Truman

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O nosso coração sempre sabe de quem gostar, em quem confiar. Pelo menos quando falamos de amizade e de relações a longo prazo. Truman fala sobre amor, amizade, reencontros e decisões que não são fáceis de encarar. Um filme sensível, singelo, despretensioso e com dois dos maiores atores do cinema em língua espanhola dos últimos tempos como protagonistas e fazendo um dueto incrível. Procure não saber muito do filme antes de assisti-lo. Só assim vais aproveitar ao máximo tudo o que os realizadores de Truman prepararam pelo caminho.

A HISTÓRIA: Uma rua de um bairro residencial com casas cobertas de neve. Chega um táxi. Dentro da casa, Tomás (Javier Cámara) toma uma bebida quente, confere que as crianças estão dormindo e vai até a cama dar um beijo na mulher. Depois, ele termina de se arrumar para encarar o frio novamente. Desta vez, ele se prepara para viajar. Com atenção, contempla no caminho as paisagens cheias de neve e geladas. Com o passaporte espanhol na mão, Tomás voa para o seu país de origem. Em Madri, ele fica hospedado em um hotel, muito próximo da casa de Julián (Ricardo Darín), motivo de sua viagem de retorno, de reencontros e de novas descobertas.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Truman): Caros leitores, realmente só leiam este texto depois de terem assistido ao filme. Repito isso pela enésima vez e sendo até chata porque, sem dúvida, uma das forças de Truman é o roteiro fantástico escrito por Cesc Gay e Tomàs Aragay. E o texto deles só tem o impacto desejado se a história for descoberta assistindo ao filme e não antes.

Dito isso, impossível não comentar: que filme é esse, minha gente? Estrelado por dois atores magistrais, fantásticos, que repassam para quem vê esta produção a emoção adequada do primeiro até o último minuto. Não há excessos em Truman. O roteiro de Gay e Aragay é justo em cada palavra e em cada silêncio, e Cámara e Darín são soberbos ao viver as emoções de seus personagens em cada momento, especialmente nos olhares e momentos de silêncio.

Vou admitir, logo aqui no início, que chorei um bocado neste filme. Pelo menos em dois momentos as lágrimas caíram sem vergonha. Na verdade, acho difícil alguém assistir a Truman e não se emocionar, inclusive chorando em um ou mais momentos. Mas sei também que cada um vivencia o cinema e as suas histórias de uma maneira, é claro. Isso sempre foi assim e sempre será. Possivelmente esse filme faça pessoas que já tem uma certa trajetória de vida entender na plenitude o que Gay e Aragay quiseram dizer. Imagino eu adolescente assistindo a Truman e não tendo a mesma leitura que a Alessandra de agora, possivelmente com metade da vida já vivida e tendo presenciado tantas histórias de dores e mortes pelo caminho.

Porque este filme tem muito a ver com a passagem do tempo, com uma vida bem vivida e com o enfrentamento do fim inevitável. E tudo isso fica mais claro conforme vivemos, presenciamos despedidas e encaramos a nossa própria fragilidade. Mas Truman não é apenas isso, mas uma reflexão comovente sobre as relações que realmente são importantes e sobre a aceitação dos limites que cada um de nós tem.

No início desta produção, cheguei a me perguntar sobre a natureza da relação entre os protagonistas, entre Tomás e Julián. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Naquele primeiro contato entre eles, os segundos em que ficaram se olhando e não falaram nada, mil sentimentos passaram na nossa frente. Tomás poderia ter tido uma relação amorosa com Julián e depois ter casado e tido filhos? Mas não demora muito para essa possibilidade desvanecer e ficar claro que eles são apenas grandes amigos. Ou melhor, são um o melhor amigo do outro.

Pouco a pouco o roteiro também vai deixando claro a razão da viagem de Tomás. Ele voltou para Madri para tentar convencer o amigo a não desistir da vida. Depois que eles se encontram, Julián primeiro vai consultar o veterinário (Alex Brendemühl) que cuida de Truman para saber como ele pode ajudar o cão a ter uma adaptação melhor sem ele. Na sequência, todas as dúvidas são respondidas quando Julián vai em mais uma consulta com o seu médico (Pedro Casablanc). Depois de batalhar bastante contra um câncer agressivo, agora a doença retornou com mais força e ele está cansado.

Quando Tomás viaja para visitar o amigo, ele ainda tem a esperança de que Julián pode mudar de ideia. Que ele pode decidir por continuar lutando contra a doença. Mas Julián é muito claro, ao falar com o médico, de que ele está cansado e que quer viver o resto do tempo que ele tem com dignidade e não definhando em uma cama de hospital. Tomás é sutil nas tentativas, como quando ele vai com o amigo para uma livraria. Só que nada surte efeito porque Julián está tranquilo, em paz com a decisão que tomou.

Como tantas pessoas que já viveram um bocado de tempo, ele está tranquilo com o que fez da própria vida e tem por estilo não ter muitas “papas na língua”. Há vários exemplos dele sendo sincero com diversas pessoas no filme, em uma espécie de acerto de contas com todos que encontra. Ainda que ele tenha muita coragem, algo inerente para quem enfrenta algo tão duro quanto o fim da própria vida, ele é humano e também tem momentos de “covardia”. Como quando não consegue contar para o filho exatamente o que está passando.

Uma das belezas de Truman é que este filme é humano, demasiadamente humano. Por isso mesmo ele trata da vida e da morte, e de boa parte dos frutos destas duas realidades, como os afetos, os amores, o perdão, a raiva, a compreensão e a incompreensão. Tomás viaja sabendo que possivelmente esta será a última vez em que ele verá o seu grande amigo. Pensa que talvez consiga fazer alguma diferença, mas logo aceita que não e que o melhor é realmente respeitar a vontade de Julián. Isso é amor. Você respeitar a vontade da pessoa que você ama, mesmo não concordando com ela.

Julián, por sua vez, vive altos e baixos. Ao mesmo tempo que está seguro e sereno sobre a decisão que tomou e parece ter coragem de enfrentar o que virá, em alguns momentos ele revela fragilidade, insegurança e carência. Todos sentimentos previsíveis de quem está encarando o próprio fim. Altruísta, ele está preocupado com Truman, o seu grande companheiro de muitos anos. Quem já teve um cão ou outro animal de estimação com quem compartilhou vários anos de sua vida vai, com certeza, entender a preocupação pela que passa Julián.

Para mim, as peripécias de Julián para encontrar a “pessoa certa” para ficar com Truman revela todo o amor e sensibilidade do personagem. Não é porque ele vai morrer que ele deve entregar o seu “companheirão” para qualquer pessoa ou deixá-lo em qualquer lugar. Tomás acompanha o amigo em cada passo e é doloroso fazer isso. Mas, ao mesmo tempo, ele também acaba aceitando melhor a situação que está se apresentando. Os dois amigos, na verdade, estão em processo de aceitação. A despedida derradeira nunca é fácil, apesar disso.

Vale destacar também a diferença entre Tomás e Paula (Dolores Fonzi). Ela é a pessoa mais próxima de Julián e, por ser de sua família, não consegue aceitar que ele vai embora para sempre. Normalmente os familiares tem esse problema de aceitação. Eles querem que a pessoa lute e brigue até o final, e fica difícil aceitar qualquer outra alternativa. Para um amigo também não é fácil, não estou dizendo isso.

Mas o interessante é que Tomás e Paula encarnam duas personalidades diferentes e bem comuns em situações assim. Ele aceita a decisão do amigo, mesmo lhe doendo muito. Ela não, porque gostaria que ele lutasse até o final. Honestamente, entendo e consigo me colocar no lugar dos dois. Isso não é fácil, qualquer espectador mais sensível sente a dor de cada um dos personagens, porque esta história é de alta empatia. Mas apesar de toda a força de Paula, no fim, e isso Truman nos mostra muito bem, cada um sabe onde lhe aperta o calo. Cada um sabe as alegrias e as dores por que passou como ninguém mais.

Então, até podemos argumentar, torcer mas, no fim das contas, cada um deveria saber a forma com que quer viver e acabar a própria trajetória. Aceitar nem sempre é fácil, mas obrigatoriamente fará parte do processo. Quanto antes conseguimos sair do campo do que queremos e passamos para o campo de aceitar, entender e respeitar o desejo de quem amamos, melhor. Por mais que a situação seja difícil e definitiva. Porque, no fim das contas, o que realmente fica e vale é o que vivemos juntos, o que demonstramos e como passamos o nosso tempo. Truman fala disso tudo com muita sinceridade e interpretações maravilhosas. Não é preciso nada mais.

NOTA: 10.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Sou uma apaixonada por filmes que nos fazem imergir em uma realidade, em uma história, especialmente quando o foco desta narrativa são pessoas e suas relações e sentimentos. Para mim, estes são filmes “humanistas”, porque tratam de pessoas e da própria humanidade. São, justamente, os que eu mais aprecio. Truman é um grande exemplar deste tipo de filme.

