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Oscar 2019

E o Oscar 2019 foi para… (Cobertura online e lista com todos os premiados)

Olá povo, boa noite – ou bom dia, dependendo do seu caso! 😉

Pois sim. Mais uma vez, estamos aqui “juntos” para comentar sobre a maior premiação da indústria do cinema nos Estados Unidos. Hoje é o dia de assistir a um Oscar diferente.

A diferença começa até pela minha “animação” com as entregas dos prêmios nesse ano. Francamente? Para mim, esta é uma das safras de filmes mais fracas que tivemos nos últimos anos. Não assisti a nenhuma produção que realmente tenha me surpreendido ou me encantado. Assim, não terei um filme para realmente torcer.

Essa é uma das diferenças desta noite. Outra é que não teremos aquele apresentador – ou apresentadora – chato com várias piadas mais ou menos nos fazendo torcer para o discurso acabar logo e irmos para a parte que realmente interessa, que é a entrega dos prêmios e os discursos dos diretores, produtores, astros e estrelas de quem gostamos tanto.

Hoje à noite, como não teremos apenas um apresentador do Oscar e sim vários apresentadores – espalhados pelas diferentes categorias, acredito -, imagino que a premiação será mais “econômica” nas piadinhas e mais objetiva, mais dinâmica. Se isso acontecer, sairemos ganhando. Com menos discursos entre uma premiação e outra, espero que os vencedores também tenham mais espaço para falar. Afinal, os discursos deles costumam ser mais interessantes do que as piadinhas dos apresentadores.

E o que esperar dessa noite em termos de premiação? Honestamente, por ser um dos anos mais emblemáticos por não termos um grande favorito, praticamente tudo pode acontecer na premiação de hoje. Há ótimas disputas nas categorias de Melhor Ator e Melhor Atriz, assim como uma ótima disputa em Melhor Filme e em outras categorias.

O Oscar soube equilibrar muito bem filmes bastante populares – Black Panther (comentado aqui) e Bohemian Rhapsody (com crítica neste link) – com filmes que são mais densos e não muito populares – como Vice (comentado aqui) e The Favourite (crítica neste link). Durante a noite vamos saber se os melhores intérpretes e filmes irão realmente se consagrar ou se o Oscar terá uma ou duas injustiças para entrarem no seu histórico – dificilmente há algum ano da premiação em que isso não acontece. Veremos…

Acho que este será mais um ano, a exemplo de 2018, em que diversos filmes irão dividir os prêmios, sem termos um grande vencedor – esqueça a época em que uma produção ganhava os 5 principais prêmios. E falando em um Oscar diferente, algo muito interessante deste ano é como filmes estrangeiros conseguiram emplacar mais de uma indicação. Ou seja, eles não ficaram restritos à categoria Melhor Filme em Língua Estrangeira.

O maior exemplo disso está sendo Roma (comentado aqui), é claro. A produção de Alfonso Cuarón ganhou nada menos que 10 indicações ao Oscar. O filme é favoritíssimo para emplacar em Melhor Filme em Língua Estrangeira e em Melhor Diretor – dificilmente Cuarón não receberá o terceiro Oscar da carreira. Mas além dele, foi bonito ver Cold War (com crítica neste link) e Never Look Away emplacando outras indicações, como em Melhor Direção de Fotografia. Isso ajuda a mostrar que o Oscar está mais aberto ao mundo realmente – além de mais aberto à opinião do público e/ou blockbusters.

Estou acompanhando já o “tapete vermelho” do Oscar, mas nada de destaque para comentar até agora. Acho que o realmente interessante veremos quando a premiação começar, a partir das 22h. 😉

Algo interessante deste ano é que seis dos oito indicados a Melhor Filme são livremente inspirados em histórias reais. Ou seja, nunca o hóspede esteve tão próximo da realidade e longe da fantasia quanto neste ano. Apenas Black Panther e A Star Is Born não são baseados em fatos reais. Todos os outros (BlacKkKlansman, Bohemian Rhapsody, The Favourite, Green Book, Roma e Vice) sim, tem um fundo na realidade. Interessante.

Entrevistada no tapete vermelho, Yalitza Aparicio, estrela de Roma, comentou que não esperava que o filme chegaria tão longe e que seria tão prestigiado. Afinal, as pessoas não estão habituadas a assistir filmes em preto e branco. Além disso, Roma é uma produção muito pessoal sobre o diretor. Ela tem razão. Realmente é surpreendente como Roma se consagrou e está se consagrando ainda – mais entre os críticos do que entre o público, me parece.

Entrevistada em seguida, Marina de Tavira, que também estrela Roma e que também está indicada no Oscar, comentou que acha que o filme está encantando tantas pessoas por falar da infância, por resgatar um saudosismo desta época – saudosismo que todos têm. Marina disse que nunca imaginou conseguir uma indicação ao Oscar, mas que ela se sente agradecida por ter tido o seu trabalho visto pela Academia. Realmente, 10 indicações para Roma foi algo surpreendente. Quem já leu a minha crítica sobre o filme aqui no blog sabe que eu esperava mais da produção.

Vou pagar mico agora, com a permissão de vocês. Hahahaha. Ela não está concorrendo à nadica de nada nesta noite, mas eu não posso deixar de colocá-la por aqui. Afinal, Emilia Clarke é uma das estrelas de uma das minhas séries favoritas de todos os tempos, Game of Thrones… série essa que vai se despedir dos fãs(náticos) nesse ano. Então vou deixar ela aqui só por causa disso, tudo bem?

Agora sim, voltando para o tapete vermelho com pessoas indicadas nessa noite. Regina King disse que se identificou muito com o seu papel em If Beale Street Could Talk. Eis um filme que eu ainda quero assistir. Acredito que King deve estar arrebatadora por ter ganho premiações importantes por se papel até o momento. Caso ganhar, ela certamente fará um discurso bastante interessante. A conferir.

Entrevistado no tapete vermelho, o ator e diretor Bradley Cooper comentou sobre a emoção de se apresentar com Lady Gaga logo mais. A apresentação deles, assim como do Queen, certamente serão pontos altos da premiação de hoje. Não é todo dia que temos a grandes canções e astros assim em cena.

Alfonso Cuarón falou sobre Roma no tapete vermelho. Ele comentou que o maior desafio foi encontrar o tom e o tema da história. Falou também sobre a importância de falar do papel das domésticas e do racismo que existe no mundo – temas que surgiram a partir de Roma. Nos Estados Unidos, o filme está sendo utilizado inclusive pelas domésticas para buscar um “empoderamento” e a discussão sobre a sua função na sociedade.

Entrevistada no tapete vermelho, Glenn Close disse que nunca visitou o Brasil, mas que o genro dela é meio brasileiro. Ela comentou que a história de The Wife foi muito importante para ela porque ela se lembrou muito da mãe, e resgatou parte das histórias que ela contava para interpretar a sua personagem. Glenn também elogiou o trabalho da filha em The Wife e disse que espera que ela se desenvolva no trabalho dela. Francamente? Acho que esse é o ano de Glenn Close. Está na hora dela receber um prêmio de Melhor Atriz. Se não for para ela, torço por Olivia Colman, que está ótima em The Favourite. Ambas merecem.

Agora sim, vamos lá para a premiação. 😉 Começando com nada menos que apresentação do Queen. Aí sim, hein? Beeeem melhor que piadinhas sem graça de apresentadores. Curti. Bóra lá colocar rock para tocar, bebê! Hoje a noite é de rock. E será que Bohemian vai levar no final? Seria interessante. A plateia curtiu o micro show do Queen, ficando de pé no início da apresentação. Merecido. Melhor começo de Oscar do qual eu tenho lembrança. No final da apresentação, todos da plateia em pé novamente.

Do show, partimos para uma introdução um tanto estranha sobre os astros e estrelas que chegaram no tapete vermelho e que representam as produções indicadas como Melhor Filme do Ano. Além destas cenas de tapete vermelho, vimos a trechos de filmes que marcaram o ano – alguns indicados, outros não. Bacana eles terem citado um número maior de filmes no clipe, afinal, o cinema é feito de uma grande diversidade, algo que o Oscar nunca vai conseguir abarcar nas suas 24 categorias.

Depois de algumas piadas, algumas boas, outras razoáveis, tivemos a primeira entrega de prêmio da noite. E o Oscar de Melhor Atriz Coadjuvante foi para… Regina King, por If Beale Street Could Talk. Ela era a favorita, mas vamos combinar que esta categoria estava bem disputada este ano. Ainda preciso assistir a If Beale Street Could Talk, mas entre o trabalho das demais, acho que Emma Stone merecia o Oscar. Mas acredito que Regina King mereceu. A conferir.

Em seu discurso, Regina King disse que é surreal estar sobre o palco para representar um dos melhores artistas deste tempo, James Baldwin – autor do livro em que o filme foi inspirado. Ela disse que está certo dela estar ali porque ela representa o quanto o amor faz a diferença. Regina então agradeceu a mãe sobre ensinar o que é Deus estar em sua direção. Um discurso emocionado. Agradeceu também as demais atrizes que concorreram com ela, e que ela se sente honrada por estar com elas nessa categoria.

Em seguida, Helen Mirren brinca que os tempos mudaram, a ponto dela, uma inglesa, vestir uma cor parecida com um ator havaiano, Jason Mamoa. Os dois entregaram o Oscar para Melhor Documentário. E o Oscar foi para… Free Solo. A produção foi dirigida por Jimmy Chin e Elizabeth Chai Vasarhelyi. O casal agradeceu a National Geographic por dar espaço para a diversidade, e agradeceram a Dierdre Wolownick por ele ter inspirado eles a acreditarem no impossível. Começamos bem esse Oscar.

Dois filmes para eu assistir logo que possível. Free Solo e If Beale Street Could Talk. Estão na minha lista. A piada de Helen Mirren e Momoa é especialmente interessante para o Brasil, não é mesmo? Onde tem gente que ainda discute que cor de roupa meninos e meninas devem vestir.

Na volta do intervalo, todos viram o clipe de Vice. Para mim, um dos melhores filmes do ano. Denso, cínico, muito bem editado e dirigido, ele foge do óbvio e surpreende. Só por isso, tem a minha admiração. Logo na sequência, foi apresentada a categoria Melhor Maquiagem e Cabelo. E o Oscar foi para… Vice. Merecido. Realmente um grande trabalho dos artistas responsáveis por esse aspecto do filme. Sobre o palco, eles agradeceram ao diretor Adam McKay, aos atores e à diversas outras pessoas que fizeram parte da equipe e do trabalho. Uma pena, mas subiram a música antes da hora – além de cortarem o microfone. Pecado.

Na sequência, foram apresentados os filmes indicados a Melhor Figurino. E o Oscar foi para… Black Panther. Oh yeah! Parabéns para o filme, que já fez história. Sobre o palco, Ruth Carter, a primeira negra a receber um prêmio nessa categoria. Ela agradeceu pela Academia por homenagear a realeza africana e a força das mulheres na tela. Agradeceu também a equipe dela, que está espalhada no mundo todo.

Fico realmente feliz pelo filme. Ruth ainda agradeceu à mãe, que chamou da verdadeira heroína da história. Fofa. Antes de ganhar por Black Panther, Ruth Carter já tinha sido indicada em outras duas ocasiões ao Oscar – por Amistad e por Malcolm X (por isso agradeceu a Spike Lee, diretor do segundo filme).

Na volta do intervalo, Chris Evans e Jennifer Lopez apresentaram os indicados na categoria Melhor Design de Produção. E o Oscar foi para… Black Panther. Show! Sobre o palco, Hannah Beachler e Greg Berry. Ela, segundo os comentaristas do Oscar, a primeira negra a ser indicada e ganhar nesta categoria. Ela comentou que está naquele dia mais forte do que antes.

Ela agradeceu especialmente Ryan Coogler, o diretor de Black Panther, por ele ter feito ela um profissional e uma pessoa melhor. Aliás, Coogler não ter sido indicado no Oscar deste ano foi realmente estranho. No final, ela disse que quando alguém pensar que algo é impossível, deve pensar que fez o melhor que pode e isso é o suficiente. Bacana.

Na sequência, os indicados na categoria de Melhor Direção de Fotografia. Uma das minhas categorias favoritas. E o Oscar foi para… Roma. O primeiro – possivelmente de três – prêmios de Alfonso Cuarón nesta noite. O diretor começou comentando que o trabalho de construir cada quadro de um filme depende de muitas pessoas, e ele começou agradecendo às estrelas do filme. Ele agradeceu também ao México, mas não fez um discurso excepcional. Deve ter guardado o restante para depois.

Minha homenageada antes, Emilia Clarke apresentou uma das concorrentes em Melhor Canção do Oscar 2019. Sobre o palco, cantando “I’ll Fight”, a premiada Jennifer Hudson. A música dela aparece apenas nos créditos finais de RBG, mas a canção é realmente uma beleza. Um verdadeiro hino. E Jennifer Hudson deu um show no Oscar – como esperado. De arrepiar.

Na volta do intervalo, Serena Williams apresentou outro indicado a Melhor Filme. O público assistiu ao clipe de A Star Is Born. Outro filme que vai render uma apresentação muito interessante de música nessa noite. De fato, o melhor do filme é justamente a canção de Gaga.

Em seguida, vimos os indicados em Melhor Edição de Som. E o Oscar foi para… Bohemian Rhapsody. Bacana. Ganharam de First Man. Esse pode ser apenas um dos vários prêmios que a produção poderá vencer nessa noite. De fato, o som é um dos destaques da produção. Mas a disputa estava boa. Em seguida, descobrimos o vencedor de Melhor Mixagem de Som. E o Oscar foi para… Bohemian Rhapsody. Opa! O filme já não sairá de mãos vazias nessa noite. Fico feliz por Bohemian Rhapsody e por Black Panther, até agora. Dois filmes muito populares e que mereciam ser reconhecidos no Oscar.

Após um intervalo rápido – estou gostando do ritmo desta noite do Oscar -, Queen Latifah apresenta um outro indicado a Melhor Filme da noite, The Favourite. Um filme também diferenciado – mas que, infelizmente, não sustenta a sua força e tom surpreendente até o final. Mas é um bom filme. Veremos se ela ganha algo nessa noite ou sairá de mãos vazias.

