Flawless – Um Plano Brilhante

Histórias de grandes assaltos, de ações ousadas de roubo, não faltam na história do cinema. Há desde clássicos como Rififi e Golpe de Mestre até filmes mais recentes como O Assalto, O Plano Perfeito e a “grife” Onze Homens e um Segredo (desde esse clássico, de 1960, até os recentes filmes dos anos 2000). Flawless busca contar um assalto destes “espetaculares” de uma maneira menos usual, desta vez trazendo como narradora da história uma das pessoas envolvidas – não exatamente a protagonista ou, melhor dizendo, o “cérebro” da ação. Levando em conta a época em que a história se passa, anos 60 em Londres, quando o país ainda estava mergulhado em uma sociedade que praticamente excluia a mulher dos grandes “círculos” sociais, o filme se torna interessante. Mas fora esse fator, Flawless se mostra quase um trabalho de dois homens sós: Michael Caine e o diretor Michael Radford. O primeiro por mais uma atuação digna de palmas, e o segundo por uma direção que consegue prender a atenção do público até o final.

A HISTÓRIA: A jornalista Cassie (Natalie Dormer) está fazendo uma reportagem sobre as mulheres empreendoras pioneiras no Reino Unido. Seu desafio é resgatar a história destas pessoas que começaram a quebrar o tabu do mercado ao conseguirem postos de comando ou de destaque nas empresas daquele país. Para sua reportagem ela encontra a ex-executiva Laura Quinn (Demi Moore), uma mulher obcecada pelo trabalho que dedicou-se por muitos anos a Companhia de Diamantes de Londres. Mas sua relação com a empresa e sua vida mudam quando ela descobre, através do servente Mr. Hobbs (Michael Caine) que no lugar de ser promovida na companhia, como ela esperava, ela está prestes a ser demitida. A partir daí ela e Mr. Hobbs começam a executar um audacioso plano para roubar diamantes da empresa.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER: aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta trechos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Flawless): O começo bem comicinho do filme é meio duvidoso… afinal, ver Demi Moore tão “envelhecida” artificialmente – ao ponto de parecer um bocado falso o efeito – não é a cena mais convidativa de todas. Assim como as primeiras frases da repórter-alpinista. Mas quando o filme “volta no tempo”, para a Londres dos anos 60, percebemos que o tom da narrativa muda. Começando pela sequencia bem filmada da rua até a entrada da personagem de Laura Quinn em seu emprego – dominado por homens. O diretor indiano Michael Radford começa a mostrar o seu bom trabalho. Outro detalhe importante desta sequencia é a primeira “entrada” mais efusiva da trilha sonora assinada por Stephen Warbeck.

O filme trata do roubo de diamantes, mas não apenas disto. Aborda os temas da ambição, da vingança, da lealdade a uma empresa ou a uma filosofia de vida. Também fala da descoberta de uma pessoa de valores mais nobres do que o dinheiro ou a posição social. Claro que tudo isso diluído na trama de ação e de certo suspense. A verdade é que o roteirista Edward Anderson conseguiu equilibrar bem os vários temas sem tornar o filme chato ou com cara de “filosófico”. Na verdade, em teoria, é apenas um filme de ação – mas com elementos adicionais.

Demi Moore está bem em seu papel, ainda que eu sempre ache ela um pouco em um tom de “mais do mesmo”. Michael Caine, por outro lado, está perfeito. Realmente é muito difícil ver esse ator em um filme sem dedicar-se totalmente a seu papel. Outras pessoas do elenco que merecem destaque são Lambert Wilson como o investigador da empresa seguradora Finch; Nathaniel Parker como Ollie, o filho, herdeiro e braço direito do magnata e dono da empresa de diamantes MKA (o veterano e maravilhoso Joss Ackland). Aliás, o jogo de cena entre Laura e Finch é um ponto interessante do filme. Lembra um pouco outras histórias similares de atração entre ladrões e investigadores.

Gostei também da direção de fotografia limpa e ao mesmo tempo com estilo de Richard Greatrex – que usou bastante as cores azul e cinza, além de valorizar o branco, em seu trabalho (o que deixou o trabalho ainda mais com “cara” londrina, eu diria); da edição de Peter Boyle; e do figurino – que não consigue saber quem foi a pessoa responsável.

Mas para quem busca um pouco de realismo em filmes assim, devo admitir que a forma com que Mr. Hobbs consegue realmente limpar o cofre é um bocado absurda. Alguém realmente acredita que ele poderia dedicar horas e mais horas do seu tempo dentro da empresa para fazer tudo aquilo ao invés de estar fazendo o seu serviço? Por mais que ele fosse realmente pouco vigiado, mas convenhamos que seria impossível algo assim. Além do mais, da primeira vez que ele entrou no cofre ele só não foi pego pelas câmeras de vigilância porque o guardinha era um comilão… mas ele teve a mesma sorte em todas as outras vezes em que fez o mesmo caminho? Ok que ele não precisava das outras vezes colocar o código e tal, mas mesmo assim… bueno, a verdade é que também não dá para esperar realismo ou uma lógica legítima de filmes assim, não é mesmo? Pelo menos nos filmes modernos do gênero.

NOTA: 7,5.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Flawless foi filmado em Londres, em Luxemburgo e na França. Se trata de uma produção do Reino Unido e de Luxemburgo.

O filme teria custado US$ 20 milhões e arrecadou, até duas semanas em cartaz nos Estados Unidos, pouco mais de US$ 576,5 mil. Pouco, muito pouco. Parece um filme que será jogado em segundo plano.

Os usuários do site IMDb conferiram a nota 6,9 para Flawless, enquanto o Rotten Tomatoes abriga 36 críticas positivas e 20 negativas.

Ainda que ela não seja um grande destaque do filme, mas tenho que admitir que é a primeira vez em muito tempo que vejo Demi Moore fazendo um trabalho decente em uma produção – mais equilibrada entre as nuances que o papel exige de uma mulher ambiciosa, provocante, inteligente e que teme ser apanhada.

CONCLUSÃO: Um bem conduzido filme de ação que conta com uma interpretação exemplar de Michael Caine. Diferente de outros filmes de roubo de diamantes/jóias, Flawless toca em temas tão diferentes quanto a segregação da mulher no mercado de trabalho, ambição e vingança. Vale mais que tudo por Caine e pelo trabalho do diretor indiano Michael Radford.

