Salmon Fishing in the Yemen – Amor Impossível

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Lasse Hallström é um especialista em fazer filmes bonitos. Ele busca belas imagens, e gosta de ter tempo de revelá-las. Nos incita à contemplação. Não é diferente com Salmon Fishing in the Yemen, um filme divertido, muito inglês, e que busca enfatizar como não há limites para a vontade – e o dinheiro. Bem ao estilo de Hallsröm, que gosta de adaptar romances bacaninhas para a telona, Salmon Fishing aborda temas muito diferentes de forma leve e um tanto descompromissada.

A HISTÓRIA: Água, e belos peixes. Uma figura com vara de pescar e turbantes pesca em um cenário incrível. E começa a narrativa com uma carta escrita por Harriet Chetwode-Talbot (Emily Blunt), de um escritório de advocacia, para o Dr. Alfred Jones (Ewan McGregor). Ela diz que representa um cliente com muito dinheiro que quer financiar um projeto para que o Iêmen comece a produzir salmão. Harriet comenta, na correspondência, que o projeto tem o apoio do Ministério de Relações Exteriores inglês, que quer reforçar a cooperação com o pequeno país árabe que faz fronteira com a Arábia Saudita e Oman. Após mandar o e-mail para o Dr. Jones, Harriet sai para se encontrar com o militar Robert Mayers (Tom Mison), com quem ela está começando a se envolver. Dr. Jones acha a ideia de criar salmões no Iêmen absurda, mas acaba sendo forçado, por questões políticas, a embarcar no projeto financiado pelo Sheikh Muhammmed (Amr Waked).

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momento importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Salmon Fishing in the Yemen): Um ponto forte desta produção é o humor da história. E a coragem do roteiro de Simon Beaufoy, adaptado do livro de Paul Torday, em refletir sobre questões como as relações diplomáticas, a política inglesa e seus “veja bem”, assim como na ironia de mostrar os extremos de um cientista que busca lógica constante e de um sheikh árabe movido pela fé e que tem dinheiro suficiente para mover montanhas.

Como a vida mesma ensina, este filme revela como as convicções vão sendo modificadas e enfraquecidas pela experiência. Nem o cientista segue sendo tão objetivo quando ele esperava, nem o sheikh com todas as ferramentas na mão (especialmente a fé e o dinheiro) consegue tudo o que quer. A vida é mais complexa do que parece, como escreveria e cantaria Jorge Drexler. E as variantes vão nos moldando. Porque a nossa vontade, por mais que algumas vezes surpreendente, sempre é limitada. O desejo de um indivíduo esbarra na vontade de seu semelhante, quando as pessoas não estão olhando na mesma direção.

Salmon Fishing in the Yemen ensina um pouco sobre isso. O que é surpreendente. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Por incrível que pareça, este filme me fez lembrar de algums discussões que eu tive o prazer de ter no meu doutorado. Especificamente sobre projetos de desenvolvimento local. O erro mais comum, incluside de organizações internacionais de respeito, é querer implantar em locais diferentes as mesmas fórmulas de desenvolvimento. Sem se preocupar em ouvir as pessoas daquela localidade, seja para saber se aquela proposta é adequada para elas, seja para despertar nos indivíduos a capacidade de encontrarem soluções para os seus próprios problemas. E Salmon Fishing trata exatamente disto.

O sheikh Mohammed está cheio de boas intenções, investe um rio de dinheiro – literalmente – para levar uma alternativa econômica e de renda para aquele local antes depreciado, mas não encontra este mesmo entendimento entre um grupo de pessoas local. Claro que se ele tivesse feito outro movimento, como ouvir as pessoas locais antes de atuar, envolvendo elas nesta proposta de desenvolvimento, ele teria tido outra resposta. O que nos leva a outra questão: por mais que achemos que estamos fazendo o bem e uma escolha certa, devemos sempre nos questionar. Partir da posição humilde de que não sabemos tudo, e que deveríamos ouvir mais do que falar aquilo que, para nós, parece tão evidente e certo.

Salmon Fishing, aliás, parece estar sempre falando sobre como esta posição humilde de questionar-se sempre parece ser a mais adequada. Dr. Jones e Harriet acabam, cada um em seu momento, questionando as suas próprias escolhas de vida. O sheikh, por mais diferente que é a sua realidade e firmeza de propósitos, também acaba se questionando. E o que o filme mostra, e eis uma parte bacana dele, é que há sempre alternativas. Não importa o problema que você esteja enfrentando, ou as escolhas que já tenhas tido na vida, há sempre um novo recomeço possível. Para isso, basta ter um pouco de fé, e alguma humildade e coragem.

Fora as questões filosóficas sobre ter paciência – a velha alusão ao ato de pescar – e de investir em uma ideia movidos pelo amor, Salmon Fishing acerta ao contrapor os homens “da ciência e da fé”, justamente para mostrar que eles não são tão diferentes assim e podem ser igualmente “contaminados” por uma característica ou outra. Porque, no fim das contas, e ainda que o Dr. Jones não tenha percebido, mas é justamente o amor por uma mulher (no caso dele) ou por uma ideia/povo (no caso do sheikh) que move ele, Harriet e o sheikh.

Achei especialmente engraçado como o protagonista, tão enfático em seu conhecimento científico, é tão “inocente” a respeito da vida real. Como Dr. Jones, há muitos especialistas espalhados por aí que são quase autistas. Vivem tão fechados em seus mundos científicos que não percebem como o restante da vida se desenvolve. Para ele, como cientista, é impossível criar salmões em um clima como aquele do Iêmen. Mas ele logo descobre que não há fronteiras para a capacidade do dinheiro em mudar realidades e transformar o impossível em algo possível. Certamente ele amadurece conforme esta história se desenvolve, e acompanhá-lo nesta “passagem” da vida pueril de um cientista para a de um sujeito que embarca em um projeto cheio de interesses e interessante encanta o espectador.

Outro acerto da produção é ironizar não apenas o jeito interessante dos ingleses encararem a sua própria intimidade, como também os bastidores da política. Servem de condimento para a história a relação fria entre Alfred e Mary Jones (Rachael Stirling). Eles são destes casais, e há muitos na Inglaterra e em outros países, que ficaram juntos cedo e que são mais amigos do que amantes ou confidentes. Há pouca intimidade naquele lar. E essa falta de paixão contamina todo o restante.

