We Own the Night – Os Donos da Noite

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Volta e meia Hollywood apresenta algum filme sobre bandidos e mocinhos na noite de uma grande cidade dos Estados Unidos. E os bandidos esses normalmente são traficantes de drogas e os mocinhos, normalmente também, policiais ou detetives ou CIA/FBI e tal. Seguindo essa onda, We Own the Night parece um pouco “mais do mesmo”, ainda que o filme do diretor James Gray respeite o bom gosto visual e tenha bons atores no elenco. Fora isso, não há muita novidade no front.

A HISTÓRIA: O filme se passa no conhecido bairro do Brooklyn, na Nova York de 1988. Ali, Robert “Bobby” Green (Joaquin Phoenix) trabalha como o gerente de uma badalada boate. Ele é querido entre os principais clientes, tem uma namorada estonteante – Amada Juarez (Eva Mendes) – e é o preferido do dono do lugar, Marat Buzhayev (Moni Moshonov). O problema é que ele só tem tanto êxito em seu negócio como gerente de uma danceteria como essa – onde rolam drogas e, por baixo do pano, grandes negócios do tráfico liderados pelo sobrinho de Buzhayev, Vadim Nezhinski (Alex Veadov) – porque ninguém sabe de sua verdadeira história, ou seja, ninguém sabe que ele é filho do chefe da polícia Albert “Bert” Grusinsky (Robert Duvall) e irmão do recém-promovido capitão Joseph “Joe” Grusinsky (Mark Wahlberg). A atividade do irmão começa a afetar a Bobby quando, querendo mostrar trabalho, Joe lidera uma batida policial no clube em que Bobby é o responsável. Pouco depois, quando Joe sofre uma tentativa de assassinato, a dupla identidade de Bobby e a vida de cada integrante da família é posta em jogo.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que comento à seguir partes importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a We Own the Night): Lendo o resumo o filme até parece interessante. E, na verdade, ele até passa por entretenimento. Mas eu achei a história toda muito arrastada, culpa talvez do texto meio óbvio demais do roteirista e diretor James Gray. Aliás, ele demonstra com o filme ser melhor diretor que escritor… realmente achei muitos diálogos muito fracos e o filme um pouco arrastado. Ainda assim, claro, tem bons momentos de tensão, especialmente na sequencia final, da perseguição de Nezhinski e de Buzhayev.

Também achei o filme interessante por mostrar a realidade da polícia no final dos anos 80. Fora isso, para ser franca, a história não conta nada de novo. Tem o tradicional “embate” entre irmãos – um querendo fazer tudo o que o pai manda e o outro sendo sempre o rebelde que “faz tudo conforme lhe dá na veneta” -, a relação pai e filhos, a busca por vingança, etc. Ou seja: nada de novo no reino de Abrolhos. Como falei em uma crítica anterior, de Trade, em que “sobrava” a história do gatinho, aqui vejo como totalmente desnecessária a “ajoelhada” de Buzhayev. Desnecessária e absurda, convenhamos.

NOTA: 6,5.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Para não dizer que tudo no filme é fraco, Joaquin Phoenix está bem no papel de Bobby. Enquanto isso, achei Mark Wahlberg e o “monstro-sagrado” Robert Duvall apenas medianos. Eva Mendes faz o que sabe melhor: mostrar o corpo – o que deve agradar os marmanjos de plantão. E, nada mais.

No site IMDb o filme apresenta a nota 7,4, enquanto no Rotten Tomatoes ele registra 59 críticas positivas e 49 negativas.

Para mim, um dos pontos positivos do filme é o seu cartaz. Gostei do trabalho em preto e branco sobre os dois irmãos.

We Own the Night teria custado aproximadamente US$ 21 milhões – provavelmente um bocado desse dinheiro foi gasto na cena de perseguição de carros. Na bilheteria dos Estados Unidos, em três semanas, o filme faturou US$ 27,6 milhões. Nada mal! Conseguiu se pagar em apenas três semanas.

No Brasil o filme estreou no dia 15 de novembro – foi o sexto país a estrear We Own the Night, saindo na frente de 16 outros países, incluindo França, Inglaterra, Holanda, Alemanha e Espanha, onde ele vai estrear muito depois.

O filme tem pelo menos um grave erro de continuidade: na cena em que os irmãos Bobby e Joe estão frente aos chefes da polícia e em que Joe está meio “abalado” ainda, meio “perdido”, a câmera mostra Mark Wahlberg em pé e, no take seguinte, já sentado… erro de continuidade total.

PALPITE PARA O OSCAR: Não acho que We Own the Night concorra a nenhuma categoria principal. Talvez, se tiver sorte, pode chegar a concorrer em categorias técnicas, como efeitos sonoros, direção de fotografia, efeitos especiais ou algo do tipo. Não acho que ganhe nada.