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Chapter 27 – Capítulo 27

Quando ouvi falar de um filme que contava a história do assassino de John Lennon ou, melhor dizendo, de um filme que contava os três dias que antecederam o assassinato do artista através da ótica do criminoso, Mark David Chapman, fiquei curiosa. Não porque me interesse pela história de assassinatos, mas porque daí poderia sair algo interessante. Alguns filmes anteriores, como os interessantes Assassinos por Natureza e Helter Skelter, entre outros, já tentavam fazer uma “radiografia” da mente de psicopatas e/ou de pessoas desequilibradas que acabem chocando a sociedade por praticar atos insanos. Achei que Chapter 27 tinha elementos interessantes – entre eles o próprio título, que faz uma alusão ao livro O Apanhador no Campo de Centeio, citado por Chapman após o crime – e por ter no elenco Jared Leto, ator de um dos meus filmes preferidos, Requiem for a Dream (Requiém para um Sonho). O problema é que o filme tem muita “pretensão” e pouca qualidade. Achei ruim, chato, arrastado e com algumas das piores interpretações que eu vi no cinema nos últimos tempos.

A HISTÓRIA: Entramos na cabeça de Mark David Chapman (Jared Leto), o homem que matou o ex-Beatle John Lennon no dia 8 de dezembro de 1980. O filme conta os passos do assassino desde a sua chegada em Nova York vindo do Havaí, onde vivia, até a noite em que consegue atirar em seu ex-ídolo. Nos três dias em que se passa a história acompanhamos a trajetória e os pensamentos repetitivos de Chapman, assim como a sua estratégia em se aproximar dos seguranças do edifício Dakota, em frente ao Central Park, onde John Lennon (Mark Lindsay Chapman) vivia com Yoko Ono (Mariko Takai). Esperando que o ex-Beatle aparecesse, ele se fez passar por um fã do cantor e compositor, conhecendo, entre outras pessoas, a Jude (Lindsay Lohan), uma fã conhecida do artista.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER: aviso aos navegantes que parte do texto à seguir conta trechos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Chapter 27): No fundo o filme conta a história deprimente deste cidadão desequilibrado e sem nenhum aparente atrativo em sua vida chamado
Mark David Chapman. Durante os 84 minutos da produção assistimos aos pensamentos repetitivos desta figura deprimente, assim como a sua estratégia em “monitorar” a casa de Lennon para conseguir um autógrafo e, também, matá-lo.

O único elemento interessante do filme talvez seja justamente essa permanente “luta” interna de Chapman em gostar e odiar a figura de Lennon. Antes de matá-lo, Chapman se considerava um grande fã de sua música e dos Beatles. Mas depois que Lennon deixou a banda, ele se sentiu “traído” ou, como ele tenta definir em seus pensamentos descompassados – e registrados em várias entrevistas -, viu no ex-Beatle a encarnação de uma falsidade humana que ele julgava como a maior verdade dos tempos modernos.

O filme me cansou. Especialmente porque achei a direção de J.P. Schaefer óbvia demais, quase “naturalista”, sem maiores preocupações do que deixar a câmera prostrada “olhando” ao protagonista. Se em outros filme eu acho que isso funciona, como em 4 Luni, 3 Saptamâni si 2 Zile (4 Meses, 3 Semanas e 2 Dias), aqui eu não vejo com os mesmos olhos. Se no filme de Cristian Mungiu ele escolhe um ângulo interessante para contar a história da maneira mais “realista” e “indiferente” possível, nos fazendo refletir em como a sociedade olha para a questão discutida no filme, aqui a câmera de Schaefer parece não ter pretensão alguma. Por outro lado, o seu roteiro sim.

O diretor escreve a história inspirado no livro de Jack Jones mas, ainda assim, parece querer inovar “na narrativa”, querendo entrar na mente do assassino. O problema que essa mente não tem muito a nos contar além de uma obsessão por Lennon e pelo livro de J.D. Salinger e seu personagem Holden Caulfield. Na verdade, como o filme conta, o assassino de Lennon acredita que o livro conta a sua história e que ele próprio é Caulfield. Enfim, uma mente insana.

Como comentei antes, achei as interpretações do filme algumas das piores dos últimos tempos. Jared Leto, que me surpreendeu em Requiem, aqui fez o esforço de mudar radicalmente de aparência – engordando muito para “encarnar” melhor o personagem – e apenas isso. A atuação dele não convence. Acho a qualquer momento que ele vai começar a rir do que está fazendo. Parece quase um comediante. O problema é que o filme não é uma comédia. Achei sua interpretação muito falsa e algumas vezes deslocada. Parece que nem ele se sente dentro do papel. E o que dizer de Lindsay Lohan? Nossa, se falaram mal dela por I Know Who Killed Me, penso o que os seus detratores vão achar desta sua interpretação… eu achei péssima. Igualmente falsa e “deslocada”. Enfim, um filme que desperdiça o tempo de quem quiser…

O mais engraçado de tudo é que tenho lido que o filme virou “cult”, ou seja, que está sendo cultuado pelos intelectuais e pelas pessoas de bom gosto mundo afora. Realmente, parece que então eu não tenho bom gosto, porque odiei. E que me chamem de insensível, tapada, ou o que for, mas não mudo minha opinião porque ele parece estar “na moda”. A única coisa positiva do filme é que ele é curto – o que, infelizmente, não faz ele passar rápido. hehehehehehhee

NOTA: 3.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: No site IMDb o filme registra a nota 5,7, conferida pelos internautas que estão registrados, enquanto no Rotten Tomatoes ele contabiliza 30 críticas negativas e oito positivas de jornalistas que têm seus textos ali publicados.

Para quem não sabe, o livro de J.D. Salinger tem 26 capítulos. O nome de “Capítulo 27” para o filme faz referência ao pensamento de Chapman de que o assassinato de John Lennon seria o capítulo que faltava para o livro – que, como comentei antes, ele acreditava ser a sua história.
Chapter 27 marca a estréia na direção do alemão J.P. Schaefer.

Recentemente outro filme foi lançado sobre o mesmo tema: The Killing of John Lennon, dirigido por Andrew Piddington. Talvez seja melhor que esse Chapter 27 – para conferir depois, se eu ainda tiver estômago para ver outra versão de uma história tão chata e sem significado como é a desse assassino de John Lennon.

CONCLUSÃO: Filme sobre o assassino de John Lennon, Mark David Chapman, que é uma verdadeira chatice. Tem algumas das piores interpretações dos últimos tempos e uma direção que achei preguiçosa. Arrastado, lento, cansa na “profundizada” sobre a vida desequilibrada e sem interesse desse homem que se tornou conhecido por matar um ídolo mundial. Não recomendo, ainda que o filme esteja se tornando “cult”.

Vantage Point – Ponto de Vista

Quando um roteirista e um diretor resolvem fazer um filme com narrativa fragmentada, só existem dois resultados possíveis: ou o filme pode ficar interessante com uma boa edição e prender a atenção do espectador do início ao final, com algumas “reviravoltas” no meio; ou pode ficar uma droga, com o espectador assistindo a histórias descompassadas ou ficar perdido no meio da ação. Vantage Point (Ponto de Vista no Brasil) não chega a estar na lista dos melhores filmes do gênero, de produções com uma história fragmentada, mas pelo menos é bem feito e prende a atenção de quem o está assistindo. Diferente de Short Cuts ou Magnólia, dois filmes que estão na minha lista de bons exemplos do gênero – ambos dramas, Vantage Point é um filme de ação. Um risco a mais para que ele apresentasse algum furo grande ou para que parecesse mais do mesmo. E, na verdade, ele lembra muito a série 24 Horas – acho que nenhum filme de ação com narrativa fragmentada que alguém poderá fazer agora ou no futuro não nos remeterá a essa série. Resumindo: o filme é competente, prende a atenção, mas não convence de todo porque parece demais a um déjà vu. E uma recomendação para os que ainda não assistiram ao filme: evitem o trailer, porque ele conta em pouco mais de dois minutos o principal da história, estragando qualquer surpresa.

