Zwei Leben – Two Lives – Duas Vidas

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Duas histórias pouco contadas e interessantes em um mesmo pacote. Isso não é fácil de encontrar. Mas Zwei Leiben apresenta esse pacote de forma eficaz, apesar da complexidade do assunto. Para quem gosta de filmes que se debruçam sobre histórias recentes de países importantes no cenário internacional, esta é uma boa pedida. Envolvente, esta produção tem ritmo, drama e suspense em partes bem dosadas.

A HISTÓRIA: Diferentes narradores comentam sobre a queda do Muro de Berlim e a unificação da Alemanha. Um deles afirma que a população, após “28 anos atrás do arame farpado”, não pode acreditar no que está acontecendo. Outra afirma que muitos manifestantes querem que as lições da RDA (República Democrática Alemã, criada em 1949 e sob a influência dos soviéticos) não sejam esquecidas.

Neste cenário, Katrine Evensen Myrdal (Juliane Köhler) caminha com passos firmes pelo aeroporto de Tyskland em novembro de 1990. Ela passa pelo controle do aeroporto e segue até o banheiro, onde coloca uma peruca e troca de roupa. Saindo dali, Katrine pega um trem, depois um táxi, e chega no local em que ela teria morado quando era criança. Dali, ela segue para o arquivo de Leipzig, onde encontra o nome que tanto estava procurando, de Hiltrud Schlömer. Em breve a história daquele orfanato virá à tona.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Zwei Leben): Muito especial a forma com que o roteiro dos diretores Georg Maas e Judith Kaufmann, com a ajuda de Christoph Tölle, Stale Stein Berg e da colaboradora Hannelore Hippe foi construído. Nos primeiros segundos da produção o espectador é imerso no ambiente da história, ouvindo diferentes narradores falando do final do período de divisão alemã. Quem conhece um pouco da história mundial sabe o peso que isso teve para os alemães, para a Europa e para o mundo.

Em seguida, as primeiras cenas gravadas pelos diretores surgem na tela com a presença marcante da trilha sonora de Christoph Kaiser e Julian Maas. O suspense preenche a narrativa com a troca de “personagem” feita pela protagonista. Não entendemos porque ela está se disfarçando, e a primeira impressão é que ela não quer que a família saiba que ela está correndo atrás do próprio passado. Mas então por que ela diz que se a antiga enfermeira do abrigo mantido por nazistas, Hiltrud Schlömer, estiver morta, o problema dela está resolvido?

Com o tempo é que vamos perceber que o problema de Katrine não é tão óbvio assim. E também identificamos que a narrativa não é linear. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Isso fica evidente não apenas com a esclarecedora volta ao passado para explicar a evolução da protagonista como espiã, mas também quando sabemos que os fatos iniciais ocorreram algumas semanas depois do que a narrativa que veremos após aparecer o nome da produção. Ou seja, Katrine se disfarça após a aparição do representante da firma de advogados Hogseth & Co., Sven Solbach (Ken Duken).

A chegada dele quebra em duas partes a farsa de Katrine/Vera. Antes dele aparecer, ela mantinha uma vida muito tranquila nas redondezas de Bergen, a segunda maior cidade da Noruega. Mulher de temperamento forte, Katrine trabalhava e tinha uma família para cuidar. A maior preocupação dela até a chegada de Sven era levar e trazer o neto para ser cuidado pela avó (a mãe de Katrine, Ase Evensen, interpretada pela veterana Liv Ullmann), enquanto a filha, Anne Myrdal (Julia Bache-Wiig) tenta entrar na universidade e criar a filha que ainda é um bebê.

Os problemas familiares de Katrine vão parecer brincadeira de criança quando Sven Solbach aparece para desenterrar o passado. Sim, eis a história clássica de uma mudança radical na narrativa de uma família quando alguém resolve mexer em vespeiros antigos. Mas aí está a graça deste filme. Ele não apenas conta a história de uma garota e de sua mãe que foram separadas quando a menina veio ao mundo por causa de resquícios repressivos da Segunda Guerra Mundial. Há ainda uma importante história de espiões no meio.