CONCLUSÃO: Filme sobre o combate ao tráfico de drogas em Nova York no final dos anos 80 tendo uma família dividida entre policiais e um “dono da noite” no foco principal. Pode ser visto por curiosidade, mas não traz nenhum elemento novo que qualquer outro filme do gênero já não tenha mostrado – e, possivelmente, melhor.

Dogme XII – Italiensk for Begyndere – Italiano Para Principiantes

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Sempre achei interessante o cinema que não faz uso de grandes artimanhas para contar uma boa história. Desde os filmes menos produzidos de Hitchcock, ou os filmes noir dos anos 40 e 50, filmes-B de terror, um pouco do “cinema novo” brasileiro… até a política do Dogma 95 (achei um interessante artigo a respeito aqui), criada por um grupo de diretores dinamarqueses (os mais conhecidos desta corrente são Lars von Trier e Thomas Vinterberg). Pois eu já assisti a vários filmes interessantes frutos desta idéia, em que se preza menos os artifícios e mais a história e a naturalidade do que se está narrando. Pois agora assisti a Dogme XII ou Italiensk for Begyndere, um filme do diretor Lone Scherfig. Gostei dele, ainda que essa produção esteja “abaixo” de outras produzidas por essa corrente (como Festen ou Idiotern). Mas é um filme divertido e com boas atuações, que é o que importa.

A HISTÓRIA: Em uma pequena cidade da Dinamarca, várias histórias se cruzam. Começando pela chegada no local do padre Andreas (Anders W. Berthelsen), que está começando o ofício enquanto busca superar a recente morte de sua esposa. Enquanto o reverendo Wredmann (Bent Mejding) não deixa o local, Andreas se hospeda no hotel onde trabalha Jorgen Mortensen (Peter Gantzler), um grande admirador e amigo de Hal-Finn (Lars Kaalund), um ex-jogador de futebol que trabalha atualmente na lanchonete do estádio próximo. Jorgen e Hal-Finn frequentam classes de italiano. O curso chama a atenção de Olympia (Anette Stovelbaek), uma atendente de padaria que foi abandonada pela mãe e que vive com o pai doente (Jesper Christensen). Jorgen recebe a missão de demitir Hal-Finn, mas ao invés de fazer isso, ele recomenda que o amigo corte o cabelo. Desta maneira o ex-jogador conhece a Karen (Ann Eleonora Jorgensen), a cabelereira local que sofre com uma mãe enferma (Lene Tiemroth). Na lanchonete em que Hal-Finn trabalha, Jorgen conhece a italiana Giulia (Sara Indrio Jensen). Todos vão acabar se conhecendo e tendo as histórias interlaçadas.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que no texto à seguir conto partes importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Italiensk for Begyndere): Como se pode ter uma idéia lendo o resumo deste filme, ele trata de vidas comuns, histórias “ordinárias” mas que, por isso mesmo, são interessantes. Afinal, são as histórias comum que guardam algumas das lições mais bacanas da vida.

Em Italiensk for Begyndere, por exemplo, um dos temas mais fortes e presentes é o de “como recomeçar”, seja depois de se ter perdido nossa âncora com o mundo – como um pai, uma mãe (ou ambos) ou nosso(a) companheiro(a) -, seja ao deixar para trás uma função social que parecia nos “defenir” – como é o caso da mudança no trabalho de Jorgen ou da demissão de Hal-Finn. Pois, o que você faz quando algo assim acontece com você? Os personagens da nossa história acabam um pouco que se “agarrando” uns aos outros e, para surpresa deles mesmos, se sentem mais fortalecidos, mais protegidos, até descobrindo novas relações e amores. Gostei do filme por isso. É um bom questionamento esse da perda e o roteiro, de maneira simples e tranquila, desenvolve com naturalidade o que seria uma das respostas.

A verdade é que a vida está cheia de surpresas e que é sempre possível recomeçar. Basta a pessoa estar disposta a ser “desafiada” pelo novo, pelo desconhecido, e mergulhar… mesmo em experiências ruins se pode tirar ouro, ou quase.

As interpretações dos atores são bem bacanas, competentes. Todos tem o tom exato em seus papéis. Gostei da direção de Lone Scherfig. O diretor dinamarquês faz um trabalho muito bom.

NOTA: 8.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: O filme, do ano 2000, ganhou um impressionante número de 19 prêmios e ainda foi indicado para outros 20.