A HISTÓRIA: Um atentado contra o presidente dos Estados Unidos (William Hurt) antes que ele faça o seu discurso em uma cumbre internacional em Salamanca, na Espanha, é contado através de seis pontos de vista diferentes. O primeiro deles é o da editora de televisão do canal GNN, Rex Brooks (Sigourney Weaver), que coordena uma equipe jornalística na transmissão ao vivo do evento em que estão presentes os principais representantes da Comunidade Européia e a equipe do presidente dos Estados Unidos. Depois que ela vê a repórter Angie Jones (Zoe Saldana) sendo vítima de uma grande explosão na Plaza Mayor de Salamanca (como uma praça central histórica, típica na Espanha), ato terrorista seguido a um tiro que alveja o presidente estadunidense, a história passa a ser contada pelas outras óticas. Entre elas, a do agente especial Thomas Barnes (Dennis Quaid), um veterano na segurança do presidente dos Estados Unidos que, em ocasião anterior, levou um tiro por defendê-lo; a do espanhol Enrique (Eduardo Noriega), primeiro suspeito do tiro contra o presidente; a do turista estadunidense Howard Lewis (Forest Whitaker) que, sem querer, ajuda na investigação do ato terrorista por estar filmando o local do crime com uma câmera amadora; assim como os pontos de vista do próprio presidente e da pessoa que foi responsável pelo atentado.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que parte do texto à seguir conta trechos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Vantage Point): O nosso ponto de vista sobre os fatos da vida depende muito das experiências que tivemos. Parece algo óbvio, mas na verdade fiquei pensando sobre isso ao ver esse filme. E nem tanto porque ele faz alguém pensar a respeito – afinal, não se trata de uma história filosófica -, mas sim pela primeira idéia que me passou pela cabeça quando comecei a vê-lo. Ao ver a (“suposta”) Plaza Mayor de Salamanca cheia de gente com bandeiras da Espanha, pensei: “Só uma produção dos Estados Unidos mesmo, país tão acostumado por vender seus símbolos pátrios mundo afora, para tentar colar essa mesma imagem sobre a Espanha”. Sim, porque o primeiro grande erro do filme é justamente esse: mostrar tantas pessoas na Espanha com bandeiras do país. Aqui, meu amigo e minha amiga, a bandeira da Espanha em manifestações e locais públicos é coisa rara. Ou, pelo menos, não muito comum. Claro que sempre tem alguns lá com a bandeira em punho, mas nunca com a abundância como a que o filme com a cara de Hollywood mostra.

Bem, dito isso, primeira observação sobre algo que me “incomodou” na história, vamos ao que interessa: o filme em si. Como disse lá na introdução, Vantage Point é um filme competente. Mérito principalmente do roteirista Barry Levy e da equipe de edição formada por Stuart Baird, Sigvaldi J. Kárason e Valdís Óskarsdóttir. Se você pensou o mesmo que eu, “que nomes diferentes destes dois últimos”, a razão só podia ser uma: eles não são americanos. hehehehehehehehhee. Bair é inglês e os outros dois são islandeses. Valdís Óskarsdóttir foi o homem responsável pela edição de ótimos filmes, incluindo os premiados Festen (Festa de Família) e Eternal Sunshine of the Spotless Mind (Brilho Eterno de uma Mente sem Lembranças). São feras responsáveis pelo melhor de Vantage Point.

O roteiro é bom, ainda que incomode um pouco no ponto em que coloca o agente Thomas Barnes quase como um superherói. (AVISO: não leia o trecho a seguir se você ainda não viu o filme). Também é um pouco difícil de acreditar naquela invasão do prédio com “super esquema de segurança” em que está o presidente dos Estados Unidos. Mas tirando isso, o trabalho de Barry Levy é competente. A direção de Pete Travis também está bem, ainda que eu acho que a parte dele foi quase a mais “fácil” do filme. hehehehehehehe. Atores? No geral a equipe trabalha bem. Só acho que Sigourney Weaver faz um papel extremamente pequeno – quase uma ponta -, o mesmo ocorrendo com Matthew Fox (que interpreta o agente Ken Taylor). Aliás, um comentário maldoso… chega a doer no ouvido a hora em que Fox tenta falar espanhol. hehehehehehe. Realmente ficou quase cômico.

O tema do terrorismo, que permeia todo o filme, no fim acaba sendo apenas uma desculpa para a ação. Afinal, acabamos sem saber que grupo é aquele que foi responsável pelo atentado e nem as suas motivações. Muito menos o que eles pretendiam se o plano desse certo.

Mas voltando aos atores. Muito bom ver Dennis Quaid novamente como protagonista. Ele realmente está bem no papel do agente Barnes. Profissional, ele leva extremamente a sério o seu trabalho, ainda que se sinta ainda inseguro para enfrentar todo o perigo que sua posição comporta. Forest Whitaker, mais uma vez, mostra que é um grande ator. Ele também está perfeito na pele do turista interessado em conhecer a cultura espanhola e em comunicar-se com as pessoas, absorvendo o melhor que pode do que vê ao seu redor. Como vi faz pouco tempo The Air I Breathe, impossível não lembrar da interpretação sensível dele neste outro filme. Saïd Taghmaoui como Javier e Ayelet Zurer como Veronica fazem um bom trabalho. Particularmente, gostei de ver o ator espanhol Eduardo Noriega como Enrique. Nem tanto porque ele faz algo excepcional – não o faz – mas porque esse ator merece realmente ser “descoberto” por mais gente. Acho ele muito bom, especialmente por seus filmes com o diretor Alejandro Amenábar.

No mais, o filme é isso: uma produção que bebe totalmente da fonte do seriado 24 Horas. Quase espero o agente Jack Bauer sair de algum prédio de Salamanca para resolver tudo rapidamente. hehehehehehehehe. Como entretenimento vale a pena, mas não espere ver nada de novo na tela.

NOTA: 7.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: O mais louco neste filme é o que eu descobri depois de assistí-lo: eu feliz porque tinha “visto” a cidade de Salamanca registrada em uma “superprodução” de Hollywood – e se não é super, pelo menos é de Hollywood, o que garante mais visibilidade para a cidade – descobri depois que fui “enganada”. Poucos podem fazer tão bem isso com você como Hollywood. hehehehehehehehee.