E de história de espiões o cinema está cheio. Mas não sob a ótima deste Zwei Leben. Porque aqui o espectador se aproxima da intimidade de uma espiã realista, com uma história fácil de acreditar. Por isso volto a afirmar o que eu comentei lá no início, de que não é fácil um filme ter duas histórias interessantes e complexas em um mesmo pacote. Acho que quem gosta de história, como eu, vai ficar fascinado com estes acontecimentos pós-Segunda Guerra.

Por um lado, temos a uma história de repressão das mulheres de um país invadido – a Noruega – que se relacionaram com soldados invasores – no caso, os alemães nazistas. Estas mulheres foram mantidas em campos na Noruega. O filme esboça esta explicação em um primeiro momento, mas de forma muito acertada o roteiro faz uma parada, mais ou menos no meio da produção, para explicar em detalhes como os alemães criaram clínicas maternais e orfanatos para diminuir o número de abortos e retirar de mães norueguesas os filhos que eles consideravam importantes – por terem os genes alemães – e levaram estas crianças para a Alemanha.

Em orfanatos como onde cresceu Katrine, a organização chamada Lebensborn mantinha as crianças com “sangue nobre alemão”. Representando a firma de advogados, Sven Solbach procura testemunhos para reabrir o caso destas crianças e apresentá-lo para uma comissão em Estrasburgo. A ideia deles é pedir reparação para aquelas famílias através do tribunal europeu dos direitos humanos. Daí ele insiste em contar com os depoimentos de Katrine e da mãe dela, Ase, porque elas seriam um raro caso de reencontro entre mãe e filha.

De forma bem acertada o roteiro de Zwei Leben apresenta esse momento de ruptura da família Evensen Myrdal sem entregar todo o “ouro” logo de cara. Assim, por um tempo, ficamos pensando se a resistência de Katrine se justifica pelos abusos que ela sofreu ou se há algo mais em jogo. Quando ela se encontra de forma misteriosa com Kahlmann (Thomas Lawincky) e explica para ele o que está acontecendo, e que alguém precisa agir para silenciar a testemunha que pode colocar o disfarce dela em risco, tudo vai ficando mais claro. Ela não é, exatamente, a vítima que se previa.

E daí surge a outra história interessante e complicada da trama baseada na novela manuscrita Eiszeiten, de Hannelore Hippe – que contribui com o roteiro de Zwei Leben. A heroína aqui é vilã, porque ela se infiltrou na família da norueguesa Ase Evensen fazendo-se passar pela filha dela que havia sido levada para a Alemanha. Cooptada quando também estava em um orfanato, Vera Freund, o verdadeiro nome da mulher que se passou por Katrine Evensen, trabalhou para o serviço secretor da RDA. Em todas as voltas para o passado, é especialmente interessante ver como ela foi preparada para o serviço.

Depois que o disfarce dela é descoberto e Vera/Katrine é confrontada pela família – especialmente na cena em que a filha lhe questiona na cozinha -, fica mais claro que apesar de ser vilã, ela também é vítima. Mas de uma maneira diferente do que poderíamos imaginar. Algo a destacar, além destas duas histórias interessantes sobre os bastidores de uma Alemanha dividida durante e após a Segunda Guerra Mundial, é a forma humana com que o filme é narrado. Nos aproximamos muito dos personagens principais, nos deliciando com ótimas interpretações e com um roteiro que não perde o ritmo em momento algum. Um grande trabalho da dupla Georg Maas e Judith Kaufmann e sua equipe.

Mas para não dizer que tudo são flores, algo me incomodou no desfecho desta produção. (SPOILER – não leia… bem, você já sabe). Uma pessoa como Vera, treinada por muito tempo para assumir um disfarce e, com ele, conseguir informações valiosas para o sistema ao qual ela servia, vai de fato capitular e contar toda a verdade para a família que ela enganou por tanto tempo?