Além de dois atores soberbos, Truman tem um roteiro exemplar. O diretor Cesc Gay escreveu Truman junto com Tomàs Aragay e fez desta união um grande trabalho. Truman tem momentos de pura emoção e vários trechos de humor na medida – afinal a vida, mesmo perto da tragédia, não deixa de ser cômica. Como este filme trata de vida e de morte, não tinha como ele ignorar o drama e a comédia, a base de qualquer grande obra.

Enquanto a história se desenvolve, Julián vai prestando contas e fazendo tudo que ele acha necessário fazer antes de partir. Curioso que nós deveríamos fazer isso mais vezes também. Afinal, nunca sabemos quando será a nossa vez. Julián teve a “sorte” de fazer o que queria antes de partir porque sabia que a “sua hora” estava chegando. Mas e todas aquelas pessoas que partem repentinamente e que não podem fazer o mesmo? Seja mortas por acidente, crime ou por um ataque cardíaco fulminante? Ninguém está livre disso e, por mais que não gostemos de pensar na nossa mortalidade com muita frequência, deveríamos agir mais vezes como se “não tivéssemos amanhã”. Seria mais fácil encarar o fim quando ele realmente aparecesse.

Outro elemento que faz Truman entrar na minha lista de grandes filmes é que ele se passa em Madri. Como vocês sabem, o cinema é uma ótima forma de viajarmos no tempo e no espaço e a visitar e/ou revisitar lugares que não conhecemos ou aqueles que amamos e que não podemos vivenciar tanto quanto gostaríamos. Como eu vivi em Madri por três anos e voltei algumas vezes para lá desde então, sempre é um prazer ver a cidade na telona. Meu coração bateu forte ao ver o Café de Belén logo no início, um dos pontos queridos de quem vive naquela cidade.

Sou fã de carteirinha de Ricardo Darín (e quem não é?) e de Javier Cámara. Aqui eles fazem mais uma grande entrega. Palmas para Cesc Gay que conseguiu reunir estes dois monstros em uma mesma produção. Além deles e dos atores já citados, com destaque especial para Dolores Fonzi, que faz um grande trabalho também, vale comentar a atuação de outros atores muito bons em papéis secundários. Para começar, destaco Eduard Fernández, um competente ator espanhol, que faz uma ponta como Luis, amigo de Julián que foi traído por ele e com o qual ele se encontra em um restaurante; Oriol Pla como Nico, filho de Julián; José Luis Gómez, outro veterano ator espanhol, como o produtor de teatro que acaba dispensando Julián da peça que ele estava fazendo; Javier Gutiérrez como o assessor da funerária; Elvira Mínguez como Gloria, ex-mulher de Julián e mãe de Nico; e Lucie Desclozeaux como Sophie, namorada de Nico. Ah sim, e o cão que “interpreta” Truman se chama Troilo. 😉

O roteiro de Truman é, junto com a dupla de protagonistas, o ponto forte do filme. Assim como a direção de Cesc Gay que está sempre cuidando da câmara estar perto dos atores e enfocando as suas emoções, expressões e reações. Além disso, o diretor não se esquece de mostrar o ambiente e a atmosfera em que estas pessoas se movem e onde elas vivem. Elementos fundamentais quando estamos contando uma história de vida.

Da parte técnica do filme, além da direção e do roteiro, vale destacar a direção de fotografia de Andreu Rebés e a edição de Pablo Barbieri Carrera. Também funcionam bem o design de produção de Irene Montcada, a direção de arte de Jorien Sont e os figurinos de Anna Güell. A trilha sonora de Nico Cota e Toti Soler é pouco presente, mas é boa e casa bem com a história.

Truman estreou em setembro de 2015 no Festival Internacional de Cinema de Toronto. Depois, ele participou de outros oito festivais pelo mundo. Nesta trajetória o filme colecionou 26 prêmios e foi indicado a outros 21. Uma bela coleção – e merecida, diga-se. Entre os prêmios que recebeu, destaque para as seis categorias que abocanhou no Prêmio Gaudí, o principal do cinema catalão; para cinco estatuetas que recebeu no Prêmio Goya, o mais importante da Espanha; e para o SIGNIS Award – Special Mention no Festival Internacional de Cinema de Hong Kong.

Agora, uma curiosidade sobre o filme: depois da estreia de Truman nos cinemas, o diretor Cesc Gay informou a imprensa que Troilo, o cão que dá vida a Truman no filme, morreu de causas naturais alguns meses depois das filmagens terem terminado. Em alguns eventos com tapete vermelho para divulgação do filme nos quais o ator Ricardo Darín participou ele levou uma das filhas de Troilo na apresentação da produção.

Os usuários do site IMDb deram a nota 7,3 para esta produção. Uma boa avaliação se levarmos em conta o padrão do site. Os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 22 textos positivos para a produção. E isso é tudo. Este é um raro, muito raro exemplo de um filme que conseguiu 100% de aprovação dos críticos que deram a nota média de 7,7 para a produção. Tenho que admitir que estou com os críticos. Acho que isso ficou evidente com a nota acima, não é mesmo? Acho esse filme perfeito, simplesmente.

Truman é uma coprodução da Espanha com a Argentina. Ele teria custado cerca de 3,8 milhões de euros. Para comparação, Batman vs Superman: Dawn of Justice teria custado US$ 250 milhões. Não assisti ao filme, antes que alguém me questione, e francamente nem tenho a intenção de fazer isso. Não porque não gosto de filme de super-heróis ou baseados em HQ. Mas ouvi muitos comentários negativos dele e, francamente, não tenho tempo para perder com produções ruins. Além disso, desconfio que ele nem roce na humanidade deste Truman. E, volto a dizer, é deste tipo de filme que me interessa.

CONCLUSÃO: Para ser grande não é preciso ter ambições muito altas. Truman é um exemplo de que uma história aparentemente simples pode ter grande profundidade e emocionar por tudo aquilo que nos apresenta e também por tudo aquilo que nos faz resgatar de nós mesmos. Um filme exemplar na história e na forma com que ela é narrada, dando evidência para o trabalho excepcional de dois intérpretes gigantes. Vale mais que 10 filmes medianos de heróis em quadrinhos e sem metade do dinheiro gasto por um deles. Porque bom cinema não precisa de pirotecnia, ele precisa nos contar uma história convincente e, preferencialmente, envolvente e com empatia. Este é um belo exemplar deste tipo. Tendo a possibilidade de assistir a esta produção, não a desperdice.

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The Lady in the Van – A Senhora da Van

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Não importa o país em que você viva ou em que esteja de passagem. Sempre será possível encontrar alguém que more na rua e/ou que não tenha um endereço fixo. Algumas vezes isso acontece por pura fragilidade social, por falta de recursos financeiros para a pessoa ter uma residência própria ou compartilhada. Outras tantas vezes as razões passam por desentendimentos familiares, problemas mentais ou incapacidade de viver em um único local. Os motivos são variados. The Lady in the Van conta uma destas histórias. De quebra, o filme fala sobre como a sociedade vê pessoas com este perfil, e como não é difícil dar-lhes um pouco de oportunidade e de dignidade.

A HISTÓRIA: Um grito e o som de uma batida. Uma van anda veloz em uma estrada do interior enquanto um carro de polícia a persegue. No volante da van, Miss Shepherd (Maggie Smith), que olha assustada para o vidro da frente da van partido e com sangue. O policial Underwood (Jim Broadbent) vê quando ela tenta escapar dele. Corta. Cenas de um concerto. Corta. O escritor Alan Bennett (Alex Jennings) escreve sobre Miss Shepherd que, por bondade dele, vive na garagem de sua casa na velha van cheia de sacolas. Ela está ali há cinco anos. Mas voltamos no tempo, quando Bennett, em 1970, escolhe a casa em Camden Town, bairro de Londres, para viver. É em uma igreja próxima da residência que ele vai conhecer Miss Shepherd e, a partir dali, eles vão desenvolver uma relação duradoura.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só leia quem já assistiu a The Lady in the Van): A minha maior motivação para assistir a este filme foi, sem dúvida alguma, a atriz Maggie Smith. Ela é uma das grandes atrizes da Inglaterra e um dos destaques da série de TV Downton Abbey, entre outros filmes e peças de teatro. Gosto muito do estilo dela e, claro, sempre é bom ver a um filme inglês. O humor deles é único.

Só depois de começar a assistir ao filme é que soube do que se tratava. The Lady in the Van é ao mesmo tempo um mergulho na história de uma homeless (pessoas sem uma residência) e uma apreciação detalhista do trabalho e da vida de um escritor, o inglês Alan Bennett. Certamente o filme tem uma graça bem diferente para quem conhece a obra de Bennett. Como não é o meu caso, achei esta produção apenas razoável. E explico o porquê na sequência.

Sempre que vejo um filme, quando ele não me “golpeia” completamente do início ao fim, me pergunto se ele poderia ser mais curto. Francamente, a primeira leitura que tive de The Lady in the Van, e isso enquanto eu assisti ao filme, é que ele poderia perfeitamente ser um curta. Talvez uma produção com 50 minutos de duração. Não era necessário quase duas horas de filme para contar a história de um escritor e a sua relação generosa e de pesquisa com uma senhora que vive em uma van.