Nos Estados Unidos o filme até que foi bem… faturou em 2002 pouco mais de US$ 4,4 milhões. Na Alemanha o filme também conseguiu uma boa cifra: pouco mais de € 4,7 milhões. Na Espanha, onde estreou em 2003, faturou outros € 1 milhão. Para uma produção com baixo custo, não está nada mal.

Italiensk for Begyndere foi filmado na cidade de Hvidovre, na Dinamarca, e em Venice, na Itália.

O filme segue todos os preceitos do Dogma 95, entre eles o de não permitir a câmera sobre tripés (tudo é filmado com a câmera na mão ou sob o ombro do cinegrafista); o de utilizar apenas iluminação natural (sem os conhecidos “holofotes” de Hollywood e demais escolas “tradicionais”);

No site IMDb o filme contabiliza a nota 7,2, enquanto no Rotten Tomatoes ele registra 71 críticas positivas e 11 negativas.

CONCLUSÃO: Um filme leve, divertido, ainda que trate de temas difícieis, como a morte de pessoas queridas e a perda de emprego. Vale por fazer parte da filosofia Dogma 95 mais que pelo resultado final em si.

Trade – Desaparecidos

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O tráfico de mulheres e crianças para a prostituição é um problema grave e real, muito real. Quem vive fora do Brasil ou já viveu algum período de sua vida fora acompanha, uma vez ou outra, notícias a respeito de quadrilhas presas por esse tipo de crime. No Brasil os jornais também publicam algo a respeito, mas o destaque é menor. Afinal, no próprio país se sofre com esse tipo de crime sem ele ser, exatamente, de “exportação”. Sem contar o fato que nos países europeus, nos Estados Unidos ou Canadá o tema ganha maior “importância” porque estes locais são os “alvos” de destino de mulheres, crianças e homens que acabam sendo vendidos como antigamente se fazia com escravos. Como disse Antonio María Costa, diretor-executivo do Escritório das Nações Unidas para as Drogas e o Crime, “o tráfico de seres humanos é a escravidão dos nossos dias”. Pois justamente sobre esse tema que trata Trade, uma produção com algumas falhas mas com grande boa vontade e, porque não dizer, com grandes qualidades.

A HISTÓRIA: Adriana (Paulina Gaitan) celebra o aniversário de 13 anos com suas amigas quando chega em casa o seu irmão, Jorge (Cesar Ramos) com uma bicicleta. Para a menina, esse presente inesperado é muito mais do que ela poderia imaginar ganhar – Adriana vive com a mãe e o irmão em um bairro pobre da Cidade do México. Enquanto isso, chega no aeroporto Weronika (Alicja Bachleda-Curus), uma polonesa que comprou um pacote turístico para o México. Enquanto Jorge engana turistas que falam inglês na cidade, Adriana sai para estrear a sua bicicleta e é sequestrada por uma quadrilha que leva mulheres e crianças para os Estados Unidos para depois vendê-las através de um site. Antes de ser levada como mercadoria para fora do México, Adriana conhece a Weronika, também sequestrada pelo mesmo grupo.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que o texto a seguir conta partes importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Trade): Um ponto positivo do filme é que ele começa bem, muito bem. Afinal, o tipo de mentira que pregam em Weronika é bem verdade. Há muitas empresas por aí que vendem “pacotes turísticos” ou “visados de trabalho” e, no fundo, tudo isso é nada mais que escravidão. Digo isso porque essas mulheres que saem de países pobres com tais promessas chegam no outro país e viram escravas, normalmente da prostituição. Direto se lê matérias a respeito aqui na Espanha, por exemplo. Os países do Leste europeu e da América Latina (especialmente o Brasil) são os principais alvos destas quadrilhas para trazer as mulheres e crianças. Também foi realista – ainda que menos – o sequestro de Adriana em uma rua da periferia do México. Se sabe que muitas quadrilhas realmente sequestram crianças e jovens em locais muito podres (isso quando não “compram” as pessoas de seus pais) para depois traficá-los como mercadoria.

Os problemas do filme começam, na minha opinião, depois do sequestro de Adriana. Afinal, como o irmão dela, Jorge, tem sorte, não? Fico impressionada. Por duas vezes, pelo menos, ele tem uma sorte fantástica! Vejamos: Cidade do México é uma metrópole, uma cidade gigantesca. E ele tem a sorte do garoto que pega a bicicleta da irmã passar justamente por ele pouco depois dela ser sequestrada! Uau!! Na vida real isso seria quase impossível, convenhamos. Além disso, quando o carro que ele está usando para seguir a quadrilha enguiça sem gasolina, outra vez ele tem uma sorte fantástica… depois de correr e chegar a um pequeno vilarejo, ele descobre que perdeu o rastro do caminhão. Mas, pouco depois, ele olha para o lado e… voilà, lá está o caminhão. Outra vez impressionante. Alguém pode dizer: “Ah, mas você está pedindo demais ao exigir lógica de um roteiro de Hollywood”. Não se trata disso. Em filmes menos “sérios”, como suspenses, filmes de terror ou ação, eu já vejo a falta de lógica como um ingrediente quase básico. Mas em um drama como Trade, com o roteiro de Jose Rivera (indicado ao Oscar anteriormente pelo roteiro de Diários de Motocicleta) baseado em um artigo premiado do jornalista Peter Landesman, não aceito esse tipo de “facilidade” do roteirista… ou seja: já que é para ser realista, porque não cuidar dos detalhes? Ainda que tenha essas pequenas falhas, Trade merece ser visto, claro.