O previsível, para mim, seria ela seguir mentindo, mesmo confrontada com o vídeo da verdadeira Kathrin Lehnhaber, filha de Ase Evensen (interpretada, quando jovem, por Vicky Krieps). Ou se ela resolvesse contar a verdade naquele momento, ela não insistiria em tentar fazer as pazes com aquela família após a casa inteira ter “desmoronado”. A Vera que fez tudo o que ela fez teria seguido naquele avião e escapado.

Apenas esse “desvio” do esperado é que achei um pouco difícil de acreditar, frente a um filme que, até então, era bastante crível. Ainda assim, admito que é bacana a tentativa do roteiro em redimir a personagem. Desta forma, os realizadores apostam que os piores criminosos podem se colocar no lugar dos outros e ter atos de compaixão mesmo após diversos anos de mentira. É bacana pensar desta forma, mas só acho pouco realista. E em um filme que vinha tão bem nesse quesito, seria interessante ver Vera recomeçando outra vez.

NOTA: 9,8.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Além de uma história fascinante, Zwei Leben conta com outro trunfo muito importante: um grande elenco. Todos os atores envolvidos na produção estão muito bem em seus respectivos papeis, mas é preciso tirar o chapéu para a dupla de atrizes que dá vida a Katrine Evensen: Juliane Köhler na fase adulta, quando começamos a acompanhar a sua história, e Klara Manzel nas reconstituições de época de quando ela estava sendo preparada para desenvolver o papel que marcaria a sua trajetória de forma definitiva. Brilhantes as duas atrizes.

Para que elas consigam fazer um bom trabalho, faz falta um elenco de apoio também talentoso. Daí entram em cena figuras como a veterana Liv Ullmann, que interpreta a Ase Evensen e que comunica como poucas apenas pelo olhar; Sven Nordin como Bjarte Myrdal, o homem que passa boa parte da vida ao lado de Katrine Evensen; e o veterano Rainer Bock como Hugo, o “chefão” de Katrine e uma figura sempre misteriosa e perigosa na trama. Mesmo em um papel relativamente pequeno, Vicky Krieps consegue imprimir uma identidade importante e marcante como Kathrin Lehnhaber.

Outros atores com papeis menores merecem ser citados. Dennis Storhoi como o advogado Hogseth, chefe de Sven Solbach; Ursula Werner como Hiltrud Schlömer, testemunha importante da história de Katrine; e Thorbjorn Harr como o jovem Bjarte Myrdal. Eles complementam bem o elenco. Gostei do posicionamento do ator Ken Duken com o personagem Sven, mas não senti a mesma firmeza da atriz Julia Bache-Wiig, que interpreta Anne, filha de Katrine e Bjarte.

Para o filme funcionar tão bem, além do ótimo roteiro e de um elenco afinado, faz falta os outros elementos técnicos funcionarem bem. O primeiro elemento que chama a atenção no filme e que já comentei antes é a trilha sonora marcante da dupla Christoph Kaiser e Julian Maas. Diferente de outras produções recentes que eu assisti, neste filme a música é um elemento narrativo importante – e não complementar, como em outros casos.

Pouco a pouco também vai se destacando a direção de fotografia de Judith Kaufmann que, além de registrar o ambiente de cada cenário, ainda faz uma diferenciação bem marcante dos diferentes “tempos” narrativos. Destaque também para a edição precisa de Hansjörg Weissbrich e, evidentemente, pelo excepcional trabalho dos diretores.