Maggie Smith está ótima, não há o que contestar. Mas a história acaba sendo um tanto repetitiva, muitas vezes “derrapando” em basicamente as mesmas linhas – como as vezes em que Miss Shepherd viajou para aproveitar a brisa do mar e visitar o irmão Leo (David Calder) sorrateiramente. Uma sequência mostrando aquele tipo de viagem já seria suficiente, não? Também há muitas cenas que significam quase o mesmo envolvendo a mãe (Gwen Taylor) do escritor. Claro, para quem gosta da obra de Bennett, certamente estes detalhes são importantes e fazem sentido. Para mim, pareceram totalmente passíveis de cortes.

Boa parte do filme se justifica mostrando os personagens complementares da história, especialmente os vizinhos de Camden Town. Neste sentido também o filme pode interessar para quem viveu naquele bairro ou para quem se interessa por aquela região para saber como as pessoas viviam ali entre os anos 1970 e 1980 – a história acompanha a relação entre Bennett e Miss Shepherd até 1985. Estes são os pontos de interesse do filme, além de uma reflexão importante sobre como todas as pessoas “marginalizadas” da sociedade merecem respeito e consideração porque todas elas, afinal, tem as suas próprias histórias e riquezas a partir do que viveram até chegar àquele ponto.

Neste sentido, The Lady in the Van é um filme bacana e importante. As pessoas que fogem do “padrão aceitável” da sociedade, ou seja, pessoas que não tem casa, que não estão sempre limpas, que cheiram mal ou que tem comportamentos que podem não ser ilegais, mas que incomodam quem segue os padrões, tem as suas próprias histórias para contar. E ainda que elas não pareçam muito coerente às vezes – porque não estão com a sua saúde perfeita ou porque padecem de alguma condição mental diferenciada -, elas merecem respeito e atenção. O que, infelizmente, quase nunca acontece.

As pessoas estão mais acostumadas a não ver esse tipo de pessoa ou, quando as vêem, é apenas para fazer cara feia, de desprezo e atravessar a rua. Pouquíssimas pessoas olham para elas como indivíduos que merecem atenção, um “bom dia” ou “boa tarde”, alguns minutos de conversa. Normalmente os “homeless” são vistos como problema, como pessoas indesejáveis. The Lady in the Van trata a história de Miss Shepherd com respeito, mas também com um certo humor que muitas vezes pode ser questionável – tudo bem que é o estilo inglês de tratar os assuntos sérios, mas especialmente a trilha sonora um tanto “circense” me incomodou algumas vezes.

Além da reflexão óbvia sobre a figura de Miss Shepherd, este filme se debruça sobre o trabalho criativo de um escritor que ficou conhecido por escrever sobre o que ele observava e vivenciava. Daí é interessante não apenas o olhar que ele tem para a vizinhança – e, de quebra, para a sociedade inglesa -, mas também sobre a própria mãe e sobre si mesmo. Dá para entender porque ele trata de forma furtiva a própria homossexualidade – afinal, nos anos 1970 ela não era exatamente “bem vista” -, mas isso me incomodou um pouco, devo admitir. Acho que o filme – com roteiro do próprio escritor – poderia ter tratado esse tema de forma mais franca e aberta.

Também achei um tanto angustiante aquele permanente diálogo de Bennett com ele mesmo. O tempo todo o ator está falando com “outro ele mesmo”. Para resolver esta questão, o roteiro de Bennett e o diretor Nicholas Hytner resolveram colocar o ator sempre em dois “papéis”: o Bennett que sai para a rua, tem uma vida “pública”, digamos assim, e o Bennett que está sempre em casa, sentado na escrivaninha escrevendo. É uma forma de resolver a questão, mas achei ela um tanto esquizofrênica. Francamente, eu teria achado mais realista e interessante ele falando literalmente sozinho. Mas ok, há que se respeitar a escolha dos realizadores.

Os últimos pontos relevantes que o filme aborda tem a ver com a forma com que a administração pública lida com pessoas como Miss Shepherd e a relação estreita e muitas vezes comum entre altruísmo e a busca por benefício próprio ao fazermos uma boa ação.

A primeira assistente social a aparecer falando com Miss Shepherd, Lois (Claire Foy), deixa claro que o melhor seria se aquela senhora fosse para outro local – resolvendo, assim, um “problema” do bairro. A outra assistente social a acompanhar Miss Shepherd, Miss Briscoe (Cecilia Noble), aparece de tempos em tempos mais para cobrar uma boa postura de Bennett do que realmente se envolver com a senhora que vive em uma van.

Depois, e o próprio Bennett não escapa desta autocrítica, qual era a motivação dele em ajudar Miss Shepherd? Me parece que ele realmente tinha consideração e respeito por aquela senhora idosa, mas ele também se beneficiou da observação dela. Não apenas porque escreveu uma história a seu respeito, mas também porque conseguiu fazer com ela o que ele não conseguiu fazer com a própria mãe.

Bennett deixa claro, assim, como muitas vezes ajudamos outras pessoas não exatamente porque sejamos bons, ou porque é o certo, mas porque estamos resolvendo alguma outra “dívida” que temos com outra pessoa, com a sociedade ou conosco mesmos. E há quem ajude porque acha que assim terá um local no céu depois que morrer. Enfim, por muitas óticas que se veja, muitas vezes, a ajuda para os outros não tem tanto a ver com altruísmo, mas com atos que no fim tem causa própria. Esta reflexão é sempre válida, e é algo que The Lady in the Van nos propicia. Um bom filme, mas poderia ser mais curto, sem dúvida.

NOTA: 8.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: O diretor Nicholas Hytner faz um trabalho correto neste The Lady in the Van. E apenas isso. A direção dele é tradicional, focando o trabalho dos atores e seguindo uma lógica praticamente toda linear. Nada além do previsível. O roteiro de Alan Bennett, baseado no livro que ele mesmo escreveu, também segue uma lógica tradicional, conservadora, com muito cuidado sobre como explorar cada aspecto da história. Por ser uma das pessoas diretamente envolvidas na história, temos com ele uma ótica bem definida e, claro, limitada.

A atriz Maggie Smith dá um show neste filme. Ela está ótima e é precisa, como sempre, aliás. O filme é dela. Alex Jennings, o outro personagem central nesta produção, também faz um bom papel. E atores veteranos como Jim Broadbent e David Calder acabam fazendo papéis bem secundários, quase em pontas.

Além deles, vale citar o trabalho de outros atores que ganham um certo destaque na história: Clare Hammond como a jovem Margaret Fairchild (nome verdadeiro de Miss Shepherd); George Fenton como o jovem motociclista que a protagonista mata em um acidente quando era mais jovem; Deborah Findlay como Pauline, mulher de Rufus (Roger Allam), casal que é vizinho de Bennett; Richard Griffiths como Sam Perry, Pandora Colin como Fiona Perry, Nicholas Burns como Giles Perry e Tom Klenerman como Tom Perry, família que também mora na vizinhança; Dominic Cooper em uma super ponta com o um ator que trabalha em uma das peças de Bennett; Frances de la Tour como Vaughan Williams, amiga de Bennett; Dermot Crowley como o padre que é antigo conhecido de Miss Shepherd; Linda Broughton como Edith Fairchild, cunhada da protagonista; e Andrew Knott como o homem da ambulância que trata Miss Shepherd com respeito e atenção. Estes são os coadjuvantes com maior destaque.

Da parte técnica do filme, nada muito a destacar além da edição de Tariq Anwar, dos figurinos de Natalie Ward e da ótima maquiagem com cinco profissionais liderados por Naomi Donne. A direção de fotografia de Andrew Dunn é bastante simples e tradicional, e a trilha sonora de George Fenton achei um tanto circense e irritante, para ser franca. No mais, bem feito design de produção de John Beard, a decoração de set de Niamh Coulter e a direção de arte de Tim Blake – mas nada, volto a dizer, excepcional.

O escritor Alan Bennett tem livros e peças de teatro que levam a assinatura dele, além de ter um trabalho reconhecido como roteirista do grupo que ficou conhecido como Beyond the Fringe, criado em 1964 e que tinha os diretores Peter Cook, Jonathan Miller e Dudley Moore como participantes. Como roteirista ele tem 33 trabalhos no currículo, incluindo filmes para o cinema e para a TV, minisséries e séries para a TV, peças de teatro filmadas e documentários feitos para a TV. Ele tem 10 prêmios no currículo e uma indicação ao Oscar por The Madness of King George. No dia 9 de maio Bennett completa 82 anos de idade.

The Lady in the Van estreou em setembro de 2015 no Festival Internacional de Cinema de Toronto. Depois, o filme participaria ainda de outros nove festivais de cinema – o último começando amanhã, dia 11 de abril, na Turquia. Até o momento o filme recebeu um prêmio e foi indicado a outros quatro, incluindo uma indicação para Maggie Smith como Melhor Atriz – Comédia ou Musical no Globo de Ouro. O único prêmio que o filme ganhou foi o de Melhor Atriz para Maggie Smith no Evening Stardard British Film Award.