Fui enganada porque o filme não se passa, na verdade, em Salamanca. E o que vemos como a Plaza Mayor da cidade na telona, na verdade, é uma criação da desenhista de produção Brigitte Broch, que conduziu a construção (!!!) de uma réplica da Plaza Mayor de Salamanca na Cidade do México. Oh yeah! heheheheheheh

Na verdade, todas as cenas externas do filme foram registradas no México, a maioria nas cidades de Cuernavaca e Puebla – além da já citada Cidade do México. Conforme explicam os produtores do filme no material de divulgação, eles queriam filmar na Plaza Mayor de Salamanca, mas perceberam que todas as cenas de perseguições e o caos da “explosão” da bomba terrorista não poderia ser filmada ali… então fizeram isso no México. Para não dizer que NADA foi filmado em Salamanca, algumas cenas sim… poucas, diga-se.

Além dos atores já comentados, vale citar que estão no elenco ainda o venezuelano Edgar Ramirez como Javier, um dos integrantes do grupo terrorista; e Bruce McGill como Phil McCullough, assessor pessoal do presidente dos Estados Unidos.

No site IMDb o filme registra a nota 6,7 dada por seus usuários; enquanto que no site Rotten Tomatoes foram publicadas 87 críticas negativas e 50 positivas para o filme. Na bilheteria o filme foi relativamente bem. Pelo menos se pagou… Vantage Point teria custado US$ 40 milhões e arrecadou, apenas nos Estados Unidos, pouco mais de US$ 71 milhões até o dia 13 de abril.

Destaque para o material de divulgação do filme. Gostei muito do cartaz e, especialmente, do site da produção. Bem interativo e bem produzido.

Verdade que o filme trata de algo interessante: de como a verdade que uma pessoa conhece nunca é, de todo, a verdade real. O que eu quero dizer com isso? Que as pessoas se esquecem, ao ler um jornal, assistir a uma notícia na televisão ou mesmo em viver determinada situação de que aquilo que ela está vendo, lendo, sentindo, não é tudo. Se pedirmos para outra pessoa contar sobre o mesmo, tiraremos outra conclusão. Cada pessoa tem uma experiência do que ocorre e a realidade em si muda conforme as pessoas vivem determinada experiência ou conforme essa realidade é percebida. Verdade absoluta não existe. E por mais que o filme nos mostre vários pontos de vista sobre o mesmo fato, ainda assim a verdade toda fica ausente da história, já que muito não é explicado – como falei antes, para exemplificar, as motivações dos terroristas. Mas, claro, precisaríamos de um filme de cinco horas para tentar “agregar” tudo que seria aconselhável para tentar explicar um ataque terrorista como o que é contado nesta produção.

CONCLUSÃO: Filme de ação narrado sob seis óticas diferentes ao estilo de 24 Horas. Tem bom ritmo e boas atuações – com algumas “pontas” de gente importante, como Sigourney Weaver. Como passatempo vale a pena, mas não mostra quase nada de novo. A todo momento você espera que Jack Bauer apareça para resolver tudo rapidamente… hehehehehehe

El Búfalo de la Noche – O Búfalo da Noite

Todo e qualquer filme latino-americano me interessa. Ainda que, nem sempre, o que é produzido pelos vizinhos do Brasil seja de qualidade – e esta regra se aplica aos filmes brasileiros também, é claro. Mas geralmente o cinema latino-americano, com filmes de qualidade principalmente da Argentina ou do México, interessa. Na maioria dos casos, o que marca a produção vinda destes países é a qualidade narrativa, histórias interessantes contadas de maneira peculiar, normalmente valorizando as relações humanas, o trabalho dos autores e do diretor, com textos bem escritos e uma “humanidade” que muitas vezes Hollywood parece ter esquecido pelo caminho. Também é interessante perceber o olhar “atento” aos detalhes da maioria dos bons diretores dos países do Mercosul. Mas, como sempre, nem tudo que vem de um país ou de um continente entra no mesmo “balaio”, assume a mesma postura. Este El Búfalo de la Noche, filme mexicano de 2007 com o conhecido Diego Luna no elenco, segue algumas qualidades do cinema latino-americano e, ao mesmo tempo, sofre com alguns deslizes que não são exclusivos de alguma “escola” de cinema ou de alguma corrente de produção, mas sim de uma crise de identidade que tem aparecido em vários filmes há alguns anos. Na verdade, El Búfalo peca por justamente querer ser “hollywoodiano” demais.

A HISTÓRIA: Manuel (Diego Luna) chega na casa de Gregorio (Gabriel González) de uma maneira um pouco furtiva, com uma expressão no rosto que não se entende bem ao princípio, mas que parece de culpa ou medo. Ele é recebido pela irmã de Gregorio, Margarita (Irene Azuela), e por sua mãe (Veronica Lánger) de uma maneira um pouco estranha, fria, consternada. Mas o encontro dos dois amigos parece apagar todas as dúvidas que pairam no ar. Pouco depois, Manuel se encontra com Tania (Liz Gallardo), sua namorada, e lhe conta que encontrou Gregorio. Ela não gosta da notícia. Logo os dois terão a vida radicalmente modificada quando recebem a notícia de que Gregorio se matou. Em permanentes vai-e-vens narrativos, o filme passa a contar a história deste triângulo amoroso envolvendo o esquizofrênico Gregorio, seu melhor amigo Manuel e Tania.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta trechos importantes do filme, tão importantes que realmente recomendo que só continue a ler quem JÁ assistiu a O Búfalo da Noite): O filme trata, como se pode concluir com o resumo acima, de basicamente dois temas: amor e loucura. Olhando para ele desta maneira, ele até pode parecer melhor do que realmente acaba sendo. No fundo, ele vai bem até um certo ponto, mas depois se perde em alguns desvios nos quais não consegue mais se encontrar. No final você se pergunta: “E daí?”, a respeito do filme, e encontra um grande ponto de interrogação como resposta. O final, especialmente, é muito fraco. Mas com ele, pelo menos, entendemos que o filme não passou disso, de uma viagem por meio de traições entre amigos, entre amantes, e nada mais. Toda a parte da esquizofrenia, da lealdade que vira simulação, do “búfalo” que sonha com as pessoas e das demais “pílulas” de possível filosofia ou “sentido escondido” no meio da história não passam de fumaça, de enfeite para uma história que é mais simples do que parece.

O começo do filme, embrenhado em um certo suspense, foi bem planejado. Até o primeiro “flashback” (retrocesso) da história, não sabemos se aqueles dois rapazes são apenas amigos ou se existe algo “escondido” naquela relação. Cheguei a pensar, eu juro, pela troca de olhares e de diálogos entre Manuel e Gregorio, que eles poderiam ser um casal gay. hahahahahahahahaha. Nada mais errado. Na verdade são dois bons amigos que tiveram a amizade balançada e corrompida pela paixão por uma mesma mulher, Tania. Mas, como dizia antes, até o primeiro flashback sabemos que há algo de errado no ar, mas não sabemos o quê. Daí vemos as cenas dos amigos e de Gregorio com Tania no colégio e entendemos quase tudo… que os dois eram quase “irmãos”, inseparáveis; que Gregorio sofre com alucinações e que é apaixonado por Tania. Até o final do filme pouca coisa nos explica melhor os personagens principais.