Falando neles, é interessante observar a trajetória de cada um destes diretores alemães. Georg Maas tem sete trabalhos no currículo como diretor, sendo dois deles documentários feitos para a TV e um terceiro um filme produzido também para a TV. Das outras quatro produções, duas são documentários. Além de Zwei Leben, Maas dirigiu apenas outro filme para o cinema: NeuFundLand, lançado em 2003. Depois de Zwei Leben ele lançou um documentário para a TV sobre Liv Ullmann. Judith Kaufmann, por sua vez, tem uma carreira consolidada como diretora de fotografia. Ela tem 46 trabalhos atuando desta maneira. Como diretora, tem apenas Zwei Leben.

Para quem gosta de saber sobre os locais em que os filmes foram rodados, esta produção foi totalmente feita na Alemanha e com algumas cenas na Noruega. As cenas foram rodadas em locais como North Rhine, Leipzig, Halle, Bergen, Bonn, Hamburgo e Schleswig-Holstein.

Zwei Leben estreou em outubro de 2012 na Noruega. Depois, em janeiro de 2013, o filme participaria de seu primeiro festival: o de Palm Springs. A trajetória do filme em festivais somaria outras 11 participações. Neste caminho, Zwei Leben abocanhou sete prêmios e foi indicado a outros cinco. Entre os que recebeu, destaque para os de Melhor Filme entregues no Festival de Cinema Biberach e no Festival de Cinema Independente de Biberach. A produção ganhou também dois prêmios da audiência no Festival Internacional de Cinema de Emden e os prêmios de Melhor Elenco e Melhor Edição no Festival de Cinema Alemão.

Este filme, coproduzido pela Alemanha e pela Noruega, foi escolhido para representar a Alemanha como Melhor Filme em Língua Estrangeira no Oscar 2014.

Os usuários do site IMDb deram a nota 7,1 para Zwei Leben. Uma boa avaliação levando em conta o padrão do site. Os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 11 textos positivos e apenas dois negativos para a produção, o que lhe garante uma aprovação de 85% e uma nota média de 6,5. Achei baixa a nota, apesar do nível de aprovação estar bom.

CONCLUSÃO: Interessante quando um filme parece contar uma história e, depois, ele se revela bem mais complexo. Este é o caso de Zwei Leben. Reforçando uma das escolas de cinema mais propensa a esmiuçar e repensar a própria história, esta produção foca no período imediato após a unificação da Alemanha. Com o fim das divisões do país, vários expurgos do passado foram feitos, e muitas histórias duplas, reveladas. Esta produção de interesse histórico e humano parte de uma história particular para refletir sobre um sentimento mais generalizado. Bem narrado e com ótimos atores, o filme só peca um pouco para a solução final da história. Mas nada que comprometa a boa experiência anterior. Recomendo.

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The Grand Budapest Hotel – O Grande Hotel Budapeste

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Filmes que misturam a fantasia e a realidade e que buscam inovar sem disfarçar a homenagem ao cinema dos primeiros tempo são fascinantes. Muitas vezes mais pela proposta do que pelo resultado final. The Grand Budapest Hotel é uma destas produções que agrada pelo ritmo e pelas diversas referências. O problema é que este título surge após vários outros que traçaram caminhos parecidos e que utilizaram recursos similares para contar histórias cheias de fantasia. Assim, ele parece um tanto “repetitivo” em certa medida.

A HISTÓRIA: Inicia na fronteira europeia mais oriental, a ex-República de Zubrowka, que já foi trono de um Império. Uma garota entra no “antigo cemitério de Lutz”. Ela caminha sobre a neve, passa por alguns homens, e chega até um busto identificado com a inscrição “em memória do nosso tesouro nacional”. Coloca um chaveiro junto a outros pendurados, enquanto a câmera percorre o nome “Autor” e vemos a imagem de um senhor de bigode e óculos. A garota olha para a capa do livro que segura entre as mãos: O Grande Hotel Budapest. Na contracapa, a imagem do Autor (Tom Wilkinson). Corta. Em seguida, o Autor, em 1985, fala sobre a inspiração de escrever antes de explicar a origem da história de seu famoso livro.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso só recomendo que continue lendo quem já assistiu a The Grand Budapest Hotel): Um grande elenco e um grande diretor sempre despertam uma expectativa considerável. Ouvi falar muito bem deste filme, e tendo assistido a ótimos trabalhos do diretor Wes Anderson, incluindo o último Moonrise Kingdom (comentado aqui), admito que eu estava esperando muito de The Grand Budapest Hotel. Infelizmente encontrei bastante “mais do mesmo”, e não consegui ficar impressionante com o resultado final desta produção.