A mesma intimidade pouco afetiva é vista na casa da poderosa Patricia Maxwell (a excelente Kristin Scott Thomas), assessora de imprensa do Primeiro Ministro britânico. Fora de casa ela intimida e consegue mudar as coisas a favor do governo britânico impondo autoridade, mas dentro do lar ela não consegue ser ouvida pelo filho adolescente. Um contraste interessante e que faz refletir sobre a capacidade de homens em mulheres em obter sucesso em determinado campo da vida – profissional ou pessoal – mas, dificilmente, em todos. Até porque, e Salmon Fishing fala sobre isso, a dedicação para um propósito ou outro faz toda a diferença.

NOTA: 8,9.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Não li ao livro de Paul Torday, e que inspirou o roteiro de Salmon Fishing, mas algo eu posso dizer: que belo trabalho de Simon Beaufoy! Mais um, aliás. Aqui, outra vez, ele cuida de um roteiro ágil, cheio de diálogos preciosos e bem planejados/costurados. Não há sobras, e sim muitas linhas bem escritas. Dá gosto de ver um roteiro assim. E ainda que ele não seja muito surpreendente, no final, ele segura o interesse até o último minuto, bastante ajudado pelo carisma dos protagonistas e pelo ótimo trabalho dos coadjuvantes.

Falando nos coadjuvantes, Kristin Scott Thomas rouba a cena cada vez que aparece. Mas junto com ela, merecem ser mencionados alguns atores que fazem a diferença. Como, por exemplo, Conleth Hill, que interpreta a Bernard Sugden, o burocrata que é o chefe do Dr. Jones, político padrão, e que morre de medo de Patricia Maxwell. Os dois servem como uma ótima dupla de apoio para os protagonistas, junto com o excelente egípcio Amr Waked, que tem uma presença impressionante frente às câmeras, e do galã com pequena participação na trama, Tom Mison.

Salmon Fishing conseguiu, até o dia 3 de junho, pouco mais de US$ 9 milhões nas bilheterias dos Estados Unidos. Um desempenho baixo, comparado com os blockbusters, mas não está mal para um filme com estilo “alternativo”.

Esta produção estreou no Festival de Toronto em setembro de 2011. Depois, ele participou de outros três festivais de cinema, o de Portland, de Palm Springs e o de Tokyo. Nesta trajetória, ele conquistou um prêmio, o segundo lugar como melhor narrativa no festival de Palm Springs. Recentemente ele foi indicado para três prêmios no Globo de Ouro: Melhor Filme – Musical ou Comédia, Melhor Ator em Filme – Musical ou Comédia para Ewan McGregor e Melhor Atriz em Filme – Musical ou Comédia para Emily Blunt. Acho bem difícil ele ganhar qualquer um destes três.

Da parte técnica do filme, merecem ser mencionados os ótimos trabalhos do diretor de fotografia Terry Stacey, a trilha sonora de Dario Marianelli, e a edição de Lisa Gunning, que dá um ritmo interessante e que apresenta um trabalho técnico excelente.

Para quem gosta de saber aonde as produções foram filmadas, Salmon Fishing foi rodado em Londres, na Escócia e em Marrocos.

Os usuários do site IMDb deram a nota 6,8 para esta produção. Não está mal, avaliando a média de notas do site. Os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 91 críticas positivas e 45 negativas para a produção, o que lhe garante uma aprovação de 67% e uma nota média de 6,2.

De fato, público e crítica tiveram uma avaliação muito próxima. E a minha, acima, talvez tenha sido muito generosa. Mas é que me surpreendi com todos os temas que esta produção trata. Admito, contudo, que ela simplifica um bocado os personagens principais – Dr. Jones muito estigmatizado como o “cientista insensível e deslocado do mundo real” e o sheikh muito estereotipado como o sujeito cheio da grana que gasta um rio de dinheiro em um projeto absurdo. Mas a verdade é que estes personagens existem na vida real, com um pouco menos ou mais de caricatura. Então devo dizer que este filme me convenceu, apesar do exagero em alguns momentos e pela falta total de surpresa na reta final. Mas tudo isso para dizer que eu entendo a avaliação menos generosa das outras pessoas. 🙂

Salmon Fishing in the Yemen é uma produção 100% inglesa.

Agora, uma pequena e fácil observação: o título original é bacana porque é autoexplicativo e resume parte da produção. Por outro lado, o título para o mercado brasileiro… horrível. Como em tantas outras vezes. Que Amor Impossível o que? Lamentável.

CONCLUSÃO: Há uma grande dose de realidade e de fantasia neste filme. Pescar, e isso Hemingway e tantos outros escritores já haviam nos ensinado, é uma questão filosófica e quase espiritual. Por tratar também de pescaria, Salmon Fishing in the Yemen pretende ser além do que uma bonita embalagem. Ele roça em questões como fé, superação humana e a motivação para nos fazermos maiores do que o ser insignificante (mas poderoso) que somos. E a grande motivação, claro, é o amor. Agora, francamente, se esta produção fosse apenas isto, filosofia em forma de pílulas, ela seria chata. Mas ela vai além. Aborda o jeito inglês de viver, trabalhar e amar, assim como os bastidores ridículos da política. Imagem é tudo, já diria uma certa propaganda. E o roteirista Simon Beaufoy e o diretor Lasse Hallström acertam a mão ao misturar todos estes elementos, buscando o equilíbrio entre eles. O resultado é um filme divertido, muito bem conduzido, que não surpreende no final, mas que traz alguns elementos interessantes no decorrer da história, além de um grupo de atores muito concentrado e com bom desempenho. Vale ser conferido, ainda que não seja inevitável.

PALPITES PARA O OSCAR 2013: Salmon Fishing in the Yemen deve ser indicado em algumas categorias do próximo Oscar. Mas é difícil precisar em quantas. Como sempre, tudo vai depender do lobby de seus produtores e realizadores. Não seria surpreendente ele chegar a ser indicado como Melhor Filme, especialmente agora que até 10 produções podem chegar lá. Na versão anterior da premiação, quando apenas cinco eram indicadas, certamente ele ficaria de fora. Mas com a lista maior, é possível que ele chegue, mesmo não sendo o melhor do ano – e isso porque eu não assisti nem a metade dos favoritos.

Também é possível, pela “ficha corrida” de Hallström e pelo trabalho competente que ele fez nesta produção, que ele seja indicado como Melhor Diretor. É mais difícil, é verdade, mas nunca se sabe. No mais, não seria surpresa se o filme aparecesse na lista de Melhor Direção de Fotografia, Melhor Roteiro Adaptado e Melhor Trilha Sonora. Porque cada um destes elementos funciona com perfeição e tem destaque na produção.

Mesmo que o filme chegue a conquistar todas estas indicações, francamente acredito que ele saia de mãos vazias da premiação. Talvez Salmon Fishing tenha mais chances em direção de fotografia e trilha sonora. Mas, ainda assim, meu palpite é que ele não deverá ganhar nada. O que não seria injusto, analisando os seus concorrentes.

