corajosa e como homenagem à memória das pessoas que ajudaram a moldar a vida uma das outras. Lindo filme. Inteligente, sensível e muito bem acabado. Sarah conta a sua história mas, porque não dizer, a nossa também.

NOTA: 10.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Teve um outro tema levantado por Stories We Tell que eu não mencionei antes: o amor sempre é desigual. Interessante o filme tratar disso porque esta é, sem dúvida alguma, uma das grandes verdades que vamos aprender com o passar do tempo. Em uma relação sempre, mas sempre mesmo, há uma entrega diferente entre as pessoas. Por isso mesmo, sempre achei inútil e idiota as pessoas perderem tempo “medindo” afeto. Ele é e sempre vai ser desigual.

Isso vale para qualquer relação. Mas especialmente nos casamentos eu acho que esta constatação é válida. Uma pessoa ama e se entrega mais para a outra do que vice-versa. E não vejo isso como um problema, desde que as pessoas não cobrem um retorno diferente. E nem queiram sempre medir o amor.

Duas pessoas estarem e ficarem juntas por muito tempo, como foi o caso de Michael e Diane, depende mais que tudo de uma escolha. Decisão esta baseada em amor, compromisso, afeto, respeito e tantos outros elementos. Mas dificilmente uma pessoa vai encontrar na outra aquilo que lhe falta. Ter estas expectativas pode ser natural, mas também é uma grande cilada. Stories We Tell nos fala um pouco sobre tudo isso.

Sarah Polley é uma pessoa fantástica. Falo isso sem conhecê-la, evidentemente. 🙂 Mas admiro a diretora, roteirista e atriz há muito tempo. Como atriz, passei a observá-la com muito mais atenção desde My Life Without Me, de 2003, dirigido pela ótima Isabel Coixet. E como realizadora, atuando como diretora e roteirista, desde o lindo e sensível Away From Her, de 2006, comentado aqui no blog. Admiro Sarah pelas escolhas que ela fez – e sabemos que as escolhas de alguém falam muito sobre aquela pessoa.

Vale comentar um pouco sobre a trajetória de Sarah Polley. Ela começou a atuar como atriz muito, muito jovem. Fez uma ponta na série de TV Night Heat em 1985, quando tinha apenas seis anos. No mesmo ano, participaria do primeiro filme, One Magic Christmas. Nesta época a mãe dela ainda estava viva – Diane Polley iria falecer apenas em 1990. Os pais de Sarah ficaram mais conhecidos pela carreira no teatro, mas buscando mais informações sobre eles no site IMDb foi possível perceber que Diane participou de algumas séries de TV e que Michael também fez alguns papéis no cinema.

Algo que achei interessante neste filme é a postura de Sarah Polley em querer defender a história da própria família. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Afinal, ela não acha que seja adequado Harry Gulkin sair publicando a sua ótica do que aconteceu. Por outro lado, ela torna Michael Polley o narrador de Stories We Tell. É como se ela deixasse muito claro de que família ela veio. Ok, Harry é o pai biológico dela. Sarah é fruto de uma paixão verdadeira. Mas quem esteve com ela desde o princípio? Quem foi mãe e pai de Sarah quando Diane morreu? Certo que Michael parecia não satisfazer as necessidades de Diane, mas é evidente em Stories We Tell o cuidado e o amor que Sarah tem por ele. Achei muito bonita a homenagem que ela faz para Michael e Diane, independente dos problemas que eles tiveram ou dos defeitos que possam ter tido. Eis uma linda declaração de amor familiar.

Stories We Tell funciona porque ele é feito de surpresa, momentos engraçados e emocionantes. Tudo está ali. E há trechos verdadeiramente preciosos. Um dos meus preferidos, na parte de humor, é quando Michael brinca sobre a “falta de coração” da filha, Sarah, quando ela está trabalhando. Ele se recorda de um vídeo que ela fez com ele mergulhando na piscina, uma alegoria para a “falta de tato” que ela está tendo agora, com Stories We Tell. Interessante.

Da parte técnica do filme, além da ótima direção e narrativa feita por Sarah Polley, logo no início do filme me chamou a atenção a ótima trilha sonora com arranjos de Jonathan Goldsmith. A maioria das músicas é de composições de Abraham Lass. Também excepcional o trabalho da diretora de fotografia Iris Ng e a edição de Mike Munn. Trabalho irretocável.

Vale citar o comentário de Sarah no início do filme: eles não estavam fazendo apenas um documentário, mas haviam desenvolvido um “processo de interrogatório”. Em alguns momentos, é isso que parece. Mas de forma muito sutil. E daí fiquei pensando: e o que um documentário e uma matéria jornalística são, de fato, além de espécies de interrogatórios? Perguntar e não parar de buscar respostas são recursos básicos para uns e outros.

Como comentei antes, Stories We Tell tem diversos momentos divertidos. Engraçadas, por exemplo, as reações dos irmãos de Sarah e de seus pais em diversos momentos. A própria diretora é personagem da história, não apenas por ser um ponto fundamental de tudo o que aconteceu com a família, mas por ser a condutora do filme. Interessante como algumas vezes ela faz uma pergunta, especialmente a primeira da produção, e ri do que está fazendo porque sabe como os outros vão reagir.

Como em qualquer família, na de Sarah as personalidades de cada um dos irmãos é diferente. Joanna é, para mim, a mais divertida. Ela tem um espírito sarcástico e direto muito interessante. Susy aparece menos, parece ser mais séria e emotiva. Mark faz as vezes do irmão mais sério, e aquele que fica um tanto decepcionado com Diane, enquanto John é o mais descontraído e aquele que entende as fraquezas e fortalezas de todos com naturalidade. Interessantes todos eles. Esta diversidade ajuda a dar graça para Stories We Tell.

Em certo momento, quando Harry questiona o filme da filha, interessante como ele tenta explicar a probabilidade da verdade ser contada. Quando ele fala sobre as pessoas diretamente envolvidas nos fatos e nos círculos de gente que vão se aglutinando a estas pessoas, fica ainda mais clara a identidade e o envolvimento dos entrevistados no filme.

Os personagens diretos, claro, são Harry e Michael – ainda que Harry acredite que apenas ele e Diane poderiam contar aquela história de forma legítima. Ele está certo sobre a história do romance deles, mas sobre o quadro completo, sem dúvida, Michael e os demais, especialmente os filhos que ficaram com o primeiro marido dela, tinham elementos importantes para revelar. Depois de Harry e Michael, o círculo seguinte de “contato com a verdade” é dos filhos. Depois, vem o círculo de amigos e outros familiares que acompanharam as histórias em segundo plano. Interessante pensar nestas “camadas narrativas” ao pensar sobre qualquer história.

Aliás, vale deixar um pouco mais clara a filiação de cada um dos irmãos de Sarah. Susy e John nasceram no primeiro casamento de Diane e acabaram ficando sob a guarda do pai. Mark, Joanna e Sarah nasceram do casamento de Diane e Michael.

Stories We Tell estrou em agosto de 2012 no Festival de Cinema de Veneza. Depois o filme participaria de outros 19 festivais, sendo o último deles o Festival de Cinema de Lisboa e Estoril agora, em novembro. Nesta trajetória, o filme conquistou cinco prêmios e foi indicado a outros seis. Entre os que recebeu, destaque para o de Melhor Documentário e Melhor Filme Canadense dado pela Associação de Críticos de Cinema de Toronto.

Não encontrei informações sobre o custo de Stories We Tell. Mas segundo o site Box Office Mojo, a produção conseguiu pouco mais de US$ 1,6 milhão nas bilheterias dos Estados Unidos. Ou seja, até o momento, este é um filme muito mais popular nos festivais de cinema do que entre o grande público. Reparei também que o filme nunca chegou a muitas salas de cinema. O máximo, segundo o site IMDb, foram 70 salas durante uma semana, em junho deste ano.

Os usuários do site IMDb deram a nota 7,7 para Stories We Tell. Uma avaliação muito boa, levando em conta a média do site. Os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 100 textos positivos e apenas cinco negativos para o filme – o que lhe garante uma aprovação de 95% e uma nota média de 8,6.

De acordo com alguns críticos, como Peter Knegt da IndieWire, Stories We Tell é um forte candidato ao Oscar 2014 de Melhor Documentário. Disputariam com ele, segundo Knegt, filmes como 20 Feet From Stardom, Tim’s Vermeer e Blackfish. Logo mais veremos se, de fato, Stories We Tell consegue uma vaga na lista final de indicados ao Oscar.

Stories We Tell é uma produção 100% do Canadá.

Ah, como eu estava com saudade de um bom documentário. Infelizmente eu acabo assistindo a eles principalmente na época pré-Oscar. Mas este gênero de filmes é excelente. Especialmente pela diversidade de histórias e de formas de narrativa. Quero ver se vejo a outros documentários em breve.

CONCLUSÃO: Brilhante. Esta foi a primeira definição para este filme que passou pela minha cabeça quando ele já tinha se desenvolvido além da metade. Contar histórias é algo fascinante e talvez uma das mais nobres e bonitas capacidades do ser humano. Mas nem todos sabem contá-las com maestria. A diretora Sarah Polley é uma destas pessoas que sabe como fazê-lo. Neste documentário forte e que explora a intimidade dela e da família de forma contundente, Polley dá uma aula de cinema. Nos mostra como contar uma história não é apenas encadear fatos ou, tratando-se de um documentário, fazer as pessoas falarem de forma sincera e surpreendente. Contar uma história é esconder e revelar fatos com inteligência e de forma com que o espectador sinta-se quase um personagem.