Esta produção teria custado 2,26 milhões de libras esterlinas. Apenas nos Estados Unidos o filme conseguiu US$ 9,46 milhões. No Reino Unido ele fez mais 11,26 milhões de libras esterlinas. Ou seja, um verdadeiro sucesso nas bilheterias. Nos Estados Unidos o filme chegou a estar em cartaz em 602 cinemas e, no Reino Unido, em 549.

O filme foi totalmente rodado em Glouscester Crescent, em Camden Town, na cidade de Londres, e também em Broadstairs, na cidade de Kent, ambas, claro, no Reino Unido.

Agora, algumas curiosidades sobre o filme. O diretor Nicholas Hytner disse para o jornal The Guardian que um dia a equipe de filmagens chegou na locação em Camden Town e percebeu que a van tinha sido assaltada, além de que duas pessoas tinham passado o final de semana dentro do veículo para que eles “passassem um bom tempo um com o outro”. Isso exigiu que a equipe tirasse tudo que estava dentro a van e que tinha sido “artisticamente sujo” para limpar tudo tudo e voltar a sujar da maneira que eles queriam para o filme. Eita!

O filme foi rodado na casa e na rua em que os fatos reais aconteceram. Algumas das pessoas que vivenciaram aqueles fatos ainda continuavam morando por ali.

Em maio do ano passado, no Hay Festival, o roteirista Alan Bennett comentou algo interessante: “A história deste filme tem lugar há 40 e poucos anos e Miss Shepherd está há muito tempo morta. Ela era difícil e excêntrica, mas acima de tudo, ela era pobre. E nestes dias, particularmente, a pobreza é algo que as pessoas não querem olhar muito. A pobreza é uma falha moral hoje e no tempo dos Tudors. Se esse filme tem um ponto, é sobre equidade e tolerância e sobre o contragosto em ajudar os menos favorecidos, aqueles que não estão bem nos dias atuais. E agora é provável que ainda menos”.

Esta é uma adaptação que Bennett fez de sua peça teatral lançada em 1999 e do drama transmitido pela Radio BBC em 2009, todas com o mesmo nome. Maggie Smith interpretou o papel em todas as ocasiões.

Agora, um detalhe diferente neste filme em relação ao material original de Bennett. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Segundo Bennett, grande parte da história adaptada para o cinema é legítima e condizente com a história da verdadeira Miss Shepherd, com exceção do personagem do policial interpretado por Jim Broadbent. Na história real o homem que vinha volta e meia procurar Miss Shepherd era um homeless conhecido dela e não um policial que a extorquia.

Para quem ficou interessado em saber mais sobre a personagem real que inspirou Bennett, há informações interessante neste link, em uma matéria do The Telegraph, e para saber mais sobre o escritor e roteirista Bennett, há outro texto interessante com os principais momentos da vida dele feita pelo The Telegraph e acessível aqui.

Os usuários do site IMDb deram a nota 6,8 para este filme. Os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 111 críticas positivas e apenas nove negativas para o filme, o que lhe garante uma aprovação de 93% e uma nota média de 7,2. Acho que a nota dos críticos é uma avaliação bastante justa.

Esta é uma produção 100% do Reino Unido.

CONCLUSÃO: Filme interessante, com uma grande atriz interpretando a personagem principal, mas isso não garante que a história não seja um tanto arrastada. A premissa é boa, mas talvez ela rendesse melhor um curta. Com uma ótica bastante humana e inglesa, The Lady in the Van nos apresenta uma de tantas histórias de pessoas que decidiram ou foram impelidas a viver de forma alternativa à qual a sociedade está acostumada. Sem dúvida nenhuma elas merecem o nosso respeito e atenção, e o filme trata bem deste assunto. Um filme interessante, com uma boa proposta, mas que considerei apenas mediano.

Youth – La Giovinezza – Juventude

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Você está em um local feito para o prazer, para o relaxamento, idílico e no qual é perfeitamente identificável a noção exata do peso da passagem do tempo. Youth é um filme que trata sobre isso, em especial sobre o processo de envelhecimento e sobre a constante e interminável comparação entre a juventude e a velhice. Quando pensamos nisso, refletimos sobre a vida mesma, nossas escolhas, as casualidades, o que fizemos e o que fizeram com a gente. Francamente, mais um grande filme do diretor Paolo Sorrentino. Para mim, um dos nomes mais interessantes do cinema mundial a ser acompanhado.

A HISTÓRIA: Começa com uma cantora e sua banda tocando uma música pop sobre amor. A câmera está fixa na cantora, mas ela e o restante da banda giram em um cenário em que pessoas parecem se divertir. Em seguida aparecem algumas pessoas, como uma mãe caminhando de mãos dados com a filha e o diretor Mick Boyle (Harvey Keitel) olhando tudo atentamente. Corta. No dia seguinte, o maestro Fred Ballinger (Michael Caine) conversa com um dos organizadores de eventos (Alex Macqueen) e festas da rainha da Inglaterra. Eles conversam sobre as razões de Ballinger sempre passar férias naquele local, na Suíça.

O emissário da rainha convida ele para uma apresentação para o Palácio de Buckingham. Perto deles está o ator Jimmy Tree (Paul Dano), atora que está por ali pesquisando para os eu próximo papel. Ballinger diz que não vai aceitar o convite. Na sequência, começamos a ver toda a dinâmica daquela ambiente e conhecer melhor as pessoas que estão por ali movidas por diferentes razões.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Youth): O diretor italiano Paolo Sorrentino tem um jeito todo peculiar de contar uma história. A visão dele de mundo, de narrativa, do cinema e da vida é bastante diferenciada e, apenas por isso, acho o diretor e roteirista admirável. Para mim, ele é um dos grandes diretores de sua geração – ele tem 46 anos – que merece ser acompanhado.

Antes deste Youth eu assisti, do diretor, os filmes This Must Be The Place (comentado aqui) e o magnífico The Great Beauty (com crítica neste link). Parece que, a exemplo do que aconteceu com Almodóvar em uma certa fase, Sorrentino vive uma boa safra. Seus dois últimos filmes foram os melhores. E quando falo dos dois últimos, incluo este Youth.

Para quem já assistiu a um bocado de filmes, como eu, impossível ver a Youth e não se lembrar um pouco de Fellini. Ainda que o estilo de Sorrentino, claro, é mais “condizente” com o nosso tempo. Ou seja, há fantasia sim e até autorreferência nos filmes dele, mas também há uma boa valorização de assuntos que são importantes para o final dos anos 1990 e especialmente para estes anos 2000 e pouco, como a beleza das imagens e das proporções, a harmonia entre pessoas e arquitetura e a música, uma trilha sonora importante e bem presente.

Passada essa introdução, falemos propriamente de Youth. Neste filme, a reflexão maior é sobre a passagem do tempo. Sobre as características das pessoas quando elas são jovens, que tipo de olhar, percepção, sensibilidade elas tem, e o que acontece quando elas envelhecem – muda o olhar, a percepção e tudo o mais. Em mais de uma situação Sorrentino trabalha o contexto, em especial, e também os seus personagens com frieza.

Ele é irônico ao mostrar aquele “paraíso idílico” de férias na Suíça como quase um local de linha de produção, com diferentes “corpos” e pessoas de diferentes idades seguindo um mesmo fluxo para sessões de massagens, banheiras, piscinas, saunas e os demais locais feitos para todos relaxarem. Mas eles realmente encontram o que procuram? Isso seria possível? Sorrentino parece nos deixar claro, em todos os momentos, que cada pessoa em cena tem muito mais peso, gravidade, desejos e sentimentos do que seria possível resumir em um filme.

Ainda assim, ele deixa claro também outro debate importante, além da passagem do tempo: afinal, o que deixamos de legado na nossa vida? Neste sentido, não por acaso temos como protagonista um grande compositor e um grande diretor de cinema. Em diversos momentos fica sugerido que a obra que eles deixaram acaba sendo mais importante do que o que eles conseguiram fazer de suas vidas.

Isso especialmente em relação a Ballinger. Parece evidente que ele conseguiu deixar um legado de composições muito mais “feliz” e representativa para as outras pessoas do que o que ele conseguiu “acumular” e vivenciar no final de sua vida. Outro personagem central nessa história, o grande amigo de Ballinger, o diretor Boyle, também vive o seu momento “pós-glória”. Ele acredita que ainda pode fazer grandes filmes e escreve o roteiro da produção que ele acha mais importante, o seu legado, mas as outras pessoas tem uma visão bem diferente da dele.

Esse choque entre a visão que as pessoas tem de si mesmas e do que elas fizeram quando chegam na velhice e a forma com que as outras pessoas as encaram é muito representativo na vida real e bem explorado em Youth. Como o filme trata disso e da vida “como ela é”, há diversas pequenas reflexões muito interessantes.