Alguém pode dizer que eu fui um pouco “maligna” ao dizer a última frase, mas é verdade. Vejamos: com o passar do tempo descobrimos que o filme é um bocado machista. Sim, porque Manuel pode ter vários casos e transar com quem bem entender – desde a irmã de Gregorio, Margarita, até a sua amiga Rebeca (Camila Sodi – que, convenhamos, aparece meio “do nada e para parte alguma”, uma personagem totalmente deslocada na trama) -, mas não pode aceitar nenhuma traição de Tania. Ainda que, neste caso, quem traiu primeiro foi ele a seu amigo Gregorio. Agora (NÃO LEIA se não quiser estragar a “grande reviravolta” do filme), quando ele descobre que Tania continuava a se relacionar com Gregorio, durante e depois dele ter ficado internado nas últimas clínicas psiquiátricas, ele fica louco, quer matá-la, etc. Típico machismo latino-americano, não? Achei deplorável.

Com o passar do tempo, também descobrimos que Manuel é aquilo mesmo, um jovem obcecado por Tania e que alimenta uma grande amizade por Gregorio, mas que é incapaz de ser fiel a qualquer pessoa. Ainda assim, claro, como um bom machista, ele exige fidelidade das pessoas ao seu redor. Também interessante as mulheres, desde Margarita até a inexplicada Rebeca, que não se importam em serem “usadas” por Manuel, uma figura que aparentemente não deixará Tania. Das duas, apenas Rebeca toma uma atitude um pouco menos submissa. Também descobrimos, conforme a história se desenvolve, que Gregorio sofria com a sua doença e, se sofria com a traição de Manuel e Tania, sofria calado. Porque em momento algum ele quis se vingar ou ter uma atitude destrutiva a respeito dos dois. Para mim os bilhetes que ele usa para “atormentar” – eu diria mais para informar – Manuel sobre o caráter de Tania através de Jacinto Anaya (Walther Cantú) tem mais a ver com uma demonstração de amor do que de vingança. Até porque ele busca, com suas revelações “desconexas” (e que agregam um certo “suspense” à história), tirar a cortina das mentiras que os amantes usavam um para o outro, revelando a traição de Tania e, ao mesmo tempo, sabendo que essa descoberta faria Manuel se revelar para a namorada. E bingo! Gregorio, o “louco” da história, não poderia estar mais certo.

Agora, algo sem sentido na história: se Gregorio deixou uma caixa como herança para Manuel e cuidou para que o amigo Jacinto enviasse, com certa frequencia, novas “pistas” do que ele queria revelar para Manuel, tudo para “proteger” Tania do amante dela, como Jacinto deixa ocorrer uma cena como a do zoológico? Sim, porque naquele momento o nosso “herói” da história, o protagonista, poderia ter facilmente matado a namorada ao invés do lobo. Algo sem sentido, convenhamos… Depois desta parte o filme descamba para a perseguição policial e o “grand finale” – que, claro, só reafirma o sentido do filme: nenhum. Ou melhor: o único sentido do filme é aquele que falei antes, uma história de amor cheia de traições, culpas e desejos. Nada mais, nada menos. Ah, e antes que me esqueça: também achei totalmente sem sentido os policiais que “cercavam” a casa de Jacinto permitirem que Manuel entrasse e tudo o mais antes de prendê-lo. Afinal, o homem podia ter facilmente matado a Jacinto e a Tania numa boa, ou não? Duvido que na vida real eles esperariam ele entrar no prédio para “ver no que vai dar”. Teriam prendido ele na chegada. Claro. Mas deste filme não se pode pedir algo muito sensato.

Sobre a parte técnica: gostei da direção do venezuelano Jorge Hernandez Aldana. Acho que ele tem um ritmo interessante de câmera e uma boa condução dos atores. As falhas maiores do filme estão, para mim, no roteiro, responsabilidade do escritor Guillermo Arriaga – em parceria com o diretor -, que escreveu também o livro homônimo. Em outras palavras: o que se vê na tela é uma adaptação para o cinema da obra de Arriaga feita por ele mesmo. Ou seja: ninguém pode culpar outra pessoa por uma adaptação com erros. Apenas o próprio escritor pode se culpar. hahahahahhahahahahaha

Direção de fotografia cuidadosa e bem feita por Héctor Ortega, assim como uma boa edição de Alex Marquez. A trilha sonora de Omar Rodriguez-Lopez achei exageradamente “distorcida”, hollywoodiana, desenhada para um filme de ação, praticamente. Podia ter feito algo parecido, mas com uma voltagem um pouco menor. No geral, achei o filme bem feito tecnicamente, mas ruim de roteiro. “Muito barulho” para contar uma história de obsessão amorosa entre jovens e com fortes tintas de machismo. O elenco é competente, foi bem escolhido, com atores bonitos – especialmente importante porque quase todos mostram muito os seus corpos nus – e competentes (mas nada excepcionais). Um filme com cara de “independente”, mas sem a qualidade da maioria das produções do gênero. Ainda que os atores, especialmente Diego Luna, estejam muito bem em seus respectivos papéis.

NOTA: 5,5.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: El Búfalo de la Noche começou como um projeto de terceiros. Melhor dizendo, alguns produtores procuraram o escritor Guillermo Arriaga para comprar os direitos autorais de sua obra com a intenção de adaptá-la para o cinema. Ele aceitou, mas depois mudou de idéia e resolveu ele mesmo produzir esta adaptação. Eu acho bacana quando isso ocorre, quando o autor de uma obra resolve ele mesmo assumir a responsabilidade de viabilizar a adaptação de uma obra sua para outro formato. A chance de “desvios de sentido” ocorrerem é menor. Não li o livro de Arriaga, mas espero que ele seja melhor do que a sua adaptação para o cinema. Talvez no livro ele consiga ir além do triângulo amoroso que resume a história do filme.

El Búfalo de la Noche registra a nota 4,8 no IMDb – detalhe: até eu realmente publicar este comentário, estava em dúvida se dava a nota 6 ou 5 para o filme… e juro que não fui influenciada pelo IMDb! heheheheheehe. No final, fiquei com a média entre as duas notas. O filme foi pouco visto pela crítica internacional, tanto que tem apenas três artigos registrados no site Rotten Tomatoes – e todos negativos, diga-se.

Para quem gosta de cenas de sexo e de nu, o filme é uma grande pedida… tem várias para o deleite geral das nações.