Stories We Tell é fascinante não apenas por ter histórias muito humanas, com valores potentes como o amor pela vida, a valorização da família, a fortaleza e a fraqueza que compõe qualquer indivíduo. Mas também porque aborda temas tão caros para o nosso tempo, como podem ser a exposição da intimidade das pessoas para desconhecidos, a busca pela própria identidade e pela verdade. O que é a verdade? A quem interessa uma história particular? Perguntas importantes e para as quais Stories We Tell joga alguma luz, mas com a sabedoria de deixar a reflexão e as respostas ao gosto de cada espectador. Brilhante. Perfeito. Uma aula de cinema e de contemporaneidade.

PALPITE PARA O OSCAR 2014: Não existe, ainda, uma pré-lista de documentários para o próximo prêmio da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood. Por enquanto, a Academia divulgou apenas a lista de filmes que estão disputando uma vaga na categoria de Melhor Filme em Língua Estrangeira, assim como os longas e os curtas de animação que estão habilitados para o próximo Oscar e os finalistas para Melhor Curta de Ficção.

O que existe, por enquanto, são especulações sobre os filmes que podem chegar na reta final da categoria Melhor Documentário. O crítico Peter Knegt, como eu comentei antes, é um dos que acredita que Stories We Tell tem grandes chances de estar entre os cinco indicados ao Oscar. Ainda não vi aos outros candidatos bem cotados, mas posso afirmar, desde já, que Stories We Tell merece chegar lá.

Primeiro porque é um documentário bem diferente do que estamos habituados a assistir. Ele inova na narrativa e na proposta conceitual. Além de funcionar muito bem porque tem humor, surpresas e emoção. Além de ser um filme que fala muito sobre o nosso tempo – tanto pela busca incessante pela importância da família quanto pela crescente preocupação sobre a privacidade e/ou a exposição das pessoas. É cedo ainda para falar se este é o meu favorito ao Oscar. Mas, sem dúvida, sou uma apaixonada por esse filme e, até assistir aos demais, meu voto iria para ele. 🙂

Out In The Dark – Além da Fronteira

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O amor não conhece qualquer barreira. Mas elas existem. Em alguns lugares, de forma muito mais presente, cotidiana e física do que em outros. Out In The Dark conta a história de amor de dois jovens que se encontram em uma noite qualquer, como tantos outros jovens já se encontraram. E que acabam desafiando as diversas fronteiras que existem ao redor para tentar viver este amor. Uma forma muito diferente de ver a questão Israel versus Palestina. Acima de tudo, uma narrativa universal.

A HISTÓRIA: Um jovem anda à noite. Passa por terrenos baldios, sobe em um morro, até que se esconde ao avistar uma patrulha. Depois que ela passa, Nimr Mashrawi (Nicholas Jacob) corre e consegue passar pela fronteira. Ele vê a cidade por um vidro até que chega a uma boate. Ele assiste ao final do show e quando tenta pedir uma bebida, sem êxito, conhece a Roy Schaefer (Michael Aloni), que está ao lado dele no balcão do bar. Eles começam a flertar, até que aparece Mustafa Na’amne (Loai Nofi), amigo de Nimr. No fim da noite, depois de conversarem muito, Nimr consegue uma carona para voltar para Ramallah, na Palestina, distante 10 quilômetros de Jerusalém. Mas este é apenas o começo dos encontros entre Nimr e Roy em Tel Aviv.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso só recomendo que continue a ler quem já assistiu a Out In The Dark): O primeiro acerto deste filme é a naturalidade com que o roteiro do diretor Michael Mayer, escrito junto com Yael Shafrir, evolui conforme o tempo vai passando. E o segundo acerto é a duração de Out In The Dark.

As histórias de Nimr e de Roy se assemelham a de tantos outros casais. Homossexuais ou heterossexuais, tanto faz. Quantas pessoas já encontram o amor (ou um amor) em um bar, em uma aparente noite qualquer com uma apresentação musical com chamariz? Uma conversa despretensiosa mas cheia de intenções começa meio sem querer perto de um balcão e se estende por horas. Até é possível lembrar daquela música da Legião Urbana: “… Eduardo e Mônica um dia se encontraram sem querer/ e conversaram muito mesmo pra tentar se conhecer…”. E a vontade, o desejo de seguir, de conhecer a pessoa, leva a um segundo encontro, e a outro, e a outro…

Em Out In The Dark é isso o que acontece entre os protagonistas. Mas há uma série de elementos que cerca a realidade deles e que torna o filme ainda mais interessante – afinal, esta não apenas uma história de amor. Pouco a pouco o roteiro de Mayer e Shafrir mostra a ótica dos palestinos e dos israelenses sobre uns e outros. A família de Nimr, uma destas famílias árabes que parecem ser comuns na fronteira da Palestina com Israel, não admite o contato entre os dois povos.

O irmão de Nimr, Nabil (Jamil Khoury), em especial, não entende o porquê do irmão querer estudar em Tel Aviv. Em certo momento do filme, ainda no início da história, Nabil diz que confia que o irmão vai conseguir avançar nos estudos fora do país sem “se submeter” à ajuda dos israelenses. Na verdade, ele defende um boicote às universidades do país vizinho – como se fosse possível os “inimigos históricos” contaminarem os árabes com o aprendizado acadêmico.

Pela história da família de Nimr – e, depois, pelo comportamento dos agentes da Segurança Nacional israelense – não há espaço para entendimento entre os dois povos. Para eles, o ideal seria uma fronteira inviolável e contato zero entre palestinos e israelenses. Mas a divisa é porosa. Israel tem mais oportunidades e, como qualquer país com esta característica, atrai pessoas que buscam avançar além das limitações dadas em seu ambiente próprio.

Além disso, e esta informação começa a ficar evidente com o fim trágico de Mustafa, existe o tratamento muito desigual dos homossexuais naquele contexto. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Segundo a reação da família de Nimr, para uma família árabe é uma verdadeira “desgraça”, uma grande vergonha e degradação ter um homossexual entre os seus integrantes. Do lado israelense, parece que o preconceito é menor – ainda que a mãe de Roy, Rina (Chelli Goldenberg), não parece aprovar o comportamento “espalhafatoso” e de “esfregar na cara” dos pais a “condição” de homossexual do filho, ele não viu problema de se assumir frente aos pais e de viver uma vida aberta. Muito diferente de Nimr, que sabe que será um “párea” social – e rejeitado pela própria família.

Não é por acaso que alguns árabes queiram buscar a “liberdade” maior que o lado israelense parece oferecer. Há mais oportunidades por lá em todos os sentidos. Mas aí entra o trabalho de espionagem e controle social dos agentes da Segurança Nacional de Israel, que buscam de todas as formas controlar a fronteira e impedir uma “invasão árabe”. Do lado palestino, muitas pessoas, a exemplo de Nabil, consideram uma verdadeira traição quem cruza a fronteira e “troca” a Palestina por Israel – mesmo que forem motivados pela legítima busca por melhores condições de vida.

Conforme a história de Out In The Dark vai passando, o espectador espera que algo terrível aconteça com Nimr. Ou mesmo com Roy – ainda que o perfil do filho do aparentemente poderoso Eitan Schaefer (Alon Oleartchik) pareça ser mais de “costas quentes”. A química entre os protagonistas, que são lindos e encarnam bem os respectivos papéis, e essa tensão crescente alimentada pelo roteiro de que a qualquer momento algo de trágico vai acontecer, segura a atenção do público até o final.

Porque os riscos de Nimr são maiores. Ele é pressionado pela Segurança Nacional, que busca um delator do lado palestino. Sofre pressão do “segredo” de ser gay e pelo perigo das armas que o irmão esconde na casa da família servirem de estopim para algum ato violento. Quando ele perde o visto para continuar estudando em Tel Aviv, algo que ele batalhou por muito tempo, o desespero aumenta não apenas porque ele foi ameaçado pela Segurança Nacional, mas porque ele terá que deixar de ver Roy. Talvez para sempre.

Parece aquela situação de “se correr o bicho pega, se ficar o bicho come”. Se ele resolve ir para Tel Aviv sem o visto, corre sério risco de ser preso. E depois que é “descoberto” pela família, se ele é “deportado” de volta para Ramallah, provavelmente será morto pela família, por causa da “vergonha” de ser gay, ou assassinado pelo grupo de palestinos que considera pessoas como ele traidoras da “causa”.

A forma natural e “reconhecível” com que a história é contada e a tensão crescente da narrativa funcionam muito bem. E a produção, como 99% dos filmes do mundo deveriam, tem o tempo adequado de 1h30min de duração. Este é o “timing” adequado para quase todas as histórias, porque ajuda a manter a atenção do espectador e facilita a história a não sofrer com as terríveis “baixadas” narrativas – ou, em alguns casos, enrolação pura e simples. Não há espaço para isso em Out In The Dark, que dá o tempo exato para apresentar os personagens, os entornos deles e o romance que começou naquele bar no início na história.

Diferente de outros filmes, Out In The Dark mergulha na disputa entre palestinos e israelenses com uma história muito humana e que não se restringe ao público gay. Porque qualquer pessoa é capaz de discordar do risco que paira sobre a cabeça de Nimr. Ninguém deve ser perseguido ou executado de forma sumária sem ter feito nada contra ninguém – “ser atacado por ser inocente”, para citar outra letra da Legião.

