In The Valley of Elah – No Vale das Sombras

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Eu gosto de filmes corajosos. De roteiros que não se limitam a contar uma história, mas também a fazer crítica ou a nos fazer refletir sobre questões importantes. Ok, nem sempre temos “paciência” para ver filmes “pesados”, intensos, questionadores. Algumas vezes nosso espírito pede mesmo uma comédia despretensiosa, uma história de amor (ainda que óbvia demais), um suspense ou terror de arrepiar ou um filme de ação que nos deixa “colados” na telona. Mas nenhum destes é o caso de In The Valley of Elah. Aqui o diretor Paul Haggis caprichou no roteiro e na direção para fazer uma importante crítica da Guerra do Iraque – ainda que a história tenha a ver com a primeira Guerra do Golfo – e, mais que isso, uma marcante crítica ao modo de vida dos Estados Unidos e aos problemas que uma guerra causa na essência das pessoas, das famílias e de um país. Pena que o filme parece não ter tido o lobby suficiente para chegar a ser indicado ao Globo de Ouro – e provavelmente ao Oscar.

A HISTÓRIA: O sargento Hank Deerfield (Tommy Lee Jones) recebe uma chamada do Exército em que perguntam de seu filho, o soldado Mike Deerfield (Jonathan Tucker). Hank responde que Mike está na Guerra do Iraque, mas se surpreende ao saber que ele voltou para casa. Inconformado com a notícia – afinal, como o filho pode ter voltado para casa e não ter falado com ele ou a mulher, Joan (Susan Sarandon)? -, ele decide viajar até a base militar em que o filho estava para saber de perto o que está acontecendo. Logo ele percebe que Mike está desaparecido. Em busca da verdade sobre o que aconteceu com ele, Hank pede ajuda da detetive Emily Sanders (Charlize Theron).

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que parte do texto à seguir conta fatos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a In The Valley of Elah): A cada aparição de um ator no filme eu tinha cada vez mais claro que se tratava de um belo projeto. Afinal, não é por acaso que atores interessantes como Susan Sarandon, Jason Patric, James Franco, Josh Brolin e Brent Briscoe, só para citar alguns, estão no filme praticamente em “pontas”, papéis secundários. E claro, não seria um filme qualquer que chamaria a atenção de Tommy Lee Jones e de Charlize Theron. Os dois, aliás, estão fantásticos em seus papéis. Para mim, mereceriam ser indicados a vários prêmios – ainda que não os ganhassem.

Mas voltando a história em si. Achei muito interessante como o roteiro do diretor Paul Haggis – baseado em uma história criada por ele próprio junto com Mark Boal – nos “enreda” em uma investigação policial um pouco fora do comum, deixando em “segundo plano” a questão familiar e de corrupção “da alma” provocada pela guerra (seja ela qual for). Claro que o segundo plano escrevi entre aspas porque eu realmente acho que as críticas e reflexões que o filme faz sobre estes temas nunca deixam de estar nos holofotes, ainda que não pareça ser a mola propulsora principal.

Sendo assim, é muito interessante acompanhar o desenrolar da investigação, passando de uma possível deserção de Mike até a confirmação de seu assassinato. A partir deste ponto, entramos em um jogo de tentar descobrir, junto com os personagens principais, os culpados. E como diz o cartaz do filme, as vezes o pior não é descobrir a verdade, mas encará-la. A parte final do filme realmente foi muito bem escrita. Hank descobre não apenas o lado “podre” da instituição que ele tanto prezava e admirava – a ponto de dedicar sua vida a ela -, mas descobre, principalmente, o quão podre está o sistema que mantêm e corrompe os soldados enviados para a guerra, assim como a podridão dentro de seu próprio cesto – e os erros que ele nunca poderá corrigir.

Só um ator como Tommy Lee Jones poderia interpretar tão bem esse pai que descobre tarde demais a verdade a respeito de seu filho, de si mesmo e dos valores pelos quais sempre lutou. A simbologia da bandeira invertida, para mim, foi a mais bonita a respeito da bandeira dos Estados Unidos nos últimos tempos. Realmente, aquele país precisa divulgar para o mundo que precisa de ajuda, que precisa que organismos externos entrem no país para salvar as pessoas racionais que ainda vivem lá do caos completo. E a crise a que me refiro se passa pela crise de consciências, do bom senso, nada de econômica ou algo do tipo.