Por exemplo, a diferença de olhar que um(a) filho(a) tem de seu pai e de sua mãe se compararmos esta leitura com a experiência que o pai e a mãe tiveram de si mesmos. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Isso fica evidente neste filme com a leitura bastante crítica que Lena Ballinger (Rachel Weisz) faz de seu pai e da relação que ele tinha com a mãe dela e o que de fato ele viveu com a esposa – e que fica claro quando ele vai visitá-la na instituição em que ela está internada. Ele comenta com a esposa coisas que só eles sabem e que os filhos nunca vão saber, porque são detalhes da convivência e da intimidade de um casal que ninguém mais fica sabendo.

Essa diferença de olhares e de leituras que as pessoas fazem está evidente também em diversos outros momentos do filme. Achei muito interessante, por exemplo, como Youth trata do preconceito que todos nós temos com algum perfil de pessoa. Por exemplo, a expectativa ruim que fazemos da garota (Emilia Jones) que faz birra com a mãe, ou a leitura que Tree faz da Miss Universo (Madalina Diana Ghenea) antes mesmo dela falar qualquer coisa, ou de todas as pessoas em relação à garota (Gabriella Belisario) que faz programas naquele local chique da Suíça ou de Lena Ballinger em relação ao professor de alpinismo Luca Moroder (Robert Seethaler).

Sorrentino mostra claramente a expectativa ruim e premeditada que as pessoas fazem destas pessoas e de que forma estas leituras estão equivocadas. Todas merecem ser respeitadas e ouvidas, merecem crédito, e não desprezo premeditado. A garota que faz birra com a mãe é a mesma que ao se encontrar com Tree lhe surpreende ao fazer uma leitura profunda de um filme que ele comenta que “ninguém assistiu”. Sim, ela não viu ao blockbuster dele que todos citam.

Ela comenta sobre outro filme e a respeito de uma cena envolvendo um pai e o seu filho e que traz uma de diversas leituras interessantes deste Youth: de que ninguém se sente realmente capaz para fazer grandes coisas, inclusive para ser pai ou mãe. Todos, parece, estão em permanente aprendizado, em uma escola sem fim. E, mesmo assim, não devemos nos acovardar de fazer o que achamos que faz sentido.

O mesmo Tree é surpreendido com a Miss Universo. Ela, diferente da garota que gritou com a mãe, cita o filme blockbuster do ator. No primeiro encontro entre eles, a Miss Universo comenta que quer ser atriz, e Tree claramente despreza os comentários dela. Até que ela surpreende a todos matando a charada sobre ele. A ironia que ele destilou contra ela estava, na verdade, carregada de frustração. Ela acaba com ele em um comentário. Mais um sinal de que não devemos desprezar as outras pessoas sem ao menos darmos a chance de conhecer melhor as suas vastas e complexas histórias.

Lena inicialmente acha Luca um tanto estranho, talvez um tanto “bruto”, sem refinamento, como parecia ser o caso de seu ex-marido Julian (Ed Stoppard). Quando eles se encontram, Lena não parece ter nenhuma atração por Luca. Mas quando ela deixa ele se aproximar, acaba conhecendo a sensibilidade e a forma dele de encarar o mundo que ela não poderia imaginar no primeiro contato. E, finalmente, todos desprezam a garota de programa – ou olham para ela apenas como um “pedaço de carne”. Mas Boyle não pensa assim e resolve sair com ela de braços dados para mostrar que ela merece ser vista com a mesma dignidade que qualquer outra pessoa.

Além destes pontos, Youth tem outras reflexões, como a importância da amizade – talvez a única riqueza que alguém leve consigo até a velhice -; da família, e de se fazer o que se ama até o final (seja um filme, seja pensar nos sons da vida como uma trilha sonora). Também percebemos a limitação que todos temos – ou teremos – com a passagem do tempo, como o esquecimento (ou a dificuldade de manter as próprias memórias), as limitações físicas e de oportunidades. Poucos acreditam que “um velho” ou “uma velha” podem ainda produzir algo útil ou incrível – como um ótimo filme. Pena que a nossa pense assim.

Ah, e claro, como o nome da produção mesmo sugere, este filme é uma grande reflexão sobre a força da juventude. De como todos e a sociedade em geral valoriza a beleza dos jovens, e de como parece que esta época da vida sempre é vista como a melhor pela maioria – tanto que os protagonistas deste filme estão sempre lembrando de suas próprias juventudes e de uma garota pela qual os dois eram apaixonados. Mas será que a juventude é tudo isso mesmo ou ela é idealizada? Esta é uma das questões apontadas por Youth – francamente, acho que a juventude é fantástica, mas que nada melhor do que amadurecer e envelhecer bem.

Tive muitas dúvidas sobre que nota dar para esse filme. Enquanto eu o assistia, pensei na nota abaixo. Mas admito que o final me fez ficar em dúvida se eu deveria realmente dar a nota máxima para Youth. Além disso, claro, não dá para negar que Sorrentino tem grandes pretensões com este filme. Isso também seria um motivo para, talvez, não dar a nota 10 para Youth.

Mas a verdade é que eu achei o filme envolvente, muito bem feito, tecnicamente falando, e com um roteiro incrível. Além de grandes atores em interpretações irretocáveis. Então, por que não dar a nota máxima? Sim, apesar do filme ser um tanto pretensioso, acho que ele consegue fazer uma entrega excepcional. Especialmente pelos temas que ele levanta, pelo olhar crítico que ele lança para a compreensão da sociedade sobre a velhice e sobre a passagem do tempo. Gosto também da forma com que ele homenageia as artes e as amizades, assim como o respeito que ele tem com cada um dos personagens em cena. Isso é algo raro no cinema e, por isso mesmo, tão belo.

Também as mensagens que o filme deixa são muito significativas. Primeiro, de que para fazer arte – e acho que bem qualquer coisa – é preciso vivenciar, ter experiências. Depois, que o importante da vida e o que levamos conosco é justamente aquilo que vivemos – e não o que acumulamos de bens, por exemplo. Finalmente, conforme nos comenta Tree quando está “submerso” no personagem de Hitler, de que sempre é preciso fazer uma escolha entre o terror e o desejo – e que ele, após observar os outros, resolve não dar atenção para a “insignificância do terror”, mas para o valor do desejo que acaba movendo a todas as pessoas.

Agora, falemos um pouco do final do filme. (SPOILER – não leia se você ainda não assistiu a Youth). Francamente, questiono a escolha de Sorrentino por um final impactante. Realmente era necessário o suicídio de Boyle? Ok, o diretor quis deixar claro que no ambiente do cinema não existe gratidão e que pessoas sensíveis acabam sofrendo com a falta de oportunidades e o desprezo de pessoas que elas ajudaram antes. Mas me pareceu que a morte de Boyle foi mais uma forma de “impactar” perto do final e de dar uma “reviravolta” na história do que algo realmente necessário. Claro que situações assim acontecem, mas Boyle parecia amar demais a vida e a arte para simplesmente desistir assim de tudo.

Depois daquele momento, para mim, o final pode ser entendido de duas formas. Que a partir da morte de Boyle tudo o que vemos depois é real ou é como ele gostaria que fosse. Afinal, Ballinger realmente foi visitar a esposa e depois aceitou fazer o concerto para a rainha da Inglaterra ou tudo isso seria o final do filme que Boyle imaginaria? Acho que esta questão é levantada pelo final, quando Boyle aparece enquadrando a “última cena”.

Se encararmos o final como algo real, acho um contrassenso Ballinger ter cedido e feito a regência de algo que ele prometeu que não faria. Não faz sentido algum. Quer dizer, até faria sentido, se o que Sorrentino quer nos dizer com esses fatos finais – morte de Boyle e conserto de Ballinger – é que a vida é imprevisível e que sempre podemos mudar de opinião e de direção. Algo considerado imutável pode sim ser mudado se assim decidirmos.

Mas francamente eu prefiro a outra forma de encarar o final. Desta forma, fica mais fácil de dar a nota abaixo. Neste caso, encarando o final como a imaginação de Boyle. Por esta ótica, a história terminou, de fato, quando o diretor se joga da sacada. O restante seria, de fato, o legado dele. Desta forma, Sorrentino faz uma autorreferência ao cinema marcante. Prefiro encarar o filme desta forma. Ainda que não deixe de ser interessante que Youth nos possibilite pelo menos duas visões diferentes e interessantes do final – a escolha do espectador.

NOTA: 10.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Sorrentino, especialmente com os dois últimos filmes que eu vi dele, entrou na minha lista de diretores que eu quero sempre acompanhar. Acho bacana fazer isso, especialmente com realizadores que tem uma proposta bem clara do que eles enxergam como cinema. Sorrentino é um destes.

Para mim, o filme funciona bem em todos os seus elementos. A direção de Sorrentino é cuidadosa, atenta aos detalhes e em busca permanente da beleza das situações e das pessoas. O roteiro dele é uma colcha de retalhos de histórias e de personagens que ajudam a refletirmos sobre a vida.

Da parte técnica do filme, gostei muito da direção de fotografia de Luca Bigazzi, da maravilhosa trilha sonora de David Lang, da edição precisa e importante de Cristiano Travaglioli, do design de produção de Ludovica Ferrario, dos figurinos de Carlo Poggioli, e da direção de arte de Daniel Newton e de Marion Schramm. Tudo funciona muito bem e forma um conjunto interessante mas, sem dúvida, eu destaco a trilha sonora e a direção de fotografia.