Mas há quem ficará insatisfeito com o final aberto de Out In The Dark. E eu até entendo este incômodo… afinal, o espectador ficou envolvido com a história e, de repente, ela termina sem uma conclusão óbvia. Diferente de outros filmes, em que o que acontece após o minuto final da produção está mais subentendido. Em Out In The Dark tanto Nimr pode ser pego no meio do caminho pela Segurança Nacional de Israel quanto ele pode chegar até um local seguro em que peça asilo por questão humanitária. Roy de fato pode ficar preso bastante tempo ou, por intermédio do pai, conseguir uma liberdade provisória e escapar para encontrar-se com Nimr no Exterior. Impossível saber. Fica ao gosto dos mais esperançosos ou dos descrentes o desfecho para esta história de amor.

Independente do que possa ter acontecido, este é um filme que funciona. E da minha parte, como sempre tendo para o lado da esperança, acredito sim que Nimr conseguiu se livrar a tempo e que ele iria encontrar Roy tempos depois, quando a Segurança Nacional de Israel desse uma liberdade provisória para o amante preso. Ainda que a liberdade de Roy fosse mais difícil, já que o tema da segurança nacional muitas vezes passa por cima dos direitos básicos dos cidadãos. Mas Roy fez o que deveria fazer, provavelmente salvando a vida de uma pessoa inocente – e de quem ele amava.

NOTA: 9,2.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Fiquei muito curiosa para saber mais sobre a realidade dos homossexuais nos países árabes. E encontrei neste site, o Instituto Cultura Árabe, uma valiosa entrevista com Georges Azzi, coordenador em 2005 da Organização Não-Governamental Helem, o primeiro grupo criado para defender o reconhecimento dos direitos dos homossexuais nos países árabes. Ele fala não apenas do surgimento da ONG e da proposta do grupo, mas sobre a realidade difícil dos gays naquele cenário. Bem interessante.

A disputa entre israelenses e palestinos parece um destes conflitos que não tem fim. Algumas vezes a discussão avançou para, depois, retroceder outra vez. As razões para uma disputa como esta durar tanto tempo, claro, não tem a ver apenas com religião. Passa por questões econômicas (dinheiro, sempre dinheiro!), históricas e políticas. Este texto introduz o assunto de forma didática. Da minha parte, evidentemente que eu torço pelo fim dos conflitos e disputas. Mas também acho que, até hoje, os israelenses foram sempre mais favorecidos e protegidos que os árabes. O que fica difícil de achar correto. Agora, inevitável perceber os absurdos praticados pelos dois lados desde o século 19. Lamentável.

Achei a proposta de Out In The Dark bastante corajosa e potente. E buscando saber um pouco mais sobre o filme, após escrever a crítica acima, descobri em textos como este, do Blouin Artinfo, que ele virou um “hit discreto” mundo afora por causa da participação de sucesso em diversos festivais. Como bem pondera o texto do site, a produção dirigida por Michael Mayer faz parte de uma leva de produções reconhecidas por crítica e público e que tiram os filmes com protagonistas gays do circuito restrito ao público homossexual ou de simpatizantes. Blue is the Warmest Color e Jellyfish são exemplos de como o “tabu” sobre estes filmes está sendo quebrado, para citar a interpretação de Robert Michael Poole.

No mesmo texto citado acima há uma entrevista com o diretor de Out In The Dark. Mayer explica, por exemplo, porque estreou em longas com esta história entre um “amor proibido” entre um casal gay em zona de conflito. Interessante que ele foi motivado pelas histórias que um amigo que trabalhou em uma ONG em Tel Aviv ouviu e que fez ele ficar chocado. Daí que ele resolveu compartilhar aquele cenário com quem quisesse ver/ouvir. Isso é fazer diferença com o cinema. Ou tentar, pelo menos.

Gostei da definição do diretor: “Esse filme não coloca os ativistas (da ONG do amigo dele) em primeiro plano. É uma história de amor íntima na qual os dois protagonistas estão tentando se desprender e viver suas vidas”. Apenas isso. E por que é preciso ser tão complicado?

Falando em algo complicado, houve um pequeno detalhe do filme que eu achei forçado e que, infelizmente, diminui uns pontos na avaliação de Out In The Dark. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). O que explica a Segurança Nacional de Israel invadir de forma tão fácil uma residência familiar em Hamallah? Afinal, segundo o Google Maps, Hamallah fica a cerca de 21 quilômetros da fronteira com Israel, algo como 25 minutos de carro. Sério mesmo que os palestinos não tem uma boa proteção de fronteira para impedir que um grupo do país vizinho chegue em uma casa e leve armas e pessoas? Achei bem pouco provável aquilo. Além disso, outro fator que fez o filme receber a nota que recebeu, e não uma maior, é que eu acho que ele poderia ser um pouco mais contundente. Havia espaço para ousar mais.

Achei curioso saber, na entrevista com Mayer, que Michael Aloni, que interpreta a Roy, é uma grande estrela em Israel. Bacana um ator que está tão na “crista da onda” entrar em um projeto como este, corajoso em abordar temas polêmicos e que ajuda a denunciar absurdos que, mesmo apenas inspirados em histórias reais, revela-se bastante legítimo. Interessante também saber que está “acontecendo uma onda recente de filmes israelenses gays”. Que, diferente das novelas da Globo, não evitam de mostrar a intimidade entre amantes gays.

Além dos atores já citados, vale citar o bom trabalho de Khawlah Hag-Debsy como Hiam, mãe de Nimr; Maysa Daw como a irmã do protagonista – e a única que parece se importar pouco com o fato do irmão ser gay; e Alon Pdut como Gil, o chefão daquele grupo da Segurança Nacional israelense.

Da parte técnica do filme, gostei da direção de Michael Mayer, que segue a linha de um filme “naturalista”, quase um documentário. Funciona bem a edição de Maria Gonzales, a captação dos sons ambientes e a trilha sonora de Mark Holden e Michael Lopez.

Out In The Dark estreou no Festival Internacional de Cinema de Toronto em setembro de 2012. Depois, ele fez uma longa caminhada por diversos festivais. O último foi agora, em setembro, no Festival de Cinema Queer de Lisboa. Nesta trajetória, o filme acumulou 11 prêmios e foi indicado a outros cinco. Dos que recebeu, quatro foram em festivais abertos para qualquer tipo de filme e, o restante, em eventos dirigidos para o cinema gay.

Os usuários do site IMDb deram a nota 6,9 para Out In The Dark, enquanto os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 16 críticas positivas e seis negativas para a produção – o que lhe garante uma aprovação de 73% e uma nota média de 6,6. Eis um destes raros empates “técnicos” entre os dois sites. 🙂

Out In The Dark é uma coprodução de Israel com os Estados Unidos e a Palestina. Por ser majoritariamente um filme israelense, não vou colocá-lo na lista de filmes dos EUA que estão rendendo uma série de comentários no blog como fruto de uma votação feita por aqui.

CONCLUSÃO: Este não é um filme tradicional. Ainda bem. Porque o mundo está cheio de histórias não tradicionais e que são ignoradas pelas pessoas. Importante dizer, logo de cara, que esta produção é protagonizada por dois gays. Então se você é um preconceituoso, faça um favor para todos nós e vença o teu preconceito ou fique longe deste filme. Dito isso, acredito que qualquer espectador interessado em assistir a bons filmes, independente da origem, deve ter visto algumas histórias sobre a aparentemente eterna disputa entre palestinos e israelenses. Out In The Dark foca os efeitos práticos desta disputa na fronteira. Há alguma arma, aqui e ali, mas não é a questão armamentista que está em jogo. E sim a vigilância e o medo constante, especialmente sobre pessoas que não seguem o “padrão desejado”.

Os gays sofrem uma perseguição ainda pior neste cenário, e Out In The Dark tem a coragem de abordar este tema. Uma verdadeira vergonha, na minha opinião. E uma questão humanitária. Não por acaso o pedido de ajuda exterior é o último recurso vislumbrado por um dos protagonistas. Filme bem dirigido, com ótimos atores nos papéis centrais e com um roteiro envolvente, Out In The Dark foge do lugar-comum do início até o final. Não sabemos bem o que irá acontecer depois da última cena. Mas ainda que as perspectivas não sejam boas, há esperança. Terminar com esta mensagem, apesar de todo o contexto, também é um ato de coragem. Bela história, ainda que triste. Mas é importante tratar destes romances que ainda são, de forma absurda, proibidos, para que um dia esse cenário mude.

Captain Phillips – Capitão Phillips

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As histórias reais contadas pelo cinema sempre guardam elementos de interesse para o público. Captain Phillips não foge da regra. Neste filme somos apresentados a procedimentos de resistência e de ataque no mar, o que garante a parte da ação. E também a uma história emocionante, de um sujeito que comum que é muito bom no que faz e que vive períodos de tensão extrema. De quebra, existe de fundo um debate interessante sobre o abismo social que existe no mundo – e que, surpresa para o espectador, também coloca em posições opostas algumas pessoas no mar.

A HISTÓRIA: Na cidade de Underhill, em Vermont, o capitão Richard Phillips (Tom Hanks) se prepara para zarpar em mais uma viagem no dia 28 de março de 2009. Ele adiciona na bagagem o documento de marinheiro mercante e uma foto de família. A mulher dele, Andrea (Catherine Keener) acompanha o marido no carro e diz que, ao invés destas viagens ficarem mais fáceis conforme o tempo passa, elas parecem mais difíceis. No caminho até o aeroporto, o casal fala sobre os dois filhos.