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Moonrise Kingdom

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Crianças sempre rendem histórias fascinantes. O cinema tem algumas preciosidades com esta verve – para citar apenas dois clássicos óbvios, são inesquecíveis The Goonies e Stand By Me. Agora, Moonrise Kingdom entra para a lista de clássicos do gênero. O diretor Wes Anderson faz um trabalho impecável, com muito estilo e detalhista. E tudo, absolutamente tudo funciona bem. Se você gosta de histórias divertidas e que não tem medo de explorar a fantasia, este é um filme extremamente indicado para você.

A HISTÓRIA: O quadro de uma casa engraçada, frente ao mar, uma tesoura ao lado esquerdo e uma bolsa do lado direito. A câmera desliza pela casa, e acompanhamos um garoto colocando um disco na vitrola. Os irmãos logo se reúnem ao seu redor. Suzy (Kara Hayward) pega o seu gato, coloca o binóculo pendurado no pescoço, vai até a sala em que os irmãos estão e se senta para voltar a ler um de seus livros de fantasia favoritos. Ela lê por pouco tempo, abre as cortinas da janela e olha com o binóculo para fora, onde chove forte. Ela está naquela casa vermelha e engraçada do quadro. A família dela, formada por três irmãos e os pais Walt Bishop (Bill Murray) e Laura Bishop (Frances MacDormand), fazem de tudo para passar o tempo enquanto a tempestade segue forte. Quando o sol sai, Suzy vai até a caixa de correspondências e encontra uma carta endereçada para ela. Em seguida, o narrador (Bob Balaban) desta história nos apresenta a Ilha de Nova Penzance, onde o desaparecimento de um jovem escoteiro vai mudar a rotina de muita gente em pouco tempo.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes de Moonrise Kingdom, por isso só recomendo que continue a ler quem já assistiu ao filme): A diferença está estampada logo nos primeiros minutos. Não apenas por aquela câmera deslizante e pelo inusitado hábito das crianças em ouvirem discos que contam em detalhes o funcionamento de uma orquestra. O estilo do lugar, os detalhes de cada cômodo e personagem, tudo marca o estilo do trabalho de Wes Anderson. E o ritmo que ele consegue imprimir logo no início, nos apresentando aquele mundo fascinante dos Bishop, não esvanece pelo restante do filme. Mesmo quando saímos daquela casa cheia de peculariedades.

Aliás, cada novo ambiente revelado ou momento apresentado pelo brilhante roteiro que Anderson escreveu com Roman Coppola mantém o interesse desta produção. Como em um quadro cuidadosamente pintado por Sam (o fantástico Jared Gilman), cada lugar e cada ângulo de filmagem parece ter sido meticulosamente analisado antes de ser gravado em película. Junto com a direção sem retoques de Anderson, merece aplausos a direção de fotografia de Robert D. Yeoman. Não importa se estamos no interior de uma casa ou em algum dos cenários externos maravilhosos percorridos pela dupla de aventureiros mirins. A qualidade da imagem e a busca da beleza são elementos constantes.

Se a direção é irretocável, porque nos conduz com perfeição, procurando sempre a beleza e, ao mesmo tempo, valorizando o trabalho dos ótimos atores, e todos os demais aspectos técnicos do filme funcionam bem para contar esta história, o que dizer do roteiro? Igualmente irretocável, porque acerta no tom de aventura, no drama, na comédia e no romance. Todos os elementos básicos estão ali, sem exagero em uma dose ou outra.

Algo que achei incrível neste filme é que, mesmo sendo uma história baseada na clássica aventura pela descoberta do mundo adulto feito por jovens que ainda não chegaram lá, Moonrise Kingdom não tem uma narrativa totalmente infantil e/ou juvenil. Certo, há bastante fantasia na história. Mas há espaço para os adultos mostrarem o seus próprios pontos de vista. Verdade que eles parecem meio bobos… mas isso faz parte da vida. Crianças e jovens parecem tão surpreendentes, verdadeiras evoluções de seus pais. Até que eles viram adultos, e mostram toda a sua fragilidade, trapalhadas, incertezas e, porque não, coragem. Moonrise Kingdom é brilhante porque fala de tudo isso, e de maneira sutil.

É maravilhoso relembrar as pequenas grandes descobertas… como o primeiro beijo, uma praia pouco conhecida e que vai desaparecer do mapa, as saídas inteligentes para armadilhas que vão aparecendo no caminho… Também é ótimo ver como as crianças evoluem, nos surpreendem. Mas um filme que falasse apenas disto, pareceria uma releitura de obras que já vimos. Moonrise Kingdom fala também dos adultos, e de como a vida vai tomando rumos que nem sempre sonhávamos quando éramos crianças. Ou jovens.

E a grandeza deste filme está, além de toda a técnica irretocável, nesta reflexão sobre as fases e encantos diferentes que vivenciamos no decorrer da vida. Porque na vida adulta os heróis não seguem todos os caminhos que parecem óbvios e claros. E nem eles próprios são heróicos todas as vezes. Há rompantes de felicidade e de coragem. Há momentos de fraqueza e de infelicidade. A vida é complexa. Inclusive para os jovens, que se sentem perdidos, como os protagonistas geniais desta produção. Agora, no fim das contas, o que Moonrise Kingdom nos explica, e de forma muito estilosa, criativa e bacana, é que não importa em que idade você esteja perdido, há sempre pessoas para dividir este sentimento com você e para te ajudar a encontrar uma saída, uma direção. Para que ninguém se sinta perdido por muito tempo.

NOTA: 10.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Quando um filme trabalha todos os seus detalhes com esmero, isso fica evidente na telona. Moonrise Kingdom tem esta qualidade. Além da direção excelente de Anderson, um elemento fundamental para este filme é a direção de fotografia de Robert D. Yeoman. Em muitas e muitas cenas nós temos verdadeiros quadros na nossa frente. Pinturas. A escolha das locações e, sobretudo, do que filmar e de como fazer isso acaba sendo fundamental.

Vale bater palma, mais uma vez, para a excelente trilha sonora de Alexandre Desplat. Já estou na torcida para ela ser indicada ao Oscar. Em Moonrise Kingdom a trilha de Desplat é um personagem coadjuvante. Palmas também para a edição de Andrew Weisblum. O trabalho preciso dele imprime o ritmo adequado para a história, sem imperfeições.