Javier Bardem falando em espanhol… ai, pirei! Lindo! Guapo! Em seguida, os indicados a Melhor Filme em Língua Estrangeira. E o Oscar foi para… Roma. Como era mais que esperado. Ainda preciso assistir a outros filmes indicados nessa categoria este ano, mas não sei… Roma não me encantou como eu achei que iria. Mas ok. Hollywood realmente gosta de Cuarón. O diretor comentou que sempre se inspirou em filmes estrangeiros, e citou vários deles. Comentou também que alguns perguntam sobre a nova onda – de mexicanos, talvez? – mas que não existe uma nova onda, e sim um grande oceano de talentos. Isso é fato. Por isso amo tanto essa categoria.

Na sequência, assistimos à apresentação de outro concorrente em Melhor Canção Original. Beth Midler cantou “The Place Where Lost Things Go”, do filme Mary Poppins Returns. Uma bela escolha de intérprete, devo dizer. Diva. 😉 Até o momento, gostei das escolhas da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood sobre o tom da premiação. Tivemos apenas algumas piadinhas apresentadas no início da noite pelo trio Tina Fey, Maya Rudolph e Amy Poehler. Algumas piadas boas, outras nem tanto. Mas o melhor de tudo: sem prolongar isso a noite toda. Podiam repetir o formato de hoje nos próximos anos.

Só acho que o Cuarón, que já ganhou dois prêmios e deve levar o terceiro como Melhor Diretor, poderia ter compartilhado o palco na categoria Melhor Filme em Língua Estrangeira com o seu elenco, não? Do jeito que ele fez, subindo sozinho pela segunda vez mas “homenageando” as suas atrizes, ele me fez lembrar The Wife (entendedores entenderão #prontofalei).

Na volta do intervalo, o público foi apresentado ao clipe de outro indicado a Melhor Filme nesse ano, Black Panther e o seu Forever Wakanda. Realmente um belo filme baseado em HQ – possivelmente o melhor que vimos até o momento. Em seguida, fomos apresentados aos indicados de uma categoria mega concorrida. Michael Keaton apresentou os indicados em Melhor Edição. E o Oscar foi para… Bohemian Rhapsody.

Opa. Vejam só! Interessante. Com esse Oscar, estou achando que o filme pode ganhar até Melhor Filme, viu? Está ganhando disputas importantes. John Ottman agradeceu a mãe, em primeiro lugar, e depois disse que o filme é fruto do amor de todos os envolvidos, que foram reunidos por Freddie Mercury. Ottman dedicou os filmes aos pais… muito fofo também!

Em seguida, Daniel Craig e Charlize Theron apresentaram a categoria Melhor Ator Coadjuvante. E o Oscar foi para… Mahershala Ali. Posso dizer? Outro favoritíssimo e que mereceu ter ganho por seu trabalho em Green Book. Para mim, esse ano, essa era uma das categorias mais “tranquilas” da noite, já que os demais atores estavam bem, mas sem graaaande destaque. Bem, ainda preciso ver a Richard E. Grant. Mas fiquei feliz por Ali. Grande ator.

Sobre o palco, Mahershala Ali começou agradecendo pela Academia e também ao Dr. Don Shirley. Ele disse que foi um aprendizado trabalhar com Viggo Mortensen e agradeceu ao diretor Peter Farrelly, assim como Octavia Spencer. Também agradeceu a avó, que disse que ele deveria insistir mesmo que não tivesse sucesso, e que deveria sempre insistir. Agradeceu à esposa e à filha. Muito sóbrio e humilde. Realmente parece ser um grande cara.

Na volta do intervalo – mais um rápido -, Laura Dern apresentou o novo Museu da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood. Momento para uma propaganda para a Academia. Achei justo. Na sequência, fomos apresentados os filmes indicados a Melhor Animação. E o Oscar foi para… Spider-Man: Into the Spider-Verse. Tenho que assistir. Eis outro favorito que foi confirmado nessa noite. Mais um grupo de premiados que teve o microfone cortado. Uma lástima.

Em seguida, vemos a apresentação de outra indicada a Melhor Canção Original, “When a Cowboy Trades His Spurs for Wing”, do filme The Ballad of Buster Scruggs. No retorno de mais um intervalo, Mike Myers e Dana Carvey apresentaram a outro indicado como Melhor Filme, Bohemian Rhapsody.

Na sequência, fomos apresentados aos indicados em Melhor Curta de Animação. E o Oscar foi para… Bao. A diretora Domee Shi e a produtora Becky Neiman subiram ao palco para agradecer quem lhes deu oportunidade de fazer o curta e às pessoas da equipe. Becky comentou que ela fez um filme sobre ser uma mãe quando ela também estava aprendendo a ser mãe.

Em seguida, os indicados a Melhor Curta Documentário. E o Oscar foi para… Period. End the Sentence. A diretora Rayka Zehtabchi, muito emocionada, disse que não estava chorando porque estava menstruada, mas porque achava incrível um filme sobre menstruação ganhar o Oscar. A produtora do curta, Melissa Berton, dedicou o filme para estudantes e professores do mundo inteiro – a produção parece ter surgido por iniciativa de estudantes. Bacana. Um dos momentos mais legais da noite.

Esse ano, com a correria que tem sido os meus dias, acabei não falando dos curtas indicados ao Oscar. Mas, quem sabe, faço um post ainda sobre os premiados? Veremos…

Em mais um retorno do intervalo, fomos apresentados ao clipe de outro indicador a Melhor Filme, a produção Roma. Filme que já levou dois Oscar’s nessa noite – e que deve levar mais um, de Melhor Diretor. Na sequência, fomos apresentados aos indicados em Melhores Efeitos Visuais. E o Oscar foi para… First Man. Opa! Gostei. Para mim, um dos melhores filmes do ano. Que ao menos aqui foi reconhecido com um Oscar. Os premiados agradeceram, entre outros, ao diretor Damien Chazelle. Grande diretor.

Em seguida, em uma bela entrada de músicos e de piano em cena, vimos a partir da parte de trás do palco a subida de Bradley Cooper e Lady Gaga até o palco. Os dois para apresentar à melhor parte de A Star Is Born, a música indicada como Melhor Canção Original, Shallow. De arrepiar, realmente. Se o filme merece ganhar algo, é o Oscar por essa música. E a apresentação… para ficar para a história da premiação. De arrepiar. Linda! Vão falar sobre essa apresentação por muitos anos ainda. Grande momento! Depois da apresentação, a plateia aplaudiu Cooper e Gaga de pé. Realmente… 🙂

Após mais um intervalo, fomos apresentados aos indicados em Melhor Curta. E o Oscar foi para… Skin. Sobre o palco Guy Nattiv fala sobre como ele veio há cinco anos de Israel e como a discriminação continua acontecendo e deve ser combatida. Estou bem curiosa para ver esse curta. Aliás, parece que todos os curtas esse ano eram interessantes.

Na sequência, Brie Larson e Samuel L. Jackson apareceram em cena para apresentar os indicados a Melhor Roteiro Original. E o Oscar foi para… Green Book. Será que essa produção vai levar Melhor Filme também? Veremos. Nick Vallelonga, Brian Currie e Peter Farrelly subiram ao palco para agradecer às suas famílias e ao elenco que foi fundamental para a produção.

Na sequência, Brie e Samuel apresentaram aos indicados na categoria Melhor Roteiro Adaptado. E o Oscar foi para… BlacKkKlansman. Vejam só! Bacana. Samuel L. Jackson comemorou muito com o amigo Spike Lee. E o diretor e roteirista foi aplaudido de pé e muito comemorado.

Logo de cara ele pediu para o microfone não ser desligado – o que aconteceu algumas vezes na noite. Lee falou sobre a história dos negros nos Estados Unidos e especialmente sobre a avó, a grande responsável por ele ter feito o cinema e ter feito uma carreira. Ele pediu para as pessoas se mobilizarem e para fazerem a coisa certa – inclusive porque uma nova eleição está se aproximando nos Estados Unidos. Discurso político e muito aplaudido.

Até agora, devo dizer, não achei nenhuma injustiça entre os vencedores. Ok que não assisti a todos os premiados – como Melhor Documentário e Melhor Animação -, mas me parece que havia um certo favoritismo e quase unanimidade nestas categorias. E nas demais, nas quais assisti aos concorrentes, tenho achado justo. E bacana ver uma pulverização de premiações. Já era esperado, aliás.

Passado mais um intervalo, fomos apresentados aos indicados na categoria Melhor Trilha Sonora. E o Oscar foi para… Black Panther. Muito bom! Mais um Oscar para um dos filmes favoritos do público em 2018. Ganhando em sua primeira indicação ao Oscar, Ludwig Goransson compartilha o prêmio com todos os artistas africanos que trabalharam com ele, assim como todos os músicos clássicos de Londres que gravaram a trilha. Agradeceu ainda a família. Singelo e bacana. Simpático.

Em seguida, relembramos os indicados em Melhor Canção Original. E o Oscar foi para… Shallow, de A Star is Born. Merecido. Se tem algo que o filme merecia era esse Oscar. Lady Gaga conseguiu a sua estatueta, portanto. 😉 Lady Gaga emulando a si mesma nas outras premiações, iniciou agradecendo muito os parceiros de composição, a família e Bradley Cooper. Gaga ainda falou para as pessoas que estavam em casa, comentando que o prêmio era o símbolo de ter trabalhado muito. E que não se tratava de ganhar, mas de insistir e de perseverar.

Na sequência, o presidente da Academia, John Bailey, fez uma homenagem os 212 indicados ao Oscar 2019 e à todos os nomes da indústria que morreram desde a última premiação. Diversos nomes muito conhecidos, como Burt Reynolds, Nelson Pereira do Santos, Milos Forman, Stan Lee, Bruno Ganz, Albert Finney, entre tantos outros.

No retorno do intervalo, tivemos um rápido resumo dos prêmios honorários e dos prêmios técnicos que são entregues antes da celebração televisionada do Oscar. Na sequência, Barbra Streisand subiu ao palco e foi ovacionada pela plateia. Ela comentou sobre BlacKkKlansman, de como ela se emocionou ao ver ao filme, e de como ele, apesar de fantástico, era baseado na verdade, e “a verdade é tão importante nos dias de hoje”. Ela diz que teve que elogiar o filme no Twitter e que a partir daí ela começou a trocar mensagens com Spike Lee.

De acordo com a atriz, o diálogo entre eles fluiu de forma natural porque ambos cresceram no Bronx, e brincou que ambos gostam de chapéus. Uma interessante homenagem a uma das produções indicadas a Melhor Filme neste ano. Em seguida, Allison Janney e Gary Oldman sobem ao palco para apresentar os indicados a Melhor Ator. E o Oscar foi para… Rami Malek, por Bohemian Rhapsody. Fiquei feliz. Ele é um grande ator e faz um excelente trabalho como Freddie Mercury.

Logo que sobre ao palco, Malek, que é genial em Mr. Robot, fala sobre a mãe, que está em algum lugar da plateia. Ele fala sobre o pai também, que não chegou a ver o filho fazer tudo isso, mas que o está vendo “lá de cima”. Malek também agradece a todas as pessoas que apostaram nele. Disse que ele não devia ser a escolha óbvia – ele foi o terceiro cotado para o papel, na verdade -, mas que acabou dando certo no fim. Agradeceu ao pessoal do Queen e disse que sempre terá uma dívida com eles. Agradeceu a equipe e o elenco do filme. Um fofo!

“Fizemos um filme sobre um homem gay, imigrante, e que viveu a vida sem pedir desculpas”, comentou. Falou sobre ele também ser americano de primeira geração e que o Malek criança ficaria fascinado de saber onde chegaria, já que ele tinha problemas de identidade no passado. No fim, agradece a Lucy Boynton, sua parceira de cena, que ele disse estar no centro da produção e que lhe roubou o coração. Tentem assistir a Malek em Mr. Robot, se ainda não assistiram. Fiquei feliz pelo ator, que tem uma carreira em pleno crescimento, já ser reconhecido com o Oscar. Realmente ele está gigante como Mercury. Fiquei feliz por ele.

No retorno do intervalo, fomos apresentados para o último indicado na categoria Melhor Filme, a produção Green Book. Um filme singelo, mas cheio de verdade e interessante. Na sequência, Frances McDormand e Sam Rockwell apresentam as indicadas na categoria Melhor Atriz. E o Oscar foi para… Olivia Colman, or The Favourite. Uau! De boas? Merecido, viu? Ela arrasou em The Favourite. Sem dúvida ela e Glenn Close mereciam a estatueta – pena que o Oscar não permite empate.

O filme The Favourite tem no seu elenco o seu grande trunfo, e Olivia está genial. Sobre o palco, ela começa dizendo que é muito estressante toda a situação, assim como hilária. Diz que precisa agradecer a tantas pessoas, começando pelo diretor Yorgos Lanthimos e pelas maravilhosas companheira de cena, Emma Stone e Rachel Weisz. Fala da admiração que sempre teve por Glenn Close e agradece aos familiares, inclusive aos filhos, que ela espera que estejam em casa. Um dos melhores discursos da noite. Engraçadíssima e fantástica em toda a sua emoção.

Olha, eu vou dizer para vocês. Até agora, nenhuma injustiça. Todos os que ganharam o prêmio até agora mereciam. Fiquei feliz pelos que não eram considerados favoritos, mas que venceram, como Malek e Olivia. Porque ambos mereceram. Roubam a cena e se superam nos seus filmes. Bacana. Acho que esse será um Oscar para lembrarmo por algum tempo ainda. Tivemos alguns grandes momentos da noite e muitos talentos reconhecidos. Dá para pedir mais?

No retorno do intervalo, Guillermo del Toro surgiu para apresentar os indicados a Melhor Diretor. E o Oscar foi para… Alfonso Cuarón, por Roma. E, assim, del Toro entregou a estatueta dourada para o seu amigo. Ele brincou que nunca se cansa de subir ao palco, e que espera que del Toro também nunca se canse. Para não variar, agradeceu às atrizes (zzzzz), aos produtores, aos amigos del Toro e Iñarritu e falou sobre o filme, que mostra a importância de não esquecer os “desprezados”. Ok, deu para ti Cuarón. Espero levar muitos anos para vê-lo novamente no Oscar.