Toda a narrativa de como Mike foi morto e das “brincadeiras” que os soldados faziam – inclusive a vítima – durante a guerra é de arrepiar. Depois a descoberta do pai do soldado sobre o momento em que o filho “perdeu a inocência” também é muito forte. Um filme realmente bonito, inteligente e com belíssimos trabalhos de roteiro, direção e atuações. Um conjunto que funciona.

Ah, e o que falta agora mesmo é o envio de ajuda internacional para tomar os Estados Unidos de assalto e restabelecer o bom senso naquele país. Algo que não existe por lá atualmente.

NOTA: 9,5.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: In the Valley of Elah é o primeiro trabalho do diretor canadense Paul Haggis depois de Crash, filme ganhador do Oscar em 2006. Um belo roteiro depois de ter escrito Crash e a história de Letters from Iwo Jima (Cartas de Iwo Jima).

O filme rendeu o prêmio SIGNIS no Festival de Veneza deste ano e foi indicado a outros três prêmios – mas não ganhou mais nenhum. Como não foi indicado aos principais prêmios da crítica dos Estados Unidos e nem ao Globo de Ouro, dificilmente chegará ao Oscar.

No site IMDb, In the Valley of Elah registra a nota 7,7 dos usuários, enquanto que pelo site Rotten Tomatoes ele recebeu 89 críticas positivas e 40 negativas (um número relativamente grande para o meu gosto, mas fazer o que, nem sempre concordo com os críticos).

O filme foi rodado no Marrocos e nos Estados de Tennessee e Novo México, nos Estados Unidos.

O ator Josh Brolin teve um 2007 realmente incrível. Além de participar deste filme, ele trabalhou em American Gangster, No Country for Old Men e, ainda, em Planet Terror (ainda que este último não seja, na minha opinião, uma grande referência).

O filme foi mal nas bilheterias dos Estados Unidos. No período de 16 de setembro a 9 de dezembro ele faturou pouco mais de US$ 6,7 milhões – muito pouco para os padrões do país, um indício da razão de porque o filme não tem lobby suficiente para o Oscar.

PALPITE PARA O OSCAR: Como comentei antes, acho que o filme não terá forças para chegar a ser indicado ao Oscar. Digo isso levando em consideração que ele foi esquecido pelo Globo de Ouro e pelos principais prêmios da crítica nos Estados Unidos. Ainda assim, mesmo que eu ache que o lobby não faça ele chegar lá, para mim ele merecia ser indicado para filme (no lugar de Atonement, por exemplo), roteiro, direção e ator (Tommy Lee Jones). Como filme, acho ele melhor que Atonement, um quase certo candidato ao Oscar. Infelizmente parece que minha torcida será um verdadeiro “tiro n´água”, porque In The Valley of Elah não deve sair do lugar.

CONCLUSÃO: Um filme competente na crítica ao modelo estadunidense de “fazer justiça” em suas relações internacionais, desvelando principalmente a crise de valores da sociedade norte-americana e os efeitos da guerra na estrutura das famílias e na vida de jovens combatentes. Um belo roteiro, com grandes atuações dos atores principais, pontas de nomes importantes e uma direção precisa.

No Country for Old Men – Onde os Fracos Não tem Vez

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Admito que filmes com bons e grandes vilões sempre me fascinaram. Desde Jack o Estripador até o imbatível Hannibal Lecter, passando por tantos outros… Também sempre me chama a atenção os filmes que os críticos começam a falar muito. E não porque os críticos estão sempre certos – aliás, muitas vezes, eles não estão. Mas porque acho interessante as produções que acabam virando “unanimidade” ou, se não, viram “assunto da vez”. Gosto de saber, como já disse antes ao me referir ao Oscar, o que “eles” querem nos vender para saber suas razões e objetivos. Ok, nem sempre há uma “teoria da conspiração” por trás da opinião massiva de críticas. Muitas e muitas vezes existe, isso sim, filmes muito bons.

