Green Book – Green Book: O Guia

green-book

Um filme sobre pessoas comuns, que normalmente não conviveriam, compartilhando uma viagem para dentro de um país segregado. Green Book é um filme singelo, sem muita inovação, mas que nos mostra, com muita simplicidade, como atitudes e crenças podem mudar com a convivência com o “diferente”. Em um país ainda marcado pelo preconceito racial, Green Book serve como um bom exemplo real de quebra de preconceitos sem grandes esforços ou firulas. Filme bacana, mas longe de ser excepcional.

A HISTÓRIA: Inicia afirmando que é inspirada em uma história real. Na cidade de Nova York, em 1962, vemos a movimentação em frente ao clube Copacabana. Lá dentro, o cantor Bobby Rydell (Von Lewis) saúda o público e afirma que está feliz de estar ali. Na noite de sábado no Copa, um dos seguranças do local, Tony Lip (Viggo Mortensen), acomoda um casal em um local privilegiado do salão e recebe uma “gorjeta” por isso. Na chapelaria, Sr. Loscudo (Joe Cortese) pede para a funcionária guardar o chapéu dele como se fosse a própria vida. Tony faz o chapéu desaparecer e, com a confusão que se forma no final da noite, o clube fecha por dois meses. Nesse período, Tony deve encontrar um outro trabalho, e é assim que ele vira motorista do Dr. Don Shirley (Mahershala Ali).

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Green Book): Estava com uma expectativa boa antes de começar a assistir a esse filme. Primeiro, pelos atores envolvidos no projeto. Gosto muito de Viggo Mortensen e de Mahershala Ali. Depois, pelas premiações que assisti até agora, fiquei sabendo um pouco sobre a história e ela me parecia interessante.

O filme não decepciona. A história é simples, como eu imaginava, mas relevante. Afinal, nunca é demais para os Estados Unidos e para todo nós lembrarmos da época em que havia locais para negros e para brancos. Esse passado é ainda recente e traz divisões para aquele país – e em outros locais, ainda que a segregação neles não tenha sido calçada por leis ou normas.

O filme está focado em um personagem e na sua “aventura” para o interior do país trabalhando como motorista de um músico conhecido e renomado. O protagonista é o “simplório” italiano vivido por Mortensen, Tony, que sempre viveu e continuará vivendo no bairro do Bronx, em Nova York. Ele não tem muitos estudos ou cultura, mas é o típico italiano grande, esperto e bom de briga. Por ter essas características, ele é sempre chamado para alguns “trabalhos”.

Não fica evidente no filme, mas sugerido, que Tony está cercado de vários “carcamanos”, homens que gostam de cobrar dívidas e de usar a violência para conseguirem o respeito para os seus chefões. Tony conhece essa realidade de perto, cresceu nela, mas não parece tão afeito a aceitar empregos que podem lhe levar até a crimes. Ele respeita todos esses italianos, mas não se deixa levar – ao fechar o clube em que trabalha para cair nas graças de um “chefão”, ele cogita voltar a dirigir caminhões de lixo antes de cair nos “trabalhos” de uma das máfias locais.

Como ficará dois meses “desempregado” e precisando arranjar qualquer dinheiro para pagar as contas da casa – especialmente o aluguel semanal -, ele aceita a sugestão de fazer a entrevista para ser o motorista de um médico. Chegando no local, ele conhece o diferenciado e um tanto extravagante Dr. Don Shirley que, logo ele vai descobrir, não é nenhum médico, mas um músico reconhecido e aclamado.

Gostei do roteiro simples de Nick Vallelonga, Brian Hayes Currie e Peter Farrelly. Eles apresentam o nosso “herói” de maneira muito simples, sem floreios ou tentando transformá-lo em um cara maior do que ele é. Tony é um sujeito simples, e é isso o que vemos em cena. Inicialmente, ele tinha preconceito com os negros – como parece que a maioria dos italianos do Bronx e/ou da família dele. Tony e os familiares dão a entender que não gostam de negros dentro de casa, trabalhando para eles, mas que aceitam se for necessário.

Precisando de dinheiro, ele topa trabalhar para Shirley. Por grande parte do filme, ele não entende o porquê do músico aceitar o preconceito que ele recebe na região Sul do país. Os músicos que formam o trio com Shirley, Oleg (Dimiter D. Marinov) e George (Mike Hatton), tentam explicar para ele as razões dele ter pedido por aquela turnê pelo território segregacionista do país.

Para mudar a realidade, não basta alguém ter talento, ele precisa ter coragem. Ou seja, enfrentar o preconceito e mostrar, com o seu talento e elegância, que um negro pode ser genial e único, inigualável em relação ao que faz. Além disso, acredito, Shirley queria experimentar na pele o que várias outras pessoas também vivenciavam. Como ele mesmo comenta, em certo trecho do filme – única parte um tanto “exagerada” da produção, já que não vejo como tão necessário o pedido dele de parar o carro e sair dele -, ele não se encaixava em nenhum grupo.

Para os brancos, ele era talentoso, até genial, mas não era branco suficiente para ser reconhecido desta forma; para os negros, ele vivia em um círculo de pessoas inacessível, ganhando dinheiro que eles nunca ganhariam na vida e sendo, desta forma, menos “negro” do que deveria. Em resumo, Shirley não era exatamente aceito entre os brancos e os negros e, por isso, ele se sentia sempre deslocado – e solitário.

A queda de preconceitos serve para o protagonista desta produção também. Tony acaba apreciando e admirando o talento de Shirley, enquanto o músico, com dois doutorados e um nível cultural muito maior que o do motorista, também aprende com o seu jeito simples e franco. Os dois olham verdadeiramente um para o outro e, na convivência diária, aprendem com as suas realidades diferentes e com as suas maneiras diversas de lidar com os problemas e com os desafios.

Interessante como Tony tem uma opinião bastante formada sobre o que os negros comem ou a música que eles escutam. Sim, de fato Shirley não fazia parte do “negro padrão” daqueles dias. Ele não tinha uma vida comum, não era um homem que trabalhava nos campos ou em um subemprego, como tantos outros daquela época. Então Tony aprende que não existe apenas um gosto por raça, assim como Shirley percebe como pode comer um frango frito com as mãos e sentir prazer com algo tão simples.

Naquela discussão no carro, Tony também fala como todos tem uma visão sobre os italianos – que todos comem pizza e falam alto. Bem, ele não parece fugir do padrão, mas isso não o impede de aprender com o diferente. Mesmo sem muita educação ou cultura, ele aprende com Shirley e também ensina algo para ele.

Mesmo Tony fazendo parte do padrão dos italianos do Bronx daquela época, certamente havia italianos que não seguiam aquele padrão, e isso acontece em qualquer parte, com qualquer cor de pele ou cultura. E mesmo quem segue um padrão, certamente se diferencia em algum aspecto. Eis um dos ensinamentos “naturais” desta produção. Nunca simplifique ou generalize demais.

Uma viagem vale sempre pelo que encontramos pelo caminho. Em Green Book, temos mais um exemplo sobre isso. O roteiro simples e honesto, baseado em uma história relativamente simples também, é uma das maiores qualidades da produção. Agradeço pelo trio Vallelonga, Currie e Farrelly não terem floreado muito a história, tentando torná-la mais complexa ou “comovente” do que ela é naturalmente. Isso é um ponto positivo. Por outro lado, a narrativa linear e a viagem um tanto “previsível” de Lip e Shirley prejudicam um pouco o filme, que acaba não mostrando nenhuma grande “inovação” ou reviravolta.