A primeira sensação que eu tive enquanto os minutos da narrativa passavam é que Anderson havia feito mais um filme bem realizado tecnicamente, com bastante estilo e seguindo a linha de produções feitas por ele anteriormente, sabendo convencer um grande elenco para encarnar seus personagens, mas sem inovar muito na entrega. E não sei vocês, mas tenho um pouco de preguiça em ver um realizador repetindo a própria fórmula – algumas vezes, ao variar com ela, ele apena preserva uma assinatura, um estilo, mas quando até os detalhes são repetidos, o espectador fica com a sensação de déjà vu.

Mesmo tendo uma hora e meia de duração – que cada vez mais eu tenho achado perfeita para qualquer história no cinema -, The Grand Budapest Hotel pareceu mais longo que isso para mim. Talvez pelo design de produção burlesco e carregado do filme, ou porque achei a história escrita por Anderson e por Hugo Guinness um pouco carente de novidade… Mas o fato é que não fiquei tão envolvida com a produção quanto eu gostaria.

Achei o design de produção, a direção de fotografia, a direção de arte e os efeitos visuais dignos de aplausos. Mas tudo isso, a exemplo dos doces servidos por Agatha (Saoirse Ronan), me deram a impressão de muito glacê e pouco recheio. A história, que vamos saber apenas no final, foi inspirada nas obras do escritor Stefan Zweig, mistura humor, romance, algumas cenas inspiradas e uma narrativa que corre apressada em vários momentos de muita ação. A salada mista é valorizada por um ótimo elenco, mas só ganha interesse real quando fazemos um paralelo de tudo que vimos com a história de Zweig.

E esse é o ponto fundamental para a nota abaixo. Mais que a qualidade técnica do filme, o que me fez achar The Grand Budapest Hotel interessante foi refletir sobre o que eu tinha visto fazendo um paralelo com o escritor austríaco que decidiu matar-se no Brasil, onde vivia, após ficar desiludido com os rumos que o mundo estava tomando. Daí sim, pensando nisso, este filme passa a ganhar outras tintas.

Quem olha apenas para a cobertura cheia de glacê de The Grand Budapest Hotel vê somente o apuro visual e as interpretações inspiradas do elenco, com destaque para a dobradinha da dupla Ralph Fiennes (como o concierge original do hotel, o Monsier Gustave, ) e Tony Revolori (como o mensageiro, o “lobby boy”, Zero).

Mas a homenagem nos créditos finais fazem a produção ter um outro sabor, escondido por baixo de tanto glacê. Apesar de divertido em muitos momentos, romântico em alguns lampejos e veloz durante os momentos de ação, The Grand Budapest Hotel é um filme sobre princípios e sobre a poesia que resiste em momentos em que a realidade toda parece dominada pela crueldade.

Para começar, fica ainda mais interessante a “introdução” feita pelo Autor que aparece no filme. De fato, Zweig sempre foi inspirado por histórias reais que ele ouviu de outras pessoas e, especialmente, pelas próprias vivências, paisagens e pessoas que ele encontrou pelos diferentes lugares por onde esteve. Quem vive da arte, seja ela escrita, filmada ou cheia de acordes, sabe o quanto a inspiração surge após grande observação, muita audição, sensibilidade nos tratos e trabalho duro. Com Zweig, como com tantos outros, foi assim.