Os grandes Michael Caine e Harvey Keitel fazem grandes trabalhos neste filme. Os dois são de tirar o chapéu. Rachel Weisz também está ótima, roubando a cena sempre que aparece – ela ganha protagonismo quase sempre, não apenas no excelente monólogo a respeito do pai. Além deles, o elenco de apoio faz um bom trabalho. Além dos nomes já citados, vale comentar os outros com maior relevância que fazem parte do filme: Roly Serrano em uma estranha versão e paródia de Diego Maradonna; Nate Dern, Alex Beckett, Mark Gessner, Tom Lipinski e Chloe Pirrie como o time de roteiristas que ajuda Mick Boyle a fazer o roteiro de seu “filme legado”; Luna Zimic Mijovic como a jovem massagista que aparece em diversos momentos do filme além daqueles de seu ofício propriamente dito; e, claro, uma super ponta de Jane Fonda como Brenda Morel, a estrela preferida de Boyle.

Das apresentações musicais, um destaque especial para a que abre o filme, feita pela banda The Retrosettes, e para a apresentação final, com a fantástica Sumi Jo.

Youth estreou no Festival de Cinema de Cannes em maio de 2015. Depois o filme passou por outros 19 festivais em diversas partes do mundo. Nesta trajetória o filme conseguiu 12 prêmios e foi indicado a outros 36, inclusive uma indicação para o Oscar (de Melhor Canção Original por Simple Song #3, justamente a música que fecha o filme) e duas indicações no Globo de Ouro (Melhor Atriz Coadjuvante para Jane Fonda e Melhor Canção para Simple Song #3). Entre os prêmios que recebeu, destaque para os de Melhor Filme Europeu, Melhor Diretor Europeu e Melhor Ator Europeu no European Film Awards; para o Prêmio da Audiência do Festival Internacional de Cinema Karlovy Vary para Paolo Sorrentino; e para o de Melhor Atriz do Ano para Jane Fonda no Hollyood Film Awards.

Esta produção teria custado 12,3 milhões de euros e faturado, nos Estados Unidos, pouco mais de US$ 2,7 milhões; e na Itália, quase 6 milhões de euros. Ou seja, talvez o filme tenha dificuldade de cobrir os seus gastos.

Youth foi filmado em três países: Suíça (Davos, Flims, Kandersteg e Wiesen), Itália (Veneza e Roma) e na Inglaterra (Londres).

Agora, algumas curiosidades sobre o filme. Jane Fonda se interessou pelo papel de Brenda depois que Al Pacino, que é amigo dela, comentou que o papel tinha sido escrito para ela – ou seja, que se encaixava como uma luva para a atriz veterana. Uma outra atriz tinha sido escalada para o papel, mas com a desistência dela Jane Fonda conseguiu fazer Brenda. Ela realmente está ótima em sua super ponta.

Michael Caine improvisou na cena em que o maestro pede para a filha parar de chorar. Paolo Sorrentino escreveu Youth tendo Caine em mente – sem dúvida alguma o ator é uma bela inspiração para qualquer roteirista/diretor.

(SPOILER – não leia se você ainda não assistiu ao filme). A cena final em que Ballinger conduz uma orquestra lembra muito, segundo os críticos, a cena de Federico Fellini em Orchestra Rehearsal, de 1978. Fellini é uma grande influência sobre Sorrentino.

Os usuários do site IMDb deram a nota 7,4 para o filme. Os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes publicaram 119 críticas positivas e 47 negativas para a produção, o que lhe garante uma aprovação de 72% e uma nota média 7. Entendo as críticas. Não apenas porque não é um filme para todo mundo, mas porque os que encaram este filme como pretensioso tem a sua razão. Ainda assim, vi Youth com melhores olhos. 😉

Este filme é uma coprodução entre a Itália, França, Reino Unido e Suíça.

CONCLUSÃO: Um filme quase perfeito e cheio de detalhes sobre diversos aspectos da vida, com ênfase especial para a passagem do tempo. Não existe apenas um tema central em Youth. Além da óbvia comparação entre juventude e velhice, temos tudo que está relacionado entre estes dois tópicos, como as relações humanas, os sonhos, as expectativas e as frustrações, a incapacidade de manter as potencialidades por muito tempo, a fama e o anonimato, a família e os amigos. Tudo faz parte da reflexão do diretor. Mais um grande trabalho de Sorrentino. Um filme que merece ser visto com atenção e tempo, porque é uma obra para ser apreciada. Francamente, achei uma das grandes produções que eu assisti ultimamente.

Truth – Conspiração e Poder

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A busca da verdade é uma premissa fundamental do jornalismo. Mas afinal, o que é a verdade? Essa questão filosófica já rendeu muitas teorias e obras. Há quem diga que não existe a verdade, apenas versões da verdade. Alguns contra-argumentam que afirmar isto é uma forma de relativizar tudo. Independente da tua própria verdade, caro leitor, Truth nos apresenta mais um roteiro baseado em uma história real sobre uma investigação jornalística em busca da verdade. Desta vez, um grupo de jornalistas experientes tenta comprovar que o presidente dos Estados Unidos mentiu. Um bom filme, com grande elenco, mas ele poderia ser melhor.

A HISTÓRIA: Começa com a narrativa de jornalistas sobre a perspectiva para a reeleição de George W. Bush. A população estava bem dividida na fase da campanha. Corta. Em Washington, em outubro de 2004, a jornalista Mary Mapes (Cate Blanchett) está tricotando na sala de espera do advogado Dick Hibey (Andrew McFarlane). Quando eles começam a conversar, existe tensão no ar e Mapes fala sobre os seus 20 anos trabalhando como jornalista, atuação que lhe rendeu dois Emmy, a denúncia dos abusos em Abu Ghraib e uma prisão por proteger as suas fontes. Mas em breve ela terá que contar com a ajuda de Hibey para se defender de um outro caso, desta vez uma denúncia feita pela equipe dela envolvendo o presidente candidato à reeleição George W. Bush.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Truth): Gosto de filmes com técnica e grande elenco. Como não gostar? Esta produção com roteiro e direção de James Vanderbilt baseada no livro de Mary Mapes apresenta logo no início estas duas qualidades. Recentemente assistimos ao premiado como Melhor Filme no Oscar 2016 Spotlight, outra história sobre uma investigação jornalística. E ainda que os dois filmes tratem dos bastidores da profissão, eles tem abordagens, qualidade e defeitos muito diferentes um do outro.

Como já falei de Spotlight neste texto, vamos nos concentrar em Truth. Como eu disse, logo nos primeiros minutos do filme somos apresentados a duas de suas principais qualidades: um grande elenco, com ótimos atores, e muita técnica. Para tornar a história sobre jornalismo e bastidores da política interessante, Vanderbilt utiliza algumas técnicas conhecidas no cinema.

Para começar, ele parte de um ponto quase perto do final da história como introdução para fisgar a atenção do espectador, colocando drama e suspense na trama, para então voltar seis meses no tempo em um longo flashback narrativo que será o núcleo deste filme. Começamos com a protagonista Mary Mapes claramente pressionada, mas ainda não sabemos de que forma. Só presumimos que ela está com um bom problema já que está procurando um ótimo advogado. Depois de demonstrar que é uma mulher forte e com opinião, ela diz que apenas fez o seu trabalho. Hibey pede para ela explicar melhor o seu trabalho como jornalista, e é assim que voltamos seis meses no tempo.

Mary Mapes é a produtora do conhecido programa 60 Minutes, um dos mais premiados e importantes programas da TV americana de todos os tempos. Ela trabalha com Dan Rather (Robert Redford), um dos nomes mais conhecidos e respeitados do jornalismo dos Estados Unidos. Quando a história volta no tempo, ela retrocede o suficiente para mostrar Mapes liderando um dos grandes furos do jornalismo dos anos 2000: a denúncia de abusos e torturas praticados por militares americanos em Abu Ghraib.

Depois deste golaço, Mary Mapes volta a focar em uma história que ela não tinha conseguido aprofundar quatro anos antes, no ano 2000. Vale ponderar, contudo, que estamos falando de abril de 2004, quando o então presidente George W. Bush estava tentando a reeleição – e as pesquisas mostravam uma disputa apertada. No ano 2000 a jornalista tinha recebido a dica de ligações entre os Bush e a família Bin Laden.

Assim como a sugestão de que Bush teria servido a Guarda Aérea Nacional do Texas por influência política e sem, de fato, servir do jeito que deveria – apenas para fugir da Guerra do Vietnã e para, claro, participar do “grupinho” de poderosos daquele tempo. No ano 2000 Mary não conseguiu comprovar estes fatos mas agora, em 2004, em plena campanha de reeleição de Bush, ela resolve voltar ao assunto.