Sim, isso é compreensível para um filme com este perfil. Esse fato não desqualifica a produção, mas também não a torna inesquecível. Para resumir, Green Book é um belo filme, com ótimas interpretações e um trabalho bastante honesto dos roteirista e do diretor Peter Farrelly.

Dentre os concorrentes deste ano, sem dúvida alguma é o filme que apresenta a mensagem mais bacana e uma das mais importantes. Isso fará com que ele ganhe o Oscar de Melhor Filme? Talvez. Em um ano com uma safra meio fraca, como este, não seria ruim Green Book levar o prêmio principal da noite. Afinal, ele trata de americanos comuns, de um grande talento e de um país que ainda precisa resolver os seus problemas de divisão. Para os Estados Unidos, esta produção é especialmente importante. E, para todos nós, que não nascemos lá, ela nos faz pensar e valorizar bons exemplos. Apenas por isso, o filme merece o seu destaque e ser visto.

NOTA: 9.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Mahershala Ali tem recebido alguns dos principais prêmios por seu trabalho como Dr. Don Shirley. Ele realmente faz um belo trabalho, sem grandes rompantes, mas muito condizente com o personagem no qual ele deve se inspirar. A interpretação de Ali é elegante, cheia de pequenos detalhes e de imersão no personagem. Não podemos pedir nada mais para um grande ator como ele.

Ainda que menos premiado, Viggo Mortensen faz uma parceria perfeita com Ali. O personagem dele, do italiano que não para de falar e comer, é mais “espalhafatoso”, mas Mortensen também mergulha muito bem nos trejeitos e no jeito de falar dele. Interpretações realmente incríveis. Os personagens não poderiam ser mais diferentes, um do outro e, ainda assim, eles encontram pontos em comum e de convivência. Um exemplo para todos nós.

Não achei o roteiro de Nick Vallelonga, Brian Hayes Currie e Peter Farrelly excepcional, mas o trabalho deles é muito coerente com a história que lhes inspirou. Achei quase todo o material muito bem acertado, com o desconto de um ou dois trechos um tanto exagerados demais – especialmente aquele em que Shirley pede para o motorista parar em uma noite de chuva em que ele está falando como é mais “negro” que o músico porque vive em contato com as ruas. De fato, ele pode ter pedido para Tony parar o carro, mas achei a cena um tanto exagerada na versão final.

Os grandes nomes da produção são Viggo Mortensen e Mahershala Ali. Grande parte da história está centrada neles e na relação que ambos estabelecem durante a turnê do músico. Além deles, vale citar o bom trabalho dos coadjuvantes Linda Cardellini como Dolores, esposa de Tony; Sebastian Maniscalco como Johnny Venere, irmão de Tony; Dimiter D. Marinov como Oleg, que toca violoncelo no trio de Shirley; Mike Hatton como George, que toca baixo no trio; Joe Cortese em uma ponta como o mafioso Gio Loscudo; Maggie Nixon como a garota que guarda o chapéu de Loscudo no Copacabana; Von Lewis em uma ponta como o cantor Bobby Rydell; e os garotos Hudson Galloway e Gavin Lyle Foley como Nick e Frankie Vallelonga, filhos de Tony. Completam a família de Tony os atores Rodolfo Vallelonga e Louis Venere, respectivamente os avós Nicola e Anthony; e Frank Vallelonga como Rudy Vallelonga. Da família Venere, sobrenome de solteira da esposa de Tony, aparecem ainda Don DiPetta como Louie Venere; Jenna Laurenzo como Fran Venere; e Suehyla El-Attar como Lynn Venere.

Entre os aspectos técnicos desta produção, destaco a trilha sonora de Kris Bowers; a direção de fotografia de Sean Porter; a edição de Patrick J. Don Vito; o design de produção de Tim Galvin; a direção de arte de Scott Plauche; a decoração de set de Selina van den Brink; e os figurinos de Betsy Heimann.

Green Book estreou em setembro de 2018 no Festival Internacional de Cinema de Toronto. Depois, o filme participou de outros 21 festivais em diversos países pelo mundo até janeiro de 2019. Na sua trajetória até aqui, o filme ganhou 46 prêmios e foi indicado a outros 90 – incluindo a indicação em cinco categorias do Oscar.

Entre os prêmios que recebeu, destaque para os prêmios de Melhor Roteiro, Melhor Ator Coadjuvante para Mahershala Ali e Melhor Filme – Musical ou Comédia no Globo de Ouro 2019; para o de Melhor Ator Coadjuvante para Maheshala Ali no Prêmio BAFTA; para o prêmio de Melhor Ator Coadjuvante para Mahershala Ali no Screen Actors Guild Awards; e para outros 12 prêmios de Melhor Ator Coadjuvante para Mahershala Ali em diferentes premiações; 11 prêmios de Melhor Filme; 4 prêmios de Melhor Roteiro; 1 prêmio de Melhor Elenco e 4 prêmio de Melhor Ator para Viggo Mortensen.

Antes de filmar, Viggo Mortensen foi convidado para conhecer a família de Nick Vallelonga durante um jantar de seis horas. Ele passou mal porque ainda não tinha começado a engordar e a expandir o estômago. Durante o jantar, ele se sentiu “obrigado” a terminar cada prato, e a família não parava de servir para ele um prato novo. Depois de sair do jantar, ele andou um pouco com o carro e teve que se deitar no banco de trás para lidar com toda a comida que tinha ingerido. Realmente, os Vallelonga parece apreciarem muito a comida.

Agora, algo curioso sobre esta produção. Quando Green Book foi lançado, a família de Shirley se opôs à mensagem da produção dizendo que Tony e Shirley nunca tinham sido amigos, alegando que eles tiveram apenas uma relação “empregador-empregado”. Em janeiro de 2019, gravações de uma entrevista com Shirley surgiram em que ele fala sobre a relação com Tony: “Confiei nele implicitamente. Você vê, não era só o meu motorista, nunca tivemos uma relação empregador/empregado. Você não tem tempo para esta besteira. Minhas vidas estava na mão desse homem! Então você tem que ser amigável um com o outro”.

A peça de piano que Shirley toca no bar e emociona a todos é Etude Op. de Chopin 25 nº 11, “Vento de Inverno”, uma das peças mais difíceis de serem tocadas, com nota 9 (mais alta) na escala de Níveis de Dificuldade de Henle. Quando eu escutei, no filme, achei que fosse uma obra de um dos compositores clássicos, mas não sabia exatamente de quem ou qual. Foi bom ter essa informação de que era Chopin. 😉

Kris Bowers, o compositor do filme, foi o pianista de Mahershala Ali. A exemplo de Shirley, ele também só toca em pianos Steinway, todos feitos à mão. Segundo o pianista, porque esses pianos projetam o som como nenhum outro instrumento.

A cena da pizza é inspirada na vida real. Nick Vallelonga disse que Tony costumava pedir uma torta inteira de pizza, dobrá-la e comê-la. Ao ouvir sobre isso, Mortensen pediu para a cena ser incluída no filme, mas o diretor e roteirista Farrelly disse que já haviam cenas “alimentares engraçadas” demais na produção. Mas quando eles incluíram a cena e todos da produção começaram a rir, o diretor resolveu deixar ela no filme.