Além de tratar de um tema importante – e pouco tratado no cinema – como é o tráfico de mulheres e crianças para a prostituição, Trade é uma história interessante sobre a busca por justiça e por fazer a diferença para uma pessoa que seja. O conto dos irmãos Jorge e Adriana também torna a história forte e bonita. Interessante a busca do policial Ray Sheridan (Kevin Kline) por sua redenção pessoal. E, no final, ele descobre que pode fazer a diferença de outro modo… e, ao invés de se acomodar ou de assumir uma postura de “vamos olhar para todo o quadro”, que é a postura dos responsáveis pela lei em Nova Jersey (cidade para onde as garotas são levadas), ele resolve salvar ao menos aquela família de mexicanos que ele tem à sua frente. É um grão de areia no deserto? Pode até ser, mas mostra como um grão de areia faz toda a diferença.

Fora os pequenos deslizes, gostei do roteiro de Jose Rivera e da direção do alemão Marco Kreuzpaintner. Aliás, essa última, para mim, foi exata, como um cálculo matemático. O diretor, com apenas 30 anos, não exagerou no drama e cuidou de manter uma câmera firme, um olhar quase documentarista do que estava acontecendo – sem grandes “rebuscadas” de estilo e sem cair no fácil recurso de “dramatizar” demais as cenas, o que poderia ter sido feito com extensos closes nas vítimas e tal.

Os atores estão bem, no geral. Além dos já mencionados, destaco a atuação dos vilões: Pavel Lychnikoff como Vadim Yochenko; Zack Ward como Alex Green e, principalmente, Marco Pérez como Manuelo. Falando nesse último, só achei a parte do filme próxima da conclusão também fora da realidade. Afinal, mesmo que tivesse toda a culpa do mundo, o personagem de Manuelo na vida real jamais ajudaria a salvar Adriana, ainda mais que, naquela situação, estava claro que ele iria se ferrar – morrer ou ser preso, pelo menos. Ah, mas o maior erro (ou exagero absurdo do roteiro) na minha opinião é o lance do gatinho no carro de Ray no final. Tudo bem que Jorge conseguisse deixar o dinheiro no carro, depois da operação policial, mas daí a conseguir um gato é um pouco demais. Totalmente absurdo e desnecessário – não fazia falta um gatinho na história, né?

NOTA: 9.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: A história de Trade é baseada no artigo do jornalista Peter Landesman publicado no dia 25 de janeiro de 2004 no jornal New York Times Magazine. Em seu texto, Landesman trata da escravidão sexual de mulheres e crianças, denunciando a chegada de mexicanos para os Estados Unidos.

Entre as interpretações, destaco o grande trabalho de Alicja Bachleda-Curus, Paulina Gaitan e Cesar Ramos. Os três estão realmente perfeitos. Kevin Kline merece elogios por ter se envolvido no projeto – querendo ou não, por ser um nome mais conhecido, ele atrai público e interesse para o filme, o que é muito positivo.

Trade ganhou dois prêmios no Festival de Berlin: um especial, chamado Bernhard Wicki para o diretor Marco Kreuzpaintner e outro, chamado CineMerit, para o ator Kevin Kline.

A nota 9 para o filme se deve mais ao tema proposto, às interpretações e à direção do que ao roteiro em si. O roteiro é bom, quero deixar registrado, mas os “erros” que eu comentei antes acabam dando uma nota menor para o filme. No site IMDb Trade leva a nota 7,6. No Rotten Tomatoes o filme registra 13 críticas positivas e 39 negativas – os críticos, realmente, não gostaram da produção.

Gostei de dois dos cartazes do filme. Especialmente do que traz um código de barras sobre o corpo de uma menina. Mas já os cartazes dos personagens principais são bem ruinzinhos…

Admiro o ator Kevin Kline há bastante tempo já, mas ele ganhou vários pontos positivos com Trade. Não apenas por entrar no projeto – que não é nenhuma superprodução – mas também, e principalmente, por se envolver na divulgação do filme e do seu tema. Ele inclusive foi na ONU falar sobre o tema. Bacana.