No Country for Old Men, o mais recente filme dos irmãos Ethan e Joel Coen, é um destes filmes que virou “assunto do momento”. Ele é um dos favoritos para o Oscar 2008 e tem recebido, da crítica especializada, um caminhão de críticas positivas. Vi esse filme há um mês, aproximadamente, mas não tinha conseguido tempo de escrever a respeito por aqui – viagem para o Brasil e seus preparativos, além de trabalhar muito consumiram todo o meu tempo. Ainda com esse tempo de distância entre o dia em que vi o filme e o dia em que escrevo a respeito devo dizer que minha idéia a respeito dele não mudou: é um grande filme, por seu cinismo e qualidades, além de ter um elenco afinadíssimo e um dos melhores vilões de todos os tempos (talvez até um concorrente de Hannibal Lecter). Deve ser indicado a muitos Oscars e talvez ganhe alguns – depende do humor da Academia.

A HISTÓRIA: Acompanhamos a saga de Llewelyn Moss (Josh Brolin), um homem comum, habituado ao clima árido de algumas regiões dos Estados Unidos. O filme começa com Llewelyn em um dia de caça normal, até que ele encontra um “campo” de caminhonetes abandonados. De longe ele já sabe do que se trata: um ajuste de contas, possivelmente entre traficantes, em um campo desértico. Como um predador, Llewelyn chega perto das caminhonetes e descobre diversos cadáveres, homens mortos em um confronto entre traficantes. Ele também encontra um carregamento de heroína e um sobrevivente. A partir daí, ele empreende uma busca pelo dinheiro da transação mal fadada – US$ 2 milhões – e, mais que isso, sobreviver a caçada que os verdadeiros donos do dinheiro e a polícia empreendem contra ele. Atrás do dinheiro e de Llewelyn partem o sheriff Ed Tom Bell (Tommy Lee Jones) e o caçador de recompensas e matador profissional Anton Chigurh (Javier Bardem).

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a No Country For Old Men): Todos têm falado muitíssimo da interpretação de Javier Bardem. Realmente, o ator espanhol está fantástico no papel do vilão desta história. Sem parecer exagerada – e talvez esteja sendo, um pouco -, mas considero a interpretação dele e, mais, o seu personagem, quase tão bom quanto Hannibal Lecter (para mim o melhor vilão do cinema em todos os tempos). Claro que estou me referindo a vilões “possíveis”, ou seja, a pessoas que realmente poderiam (ou podem) existir. Porque do contrário, entraria na lista Freddy Krueger ou Jason Voorhees. Mas me refiro a vilões de carne e osso, vilões que poderiam morar na casa ao lado. Hannibal Lecter sempre foi, para mim, imbatível. Especialmente pelo filme O Silêncio dos Inocentes (primoroso!). Mas esse Anton Chigurh intepretado por Javier Bardem está a altura do Hannibal de Anthony Hopkins. Ainda assim, acho que faltam os louros das interpretações de Josh Brolin e de Tommy Lee Jones. O primeiro, por sua obstinação em vencer a todos, inclusive ao homem que todos temem. E tudo por cobiça e/ou valentia. O segundo, pelo tom exato de “dever à Justiça” e de desconsolo. Tommy Lee Jones está simplesmente perfeito.

Sei que alguns dos prêmios que No Country for Old Men recebeu até agora (falo deles mais extensamente no “Obs de pé de página” logo abaixo) foi para todo o elenco. Achei justo. Assim como é justo o prêmio a Bardem. Não vi ainda todos os filmes que podem render indicação a ator coadjuvante, mas acho realmente que não haverá páreo para ele no Oscar. O que acho bacana é que ele será indicado a coadjuvante, podendo deixar o caminho livre para Denzel Washington na categoria principal (por seu magnífico trabalho em American Gangster). Acho que seria uma grande quebra de braço os dois concorrerem na mesma categoria mas, ao mesmo tempo, acho justo os dois ganharem o prêmio. Que seja um como principal e outro como coadjuvante. Os dois merecem.

Mas voltando ao filme: No Country for Old Men realmente é muito bom. Para mim, reúne as melhores características dos irmãos Coen: roteiro inteligente, frases impagáveis, direção cuidadosa e atenta aos detalhes e às interpretações. Enfim, elementos do bom e velho cinema bem-feito. Exemplo de pontos altos do filme: o diálogo entre Anton Chigurh e o proprietário do posto de gasolina (Gene Jones) no meio do nada. Para um homem que matar é algo tão natural e fácil quando caminhar, algumas vezes a decisão sobre tirar uma vida tem que passar por algum crivo, nem que seja uma moeda. hehehehehe. Maravilhoso!