Fechando a noite, a linda Julia Roberts subiu ao palco para apresentar os indicados a Melhor Filme. E o Oscar foi para… Green Book. Opa! Então, não é exatamente uma surpresa. O filme já tinha vencido o prêmio dos produtores – e isso costuma ser uma prévia. Bacana. Um filme simples e bem acabado que passa mensagens importantes nesse ano. Não foi injusto, em um ano com diversos filmes que poderiam ter ganho essa estatueta.

O produtor falou que o filme foi feito com carinho, com respeito e com amor. Uma bela mensagem. Peter Farrelly falou que tudo isso é verdade, e que o filme fala sobre como todos são iguais. Também destacou Viggo Mortensen e Mahershala Ali, afirmando que a produção não existiria sem eles. E assim, o Oscar 2019 conseguiu realmente distribuir vários prêmios. O que é sempre positivo e, especialmente este ano, sem um filme que realmente tenha sido arrebatador, bastante coerente.

Agradeço, mais um ano, por quem acompanhou o Oscar aqui pelo blog. Abraços e até o próximo ano! 😉

CONFIRA A LISTA COM TODOS OS PREMIADOS DO OSCAR 2019:

Melhor Filme: Green Book

Melhor Ator: Rami Malek (Bohemian Rhapsody)

Melhor Atriz: Olivia Colman (The Favourite)

Melhor Ator Coadjuvante: Mahershala Ali (Green Book)

Melhor Atriz Coadjuvante: Regina King (If Beale Street Could Talk)

Melhor Diretor: Alfonso Cuarón (Roma)

Melhor Animação: Spider-Man: Into the Spider-Verse

Melhor Filme em Língua Estrangeira: Roma

Melhor Documentário: Free Solo

Melhor Roteiro Adaptado: BlacKkKlansman

Melhor Roteiro Original: Green Book

Melhor Fotografia: Roma

Melhor Figurino: Black Panther

Melhor Edição: Bohemian Rhapsody

Melhor Design de Produção: Black Panther

Melhor Maquiagem e Cabelo: Vice

Melhor Edição de Som: Bohemian Rhapsody

Melhor Mixagem de Som: Bohemian Rhapsody

Melhores Efeitos Visuais: First Man

Melhor Trilha Sonora: Black Panther

Melhor Canção: “Shallow” (A Star Is Born)

Melhor Curta: Skin

Melhor Curta Documentário: Period. End the Sentence

Melhor Curta Animação: Bao

 

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Bohemian Rhapsody

Todo o vigor de uma banda de rock e o talento de cada um de seus integrantes. Demorei para assistir a Bohemian Rhapsody, mas acho que deixei o melhor para o final. Que filme vigoroso, meus amigos! Um verdadeiro deleite para alguém que gosta de rock, como é o meu caso. Direção impecável, edição primorosa e interpretações condizentes com uma história bem contada. Talvez o único “porém” do filme é que ele cuidou muito para agradar à gregos e troianos. Ou seja, tomou muito cuidado para não “expor muito” o homenageado. Mas descontado isso, sem dúvida alguma esse filme é uma bela homenagem do cinema a outra arte fenomenal, a música.

A HISTÓRIA: Começa com uma saudação em um show. Em seguida, com o braço de Freddie Mercury, que acorda, se levanta, tosse e começa a se preparar. Como um apresentar comenta, aquele é o dia do Live Aid em Londres, quando Wembley recebe as altezas reais e mais uma grande multidão para assistir a grandes nomes da música. Enquanto isso, Mercury passa por seus gatos e sai calmamente de casa. O público vai chegando até o estádio de Wembley enquanto escutamos a música do Queen ao fundo e vemos aos preparativos para o grande espetáculo que marcaria a história da banda. Começamos pelo fim, porque logo veremos o que fez o Queen ser tão esperado naquele dia e aquele dia ser tão importante para eles.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Bohemian Rhapsody): Acho que eu devo ter sido uma das últimas pessoas na face da Terra a assistir a esse filme, não? 😉 Piadas à parte, eu realmente demorei para assistir a Bohemian Rhapsody. O que acontece é que, logo que o filme estreou nos cinemas, eu não pude vê-lo. E depois, pouco a pouco, fui priorizando outras produções no lugar dessa.

No fim, acho que foi até bom eu fazer isso. Foi fundamental, por exemplo, eu ter assistido A Star Is Born (comentado por aqui) antes, até para poder comparar que filme trata melhor da questão musical e da construção do sucesso. Eu não tenho dúvidas sobre qual é o filme melhor sucedido nesse sentido. Bohemian Rhapsody, com certeza. Sou suspeita porque eu AMO o rock n’roll, então fiquei encantada com a forma com que o diretor Bryan Singer nos apresenta esse gênero e a construção de uma grande banca com esta produção.

A música é um ponto fundamental do filme, assim como, é claro, o personagem central desta produção. Eu diria que a direção de Singer, a edição de John Ottman e a interpretação de Rami Malek são os trunfos principais desta produção. O roteiro de Anthony McCarten, baseado na história criada por ele junto com Peter Morgan, acerta em cheio ao resgatar a história do Queen, dando protagonismo para a música deles e como ela foi construída.

Para quem gosta de música, especialmente de rock, Bohemian Rhapsody é um verdadeiro deleite por resgatar um “modus operandis” de bandas que não existe mais – especialmente agora, na era do streaming e não dos discos cuidadosamente construídos e lançados com uma proposta artística. Esse filme provavelmente fará muito mais sentido para quem viveu antes do streaming. 😉

Ainda que Malek seja, a exemplo de Mercury, a estrela da banda, Bohemian Rhapsody mostra a importância de cada um dos outros componentes do Queen. Mercury sozinho não teria feito história. Mas todos juntos, cada um com suas ideias e até as chispas que aconteciam entre eles fez o sucesso da banda. Fantástico também ver o processo de criação de algumas das músicas mais icônicas do rock. Impossível não amar tudo o que vemos em cena.

O roteiro, propriamente dito, é bom, mas não é excepcional. Ele segue a cartilha de um filme feito para agradar a maioria. Por isso, ele começa com um fato marcante, o show Live Aid, e depois faz um retrocesso na história até chegar à Londres de 1970, quando Freddie (ainda não Mercury) trabalha como apoio no aeroporto. Só depois ele assiste a um show de Brian May (Gwilym Lee) e Roger Taylor (Ben Hardy) pouco antes deles perderem o seu vocalista.

Vendo a potência de uma banda de rock em incluir os “excluídos”, como ele se sentia, Freddie adota o sobrenome Mercury e se convida para participar da banda de May e Taylor. E assim surge o Queen. O filme então conta como foi a trajetória deles e como, depois de fazer sucesso nos EUA, eles confrontam um executivo da EMI para lançar o álbum que eles desejavam – e que, convenhamos, não apenas não era unanimidade entre a crítica como, até hoje, é considerado bastante ousado.

Mas ignorando muitas perspectivas, o Queen decola após aquele álbum. Vemos essa ascensão, assim como as descobertas que Freddie Mercury faz sobre si mesmo. Verdade que ele sempre teve um grande amor por Mary Austin (Lucy Boynton), mas esse amor acaba não se consolidando porque ele descobre os prazeres e os exageros trazidos pelo sucesso. Nessa parte que eu acho que o filme acaba fazendo escolhas um tanto “convencionais” demais, para dizer o mínimo.

Segundo o filme, apenas o “manager” de Mercury, Paul Prenter (Allen Leech) era gay assumido e trazia diversos “rapazes” para orgias perto de Mercury. Mas convenhamos que isso deveria ser bem diferente na vida real. Algo nesse sentido é sugerido apenas quando, mais para o final do filme, Mary vai visitar Freddie e vemos ele dormindo em meio à várias drogas e Paul chegando pouco depois com vários rapazes. Ora, nem todos os presentes seriam só para ele, não é mesmo?

Mas o que eu acho que foram escolhas convencionais do filme, e sem necessidade – exceto para cair mais no gosto do público em geral -, tiveram a ver com isso, de não mostrar Freddie beijando ou se relacionando com diversos homens, assim como tendo mergulhado em drogas e afins, como deve ter acontecido. O que acontece é que Bohemian Rhapsody é um filme de homenagem e, sendo assim, melhor não mostrar os pontos mais “controversos” ou polêmicos do personagem.

Se isso tudo não é mostrado tão às claras como deveria ou poderia, por outro lado a solidão e as controvérsias do personagem central são bem explorados. Além deste mergulho na vida de Mercury, o realmente interessante do filme é mostrar como algumas músicas icônicas foram construídas e como o Queen se formou e cresceu – e quase terminou por causa de um assessoramento equivocado e egoísta oferecido por Paul.

Gostei muito da forma com que essa produção é construída e narrada. Acho que a direção e a edição contam muito para que tenhamos um filme com linguagem artística diferenciada. Sem contar o genial trabalho de Malek, que está realmente impressionante no papel. Enfim, Bohemian Rhapsody tem força, encanto e fascínio. Apesar de seu caminho que evita polêmicas e um mergulho realmente fundo no personagem, o filme entrega uma experiência musical, de interpretação e de reconstituição de época primorosos. Desta temporada, sem dúvida alguma, um dos melhores filmes – se não o melhor.

NOTA: 9,7.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Bohemian Rhapsody começa a se diferenciar já nos primeiros segundos, na introdução com acordes de guitarra na abertura do filme e na apresentação da música clássica do estúdio. Uma bela sacada, aliás.

Entre os elementos de destaque desta produção, sem dúvida alguma preciso falar da ótima e inspirada direção de Bryan Singer – praticamente não citado por ninguém por causa dos problemas que ele teve no set de filmagens, inclusive com Malek – e da excelente edição de John Ottman. Outro diferencial do filme é a interpretação vigorosa, atenta aos detalhes e sensível de Rami Malek como Freddie Mercury.

O roteiro de Anthony McCarten, baseado na história dele com Peter Morgan, tem muitos acertos, mas também uma certa dose de conservadorismo ou mesmo de covardia. Acho que o filme acerta na aposta na música, mas erra ao não se aprofundar na parte mais controversa de Mercury. Eu gostaria de saber mais da sua vida e das suas paixões além do verdadeiro amor que ele nutriu por Mary – de quem foi amigo até o final da vida.

Além do excelente – e digno de diversos prêmios – trabalho de Malek como Mercury, vale comentar o ótimo trabalho dos demais atores que interpretam aos demais componentes da banda. Estão muito bem, em seus respectivos papéis, Gwilym Lee como Brian May; Ben Hardy como Roger Taylor; e Joseph Mazzello como John Deacon. Bacana a forma com que a produção valorizou o talento de cada um deles e o seu papel em grandes sucessos do Queen. Esse é um dos acertos do filme, sem dúvida.

O bom trabalho, contudo, não acaba nos atores que interpretam as pessoas que deram vida ao Queen. Vale comentar ainda o bom trabalho de outros coadjuvantes, como Lucy Boynton como Mary Austin; Aidan Gillen como John Reid; Allen Leech como Paul Prenter; Tom Hollander como Jim Beach; Mike Myers como Ray Foster; Aaron McCusker como Jim Hutton – uma parte da história um tanto mal contada; Meneka Das como Jer Bulsara; Ace Bhatti como Bomi Bulsara; Priya Blackburn como Kashmira Bulsara; e Dermot Murphy como Bob Geldof.

Até o momento, Bohemian Rhapsody ganhou 23 prêmios e foi indicado a outros 65, incluindo 5 indicações no Oscar 2019. Entre os prêmios que recebeu, destaque para os de Melhor Filme – Drama e de Melhor Ator – Drama para Rami Malek no Globo de Ouro 2019; para os de Melhor Ator para Rami Malek e Melhor Som no BAFTA; o de Melhor Ator no Screen Actors Guild Awards; e para outros 10 prêmios de Melhor Ator para Malek.

Logo mais falarei de outros aspectos técnicos da produção e de curiosidades do filme. Por agora, estou correndo para publicar isso antes da premiação do Oscar. Complemento esses comentários de pé de página em outra ocasião. 😉 Agora sim, passado o Oscar e também aproveitando a folga do feriado, bóra lá complementar esse post.

Só faltou falar, por aqui, de algumas curiosidades envolvendo a produção de Bohemian Rhapsody. Então vamos à elas. A interpretação de Rami Malek é realmente algo impressionante. Para que ele tivesse um desempenho tão perfeito, especialmente nas “simulações” de apresentações de Freddie Mercury, a coreógrafa e treinadora de movimentos britânica Polly Bennett trabalhou de forma meticulosa com o ator para que ele conseguisse aperfeiçoar cada nuance dos maneirismos e movimentos de Mercury. Os olhares, as viradas de corpo, cada movimento no palco e ao microfone foram trabalhados de forma meticulosa. Percebemos isso nos cinemas.

O guitarrista Brian May e o baterista Roger Taylor, integrantes originais do Queen, fizeram o arranjo para a trilha de entrada do filme durante a apresentação do estúdio 20th Century Fox.

O cantor canadense Marc Martel emprestou a sua voz para o filme. O que ouvimos em cena, durante a produção, é uma mescla das vozes de Marc Martel, Rami Malek e do próprio Freddie Mercury. Em uma entrevista, Malek disse que o seu canto foi perfeitamente mesclado com os de Freddie e Martel.

O alcance vocal de Freddie Mercury se estendia a três oitavas, apesar de que houve rumores de que ele poderia se estender a quatro oitavas. Em 2016, um grupo de biofísicos e de pesquisadores médicos concluiu que as cordas vocais de Mercury se moviam mais rápido do que a média dos cantores.

O show do Queen no Live Aid é considerado, pela maioria dos críticos, como uma das melhores performances ao vivo da história do rock. Em uma pesquisa do Channel Four feita em 2005 e que envolveu mais de 60 artistas, jornalistas e executivos do setor musical, o Queen’s Live Aid foi considerada a maior performance ao vivo do mundo.

Mary Austin e Freddie Mercury realmente tiveram um envolvimento forte por grande parte da vida de ambos. Mesmo após o romance deles terem terminado, eles continuaram próximos. Tanto que Mercury deixou grande parte de sua propriedade e a mansão que ele tinha em Londres, a Garden Lodge, para Mary no seu testamento. De fato a música Love Of My Life foi feita por Mercury e dedicada a Mary.