Como os detalhes e o conceito visual do filme são importantes, vale citar também o ótimo trabalho do design de produção de Adam Stockhausen, a direção de arte de Gerald Sullivan, os figurinos de Kasia Walicka-Maimone, a maquiagem da equipe coordenada por Carla Antonino, e o departamento de arte composto por nada menos que 88 artistas das mais diferentes especialidades. Este grande grupo foi responsável pelo acuro visual desta produção. Merece ser citado, ainda, o trabalho da equipe de efeitos especiais comandada por Uros Otasevic e a equipe com 45 profissionais responsáveis pelos efeitos visuais.

Para um filme dar certo, além de um ótimo roteiro e direção, o que mais é preciso? Grandes atores. Daqueles generosos, que não precisam fazer pirotecnia para mostrar que são melhores que os outros, mas que dividem a cena com maestria e respeitando seus parceiros de elenco. Pois bem, Moonrise Kingdom nos presenteia com um elenco desta estirpe. Os atores principais são Jared Gilman e Kara Hayward, que dão um banho. E o mais impressionante: eles são estreantes. Mostram maturidade e comprometimento com os seus personagens densos. Jovens que enfrentam uma barra pesada e que buscam o caminho da esperança – nem que ele seja o da fuga. Mas os adultos estão muito bem. Bruce Willis e Edward Norton surpreendem como adultos sensíveis, um tanto trapalhões, perdidos e heróicos às suas próprias maneiras.

Tem papéis menores, mas igualmente complexos e bem interpretados Bill Murray e Frances MacDormand. Tilda Swinton faz quase uma ponta, mas entra na mesma sintonia, assim como Jason Schwartzman que, desta vez, soube segurar-se na medida certa. Bob Balaban está genial como o narrador. E ainda temos o elenco juvenil. Começando pelos engraçados – ainda que quase sem falas – irmãos de Suzy: Jake Ryan interpreta a Lionel Bishop; Tanner Flood a Murray Bishop, e Wyatt Ralff a Rudy Bishop.

E da gurizada dos escoteiros, ganham mais destaque Lucas Hedges como Redford, a “pedra no sapato” e desafeto número 1 de Sam; Charlie Kilgore como Lazy Eye, garoto que é sempre um dos primeiros escalados para qualquer missão; Andreas Sheikh como Panagle; Chandler Frantz como Gadge, o braço direito de chefe dos escoteiros Ward; Rob H. Campbell como Deluca; L.J. Foley como Izod; e Gabriel Rush como Skotak.

Moonrise Kingdom teria custado cerca de US$ 16 milhões. Uma bagatela para os padrões de Hollywood. Apenas nos Estados Unidos, até o dia 1 de novembro, ele faturou pouco mais de US$ 45,5 milhões. Já saiu no lucro. Agora, merece ganhar mais uns prêmios para a estante dos realizadores.

Falando em prêmios, esta produção já ganhou 11 e foi indicada a outros 25, incluindo o Globo de Ouro de Melhor Filme – Comédia ou Musical. Entre os que ganhou, destaque para dois como Melhor Filme do Ano no AFI Awards (em 2012 e 2013, o que é curioso); Melhor Filme no Gotham Awards; e o Top Ten Independent Films no National Board of Review.

Moonrise Kingdom estreou no Festival de Cannes em maio de 2012. Depois ele passou, ainda, pelos festivais de Karlovy Vary e Wroclaw American Film Festival.

Esta produção estreou nos Estados Unidos em apenas quatro salas de cinema, duas em Nova York, duas em Los Angeles. Mas conseguiu arrecadar US$ 167,2 mil por sala de cinema, o melhor resultado de todos os tempos por sala de cinema para um filme que não seja desenho animado.

Não sei vocês, mas eu fiquei encantada com as paisagens do filme. Ele foi totalmente rodado em Rhode Island, nos Estados Unidos. A cenas externas da casa dos Bishop’s foi rodada em Conanicut Light, em Jamestown; as cenas no Fort Lebanon, em Yawgoog Scout Reservation, em Rockville; e as do Acampamento Ivanhoe em Bayfield Farm, em South Kingstown.

Moonrise Kingdom tem se saído bem na opinião da crítica. Mas não tão bem quanto Argo, por exemplo (comentado aqui no blog), que também está na disputa pelo Oscar. Os usuários do site IMDb deram a nota 8 para esta produção. E os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 193 críticas positivas e apenas 13 negativas para o filme, o que lhe garante uma aprovação de 94% e uma nota média de 8,2.

Não assisti aos outros filmes ainda mas, no momento, estou na torcida por Moonrise Kingdom para o Globo de Ouro de Melhor Filme – Comédia ou Musical. Também espero que ele tenha chances para ser indicado ao Oscar em algumas categorias.

CONCLUSÃO: Fantástico! Entre os filmes que eu assisti este ano – e a quantidade foi muito menor do que eu gostaria -, sem dúvida, este é um dos melhores. Guardada todas as devidas proporções, Moonrise Kingdom está, para mim, na lista de filmes brilhantes da mesma forma que Little Miss Sunshine. Claro que os dois bebem de fontes muito diferentes – Moonrise Kingdom é, descaradamente, inspirado no mundo literário e da fantasia, enquanto Little Miss Sunshine na nossa realidade fantasiosa. Mas ambos são brilhantes a seu modo. O que mais me deixou fascinada com Moonrise Kingdom foi o estilo do filme, sua preocupação com os detalhes, o roteiro (com algumas frases geniais) e o trabalho em sintonia dos atores. Tudo isso funciona bem devido à direção de primeira de Anderson, que nos conduz com maestria e como em uma valsa pela história. Com suavidade, precisão e delicadeza. Merece ser visto, sem dúvida. E revisto. Estava sentindo falta de assistir a um filme como esse, que enchesse o espírito de uma mensagem bacana, me conduzisse pela mão em uma história bacana e que ainda deixasse uma trilha de inspiração.

PALPITES PARA O OSCAR 2013: Moonrise Kingdom não tem um grande produtor para levá-lo longe. E isso é uma pena. Talvez ele não chegue a ser indicado ao Oscar de Melhor Filme, ainda que mereça. E se chegar lá, certamente não vai conseguir ganhar dos medalhões. Mesmo com poucas chances, estou na torcida por ele. Pelo menos para que ele figure em várias categorias – ainda que não tenha força para ganhá-las.

No Globo de Ouro, ele foi indicado apenas na categoria Melhor Filme – Comédia ou Musical. Esse é um indicativo de que, talvez, com um certo lobby, ele possa ser indicado a Melhor Filme no Oscar. Tomara. Mas além desta indicação, acho que Wes Anderson merecia, e muito, ser indicado como Melhor Diretor. Ele faz um trabalho excepcional nesta produção. Além dele, achei fantástico o trabalho de Alexandre Desplat nesta produção – muito mais do que em Argo, para dar um exemplo. O roteiro também merecia uma indicação… ainda que, aparentemente, temos um ano cheio de excelentes trabalhos originais.