Andrea está preocupada que tudo parece estar mudando muito rápido, enquanto Richard se diz preocupado com o mercado de trabalho, muito mais exigente que antigamente, o que poderá tornar o caminho de um dos filhos, Danny, que anda matando aula, muito mais difícil. Depois, acompanhamos a jornada do capitão Phillips em mais uma viagem. Que diferente das outras, será interrompida por piratas.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso só recomendo que continue a ler quem já assistiu a Captain Phillips): Um bom roteiro faz toda a diferença. Recentemente eu comentei isso por aqui, quando falei de Gravity, um dos fortes candidatos em várias categorias do próximo Oscar. Enquanto no filme estrelado por Sandra Bullock falta um texto melhor, em Capitan Phillips o trabalho de Billy Ray sobre o original de Richard Phillips e Stephan Talty é exemplar.

Não é fácil adaptar para o cinema uma história em que sobram dados técnicos e que mexe com um tema que pouca gente se importa: a batalha entre grandes empresas comerciais, sediadas em países ricos, e os pobres coitados do litoral africano. Não tenho ideia de como o trabalho de Phillips e Talty se desenvolvem no livro A Captain’s Duty: Somali Pirates, Navy SEALS, and Dangerous Days at Sea, que inspirou o filme. Mas sei que Ray conseguiu dividir bem os momentos de ação, que cercam grande parte da trama, com vários de tensão e um final arrebatador.

Claro que apenas um ótimo roteiro não adianta. Quantos filmes você já assistiu que até tinham um bom texto, mas que decepcionaram com a escalação e/ou atuação do elenco? Pois bem, outra qualidade de Captain Phillips foi a escolha do protagonista e do principal coadjuvante. Não é por acaso que muitas bolsas de apostas apontam boas chances de indicações para o Oscar para Tom Hanks e Barkhad Abdi (Richard Phillips e Muse, respectivamente).

Mas vamos falar do filme propriamente dito. Primeiro, achei importante que o roteiro de Ray apresenta rapidamente, e na sequência, as realidades de Phillips e Muse. Afinal, eles seriam as principais figuras da queda-de-braço que acompanharíamos nesta produção. Somos apresentados a eles e ao local em que eles vivem, e pouco mais que isso. A ideia do roteiro é não perder muito tempo com a história de vida de cada um deles – afinal, quanto menos soubermos, maior o nível de incerteza sobre as suas motivações, sobre a formação que tiveram para aqueles momentos de tensão e sobre o que eles podem temer perder.

Claro que seria interessante sabermos mais de cada personagem, para termos uma contextualização maior da vida dos protagonistas. Por outro lado, é acertada a escolha do roteirista em deixar esta lacuna no filme porque ela, como afirmei há pouco, alimenta a dúvida no espectador. Para quem gosta de ação, Captain Phillips não demora muito para desenvolver as situações de conflito.

Achei interessante como Muse, apesar de ser o cara que escolhe a tripulação para as missões de ataque a navios cargueiro, tem uma posição frágil no grupo. É possível perceber a tensão entre os piratas desde o início. E como Muse não é um cara forte, ele não impõe a autoridade naturalmente. Mas conforme o filme se desenvolve, percebemos que ele sabe agir nos momentos precisos porque é inteligente e também sabe ser violento.

De qualquer forma, desde o princípio, e isso é um elemento importante, percebemos que existem discordâncias e rivalidades entre os homens que vão atacar o navio comandado por Phillips. E no próprio navio cargueiro também existem divergências – mas elas são de outro tipo. E aqui fica evidente o abismo que separa os dois lados desta história: enquanto os piratas ameaçam agressões por quase nada, como uma “encarada” em momento errado, os tripulantes do navio Maersk Alabama discordam por estarem em uma situação frágil, sem armas, e tem em alguns sindicalizados a figura do protesto. Que facilmente é contornado – muito diferente da realidade de Muse.

Com o desenrolar do filme, observamos procedimentos e um linguajar técnico desconhecidos dos leigos. Um elemento a mais de interesse na história e que não chega a pesar porque o filme logo parte para a ação do ataque de quatro piratas ao navio Maersk Alabama. Mesmo inicialmente parecendo improvável que quatro caras armados em uma lancha conseguiriam render um navio cargueiro gigante como aquele, Captain Phillips comprova que a tarefa não é tão difícil para homens que conhecem o mar e que encontram pela frente pessoas desarmadas.

Mas do lado do navio Maersk Alabama existe a figura do capitão Phillips. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). A postura dele é fundamental para que o ataque dos piratas seja frustrado. Ele ganha a disputa nos detalhes, mandando a tripulação esconder-se no local correto, deixando o rádio aberto para que eles soubessem por onde ele seguiria levando os bandidos para percorrer o navio e avisando Shane (Michael Chernus) da chegada deles no local em que eles guardavam os alimentos. Também é fundamental a dica sobre a armadilha com vidros estilhaçados.

A calma de Phillips e os atos inteligentes nos momentos de crise são fundamentais para que a história se reverta a favor da tripulação do cargueiro. Mas a mesma inteligência o espectador não percebe nos companheiros de Phillips. Afinal, como eles conseguiram fazer aquela trapalhada na troca de Muse por Phillips? A ação deveria ter sido outra, mesmo com o nervosinho Bilal (Barkhad Abdirahman) a ponto de sair atirando para todos os lados.

E daí começa o segundo round de tensão no filme. Sabemos que será quase impossível que aquele plano de Muse dê certo. E conforme o filme vai passando, e entram em cena a Força-Tarefa Combinada 151 das Forças Marítimas Combinadas e, na sequência final, os SEALs (força de operações especiais da Marinha dos Estados Unidos), essa sensação fica ainda mais clara. Inicialmente, a impressão do espectador é que Phillips vai sobreviver – afinal, ele é o “mocinho” e não teria graça o filme terminar com a morte dele.

Mas dois elementos me deixaram com uma boa dúvida sobre esta certeza perto do final. (SPOILER – não leia… bem, você já sabe). Por mais que Phillips tenha sido esperto em dizer em que local ele estava sentado no bote baleeiro, as confusões armadas com a tentativa de fuga dele e com o nervosismo do violento Bilal fazem ele ficar fora daquele local, aumentando as chances dele levar um tiro de quem foi para lá salvá-lo. E quando ele começa a escrever uma carta para a família… achei aquele um péssimo sinal. Logo imaginei que o filme terminaria com a morte dele e com Andrea lendo a mensagem final do marido. Detalhes sobre a captura dele poderiam ser passadas pelo oficial que fez filmagens da baleeira e com relatos de outras testemunhas. Essa dúvida na reta final ajuda o filme a alimentar a tensão do espectador – o que reforça a nossa capacidade de nos colocarmos no lugar de Hanks na catarse derradeira.

Deu gosto de ver uma trama tão bem escrita e com uma direção primorosa de Paul Greengrass. O diretor se firma, mais uma vez, como um especialista em filmes de ação. O ritmo não cai neste filme, e mesmo quando vivemos momentos de “baixo estímulo”, como podem ser algumas sequências dentro do barco baleeiro, as dúvidas sobre o que a tensão entre os personagens pode desencadear e a movimentação das equipes de resgate não deixam o filme ficar arrastado. Em diversos momentos a trilha sonora de Henry Jackman se mostra fundamental para a história, assim como o excelente trabalho do editor Christopher Rouse.

Tom Hanks e Barkhad Abdi duelam nos olhares, nos silêncios e nos diálogos. Mas é o personagem de Muse que tem algumas das tiradas mais brilhantes. Achei ótimas, em especial, as seguintes: quando Phillips diz que eles tem US$ 30 mil no cofre do navio cargueiro e oferece este dinheiro para os piratas, Muse pergunta se Phillips acha que ele é um mendigo (hahahahaha); e outra é quando ele diz “eu amo os EUA” após ser rendido na casa de máquinas.

Agora, para não dizer que o filme é perfeito, acho que faltou apresentar para o espectador a repercussão daquele evento nos Estados Unidos e na comunidade mundial. Afinal, os SEALs entram em cena e tem a ordem expressa de impedir que aquele sequestro terminasse na costa somali porque o caso teria tido um grande repercussão. Sem vermos isto na prática, fica um pouco difícil acreditar que o sequestro de um capitão renderia uma mobilização tão grande.

Além de um ótimo filme de ação, Captain Phillips explora a desigualdade absurda de condições que encontrávamos no mundo em 2009 – e que continua seguindo válida agora, quatro anos depois. Em mais de uma ocasião Phillips observa os atos dos sequestradores e questiona o que eles, especialmente para Muse e para o mais jovem do grupo, Elmi (Mahat M. Ali), estão fazendo. Há um momento emblemático no questionamento, quando Phillips diz que Muse pode fazer algo diferente além de ser pescador (após o sequestrador dizer que os barcos internacionais acabaram com a pesca dos somalis) ou sequestrador. No que Muse responde que há outras opções nos EUA, mas não ali.

De fato, é difícil dizer para um jovem que vive na favela ou em locais como a Somália de que existem muitas opções no mundo. São ótimas as histórias de quem vence as mazelas e as condições precárias e consegue vencer na vida, seguir um caminho dos sonhos. Mas elas são muito raras, e sabemos disso. Por mais que não queiramos muitas vezes admitir. Por isso mesmo, acredito que muitos espectadores vão simplesmente torcer por Phillips e desejar que os sequestradores sejam mortos. Porque para estas pessoas a norma ideal é aquela de “bandido bom é bandido morto”.