Interessante a relação de Freddie Mercury com os seus gatos. Na biografia do artista escrita por Lesley-Ann Jones, amigos de Mercury contaram que ele costumava ligar para casa, durante as turnês, pedindo para falar com os gatos. Ele também pedia que a TV sempre estivesse ligada na transmissão dos seus shows ao vivo para que os gatos pudessem vê-lo no palco. Entre os gatos, Delilah foi a sua favorita, inclusive sendo homenageada com uma música no álbum Innuendo.

Antes da famosa apresentação no Live Aid, em julho de 1985, o Queen estava em certa decadência nos Estados Unidos. Um dos fatores que fizeram a banda perder terreno em solo americano foi o lançamento do clipe I Wanna Break Free, em que os músicos estavam vestidos como drag queens. O vídeo foi considerado “ofensivo” por várias redes conservadoras da época, que barraram a sua transmissão – inclusive a MTV se recusou a mostrá-lo. Por causa disso, a música conseguiu apenas a posição 46ª nas paradas americanas – enquanto nos países europeus ela ficou no top 10 – no Reino Unido ela ficou em 3º lugar.

Freddie Mercury costumava dizer que o Queen era uma banda composta por quatro artistas solo que decidiram colaborar em um único projeto.

Os colegas de banda de Mercury atribuíram a Paul Prenter, assistente pessoal de Mercury, a responsabilidade pelo fornecimento de drogas e do estilo de vida com festas constante de celebridade do rock que marcaram parte da trajetória do cantor. Em última análise, Prenter tornou-se o gerente pessoal de Mercury, recusando entrevistas e cuidando de ter uma influência grande nas decisões e na rotina do artista.

O show no Rio de Janeiro mostrado no filme ocorreu, na verdade, em janeiro de 1985 e não em meados dos anos 1970, como Bohemian Rhapsody sugere. No início de 1985 o Queen se apresentou durante duas noites no Rock in Rio. Cada noite destas com um público de cerca de 250 mil pessoas. No dia 11 de janeiro o show deles foi precedido por Whitesnake e Iron Maiden. No dia 18 de janeiro, por Go-Go’s e The B-52. A multidão cantando junto com Mercury, como o filme mostra, realmente aconteceu.

O videoclipe de I Want to Break Free é uma paródia da novela britânica popular Coronation Street. No Reino Unido, como o clipe foi entendido como uma paródia, a música chegou até a terceira posição nas paradas. Nos Estados Unidos esse contexto não foi entendido e o vídeo foi barrado por muitas emissoras.

Na década de 1960, Freddie Mercury diplomou-se em Arte e Design Gráfico na Isleworth Polytechnic em Londres. Ele é o responsável pelo design do logotipo do Queen, que apresenta os signos do zodíaco de cada integrante da banda.

O estádio de Wimbley foi remodelado, demolido e reconstruído várias vezes ao longo dos anos. Apesar disso, não haviam plantas ou desenhos remanescentes do estádio quando do show em 1985. Por causa disso a equipe de design de produção de Bohemian Rhapsody teve que estudar vídeos e as fotografias que foram tiradas na época para projetar e parcialmente reconstruir o estádio como ele era quando do Live Aid.

Paul Prenter foi expulso do círculo de Freddie Mercury em 1986, depois que foi descoberto que ele praticamente “dizimou” o apartamento de Mercury no Stafford Terrace após uma festa que saiu do controle e para a qual ele não tinha autorização para fazer – e que nem foi do conhecimento de Mercury.

De acordo com a BBC, a produção do filme foi difícil porque tantos os produtores quanto o astro Rami Malek começaram a se cansar dos atrasos e dos “desaparecimentos” cada vez mais frequentes do diretor Bryan Singer. Em 2017, após o feriado de Ação de Graças, veio a gota d’água. Depois de faltar durante três dias seguidos dos sets de filmagens, alegando que precisava resolver um assunto de família – período no qual o diretor de fotografia Newton Thomas Sigel assumiu a direção -, o estúdio resolveu demitir Singer. A Fox começou então a procurar um diretor que terminasse as filmagens – faltavam cerca de duas semanas para os trabalhos terminarem -, fizesse a pós-produção e possíveis refilmagens. Foi aí que entrou em cena o diretor Dexter Fletcher.

Jim Hutton era um cabeleireiro irlandês que conheceu Freddie Mercury em um bar gay em Londres. Na primeira vez em que se encontraram, Hutton recusou uma bebida que Mercury ofereceu para ele. Um ano depois, quando os dois votaram a se encontrar, Hutton aceitou tomar uma bebida com ele.

Roger Taylor foi o primeiro membro do Queen a se lançar em uma carreira solo. Em 1977 ele lançou um single solo e, em 1980, começou a trabalhar em um álbum solo enquanto o Queen estava na produção de seu oitavo álbum de estúdio, The Game.

O ator Rami Malek usa peruca e prótese dentária em todas as cenas do filme.

Ao contrário de fontes que dizem que Mercury descobriu que era HIV positivo apenas após o Live Aid, o repórter e amigo de longa data do músico, David Wigg, disse que Mercury soube que tinha AIDS sete anos antes de morrer, ou seja, ele descobriu o diagnóstico em 1984.

O filme mostra Freddie Mercury isolado em Munique para gravar o seu primeiro álbum solo. Mas, na verdade, enquanto ele trabalhava nesse álbum solo, ele também seguiu trabalhando com o Queen, com quem ele gravou vários álbuns entre 1979 (The Game) e 1986 (A Kind of Magic).

A família Bulsara emigrou para a Inglaterra quando Freddie tinha 17 anos de idade para escapar da Revolução de Zanzibar. Os pais dele, Bomi e Jer, vieram de Mumbai e se mudaram para a Tanzânia quando o garoto nasceu. Ou seja, viajaram bastante antes de fincar a bandeira definitivamente nos EUA.

A entrevista na TV de Paul Prenter mostrada em Bohemian Rhapsody é fictícia. Apesar disso, de fato Prenter deu várias entrevista para o jornal The Sun depois que foi demitido, revelando vários segredos que eram mantido por Mercury.

Freddie Mercury escondeu que tinha AIDS por muitos anos. Apenas quando a aparência dele começou a mudar com maior intensidade é que ele falou para os amigos da banda e para algumas outras pessoas próximas que ele estava doente.

Mercury e Roger Taylor não se conheceram apenas após uma noite em que a banda Smile tocou. Os dois tinham juntos uma barraca de roupas usadas no mercado de Kensington. Além disso, Brian May conheceu Mary Austin e começou a sair com ela, ao mesmo tempo em que Freddie a conheceu na loja Biba. Como May e Mary não deram muito certo, Freddie disse para ele que estava interessado nela e aí começou a investir no relacionamento com Mary. Os dois ficaram juntos e ela chegou a ser pedida em casamento, mas eles acabaram não efetivando essa união.

Antes de entrar na banda Smile, Freddie Mercury tinha participado de duas outras bandas: Ibex (que depois mudou de nome para Wreckage) e Sour Milk Sea. Essas bandas eram “amigas” de Smile, ou seja, Mercury já era conhecido dos dois antes de pedir para fazer parte da banda deles.

Os usuários do site IMDb deram a nota 8,1 para Bohemian Rhapsody, enquanto que os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 219 críticas positivas e 140 negativas para esta produção (o que lhe garante uma aprovação de 61% e uma nota média de 6,1). O site Metacritic apresenta um “metascore” 49 para Bohemian Rhapsody, resultado de 17 críticas positivas, 23 medianas e 10 negativas. Sem dúvida alguma, é o filme que concorre na categoria Melhor Filme do Oscar com o menor nível de aprovação entre os críticos nesse ano.

De acordo com o site Box Office Mojo, Bohemian Rhapsody, que teria custado cerca de US$ 52 milhões, teria faturado, apenas nos Estados Unidos, US$ 213,1 milhões e, nos outros mercados em que o filme estreou, outros US$ 647,7 milhões. Ou seja, no total, o filme teria somado quase US$ 860,9 milhões, um tremendo sucesso de bilheteria -e um belo lucro para os seus produtores. O filme só não teve um sucesso maior, entre os concorrentes ao Oscar de Melhor Filme, do que Black Panther, que conseguiu, a nível global, quase US$ 1,35 bilhão.

Bohemian Rhapsody é uma coprodução do Reino Unido com os Estados Unidos. Por ser uma produção também dos Estados Unidos, o filme atende a uma votação feita há algum tempo aqui no blog.

CONCLUSÃO: Toda a energia contagiante do rock em um filme exemplar sobre uma banda que entrou para a história. Temos muita música em cena, além de um roteiro que busca homenagear o líder dessa banda. Bohemian Rhapody é um filme tecnicamente perfeito, que valoriza muito bem a música mas que falha um pouco ao apresentar o seu personagem principal. O roteiro não mergulha no líder do Queen de maneira perfeita, porque o personagem acaba não sendo tão complexo quanto deve ter sido na vida real. Chama a atenção, especialmente, como o filme explora pouco a homossexualidade do personagem, evitando dele aparecer em alguma cena mais erótica com outro homem, assim como trata pouco de seu envolvimento com as drogas. Ainda assim, é um filme emocionante e que enaltece as qualidades do rock como poucos. Vale ser visto e apreciado. Para mim, o melhor filme desta temporada.

PALPITES PARA O OSCAR 2019: Bohemian Rhapsody está indicado em 5 categorias da premiação anual da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood. O filme concorre em Melhor Edição; Melhor Edição de Som; Melhor Mixagem de Som; Melhor Ator para Rami Malek; e Melhor Filme. Não deixa de chamar a atenção que o filme não concorre em diversas categorias principais, com destaque para a sua ausência em Melhor Diretor e Melhor Roteiro Original.

Olhando, francamente, para as categorias em que o filme foi indicado, apesar dele ter me encantado e ter feito o mesmo com grande parte do público, acho, honestamente, que ele tem poucas chances de premiação. Pelo menos quando olhamos para a categoria principal, Melhor Filme. Honestamente? Nesta temporada do Oscar, que considero uma das mais fracas dos últimos anos – ou da última década -, acho que tanto Bohemian Rhapsody quanto Green Book (favorito por ter vencido o prêmio dos produtores) ou The Favourite tem chances de levar o prêmio principal.

Bohemian Rhapsody, apesar de “aliviar” bastante a barra do homenageado, tem muitas qualidades para ser considerado o Melhor Filme desta temporada. Seria o meu favorito, caso o meu voto valesse para algo. Mas falando de chances reais do filme… bem, em um ano tão incerto, ele até pode levar.

Mas acho que a maior chance do filme vencer está nas categorias Melhor Ator – ainda que Rami Malek tenha que vencer a queda de braços com Christian Bale, outro forte candidato por Vice (comentado por aqui) – e Melhor Edição (com fortes candidatos a vencer, como Vice e The Favourite, este último com crítica neste link).

E nas outras categorias, Melhor Edição de Som e Melhor Mixagem de Som? Mais uma vez, a concorrência é forte. Em Melhor Edição de Som, Bohemian tem que vencer First Man (comentado aqui), Black Panther (com crítica neste link) e A Quiet Place (comentado aqui), outros trabalhos excelentes nesse quesito. Em Melhor Mixagem de Som, os grandes concorrentes seguem sendo First Man e Black Panther. Difícil prever um vencedor – ainda que eu achei que First Man pode levar alguma vantagem na disputa.

Dito isso, acho que tudo vai depender do humor dos votantes da Academia. Eles podem tanto consagrar Bohemian Rhapsody com os prêmios de Melhor Filme e Melhor Ator como podem ignorar solenemente a produção. Nas categorias técnicas, novamente vai depender do humor dos votantes, porque há filmes tão bom ou melhores que Bohemian nos respectivos requisitos. Se eu fosse chutar, diria que Bohemian ganhará os dois prêmios principais, e que esse ano, novamente, teremos uma certa “partilha” e distribuição dos prêmios entre diversos filmes. Veremos logo mais. 😉

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Vice

Alguém que chega à Vice-Presidência de um país tem que ter influência e uma trajetória cheia de aliados. Mas algumas vezes alguns vice-presidentes parecem ter saído quase do anonimato. Esses, muitas vezes, são os mais perigosos. Vice nos conta a história de uma figura importante dos Estados Unidos que fez um bom estrago enquanto esteve no poder. Raposa antiga do sistema, ele soube inclusive moldar o próprio cargo, dando para o vice mais poder do que os Estados Unidos estão acostumados. Um filme interessante, muito bem construído e contundente na sua crítica. Uma das boas pedidas desta temporada do Oscar.

A HISTÓRIA: Começa dizendo que a história a seguir é real. Ou tanto quanto possível, levando em conta que Dick Cheney é considerado um dos líderes mais reservados da história. Mas eles comentam que fizeram o melhor. Em uma noite de jogos e bebidas, alguém urra alto. Na cidade de Casper, Wyoming, em 1963, um motorista dirige de forma arriscada. Dentro do carro, o jovem Dick Cheney (Christian Bale), que é abordado por um policial, que lhe manda sair do veículo. Ele está caindo de bêbado. Corta. Em 2011, esse mesmo Dick Cheney é levado para uma sala de segurança após os ataques do 11 de setembro de 2011 começarem. Ali ele começa a mudar a história dos EUA.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Vice): Quem diria que o grande vilão da administração George W. Bush (interpretado por Sam Rockwell) não foi o próprio Bush, e sim o seu vice-presidente Dick Cheney. Morando no Brasil, e não nos Estados Unidos, nós acompanhamos os bastidores políticos dos Estados Unidos totalmente em segundo plano. Quem mora por lá deve ter outra visão sobre Cheney e Bush.

Adoro filmes que tratam sobre os bastidores da política e sobre figuras que foram determinantes para a vida de um país – ou tiveram efeito maior do que as suas fronteiras, influenciando inclusive as relações internacionais. Volta e meia Hollywood nos apresenta um filme que vai além na análise política e econômica e que nos mostra as “engrenagens do poder”. Gosto de produções do gênero.

A última nesse estilo que concorreu ao Oscar de Melhor Filme foi, olhem a coincidência, uma produção também estrelada por Christian Bale – e que tinha Steve Carell no elenco. Falo de The Big Short (comentado por aqui), que tratava sobre o colapso gerado nos Estados Unidos, no setor imobiliário e que chegou ao setor financeiro, e que desencadeou a crise financeira global de 2008.