Uma qualidade grande do filme, na minha opinião, é que os irmãos Coen não aliviam – como sempre na sua filmografia. Assim sendo, não adianta ter grandes esperanças… o filme trata de uma caçada humana e, como na Natureza, vence o animal mais forte, mais preparado. Como qualquer história bem escrita, aqui também o espectador fica na dúvida para quem torcer. Afinal, não entra na balança os elementos que movem um ou outro personagem, mas o seu carisma e a sua estratégia de sobrevivência. No fundo, por mais que tenhamos uma idéia de “torcer pelo mais fraco”, muitas vezes aplaudimos justamente quando o forte ganha. Talvez efeito da nossa permanente luta interna entre nosso lado primitivo e nosso lado racional, com critérios e ajustes sociais.

No Country for Old Men trata disso e de muito mais. Alguns podem ver no filme apenas um “thriller de ação”, uma caçada humana. Mas ali também se vê, a todo momento, as idéias da cobiça, da busca pela liberdade, da luta pela sobrevivência, da vingança, enfim, de muitas leituras possíveis sobre o tema. Mas para os que não gostam de ver “sentidos escondidos” nas histórias, o filme ainda é o que deveria ser: um trabalho muito competente de profissionais do cinema.

NOTA: 9,8.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: No Country for Old Men já começou a colecionar prêmios importantes. Ganhou como Melhor Filme do Ano no prêmio National Board of Review (dos críticos de cinema norte-americanos), além de ter levado os prêmios de Melhor Roteiro Adaptado e Melhor Elenco. Outros prêmios: Melhor Filme do Ano pelo New York Film Critics Circle (Círculo de Críticos de Cinema de Nova York), pelo Boston Film Critics (associação dos Críticos de Cinema de Boston), pelo Washington DC Film Critics (pela associação de Críticos de Cinema de Washington) e pelo Chicago Film Critics (associação de Críticos de Cinema de Chicago). Ou seja: levou o prêmio de melhor filme do ano por quatro das principais associações de críticos dos Estados Unidos. Eles realmente amaram o filme.

O filme No Country for Old Men ganhou também vários outros prêmios importantes, como de melhor roteiro para os irmãos Coen da New York Film Critics Circle e da Chicago Film Critics; melhor ator coadjuvante para Javier Bardem pelas associações de Nova York, Boston, Washington e Chicago, pela New York Film Critics Online e pela Gotham Awards (prêmio de cinema da cidade de Gotham); melhor direção para os irmãos Coen pela associação de críticos de Nova York, de Washington e de Chicago, além do San Francisco Film Critics Circle (Círculo de Críticos de Cinema de São Francisco); além de outros prêmios.

Além das estatuetas e títulos já conquistados, No Country for Old Men está indicado a quatro dos principais prêmios do Globo de Ouro: Melhor Filme, Melhor Direção, Melhor Roteiro e Melhor Ator Coadjuvante para Javier Bardem. Para muitos o Globo de Ouro é uma prévia do Oscar. Considero esse prêmio realmente uma prévia em se tratando de indicações, ou seja, normalmente quem vai para o Globo de Ouro realmente vai para o Oscar, mas não acho que isso se aplique sempre aos vencedores de um em relação ao outro. Basta comparar a história das duas premiações para ver que os interesses em distribuir os prêmios nem sempre são os mesmos.

Interessante saber que No Country For Old Men é fruto de uma adaptação. Ele é baseado no livro do escritor premiado com o Pulitzer Cormac McCarthy. A obra dele, que retrata as mudanças “no estilo de vida” do Oeste Norte-Americano, foi publicada em 2003. O filme trata destas mudanças, ainda que a crítica e a ironia sobre o antigo modo de vida do Oeste fiquem um pouco eclipsados pela caçada humana dos personagens principais.

Alguém pode se perguntar porque eu dei a nota 9,8 para o filme, sendo que gostei tanto dele. Realmente, é um grande filme, mas não consigo tirar da minha cabeça a American Gangster. Perto deste, que ainda considero o meu favorito para o Oscar, não posso dar uma nota maior para No Country for Old Men. Além do mais, admito que me irritou um pouco a “invencibilidade” de Anton Chigurh. Ok, eu sei que a idéia deve ser mesmo de que o “mal ficou invencível” nesse mundo caótico em que vivemos, mas acho que ele poderia ter levado mais do que aquele tiro que ele leva. hehehehehehe. No mais, o filme é perfeito. Ainda que, para mim, American Gangster seja superior.