Daí entra em cena outra técnica importante do cinema e bem utilizada por Vanderbilt: imprimir um tom de suspense e aventura na trama. Mary Mapes lista um grupo de pessoas que ela quer “convocar” para a missão de apurar este caso. Eles são apontados como se fossem agentes especiais de um filme de ação. A boa edição e a trilha sonora de Truth ajudam nesta tarefa de dar ritmo e suspense para a trama. Vanderbilt, sem dúvida, entende bem do seu ofício.

Desta forma que entram em cena outros atores importantes deste filme: Topher Grace como Mike Smith, jornalista “underground” e que claramente é contra as políticas “contaminadas” do sistema; e Elisabeth Moss como Lucy Scott, jornalista que ajuda a equipe a ir atrás das fontes que podem comprovar a história. Além deles, a esta altura, já tinham aparecidos outros dois nomes fundamentais do filme – além da protagonista, é claro: o sempre fantástico Robert Redford, um dos grandes atores de seu tempo, e Dennis Quaid como o tenente-coronel Roger Charles, um consultor para assuntos militares com grande experiência em investigações jornalísticas.

Aí está o grande elenco. As técnicas citadas, especialmente a boa edição e trilha sonora que reforçam o roteiro preocupado em uma história com ritmo, continuam até o final. Mas e a história propriamente dita? Neste ponto Truth se torna um filme interessante e também apresenta o seu principal problema. Enquanto Spotlight trata de uma longa investigação que será publicada no meio impresso, Truth aborda uma investigação bem feita, mas apressada, e que será vinculada pela TV. Essa diferença fundamental entre os meios define parte dos problemas que serão enfrentados por Mary Mapes e sua equipe.

Perguntar, perguntar e não parar de fazer perguntas é uma das premissas mais importantes do jornalismo. Mary Mapes e sua equipe acertam ao fazer as perguntas, mas erram em querer apressar as respostas. Com uma janela para divulgação da reportagem sobre as mentiras que teriam garantido a carreira militar do presidente dos Estados Unidos – um tema importante para qualquer país, mas ainda mais para os Estados Unidos, uma das nações mais poderosas do mundo e sempre envolvida nos principais conflitos mundiais – curta, Mapes e sua equipe aceitam as poucas respostas que eles conseguem como suficientes para comprovar o que eles tem certeza que é verdade.

Mas eis que surge um ponto fundamental para o jornalismo dar certo: a apuração tem que ser bem feita, bem cercada, sem furos ou fios soltos. Fazer bom jornalismo investigativo dá trabalho, e muito. Envolve tempo, energia, gente talentosa. Em Truth não faltaram energia e gente talentosa, mas faltou tempo. E por mais que Truth, importante ressaltar que inspirado no livro de Mary Mapes – ou seja, com um ponto de vista bem definido e claro -, tente mostrar o heroísmo dos jornalistas envolvidos naquela reportagem de 60 Minutes sobre a fraude de Bush, não dá para ignorar que eles colocaram no ar uma matéria sem amarrar bem as pontas.

Conforme o filme vai se desenvolvendo, percebemos a fragilidade das “provas” que os jornalistas tinham para comprovar que o presidente dos Estados Unidos tinha mentido sobre o seu heroísmo militar. Mary Mapes quer mostrar as relações de poder e de que forma os poderosos e ricos se protegem, inclusive interferindo nas Forças Armadas, mas ela não consegue fazer isso correndo. Boa parte da reportagem é baseada em documentos que são questionados pela tipografia – blogueiros dizem que os documentos que seriam dos anos 1970 tinham sido feitos bem depois e utilizando o Word – e não tem os testemunhos ou outras provas para corroborar estes documentos.

Essa é a fragilidade do trabalho que acaba derrubando Mary e toda a equipe. E ainda que a origem dos documentos acaba não sendo totalmente desmentida, há dúvida suficiente no ar para colocar o trabalho dos jornalistas sob suspeita. Um trabalho jornalístico bem feito deve ser à prova de contradições e de refutações. Esse não é o caso da história mostrada em Truth. Quando a equipe é ainda mais pressionada para achar a origem dos documentos e pressionam a fonte do tenente-coronel Bill Burkett (o competente Stacy Keach), a história que ele conta, meio que sem pé e nem cabeça, torna tudo ainda pior.

A verdade é que faltou mais tempo para a equipe de jornalistas que apurou o assunto. O ideal é que eles tivessem seguido no caso e não tivessem colocado no ar uma reportagem sem ela estar bem amarrada. Mas a pressão por dar o assunto antes, não apenas da concorrência, mas das eleições, fizeram eles se apressarem sem o devido cuidado na apuração de um assunto tão delicado. E depois que o assunto foi ao ar, a internet e a concorrência da CBS cuidou de desmontar a apuração deles.

Uma empresa de comunicação séria teria esperado mais tempo para colocar o assunto no ar, para começar. E depois que tivesse transmitido a informação, antes de fazer uma “caça às bruxas” da própria equipe para não perder verba do governo e publicitária, essa mesma empresa teria apoiado os seus jornalistas atrás da verdade. Ora, aqui entra em cena o grande problema deste filme: mais que mostrar o que aconteceu em 2004 antes, durante e depois daquela reportagem ser colocada no ar, revelando os bastidores de interesse do jornalismo, Truth deveria, de fato, buscar a verdade. Avançar na apuração do assunto.

Quem garantiu que Mary Mapes, Dan Rather, Mike Smith e Lucy Scott não seguissem investigando o assunto? Por que ninguém mais deu a oportunidade para eles apuraram de fato o que se escondia na história de George W. Bush. Aliás, nem foi a pior história sobre ele que colocaram em cena com aquela reportagem – no trabalho encabeçado por Mapes foi explorado apenas como Bush teria sido favorecido pelos poderosos do Texas e reconhecido na Força Aérea sem ter merecido. E, aparentemente, manipulou a situação para fugir do Vietnã. Mas a possível relação dele e de sua família com a família Bin Laden nem veio à tona.

Por que nenhum outro jornalista conseguiu comprovar aquelas questões envolvendo Bush e o favorecimento dele na Força Aérea? Ninguém realmente foi atrás do tema ou simplesmente aquela história não era verdadeira? Para mim esta é uma questão fundamental de Truth e acaba não sendo respondida pelo filme. Ele se limita a apenas contar o que aconteceu naquela investigação jornalística que acabou com a carreira de dois dos grandes nomes da imprensa americana e a explorar o ponto de vista de Mary Mapes e não avança na questão.

Se o que eles contaram sobre Bush era verdade, o trabalho jornalístico deles foi eclipsado pelos interesses comerciais da CBS e os interesses políticos de Bush e companhia. Se o que eles contaram era mentira, Truth é um grande filme sobre a falta de cuidado na apuração de um assunto de relevância para a sociedade.

Neste segundo caso, poderíamos falar de arrogância por parte de Mary Mapes e Dan Rather que, depois de serem reconhecidos por diferentes trabalhos, descuidaram de seguir fazendo bem o seu trabalho ao imaginar que eles estavam “sempre certos” – importante recordar que eles tinham acabado de marcar um golaço com Abu Ghraib. Também poderíamos tratar da pressão por resultados da TV e da pressão pelo tempo deste meio cada vez mais preocupado em “furar” a concorrência.

Agora, se seguirmos a premissa de Mapes de que eles estavam falando a verdade, este filme estraçalha os interesses envolvendo uma grande corporação de mídia. O presidente da CBS News Andrew Heyward (o competente Bruce Greenwood) encarna, nesta produção, tudo o que o jornalista investigativo odeia. Ele está interessado no negócio da TV, ou seja, em seus anunciantes e, neste caso específico, na verba que vem direta ou indiretamente do governo.

Quantas empresas de mídia todos os dias e enquanto você lê este texto não decidem o que elas publicam ou veiculam levando em conta, em primeiro lugar, os seus interesses comerciais e não o interesse público? Não por acaso muitas pessoas, especialistas na área ou não, questionam a capacidade da mídia em seguir relevante para os seus públicos. Acho que não preciso desenhar para explicar melhor que os interesses públicos colocados em segundo plano, atrás dos interesses comerciais, nunca vão garantir um jornalismo melhor e mais relevante, não é mesmo?

Por outro lado, e os executivos das empresas jornalísticas podem argumentar isso, o bom jornalismo não é feito sem recursos. E por isso a área comercial tem a sua relevância e continuará tendo. Verdade, o negócio da empresa jornalística precisa ser sustentado – e apenas o público consumidor não faz isso. Mas existem limites para a relação dos interesses comerciais e da informação. Quem está à frente de um negócio como este esse não deve nunca esquecer o papel social da mídia. Truth levanta este e outros temas e, apenas por isso, ele já merece ser visto. E, a exemplo de Spotlight, levado para as salas de aula de jornalismo para ser debatido.

Finalmente, este filme levanta, perto do final, outra questão fundamental: como a inclinação política de um jornalista pode influenciar o seu trabalho. Francamente, depois de quase 20 anos de jornalismo, sou da opinião que todo jornalista é influenciado por suas crenças – sejam religiosas, políticas ou do que for. Isso não quer dizer que a apuração dele seja “falsificada” ou “deturpada” por estas crenças, mas sem dúvida alguma a escolha de alguns temas e não de outros – quando o jornalista pode fazer a reportagem que acha importante – é influenciada pelo que ele acha importante retratar no mundo.