Para resumir, se tiver sorte e um bom trabalho nos bastidores, Moonrise Kingdom pode chegar a ser indicado em quatro categorias: Melhor Filme, Melhor Diretor, Melhor Trilha Sonora e Melhor Roteiro Original. Sem dúvida, mas com o risco de ser injusta por não ter assistido aos demais concorrentes, acho que ele merecia ganhar em todos estes quesitos. Mas as chances deste filme, especialmente levando em conta os concorrentes, é muito pequena. Uma pena.

Argo

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O fascínio provocado pelo cinema é capaz de libertar as pessoas. Argo mostra como isto é possível, literalmente. Uma história que impressiona, especialmente por ser baseada em fatos reais. Uma bela reconstituição de uma época que ficou para trás, apenas em parte. Sem dúvida alguma este filme já é uma das apostas para o próximo Globo de Ouro e Oscar, especialmente na categoria roteiro. Um belo trabalho de Ben Affleck na direção e como protagonista. Ele tem amadurecido, e promete trazer muitas outras histórias interessantes pra gente no futuro.

A HISTÓRIA: Animações ao estilo de storyboard contam a história do Irã, desde que o país fazia parte do Império Persa, administrado por uma série de reis, conhecidos como Xás, até que esta história entrou em uma nova fase em 1950. Naquele ano, o povo do Irã elegeu um democrata como Primeiro Ministro, que desagradou os Estados Unidos. Como ocorreu com tantos outros países, o Irã sofreu um golpe incentivado pelo governo dos EUA (e do Reino Unido, neste caso), que acabou colocando um Xá novamente no poder. Como ocorreu na América Latina e em outras partes, este ditador provocou terror e, na vida pessoal, esbanjou o que não podia. Quando ele foi derrubado do poder, em 1979, acabou exilado nos EUA. E o povo do Irã não aceitou este exílio. Daí que surge o mote do filme, quando um grupo grande de pessoas revoltadas invade a embaixada dos EUA e faz os funcionários do local como reféns, exigindo o retorno do Xá, para que ele pudesse ser julgado. Argo conta a história da operação criada para resgatar seis funcionários da embaixada que conseguiram escapar e se refugiarem na embaixada do Canadá.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso só recomendo que continue a ler quem já assistiu a Argo): Eis um filme que cuida dos detalhes. Desde o primeiro minuto, ao contar a história de uma nação convulsionada e que pede por mudanças através de storyboards, até o final, com o clássico “retorno para casa”, Argo está atento a manter uma unidade narrativa que destaca espionagem, política e Hollywood.

O roteiro de Chris Terrio, baseado na reportagem Escape from Tehran, de Joshuah Bearman, é inteligente ao explorar os bastidores de duas fontes de fascínio mundo afora: CIA e Hollywood. E o mais interessante de tudo é que esta história foi baseada em fatos reais. O roteiro ganha pontos quando, logo no início, coloca frases sem papas na língua de figuras como Hamilton Jordan (interpretado por Kyle Chandler), o Chefe de Gabinete do Presidente Jimmy Carter.

Quando sabe que seis estadunidenses que estavam na embaixada invadida no Teerã conseguiram escapar e foram para a residência do embaixador canadense Ken Taylor (Victor Garber), ele solta a pérola de que não pode ser chamada de “inteligência” a função dos agentes da CIA que não anteciparam a invasão da embaixada dos EUA. Em seguida, quando uma das pessoas de sua equipe sugere que o Xá seja despachado, ele diz que isso não vai acontecer, porque ele está quase morto, com câncer, e é um aliado dos EUA – que protegem os seus aliados.

Uma vantagem deste filme é que ele não tem meias palavras. Especialmente interessante a parte inicial de Argo, quando o governo dos EUA demora para agir, e quando, 69 dias depois da embaixada no Teerã ter sido invadida, especialistas da CIA e de outras áreas discutem soluções absurdas para o problema – como a de entregar bicicletas para os refugiados na casa do embaixador canadense para que eles consigam fugir, em uma época em que nevava pelo caminho.

Depois desta rápida e um tanto cínica imersão no ambiente “inteligente” da espionagem dos EUA, o filme acompanha o protagonista Tony Mendez (Ben Affleck) em seu esforço para concretizar uma ideia maluca que ele próprio sugeriu: montar um projeto de filme de ficção científica que justificaria uma equipe de norte-americanos “visitando” o Teerã em uma fase conturbada do país. Acompanhamos ele nos bastidores de Hollywood, onde ele vai pedir ajuda para John Chambers (John Goodman), um premiado maquiador que trabalhou por muito tempo no cinema e na televisão.

A ironia desta parte também é ótima. Quando Chambers afirma que um novato como Mendez pode chegar em Hollywood bancando o bom, mesmo sem ter feito nada, porque isso é normal, temos uma palhinha da ironia que vai acompanhar o filme até o final. Tão ou mais difícil que fazer o resgate dar certo, segundo Chambers, é encontrar um produtor respeitável que pudesse embarcar nesta ideia de graça. 🙂 E aí que Lester Siegel (interpretado por Alan Arkin) entra na história. Este sim, um personagem que não tem paralelo, exato, na vida real. Nesta entrevista, Arkin explica que o Siegel de Argo foi baseado na junção de umas três pessoas, mas que ele não seria o Siegel Lester que existiu e que teve certo envolvimento com espionagem na Segunda Guerra Mundial.

Fora a ironia dos dois mergulhos nos bastidores da CIA e de Hollywood, Argo consegue um bom ritmo para mostrar como foi o resgate daqueles seis refugiados da embaixada na casa do representante do governo canadense após 69 dias de letargia do governo dos EUA. A narrativa sempre faz o movimento de vai e volta entre o que acontece em Teerã e nos EUA. Até que as duas frentes se juntam com a chegada de Mendez no Irã. Todo o teatro ao redor de Argo, o interesse e repúdio incontidos dos iranianos com o cinema dos EUA e tudo que ele representava, e a resistência compreensível do grupo que espera ser resgatado a encenar a farsa.

Havia muito em risco. Não apenas a vida daquelas pessoas, mas a descoberta de um plano de resgate que poderia virar motivo de gozação mundial. Não por acaso demorou tanto tempo para que esta operação da CIA viesse à tona. Mas a história é fascinante. E bem contada, especialmente pelo roteiro. Affleck também se sai bem, especialmente na direção. Para o bem de seu filme, ele fez uma interpretação condizente, sem rompantes. Assim como os outros atores. Todos estão muito bem, mas ninguém se destaca, em especial.