Diante do trio de atores principais (Josh Brolin, Javier Bardem e Tommy Lee Jones), nem tive como citar antes outros nomes importantes do filme. Agora, fazendo justiça, cito Woody Harrelson como Carson Wells, Kelly Macdonald como Carla Jean Moss, Garret Dillahunt como o deputado Wendell, e Gene Jones como o ótimo “proprietário do posto de gasolina” que tem, para mim, a melhor troca de diálogos do filme com Javier Bardem.

O filme está indo bem de bilheteria – ainda que já tenha perdido espaço frente a outras estréias. No Country for Old Men estreou nos Estados Unidos no dia 18 de novembro e faturou, até 2 de dezembro, quase US$ 23 milhões.

No Brasil o filme tem data de estréia para 15 de fevereiro de 2008.

Para os interessados em locações, a produção dos irmãos Coen foi filmada em Eagle Pass e em Marfa, ambas cidades no Texas; em Las Vegas, no Novo México, e nos estúdios Garson, também no Novo México.

Além de agradar a crítica, No Country for Old Men parece ter agradado ao público. Fora o resultado da bilheteria, o filme conseguiu a importante nota 8,9 no site IMDb e ainda 159 críticas positivas e apenas 8 negativas no site Rotten Tomatoes.

PALPITE PARA O OSCAR: No Country for Old Men deve ser indicado para todas as categorias principais do grande prêmio da indústria cinematográfica norte-americana. Ou seja: deve ser indicado para melhor filme, direção, ator coadjuvante (acho difícil Josh Brolin ser indicado para ator principal), roteiro adaptado e, talvez, ainda abocanhe algo técnico, como direção de fotografia e edição. As chances de ganhar? Tudo depende dos “acordos por debaixo do pano” e dos interesses da Academia neste ano, mas acho que o único prêmio mais óbvio (que poderia ser considerado uma “barbada”) é mesmo o de ator coadjuvante para Bardem. Também é forte concorrente em roteiro adaptado – ainda que eu ache que nesta categoria ele tem dois fortes concorrentes a bater: American Gangster e Atonement. Direção é o mesmo: os irmãos Coen terão que bater o excelente trabalho de Ridley Scott em American Gangster, entre outros. Pessoalmente, ainda não assisti a Charlie Wilson´s War, Sweeney Todd e There Will Be Blood (esse o novo trabalho do ótimo diretor Paul Thomas Anderson, que para muitos traz a melhor interpretação da vida de Daniel Day-Lewis), os três filmes que faltam para que eu realmente possa dar um pitaco sobre o Oscar. Ainda assim, até agora, acho que American Gangster continua sendo o melhor filme do ano, assim como Denzel Washington e o diretor Ridley Scott deveriam ganhar suas estatuetas. No Country for Old Men pode ser mais um destes filmes que recebe muitas indicações mas que, no final, leva poucos prêmios para casa. Ou isso também pode acontecer com American Gangster. Realmente tudo vai depender dos humores e interesses da Academia – o fato é que os dois filmes merecem.

CONCLUSÃO: Grande filme sobre a luta para a sobrevivência no Oeste norte-americano, em uma história com as digitais dos irmãos Coen, cheia de cinismo, ironia e grandes interpretações. Bom ritmo, diálogos bem trabalhados, recomendado.

Atonement – Desejo e Reparação

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O Oscar não é, nem de longe, o melhor critério para se escolher um filme. Como qualquer prêmio de “indústria”, ele segue interesses comerciais e leva muito mais em conta o dinheiro e os interesses de seus “gestores” do que a qualidade dos filmes em si. Ainda assim, volta e meia a premiação mais badalada do cinema no mundo acerta ao premiar realmente filmes que são bons. Por tudo isso é que eu sim me interesso pelo Oscar. Seja para descobrir filmes bons ou para discordar desse “mundinho dinheirista” dos grandes estúdios. Além do fato que ele é um espelho do que outros querem que a gente compre – e é sempre interessante estudar o que os outros querem que a gente ache interessante. Eles acertam. Eles erram. Como nós, eu acredito.