O filme é dedicado a “Larry the Crow”, um pássaro que pairava em torno do local das filmagens. O ator Viggo Mortensen cuidou dele depois que ele foi atropelado por um carro.

O título do filme é uma referência ao “Livro Negro dos Motoristas Negros”, conhecido também como “Livro Verde dos Viajantes Negros”. Publicado entre 1936 e 1966, o guia ajudava viajantes afro-americanos a encontrar locais em que eles poderiam dormir, comer e outros estabelecimentos comerciais que eles poderiam frequentar em locais que segregavam brancos e negros. Esse livro acabou cobrindo não apenas a América do Norte, mas também Bermudas e o Caribe.

Depois da viagem de dois meses que vemos em cena em Green Book, Tony e Shirley continuaram em contato. Depois da experiência que vemos no filme, eles entraram em uma turnê que durou quase um ano. Além disso, o músico pediu a Tony que se tornasse o seu motorista e guarda-costas durante a sua turnê europeia, mas Tony recusou o trabalho para não ficar mais tempo longe da sua família. Para Nick Vallelonga, Shirley era amigo da família.

Depois de assistir ao filme, o jazzista Quincy Jones comentou: “Eu tive o prazer de me familiarizar com Don Shirley enquanto eu trabalhava como arranjador em Nova York nos anos 1950, e ela era, sem dúvida, um dos maiores pianistas da América. Tão habilidoso músico como Leonard Bernstein ou Van Cliburn. Portanto, é maravilhoso que sua história esteja finalmente sendo contada e celebrada. Mahershala, você fez um trabalho absolutamente fantástico interpretando-o, e eu acho que a performance de Viggo Mortensen e dele se transformaram em uma grande amizade que foi capturada pelo filme”.

Viggo Mortensen realmente comeu os cachorros-quentes na cena da aposta. A equipe de produção forneceu para ele um balde no qual ele poderia cuspir as partes mastigadas após as tomadas, mas ele achou melhor engolir a comida, simplesmente. Nessa história, ele realmente comeu 15 cachorros-quente.

Este é o primeiro Drama dirigido por um dos irmãos Farrelly, mais conhecidos por sua carreira de comédias.

Existe pouca informação sobre Don Shirley. Embora alguns detalhes de sua trajetória sejam contraditórios, o que se afirma como mais seguro é que ele teria se juntado ao Conservatório Rimsky-Korsakov de São Petesburgo aos 9 anos de idade e que teria feito o seu primeiro concerto aos 18 anos de idade na Orquestra Boston Pops. Depois, ele conseguiu vários diplomas, doutorados e aprendeu diversas línguas. O primeiro álbum dele, Tonal Expressions, foi lançado em 1955. Stravinsky, um pianista legendário, disse que o “virtuosismo (de Shirley) era digno dos deuses”. Apesar de ter estudado todos os clássicos, Shirley foi dissuadido pelos líderes da indústria fonográfica a seguir esta carreira dos clássicos porque ele não seria bem aceito pelo público branco.

A família de Shirley questionou o filme, dizendo que o músico nunca teria sido amigo de Tony.

Os usuários do site IMDb deram a nota 8,3 para esta produção, enquanto que os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 228 críticas positivas e 59 negativas para o filme – o que lhe garante uma aprovação de 79% e uma nota média de 7,3. No site Metacritic, o filme ostenta o “metascore” 69, fruto de 37 críticas positivas, 13 medianas e 2 negativas. Interessante como a avaliação do público é bem melhor que a da crítica. Talvez porque as pessoas queiram mais histórias de pessoas comuns.

Segundo o site Box Office Mojo, Green Book faturou US$ 61,5 milhões nos cinemas dos Estados Unidos e outros US$ 44,6 milhões nos cinemas dos outros países em que a produção estreou. Assim, o filme que teria custado cerca de US$ 23 milhões faturou, até o momento, pouco mais de US$ 106,1 milhões. Um sucesso de bilheteria, sem dúvida.

Green Book é uma produção 100% dos Estados Unidos. Por isso, o filme passa a fazer parte da lista de produções que atendem a uma votação feita há algum tempo aqui no blog.

CONCLUSÃO: Uma parceria em cena incrível, entre dois atores, e uma história simples mas cheia de valor. Isto foi o que eu exprimi de Green Book. A história, evidentemente, faz uma homenagem a dois homens, um gênio da música e o outro uma pessoa simples que era boa em “resolver problemas”, que se aproximaram para uma viagem ao Sul segregacionista dos Estados Unidos. O contato entre eles e a amizade que surgiu em dois meses de viagem demonstram como todas as pessoas podem se entender e aprender uma com as outras, se assim o desejarem. Filme bacana, com uma história simples e envolvente e grandes interpretações, Green Book tem uma narrativa linear e previsível. Isso não chega a atrapalhar o filme, mas também não o transforma em uma obra acima da média.

PALPITES PARA O OSCAR 2019: Green Book concorre em cinco categorias no prêmio da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood. Para começar, o filme concorre com Mahershala Ali na categoria Melhor Ator Coadjuvante.

Pelas premiações vistas até aqui, ele é o favoritíssimo para levar esse prêmio. E avaliando o trabalho dele nesta produção, com um desempenho equilibrado, honesto e bastante elegante, Ali realmente merece o prêmio. Falta assistir ainda a Richard E. Grant em Can You Ever Forgive Me?, mas entre Ali, Adam Driver, Sam Elliott e Sam Rockwell – já assisti a Vice, o próximo que vou comentar por aqui -, realmente fico com Ali. Considero quase impossível, pelo histórico conquistado pelo ator até aqui, ele perder nessa categoria. Então, temos 1 Oscar já para Green Book.

Depois, o filme concorre na categoria Melhor Edição. Um páreo duríssimo, mesmo sem First Man na disputa. Apesar da edição de Green Book ser boa, gostei mais do trabalho de Vice e The Favourite – ou até mesmo de BlacKkKlansman. Ainda preciso ver a Bohemian Rhapsody, mas acho que Green Book corre por fora nesta disputa.

Parceiro constante de Ali nesta produção, Viggo Mortensen foi indicado como Melhor Ator. Ele faz um belo trabalho, sem dúvida, mas terá um páreo duríssimo com Christian Bale, que está ótimo em Vice, e com Rami Malek, que já ganhou alguns prêmios por seu desempenho em Bohemian Rhapsody. Como acredito que a grande disputa está entre Bale e Malek, Mortensen corre por fora nesta categoria também.

Green Book também foi indicado como Melhor Filme. Não é impossível a produção vencer, porque este ano não existe, me parece, um franco favorito. Caso a Academia escolher Green Book, no lugar de BlacKkKlansman, por exemplo, seria a premiação de um bom filme, que trata de pessoas comuns e que critica o racismo nos Estados Unidos de forma mais branda do que a produção de Spike Lee. Francamente, até o momento, nenhum filme ainda realmente me convenceu de ser o melhor do ano, mas me parece que Vice e The Favourite são obras mais complexas e com maior ousadia – não sei se isso lhes torna melhores filmes, mas é um fato.

Finalmente, Green Book concorre também na categoria Melhor Roteiro Original. Parada duríssima também, já que a produção concorre com roteiros bastante complexos e interessantes, como Vice e The Favourite. Vai depender muito do gosto da Academia e no filme que querem consagrar nesta edição. Podem até premiar Roma nesta categoria – não seria uma surpresa. Gosto de Green Book, mas não sei se ele terá força para ganhar.