Trade teria custado aproximadamente US$ 12 milhões e faturou, em três semanas nos Estados Unidos pouco mais de US$ 214 mil… ou seja: está indo muito mal na bilheteria. Talvez pelo relativamente baixo número de cópias nos cinemas: o filme estrou com 90 cópias no dia 30 de setembro e foi diminuindo para 33, 5 e 1 (!!) cópias até o dia 21 de outubro. Assim fica difícil faturar, ou não?

O filme é uma co-produção dos Estados Unidos com a Alemanha.

CONCLUSÃO: Um importante filme sobre o tráfico de mulheres e crianças para a exploração sexual. Tem várias falhas e exageros no roteiro, mas vale por mostrar parte da realidade das vítimas e dos algozes desta exploração moderna de pessoas. Vale ser visto.

Rendition – O Suspeito

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Digam o que disserem a respeito de Hollywood, mas algo que eles tem de vantagem em relação a maioria das produções cinematográficas espalhadas pelo mundo – inclusive a brasileira – é a coragem de seus melhores roteiristas e diretores em falar de temas da atualidade. E temas delicados. No Brasil, por exemplo, alguém tem coragem de falar da corrupção política em um bom filme? Ou sobre a falta de distinção entre as lideranças de direita e de esquerda? Não, ninguém fala a respeito. E isso porque estou citando apenas dois temas atuais. Ok que Tropa de Elite é uma exceção, porque trata da violência no Rio, sobre corrupção policial e narcotráfico. Mas no demais, no Brasil parece que se vive em uma “censura” permanente, em uma ditadura que não terminou. Enquanto isso, nos Estados Unidos, se faz muito filme ruim e/ou de entretenimento apenas, é verdade. Mas também se produz filmes maravilhosos, alguns que são apenas entretenimento e outros que são um bocado filosóficos, mas existem outros que mexem em verdadeiros vespeiros. Rendition é um destes últimos. Ele não vai muito fundo no debate, eu admito. Mas ele conta uma história que incomoda, ainda que não seja baseada em fatos reais – mas que poderia ser. Parte do que se vê, afinal, é verdade.

A HISTÓRIA: O filme começa com a saída de Anwar El-Ibrahimi (o egípcio Omar Metwally) de um hotel no Sul da África. Pouco antes de entrar no carro, ele recebe uma chamada no celular. Sem saber quem lhe ligou, ele faz uma chamada para sua mulher, Isabella Fields El-Ibrahimi (Reese Witherspoon), que está na casa deles, em Chicago, brincando com o filho de seis anos, Jeremy (Aramis Knight). Em seguida, acompanhamos um dia normal na vida do agente da CIA Douglas Freeman (Jake Gyllenhaal) no Norte da África. Ele sai de casa para ir ao trabalho junto ao seu chefe imediato, William Dixon (David Fabrizio) mas, no caminho, eles presenciam um ataque terrorista na praça central da cidade. Com a morte de Dixon, Freeman assume o seu lugar e conhece o lado “obscuro” das investigações do governo norte-americano. Sob a ordem da senadora Corrine Whitman (Meryl Streep), Anwar é preso ao desembarcar nos Estados Unidos por ser suspeito de ter envolvimento com terroristas. Ele é torturado continuamente enquanto sua mulher viaja a Washington atrás de respostas.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que parte do texto à seguir conta partes importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Rendition): Mais uma vez tentei narrar o menos possível sobre o filme no resumo para não estragar surpresas. O que eu gostei nele, para começar, foi a incerteza que ele nos deixa sobre o envolvimento de Anwar no ataque terrorista. A dúvida persiste quase até o final – ainda que, no fundo, como acontece com o personagem de Douglas Freeman, nos parece que tudo que ele confessar nas condições em que está será para terminar com a tortura e com a dor pela qual está sendo submetido. Mas o roteirista Kelley Sane não se faz de rogado e nos deixa na dúvida até perto do desfecho.