Depois, não por acaso The Grand Budapest Hotel tem como pano de fundo uma história que remonta a uma cidade fictícia no leste europeu no ano de 1932. A manchete de um jornal mostrado no filme pergunta se haverá guerra e noticia a chegada de tanques na fronteira – isso pouco antes de M. Gustave saber da morte da condessa Madame D. (a ótima Tilda Swinton em uma caracterização perfeita) e decidir ir no velório dela.

Apesar da história se passar entre os momentos históricos da Primeira e da Segunda Guerra Mundiais, fica evidente a alusão do roteiro à elas. Especialmente por Zweig, nascido em Viena em 1881, teve a vida definitivamente marcada por estes conflitos. Antes da Primeira Guerra eclodir, o escritor já era conhecido por suas longas viagens e por seus escritos a partir das experiências vividas nelas. Quando estoura o primeiro conflito mundial, ele é pego de surpresa na Bélgica. Consegue voltar para Viena, mas é recrutado como “voluntário” para trabalhar no arquivo de guerra (como bem conta este resumo sobre a vida do autor).

Durante o período de guerra, ele consegue escapar do serviço “voluntário” e compra uma casa na montanha (daí teria surgido a inspiração para o cenário do Hotel Budapeste?), antes de lançar ideias pacifistas no drama Jeremias, de 1917. Judeu, ele se alia a vários autores que defendem a paz, mas acaba sendo perseguido pelos nazistas muito antes da Segunda Guerra Mundial – em 1933, como afirma aquele resumo citado logo acima, os nazistas fazem uma grande queima de livros em Berlim, incluindo obras de Zweig.

Três anos depois, o escritor faz a sua primeira viagem para o Brasil. Pouco antes do início do segundo conflito mundial, Zweig se muda para a cidade de Bath, no sudoeste da Inglaterra, onde ele se casa com Lotte. Conforme a Segunda Guerra vai evoluindo, Zweig fica pouco a pouco mais deprimido. Em 1941, ele e a mulher se mudam para o Brasil, onde cometeriam suicídio um ano depois. Em The Grand Budapest Hotel o horror com a guerra e a presença angustiando da vilania fica evidente.

Claro que o mal, no roteiro de Anderson, não está simbolizado apenas pelos homens de farda que não perdem nenhuma oportunidade em perseguir o imigrante judeu Zero. A maldade está também na cobiça, representada por Dmitri (Adrien Brody), herdeiro de Madame D. e que não aceita repartir nada da riqueza da mulher com M. Gustave; e também na crueldade do capataz de Dmitri, o impassível Jopling (Willem Dafoe em um grande trabalho).

O contexto de invasão militar vai aparecendo aos poucos no filme, até que ele se consolida com a “ocupação” dos homens que lembram os nazistas no hotel. Mas antes e depois deste ponto, em duas sequências no trem, a mensagem de indignação de Zweig ficam muito evidentes.

Primeiro, nas ações do militar Henckels (Edward Norton), que faz lembrar os nazistas, mas que era, na verdade, da “milícia de Lutz”. Ele não deveria aceitar imigrantes, mas abre uma exceção para Zero por causa da amizade com M. Gustave (e sabemos que a amizade contava muito naqueles tempos). E depois, na truculência de um outro militar, desta vez um homem que tinha traços russos, mas que claramente era do grupo que usava uma identificação parecida com a suástica. Ele ignora a permissão dada por Henckels e acaba com a “ousadia” de M. Gustave.

Para mim, Zweig está representado em três personagens: no Autor, em M. Gustave e em Zero. No primeiro, por uma razão evidente: o Autor fala de seu trabalho e é relembrado gerações após gerações. No segundo, por causa da sensibilidade do personagem, um homem que é pacifista e que defende o direito de qualquer pessoa em ter liberdade e ter oportunidades, sendo valorizada conforme se dedica ao trabalho e a melhorar. E no caso de Zero, por ele ser judeu, perseguido, ávido por novidades e por aprender, e por ter uma história bonita de romance com Agatha – a exemplo de Zweig com Lotte. Mas cada um destes personagens pode ter sido apenas inspirado por Zweig, sem a intenção que nenhum deles representasse o autor.