NOTA: 9,3.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: O resgate de época é impressionante. Não apenas pela inserção precisa de imagens de TV e pela reconstituição de cenas, mas pelo figurino e pela escolha dos tons da direção de fotografia. Tudo ajuda o espectador a reviver aqueles dias no final de 1979 e no início dos anos 1980.

Merecem aplausos, por isto, o trabalho do diretor de fotografia Rodrigo Prieto, o design de produção de Sharon Seymour, os figurinos de Jacqueline West, a decoração de set de Jan Pascale e a direção de arte de Peter Borck e Deniz Göktürk. Muito importante, para esta produção, também a edição de William Goldenberg.

Além dos atores já citados, vale citar o trabalho de Bryan Cranston como Jack O’Donnell, chefe de Mendez na CIA. Adoro o Bryan Cranston por causa de Breaking Bad. Bom vê-lo mais vezes no cinema, como aqui. Entre os resgatados, estão os personagens vividos pelos atores Clea DuVall (que interpreta Cora Lijek), Scoot McNairy como Joe Stafford, Rory Cochrane como Lee Schatz, Christopher Denham como Mark Lijek, Kerry Bishé como Kathy Stafford e Tate Donovan como Bob Anders. Além deles, há ótimos atores que fazem pontas, como Chris Messina, Zelijko Ivanek e Titus Welliver, todos envolvidos com a operação de resgate nos bastidores.

De todos os atores citados, sem dúvida alguma os que ganham maior evidência pelo desempenho são Affleck, Alan Arkin e John Goodman. Especialmente os últimos dois, que roubam a cena quando aparecem e ganham evidência mesmo com tantos personagens aparecendo em cena.

Ben Affleck acreditou tanto neste projeto que ajudou a produzí-lo. Ao lado dele, na produção, o também ator e diretor George Clooney e o ator, diretor, produtor e roteirista Grant Heslov.

A trilha sonora neste filme tem menos impacto do que em outras produções porque o som ambiente e o de gravações (sejam elas históricas ou reproduzindo cenas da época) predominam. Mas nunca é demais citar o autor do trabalho, o excelente Alexandre Desplat.

Argo estrou no Festival de Telluride em agosto. Depois, o filme passou por outros 10 festivais. Em seu trajeto, até o momento, ele conquistou 12 prêmios e foi nomeado a outros 27, incluindo cinco indicações ao Globo de Ouro. O que apenas nos indica que o filme será bem cotado no Oscar 2013.

Entre os prêmios que recebeu, o de melhor filme no AFI Awards e três premiações do National Board of Review. No Globo de Ouro ele está concorrendo como Melhor Diretor para Ben Affleck, Melhor Filme – Drama, Melhor Trilha Sonora, Melhor Ator Coadjuvante para Alan Arkin e Melhor Roteiro.

Argo teria custado aproximadamente US$ 44,5 milhões. E tem lucrado bem. Apenas nos Estados Unidos o filme já passou a fronteira do US$ 103,1 milhões até o dia 9 de dezembro.

Além de bem avaliado pelas premiações e pelo público, Argo está indo bem de crítica. Os usuários do site IMDb deram a nota 8,2 para a produção. E os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 231 críticas positivas e apenas 11 negativas para a produção, o que lhe garante uma aprovação importante de 95% e uma nota 8,4.

CONCLUSÃO: Argo é surpreendente. Nem tanto porque está cheio de reviravoltas no enredo. Mas porque ele revela uma história que era secreta, até não muito tempo atrás. E também porque nos faz refletir sobre política, conflitos, espionagem e o cinema. Elementos que tornam qualquer produção fascinante. Além de ter uma história que funciona bem, Argo tem uma reconstituição de época muito precisa, e um ritmo bem equilibrado entre o drama dos personagens principais e os bastidores da CIA e do cinema de Hollywood. O filme não se aprofunda em nada, deixando um “gostinho” de quero mais no espectador. Um trunfo do roteiro, assim como da direção de Ben Affleck. Vale a imersão. E pensar em como nunca sabemos, no final das contas, separar muito bem o que é ficção e o que é realidade. Talvez porque ambas estejam muito contaminadas uma com a outra.

PALPITE PARA O OSCAR 2013: Esta semana saiu a lista do Globo de Ouro. A crítica deste filme eu comecei a escrever antes dele ser indicado para o Globo de Ouro mas, pelo estilo da produção, já estava colocando ele na tag Oscar 2013. Porque me parece evidente que ele estará entre os indicados. Resta saber em que categorias e quais as chances dele ganhar, realmente, alguma das estatuetas douradas.

Ben Affleck é um cara que, a exemplo de George Clooney, é bem visto pela indústria hollywoodiana. Primeiro, pelo resultado que estes nomes trazem nas bilheterias. Depois, por suas visões múltiplas como artistas – eles não são apenas ótimos atores, mas também gostam de investir em diversificação e atuarem como diretores e produtores. Sendo assim, acho sim que Argo vai chegar bem no Oscar. Affleck tem moral.

Acredito que o filme deverá repetir no Oscar quase todas ou mesmo todas as indicações recebidas no Globo de Ouro. Talvez a trilha sonora de Desplat pode ficar de fora. Mas Argo deve figurar como Melhor Filme, Melhor Diretor, Melhor Roteiro Original e, possivelmente, Melhor Ator Coadjuvante. Se a Academia for muito querida com Affleck, até poderá indicá-lo como Melhor Ator. Agora, o filme pode ganhar o que? Ainda preciso assistir às outras produções que estão bem cotadas, mas acho difícil ele ganhar algo. Talvez Roteiro. Mas seria só isso.

Looper – Looper: Assassinos do Futuro

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Dizem que nada se cria, tudo se copia. Que tanto já foi feito e dito sobre amor, vingança, sentido de autopreservação e outros temas fundamentais que nada mais de original, verdadeiramente original, restou. Looper parece ser uma prova desta premissa. Ele lembra demais a “alma” de The Terminator para parecer original. Mas tem uma certa novidade, aqui e ali e, especialmente, apuro técnico que não fazem esta experiência ser ruim. Afinal, o que, de fato, é original?