Falando no roteiro, realmente acho que ele poderia receber uma indicação ao Oscar. Especialmente pela “jogada” de mestre de Sane em contar duas histórias aparentemente simultâneas mas que, depois descobrimos, não são simultâneas. (REALMENTE SÓ LEIA SE JÁ ASSISTIU AO FILME). Aliás, tenho certeza que algumas pessoas não vão entender isso muito bem e ficarão em dúvida. Mas eu vi o filme inteiro e, depois, revi algumas partes e, realmente, o roteirista não deixou nenhum ponto sem nó. Parece que as histórias da prisão e interrogatório de Anwar, assim como da investigação de Douglas Freeman e de Abasi Fawal (o ótimo Yigal Naor) sobre o ataque terrorista são simultâneas à história de amor entre Fatima Fawal (Zineb Oukach) e Khalid (Moa Khouas), mas não são. A esperança que se mantêm até o final de que a investigação poderá impedir um novo ataque terrorista – que é o que parece indicar a trajetória de Khalid – termina quando descobrimos a verdadeira história do ataque à praça da cidade. Descobrimos, então, que a história de Khalid e Fatima são anteriores ao restante da narrativa e, na verdade, são a explicação para tudo o que aconteceu. Bem interessante o trabalho do roteirista nesse sentido.

O filme me pareceu muito interessante por questionar a política dos Estados Unidos adotada depois dos ataques ao World Trade Center em 11 de setembro de 2001. A partir daí, realmente, o governo norte-americano adotou uma postura que possibilita que absurdos como o visto no filme possam acontecer. Claro, como diz a senadora Corrine Whitman no filme, foi através de tortura e prisão arbitrária que eles conseguiram “salvar 7 mil vidas em Londres” (se referindo ao ataque terrorista na cidade que não deu certo), mas e todas as injustiças que foram praticadas em nome dessa segurança? E a morte sumária e injusta do brasileiro Jean Charles na mesma Londres? Eu aposto meus poucos euros que tenho no bolso como muitos e muitos descendentes de árabes que vivem nos Estados Unidos há muito tempo, como Anwar, passaram por situações como a que vemos no filme, sendo torturados e/ou afastados de sua família apenas por suas origens.

Ok, alguém pode dizer que no caso de Anwar ele tinha recebido ligações no celular do homem que havia assumido o ataque terrorista. A verdade é que ele estava recebendo chamadas de um número desconhecido – quantos de nós já não recebemos chamadas assim? – e que isso, convenhamos, não é prova e nem justificativa para ele passar pelo que passou. Além do mais, o que me deixa admirada, é que ele estava fazendo negócios no Sul da África quando o ataque terrorista no Norte do país foi praticado. O simples fato dele estar no mesmo país e de ser egípcio lhe torna terrorista? Os Estados Unidos realmente estão muito equivocados.

Gostei da direção do sul-africano Gavin Hood. Acho que ele realmente mantêm o tom exato de ação e de drama, sem pender demais para um lado ou para outro. O filme tem bom ritmo e algumas sequências muito boas, com um cuidado técnico importante. Gostei especialmente do momento em que o personagem de Douglas Freeman questiona Abasi sobre a eficácia da tortura e pergunta se ele pode provar que cada pessoa que passa por experiência semelhante não alimenta 10, 100 ou mil novos inimigos para o seu governo. É a pura verdade. Ainda que nada justifique a violência, na minha opinião, mas se pode entender alguns atos extremistas quando se vê o abuso da outra parte.

Os atores estão bem, no geral, mas sem nenhum grande destaque. Meryl Streep faz quase uma participação especial no filme – seu papel é muito pequeno, realmente -, assim como Alan Arkin como o Senador Hawkins. O ator Peter Sarsgaard tem um papel um pouco maior como Alan Smith, o amigo desde o tempo da universidade de Isabella que tenta ajudá-la a saber sobre o seu marido.

NOTA: 8,5.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: A nota que dei para Rendition tem mais a ver com a coragem de tocar nessa ferida que é o tema da política norte-americana pós-11 de Setembro do que pelo desempenho do elenco ou outro fator. Também gostei muito do roteiro, o que lhe rende a nota comentada.

No site IMDb o filme recebeu a nota 6,5 – achei baixa, muito baixa. Pelo Rotten Tomatoes ele recebeu 73 críticas negativas e 61 positivas. Realmente o filme parece não ter agradado nem a crítica e nem o público.

Quanto a bilheteria, o filme teve um desempenho razoável… conseguiu pouco mais de US$ 9,2 milhões em duas semanas nos cinemas dos Estados Unidos.

Para quem gosta de saber das locações dos filmes (como eu), Rendition foi filmado em Los Angeles e em Anaheim, ambos na Califórnia; em Washington; em Cape Town, no Sul da África e em Marrakech, nos Marrocos.

O filme criou um burburinho na imprensa não por seu roteiro ou qualquer outro carácter técnico, mas por um suposto romance que teria sido originado em seus bastidores entre os atores Jake Gyllenhaal e Reese Witherspoon. Detalhe: os dois não contracenam em nenhum momento no filme. Ainda assim, segundo a imprensa, eles teriam começado um romance e terminado com ele pouco depois.