Em resumo, Green Book pode levar um prêmio para casa, o de Melhor Ator Coadjuvante, ou até 3, me parece – adicionando Melhor Filme e Melhor Roteiro Original. Tudo vai depender do gosto dos votantes da Academia. Difícil prever. O filme é bom e não seria um desperdício consagrá-lo, especialmente em um ano com uma safra relativamente fraca como é o caso deste ano.

Anúncios

The Favourite – A Favorita

the-favourite

Ah, a monarquia e os seus jogos de poder e interesses. The Favourite se joga de cabeça e de uma forma diferenciada nesse universo. Francamente, eu não sabia muito o que esperar desse filme. Sabia, claro, que ele foi um dos mais indicados ao Oscar. Esperava, pelas indicações das atrizes até aqui, grandes interpretações. Ainda assim, o filme me surpreendeu. Especialmente pela linguagem utilizada e por sua crueza. Não há filtros. Também aprendemos muito bem como uma aprendiz pode superar rapidamente a sua professora. Com interpretações realmente incríveis,  direção de fotografia e trilha sonora interessantes, The Favourite se apresenta como um filme inusitado.

A HISTÓRIA: Em um salão ornamentado, duas serviçais tiram o traje da Rainha Anne (Olivia Colman). Ao lado dela, Lady Sarah Malborough (Rachel Weisz). A cena é de imponência. Tudo perfeito, até que a coroa é retirada da Rainha e ela parece se tornar uma pessoa comum. A Rainha pergunta para a amiga como ela se saiu, se ela gaguejou. Sarah a elogia, mas se recusa a cumprimentar os “anjinhos”, um grupo de coelhos que está próximo da cama da Rainha. Sarah diz que ama a Rainha, mas que isso ela não vai fazer porque o amor tem limites. A Rainha diz que não deveria ter. A Rainha leva Sarah vendada até um outro local onde mostra a maquete de um palácio que a monarca quer construir e dar para a amiga. A Inglaterra está em guerra, mas isso não parece preocupar muito a Rainha.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a The Favourite): Gostei da ousadia desta produção. Ela tira todos os filtros e o costumeiro “respeito” com a monarquia para nos mostrar uma corte cheia de interesses e de disputas por poder. Algo que sempre soubemos que existiu neste ambiente, mas que nunca foi explorado de uma forma tão aberta e cínica como em The Favourite.

Logo no início do filme começa a ser demonstrado o talento das três atrizes indicadas ao Oscar. Pouco a pouco vamos conhecendo a “Rainha louca” magistralmente interpretada por Olivia Colman. Ela nos apresenta uma rainha cheia de problemas de saúde, carente e insegura, perfeitamente suscetível a diferentes tipos de manipulações. Disputam a sua atenção, o seu afeto e, principalmente, os seus favores duas primas que há muito não se encontravam: Lady Sarah, velha conhecida da Rainha, com quem divide inúmeras histórias, e a recém-chegada Abigail (Emma Stone).

Inicialmente, Abigail chega à Côrte para buscar um emprego. Prima de Lady Sarah, ela caiu em desgraça por causa das dívidas e da jogatina do pai. (SPOILER – não leia se você assistiu ao filme). Depois de ser “vendida” para um alemão como dívida de jogo, Abigail sobreviveu a diversas situações até tentar um favor da prima Lady Sarah. Inicialmente, ela vira uma empregada como outra qualquer, até que, após ter a mão queimada com água sanitária, ela descobre ervas que poderão não apenas ajudar-lhe a se curar, mas também aliviar as dores da Rainha.

Um dia, juntando coragem e ousadia, Abigail mente para o serviçal da Rainha e consegue levar para ela um emplastro de ervas. Como elas acabam aliviando as dores da Rainha, Lady Sarah “promove” a prima para ser a sua serviçal. De forma muito inteligente, Abigail se faz notar para a Rainha e, como uma aluna exemplar, ela aproveita a proximidade com Lady Sarah para perceber como ela se relaciona com a Rainha, como ela a manipula, tira vantagens da monarca e como ela, Abigail, pode se aproveitar de todo esse cenário.

Dividido em capítulos, The Favourite nos apresenta essa história de jogo de interesses e de disputa pela atenção e pelos favores da Rainha. No pano de fundo, a Inglaterra vivencia uma guerra com a França, no qual estão em jogo aumento de impostos no campo, insatisfação da população com a guerra e com a sua monarca e a disputa de poder no Parlamento inglês. No centro das nossas atenções, a queda de braço entre Sarah e Abigail e a forma com que ambas disputam o “amor” e o “favoritismo” da Rainha.

Algo que surpreende neste filme, logo no início, além da interpretação crescente das atrizes, é a trilha sonora vigorosa e bastante presente composta por William Lyons e Johnnie Burn e a direção de fotografia primorosa de Robbie Ryan. Em seguida, chama a atenção o roteiro diferenciado de Deborah Davis e Tony McNamara. A dupla nos apresenta os bastidores de uma Côrte como não estamos acostumados a ver. O filme não tem filtros nem na linguagem dos personagens e nem nos seus atos – muitos deles violentos e cruéis. Ou seja, poucas vezes vimos a uma Côrte de maneira tão crua e objetiva.

Isso é o que mais chama a atenção nesta produção, juntamente com o trabalho excelente das atrizes em cena. O filme funciona muito bem nesse crescente de disputa até perto do final, quando eu acho que a história perde um pouco de força com a “desistência” de Lady Sarah da disputa. Ela simplesmente desiste da queda de braço com a prima que, de fato, acaba “ganhando” a disputa. Mas então, nos minuto finais, com a rápida “lucidez” e castigo da Rainha, nos perguntamos o que realmente significa “ganhar” naquele cenário.

Gostei de The Favourite por ele nos apresentar uma brisa nova em um gênero já bastante explorado e conhecido. A ousadia dos roteiristas Deborah Davis e Tony McNamara e a direção segura e que soube valorizar cada elemento em cena de Yorgos Lanthimos são pontos fortes da produção, assim como o trabalho exemplar de Olivia Colman, Emma Stone e Rachel Weisz. Agora, este é o Melhor Filme do ano? Para o meu gosto, não. Sim, ele tem várias qualidades, mas o que ele nos apresenta no final?

Mais uma história sobre ambição, busca por status e jogos de poder em uma Côrte. Algo que já conhecemos à fundo, se assistimos a vários filmes do gênero. O diferencial de The Favourite é como o filme nos apresenta aquele cenário e aquelas pessoas. Não há “respeito” em relação à Rainha, que se deixa levar por quem lhe dá maior prazer na cama – algo muito comum em diferentes reinados. Também vemos às pessoas que cercam a Rainha sem máscaras, o que é algo raro, mas isso não faz o filme ser inesquecível. Ainda espero ver o filme que me arrebate nesta atual disputa pelo Oscar.

NOTA: 9.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Filmes de época e que envolvem a realeza sempre originam ótimas cenas, cenários e figurinos. Isso não poderia ser diferente com The Favourite. Uma das qualidades do trabalho do diretor Yorgos Lanthimos foi explorar cada um dos elementos belos que ele tinha em cena com primor, assim como valorizar o trabalho do elenco – com destaque para Olivia Colman, Emma Stone e Rachel Weisz.

O roteiro franco e direto de Deborah Davis e Tony McNamara é o que diferencia The Favourite de outros filmes do gênero. Como comentei antes, o zelo com a figura da monarca cai por terra, com o roteiro mostrando uma Rainha cheia de comportamentos infantis, inconstantes e com variação de humor e de saúde impressionantes – mas que demonstram, de forma prática, o que sabemos que aconteceu, de fato, na história.