A HISTÓRIA: O dia está prestes a amanhecer, e Joe (Joseph Gordon-Levitt) dá mais uma olhada em seu relógio de bolso, antes de seguir treinando palavras em francês. Ele olha fixo para a frente, onde repousa, no chão, uma lona extendida. Após dar mais uma olhada no relógio, ele se levanta, empunha a arma e atira no homem que surge a sua frente. Ele explica que a viagem no tempo ainda não foi inventada, em 2044, mas que 30 anos depois ela será proibida e utilizada por criminosos para que eles consigam se livrar das pessoas, já que despachar um corpo no futuro não será uma tarefa simples. Os assassinos especializados em se desfazerem destas pessoas do futuro são chamados de loopers. Joe é um deles.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta trechos importantes do filme, por isso só recomendo que continue a ler quem já assistiu a Looper): Falar de viagem no futuro outra vez… e como ser original? Provavelmente, após a trilogia genial de Back to the Future e os filmes incríveis de The Terminator, isso seja impossível. Ainda assim, o diretor e roteirista Rian Johnson se lançou neste desafio, entregando o interessante Looper.

E o filme começa com uma ironia superinteressante: ao invés de termos “exterminadores do futuro” voltando para o passado para eliminar alguma ameaça, acompanhamos as histórias de “exterminadores do passado” que puxam o gatilho para tirar do futuro inimigos de organizações criminosas. Interessante. A tradução do título no Brasil, assim, pode ser vista como errada ou correta. Como tudo se passa no futuro – 2044 e 2074 -, o título não está errado, ainda que pareça estranho.

Looper deixa muitos elementos para o público pensar. Alguns menos importantes que outros para a história. Por exemplo, de como a viagem no tempo tornou-se proibida no “segundo” futuro – para não tornar a história uma bagunça, já que, como nos ensinou Back to the Future, cada mudança, por mínima que seja, do passado, altera o presente e o futuro. Outro exemplo é como o futuro de 2074, além de viagem no tempo, tem a rastreabilidade levada à escala máxima – tanto que fica quase impossível para uma pessoa desaparecer.

Looper faz lembrar um pouco também o espírito de Mad Max. Não porque temos uma sociedade desolada de recursos, mas pela falta de “humanidade” dos cenários. Não temos heróis em Looper. As duas versões de Joe são, na essência, de bandidos sem remorso. Que apenas pensam como irão sobreviver. Joe não se esforça muito para ajudar o seu melhor amigo Seth (Paul Dano), quando ele precisa. E segue a linha dos demais loopers, de esbanjar dinheiro, viver a vida adoidado e desprezando todos os marginalizados da sociedade futurista.

Mesmo sem se aprofundar muito no contexto que cerca aqueles personagens, Looper deixa claro que as sociedades futuristas deixam as pessoas com medo. Tanto que boa parte delas vive armada, pronta para puxar o gatilho e acertar qualquer pessoa que pareça um pouco ameaçadora. Também é um tempo em que a evolução de uma habilidade – a telecinética – é vista como piada. Esqueçam os heróis e os superheróis. Ninguém quer saber deles, aparentemente.

Looper, assim, é um bocado cínico. Na essência. E acerta nas apostas que faz. Depois de mostrar o cotidiano repetitivo e frio de Joe e os demais loopers, o filme ganha interesse ao apresentar o “encerramento de um loop”. Cada um daqueles assassinos sabe que, mais cedo ou mais tarde, isso irá acontecer com eles. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). E a premissão não é ruim: após matar a você mesmo, você ganha várias barras de ouro e 30 anos de vida com liberdade para ser vivida.

Todo “exterminador do passado” sabe que isso vai acontecer com ele. Mas acompanhamos uma fase em que isto está ocorrendo com muito mais frequência. Porque há um vilão novo no futuro. E para acabar com esse inimigo é que o Joe de 2074 (o ótimo Bruce Willis) engana a morte – como não lembrar de The Terminator? Apenas o alvo mudou, afinal, o “senhor da chuva” já é um garoto, e não adianta mais matar a mãe dele. 🙂

O ritmo de Looper vai bem até o velho Joe aparecer e começar o seu plano de busca do vilão do futuro. Nesta hora, o Joe jovem ajuda a desacelerar um pouco o filme. Claro que esta “esfriada” é necessária para explicar a origem do poder do “senhor da chuva”, e revelar o que há de verdade na lenda que o velho Joe trouxe a seu respeito. Mas querendo ou não, aquela parte é a menos interessante da produção – até porque o garoto Pierce Gagnon, que interpreta a Cid, irrita um pouco com aquela cara demoníaca e sua “superinteligência”.

De qualquer forma, o ambiente envolvendo Cid e Sara (Emily Blunt) abre aquela velha discussão sobre o que define o futuro das pessoas. Quanto este futuro é determinado por sua “essência”, por características inatas que lhe acompanham de antes mesmo de nascer, e o quanto é determinado por sua criação, amor familiar, amigos e o restante do “meio” que vai lhe cercando a vida afora? A questão está lançada e tem uma certa resposta no final. Digo isso porque há muito para acontecer após aquela cena final, e fica a gosto de cada um imaginar o futuro a partir dali.

NOTA: 9.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Um acerto de Looper é explicar o que irá acontecer antes de que aconteça. Vide o momento decisivo da conversa do Joe do futuro com a sua versão mais jovem. A explicação dele sobre as lendas envolvendo o vilão do futuro é o que torna a convivência de Joe, Sara e Cid interessante. E também, naquele momento, existe uma questão fundamental neste filme: afinal, o antigo é melhor que o novo ou vice-versa? Os “dois” Joe se sentem superior, de alguma forma. O mais jovem porque sabe que tudo que ele fizer vai determinar a sua versão mais velha. E o mais velho porque ele sabe todas as besteiras e visões equivocadas que o mais novo tem. Sem dúvida, aquele é o grande momento de Looper.

Impressiona como este filme é bem acabado nos efeitos especiais e, principalmente, como ele deixa tantos temas abertos para a discussão e a reflexão. O embate entre o velho e o novo aparece a todo momento. Assim como, e de forma muito natural, a velha questão de Back to the Future de como cada mudança no presente afeta o futuro. O Joe de Bruce Willis segue tendo a sua mulher (Qing Xu) na memória, ainda que tudo nos leve a crer que aquele futuro não irá acontecer. Isso porque, até que algo realmente se defina, ele ainda pode viver muitas das coisas que tinham ocorrido na primeira versão. Interessante.

O diretor Rian Johnson afirma que cuidou de cada detalhe do roteiro para que este filme não tivesse furos. Ainda assim, há pelo menos duas partes que eu não entendi muito bem (e, como sempre, agradeço quem puder ajudar a esclarecer). (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Primeiro: a primeria sequência em que Joe não mata a sua versão no futuro representa a imaginação dele enquanto espera a figura da vítima aparecer, atrasada, na sua frente? Segundo: por que Joe fica mais sensível para matar o segundo garoto? Parece até que ele conhece a Suzie (Piper Perabo). Para mim, a resposta para a primeira pergunta é que sim, Joe primeiro imagina aquela sequência antes de atirar em seu “eu do futuro” e, para a segunda, é de que o Joe velho não conhecia Suzie, mas hesita apenas porque ficou mais difícil para ele seguir matando crianças.