Achei curioso um fato. Buscando informação sobre o roteirista, vi que o último trabalho dele foi há 10 anos atrás, quando escreveu o roteiro e dirigiu o filme Franchesca Page, cotado com a péssima nota 3,6 no site IMDb.

O filme é uma co-produção dos Estados Unidos e da África do Sul.

PALPITE PARA O OSCAR: Pode ser indicado na categoria de roteiro ou em alguma outra técnica, mas não deve ganhar nada.

CONCLUSÃO: Um filme interessante por questionar a política estadunidense de prender sumariamente a suspeitos de terrorismo ou de ter alguma ligação com atividades terroristas. Bom roteiro, interpretações medianas, direção competente. Vale dar uma conferida.

A Guide to Recognizing Your Saints – Santos e Demônios

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Tem alguns filmes que apresentam uma intensidade que só um fator pode explicá-los: quem conta a história tem conhecimento total de causa. A Guide to Recognizing Your Saints é um destes filmes. Só o nome original já tinha me chamado a atenção faz tempo (algo como “Um Guia para Reconhecer seus Santos”). Na versão brasileira o filme ganhou o nome de Santos e Demônios – nem preciso dizer que prefiro o original, né? Mas ok, eu sempre discordando dos títulos adaptados… hehehehehehe. Mas como eu ia dizendo, o filme só apresenta a força que apresenta porque é dirigido por Dito Montiel, o mesmo homem que escreveu o livro homônimo e que, como já era de se esperar, viveu tudo o que narra na tela. Gostei demais. Tanto que lá vou eu quebrar pela segunda vez a hegemonia de American Gangster… hehehehehehe

A HISTÓRIA: O filme começa com Flori (Dianne Wiest), mãe do escritor Dito (Robert Downey Jr.), ligando para ele para avisar que seu pai, Monty (Chazz Palminteri) está muito doente e precisa ser hospitalizado. Em seguida, vemos a Dito sendo recebido com admiração em uma noite na Califórnia. Pouco depois, a história volta para o bairro do Queens, em Nova York, em 1986, quando somos apresentados ao Dito jovem (Shia LaBeouf). A partir daí, o filme conta a história de Dito e de seus amigos em uma cidade que já vivia a violência, o racismo, a falta de trabalho e as drogas nos anos 80, e de como ele lidou com tudo isso e o que fez de sua vida quase 20 anos depois, quando volta para o local.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que parte do texto a seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu A Guide to Recognizing Your Saints): Tentei falar o menos possível do filme no resumo porque eu acho que ele realmente vale a pena ser visto e, como a maioria dos filmes do gênero, quanto menos se sabe antes, melhor.

Desde o princípio eu fiquei impressionada com a técnica do diretor e roteirista, Dito Montiel. Realmente ele tem talento. E o melhor é que o filme só vai melhorando. O começo, em que aparece Robert Downey Jr. fumando e lendo parte de seu livro, é brilhante. Assim como a narrativa da vida do garoto em 1986, quando o ator Shia LaBeouf fala para a câmera que ele vai abandonar a todos que aparecem no filme. O roteiro realmente é muito bom. Gostei tanto das intercaladas da “história real” do Queens anos 80, contando a vida de Dito, até a “revisão”, por assim dizer, desta história com ele adulto. Além disso, a técnica de utilizar uma ou outra vez o ator falando diretamente com a câmera ficou bem interessante. Diferente de outros filmes, esse recurso ficou perfeitamente casado com a história e não pareceu forçado. O mesmo com o uso das músicas… há pelo menos dois momentos chaves da história em que ela conta o sentimento do narrador e adianta o que vai acontecer ou, em outro sentido, une os vários personagens em uma mesma “aura”.

Fiquei impressionada também com o elenco. Não há, realmente, um ator ou atriz que destoem ou que esteja mal. Todos estão muito naturais em seus papéis – algo que parece mais “fácil” quando se tem talento mas, mais que isso, quando o roteiro é realmente verossímel – e imprimem uma força muito interessante ao filme. Além de Robert Downey Jr. (para mim em uma das grandes interpretações da sua carreira) e do garoto Shia LaBeouf, destaco Melonie Diaz, a garota que interpreta a jovem Laurie, paixão de juventude de Dito; Channing Tatum como o jovem Antonio (esse garoto realmente tem um estilo bem interessante de interpretar e faz um bom trabalho em um papel difícil); Chazz Palminteri como Monty, o pai de Dito (o ator está simplesmente fantástico); Dianne Wiest como Flori, mãe de Dito (também em uma interpretação primorosa e comovente); e Rosario Dawson como Laurie (ela tem a sorte de ter algumas das melhores falas do filme). Esses são apenas os que mais me chamaram a atenção, mas ainda vale citar o bom trabalho de Julia Garro como Diane, Adam Scarimbolo como Giuseppe, Peter Anthony Tambakis como o jovem Nerf, Scott Michael Campbell como Nerf adulto e Eric Roberts como Antonio adulto.