Mas acho que este filme quer apontar outro sentido. Phillips não tenta apenas sobreviver, mas ele tem vários gestos de pura humanidade – especialmente com o ferido Elmi. E ele não faz isso apenas porque acha que deve dobrar os sequestradores. De fato ele pensa no abismo que lhes separa. Nunca fui e nunca serei da opinião que pessoas em ambientes muito diferentes podem julgar-se umas às outras. Consequentemente, jamais vou achar que “bandido bom é bandido morto”. O que precisamos ou deveríamos fazer, ao invés de alimentar o ódio e a vingança, é agir para romper com estes estigmas de “pobres tem que se ferrar” ou “se virar” enquanto eu tenho uma vida boa.

Apesar de imaginarmos como seria o final de Captain Phillips, ele não é bonito. Tanto é que o próprio Phillips grita “não” quando percebe o que aconteceu. Mesmo ele, tendo passado por tudo o que passou, tendo sido agredido e humilhado, principalmente por Bilal, não desejava a morte dos sequestradores. Uma lição para nós e para quem mais quiser ouvir. Porque enquanto alguns ganharem milhões – inclusive os chefes de Muse – e outros viverem na miséria, vamos ver absurdos acontecerem diariamente neste mundo. Seja em mar, terra ou ar. Captain Phillips não se exime de fazer esta ponderação, o que torna o filme um verdadeiro achado entre as grandes produções de Hollywood.

NOTA: 9,9 9,8 9,7.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Fiquei muito em dúvida sobre que nota dar para Captain Phillips. Afinal, logo após assisti-lo, sai do cinema com a sensação de “que maravilha”. Me emocionei com o final, após ser surpreendida por alguns momentos de tensão verdadeiramente bem feitos. Só que eu estava na dúvida sobre dar-lhe um 9,7 ou 9,8… ou então me render à nota máxima. Eu ia dando um 9,8 até que escrevi o final do texto sobre a produção, refletindo sobre o questionamento que Captain Phillips deixa no ar. E mesmo podendo abaixar a nota depois, já que tenho grandes expectativas com 12 Years A Slave, vou me arriscar a dar uma nota bem próxima do máximo por enquanto. ATUALIZAÇÃO (10/01/2014): No fim das contas, me rendi mesmo ao 9,8. Mas não foi após assistir a 12 Years a Slave, e sim a Dallas Buyers Club. Quem diria!

Captain Phillips começa apresentando dois lugares muito diferentes entre si: Underhill, nos Estados Unidos, onde mora o protagonista, e Eyl, na Somália. Esta última, uma cidade litorânea no país africano, foi considerada em 2008 a Capital Pirata do Mundo devido à alta atividade de sequestro de navios cargueiros feita naquela região. Detalhe: ela ganhou esse título nada honroso um ano antes dos fatos que acontecem no filme. Na cidade de Eyl teria surgido toda uma “indústria” de ataques piratas no Índico, envolvendo sequestradores, mediadores, contatos, casas de prostituição e até um serviço de “comida para levar” destinada a piratas e reféns seguindo um estudo de Miguel Salvatierra publicado na revista Politica Exterior XXIII de março/abril de 2009.

Em certo momento, Muse diz que ele participou de um ataque no ano anterior em que eles conseguiram US$ 6 milhões. Imediatamente Phillips pergunta porque ele segue fazendo sequestros se ganhou tanto dinheiro. O silêncio de Muse deixa claro que ele é apenas mais um explorado naquela indigna indústria de fazer dinheiro com ataques a navios cargueiros. Mesmo comandando as operações ele deve ganhar uma miséria – e os outros então, muito menos. O que faz com que eles nunca deixem de praticar seus crimes. A mesma lógica de quem trabalha para traficantes.

A direção de Paul Greengrass é perfeita. Ele se aproxima de Tom Hanks no início, quando o capitão está preocupado com o navio antes dele partir. Neste momento, a câmera comandada por ele, com o fundamental trabalho do diretor de fotografia Barry Ackroyd, fica próxima de Tom Hanks – logo atrás, no ombro do ator, ou logo à frente. É como se seguíssemos os passos do homem que está no comando. Depois, no momento da ação, ele troca planos gerais com o close dos atores principais e com a dinâmica dos espaços. Uma das melhores sequências, de tantas ótimas de ação, é a do desembarque dos SEAL que pulam de uma avião. Um profissional que conhece bem o próprio ofício.

Muse, Bilal, Najee (interpretado por Faysal Ahmed, que fica marcado no filme por comandar o barco baleeiro) e Elmi escolhem um ótimo navio para atacar. Maersk Alabama estava carregado com 2.400 toneladas de carga comercial. Valia uma verdadeira fortuna.

Interessante como o público da sessão em que eu estava tinha pressa de sair da sala de cinema. Muitos se movimentaram antes mesmo de aparecerem as informações finais sobre a trama. Quase perderam as informações de que Muse foi levado para os Estados Unidos e condenado a 33 anos de prisão pelo crime de pirataria e de que Phillips, mesmo tendo passado por todo o drama que passou, voltou a trabalhar na Marinha mercante no ano seguinte, em 2010. Impressionante a determinação deste capitão. Com seu exemplo, ele nos ensina que alguém que tem uma vocação deve segui-la, apesar das dificuldades, dos riscos e dos dramas.

Esta é uma produção em que Tom Hanks brilha. Durante o filme inteiro mas, especialmente, na sequência final. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Gente, o que foi aquela entrega do ator ao ser atendido por uma médica? Acredito que ele verdadeiramente se emocionou com aquela cena. E nós vamos com ele, nos colocando em seu lugar ao perceber, pela primeira vez, que ele estava vivo apesar de tudo. Merece ser premiado, sem dúvida. E interessante saber que aquela sequência foi no improviso. Hanks contracenou com a oficial da Marinha na vida real Danielle Albert. Ela foi instruída a seguir um procedimento médico normal mas, por ser muito fã de Hanks, na primeira tomada ela simplesmente travou. Foi aí que Hanks brincou que ele deveria ser o único a estar em estado de choque. E daí filmaram outra vez. E ele fez aquele assombro de interpretação.

Além de Hanks, é importante citar o ótimo trabalho de Barkhad Abdi como Muse. Ele dá uma interpretação bastante realista e humana para o “anti-herói” deste filme.

Além dos atores já citados, vale comentar o trabalho de outros coadjuvantes que acabam tendo certa relevância para a história: David Warshofsky interpreta a Mike Perry, o piloto da casa das máquinas que coloca força total no Maersk Alabama sob as ordens de Phillips; Corey Johnson interpreta a Ken Quinn, que está na sala de comando quando o barco cargueiro é tomado pelos sequestradores e acaba sendo ameaçado de levar um tiro na cabeça; o veterano Chris Mulkey faz John Cronan, o trabalhador sindicalizado que reclama da falta de armas; Yul Vazquez faz o capitão Frank Castellano, da Força-Tarefa Combinada 151; e Max Martini faz o comandante dos SEAL.

Falando na força de elite da Marinha dos EUA, impressionante o preparo dos militares. Não por acaso eles são considerado os “top” da Marinha. (SPOILER – não leia… bem, você já sabe). Quando o comandante dos SEAL percebe onde está a arma de Bilal, automaticamente ele pede para pararem o reboque porque sabe que ele terá que dar um passo à frente. E “pimba”! Problema resolvido.

A trilha sonora de Henry Jackman começa a entrar em ação com mais força a partir da perseguição das duas lanchas de piratas ao navio cargueiro. Momento de quebra da narrativa. A partir daí, ela não sai de cena como elemento importante para a narrativa.

Tem um detalhe que achei interessante. Esta história se passa em 2009. E naquele ano o uso de drones (naves não-tripuladas) já era importante para os EUA. Ele é utilizado para sobrevoar o barco baleeiro quando a Força-Tarefa Combinada 151 está planejando a ação que vai fazer. Hoje, mais do que naquele ano, os drones são usados a rodo para várias operações, inclusive de ataque, feita pelos EUA mundo afora.

Agora, teve um momento do filme que eu achei que a Força-Tarefa Combinada 151 fez uma verdadeira “babada”. (SPOILER – não leia… bem, você já sabe). Quando Phillips tem a ação corajosa de se jogar na água e começa a nadar, eles deveriam ter identificado o capitão e ter acabado com o sequestro naquele momento. Mas não. Literalmente eles “comem poeira” e deixam os sequestradores retomarem o comando. Uma grande tropeçada.

Da parte técnica do filme, tudo funciona muito bem. Além do show de direção de Greengrass, da envolvente trilha sonora de Jackman e da ágil e precisa edição de Rouse, vale destacar o ótimo trabalho do já citado diretor de fotografia Barry Ackroyd, além dos efeitos sonoros e visuais que aparecem em cena para ajudar a história – e não para tomar o lugar do enredo sendo mais importante que ele.

Captain Phillips foi rodado em diversos lugares, incluindo estúdios em Malta e no Reino Unido, e com cenas externas em mais de uma cidade dos Estados Unidos, em Malta e nos Marrocos.

E agora, uma curiosidade sobre este filme: em uma entrevista para a rádio NPR, Tom Hanks disse que a primeira vez que ele encontrou os atores que interpretam aos piratas foi quando Greengrass filmou a invasão à sala de comando. O diretor revelou que este contato “tardio” foi proposital, para criar uma tensão real entre os atores “invasores” e os que estavam tendo o espaço “invadido”.

A história real do sequestro do Maersk Alabama foi fundamental para outra obra, a Djibouti, de 2010, lançada pelo escritor Elmore Leonard.