Ao redor dela, diversos tipos de pessoas que desejam apenas tirar o melhor proveito desta proximidade e deste poder – seja do tipo de Lady Sarah, que tem longa relação com a Rainha, fala de forma sincera e, ainda assim, busca ganhos próprios, seja do tipo de Abigail, que faz de conta que não deseja nada em troca, mas que está ali apenas para conseguir benefícios. O mesmo se aplica aos líderes do Parlamento e outros pessoas da Côrte. No fim das contas, nos perguntamos: alguém realmente se importa com o país? E essa pergunta vale até hoje, e não apenas no ambiente da Monarquia, devo dizer.

As três atrizes citadas e que dominam a narrativa são o destaque do filme, sem dúvida alguma. Além delas, vale citar o trabalho de alguns atores que fazem papéis menos importantes na produção, mas que tem a sua relevância para a narrativa: James Smith como Godolphin, Primeiro Ministro e um dos aliados de Lady Sarah; Mark Gatiss como Lord Marlborough, marido de Lady Sarah e comandante da linha de frente da guerra da Inglaterra contra a França; Nicholas Hoult como Harley, líder da oposição no Parlamento que se aproxima de Abigail para tentar virar o jogo a seu favor; e Joe Alwyn como Masham, um membro da Côrte que acaba sendo seduzido por Abigail.

Entre os aspectos técnicos da produção, volto a destacar a excelente direção de fotografia de Robbie Ryan; assim como a edição precisa de Yorgos Mavropsaridis; o design de produção de Fiona Crombie; a direção de arte de Caroline Barclay, Sarah Bick, Lynne Huitson e Dominic Roberts; a decoração de set de Alice Felton; os figurinos de Sandy Powell; o Departamento de Maquiagem com 22 profissionais; assim como o trabalho de dezenas de profissionais do Departamento de Arte.

The Favourite estreou no Festival de Cinema de Veneza em agosto de 2018. Depois, o filme participaria, ainda, de 28 festivais em diversos países. Um número impressionante para um filme com um caráter mais comercial. Em sua trajetória, até o momento, The Favourite ganhou 115 prêmios – um número impressionante também – e foi indicado a outros 251 prêmios, incluindo 10 indicações ao Oscar.

Entre os prêmios que recebeu, destaque para o Globo de Ouro de Melhor Atriz em Filme Musical ou Comédia para Olivia Colman; para os prêmios de Melhor Atriz para Olivia Colman e o Grande Prêmio Especial do Júri para Yorgos Lanthimos no Festival de Cinema de Veneza; e para 12 premiações como Melhor Filme; 24 prêmios de Melhor Atriz para Olivia Colman; 17 prêmios de Melhor Roteiro; 12 prêmios de Melhor Elenco; 4 prêmios de Melhor Atriz Coadjuvante para Emma Stone; 8 prêmios de Melhor Atriz Coadjuvante para Rachel Weisz; e 3 prêmios de Melhor Diretor para Yorgos Lanthimos.

Agora, vale citar algumas curiosidades sobre The Favourite. A atriz Olivia Colman engordou 16 quilos para interpretar a Rainha Anne.

The Favourite foi filmado utilizando, principalmente, luz natural disponível ou as chamadas “iluminações práticas”, ou seja, a luz de velas e lareiras. O diretor de fotografia Robbie Ryan manteve o equipamento de iluminação reserva próximo, mas utilizou pouca luz adicional. Ele quis aproveitar ao máximo o clima quente e favorável durante a época das filmagens. O efeito realmente é maravilhoso, transmitindo ainda mais legitimidade para a produção.

A figurinista Sandy Powell utilizou, intencionalmente, tecidos anacrônicos nesta produção. Rendas e vinil cotados a laser foram usados para muitas roupas dos cortesãos, enquanto os vestidos e braces dos criados foram feitos de tecido denim reciclado vindo de várias partes da Inglaterra. O roupão que a Rainha Anne utiliza é feito de um cobertor de chenile que Powell comprou no eBay.

A maioria dos trajes e perucas foram feitas do zero. Como o orçamento do filme era apertado, ficou inviável alugar esses trajes. Além disso, o século XVIII é pouco retratado em filmes, o que faz com que poucas casas de fantasia tenham estoque disponível destes trajes. Roupas e perucas foram construídas sob encomenda e, depois, descontruídas e reutilizadas em outras cenas.

A figurinista Sandy Powell teve que dividir as suas funções entre The Favourite e Mary Poppins Returns. Para a sorte dela, as duas produções foram realizadas de forma adjacente no Pinewood Studios. O trabalho duplicado se apresentou bem sucedido e positivo, já que os dois filmes foram indicados ao Oscar pelos seus figurinos.

O marido da Rainha Anne, o príncipe George da Dinamarca, nunca é visto ou mencionado em The Favourite. Mas Abigail começou a servir a Rainha em 1704, e George morreu apenas em 1708. A morte de George e dos filhos da Rainha foram alguns dos motivos que fizeram Anne cair em depressão.

Segundo Rachel Weisz, The Favourite é como All About Eve, mas mais divertido e dirigido pelo sexo. Enquanto assisti ao filme, não vou mentir que me lembrei de All About Eve – pelo “aprendizado” de Abigail e pela forma com que ela supera a sua professora na ambição.

Não existe nenhuma menção durante o filme, mas The Favourite é “vagamente” baseado em fatos reais.

Antes de se casar, Lady Sarah tinha o sobrenome Churchill. Apesar de ter pedido a posição de poder e de influência sobre a Rainha Anne, o descendente de Lady Sarah, Winston Churchill, se tornou um dos maiores Primeiros Ministros da história da Inglaterra. O palácio prometido para Lady Sarah, o Palácio de Blenheim, de fato foi erguido e usado pela família Churchill por mais de 300 anos. Winston Churchill nasceu lá, inclusive.

Os usuários do site IMDb deram a nota 7,9 para esta produção, enquanto que os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 314 críticas positivas e 21 negativas para o filme – o que lhe garante uma aprovação de 94% e uma nota média de 8,6. As duas notas estão bem acima da média e chamam a atenção. O site Metacritic apresenta um “metascore” 90 para The Favourite, fruto de 52 críticas positivas e de 1 mediana, além do selo “Metacritic Must-see”.

De acordo com o site Box Office Mojo, The Favourite faturou US$ 29,4 milhões nos Estados Unidos e mais US$ 34,1 milhões nas bilheterias de outros mercados em que estreou até o dia 7 de fevereiro. No total, portanto, o filme fez pouco mais de US$ 63,5 milhões.

The Favourite é uma coprodução da Irlanda, do Reino Unido e dos Estados Unidos. Como um dos países que produziu este filme foi votado há tempos aqui no site como um dos preferidos de vocês, essa crítica entra na lista de produções que atendem a essa votação. 😉

CONCLUSÃO: Um filme com um roteiro surpreendente, mas que parece arrefecer no final. The Favourite tem grandes interpretações e um roteiro que acerta em cheio ao mostrar uma corte sem papas na língua ou grande respeito. O pior da ambição humana e da guerra de poder está em cena. Nesse sentido, The Favourite inova em um gênero já bastante trabalhado. Ainda assim, senti que a produção deu uma pequena derrapada, no final, abrindo mão de uma queda de braço que estava mais interessante na fase anterior. Provocador e interessante por causa das interpretações e da reconstrução de época, The Favourite pode ter sido bem indicado ao Oscar, mas não acho que mereça levar estatuetas em muitas categorias.