Mas toda essa introdução para dizer que cheguei com muitas expectativas para ver a esse Atonement. Afinal, para muitos críticos de cinema, esse filme é o grande favorito para o próximo Oscar junto com No Country for Old Men e American Gangster. Fiquei muito curiosa, sendo assim, para vê-lo. Admito que gostei do filme, mas que ele fica milhas e milhas distante de American Gangster, na minha opinião. É um filme bacana e tal, nada mais. Realmente não enxerguei nele as qualidades que estão fazendo tantos críticos baixar a cabeça em sinal de reverência.

A HISTÓRIA: Briony Tallis (Saoirse Ronan) é uma garota de 13 anos na Inglaterra de 1935. Ela vive confortavelmente em uma casa gigantesca e prepara uma peça de teatro para ser apresentada em homenagem a chegada do irmão, Leon Tallis (Patrick Kennedy). Enquanto se esforça para terminar a peça e conseguir a atenção dos convidados da família – os gêmeos Pierrot (Felix von Simson) e Jackson (Charlie von Simson), mais a irmã deles, Lola Quincey (Juno Temple) – para ensaiá-la, Briony descobre um possível jogo de atração entre a sua irmã Cecilia (a inglesa Keira Knightley) e o filho do antigo empregado da família, Robbie Turner (o escocês James McAvoy). Apaixonada por Robbie, Briony será injusta com ele acusando-o fasalmente de abusar de Lola, afastando ele da irmã.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Atonement): O filme me fez pensar muito em histórias de época, ao estilo de Razão e Sensibilidade, de Jane Austen, e de outros livros desta escritora inglesa. Claro que, como digo no resumo de Atonement, o filme se passa nos anos anteriores ao começo da Segunda Guerra Mundial e não na Inglaterra do século 18, mas no filme que muitos críticos colocam na lista certeira para o Oscar 2008 se percebe vários elementos de uma história já vista anteriormente. Em especial a questão do abismo entre as classes sociais – ou seja: não interessa quem você é, mas em que berço você nasceu. Essa questão está muito presente no filme, desde o começo, na relação de todos com Robbie e vice-versa. E, claro, o amor entre Robbie e Cecilia afronta uma “ordem” das coisas que é impossível de ser afrontada, ainda que falemos de uma Inglaterra nos anos 30. Acho, na verdade, que mesmo na Inglaterra atual isso é meio inconcebível. E se o problema não é apenas a classe social, entra em jogo outras questões, como raça ou credo.

Mas Atonement parece “mais do mesmo” se for visto apenas por essa ótica. Realmente o filme parece, boa parte do tempo, mais do mesmo… mais uma história de romance proibido que é descoberta (ou quase) e termina mal, dois amantes que são impedidos de se amarem, etc. O bom é que o filme não é só isso. Ele também pode ser visto por uma outra ótica, mais visível depois que se assiste ele quase todo… a ótica de que as histórias e a realidade são percebidas de várias formas. Ou você nunca ouviu que uma história tem sempre dois lados? Eu, por minha parte, sempre digo que uma história não tem apenas dois lados, mas muitos lados. E aí está o desafio do jornalismo em tentar contar alguma história, sabendo sempre que deve escutar vários lados para tentar ser, desta maneira, menos incompleto e injusto – no sentido de não dar voz aos vários ângulos de uma questão.

Sem perder o fio da meada (mas quase): Atonement é interessante no final, quando nos revela não apenas a verdade sobre o que aconteceu com Lola – algo que já se pode deduzir e saber muito antes (eu, pelo menos, já sabia) -, mas, principalmente, nos revela o que Briony queria que fosse verdade e que tivesse acontecido ainda que, neste caso, não passou de criação literária. No fundo, a reflexão final é interessante: afinal, como lidar com uma culpa como a que ela carrega? Talvez a saída seja realmente fantasiar, como ela fez ao princípio, quando tinha 13 anos. O que separa a Briony de 13 anos da Briony prestes a esquecer quem é (a sempre maravilhosa Vanessa Redgrave) é nada mais que criação e arrependimento. Mas algo que une as duas é a fantasia, a criatividade, o gosto pela arte e pelo belo, a vontade de ter presenciado uma realidade diferente.