Captain Phillips estreou no Festival de Cinema de Nova York em setembro. Depois, ele participaria ainda dos festivais de Londres e de Tokyo. Até o momento, o filme conseguiu um prêmio e foi indicado a outros dois. Mas, certamente, ele será bem indicado nas premiações dos círculos de críticos de cinema nos EUA e também nas principais premiações norte-americanas. O único prêmio que recebeu foi o de Produtor do Ano para Michael De Luca no Hollywood Film Festival.

Esta produção teria custado cerca de US$ 55 milhões e faturado, apenas nos Estados Unidos, até a última quarta-feira (dia 13/11), quase US$ 92,7 milhões. Nos outros mercados em que o filme já estreou, Captain Phillips conseguiu outros US$ 55,1 milhões.

De acordo com este resumo da Amazon sobre o livro que inspirou o filme, o sequestro do capitão Phillips “dominou a mídia durante cinco dias em abril de 2009”. O romance é narrado em primeira pessoa. Apesar da experiência angustiante, comenta o texto, Phillips permaneceu com a fé inabalável, assim como um “senso de humor infalível”. Phillips tinha 30 anos de experiência no mar quando foi sequestrado na costa somali. No livro, segundo o texto, Phillips apresenta os sequestradores “com compaixão e equilíbrio”.

Procurando saber um pouco mais sobre o assunto, encontrei este texto da Folha de S. Paulo do dia 9 de abril de 2009 que tenta explicar os ataques piratas na costa da Somália. Há algumas informações interessantes ali. Achei informativa também esta resolução do Conselho de Segurança da Organização das Nações Unidas (ONU) sobre a “questão da pirataria na Somália” publicada em 2010.

Os usuários do site IMDb deram a nota 8,1 para Captain Phillips. Uma boa avaliação, levando em conta o padrão do site. Os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 203 textos positivos e 12 negativos para a produção, o que lhe garante uma aprovação de 94% e uma nota média de 8,4.

Esta é uma produção 100% EUA. Sendo assim, ela entra para a lista de filmes que eu estou comentando, produzidas naquela país, e que satisfaz o pedido feito por vocês, caros leitores, que votaram nos EUA para uma série de críticas aqui no blog.

CONCLUSÃO: Não é fácil fazer um filme sobre pirataria na região marítima da Somália. O assunto, por si só, não tem grande interesse para o público. Os ataques começaram há muito tempo e seguem ocorrendo e ninguém parece se importar muito com isso. Assim como com as milhares de pessoas que morrem no mar tentando sair da África para viver na Europa – recentemente o Papa Francisco chamou a atenção para o assunto. Por isso mesmo é impressionante como Captain Phillips funciona tão bem.

Mérito do diretor e dos roteiristas, não há dúvidas. Eles fazem um excelente trabalho, junto com um Tom Hanks comprometido e entregue na interpretação – o que deve lhe render uma indicação ao Oscar. De forma acertada, somos logo apresentados ao “herói” e ao “anti-herói” e seus respectivos “bandos”. Há muitas falas técnicas no filme, mas elas não incomodam, apenas tornam a história ainda mais verossímil. E o principal: Captain Phillips não se revela apenas um ótimo filme de ação, mas também uma produção que aborda questões difíceis de desigualdade social, frieza e humanismo e que, de quebra, ainda emociona. Não há como não se colocar no lugar do protagonista no final. Por ser tão humano, este filme se revela maravilhoso. Vale ser visto.

PALPITES PARA O OSCAR 2014: Não tenho dúvidas que Captain Phillips será um dos filmes indicados na próxima premiação da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood. A dúvida é sobre quantas indicações ele vai receber e se conseguirá levar alguma estatueta para casa.

Como sempre, é difícil opinar sobre as chances de cada concorrente sem ter visto aos principais nomes que estão sendo cotados para a disputa. Então, sem medo de errar, e explicando que ainda falta ter o quadro mais completo, posso dizer que eu acredito que este filme terá pelo menos cinco indicações, com boas chances de chegar a seis e até passar este número.

Para mim, é certo que ele será indicado como Melhor Filme, Melhor Roteiro Adaptado, Melhor Ator (Tom Hanks) e, possivelmente, Melhor Edição, Melhor Trilha Sonora e, quem sabe, Melhor Diretor. O crítico Peter Knegt, do IndieWire, também vê como possíveis as indicações de Captain Phillips como Melhor Ator Coadjuvante (Barkhad Abdi), Melhor Fotografia, Mixagem de Som e Edição de Som.

De todas estas categorias, francamente vejo ele com boas chances como Melhor Filme, Melhor Roteiro Adaptado, Melhor Trilha Sonora e Melhor Ator. Tudo vai depender do quanto 12 Years A Slave realmente é bom. Porque vejo os dois filmes concorrendo nas categorias principais. Comparado com outro “favorito” do ano, Gravity, não tenho dúvidas de que Captain Phillips é melhor. Os dois filmes competem, especialmente, nas categorias técnicas.

A Academia e o resto do mundo gostam de Tom Hanks. E faz tempo que ele não ganha um Oscar. Ele tem duas estatuetas na estante de casa: uma por Philadelphia, dada em 1994, e outra, no ano seguinte, por Forrest Gump. Hanks tem ainda outras três indicações – todas como Melhor Ator. Seria bacana ele receber mais um Oscar – que ele merece, especialmente, pelo final de Captain Phillips.

A performance dele é arrebatadora. Mas vai depender muito de vermos os outros concorrentes dele, especialmente Chiwetel Ejiofer por 12 Years A Slave e Leonardo DiCaprio por The Wolf of Wall Street. Há outros nomes bem cotados, mas que eu não acho que tenham o apelo para derrubar Hanks. Logo veremos.

Wadjda – O Sonho de Wadjda

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Uma bicicleta pode ser vista apenas como a junção de duas rodas com seus respectivos pneus, um quadro, mais guidão, selim, câmbio, correia e dois pedais, além de outras peças menores. Mas ela pode significar também uma revolução. Ou a liberdade extrema. Sou uma adepta fervorosa da bike. Mas não foi por isso (ou só por isso) que me rendi a Wadjda. O representante da Arábia Saudita na disputa pela estatueta de Melhor Filme em Língua Estrangeira no Oscar 2014 ganha o espectador com uma história simples, mas carregada de significados e que emociona.

A HISTÓRIA: Pés de meninas se movem lentamente e de forma ritmada enquanto um canto sobre a fé ecoa pelo ambiente. A professora desliga a música e pede para as alunas voltarem para as suas posições. Ela também diz para as meninas recomeçarem a cantar. Duas alunas passam perto, e Wadjda (Waad Mohammed) acena para elas. A professora pede que ela se aproxime – e vemos o par de tênis da menina, o único da turma – e para que cante os primeiros versos da música. Como Wadjda não consegue, ela acaba saindo. Este é o apenas o primeiro sinal de que Wadjda não se encaixa no perfil de estudante modelo da sociedade saudita.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso só recomendo que continue a ler quem já assistiu a Wadjda): Gosto de personagens que pensam por sua própria conta, que tem ousadia e autonomia. E não demora muito para a protagonista de Wadjda mostrar todas estas qualidades.

Não foi a primeira sequência que me fez abrir um sorriso. Mas quando saímos do ambiente da escola da menina e entramos na intimidade do quarto dela. Vários elementos ali são muito significativos e me despertaram ótimas lembranças.

Para começar, achei interessante a “gambiarra” feita com cabides para sintonizar uma rádio de pop rock no quarto da pré-adolescente. Depois, o ânimo de Wadjda por fazer cópias daquele tipo de música em fitas-cassete e ao embalar pulseiras feitas com fios. Minha identificação foi imediata. Eu sou do tempo em que a gente tinha que aguardar o fim dos comerciais das rádios com o dedo no “pause” para fazer fitas com seleções musicais bacanas e, depois, quando embarcávamos durante horas na tarefa de fazer estas pulseiras “estilo hippie”.

Identificação estabelecida nesta cena, não fica difícil simpatizar com Wadjda e a busca da garota por ter independência. Ela vive em uma sociedade em que as regras para as mulheres estão muito bem postas. É na Arábia Saudita onde elas devem casar cedo, andar nas ruas quase completamente cobertas e são proibidas de dirigir. De forma muito natural, o roteiro escrito pela diretora Haifaa Al-Mansour mostra estas e outras particularidades daquele ambiente ao acompanhar os passos de Wadjda e das pessoas que lhe cercam.

Interessante a escolha do diretor em focar uma garota com aquela idade. Afinal, Wadjda está perto de chegar na fase de ser prometida em casamento, como ocorre com Salma (Dana Abdullilah), colega de escola da protagonista. Enquanto a maioria das colegas dela parecem conformadas em seguir as regras, Wadjda está fascinada pela liberdade que o amigo Abdullah (Abdullrahman Al Gohani, um fofo) tem. E não apenas eles, mas todos os outros rapazes e homens que ela conhece.

Como é típico das crianças e dos jovens, Wadjda não entende muito bem as razões para o tratamento entre ela e Abdullah ser tão diferente. Afinal, porque ele e os outros rapazes podem andar de bicicleta e se vestir de maneira muito mais confortável e ela e as outras meninas não? São questionamentos simples, que podem ser entendidos por qualquer pessoa, e feitos por uma cineasta que nasceu e cresceu naquela realidade – ninguém melhor que ela para entender aquelas restrições e ousar apresentando questionamentos interessantes.

Uma qualidade de Wadjda é que o filme realmente se preocupa em mostrar a realidade da protagonista. Assim, o espectador pode conhecer tanto a intimidade do lar de Wadjda quanto o “ambiente social” onde ela circula. Caminhamos, assim, pelas ruas da cidade de Riyadh, no trajeto entre a casa da menina e a escola em que ela estuda. Percebemos a enorme admiração que ela tem pela mãe (Reem Abdullah) e a forma diferente com que ela encara os estudos e as colegas.