Entre os filmes que eu assisti esse ano, e que concorrem ao Oscar de Melhor Filme, Vice foi o que me pareceu mais ousado na sua proposta. O filme é crítico e tem um roteiro um bocado ácido e criativo acima da média. Mérito do roteirista e diretor Adam McKay. Sem dúvida alguma ele é o grande responsável pela proposta desta produção.

Mergulhamos na figura de Dick Cheney, um sujeito que foi preso duas vezes por fazer estripulias regadas a bebedeira quando jovem e que teria tudo para ser um americano comum e relativamente “fracassado” se não fosse a pressão e cobrança da esposa Lynne Cheney (Amy Adams), que exigiu que o marido tomasse outro rumo e recuperasse a compostura em 1963 – após a segunda prisão, desta vez por dirigir bêbado.

Na verdade, e isso é muito interessante, Cheney acaba sendo vice-presidente dos Estados Unidos na capa de George W. Bush, um outro sujeito que também teve vários problemas quando jovem e que poderia ter sido um “loser”. Ambos, contudo, seguindo caminhos diferentes e motivados por razões distintas, acabaram se tornando presidente e vice-presidente dos Estados Unidos, um dos países mais poderosos do mundo.

Adam McKay acerta na mosca na sua narrativa mostrando as sutilezas da história, como algumas decisões, em determinados momentos das vidas dos personagens retratados, foram decisivas para o rumo da história. Quando jovem, Cheney poderia ter seguido um caminho que o levaria a ter sempre empregos de segunda e se separar de Lynne. Mas, ao ser pressionado, ele resolve fazer algo diferente, e é assim que ele se torna assessor de outra figura muito conhecida na política dos Estados Unidos, Donald Rumsfeld (Steve Carell).

Para mim, o grande interesse de Vice é justamente nos apresentar um retrato muito próximo – e sem filtros – destas figuras famosas da política americana, especialmente Cheney, Rumsfeld e Bush. Com destaque para os dois primeiros nessa história – até porque ambos tiveram uma trajetória anterior à de Bush. O tom do filme, crítico, cínico e mordaz, destaca ele em relação à maioria dos filmes que concorrem ao Oscar nesse ano. Gostei disso. O roteiro de Vice, assim como a direção e a edição do filme, são as suas principais qualidades.

Gostei da “brincadeira” que McKay faz com os espectadores quando o filme não tinha chegado ainda à metade. Ele mostra um “final feliz” que teria sido possível, com Cheney deixando a política e trabalhando para o setor privado. Mas não é isso que acontece. Cheney, que, certa vez, pergunta para Rumsfeld no que eles, republicanos, acreditam – o que despertou gargalhadas do “mestre” Rumsfeld -, vislumbra que pode ser o vice-presidente mais importante da história dos Estados Unidos.

Para isso, ele consulta especialistas na Constituição americana e consegue colocar condições para Bush para que ele seja o vice-presidente. Cheney convence Bush a “dividir” mas o poder com ele, para que ele não seja apenas uma figura sem importância, e Bush aceita a proposta. Quando acontecem os ataques terroristas do dia 11 de setembro de 2001, Cheney coloca outra das suas ideias em cena: a teoria do Executivo Unitário, ou seja, que o poder executivo dos Estados Unidos pode ser considerado supremo, tomar decisões que não precisam respeitar convenções internacionais ou outros acordos e legislações. Ou seja, um poder “democrático” com requintes de poder ditatorial.

Foi essa teoria que fez com que a “guerra ao terror” fosse possível. A partir daí, criou-se Guantánamo e diversas outras estratégias e práticas que incluíram torturas de suspeitos e espionagem de todo e qualquer cidadão. Tudo isso, quem diria, não saiu da cabeça “alucinada” de George W. Bush, mas da teoria há muito tempo estudada por Cheney. A narrativa sobre a sua trajetória e sobre aqueles anos loucos da administração Bush são o principal atrativo e diferencial de Vice.

Além das qualidades já comentadas, gostei muito do trabalho dos atores que fazem parte desta produção, com destaque para Christian Bale, que encarnou muito bem Cheney, e de Amy Adams como a sua esposa. (SPOILER – não leia se você não assistiu a Vice). Um filme competente e muito bem acabado, mas que acaba “forçando” um pouco a barra com o narrador da história. Achei um tanto “viagem” demais de McKay colocar como narrador Kurt (Jesse Plemons), um sujeito que serviu o Exército dos Estados Unidos e que tem como “ligação” com o protagonista o fato de ter doado para ele, após ter tido morte cerebral após ser atropelado, o seu coração.

Até acho interessante a figura de um narrador para esta produção, mas a figura escolhida para isso, achei um tanto forçada. Vice também nos deixa um gostinho de “quero mais”, de sabermos sobre outras figuras poderosas que circundaram Bush e sobre o que aconteceu com Cheney depois que a história termina.

Ainda assim, o filme tem muito mais qualidades que defeitos, o que faz dele uma das produções mais interessantes do ano. Vale ser vista e pensarmos sobre ela. Afinal, mas do que nunca, deveríamos pensar sobre a trajetória e a história dos nossos governantes, estudando as suas origens, ligações e o que eles pensam. Do contrário, nossos países e o mundo podem seguir caminhos perigosos. Ou seja, Vice é um filme mais que atual. Ele é necessário.

NOTA: 9,5.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Estou atrasada com a publicação de críticas aqui no blog, devo dizer. Assisti à Vice há mais de uma semana. Em seguida, assisti ao último filme que faltava da lista de concorrentes a Melhor Filme no Oscar 2019 – ou seja, finalmente assisti a Bohemian Rhapsody. O que eu posso dizer sobre o que eu assisti? Que estamos em um dos anos mais fracos em relação aos concorrentes do Oscar do qual eu tenho lembrança. Na verdade, pouco a pouco, tenho visto os indicados ao Oscar nos convencerem menos do que gostaríamos. Sim, temos a ótimos filmes na disputa. Mas temos filmes inesquecíveis? Temos na lista produções que nos impactaram e que nos fazem torcer por elas? Para o meu gosto, não.

De todos os concorrentes deste ano, acho que Bohemian Rhapsody é o filme mais completo e “empolgante”. Ou seja, não será uma surpresa se ele ganhar como Melhor Filme. Além dele, eu gosto muito de Vice. Não acho que o filme tenha chances de ganhar na categoria principal hoje à noite, mas acho que ele é um dos dois melhores filmes do ano. Além de Bohemian Rhapsody, que me parece ser o favorito da noite, acho que Green Book tem alguma chance de se dar bem na categoria Melhor Filme. Logo mais veremos.

Como comentei acima, as maiores qualidades de Vice são o roteiro e a direção de Adam McKay. O diretor e roteirista dá o tom diferenciado desta produção, nos apresentando uma história bem focada em um personagem e nas pessoas que orbitaram ao redor dele, aprofundando-se o máximo possível no protagonista e nos apresentando com talento não apenas os bastidores da sua vida mas também o que as suas ações significaram para o mundo. Roteiro realmente brilhante, juntamente com a construção em imagens de sua narrativa.

Por isso, além da direção e do roteiro de McKay, destaco a excelente edição de Hank Corwin e a direção de fotografia de Greig Fraser. Vale comentar, ainda, a trilha sonora de Nicholas Britell; o design de produção de Patrice Vermette; a direção de arte de David Meyer, Brad Ricker e Dean Wolcott; a decoração de set de Jan Pascale e David Smith; os figurinos de Susan Matheson; e o excelente trabalho dos 23 profissionais envolvidos com o trabalho no Departamento de Maquiagem.

Do elenco, sem dúvida alguma o grande destaque é Christian Bale. Ele conseguiu emular Dick Cheney com perfeição – seu jeito de olhar, de andar e, principalmente, de falar. Impressionante o trabalho do ator. Conseguimos esquecer, muitas vezes, que é Bale quem está em cena – e pensamos em Cheney. Excelente trabalho e que poderá levar o ator a ganhar mais um Oscar – o grande nome que ele precisa “vencer” no Oscar hoje será Rami Malek, que também está ótimo como Freddie Mercury em Bohemian Rhapsody. Será uma disputa das boas.

Além de Bale, vale comentar o ótimo trabalho de Amy Adams como Lynne Cheney e de Steve Carell como Donald Rumsfeld – acho, inclusive, que Carell merecia mais uma indicação ao Oscar como coadjuvante do que Sam Rockwell como George W. Bush. Ainda que, claro, Rockwell esteja bem. Além deles, vale citar o bom trabalho de Alison Pill como a filha homossexual de Cheney, Mary; Eddie Marsan como Paul Wolfowitz, aliado de Cheney; Justin Kirk como Scooter Libby; LisaGay Hamilton em uma ponta como Condoleezza Rice; Jesse Plemons como Kurt, narrador da história; Bill Camp como Gerald Ford; Don McManus como David Addington; Lily Rabe como Liz Cheney, que segue os passos do pai; e Tyler Perry em uma ponta como Colin Powell.

Vice estreou nos Estados Unidos no dia 12 de dezembro de 2018. A produção participou de apenas dois festivais, desde então, o PAC Festival e o Festival Internacional de Cinema de Berlin. Em sua trajetória até o momento, Vice ganhou 28 prêmios e foi indicado a outros 115 – incluindo oito indicações ao Oscar 2019. Entre os prêmios que recebeu, destaque para o de Melhor Ator – Musical ou Comédia para Christian Bale no Globo de Ouro 2019; o de Melhor Edição no BAFTA; e para outros 8 prêmios de Melhor Ator para Christian Bale.

Agora, vale citar algumas curiosidades sobre esta produção. O ator Christian Bale disse que, devido ao estilo de direção voltada para a improvisação de Adam McKay, ele teve que fazer mais pesquisas sobre o seu personagem para este filme do que qualquer outro papel que ele já tivesse desempenhado. Para improvisar dentro de seu personagem, Bale não precisava apenas “absorver” os maneirismos e o vernáculo de Dick Cheney como precisava, também, saber quais políticas, suas instâncias e abreviações o vice-presidente dominaria em qualquer momento da produção levando em conta a sua trajetória. Um trabalho realmente aprofundado e que convence.

Christian Bale engordou 45 quilos, raspou a cabeça, clareou as sobrancelhas e se esforçou para engrossar o pescoço para assumir a figura de Cheney. O ator disse que conseguiu engordar para o filme comendo muitas tortas. Realmente o trabalho dele é impressionante. Não sei se bato mais palmas para Bale ou para Malek, mas ambos estão fantásticos em seus respectivos papéis.

Como Cheney teve problemas cardíacos bem documentados durante a maior parte da sua vida adulta, Bale teve de estudar a prevenção de ataques cardíacos como parte de seu método de mergulho no personagem. O que ele aprendeu ajudou a salvar a vida do diretor Adam McKay, que teve um ataque cardíaco durante a pós-produção.

A atriz Amy Adams permaneceu com o seu personagem durante todo o tempo das filmagens, especialmente mantendo a voz diferenciada da sua personagem. Ela chegou a debater política com o diretor McKay com a voz de sua personagem. A atriz disse que essa foi a primeira vez que ela ficou imersa no personagem durante toda a filmagem.

Bale disse que essa foi a primeira vez que ele contou com um nutricionista para ajudá-lo a ganhar peso. Isso porque, desta vez, ele estava mais preocupado em manter a saúde do que quando era mais jovem.

Christian Bale e Dick Cheney fazem aniversário no mesmo dia, 30 de janeiro.

Esse é o primeiro filme de Hollywood que foca na vida real de um vice-presidente do país – normalmente o que vemos são filmes sobre homens que chegaram à Presidência.

(SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme ainda). A sequência em que Bale “quebra a quarta parede”, ou seja, em que faz o seu personagem falar com os espectadores, foi sugerida pelo ator. Inicialmente McKay não tinha pensado naquela cena e estava um pouco resistente a incluí-la, mas ao ver o desempenho de Bale, ele resolveu utilizá-la. De fato, naquele momento, Bale dá um show de interpretação e demonstra como ele realmente mergulhou no personagem.

Os usuários do site IMDb deram a nota 7,2 para Vice, enquanto que os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 207 críticas positivas e 107 negativas para a produção – o que lhe garante uma aprovação de 66% e uma nota média de 6,7. O site Metacritic apresenta um “metascore” de 61 para Vice, fruto de 29 críticas positivas, 14 medianas e 11 negativas. Sem dúvida alguma é o filme com menor aprovação dos críticos entre aqueles que concorrem a Melhor Filme no Oscar 2019.

De acordo com o site Box Office Mojo, Vice teria arrecadado US$ 47,2 milhões nas bilheterias dos Estados Unidos e outros US$ 16,5 milhões nas bilheterias dos outros países em que o filme estreou. Ou seja, no total, o filme fez pouco mais de US$ 63,7 milhões, um bom resultado para um filme com uma carga tão fortemente política – o que, convenhamos, não é o perfil favorito da maioria do público.

Vice é uma produção 100% dos Estados Unidos, por isso esse filme passa a figurar na lista de produções que atendem à uma votação feita há algum tempo aqui no blog e que pedia por filmes made in USA.

CONCLUSÃO: Um filme que mergulha muito bem na história de um vice-presidente dos Estados Unidos que teve mais poder que o próprio líder do país. Bem narrado, com um roteiro ácido, crítico e que apresenta alguma inovação não apenas na narrativa, mas também na forma de apresentar essa história, Vice é um dos melhores filme do ano e desta temporada do Oscar. Entre os concorrentes deste ano, este é um dos melhores, especialmente por inovar na narrativa. Gostei muito da direção e do roteiro, e os atores estão muito bem. Mereceu as indicações recebidas, mas deve levar poucos prêmios para casa. Espero que mais filmes assim surjam. Filme político, crítico e necessário.

PALPITES PARA O OSCAR 2019: Vice concorre a oito prêmios na premiação da Academia de Arte e Ciência Cinematográfica de Hollywood. O filme teve muitos méritos para chegar a essas indicações. A produção concorre como Melhor Ator Coadjuvante para Sam Rockwell; Melhor Atriz Coadjuvante para Amy Adams; Melhor Edição; Melhor Ator para Christian Bale; Melhor Diretor para Adam McKay; Melhor Maquiagem e Cabelo; Melhor Filme; e Melhor Roteiro Original.