Uma sacada muito bacana de Looper é como a versão de Joe do futuro acaba aprendendo com os novos fatos que vão acontecendo com o Joe do presente. Bem pensado pelo diretor.

Interessante como Looper está recheado de ótimos atores. Além dos já citados, vale comentar a participação de Jeff Daniels como Abe, o homem que tira Joe das ruas e garante “um futuro melhor” pra ele ao torná-lo um looper; Noah Segan como Kid Blue, o capanga que quer impressionar Abe e que acaba sendo a parte “engraçada” e trapalhona da trama; Frank Brennan como o Seth do futuro; além da super ponta de Piper Perabo.

Tecnicamente, tudo funciona muito bem em Looper. Da trilha sonora envolvente de Nathan Johnson até a excelente e precisa edição de Bob Ducsay – um dos pontos altos do filme; a direção de fotografia de Steve Yedlin; o ótimo design de produção de Ed Verreaux e a direção de arte de James A. Gelarden – que ajudam o filme a ser estiloso. Por outro lado, há um quesito na parte técnica que me irritou – ainda que eu entenda a razão dele ter sido feito como foi: a maquiagem da equipe liderada por Kimberly Amacker, Jack Lazzaro, Aimee Stuit e Emily Tatum. Me incomodou, do início até o final do filme, a maquiagem feita a golpes de facão para tornar Gordon-Levitt mais “parecido” com Bruce Willis. Sei lá, acho que podiam ter resolvido esta questão de outra forma – como o velho Joe ter feito, para fugir da polícia, uma plástica no futuro ou algo assim.

Além daqueles pontos do roteiro que parecem um pouco mal amarrados – citados acima -, e da maquiagem de Gordon-Levitt, me irritou um pouco o exagero da interpretação do garoto Pierce Gagnon. (SPOILER – não leia… bem, você já sabe). O filme ia muito bem até o guri começar a surtar e parecer um personagem demoníaco de filmes de terror. Não tenho problemas com estes personagens, desde que eles estejam nos filmes do gênero. Um garoto diabólico em Looper me pareceu um pouco exagerado. Um pouco mais de sutileza para este personagem teria sido mais interessante.

Looper custou cerca de US$ 35,7 milhões e arrecadou, apenas nos Estados Unidos, até o dia 23 de novembro, quase US$ 65,6 milhões. Nada mal. Mas pela propaganda boca-a-boca, certamente, ele vai conseguir faturar muito mais que isso. E merece. Não é fácil fazer um ótimo filme de ficção científica, ainda mais tratando de questões futuristas e viagem no tempo hoje em dia.

Esta produção estreou no Festival de Toronto em setembro deste ano. De lá para cá, ele participou de apenas dois outros festivais, o de Zurique e o Night Visions. Apesar destas participações, ele não ganhou nenhum prêmio até o momento. Mas deve figurar no próximo Oscar em categorias técnicas, como a de efeitos visuais.

Algumas curiosidades sobre a produção: Joseph Gordon-Levitt gravou várias falas de Bruce Willis ditas em filmes anteriores em seu iPod para emular o melhor possível o jeito de falar do ator. Ele também assistiu a várias produções para tentar repetir os trejeitos de Willis. Outro detalhe: no dia em que foi gravada a cena em que ele cai da escada externa do prédio onde vive, ao tentar fugir dos bandidos, Gordon-Levitt comemorava o aniversário de 30 anos.

Vi uma entrevista em vídeo com o diretor que achei interessante citar aqui. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Primeiro, ele explica a razão do filme ter tantos elementos do passado. Rian Johnson diz que os filmes futuristas que mostram tudo muito futurista lhe incomodam, porque não parecem realista. E dá exemplo do relógio e do sapato que ele estava usando na hora da entrevista… apesar de estarmos em 2012, utilizamos muitas coisas que lembram demais a metade do século passado. E ele acha que o futuro será assim… especialmente o futuro onde as coisas não funcionam bem. Porque quando as coisas não funcionam bem, as pessoas tendem a buscar referências no passado, quando a realidade parecia ter mais lógica. E o segundo ponto, que eu achei especialmente interessante, foi quando perguntaram para ele porque a violência é tão realista no filme. Ele diz que esta é a questão fundamental de Looper. Ele quer mostrar como a violência utilizada para resolver a violência acaba não solucionando nada – vide a busca pelo garoto. Pelo contrário, essa lógica acaba sendo o problema. Bacana.

Looper se saiu muito bem ao conquistar a opinião do público e da crítica. Os usuários do site IMDb deram a nota 7,9 para a produção, uma avaliação ótima para os padrões do site. Os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 216 textos positivos e apenas 15 negativos para a produção, o que lhe garante uma aprovação de 94% – e uma nota média de 8,1. Muito boa nota também.

Há uma outra entrevista do diretor que eu achei interessante. Nela, Johnson comenta a cena no café. De como cada versão de Joe se acha superior e de que, apesar da versão de Willis dizer que sabe o quanto jovem está equivocado, porque já viveu “aquela vida” e por se sentir em outro nível, ele não percebe que segue meio que “preso” aquela falta de maturidade – que nada mais é do que uma forma egoísta de levar a vida.

CONCLUSÃO: Quem tem The Terminator e suas sequencias como referência, vai assistir Looper com um certo incômodo. Possivelmente o mesmo incômodo que o próprio mecanismo do “looper” provoque. Afinal, o passado volta, e volta, e parece que permaneceremos naquele “eterno retorno”. Mas temos a possibilidade de alterar essas repetições. Assim, Looper também altera a lógica de The Terminator. Nesta produção há violência, drama, cenas incríveis que usam o melhor da tecnologia e um bando de gente sem muito escrúpulo além da autopreservação. E ainda que a história, lá pelas tantas, fique um bocado previsível, essa previsibilidade ajuda a alimentar a tensão. Para que todos estejam ansiosos para ver quem segurará as suas crenças até o final. Porque, por incrível que pareça, Looper planta a sua semente naquela velha discussão sobre o que forma o caráter de um indivíduo. O quanto nós trazemos de antes do berço e o quanto somos moldados a ser. Essa reflexão, junto com ótimos efeitos, bons atores e uma recriação de histórias que já vimos antes, fazem de Looper uma peça eficaz de entretenimento.