Não sei se todos vão passar pela mesma experiência que eu, mas muitas vezes eu vi na atriz Liz Gallardo a espanhola Penélope Cruz. Juro! Tem algumas sequencias, algumas posições de câmera específicas e algumas expressões da atriz que lembram demais a “musa” de Almodóvar – ainda que eu prefira Liz Gallardo que a Penélope Cruz.

O diretor Jorge Hernández Aldana marca a sua estréia em longas-metragens com El Búfalo. Antes ele tinha dirigido o curta Aprendiz, de 2005, e o curta Un Primer Paso Sobre las Nubes, este último que lhe rendeu um voto do produtor Arriaga em um festival em Caracas e, com a lembrança deste voto, o convite para dirigir El Búfalo. Por três anos ele e o escritor trabalharam na adaptação da obra original para um script de cinema.

Lendo as notas de produção sobre o filme descobri que o livro homônimo foi publicado em 1999. Naquele ano, o escritor deu de presente um exemplar para o ator Diego Luna já pensando nele como o ator para interpretar Manuel se um dia a obra fosse adaptada para o cinema. Detalhe: o ator participava, naquele ano, da produção Un Dulce Olor a Muerte, outra adaptação de uma obra de Arriaga – que não esconde que detestou o resultado final. Porém, Luna ainda não tinha ficado conhecido por seu papel em Y Tu Mamá También, que seria lançado apenas em 2001.

Uma curiosidade: Diego Luna teria emagrecido 12 quilos para interpretar Manuel. Com 28 anos de idade, esse ator mexicano já participou de 30 filmes lançados – e de outros quatro em fase de pós ou pré-produção – e de cinco séries para a TV. Em 2007 ele estrou na direção com um documentário sobre a carreira do pugilista mexicano Julio César Chavez.

Diferente da larga experiência de Diego Luna, o outro ator principal do filme, Gabriel González, está estreando no cinema com este papel. Ele concorreu, segundo os produtores do filme, com mais de 3 mil atores para ganhar o papel. Além de ator estreante, ele é o vocalista e compositor da banda Osamenta. Outra estréia no cinema é da atriz Liz Gallardo.

Descobri só depois, e não tenho vergonha de dizer que liguei tarde o “nome à pessoa”, que Guillermo Arriaga foi o responsável pelo roteiro de três grandes filmes: Amores Perros, 21 Gramas e Babel. Ou seja: pelas histórias dos três grandes filmes que consagraram o diretor Alejandro González Iñarritu. Isso comprova que ele é um grande roteirista mas que, infelizmente, não conseguiu acertar a mão com a adaptação de seu próprio livro. De qualquer maneira, pelo menos ele conseguiu o respeito no meio cinematográfico, a ponto de estar filmando The Burning Plain, um roteiro seu que conta com atuações de Charlize Theron, Kim Basinger, Jennifer Lawrence, entre outros.

CONCLUSÃO: Estréia como produtor do escritor e roteirista Guillermo Arriaga (responsável pelos textos dos principais filmes de Alejandro Iñarritu) sobre um livro homônimo de sua autoria, é um filme que tenta ser inovador na técnica e na narrativa e que, no final, parece uma cópia imperfeita e meio “sem sentido” de vários outros filmes que trilharam o mesmo caminho. No fundo, é apenas uma história sobre a busca do amor, sobre traições e sobre um triângulo amoroso. Fraco.

The Bucket List – Antes de Partir

Muitos dizem que a única certeza realmente inquestionável na vida de qualquer um é de que todo aquele que nasce um dia vai morrer. Não por acaso se pensa alguma vez na vida – ou muitas vezes – qual é o sentido dela, afinal, não temos todo o tempo do mundo para errar e acertar. E o que você faria “se só te restasse esse dia”, como diria aquela música? O filme The Bucket List trata disto, do que duas pessoas decidem fazer com o tempo que lhes resta. Inicialmente, não sei dizer bem o porquê, eu não estava muito interessada no filme, ainda que nele esteja dois “monstros sagrados” do cinema de Hollywood: Jack Nicholson e Morgan Freeman. Talvez minha resistência em assistir ao filme tenha tido a ver com o seu cartaz, que achei bem brega. Mesmo sem saber bem a razão, mas demorei para assistí-lo. E só fiz isso há alguns dias atrás porque o leitor deste blog, Breno, sugeriu que eu o visse há tempos atrás. Como tenho o desafio de assistir a toda e qualquer sugestão de leitores deste blog – isso mesmo, todas as sugestões! ainda que possa demorar um pouco, como agora – lá fui eu ver a The Bucket List. E devo dizer que adorei! Realmente um grande filme, com um roteiro recheado de boas sacadas e, claro, dois atores que dão um show de interpretação. Ainda que eu ache que seus devidos personagens tenham ficado um pouco estereotipados demais, mas tudo bem… também não dá para pedir perfeição para um roteirista que é bom mas que, cá entre nós, não conseguiu escrever nenhum roteiro até agora que tenha conseguido mais que uma nota 5 no site IMDb.

A HISTÓRIA: No início do filme conhecemos a dois homens com vidas opostas: Carter Chambers (Morgan Freeman), um mecânico que tem família, filhos e netos e que pode ser considerado quase uma “enciclopédia ambulante”, porque domina a história e curiosidades sobre temas tão diversos quanto as pirâmides do Egito ou a invenção do rádio; e a Edward Cole (Jack Nicholson), um empresário que investe pesado na recuperação capitalista de hospitais e que vive uma vida de “bon vivant”, entre várias casas, mulheres, viagens e supérfluos. Esses dois homens jamais se encontrariam se não fosse pela experiência de ficarem muito doentes. Carter e Edward acabam dividindo um mesmo quarto de hospital e, a partir daí, desenvolvem uma amizade inesperada e revolucionária.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER: aviso aos navegantes que boa parte do texto a seguir conta trechos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a The Bucket List): A idéia de colocar duas realidades opostas juntas graças a uma “contingência da vida” como é a possibilidade de ficar gravemente doente já foi explorada anteriormente. Assim como a “moral da história” de que “o dinheiro não compra felicidade”. Mas o diferente mesmo deste The Bucket List é ver a Morgan Freeman e Jack Nicholson juntos… é a primeira vez que os dois atores (e amigos) contracenam como protagonistas em uma história. E o resultado é delicioso.