Vamos começar com as chances de Sam Rockwell. O ator está bem como George W. Bush, mas ele aparece relativamente pouco no filme e não me pareceu que faz aquela graaaaande interpretação. Faz um bom trabalho, mas não realmente marcante. Entre ele e Mahershala Ali, sem dúvida Ali tem o favoritismo e deve receber o Oscar.

Amy Adams tem uma importância maior em Vice e está muito bem, mas tanto Emma Stone quanto Rachel Weisz em The Favourite (comentado aqui) apresentam trabalhos mais marcantes. Além delas terem chances maiores que Adams, tudo indica que a favorita do ano é Regina King por If Beale Street Could Talk. A confirmar esse favoritismo.

Em Melhor Edição, o filme tem grandes concorrentes pela frente. Mas o trabalho de Hank Corwin é realmente muito bom e interessante. Gosto muito também do trabalho de edição de BlacKkKlansman (com crítica neste link), mas considero que The Favourite também tem boas chances. Difícil apostar nessa categoria, mas Vice até poderia levar a estatueta em edição.

Depois, temos a categoria de Melhor Ator e a indicação para Christian Bale. Ele realmente tem boas chances de levar ao prêmio mas, para isso, terá que vencer a queda de braços com Rami Malek, de Bohemian Rhapsody. Viggo Mortensen faz um grande trabalho em Green Book (com crítica neste link), mas parece que ele corre por fora nesse ano. O favorito, me parece, é realmente Christian Bale. Se ganhar, não será injusto – ainda que eu tenha uma certa quedinha pelo ator Rami Malek e acho que ele merecia ser reconhecido.

Temos ainda Adam McKay concorrendo como Melhor Diretor, em um ano em que dificilmente tirarão o prêmio de Alfonso Cuarón, por Roma (comentado aqui). Vice tem grandes chances de ganhar na categoria Melhor Maquiagem e Cabelo. Em Melhor Filme, apesar de merecer, dificilmente Vice terá chances reais de levar. Os favoritos deste ano, me parecem, são os filmes Bohemian Rhapsody – o próximo na minha lista -, Green Book ou The Favourite. Para o meu gosto, por ordem de preferência, os favoritos seriam Vice, The Favourite e Green Book.

Finalmente, Vice concorre em Melhor Roteiro Original. Categoria com grandes títulos na disputa nesse ano. Roma e Green Book parecem levar vantagem nesta disputa, mas estão no páreo, ainda, The Favourite e Vice. Assim, no cômputo geral, Vice tem chances reais de levar estatuetas em três categorias: Melhor Ator para Christian Bale, Melhor Maquiagem e Cabelo e Melhor Edição. Pode surpreender ainda em alguma outra categoria, mas acho difícil. E pode, eventualmente, levar apenas em Melhor Maquiagem e Cabelo.

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Green Book – Green Book: O Guia

Um filme sobre pessoas comuns, que normalmente não conviveriam, compartilhando uma viagem para dentro de um país segregado. Green Book é um filme singelo, sem muita inovação, mas que nos mostra, com muita simplicidade, como atitudes e crenças podem mudar com a convivência com o “diferente”. Em um país ainda marcado pelo preconceito racial, Green Book serve como um bom exemplo real de quebra de preconceitos sem grandes esforços ou firulas. Filme bacana, mas longe de ser excepcional.

A HISTÓRIA: Inicia afirmando que é inspirada em uma história real. Na cidade de Nova York, em 1962, vemos a movimentação em frente ao clube Copacabana. Lá dentro, o cantor Bobby Rydell (Von Lewis) saúda o público e afirma que está feliz de estar ali. Na noite de sábado no Copa, um dos seguranças do local, Tony Lip (Viggo Mortensen), acomoda um casal em um local privilegiado do salão e recebe uma “gorjeta” por isso. Na chapelaria, Sr. Loscudo (Joe Cortese) pede para a funcionária guardar o chapéu dele como se fosse a própria vida. Tony faz o chapéu desaparecer e, com a confusão que se forma no final da noite, o clube fecha por dois meses. Nesse período, Tony deve encontrar um outro trabalho, e é assim que ele vira motorista do Dr. Don Shirley (Mahershala Ali).

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Green Book): Estava com uma expectativa boa antes de começar a assistir a esse filme. Primeiro, pelos atores envolvidos no projeto. Gosto muito de Viggo Mortensen e de Mahershala Ali. Depois, pelas premiações que assisti até agora, fiquei sabendo um pouco sobre a história e ela me parecia interessante.

O filme não decepciona. A história é simples, como eu imaginava, mas relevante. Afinal, nunca é demais para os Estados Unidos e para todo nós lembrarmos da época em que havia locais para negros e para brancos. Esse passado é ainda recente e traz divisões para aquele país – e em outros locais, ainda que a segregação neles não tenha sido calçada por leis ou normas.

O filme está focado em um personagem e na sua “aventura” para o interior do país trabalhando como motorista de um músico conhecido e renomado. O protagonista é o “simplório” italiano vivido por Mortensen, Tony, que sempre viveu e continuará vivendo no bairro do Bronx, em Nova York. Ele não tem muitos estudos ou cultura, mas é o típico italiano grande, esperto e bom de briga. Por ter essas características, ele é sempre chamado para alguns “trabalhos”.

Não fica evidente no filme, mas sugerido, que Tony está cercado de vários “carcamanos”, homens que gostam de cobrar dívidas e de usar a violência para conseguirem o respeito para os seus chefões. Tony conhece essa realidade de perto, cresceu nela, mas não parece tão afeito a aceitar empregos que podem lhe levar até a crimes. Ele respeita todos esses italianos, mas não se deixa levar – ao fechar o clube em que trabalha para cair nas graças de um “chefão”, ele cogita voltar a dirigir caminhões de lixo antes de cair nos “trabalhos” de uma das máfias locais.

Como ficará dois meses “desempregado” e precisando arranjar qualquer dinheiro para pagar as contas da casa – especialmente o aluguel semanal -, ele aceita a sugestão de fazer a entrevista para ser o motorista de um médico. Chegando no local, ele conhece o diferenciado e um tanto extravagante Dr. Don Shirley que, logo ele vai descobrir, não é nenhum médico, mas um músico reconhecido e aclamado.

Gostei do roteiro simples de Nick Vallelonga, Brian Hayes Currie e Peter Farrelly. Eles apresentam o nosso “herói” de maneira muito simples, sem floreios ou tentando transformá-lo em um cara maior do que ele é. Tony é um sujeito simples, e é isso o que vemos em cena. Inicialmente, ele tinha preconceito com os negros – como parece que a maioria dos italianos do Bronx e/ou da família dele. Tony e os familiares dão a entender que não gostam de negros dentro de casa, trabalhando para eles, mas que aceitam se for necessário.

Precisando de dinheiro, ele topa trabalhar para Shirley. Por grande parte do filme, ele não entende o porquê do músico aceitar o preconceito que ele recebe na região Sul do país. Os músicos que formam o trio com Shirley, Oleg (Dimiter D. Marinov) e George (Mike Hatton), tentam explicar para ele as razões dele ter pedido por aquela turnê pelo território segregacionista do país.

Para mudar a realidade, não basta alguém ter talento, ele precisa ter coragem. Ou seja, enfrentar o preconceito e mostrar, com o seu talento e elegância, que um negro pode ser genial e único, inigualável em relação ao que faz. Além disso, acredito, Shirley queria experimentar na pele o que várias outras pessoas também vivenciavam. Como ele mesmo comenta, em certo trecho do filme – única parte um tanto “exagerada” da produção, já que não vejo como tão necessário o pedido dele de parar o carro e sair dele -, ele não se encaixava em nenhum grupo.

Para os brancos, ele era talentoso, até genial, mas não era branco suficiente para ser reconhecido desta forma; para os negros, ele vivia em um círculo de pessoas inacessível, ganhando dinheiro que eles nunca ganhariam na vida e sendo, desta forma, menos “negro” do que deveria. Em resumo, Shirley não era exatamente aceito entre os brancos e os negros e, por isso, ele se sentia sempre deslocado – e solitário.

A queda de preconceitos serve para o protagonista desta produção também. Tony acaba apreciando e admirando o talento de Shirley, enquanto o músico, com dois doutorados e um nível cultural muito maior que o do motorista, também aprende com o seu jeito simples e franco. Os dois olham verdadeiramente um para o outro e, na convivência diária, aprendem com as suas realidades diferentes e com as suas maneiras diversas de lidar com os problemas e com os desafios.

Interessante como Tony tem uma opinião bastante formada sobre o que os negros comem ou a música que eles escutam. Sim, de fato Shirley não fazia parte do “negro padrão” daqueles dias. Ele não tinha uma vida comum, não era um homem que trabalhava nos campos ou em um subemprego, como tantos outros daquela época. Então Tony aprende que não existe apenas um gosto por raça, assim como Shirley percebe como pode comer um frango frito com as mãos e sentir prazer com algo tão simples.

Naquela discussão no carro, Tony também fala como todos tem uma visão sobre os italianos – que todos comem pizza e falam alto. Bem, ele não parece fugir do padrão, mas isso não o impede de aprender com o diferente. Mesmo sem muita educação ou cultura, ele aprende com Shirley e também ensina algo para ele.

Mesmo Tony fazendo parte do padrão dos italianos do Bronx daquela época, certamente havia italianos que não seguiam aquele padrão, e isso acontece em qualquer parte, com qualquer cor de pele ou cultura. E mesmo quem segue um padrão, certamente se diferencia em algum aspecto. Eis um dos ensinamentos “naturais” desta produção. Nunca simplifique ou generalize demais.

Uma viagem vale sempre pelo que encontramos pelo caminho. Em Green Book, temos mais um exemplo sobre isso. O roteiro simples e honesto, baseado em uma história relativamente simples também, é uma das maiores qualidades da produção. Agradeço pelo trio Vallelonga, Currie e Farrelly não terem floreado muito a história, tentando torná-la mais complexa ou “comovente” do que ela é naturalmente. Isso é um ponto positivo. Por outro lado, a narrativa linear e a viagem um tanto “previsível” de Lip e Shirley prejudicam um pouco o filme, que acaba não mostrando nenhuma grande “inovação” ou reviravolta.

Sim, isso é compreensível para um filme com este perfil. Esse fato não desqualifica a produção, mas também não a torna inesquecível. Para resumir, Green Book é um belo filme, com ótimas interpretações e um trabalho bastante honesto dos roteirista e do diretor Peter Farrelly.

Dentre os concorrentes deste ano, sem dúvida alguma é o filme que apresenta a mensagem mais bacana e uma das mais importantes. Isso fará com que ele ganhe o Oscar de Melhor Filme? Talvez. Em um ano com uma safra meio fraca, como este, não seria ruim Green Book levar o prêmio principal da noite. Afinal, ele trata de americanos comuns, de um grande talento e de um país que ainda precisa resolver os seus problemas de divisão. Para os Estados Unidos, esta produção é especialmente importante. E, para todos nós, que não nascemos lá, ela nos faz pensar e valorizar bons exemplos. Apenas por isso, o filme merece o seu destaque e ser visto.

NOTA: 9.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Mahershala Ali tem recebido alguns dos principais prêmios por seu trabalho como Dr. Don Shirley. Ele realmente faz um belo trabalho, sem grandes rompantes, mas muito condizente com o personagem no qual ele deve se inspirar. A interpretação de Ali é elegante, cheia de pequenos detalhes e de imersão no personagem. Não podemos pedir nada mais para um grande ator como ele.

Ainda que menos premiado, Viggo Mortensen faz uma parceria perfeita com Ali. O personagem dele, do italiano que não para de falar e comer, é mais “espalhafatoso”, mas Mortensen também mergulha muito bem nos trejeitos e no jeito de falar dele. Interpretações realmente incríveis. Os personagens não poderiam ser mais diferentes, um do outro e, ainda assim, eles encontram pontos em comum e de convivência. Um exemplo para todos nós.

Não achei o roteiro de Nick Vallelonga, Brian Hayes Currie e Peter Farrelly excepcional, mas o trabalho deles é muito coerente com a história que lhes inspirou. Achei quase todo o material muito bem acertado, com o desconto de um ou dois trechos um tanto exagerados demais – especialmente aquele em que Shirley pede para o motorista parar em uma noite de chuva em que ele está falando como é mais “negro” que o músico porque vive em contato com as ruas. De fato, ele pode ter pedido para Tony parar o carro, mas achei a cena um tanto exagerada na versão final.

Os grandes nomes da produção são Viggo Mortensen e Mahershala Ali. Grande parte da história está centrada neles e na relação que ambos estabelecem durante a turnê do músico. Além deles, vale citar o bom trabalho dos coadjuvantes Linda Cardellini como Dolores, esposa de Tony; Sebastian Maniscalco como Johnny Venere, irmão de Tony; Dimiter D. Marinov como Oleg, que toca violoncelo no trio de Shirley; Mike Hatton como George, que toca baixo no trio; Joe Cortese em uma ponta como o mafioso Gio Loscudo; Maggie Nixon como a garota que guarda o chapéu de Loscudo no Copacabana; Von Lewis em uma ponta como o cantor Bobby Rydell; e os garotos Hudson Galloway e Gavin Lyle Foley como Nick e Frankie Vallelonga, filhos de Tony. Completam a família de Tony os atores Rodolfo Vallelonga e Louis Venere, respectivamente os avós Nicola e Anthony; e Frank Vallelonga como Rudy Vallelonga. Da família Venere, sobrenome de solteira da esposa de Tony, aparecem ainda Don DiPetta como Louie Venere; Jenna Laurenzo como Fran Venere; e Suehyla El-Attar como Lynn Venere.

Entre os aspectos técnicos desta produção, destaco a trilha sonora de Kris Bowers; a direção de fotografia de Sean Porter; a edição de Patrick J. Don Vito; o design de produção de Tim Galvin; a direção de arte de Scott Plauche; a decoração de set de Selina van den Brink; e os figurinos de Betsy Heimann.

Green Book estreou em setembro de 2018 no Festival Internacional de Cinema de Toronto. Depois, o filme participou de outros 21 festivais em diversos países pelo mundo até janeiro de 2019. Na sua trajetória até aqui, o filme ganhou 46 prêmios e foi indicado a outros 90 – incluindo a indicação em cinco categorias do Oscar.