PALPITES PARA O OSCAR 2019: The Favourite foi indicado 10 vezes ao Oscar, em nove categorias diferentes. Ou seja, em teoria, o filme tem nove chances de ganhar uma estatueta. Quantas, de fato, ele levará para casa? Não consigo responder esta questão com certeza porque ainda tenho filmes importantes para assistir e que estão concorrendo com esta produção.

Mas vou comentar a minha opinião sobre cada uma das categorias em que a produção está na disputa, beleza? Vamos começar com Melhor Atriz Coadjuvante, no qual o filme emplacou as indicações de Emma Stone e Rachel Weisz. Adoro o trabalho e a carreira de Rachel Weisz, mas considero que Emma Stone está perfeita em The Favourite. Entre as duas, acredito que Stone leve vantagem. Mas, analisando as premiações até o momento, Regina King, por seu trabalho em If Beale Street Could Talk, parece ser a favorita nesta categoria. Então, não deve dar para The Favourite.

Em Melhor Figurino, The Favourite tem boas chances, mas para levar o prêmio, ela terá que bater fortes concorrentes, como Black Panther e produções que investiram pesado neste tema, como Mary Poppins Returns e Mary Queen of Scots – considero The Ballad of Buster Scruggs como um concorrente mais fraco. Em Melhor Edição, a disputa também está boa – e sem First Man na disputa. Tenho que assistir a outros concorrentes, mas acho que a edição de BlacKkKlansman pode superar a de The Favourite. Vai depender muito do gosto da Academia neste ano.

Na categoria de Melhor Atriz, a disputa está forte neste ano. Francamente? Acho que o trabalho de Olivia Colman era sim merecedor do Oscar. Ela está incrível no papel de “rainha louca” de The Favourite. Mas e Glenn Close? Difícil escolher entre as duas. Qualquer uma levando o prêmio, será justo. Muito mais do que entregar a estatueta para Lady Gaga. Acho que Colman corre por fora, com Close como favorita, mas não seria surpresa ela levar.

The Favourite concorre ainda em Melhor Direção de Fotografia. Categoria muito disputada neste ano com as excelentes fotografias de Cold War e Roma. A vida de The Favourite não é fácil, mas a direção de fotografia do filme é maravilhosa. Ainda assim, acho que o prêmio ficará entre os filmes em preto e branco – Cold War ou Roma. The Favourite emplacou o diretor Yorgos Lanthimos na categoria de Melhor Diretor. Ele deve perder para o favoritíssimo Alfonso Cuarón, em uma das categorias mais previsíveis deste ano.

Na categoria de Melhor Filme, The Favourite teria que derrotar outros concorrentes mais fortes, pelas premiações entregues até agora, como Green Book, Bohemian Rhapsody e Vice. Para mim, Melhor Filme é uma das categorias mais indefinidas desse ano. Quase tudo pode acontecer. Finalmente, o filme concorre em Melhor Roteiro Original. De fato, o roteiro é um dos pontos fortes e diferenciais da produção. Mas para ganhar o prêmio, ele terá que derrubar Green Book e Roma. Será uma tarefa difícil, mas não impossível.

Assim, os prêmios para The Favourite vão depender mais de quem o Oscar vai querer consagrar nesse ano do que de merecimento, realmente. Com 10 indicações ao prêmio, The Favourite pode sair de mãos vazias ou levar cerca de 3 ou 4 prêmios – com chances maiores em Melhor Figurino, Melhor Edição, Melhor Atriz e Melhor Roteiro Original. Eu não me surpreenderia com nenhum destes resultados – apenas com mais estatuetas indo para o filme.

The Wife – A Esposa

the-wife

Qual papel a mulher que é casada desempenha na sociedade? Atualmente, diversificado – se ela tiver terreno para isso e assim desejar. Mas e há algumas décadas? A mulher estava sempre em uma papel secundário, afinal, “Por trás de um grande homem há sempre uma grande mulher”, como gostavam de dizer. Mas por que “por trás”? E será que realmente “por trás”? The Wife é um filme muito interessante por tratar deste aspecto, mas não apenas dele. Esta produção bateu forte em mim por abordar com franqueza a questão das aparências. Um marido aparentemente amoroso e atencioso que, depois, vamos ver que não era nada daquilo. Uma boa surpresa nesta temporada.

A HISTÓRIA: Começa em Connecticut em 1992. Joe Castleman (Jonathan Pryce) chega até a cama, onde Joan Castleman (Glenn Close) já está deitada. Ele está inquieto, e Joan pergunta o que ele está fazendo. Ela recomenda que ele não coma doces, como ele está fazendo, porque ele vai acabar não dormindo. Joe diz que se “aquilo não acontecer”, ele não quer ficar em casa recebendo ligações de consolo. Que eles devem ir para um chalé no Maine. Ela olha para cima, aparentemente pedindo paciência para lidar o marido, que está bem agitado. Ele se aproxima dela, mas Joan comenta que não quer sexo e que aquilo estava se desenrolando de forma patética.

Durante a noite, Joe atende uma ligação. Do outro lado da linha, o Sr. Arvid Engdahl, da Fundação Nobel, em Estocolmo, na Suécia. Inicialmente, Joe reage com surpresa, comentando que aquela situação deveria ser uma brincadeira. Sr. Arvid diz que não, mas Joe pede que ele aguarde um pouco porque ele gostaria que a esposa também escutasse, acessando uma outra linha. Em breve, a carreira de escritor de Joe Castleman será reconhecida com um Prêmio Nobel.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a The Wife): O trabalho dos atores é o primeiro aspecto que salta aos olhos nesse filme. O segundo elemento de destaque, sem dúvida, é o roteiro de Jane Anderson, muito bem construído e envolvente. Cada linha é importante e está em seu lugar. Não é um roteiro verborrágico, cheios de frases e de palavras jogadas ao vento. Nem mesmo um destes roteiros que pretende dar uma “reviravolta” no final ou surpreender.

Isso, inclusive, foi uma das críticas sobre este filme. De que ele não era surpreendente. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Comentam isso porque, de fato, quando The Wife começa a apresentar fatos do passado, não é muito difícil presumir que o verdadeiro responsável pelo Nobel de Literatura não era o marido, e sim a esposa. Mas esse fato sendo conhecido em meados do filme não é algo ruim para a produção. Na verdade, desde o início de The Wife, tive a sensação de que algo estava errado naquela história. Eu só não sabia o porquê.

O que nos faz duvidar daquele “conto de fadas” desde o início, antes mesmo do flashback começar? A maravilhosa interpretação de Glenn Close, que está perfeita como Joan Castleman. E esse é um dos aspectos que eu acho mais interessantes e diferenciados em The Wife. Aparentemente, Joe Castleman é um marido atencioso, generoso, que está sempre atento à esposa e homenageando ela. Enquanto isso, a esposa dele parece um tanto fria ou distante.

Mas aí, como já tenho certa experiência de vida, comecei a me perguntar: por que isso parece tão estranho? Porque as reações de Joan são tão diferentes do que seria normal de uma mulher que realmente estaria sendo paparicada e constantemente homenageada? É porque as aparências nunca são o que elas querem nos passar, não é mesmo? A parceria entre os atores é maravilhosa, e a maneira com que o roteiro de Anderson vai nos apresentando essa relação, mergulhando na intimidade dos protagonistas e nos mostrando as suas particularidades, é algo fascinante.