O mais interessante do filme é que ele trata de muitos temas. Mas talvez os mais fortes sejam a amizade, o amor entre pais e filhos – e os problemas que derivam deste amor quando a comunicação é impossível de fluir entre as pessoas -, a busca por uma vida melhor, os laços que nos unem às pessoas, a culpa, o sentimento de pertencer a um lugar ou a um grupo, só para citar alguns. O filme realmente me tocou por dois pontos: a relação de Dito com o pai e a sua dúvida em sair de casa para buscar algo melhor e deixar as pessoas que lhe configuravam como indivíduo para trás.

No caso de Dito e o pai, acho muito interessante como a história mostra a falta de comunicação entre eles. É como se cada um falasse um idioma diferente. Monty está sempre dizendo o que sente sem que Dito lhe escute e Dito está sempre dizendo ao pai o que deseja, anseia e sente sem que Monty lhe escute. O que acontece com eles é quase asfixiante e tão real. Se isso não acontece entre um pai e um filho ou filha, pode acontecer entre uma mãe e um filho ou filha ou entre um marido e uma mulher… enfim. Mas acontece.

O outro tema, do quanto Dito se sente dividido e, no futuro, culpado por escolher o caminho de sair de perto das pessoas de quem gosta e se preocupa também é muito forte. Afinal, o que nos faz sermos o que somos? Muitas coisas, é claro. Mas algo muito forte são os laços de amizade e amor que construímos quando somos jovens, seja com família ou com amigos. E abandonar tudo isso para buscar uma vida melhor ou uma vida fora da loucura que achamos que nos rodeia é muito difícil. Dito teve essa coragem mas, ao rever a sua história com esse filme, ele se culpa muitíssimo. Não concordo com ele de que ele abandonou a todos e que ninguém o abandonou. Com seu livro (que ainda não li, mas pretendo) e seu filme, ele comprova que nunca abandonou a ninguém.

NOTA: 10.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Se o mundo fosse um lugar justo, A Guide to Recognizing Your Saints seria indicado ao Oscar. E a mais de um. Mereceria indicações para roteiro, pelo menos, e para Robert Downey Jr. Quem sabe até para Chazz Palminteri como coadjuvante. Mas isso se o mundo fosse justo. Como o filme não tem nenhum grande estúdio para fazer o seu lobby, acho mais provável que não seja indicado a nada – talvez a roteiro, apenas, e isso se ainda pode ser indicado.

No site IMDb o filme contabiliza a nota 7. Por outro lado, no site Rotten Tomatoes, ele registra 63 críticas positivas e 22 negativas. Está comprovado que é o tipo de filme que agrada mais os críticos que o público. Uma pena, porque isso pode ser entendido como algo ruim – só que, nesse caso, os críticos estão mais certos que o grande público. Aliás, acho que várias vezes isso é verdade.

Nas bilheterias o fime teve um desempenho muito ruim. Arrecadou nos Estados Unidos pouco mais de US$ 516 mil – algo justificado também pelo baixo número de cópias distribuídas do filme: 8 na primeira semana, do dia 1 de outubro de 2006, chegando ao máximo de 60 nas últimas duas semanas daquele mês. Realmente, com esse número de cópias e com uma divulgação baixíssima, não tem como esperar que ele fosse bem de bilheteria. Uma pena, porque é um filme que merece ser visto.

Independente do Oscar, o filme já ganhou o reconhecimento de prêmios importantes. No Festival de Sundance (um dos que mais admiro e que realmente premia filmes muito bons e independentes) ele levou o prêmio de melhor direção de drama para Dito Montiel e levou ainda um prêmio especial do júri para o seu elenco. No Festival de Veneza o filme arrebatou dois prêmios para Dito Montiel. O elenco também recebeu o prêmio máximo do Festival de Gijón, na Espanha.

Uma dica: veja o filme até depois dos créditos finais. Há um trecho de um depoimento do pai de Dito no final. Falando no diretor, que tem 37 anos, ele já está trabalhando em um novo projeto: Fighting. Outra vez ele contará para nós uma “história das ruas”.

CONCLUSÃO: Filme sensível, bem dirigido e com um elenco afinadíssimo que conta a história real de um grupo de jovens e seu entorno no Queens de Nova York nos anos 80. O diretor e roteirista acerta no tom dramático e nos conta uma bonita história de redenção pessoal e de reencontro com a sua identidade.