Entre os prêmios que recebeu, destaque para os prêmios de Melhor Roteiro, Melhor Ator Coadjuvante para Mahershala Ali e Melhor Filme – Musical ou Comédia no Globo de Ouro 2019; para o de Melhor Ator Coadjuvante para Maheshala Ali no Prêmio BAFTA; para o prêmio de Melhor Ator Coadjuvante para Mahershala Ali no Screen Actors Guild Awards; e para outros 12 prêmios de Melhor Ator Coadjuvante para Mahershala Ali em diferentes premiações; 11 prêmios de Melhor Filme; 4 prêmios de Melhor Roteiro; 1 prêmio de Melhor Elenco e 4 prêmio de Melhor Ator para Viggo Mortensen.

Antes de filmar, Viggo Mortensen foi convidado para conhecer a família de Nick Vallelonga durante um jantar de seis horas. Ele passou mal porque ainda não tinha começado a engordar e a expandir o estômago. Durante o jantar, ele se sentiu “obrigado” a terminar cada prato, e a família não parava de servir para ele um prato novo. Depois de sair do jantar, ele andou um pouco com o carro e teve que se deitar no banco de trás para lidar com toda a comida que tinha ingerido. Realmente, os Vallelonga parece apreciarem muito a comida.

Agora, algo curioso sobre esta produção. Quando Green Book foi lançado, a família de Shirley se opôs à mensagem da produção dizendo que Tony e Shirley nunca tinham sido amigos, alegando que eles tiveram apenas uma relação “empregador-empregado”. Em janeiro de 2019, gravações de uma entrevista com Shirley surgiram em que ele fala sobre a relação com Tony: “Confiei nele implicitamente. Você vê, não era só o meu motorista, nunca tivemos uma relação empregador/empregado. Você não tem tempo para esta besteira. Minhas vidas estava na mão desse homem! Então você tem que ser amigável um com o outro”.

A peça de piano que Shirley toca no bar e emociona a todos é Etude Op. de Chopin 25 nº 11, “Vento de Inverno”, uma das peças mais difíceis de serem tocadas, com nota 9 (mais alta) na escala de Níveis de Dificuldade de Henle. Quando eu escutei, no filme, achei que fosse uma obra de um dos compositores clássicos, mas não sabia exatamente de quem ou qual. Foi bom ter essa informação de que era Chopin. 😉

Kris Bowers, o compositor do filme, foi o pianista de Mahershala Ali. A exemplo de Shirley, ele também só toca em pianos Steinway, todos feitos à mão. Segundo o pianista, porque esses pianos projetam o som como nenhum outro instrumento.

A cena da pizza é inspirada na vida real. Nick Vallelonga disse que Tony costumava pedir uma torta inteira de pizza, dobrá-la e comê-la. Ao ouvir sobre isso, Mortensen pediu para a cena ser incluída no filme, mas o diretor e roteirista Farrelly disse que já haviam cenas “alimentares engraçadas” demais na produção. Mas quando eles incluíram a cena e todos da produção começaram a rir, o diretor resolveu deixar ela no filme.

O filme é dedicado a “Larry the Crow”, um pássaro que pairava em torno do local das filmagens. O ator Viggo Mortensen cuidou dele depois que ele foi atropelado por um carro.

O título do filme é uma referência ao “Livro Negro dos Motoristas Negros”, conhecido também como “Livro Verde dos Viajantes Negros”. Publicado entre 1936 e 1966, o guia ajudava viajantes afro-americanos a encontrar locais em que eles poderiam dormir, comer e outros estabelecimentos comerciais que eles poderiam frequentar em locais que segregavam brancos e negros. Esse livro acabou cobrindo não apenas a América do Norte, mas também Bermudas e o Caribe.

Depois da viagem de dois meses que vemos em cena em Green Book, Tony e Shirley continuaram em contato. Depois da experiência que vemos no filme, eles entraram em uma turnê que durou quase um ano. Além disso, o músico pediu a Tony que se tornasse o seu motorista e guarda-costas durante a sua turnê europeia, mas Tony recusou o trabalho para não ficar mais tempo longe da sua família. Para Nick Vallelonga, Shirley era amigo da família.

Depois de assistir ao filme, o jazzista Quincy Jones comentou: “Eu tive o prazer de me familiarizar com Don Shirley enquanto eu trabalhava como arranjador em Nova York nos anos 1950, e ela era, sem dúvida, um dos maiores pianistas da América. Tão habilidoso músico como Leonard Bernstein ou Van Cliburn. Portanto, é maravilhoso que sua história esteja finalmente sendo contada e celebrada. Mahershala, você fez um trabalho absolutamente fantástico interpretando-o, e eu acho que a performance de Viggo Mortensen e dele se transformaram em uma grande amizade que foi capturada pelo filme”.

Viggo Mortensen realmente comeu os cachorros-quentes na cena da aposta. A equipe de produção forneceu para ele um balde no qual ele poderia cuspir as partes mastigadas após as tomadas, mas ele achou melhor engolir a comida, simplesmente. Nessa história, ele realmente comeu 15 cachorros-quente.

Este é o primeiro Drama dirigido por um dos irmãos Farrelly, mais conhecidos por sua carreira de comédias.

Existe pouca informação sobre Don Shirley. Embora alguns detalhes de sua trajetória sejam contraditórios, o que se afirma como mais seguro é que ele teria se juntado ao Conservatório Rimsky-Korsakov de São Petesburgo aos 9 anos de idade e que teria feito o seu primeiro concerto aos 18 anos de idade na Orquestra Boston Pops. Depois, ele conseguiu vários diplomas, doutorados e aprendeu diversas línguas. O primeiro álbum dele, Tonal Expressions, foi lançado em 1955. Stravinsky, um pianista legendário, disse que o “virtuosismo (de Shirley) era digno dos deuses”. Apesar de ter estudado todos os clássicos, Shirley foi dissuadido pelos líderes da indústria fonográfica a seguir esta carreira dos clássicos porque ele não seria bem aceito pelo público branco.

A família de Shirley questionou o filme, dizendo que o músico nunca teria sido amigo de Tony.

Os usuários do site IMDb deram a nota 8,3 para esta produção, enquanto que os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 228 críticas positivas e 59 negativas para o filme – o que lhe garante uma aprovação de 79% e uma nota média de 7,3. No site Metacritic, o filme ostenta o “metascore” 69, fruto de 37 críticas positivas, 13 medianas e 2 negativas. Interessante como a avaliação do público é bem melhor que a da crítica. Talvez porque as pessoas queiram mais histórias de pessoas comuns.

Segundo o site Box Office Mojo, Green Book faturou US$ 61,5 milhões nos cinemas dos Estados Unidos e outros US$ 44,6 milhões nos cinemas dos outros países em que a produção estreou. Assim, o filme que teria custado cerca de US$ 23 milhões faturou, até o momento, pouco mais de US$ 106,1 milhões. Um sucesso de bilheteria, sem dúvida.

Green Book é uma produção 100% dos Estados Unidos. Por isso, o filme passa a fazer parte da lista de produções que atendem a uma votação feita há algum tempo aqui no blog.

CONCLUSÃO: Uma parceria em cena incrível, entre dois atores, e uma história simples mas cheia de valor. Isto foi o que eu exprimi de Green Book. A história, evidentemente, faz uma homenagem a dois homens, um gênio da música e o outro uma pessoa simples que era boa em “resolver problemas”, que se aproximaram para uma viagem ao Sul segregacionista dos Estados Unidos. O contato entre eles e a amizade que surgiu em dois meses de viagem demonstram como todas as pessoas podem se entender e aprender uma com as outras, se assim o desejarem. Filme bacana, com uma história simples e envolvente e grandes interpretações, Green Book tem uma narrativa linear e previsível. Isso não chega a atrapalhar o filme, mas também não o transforma em uma obra acima da média.

PALPITES PARA O OSCAR 2019: Green Book concorre em cinco categorias no prêmio da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood. Para começar, o filme concorre com Mahershala Ali na categoria Melhor Ator Coadjuvante.

Pelas premiações vistas até aqui, ele é o favoritíssimo para levar esse prêmio. E avaliando o trabalho dele nesta produção, com um desempenho equilibrado, honesto e bastante elegante, Ali realmente merece o prêmio. Falta assistir ainda a Richard E. Grant em Can You Ever Forgive Me?, mas entre Ali, Adam Driver, Sam Elliott e Sam Rockwell – já assisti a Vice, o próximo que vou comentar por aqui -, realmente fico com Ali. Considero quase impossível, pelo histórico conquistado pelo ator até aqui, ele perder nessa categoria. Então, temos 1 Oscar já para Green Book.

Depois, o filme concorre na categoria Melhor Edição. Um páreo duríssimo, mesmo sem First Man na disputa. Apesar da edição de Green Book ser boa, gostei mais do trabalho de Vice e The Favourite – ou até mesmo de BlacKkKlansman. Ainda preciso ver a Bohemian Rhapsody, mas acho que Green Book corre por fora nesta disputa.

Parceiro constante de Ali nesta produção, Viggo Mortensen foi indicado como Melhor Ator. Ele faz um belo trabalho, sem dúvida, mas terá um páreo duríssimo com Christian Bale, que está ótimo em Vice, e com Rami Malek, que já ganhou alguns prêmios por seu desempenho em Bohemian Rhapsody. Como acredito que a grande disputa está entre Bale e Malek, Mortensen corre por fora nesta categoria também.

Green Book também foi indicado como Melhor Filme. Não é impossível a produção vencer, porque este ano não existe, me parece, um franco favorito. Caso a Academia escolher Green Book, no lugar de BlacKkKlansman, por exemplo, seria a premiação de um bom filme, que trata de pessoas comuns e que critica o racismo nos Estados Unidos de forma mais branda do que a produção de Spike Lee. Francamente, até o momento, nenhum filme ainda realmente me convenceu de ser o melhor do ano, mas me parece que Vice e The Favourite são obras mais complexas e com maior ousadia – não sei se isso lhes torna melhores filmes, mas é um fato.

Finalmente, Green Book concorre também na categoria Melhor Roteiro Original. Parada duríssima também, já que a produção concorre com roteiros bastante complexos e interessantes, como Vice e The Favourite. Vai depender muito do gosto da Academia e no filme que querem consagrar nesta edição. Podem até premiar Roma nesta categoria – não seria uma surpresa. Gosto de Green Book, mas não sei se ele terá força para ganhar.

Em resumo, Green Book pode levar um prêmio para casa, o de Melhor Ator Coadjuvante, ou até 3, me parece – adicionando Melhor Filme e Melhor Roteiro Original. Tudo vai depender do gosto dos votantes da Academia. Difícil prever. O filme é bom e não seria um desperdício consagrá-lo, especialmente em um ano com uma safra relativamente fraca como é o caso deste ano.

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The Favourite – A Favorita

Ah, a monarquia e os seus jogos de poder e interesses. The Favourite se joga de cabeça e de uma forma diferenciada nesse universo. Francamente, eu não sabia muito o que esperar desse filme. Sabia, claro, que ele foi um dos mais indicados ao Oscar. Esperava, pelas indicações das atrizes até aqui, grandes interpretações. Ainda assim, o filme me surpreendeu. Especialmente pela linguagem utilizada e por sua crueza. Não há filtros. Também aprendemos muito bem como uma aprendiz pode superar rapidamente a sua professora. Com interpretações realmente incríveis,  direção de fotografia e trilha sonora interessantes, The Favourite se apresenta como um filme inusitado.

A HISTÓRIA: Em um salão ornamentado, duas serviçais tiram o traje da Rainha Anne (Olivia Colman). Ao lado dela, Lady Sarah Malborough (Rachel Weisz). A cena é de imponência. Tudo perfeito, até que a coroa é retirada da Rainha e ela parece se tornar uma pessoa comum. A Rainha pergunta para a amiga como ela se saiu, se ela gaguejou. Sarah a elogia, mas se recusa a cumprimentar os “anjinhos”, um grupo de coelhos que está próximo da cama da Rainha. Sarah diz que ama a Rainha, mas que isso ela não vai fazer porque o amor tem limites. A Rainha diz que não deveria ter. A Rainha leva Sarah vendada até um outro local onde mostra a maquete de um palácio que a monarca quer construir e dar para a amiga. A Inglaterra está em guerra, mas isso não parece preocupar muito a Rainha.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a The Favourite): Gostei da ousadia desta produção. Ela tira todos os filtros e o costumeiro “respeito” com a monarquia para nos mostrar uma corte cheia de interesses e de disputas por poder. Algo que sempre soubemos que existiu neste ambiente, mas que nunca foi explorado de uma forma tão aberta e cínica como em The Favourite.

Logo no início do filme começa a ser demonstrado o talento das três atrizes indicadas ao Oscar. Pouco a pouco vamos conhecendo a “Rainha louca” magistralmente interpretada por Olivia Colman. Ela nos apresenta uma rainha cheia de problemas de saúde, carente e insegura, perfeitamente suscetível a diferentes tipos de manipulações. Disputam a sua atenção, o seu afeto e, principalmente, os seus favores duas primas que há muito não se encontravam: Lady Sarah, velha conhecida da Rainha, com quem divide inúmeras histórias, e a recém-chegada Abigail (Emma Stone).

Inicialmente, Abigail chega à Côrte para buscar um emprego. Prima de Lady Sarah, ela caiu em desgraça por causa das dívidas e da jogatina do pai. (SPOILER – não leia se você assistiu ao filme). Depois de ser “vendida” para um alemão como dívida de jogo, Abigail sobreviveu a diversas situações até tentar um favor da prima Lady Sarah. Inicialmente, ela vira uma empregada como outra qualquer, até que, após ter a mão queimada com água sanitária, ela descobre ervas que poderão não apenas ajudar-lhe a se curar, mas também aliviar as dores da Rainha.

Um dia, juntando coragem e ousadia, Abigail mente para o serviçal da Rainha e consegue levar para ela um emplastro de ervas. Como elas acabam aliviando as dores da Rainha, Lady Sarah “promove” a prima para ser a sua serviçal. De forma muito inteligente, Abigail se faz notar para a Rainha e, como uma aluna exemplar, ela aproveita a proximidade com Lady Sarah para perceber como ela se relaciona com a Rainha, como ela a manipula, tira vantagens da monarca e como ela, Abigail, pode se aproveitar de todo esse cenário.