Mas além de um roteiro divertido e sem grandes discursos, apesar de cheio de mensagens espalhadas aqui e ali, este filme tem o grande mérito de ter a jovem Waad Mohammed como protagonista. A menina tem carisma e demonstra muita atitude. Seja para defender a mãe, quando ela é criticada pelo motorista Iqbal (Mohammed Zahir), seja nos pequenos detalhes como no tênis que usa, na forma com que ganha dinheiro (vendendo fitas-cassete e pulseiras proibidas), na recusa em tampar o rosto com um véu ao caminhar pelas ruas ou pela insistência em conseguir uma bicicleta.

Agora, sem dúvida, uma das grandes “tiradas” do filme é o questionamento sobre a fé e os costumes. Afinal, as colegas de Wadjda e ela própria cantam aqueles versos sobre seguir os “preceitos” de Deus, estudam o Alcorão e seguem as recomendações da diretora Ms. Hussa (Ahd) porque elas acreditam que é o certo a fazer ou porque temem serem punidas pelos adultos ou pela sociedade? O filme deixa bem claro, especialmente através do exemplo de Wadjda, que podemos seguir tudo o que nos dizem que é o certo, como os ensinamentos do Alcorão, os 10 mandamentos da Bíblia cristã ou o indicado em outros “livros sagrados” sem, de verdade, acreditarmos naquilo.

Como já ouvi tantos freis franciscanos falarem, há muitas pessoas que “batem cartão” na Igreja todos os domingos mas, saindo pela porta, elas parecem esquecer tudo o que ouviram ou o que rezaram. São uma espécie de “cordeiros robóticos”, ou seja, pessoas que cumprem um “papel social”, talvez para se sentirem bem aceitos no grupo social, mas que de fato não acreditam e/ou refletem no que estão fazendo. Assim, agem como animais quando comandam um carro em alta velocidade ou percebem que a fila está enorme no supermercado.

Achei brilhante a forma com que a diretora Al-Mansour aborda este tema em Wadjda. Ela não faz grandes discursos, não existe nenhum momento de “confronto com extrema reflexão” no filme. Mas estas questões todas estão nas entrelinhas e fazem o espectador pensar durante a após a projeção. O importante para a diretora, e isso fica bem evidente, é retratar aquela realidade que ela conhece bem, mesmo que de uma forma ficcional.

Neste filme, Al-Mansour também consegue plasmar bem um movimento que está cada vez mais evidente na Arábia Saudita e em outros países muçulmanos: a pressão que a cultura ocidental faz em sociedades que querem preservar seus velhos costumes. Nós do Brasil, país colonizado há mais de 500 anos, e que seguiu sendo colonizado desde então, sabemos bem sobre a potência das influências de “países dominantes” ocidentais. Usamos palavras derivadas do francês, do inglês e de outros idiomas, compramos produtos de diversas partes e consumimos com gosto produtos culturais norte-americanos, europeus e de outras latitudes.

O resultado destas influências é que nossa sociedade, assim como tantas outras, luta para preservar alguns elementos culturais “originais” (eles ainda existem?) enquanto mergulhamos nas influências de outras partes e recriamos tudo em um imenso caldeirão cultural. Agora, imaginem se o Brasil fosse um país preocupado em preservar uma série de regras e costumes que não tivessem paralelo nestas outras sociedades que nos influenciam? Este é um dos temas de Wadjda. Que mostra uma protagonista “reformista”, com vontade de quebrar regras, mas que se vê podada por quase todos os lados.

As cenas de Wadjda são lindas, e há um final muito bonito em cena. Mas após aquela pedalada, o que o futuro vai reservar para a menina? O provável é que ela seja obrigada a casar com alguém logo, diminuindo os riscos de “se perder no caminho”. E o marido vai exigir que ela tenha filhos, preferencialmente homens, e que siga todas as regras. Mas, talvez, e apenas talvez, ela siga o exemplo da diretora Al-Mansour e se torne a primeira mulher a dirigir um filme na Arábia Saudita. Nunca saberemos – o que é bom, porque o futuro da personagem fica à critério do público.

Independente do que aconteça com ela, Wadjda nos dá ótimos exemplos de como é possível “ser humana” mesmo em ambientes agrestes. Afinal, em mais de uma ocasião ela é provocada pela diretora Ms. Hussa a dedurar colegas que teriam seguido o “mau caminho”. Mas sem entender porque as garotas eram perseguidas e/ou temendo pelo que poderia acontecer com elas, Wadjda não seguiu as regras e ficou calada.

Eis outra mensagem interessante. Porque ela nos lembra que sempre temos uma escolha. Podemos fazer o que esperam da gente, mesmo que seja algo que não acreditamos, apenas para ficar bem, para sermos “salvos” ou para termos uma ampla aceitação social, ou podemos fazer aquilo que a nossa consciência acha melhor. Seguir a própria ética, especialmente se ela surge de uma profunda observação e reflexão, é algo difícil, mas libertador. Wadjda nos mostra isso de forma muito bacana, singela e envolvente.

O filme tem ritmo, uma protagonista carismática, um ambiente que pode ser compreendido por qualquer pessoa e uma mensagem libertadora também universal. Todos passaram pelo colégio, presenciaram algum conflito familiar – seja na própria casa ou em outra parte – e podem, assim, compreender o que acontece na trama, mesmo sem saber quase nada sobre a realidade na Arábia Saudita. E como a história flui bem, tenho certeza que Wadjda vai incentivar muita gente a procurar saber mais sobre aquele país, seus costumes e conflitos.

Agora, serei franca. Não gostei tanto deste filme apenas pelas qualidade todas citadas. Ele me afetou, especialmente, por causa do “sonho de consumo” da protagonista. E não apenas porque, um dia, ainda criança, eu também sonhei em ter uma bicicleta. Mas porque hoje, adulta, depois de passar por tantas experiências na vida, vejo na minha bike o meu principal instrumento de libertação três vezes por semana. Pedalando pela cidade para “manter a forma”, acompanhada de boa música, vejo belas paisagens, pessoas, sinto aromas, suo a camisa e vivencio a liberdade que Wadjda percebe ao seguir veloz com seu próprio esforço – e contrariando as regras e expectativas. A bike, neste caso, faz toda a diferença.

NOTA: 10.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Talvez muitos de vocês se lembrem da história daquela saudita que foi presa depois de ter postado um vídeo na internet em que ela dirigia um carro… lembro que na época fiquei bem impressionada. Não apenas pelo fato do YouTube e tantos outros serviços na internet ajudarem as pessoas a manifestarem o que pensam e sentem, mas também por achar incrível que uma mulher precisasse se esconder para dirigir.

Pois bem, este e outros pontos da realidade da mulher saudita são mostrados em Wadjda. No filme, por exemplo, a mãe da protagonista fica impedida de sair para trabalhar porque perde o motorista – e ela não tinha outra maneira de sair de casa de automóvel que não fosse pagando um homem para levá-la. Incrível!

Muita gente, como eu, deve se perguntar quanto deste filme aborda a vida comum real de uma família na Arábia Saudita. Pois bem, lendo este texto bem interessante, publicado em junho do ano passado por uma mulher saudita que diz ter passado a maior parte da infância no Kansas, mas que voltou para o país de origem depois, é possível perceber que existe muito realismo em Wadjda. E que há, também, muito preconceito e desconfiança nos dois lados da questão: tanto por parte de sauditas, em relação aos ocidentais, quanto vice-versa.

De fato, e como já comentei aqui quando opinei sobre outros filmes, o que precisamos é abrir o leque de entendimento. Tanto buscar compreender o passado e o presente de culturas diferentes que as nossas, como tentar se aproximar das pessoas que vivem estes cenários distintos para saber o que elas pensam e sentem. Dentro das nossas possibilidades, é claro. E quando a outra realidade é muito distante, o cinema é sempre um bom aliado neste sentido – além da literatura e da imprensa, é claro.

Para a diretora da escola de Wadjda, ela poderia ser um mau exemplo a ser combatido. E, por isso mesmo, objeto de vigilância constante. Mas a menina não tinha maldade e nem malícia. Prova disso é que ela falava sempre o que pensava e o que queria, “chocando” muita gente daquela ambiente que queria apenas seguir as regras. Inocência que fica clara quando ela revela o que faria com o prêmio do concurso sobre o Alcorão.

A reação da diretora é cruel, ainda que compreensível dentro daquele contexto. Ms. Hussa é paga para fazer aquelas meninas andarem nas “regras” e se esforça ao máximo para tentar “salvar” Wadjda. Como ela confessa em certo momento, Ms. Hussa se identifica com aquela menina rebelde – e tem certeza que, no futuro, a garota será “domesticada” como ela.

Achei fascinante o trabalho da diretora Haifaa Al-Mansour antes mesmo de saber mais sobre a história dela. Primeiro, porque gostei muito do roteiro de Wadjda e da condução da história. Al-Mansour está atenta aos detalhes de cada cena, valoriza a atuação dos atores e também ressalva bastante os cenários em que eles se movem. Conhecemos, desta forma, a forma de vida de pessoas aparentemente comuns na Arábia Saudita.

Depois, ao buscar mais informações sobre Al-Mansour, fiquei ainda mais fascinada com a diretora. Descobri, lendo a minibiografia dela no site IMDb, que Al-Mansour é a primeira mulher a fazer cinema na Arábia Saudita e, atualmente, é vista como uma das referências do cinema naquele país.