Honestamente, eu não sabia o que esperar desse filme. Isso porque eu não tinha lido nada a respeito da história antes. Então fui me surpreendendo com a história conforme ela foi se desenrolando. A produção mexeu comigo, especialmente, por dois aspectos: por nos contar uma história que explora, como poucas que eu tenho lembrança, como as aparências enganam e como as mulheres tiveram que abrir mão de seu talento por não serem levadas à sério em diferentes funções por causa de sociedades que não estavam (e não estão ainda) preparadas para isso.

The Wife nos apresenta, assim, com bastante contundência, essa questão da “esposa” ser sempre a sombra do marido. Sempre homenageada, muitas vezes amada, mas sempre colocada em segundo plano. Conforme a história vai se revelando, impossível não começar a lembrar de tudo que vimos antes e de como Joan teve que “engolir” a soberba do marido que, na verdade, não tinha quase mérito nenhum sobre o que estava recebendo. A carreira dele foi construída por ela, e o trabalho duro foi feito por ela também.

Ainda assim, Joe se mostra superior, sempre que pode, não apenas para ela e para os demais, mas para o filho que pretende ser escritor também, David (Max Irons). O comportamento de Joe frente aos familiares é um clássico do macho que se acha “alfa” na relação. Um perfil visto por tantas e tantas mulheres e filhos em diferentes famílias. Então, conforme a história avança e percebemos o papel de cada um naquele Nobel, impossível para uma espectadora desta produção não ficar mexida com a história de Joan.

Nesse sentido, é interessante rever o filme – ou lembrar dele. Para pensar em cada reação de Joe, inclusive a comemoração de “Eu ganhei um Nobel” pulando sobre a cama. O mínimo que ele deveria fazer era dizer “Nós ganhamos um Nobel”, não? Mas a soberba não lhe deixa esta possibilidade. Depois, cada elogio e palavra que Joan ouve sobre Joe, deveria ser dita para ela, na verdade. E como isso tudo pode não mexer com a gente?

Em uma época em que falamos sobre o empoderamento feminino, The Wife nos dá um tapa na cara de como as sociedades precisam evoluir muito ainda. Joan, apesar de muito talentosa, acaba não se lançando para a carreira de escritora porque todos lhe dizem que ela não terá espaço para isso. (SPOILER – não leia… bem, você já sabe). A consequência é que ela, possivelmente culpada por ter terminado com o casamento de Joe, acaba aceitando “salvar” a carreira dele reescrevendo os seus livros.

Por causa dela, ele teve uma carreira. Teve sucesso. Mas ele não teve a coragem de falar sobre isso em público ou de começar a lançar os seus livros tendo os dois como autores. Que era o mínimo que ele deveria fazer, evidentemente. Depois, quando ganhou o Nobel, disse indiretamente que o prêmio era da esposa, mas sem realmente jogar luz sobre a verdade sobre a sua carreira. Isso tudo porquê? Pelo orgulho, que sempre parece ser maior entre os homens. Infelizmente.

Outro ponto que me chamou a atenção: que apesar de não ter tanto talento e nem tanto mérito sobre o Nobel, Joe “cantava de galo” frente ao filho, não incentivando ele em uma visível disputa entre os dois. Algo que Joan assistia de perto silenciosamente discordando. Mas para tudo há um limite, e no final do filme o limite chegou para Joan.

(SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Para mim, conscientemente ou não, ela provocou a morte de Joe – ela sabia que ele tinha problema cardíaco e que aquele rompimento poderia originar um problema maior. No fim, ela diz para ele o que ele deseja ouvir e o “protege” frente ao biógrafo não autorizado Nathaniel Bone (Christian Slater), que havia chegado à verdade sobre a fraude do escritor. Ela fez isso por amor à ele. Não acredito. Fez mais para proteger a família, os filhos, esses sim que realmente lhe importavam.

Jane Anderson escreveu o roteiro de The Wife baseado no livro de mesmo nome de Meg Wolitzer. Fiquei curiosa para ler a obra que, imagino, seja ainda mais rica que esta produção. Outro ponto forte do filme, a meu ver, é a direção cuidadosa e que valoriza as interpretações dos atores feita por Björn Runge. Um belo trabalho, que casa muito bem com os outros elementos importantes da produção – roteiro e interpretações. Um filme que mexe especialmente com as mulheres e que trata de temas bastante relevantes. Deve ser assistido e apreciado.

Ah sim, e existe uma dúvida sobre o final desta produção. É claro que não existe apenas um final possível, já que ele ficou em aberto. Mas vou dar a minha opinião e leitura sobre aquele final. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Para mim, Joan negou o que Nathanial havia descoberto para defender a família e o marido morto – e ganhador de um Nobel, no final das contas. Mas depois, pelo que ela falou para David no avião, ela contaria toda a verdade para os filhos, para que eles soubessem realmente o que aconteceu – e até para tirar das costas de David toda aquela cobrança do pai que não tinha realmente fundamento.

NOTA: 9,7.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Os protagonistas desta produção são os grandes responsáveis pela força de The Wife. Glenn Close e Jonathan Pryce tem muita experiência e são talentosos, então eles conseguem dar a dinâmica e a profundidade necessária para entendermos os seus personagens. Ainda que eles tenham muito de “comum”, eles são complexos e tem várias camadas de interpretação. Isso que torna o filme interessante, afinal, mergulhamos na privacidade deles e na sua relação.

The Wife é um filme sobre uma mulher que, apesar de protagonista, é considerada coadjuvante, e sobre uma relação que começou conturbada e que seguiu carregada de culpa e de parceria até o seu fim. Quantas relações podem ser classificadas sob esses mesmos critérios? Quantas “esposas” deveriam ser consideradas protagonistas, mas por causa da sociedade em que nasceram e foram criadas, não o são? The Wife nos faz pensar sobre tudo isso, assim como no jogo de poder dentro de uma família.

Apesar de Close e Pryce serem as estrelas desse filme, seria errado não comentar o belo trabalho de Annie Starke e Harry Lloyd como os jovens Joan e Joe. No passado, ela era uma estudante de Literatura e, ele, um de seus professores. Além deles, vale citar o trabalho competente de dois outros atores: Max Irons como David, o carente aspirante a escritor filho do “genial” Joe Castleman; e Christian Slater como Nathaniel Bone, um escritor que tenta escrever a biografia não autorizada de Castleman. Também vale citar o trabalho de ponta de Elizabeth McGovern como a escritora Elaine Mozell, que desencoraja a jovem Joan a se tornar escritora; de Karin Franz Körlof como Linnea, fotógrafa que acompanha de perto o novo escritor premiado com um Nobel; Richard Cordery como Hal Bowman, agente de Castleman; Jan Mybrand como Arvid Engdahl, contato do Nobel com os ganhadores dos prêmios; e Alix Wilton Regan como Susannah Castleman, filha do casal de escritores.

O filme é muito bem guiado pelo diretor Björn Runge, que sabe valorizar os talentos que tem em cena e fazer uma narrativa segura sobre a história perfeitamente adaptada pela roteirista Jane Anderson. Além deles, vale destacar outros aspectos técnicos do filme, como a direção de fotografia de Ulf Brantas; a trilha sonora de Jocelyn Pook; a edição de Lena Runge; o design de produção de Mark Leese; a direção de arte de Caroline Grebbell, Paul Gustavsson e Martin McNee; os figurinos de Trisha Biggar; e a decoração de set de Craig Menzies.