Mas antes de falar deles, vamos falar da história em si. Ainda que o filme tenha toda uma carga de “moral” e seja um pouco filosófico – afinal, pergunta sobre o sentido da vida e sobre o que realmente é importante – ele é, acima de tudo, divertido. Nos faz rir, nos faz relaxar e, o que um filme não fazia comigo há algum tempo, até pode nos fazer chorar. E isso tudo assim, naturalmente. O roteiro realmente é muito gostoso, bem escrito, ainda que, como falei antes, simplifique um pouco os dois personagens centrais. Digo isso porque acho que ninguém é totalmente “boçal” como Edward, tão marcado por uma filosofia de “gosto de tudo que o dinheiro pode comprar” – ok, talvez tenha alguém por aí que viva em outro mundo como ele -, assim como não acho que ninguém seja tão “santo” ou correto como Carter, movido apenas por “inquietações” de conhecimento e de filosofia… E mesmo que existam muitas pessoas por aí totalmente boas ou totalmente “mesquinhas”, acho que todos nós mudamos um pouco quando sabemos que vamos morrer logo, não é mesmo? E claro que os dois personagens vão mudando aos poucos mas, no fundo, eles continuam ao mesmo, pelo menos até o quase final. Acho que um pouco mais de variedade nas “nuances” que pintam cada uma das personalidades teria sido interessante. Mas é um detalhe, claro.

O fato é que o filme começa bem, apresentando cada personagem separadamente para, depois, nos divertir unindo-os em um quarto de hospital. O que acontece quando um cara que nunca chama as pessoas pelo nome certo porque pouco se importa com elas encontra outro que lembra de cada detalhe da história humana que conseguiu aprender, citando nomes, datas e fatos históricos? A chegada de Edward Cole (Nicholson) no quarto em que já está Carter Chambers (Freeman) é algo delicioso. Estamos mais ou menos no minuto 7 do filme quando ganhamos este “cartão de visitas” da interpretação dos dois atores. E isso continua assim, delicioso, até o final. Cínico, teimoso, irônico, Edward dá um show particular em sua chegada. Mas, aos poucos, ele vai tendo a sua “espinha” quebrada pela doença. Impressionante assistir a um ator como Nicholson, aos seus 70 anos de idade, encarnando com tanto ânimo a experiência de raspar o cabelo e viver experimentando o “mais baixo” que um ser humano pode se sentir ao ter que ir ao banheiro a cada minuto e (desculpem os leitores sensíveis) “vomitar as tripas”. Sentir dor, sentir que lhe resta pouco tempo e, principalmente, sentir-se incapaz de fazer qualquer coisa a respeito para conseguir mais tempo de vida é algo que realmente quebra qualquer sensação de “onipotência” ou de “superioridade” que alguém possa alimentar.

Quando Edward tem a cabeça raspada e fala com o seu assistente, Thomas (o ótimo Sean Hayes) sobre Carter como se ele não estivesse ali, sai a primeira grande “sacada” do filme: uma frase que ele diz “citando” ao coronel Kurtz vivido por Marlon Brando no clássico Apocalipse Now, de 1979, é algo perfeito! Melhor sacada e melhor referência impossível. Nesta hora também é muito interessante a escolha de fazer ele “provar um pouco do seu próprio veneno”, obrigando-o a dividir o quarto de um hospital – seu, inclusive – com um estranho para não ficar mal com o pessoal das “relações públicas”, já que em toda ação judicial em que ele teve que defender seu jeito de administrar hospitais ele batia na tecla que era “justo” com todos, não importando quem a pessoa era, ela tinha que dividir um quarto com outro doente. hahahahahahahahaha. Na hora que ele teve que ser hospitalizado, claro, queria que fosse diferente, mas teve “que engolir” sua própria arrogância para “ficar bem” nos negócios.

A experiência destes dois homens estarem com câncer e passarem praticamente pelo mesmo, acaba unindo-os. Ainda mais quando descobrem que tem uma perspectiva de viverem algo como seis meses a um ano. Neste ponto, quando o filme está chegando aos seus 30 minutos, é que surge a lista que dá nome ao filme originalmente. The Bucket List seria algo como “a lista da bota”, feita pelas pessoas com desejos que querem realizar antes de “bater as botas”, em uma tradução muito, mas muito literal. Carter começou a fazer uma lista destas em uma noite, relembrando um exercício que um ex-professor de seu curso de filosofia havia proposto quando ele era jovem. Mas ele acaba deixando a lista de lado, jogando-a fora no quarto do hospital. Só que na manhã seguinte Edward a encontra e começa a acrescentar pontos nela. A partir daí surge a idéia dos dois saírem daquele hospital para realizarem os desejos daquela lista juntos. Carter tem que vencer a resistência da família, enquanto para Edward tudo é muito fácil. Riquíssimo, ele não vê problemas em gastar uma pequena parte da sua fortuna para viver intensamente seus “últimos dias”. E, para um homem “sozinho”, nada melhor que compartilhar estes momentos com outro que está passando pelo mesmo e que, de quebra, torna tudo mais interessante – já que sabe a história por detrás de cada lugar espetacular no mundo.

Aliás, este é um ponto forte do filme. Viajamos, junto com Carter e Edward, por alguns dos lugares mais bacanas do planeta. Vemos as pirâmides do Egito, o Taj Mahal, as Muralhas da China, o Serengeti, as montanhas do Himalaia, a África, a França… Mas o primeiro desejo que eles realizam é o de pular de paraquedas… que sequência ótima! Bem, na verdade todas as sequências a partir daí são maravilhosas, com um show de interpretação de Freeman e de Nicholson. O primeiro parecendo um “dândi” todo o tempo, e o outro sarcástico a cada cena. Uma maravilha! E o melhor é que, em toda a sua aventura, os dois não desviam dos temas principais ou da realidade. Pelo contrário… falam com humor sobre suas mortes, sobre a preferência em serem cremados ou enterrados e, sobre uma pirâmide no Egito, Carter relembra as duas perguntas que os egípcios acreditavam que os deuses lhes fariam quando morressem e tentassem entrar no céu… “Você já encontrou felicidade na sua vida?” e “Sua vida levou felicidade à outras pessoas?”. Parecem perguntas simples, é claro, mas não são…

Bem, sem estragar mais surpresas, mas o fato é que o filme mostra como o dinheiro pode sim permitir que duas pessoas possam vivenciar experiências incríveis mas, ainda assim e, principalmente, mostra que isso não é o suficiente. Tanto que, lá pelas tantas, os dois se separam. Cada um volta a viver a sua vida normal, mas com outra ótica… Carter regressa à casa e aproveita os momentos com sua família como nunca antes, enquanto Edward retoma suas reuniões de negócios com outra forma de enxergar a tudo. São as mesmas pessoas, mas diferentes. Ainda que as surpresas realmente ainda não terminaram para Carter, em um final realmente emocionante e bonito.