Mais do que o que a imprensa fala, é importante observar o que ela ignora. Neste sentido, um jornalista vai sempre buscar assuntos relevantes para a sociedade que ele próprio acredita – como, então, ter um jornalismo totalmente imparcial? A apuração da verdade será sempre criteriosa – ou deveria ser -, mas as escolhas dos temas é sim influenciada pelo que o jornalista acredita. Truth também aborda este tema de forma bem interessante.

NOTA: 9.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Como jornalista, acho interessante e importante que o cinema de Hollywood tenha voltado o seu olhar para a profissão. Até para que mais pessoas que não são da minha área possam voltar a refletir sobre a importância do trabalho dos bons jornalistas. Vocês já pensaram o quanto sabemos hoje da Operação Lava-Jato, por exemplo, que jamais saberíamos se não fosse a imprensa? Aliás, será que essa e outras operações existiriam e não seriam “enterradas” o mais rapidamente possível se não fosse o trabalho da imprensa em divulgá-las?

Sem contar as investigações jornalísticas que trouxeram tantos temas relevantes à tona e contra interesses poderosos. O jornalismo é fundamental para a sociedade e, por mais que uns acreditem que ele não é “tão necessário” na época da internet, me arrisco a dizer que ele continua e sempre continuará sendo importante para as sociedades em que ele é exercido de forma livre e independente.

Truth tem alguns momentos muito bons. Gostei, em especial, de três. Esses momentos podem – e deveriam – render muitas horas de debate nas faculdades de jornalismo. O primeiro deles é quando a CBS pressiona Dan Rather a praticamente “acabar” com o tenente-coronel Bill Burkett em uma entrevista que, claramente, está para culpar Burkett e isentar o canal de TV da responsabilidade pelos documentos envolvendo Bush. O segundo é quando o mesmo Rather é obrigado pela CBS a se desculpar em rede nacional. E o terceiro e último é quando o mesmo Rather se despede como apresentador âncora da emissora. O discurso dele é de arrepiar. Momentos fortes.

Cate Blanchett e Robert Redford estão ótimos nesta produção. Não é por acaso que eles são dois dos melhores atores de suas respectivas gerações. Redford mesmo… ele não precisa dizer quase nada para fazer um grande trabalho. Muito expressivo, ele é um dos atores que mais passa credibilidade quando está em cena. Uma escolha perfeita para outro nome que é sinônimo de credibilidade, Dan Rather.

O diretor James Vanderbilt faz um grande trabalho com Truth. Ele sabe usar todos os recursos do cinema moderno para prender a atenção do espectador e dar ritmo para a história. Seus enquadramentos são precisos, com um olhar diferenciado para diversos momentos da produção. Seu trabalho ponderado e preciso também sempre evidencia o bom trabalho dos atores – afinal, como não fazer isso com um elenco tão bom? Seria um desperdício. O roteiro dele também tem diversas qualidades, mas ele erra ao não avançar além do livro de Mary Mapes. Apenas por isso a produção não é perfeita.

Da parte técnica do filme, há muitos elementos que funcionam muito bem e que ajudam Vanderbilt em seu trabalho. Para começar, ótima a edição de Richard Francis-Bruce. Muito boas também a trilha sonora de Brian Tyler, apesar dela exagerar um pouco no tom “heróico”; a direção de fotografia de Mandy Walker e os figurinos de Amanda Neale. Também ajudam a compor a época e os ambientes desta história o design de produção de Fiona Crombie; a direção de arte de Fiona Donovan; e a decoração de set de Glen W. Johnson.

Todos do elenco citados até agora fazem um belo trabalho. Estão centrados e coerentes com os seus respectivos papéis. Além deles, vale citar o trabalho de John Benjamin Hickey como Mark Wrolstad, marido de Mary Mapes; David Lyons como Josh Howard, diretor da TV que logo questiona toda a equipe; Dermot Mulroney como Lawrence Lanpher, um dos líderes da comissão contratada para investigar a reportagem liderada por Mapes; Rachael Blake como Betsy West, diretora da TV que também logo rói a corda e sugere que Mapes deixe de frequentar o local; Noni Hazlehurst como Nicki Burkett, mulher do tenente-coronel Bill Burkett e que tem uma das melhores sequências de diálogo do filme; e Philip Quast como Ben Barnes, uma peça importante da denúncia de Mapes.

Pequeno comentário antes de seguir com as últimas considerações sobre este filme: mais uma vez a tradução de um título de filme feito fora do Brasil é infeliz. Truth é um nome perfeito para esta história. Alguém deve ter achado que o título original ou apenas a tradução literal para Verdade não atrairia o grande público – tenho dúvidas sobre isso, especialmente porque o elenco desta produção é estelar. Mas Conspiração e Poder é para acabar, ou não? Poder ainda vá lá, porque o filme trata disso. Mas Conspiração? Não era para tanto. Questionaram a reportagem feita por Mapes e equipe, mas daí a considerarem eles conspiradores… ou a conspiração seria de outra parte? Juro que não entendi e achei infeliz a escolha.

Truth estreou em setembro de 2015 no Festival Internacional de Cinema de Toronto. Depois, o filme passou ainda por outros seis festivais mundo afora. Nesta trajetória o filme conquistou um prêmio e foi indicado a outros três. O único que recebeu, até agora, foi o prêmio para Cate Blanchett dado pelo Festival Internacional de Cinema de Palm Springs que reconheceu a atriz não apenas por este filme, mas também por Carol.

Não há informações sobre os custos de Truth, mas sim sobre a bilheteria do filme nos Estados Unidos até o dia 22 de fevereiro deste ano, quando o filme saiu de cartaz em seu país de origem. Entre o dia 16 de outubro de 2015 e o dia 22 de fevereiro de 2016 esta produção conseguiu pouco mais de US$ 2,5 milhões. Pouco, especialmente envolvendo o elenco estelar de Truth. Mas isso só comprova como histórias relevantes e interessantes nem sempre são vistas – geralmente não são – por um grande público. Uma pena.

Apesar da história ser totalmente ambientada nos Estados Unidos, Truth é uma coprodução dos Estados Unidos com a Austrália e teve diversas cenas rodadas em território australiano – incluindo cidades como Sydney e Penrith. Várias cenas foram rodadas também em Nova York e Los Angeles.

Os usuários do site IMDb deram a nota 6,8 para esta produção, enquanto os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 86 textos positivos e 53 negativos para a produção – o que lhe garante uma aprovação de 62% e uma nota média de 6,2. Acho que apesar dos problemas deste filme, ele merecia uma avaliação melhor.

Procurando saber um pouco mais sobre Truth lendo as notas de produção do filme, descobri o porquê de parte do filme ter sido rodada na Austrália: isso foi feito para atender a um pedido de Cate Blanchett. A atriz queria ficar mais próxima da família durante as filmagens desta produção. Faz sentido, até pela proximidade de sua personagem com a família.

Esta é a estreia na direção de James Vanderbilt. Antes deste filme, ele havia feito o roteiro de outras oito produções, começando por Darkness Falls, de 2003, e passando por produções interessantes como Zodiac e por blockbusters como The Amazing Spider-Man e The Amazing Spider-Man 2.

Claro que Truth não poderia ter sido feito sem ter rendido posterior polêmica. A rede de TV CBS se recusou a passar os comerciais do filme porque argumentou que esta produção é um “desserviço” à verdade, ao público e aos jornalistas. Certo. Por sua vez, Dan Rather afirmou que Truth é uma representação muito fiel ao que aconteceu naquela época e envolvendo os fatos contados pela produção.

Ah sim, e eu já ia esquecendo de compartilhar um texto interessante na Wikipédia sobre este caso. Deram o nome de “controvérsia dos documentos Killian” – lembrando que Killian era o nome do tenente-coronel que teria questionado a colocação de Bush nos anos 1970. Vale dar uma conferida neste texto da Wikipédia e, claro, procurar mais fontes que abordem o assunto. Afinal, a verdade propriamente dita não encontramos neste Truth. 😉

CONCLUSÃO: Um filme interessante sobre uma grande reportagem que acabou mal – pelo menos para as pessoas que se envolveram no trabalho de contar aquela história. Bem narrado e, principalmente, com grandes atores, Truth nos faz refletir sobre o jornalismo e os jogos de poderes envolvendo empresas jornalísticas e o poder – leia-se políticos e principalmente o Estado. Evidentemente há muitos elementos que fazem o espectador pensar neste filme, e isso é positivo, mas Truth poderia ser ainda melhor se tivesse ido além da narrativa daqueles fatos.

Por que não avançar e tentar, de fato, comprovar se aquela teoria mostrada pelos protagonista da história era verdadeira? Faltou essa ousadia para a produção – algo que poderia ter sido feito já que se passaram alguns anos dos fatos. Apesar de desperdiçar a chance de avançar na história, este é um bom filme. Especialmente para levantar debates.