The Wife estreou em setembro de 2017 no Festival Internacional de Cinema de Toronto. No mesmo ano, o filme passou, ainda, pelos festivais de cinema de San Sebastián e de Zurique. Em circuito comercial, ele entraria em cartaz apenas no dia 2 de agosto de 2018 na Austrália e em Israel, estreando nos Estados Unidos no dia 17 de agosto. No mesmo ano, ele participaria de apenas mais um festival de cinema, o Noordelijk Film Festival.

Em sua trajetória por festivais e destacado em diversas premiações de cinema, The Wife ganhou 11 prêmios e foi indicado a outros 20, incluindo uma indicação ao Oscar na categoria Melhor Atriz para Glenn Close. Entre os prêmios que recebeu, destaque para o Globo de Ouro de Melhor Atriz – Drama para Gleen Close; para o prêmio de Melhor Atriz dado pelo Screen Actors Guild Awards; para outros oito prêmios de Melhor Atriz recebidos por Glenn Close e para um prêmio de Melhor Ator Coadjuvante para Jonathan Pryce.

Fiquei curiosa para saber quantas mulheres ganharam o Prêmio Nobel de Literatura. O prêmio começou a ser entregue, anualmente, desde 1901. As mulheres que o receberam, desde então, foram as seguintes: Selma Lagerlöf, em 1909; Grazia Deledda, em 1926; Sigrid Undset, em 1928; Pearl S. Buck, em 1938; Gabriela Mistral, em 1945; Nelly Sachs, em 1966; Nadine Gordimer, em 1991; Wislawa Szymborska, em 1996; Elfriede Jelinek, em 2004; Doris Lessing, em 2007; Herta Müller, em 2009; Alice Munro, em 2013; e Svetlana Alexijevich, em 2015. Ou seja, 13 mulheres em mais de 100 anos de premiação. São poucas, mas elas existem. Algumas delas poderiam ter inspirado a escritora que protagoniza esta produção. A lista completa dos premiados no Nobel de Literatura vocês encontram nesse artigo da Wikipédia – sem dúvida que eu preciso ler a vários deles.

Agora, algumas curiosidades sobre este filme. A atriz Annie Starke, que interpreta a jovem Joan, é filha da atriz Glenn Close. Interessante, não? Eu não sabia disso até ler as notas dos produtores. 😉 Não achei elas muito parecidas, na verdade. Sem a nota, jamais adivinharia.

Embora uma parte do filme se passe, teoricamente, em Estocolmo, grande parte de The Wife foi rodado em Glasgow.

O processo de desenvolvimento de The Wife demorou 14 anos.

Glenn Close e Jonathan Pryce ensaiaram ao redor de uma mesa durante uma semana antes do filme começar a ser rodado.

O nome de Joan Archer – antes de casar com Joe -, o corte de cabelo curto e algumas das característica de seu papel neste filme lembram a heroína francesa Jeanne D’Arc.

The Wife tem uma importância especial para Glenn Close, que disse que a história lhe lembrou muito a própria mãe que, aos 80 anos de idade, disse que parecia que não tinha realizado nada em sua vida porque tinha sido apenas “uma esposa” – e mãe. Ao ser premiada, acredito que no Screen Actors Guild Awards, Close disse que a mãe dela não podia estar mais errada, porque ela tinha realizado muito sendo mãe e esposa. Foi emocionante de ver.

Esse é o primeiro filme falado em inglês do diretor Björn Runge.

O trecho de James Joyce citado duas vezes por Joe Castleman no filme faz parte do conto The Dead, que faz parte da coleção Dubliners, de 1914. Existem alguns paralelos entre o conto e o filme, especialmente entre a última cena do conto e a sequência após a festa de comemoração do Prêmio Nobel. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). A cena do quarto, depois de uma festa, onde a esposa tem algum segredo para revelar é o paralelo mais forte, mas há ainda a questão da neve caindo “sobre os vivos e os mortos”.

Os usuários do site IMDb deram a nota 7,3 para esta produção, enquanto que os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 162 críticas positivas e 30 negativas para a produção – o que lhe garante uma aprovação de 84% e uma nota média de 7,1. No site Metacritic, The Wife apresenta um “metascore” 77, fruto de 34 críticas positivas, 1 mediana e 1 negativa.

De acordo com o site Box Office Mojo, The Wife faturou US$ 8,9 milhões nos Estados Unidos e mais US$ 8,6 milhões nos outros mercados em que estreou, somando uma bilheteria de cerca de US$ 17,5 milhões.

The Wife é uma coprodução do Reino Unido, da Suécia e dos Estados Unidos. Como um dos países envolvidos na produção é os Estados Unidos, essa produção passa a fazer parte da relação de filmes que atendem a uma votação feita aqui no blog há algum tempo.

CONCLUSÃO: Alguns criticaram esse filme por ter um final óbvio. Devo dizer, que não concordo com esse parecer. Claro, lá pelas tantas, quando o filme entra no seu flashback, não é difícil entender quem está por trás da obra que levou ao Nobel. Mas, nem por isso, a história deixa de ser surpreendente. Gostei, em especial, do roteiro e do trabalho dos protagonistas. Eles estão incríveis. Nos envolvem, nos emocionam e nos “tiram do sério” – ao menos àqueles que se indignam com a falta de oportunidades iguais para as pessoas.

Achei um filme potente e muito bem acabado. Me fez pensar e me tirou do sério, então, apenas por isso, já está bem acima da média. Entre as produções recentes, achei uma das mais contundentes sobre a relação que se desenvolve dentro de um lar, os jogos e disputas que existem neste ambiente, especialmente o “jogo de poder” entre o casal e os pais e filhos. Me impressionou a crítica sobre as aparências e sobre a desigualdade de oportunidades. Muito bom!

PALPITES PARA O OSCAR 2019: The Wife foi indicado em apenas uma categoria na premiação da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood: a de Melhor Atriz. Glenn Close está perfeita no papel de Joan Castleman. Mas é um desempenho digno de Oscar? Em outros anos, em que a disputa estava mais acirrada, talvez não. Mas neste ano, em que a principal rival nesta disputa é Lady Gaga, certamente que sim.

Eu não tenho nada contra a Lady Gaga, preciso dizer. Ela está bem em A Star Is Born (comentado neste link) – um dos trunfos do filme, inclusive. Mas ela interpreta, no fim das contas, a si mesma. O que eu acho de uma atriz que interpreta a si mesma? Que ok, isso é válido. Mas é digno de um Oscar? Acho que uma atriz que se desdobra para vivenciar alguém muito diferente dela, com todos os recursos e “imersão” que isso significa, tem mais méritos e merece mais o prêmio.

Assim, eu votaria tranquilamente em Gleen Close. O que os atores e atrizes do Oscar devem fazer? Pelo que vimos nas premiações que antecedem ao Oscar, o prêmio estará, realmente, entre Gleen Close e Lady Gaga. Mas acho que o favoritismo ainda é de Glenn Close. Se ganhar, certamente levará para casa uma estatueta não apenas por esse papel em The Wife, mas também por ótimos trabalhos em uma carreira longa e até hoje não premiada no Oscar – ela foi indicada sete vezes, mas esta poderá ser a sua primeira vez como vencedora. Merece.