Agora um detalhe: o filme tem, pelo menos, dois grandes erros. E os dois, para mim, causados por uma falta de atenção do diretor Rob Reiner. (SPOILER – realmente não leia o resto deste parágrafo se não quiser ter alguma surpresa estragada). O primeiro erro de continuidade ocorre na corrida de carros entre Carter e Edward. Quando o primeiro “corta” o segundo na pista, cruzando pela sua frente, percebemos um grave erro… afinal, quando os dois estão conversando antes deste “corte”, quando Carter está desafiando Edward, ele está na pista de baixo, ou seja, na parte “menor” da pista, enquanto que Edward está acima, mais perto do muro e das grades, onde a pista é “mais larga”. Pouco depois, sem nenhum dos dois mudarem de pista, Carter aparece na pista de cima e corta a frente de Edward, que estaria na pista de baio. Erro de sequência. Provavelmente eles filmaram a cena mais de uma vez e, na hora de editá-la, cortaram alguma manobra que podia ter ocorrido antes e que explicaria a troca de posição dos dois, deixando Carter na pista de cima e, assim, permitindo que ele cortasse a Edward. Outro erro feio no filme, mas este não sei se só da direção ou também do roteiro, tem a ver com a “bucket list”. Quando Carter tenta levar Edward para fazer as pazes com a sua filha, o segundo se irrita e acaba fazendo picadinho da famosa lista… mas depois, quando Carter está hospitalizado mais uma vez, ele tira da bolsa a tal lista intacta… sem nem um “durex” ou alguma fita juntando os pedacinhos (o que poderia dar um pouco de lógica para a cena e não deixá-la como um erro no filme). Mas não, um close na lista mostra ela lá, bonitinha, como nova. E antes que alguém pergunte se ele não pode ter feito outra lista, reproduzindo a antiga, digo que não. Porque o mesmo close mostra as duas caligrafias diferentes de Carter e Edward… ou seja, a lista que foi estraçalhada antes agora aparece inteirinha, como mágica. Um erro bobo, como o anterior, mas um erro grande. Nada que desmereça o filme, claro, mas que acaba tirando alguns pontinhos dele na minha avaliação.

O fato é que The Bucket List é um grande filme, divertido, com grandes sacadas e interpretações maravilhosas. Tem um bom roteiro assinado por Justin Zackham e uma direção equilibrada de Rob Reiner – ainda que se percebem muitas e muitas cenas de cromaqui em várias parte do filme – especialmente no Taj Mahal e em outros locais que os dois visitam. Cromaqui, só para relembrar, é aquele fundo (geralmente azul) que eles colocam no estúdio para filmar a interação dos atores e, depois, inserir atrás a paisagem ou o “contexto” da cena, levando a parte dramática para um lugar em que ela realmente não aconteceu. Achei que o cromaqui rolou solto nesse filme e que, algumas vezes, infelizmente, ele fica muito claro. Uma pena. Também tira alguns pontos da produção. Mas em todo o demais ela é perfeita.

O filme, em resumo, nos conta algo que outros já disseram antes – mas de outra forma: que não adianta ter muito dinheiro e não saber o que “realmente” é importante na vida, que é o amor, fazer bem a outras pessoas e etc. Mas que também não adianta só seguir um bom caminho e fazer o bem sem olhar a quem… é preciso se divertir, aproveitar. Nesta parte sim que o dinheiro interessa, porque ele possibilita provar alguns dos sabores, sensações e conhecer lugares realmente incríveis, paraísos que todas as pessoas do mundo deveriam ter o direito de conhecer. Mas isso, claro, não é tudo. A verdade é que todas as pessoas deveriam ter um encontro como estes dois tiveram, unindo o melhor do coração, do sentimento, da simplicidade com o melhor que o dinheiro, o humor e o gosto por coisas boas podem nos propiciar. Deveria ser um direito universal para todas as pessoas isso. Infelizmente não é.

NOTA: 9.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: O filme teria custado algo em torno de US$ 45 milhões e faturou, apenas nos Estados Unidos, pouco mais de US$ 91,4 milhões. Ou seja: se pagou tranquilamente. Mas algo que também fica fácil com Nicholson e Freeman dividindo a cena, não é mesmo? O filme merece, realmente. No Brasil, Antes de Partir acumulou uma bilheteria que superou já os R$ 5 milhões em um mês estando em cartaz.

No site IMDb ele recebeu a nota 7,7 dos usuários, enquanto no Rotten Tomatoes ele acumula 57 críticas positivas e 84 negativas.

Segundo o material de divulgação do filme distribuído pela Warner, o diretor Rob Reiner precisou ler só 10 páginas do roteiro para dizer que estava dentro do projeto. Depois é que os produtores foram conseguindo os atores e transformar a história em algo real. O curioso é que Jack Nicholson participou do processo de “construção dos diálogos” nas semanas anteriores a filmagem realmente começar. Ele e Reiner trabalharam muito juntos modificando diálogos e tornando a história mais interessante. O roteirista comentou, por sua parte, que escreveu o roteiro inicialmente pensando em um Carter interpretado por Morgan Freeman. Além de ver o seu sonho realizado, com certeza ele saiu ganhando, e muito, ao ter Nicholson e Reiner no projeto.

Algo curioso é que Nicholson e Reiner já tinham trabalhado juntos antes, no filme A Few Good Men (Questão de Honra, de 1992), mas Morgan Freeman e Nicholson ainda não… e Freeman disse que “Se nós estamos falando de lista de desejo, trabalhar ao lado de Jack Nicholson certamente seria um item na minha”. Que fofo!!

Vale ainda citar a atuação de Beverly Todd como Virginia Chambers, a mulher de Carter; de Rob Morrow como o Dr. Hollins; Alfonso Freeman, filho de Morgan, como Roger Chambers, seu filho na ficção também; Rowena King como Angelica, a mulher que “tenta” a Carter; a encantadora Taylor Ann Thompson como a neta de Edward; e Jennifer Defrancisco como sua filha, Emily.

O roteirista Justin Zackham, como eu disse antes, só escreveu roteiros de filmes pouco conhecidos e nada admirados. Vejamos: seu primeiro trabalho foi Caught in the Act, de 1999… o filme tem a nota 5 no IMDb. O segundo texto dele, Going Greek, de 2001, tem um cartaz horripilante – um dos piores que vi nos últimos tempos – e a nota 4,6 no IMDb. Depois veio a produção The Fastest Man in the World, de 2002, feita para a TV, que tem uma nota espantosa: 2,8! Uau!!! Fico até com medo de ver algum filme deste… nunca se sabe o efeito que um filme ruim pode ter em uma pessoa. hehehehehehehehehe

CONCLUSÃO: Um filme divertido e tocante sobre dois homens que viveram muito e que aproveitaram bem as suas vidas, cada um a sua maneira mas que, quando descobrem que lhes restam pouco tempo de vida, percebem que deixaram de fazer muitas coisas que gostariam e “correm contra o tempo” para realizá-las. Conta com duas grandes interpretações de Jack Nicholson e de Morgan Freeman, além de uma direção e um roteiro competentes. Diversão garantida.

SUGESTÃO DO LEITOR: Este filme, como comentei antes, foi sugerido pelo Breno. Obrigado, garoto! Adorei o filme sim, como podes te percebido. hehehehehehe. Agora tens que vir aqui e dar a tua opinião sobre o que achaste desta produção! Aproveito também para dizer que sempre anoto os filmes que vocês, meus bons leitores, comentam… e que, mais cedo ou mais tarde, os assistirei e os comentarei por aqui.