O que moveu a Briony de 13 anos a fazer o que fez pode dividir opiniões. Para mim, no fundo ela foi movida por egoísmo e inveja, mas para outros ela pode ter sido realmente inocente e ter entendido tudo errado. Independente, ela tomou uma atitude que mudou a vida de duas pessoas definitivamente. E o bonito da história é que a sua imaginação posterior, ao contar o que poderia ter acontecido com Cecilia e com Robbie depois que ele foi preso e mandado para a guerra, fez possível uma das realidades possíveis. E se ela não existiu, se não ocorreu de verdade, mas pelo menos em uma certa imaginação e em um certo sentido de fantasia sim que foi viável. Esse ponto do filme, da fantasia em primeiro plano, é o que salva ele de ser apenas um filme mediano. É uma maneira interessante de refletir sobre o que entendemos como realidade e sobre o que queremos com a fantasia. Ainda que tenha esse ponto interessante, o filme está longe de ser excepcional.

NOTA: 8.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Algo que me impressionou no filme é a atenção aos detalhes. Gostei muito, e em especial, da trilha sonora. Para mim, o trabalho do italiano Dario Marianelli na trilha sonora é excepcional – e digno de Oscar (curiosidade: ele também fez a trilha de The Brave One, outro trabalho interessante dele). Aliás, ele foi indicado ao Oscar antes – quem sabe agora ele leva! O cuidado com a direção de fotografia também é muito bom – créditos para o irlandês Seamus McGarvey – merecedor de Oscar também. O roteiro achei competente, especialmente pelas interessantes e instigantes quebras que ele tem, um pouco que tornando tudo um pouco mais “fantasioso”. No conjunto o filme funciona bem, ainda que todas as qualidades técnicas e de elenco parecem estar esperando uma história melhor – hehehehehehe, agora eu fui má!

Falando em história, Atonement tem roteiro do português Christopher Hampton (que ganhou o Oscar pelo filme Ligações Perigosas, de Stephen Frears) mas é uma adaptação da obra do inglês Ian McEwan. Por isso ele talvez tenha essa cara de “novelão”, de literatura mesmo. O diretor inglês Joe Wright faz um trabalho competente, assim como os atores principais – especialmente James McAvoy e Keira Knightley, muito carismáticos nos seus papéis. Falando em Wright… o diretor inglês dirigiu antes a Pride & Prejudice, filme de 2005 estrelado por Keira Knightley e baseado na obra homônima de Jane Austen. É, realmente eu acho que ele é chegado em temas do gênero.

Mas não sei, devo admitir que ao assitir ao filme ficou com aquela sensação de “falta algo”, de “quero mais, mas melhor”. Talvez também porque estava sempre pensando nele como o concorrente do American Gangster – ao qual, eu continuo dizendo, eu rendo homenagens. E, ao meu ver, American Gangsters continua sem concorrentes – se o Oscar for justo, é claro.

Uma curiosidade: o diretor Anthony Minghella faz uma “participação especial” no filme como o entrevistador da escritora Briony velhinha. Interessante.

No site IMDb o filme tem a nota 8,2, enquanto no Rotten Tomatoes ele contabiliza 28 críticas positivas e 3 negativas.

Atonement teria custado US$ 35 milhões. Uma curiosidade: o filme estréia essa semana no circuito comercial dos Estados Unidos, mas passou antes nos cinemas de Emirados Árabes (!!), Turquia, Nova Zelândia, Itália, Finlândia e Inglaterra.

No Brasil o filme estréia em 15 de fevereiro – ainda que tenha sido exibido antes no Festival do Rio em 2 de outubro. Aliás, falando em festivais, Atonement marcou presença em vários deles até agora, incluindo os de Veneza, Toronto, Helsinki, DaKino (na Romênia), entre outros.

O filme é uma co-produção da Inglaterra e da França.

PALPITE PARA O OSCAR: O filme deve receber várias indicações, especialmente em trilha sonora, fotografia e roteiro adaptado. Pode receber também a indicação para melhor filme – segundo os críticos, mais do que pelo que eu acho que ele mereça – e para diretor. Ainda assim, realmente acho que ele não tem chances de ganhar nenhum grande prêmio, especialmente frente a American Gangster.

CONCLUSÃO: Um filme bem feito, bem dirigido e com vários elementos interessantes na narrativa, ainda que pareça ser “mais do mesmo”, que pareça contar mais uma história do abismo entre classes sociais e sobre a incapacidade de um amor frutificar no meio de regras muito estabelecidas. No geral, regular.