Ela fez Letras na Universidade Americana do Cairo e cursou mestrado em Direção e Estudos de Cinema na Universidade de Sydney. O sucesso da diretora em três curtas e o reconhecimento internacional com o documentário Women Without Shadows teria influenciado uma nova geração de cineastas sauditas. Mas ela divide opiniões na Arábia Saudita, tendo o próprio trabalho elogiado e difamado por incentivar a discussão sobre temas que são tabus naquela sociedade.

Al-Mansour está casada há seis anos com Brad Niemann e é mãe de dois filhos. Ela cresceu em uma pequena cidade saudita e é a oitava filha de um casal que teve 12 crianças. Achei a diretora muito bonita e, após assistir a Wadjda, muito talentosa. Vale acompanhá-la.

Agora, uma curiosidade sobre Wadjda: a diretor Al-Mansour teve que dirigir as cenas externas da produção de dentro de uma van, de onde observava os atores através de monitores. Ela se comunicava com a equipe através de walkie-talkies e sem sair do veículo. Teve que fazer isso porque no país segregado as mulheres não devem trabalhar em público com homens.

Além de um ótimo roteiro e de uma direção bastante cuidadosa e atenta, Wadjda conta com a edição competente de Andreas Wodraschke, com a direção de fotografia “calorosa” (em tons claros, especialmente pastéis) de Lutz Reitemeier e com a interessante e animada trilha sonora de Max Richter. Eles são importantes para que o filme funcione bem. Junto com os atores – especialmente a protagonista, o garoto Al Gohani e a atriz que faz a mãe de Wadjda.

Além dos atores já citados, vale comentar o trabalho de alguns coadjuvantes que tem certa relevância na produção: Sultan Al Assaf interpreta ao pai de Wadjda; Sara Aljaber a Leila, amiga da mãe da menina e uma mulher que resolve trabalhar em um hospital com outros homens – rompendo com certos preceitos daquela sociedade; e Rehab Ahmed faz Noura, uma das finalistas do concurso do Alcorão e colega de Wadjda.

Por mais que eu ache importante entender realidades diferentes da nossa, há algumas cenas em Wadjda que me deixaram um pouco perplexa. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Uma delas foi a forma com que trabalhadores de uma obra mexeram com Wadjda. Cheguei a temer pela menina naquele momento. E aquela foi apenas a primeira cena que mostrou o machismo daquela sociedade – onde os homens, aparentemente, podem tudo enquanto as mulheres devem baixar a cabeça e serem subjugadas. Outra sequência é a forma com que o pai de Wadjda enfrenta a mulher, que logo será deixada para trás e substituída por outra porque não pode dar para ele um filho. Nem preciso dizer que acho estas situações absurdas, não é mesmo?

Achei um pouco surpreendente Wadjda ser o filme indicado pela Arábia Saudita para o próximo Oscar. Afinal, a diretora Haifaa Al-Mansour é uma figura controversa no país e este filme é beeeeeem ousado, no sentido de questionar valores da sociedade saudita, mostrar certa “invasão” de elementos ocidentais naquele país e, principalmente, elogiar a rebeldia de uma garota que busca liberdade. Ao mesmo tempo que é surpreendente, esta indicação oficial merece aplausos. Neste sentido, o Brasil, que vive um momento de discussão sobre aceitar apenas biografias autorizadas, poderia aprender algo com a Arábia Saudita.

Wadjda estreou no Festival de Veneza em agosto do ano passado. De lá para cá, ele participou de pelo menos outros oito festivais de cinema relevantes. Nesta trajetória, ele ganhou 16 prêmios e foi indicado a outros cinco. Entre os que recebeu, destaque para os de Melhor Atriz para Waad Mohammed e Melhor Filme no Festival de Cinema Internacional de Dubai; prêmio do público como Melhor Produção Internacional no Festival de Cinema de Los Angeles; Prêmio “Diretores para Assistir” para Haifaa Al-Mansour no Festival de Cinema Internacional de Palm Springs; e três prêmios secundários (CinemAvvenire Award, C.I.C.A.E. Award e Interfilm Award) para Haifaa Al-Mansour no Festival de Veneza.

Não encontrei informações sobre o quanto custou fazer Wadjda. Mas o site IMDb traz a bilheteria que o filme conseguiu obter nos Estados Unidos: pouco mais de US$ 1,06 milhão. Claro que é pouco, mas não é um resultado ruim para um filme estrangeiro com o perfil de Wadjda e sem um grande apoio de estúdio para “acontecer”. Nos EUA, Wadjda foi distribuído pela Sony Pictures Classics, que é uma marca consagrada, mas que não deve ter se preocupado em espalhá-lo com muitas cópias pelo país.

Os usuários do site IMDb deram a nota 7,8 para o filme. Uma avaliação muito boa. Os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 73 textos positivos e apenas um negativo para a produção, o que lhe garante uma impressionante aprovação de 99% e uma nota média de 8,1. Resultado fantástico! E bastante justo.

Algo que eu achei incrível ao buscar mais informações sobre os principais nomes deste filme: tanto a diretora quanto a atriz que faz Wadjda estão vivendo, aqui, os seus primeiros trabalhos em longas de ficção. A diretora havia dirigido antes apenas a curtas e a um documentário. E Waad Mohammed não havia feito filmes. Incrível!

Falarei mais sobre as chances de Wadjda no próximo Oscar logo mais, abaixo, mas queria comentar que este filme também é o franco favorito no Globo de Ouro 2014. Ele e Jagten, junto com Le Passé, devem fazer uma quebra-de-braços interessante nas duas disputas.

CONCLUSÃO: Wadjda é um filme que vai crescendo conforme a narrativa evolui. Ele permite que o espectador mergulhe naquela cultura, diferente de grande parte do mundo ocidental, com calma, e que vá torcendo pela protagonista. No final, não tem como o público não estar envolvido com Wadjda e o sonho de quase toda criança. Quem nunca desejou profundamente, inclusive rezou para um dia ter uma bicicleta? Mas em alguns lugares este sonho é impossível para uma menina. Sabermos disso, e tentarmos entender aquela lógica diferente, é um desafio. Mas que vale ser vencido.

Wadjda segue a tradição de vários filmes que tem o olhar infantil como condutor, e consegue entregar o que promete com perfeição. No final, fica a mensagem de que vale ter um sonho e persegui-lo. E que sim, o mundo inteiro está contaminado com valores diferentes. Quanto antes aprendermos a respeitá-los e conviver com eles, melhor. Bela narrativa, construída de maneira precisa, que emociona e faz pensar sobre os conflitos de um país que não consegue ficar ilhado no mundo e vive o conflito entre as tradições e a “modernidade”.

PALPITE PARA O OSCAR 2014: Este filme tem alguns elementos que a Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood adora. Para começar, esta é uma história contada sob a ótica de uma criança – ou pré-adolescente, se você preferir. Depois, é um filme que sabe crescer com o passar do tempo, e surpreende pela ousadia de quebrar tabus e elevar alguns dos valores que os Estados Unidos adora “vender”. Apesar disso, ou além disso, Wadjda é um filme realmente bem feito e que funciona.

Analisando os filmes que eu vi até agora e que estão na lista das 76 produções que buscam lugar entre cinco finalistas ao Oscar, vejo que Wadjda está no extremo oposto de outro filme impecável: Jagten (comentado aqui no blog). Até agora, a produção dirigida por Thomas Vinterberg tinha o “meu” voto. Era a minha preferida. Mas fica difícil escolher entre ela e Wadjda porque estes são filmes tão diferentes entre si… que é uma questão quase de tirar cara-e-coroa para saber qual deveria ser o vencedor.

Sem dúvida Jagten é mais ousado na narrativa e na crítica, e tem algumas surpresas no roteiro que Wadjda não possui. Por outro lado, o filme dirigido por Haifaa Al-Mansour tem a ousadia de questionar parte da realidade social da qual ele é originário – somando-se a várias outras manifestações que questionam alguns costumes tradicionais da Arábia Saudita. É preciso coragem para fazer isso. E por isso mesmo, fico dividida entre as ousadias diferentes de Jagten e Wadjda.

De qualquer forma, não tenho dúvida de que Le Passé (comentado aqui) e O Som ao Meu Redor (aqui) estariam em segundo plano na disputa. Se bem que a Academia sempre pode surpreender… De qualquer forma, até aqui, me parece que Wadjda tem o perfil do Oscar, não apenas por trazer a sempre premiada ótica infantil como protagonista, como também por evidenciar a busca pelo próprio sonho de um indivíduo e a rebeldia ocidental em um país árabe que os EUA adorariam conquistar culturalmente. Faria sentido dar uma estatueta para um filme com esta “pegada” – e que, além disso, é bem feito.

ATUALIZAÇÃO (21/12/2013): A Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood divulgou ontem, dia 20 de dezembro, a lista de filmes que avançaram na disputa da categoria de Melhor Filme em Língua Estrangeira. Wadjda ficou de fora da lista. Seguem na disputa os seguintes filmes: The Broken Circle Breakdown (Bélgica), An Episode in the Life of an Iron Picker (Bósnia e Herzegovina), The Missing Picture (Camboja), Jagten ou The Hunt (Dinamarca), Two Lives (Alemanha), The Grandmaster (Hong Kong), The Notebook (Hungria), La Grande Bellezza ou The Great Beauty (Itália) e Omar (Palestina). Além de Wadjda, outros filme que apareciam na lista dos especialistas como alguns dos favoritos, Le Passé e Gloria, também ficaram de fora. Interessante.