Dividido em capítulos, The Favourite nos apresenta essa história de jogo de interesses e de disputa pela atenção e pelos favores da Rainha. No pano de fundo, a Inglaterra vivencia uma guerra com a França, no qual estão em jogo aumento de impostos no campo, insatisfação da população com a guerra e com a sua monarca e a disputa de poder no Parlamento inglês. No centro das nossas atenções, a queda de braço entre Sarah e Abigail e a forma com que ambas disputam o “amor” e o “favoritismo” da Rainha.

Algo que surpreende neste filme, logo no início, além da interpretação crescente das atrizes, é a trilha sonora vigorosa e bastante presente composta por William Lyons e Johnnie Burn e a direção de fotografia primorosa de Robbie Ryan. Em seguida, chama a atenção o roteiro diferenciado de Deborah Davis e Tony McNamara. A dupla nos apresenta os bastidores de uma Côrte como não estamos acostumados a ver. O filme não tem filtros nem na linguagem dos personagens e nem nos seus atos – muitos deles violentos e cruéis. Ou seja, poucas vezes vimos a uma Côrte de maneira tão crua e objetiva.

Isso é o que mais chama a atenção nesta produção, juntamente com o trabalho excelente das atrizes em cena. O filme funciona muito bem nesse crescente de disputa até perto do final, quando eu acho que a história perde um pouco de força com a “desistência” de Lady Sarah da disputa. Ela simplesmente desiste da queda de braço com a prima que, de fato, acaba “ganhando” a disputa. Mas então, nos minuto finais, com a rápida “lucidez” e castigo da Rainha, nos perguntamos o que realmente significa “ganhar” naquele cenário.

Gostei de The Favourite por ele nos apresentar uma brisa nova em um gênero já bastante explorado e conhecido. A ousadia dos roteiristas Deborah Davis e Tony McNamara e a direção segura e que soube valorizar cada elemento em cena de Yorgos Lanthimos são pontos fortes da produção, assim como o trabalho exemplar de Olivia Colman, Emma Stone e Rachel Weisz. Agora, este é o Melhor Filme do ano? Para o meu gosto, não. Sim, ele tem várias qualidades, mas o que ele nos apresenta no final?

Mais uma história sobre ambição, busca por status e jogos de poder em uma Côrte. Algo que já conhecemos à fundo, se assistimos a vários filmes do gênero. O diferencial de The Favourite é como o filme nos apresenta aquele cenário e aquelas pessoas. Não há “respeito” em relação à Rainha, que se deixa levar por quem lhe dá maior prazer na cama – algo muito comum em diferentes reinados. Também vemos às pessoas que cercam a Rainha sem máscaras, o que é algo raro, mas isso não faz o filme ser inesquecível. Ainda espero ver o filme que me arrebate nesta atual disputa pelo Oscar.

NOTA: 9.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Filmes de época e que envolvem a realeza sempre originam ótimas cenas, cenários e figurinos. Isso não poderia ser diferente com The Favourite. Uma das qualidades do trabalho do diretor Yorgos Lanthimos foi explorar cada um dos elementos belos que ele tinha em cena com primor, assim como valorizar o trabalho do elenco – com destaque para Olivia Colman, Emma Stone e Rachel Weisz.

O roteiro franco e direto de Deborah Davis e Tony McNamara é o que diferencia The Favourite de outros filmes do gênero. Como comentei antes, o zelo com a figura da monarca cai por terra, com o roteiro mostrando uma Rainha cheia de comportamentos infantis, inconstantes e com variação de humor e de saúde impressionantes – mas que demonstram, de forma prática, o que sabemos que aconteceu, de fato, na história.

Ao redor dela, diversos tipos de pessoas que desejam apenas tirar o melhor proveito desta proximidade e deste poder – seja do tipo de Lady Sarah, que tem longa relação com a Rainha, fala de forma sincera e, ainda assim, busca ganhos próprios, seja do tipo de Abigail, que faz de conta que não deseja nada em troca, mas que está ali apenas para conseguir benefícios. O mesmo se aplica aos líderes do Parlamento e outros pessoas da Côrte. No fim das contas, nos perguntamos: alguém realmente se importa com o país? E essa pergunta vale até hoje, e não apenas no ambiente da Monarquia, devo dizer.

As três atrizes citadas e que dominam a narrativa são o destaque do filme, sem dúvida alguma. Além delas, vale citar o trabalho de alguns atores que fazem papéis menos importantes na produção, mas que tem a sua relevância para a narrativa: James Smith como Godolphin, Primeiro Ministro e um dos aliados de Lady Sarah; Mark Gatiss como Lord Marlborough, marido de Lady Sarah e comandante da linha de frente da guerra da Inglaterra contra a França; Nicholas Hoult como Harley, líder da oposição no Parlamento que se aproxima de Abigail para tentar virar o jogo a seu favor; e Joe Alwyn como Masham, um membro da Côrte que acaba sendo seduzido por Abigail.

Entre os aspectos técnicos da produção, volto a destacar a excelente direção de fotografia de Robbie Ryan; assim como a edição precisa de Yorgos Mavropsaridis; o design de produção de Fiona Crombie; a direção de arte de Caroline Barclay, Sarah Bick, Lynne Huitson e Dominic Roberts; a decoração de set de Alice Felton; os figurinos de Sandy Powell; o Departamento de Maquiagem com 22 profissionais; assim como o trabalho de dezenas de profissionais do Departamento de Arte.

The Favourite estreou no Festival de Cinema de Veneza em agosto de 2018. Depois, o filme participaria, ainda, de 28 festivais em diversos países. Um número impressionante para um filme com um caráter mais comercial. Em sua trajetória, até o momento, The Favourite ganhou 115 prêmios – um número impressionante também – e foi indicado a outros 251 prêmios, incluindo 10 indicações ao Oscar.

Entre os prêmios que recebeu, destaque para o Globo de Ouro de Melhor Atriz em Filme Musical ou Comédia para Olivia Colman; para os prêmios de Melhor Atriz para Olivia Colman e o Grande Prêmio Especial do Júri para Yorgos Lanthimos no Festival de Cinema de Veneza; e para 12 premiações como Melhor Filme; 24 prêmios de Melhor Atriz para Olivia Colman; 17 prêmios de Melhor Roteiro; 12 prêmios de Melhor Elenco; 4 prêmios de Melhor Atriz Coadjuvante para Emma Stone; 8 prêmios de Melhor Atriz Coadjuvante para Rachel Weisz; e 3 prêmios de Melhor Diretor para Yorgos Lanthimos.

Agora, vale citar algumas curiosidades sobre The Favourite. A atriz Olivia Colman engordou 16 quilos para interpretar a Rainha Anne.

The Favourite foi filmado utilizando, principalmente, luz natural disponível ou as chamadas “iluminações práticas”, ou seja, a luz de velas e lareiras. O diretor de fotografia Robbie Ryan manteve o equipamento de iluminação reserva próximo, mas utilizou pouca luz adicional. Ele quis aproveitar ao máximo o clima quente e favorável durante a época das filmagens. O efeito realmente é maravilhoso, transmitindo ainda mais legitimidade para a produção.

A figurinista Sandy Powell utilizou, intencionalmente, tecidos anacrônicos nesta produção. Rendas e vinil cotados a laser foram usados para muitas roupas dos cortesãos, enquanto os vestidos e braces dos criados foram feitos de tecido denim reciclado vindo de várias partes da Inglaterra. O roupão que a Rainha Anne utiliza é feito de um cobertor de chenile que Powell comprou no eBay.

A maioria dos trajes e perucas foram feitas do zero. Como o orçamento do filme era apertado, ficou inviável alugar esses trajes. Além disso, o século XVIII é pouco retratado em filmes, o que faz com que poucas casas de fantasia tenham estoque disponível destes trajes. Roupas e perucas foram construídas sob encomenda e, depois, descontruídas e reutilizadas em outras cenas.

A figurinista Sandy Powell teve que dividir as suas funções entre The Favourite e Mary Poppins Returns. Para a sorte dela, as duas produções foram realizadas de forma adjacente no Pinewood Studios. O trabalho duplicado se apresentou bem sucedido e positivo, já que os dois filmes foram indicados ao Oscar pelos seus figurinos.

O marido da Rainha Anne, o príncipe George da Dinamarca, nunca é visto ou mencionado em The Favourite. Mas Abigail começou a servir a Rainha em 1704, e George morreu apenas em 1708. A morte de George e dos filhos da Rainha foram alguns dos motivos que fizeram Anne cair em depressão.

Segundo Rachel Weisz, The Favourite é como All About Eve, mas mais divertido e dirigido pelo sexo. Enquanto assisti ao filme, não vou mentir que me lembrei de All About Eve – pelo “aprendizado” de Abigail e pela forma com que ela supera a sua professora na ambição.

Não existe nenhuma menção durante o filme, mas The Favourite é “vagamente” baseado em fatos reais.

Antes de se casar, Lady Sarah tinha o sobrenome Churchill. Apesar de ter pedido a posição de poder e de influência sobre a Rainha Anne, o descendente de Lady Sarah, Winston Churchill, se tornou um dos maiores Primeiros Ministros da história da Inglaterra. O palácio prometido para Lady Sarah, o Palácio de Blenheim, de fato foi erguido e usado pela família Churchill por mais de 300 anos. Winston Churchill nasceu lá, inclusive.

Os usuários do site IMDb deram a nota 7,9 para esta produção, enquanto que os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 314 críticas positivas e 21 negativas para o filme – o que lhe garante uma aprovação de 94% e uma nota média de 8,6. As duas notas estão bem acima da média e chamam a atenção. O site Metacritic apresenta um “metascore” 90 para The Favourite, fruto de 52 críticas positivas e de 1 mediana, além do selo “Metacritic Must-see”.

De acordo com o site Box Office Mojo, The Favourite faturou US$ 29,4 milhões nos Estados Unidos e mais US$ 34,1 milhões nas bilheterias de outros mercados em que estreou até o dia 7 de fevereiro. No total, portanto, o filme fez pouco mais de US$ 63,5 milhões.

The Favourite é uma coprodução da Irlanda, do Reino Unido e dos Estados Unidos. Como um dos países que produziu este filme foi votado há tempos aqui no site como um dos preferidos de vocês, essa crítica entra na lista de produções que atendem a essa votação. 😉

CONCLUSÃO: Um filme com um roteiro surpreendente, mas que parece arrefecer no final. The Favourite tem grandes interpretações e um roteiro que acerta em cheio ao mostrar uma corte sem papas na língua ou grande respeito. O pior da ambição humana e da guerra de poder está em cena. Nesse sentido, The Favourite inova em um gênero já bastante trabalhado. Ainda assim, senti que a produção deu uma pequena derrapada, no final, abrindo mão de uma queda de braço que estava mais interessante na fase anterior. Provocador e interessante por causa das interpretações e da reconstrução de época, The Favourite pode ter sido bem indicado ao Oscar, mas não acho que mereça levar estatuetas em muitas categorias.

PALPITES PARA O OSCAR 2019: The Favourite foi indicado 10 vezes ao Oscar, em nove categorias diferentes. Ou seja, em teoria, o filme tem nove chances de ganhar uma estatueta. Quantas, de fato, ele levará para casa? Não consigo responder esta questão com certeza porque ainda tenho filmes importantes para assistir e que estão concorrendo com esta produção.

Mas vou comentar a minha opinião sobre cada uma das categorias em que a produção está na disputa, beleza? Vamos começar com Melhor Atriz Coadjuvante, no qual o filme emplacou as indicações de Emma Stone e Rachel Weisz. Adoro o trabalho e a carreira de Rachel Weisz, mas considero que Emma Stone está perfeita em The Favourite. Entre as duas, acredito que Stone leve vantagem. Mas, analisando as premiações até o momento, Regina King, por seu trabalho em If Beale Street Could Talk, parece ser a favorita nesta categoria. Então, não deve dar para The Favourite.

Em Melhor Figurino, The Favourite tem boas chances, mas para levar o prêmio, ela terá que bater fortes concorrentes, como Black Panther e produções que investiram pesado neste tema, como Mary Poppins Returns e Mary Queen of Scots – considero The Ballad of Buster Scruggs como um concorrente mais fraco. Em Melhor Edição, a disputa também está boa – e sem First Man na disputa. Tenho que assistir a outros concorrentes, mas acho que a edição de BlacKkKlansman pode superar a de The Favourite. Vai depender muito do gosto da Academia neste ano.

Na categoria de Melhor Atriz, a disputa está forte neste ano. Francamente? Acho que o trabalho de Olivia Colman era sim merecedor do Oscar. Ela está incrível no papel de “rainha louca” de The Favourite. Mas e Glenn Close? Difícil escolher entre as duas. Qualquer uma levando o prêmio, será justo. Muito mais do que entregar a estatueta para Lady Gaga. Acho que Colman corre por fora, com Close como favorita, mas não seria surpresa ela levar.

The Favourite concorre ainda em Melhor Direção de Fotografia. Categoria muito disputada neste ano com as excelentes fotografias de Cold War e Roma. A vida de The Favourite não é fácil, mas a direção de fotografia do filme é maravilhosa. Ainda assim, acho que o prêmio ficará entre os filmes em preto e branco – Cold War ou Roma. The Favourite emplacou o diretor Yorgos Lanthimos na categoria de Melhor Diretor. Ele deve perder para o favoritíssimo Alfonso Cuarón, em uma das categorias mais previsíveis deste ano.

Na categoria de Melhor Filme, The Favourite teria que derrotar outros concorrentes mais fortes, pelas premiações entregues até agora, como Green Book, Bohemian Rhapsody e Vice. Para mim, Melhor Filme é uma das categorias mais indefinidas desse ano. Quase tudo pode acontecer. Finalmente, o filme concorre em Melhor Roteiro Original. De fato, o roteiro é um dos pontos fortes e diferenciais da produção. Mas para ganhar o prêmio, ele terá que derrubar Green Book e Roma. Será uma tarefa difícil, mas não impossível.

Assim, os prêmios para The Favourite vão depender mais de quem o Oscar vai querer consagrar nesse ano do que de merecimento, realmente. Com 10 indicações ao prêmio, The Favourite pode sair de mãos vazias ou levar cerca de 3 ou 4 prêmios – com chances maiores em Melhor Figurino, Melhor Edição, Melhor Atriz e Melhor Roteiro Original. Eu não me surpreenderia com nenhum destes resultados – apenas com mais estatuetas indo para o filme.