Seja pelo paralelo com o escritor, seja pela bonita intenção de colocar poesia e sensibilidade mesmo em ambientes tão sórdidos e cheios de perseguição, The Grand Budapest Hotel acaba se revelando uma obra mais interessante quando você pensa nela. Durante a vivência do filme, apenas o espetáculo visual sobressai, junto com o trabalho dos atores. Depois, com o tempo, é que vamos degustando o restante dos sabores da produção.

NOTA: 9.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Vários aspectos técnicos do filme se sobressaem. Os principais destaques já foram citados acima, mas agora vale dar o nome dos responsáveis. Impecável o design de produção de Adam Stockhausen; belíssima a direção de arte comandada por Stephan O. Gessler e com a ajuda de Gerald Sullivan e Steve Summersgill; bacana a decoração de set de Anna Pinnock e os figurinos de Milena Canonero. Vale destacar, ainda, o excelente trabalho do departamento de maquiagem composto por 25 profissionais e o departamento de arte com dezenas de outros artistas de talento.

Para ajudar na dinâmica do filme, fundamentais as contribuições do editor Barney Pilling, que tem aqui um trabalho meticuloso, e do diretor de fotografia Robert D. Yeoman. O veterano Alexandre Desplat tem um trabalho exemplar com a trilha sonora, que aparece em momentos pontuais, sempre para ressaltar o humor ou o suspense da história.

Este é mais um bom trabalho do estiloso diretor e roteirista Wes Anderson. Nascido no Texas, ele tem filmes muito interessantes no currículo. Vale ter o trabalho acompanhado. Ainda que, espero, ele venha com um pouco mais de ousadia e inovação de uma próxima vez.

The Grand Budapest Hotel estreou no Festival de Berlim em fevereiro deste ano. Depois, o filme participaria ainda de outros quatro festivais. Nesta trajetória, conquistou três prêmios e foi indicado a outros dois. O mais importante que ele recebeu foi o Urso de Prata de Grande Prêmio do Júri para Wes Anderson no Festival de Berlim. A produção também saiu vencedora como Melhor Figurino do prêmio entregue pelo Sindicato Nacional Italiano de Jornalista de Cinema e no prêmio de Melhores Gráficos em um Comercial de TV no Prêmio Golden Trailer.

Este filme foi totalmente rodado na Alemanha e na Polônia. No primeiro país, houve cenas rodadas em diferentes cidades da Saxônia e em Berlim; e no segundo, na Cracóvia.

E uma curiosidade sobre a produção: o nome da fictícia república de Zubrowka foi inspirado na vodca polonesa Zubrowka.

Wes Anderson rodou o filme em três formatos diferentes (1.37, 1.85 e 2.35:1) para demarcar ainda melhor e de forma visual os três períodos diferentes em que a história é ambientada: 1985, 1968 e 1930.

O elenco deste filme impressiona. É um desfile de nomes conhecidos. E ainda que um deles se destaque, o de Ralph Fiennes como M. Gustave, não deixa de ser marcante a forma com que o desconhecido Tony Revolori se destaca em um elenco tão estelar. O rapaz de 18 anos natural de Anaheim, na Califórnia, e que até este filme tinha estrelado principalmente curtas e episódios de séries televisivas, faz um dueto de rara sintonia com Fiennes. Com isso, ele se destaca.

Mas além dos dois, vale citar o ótimo trabalho de F. Murray Abraham como Mr. Moustafa (o Zero envelhecido); Mathieu Amalric como Serge X., empregado de Madame D. e que acaba tendo grande relevância na história por guardar os segredos da mulher assassinada; Adrien Brody como o vilão Dmitri; Willem Dafoe rouba a cena como o sanguinário Jopling; e Jude Law ganha relevância como o escritor quando jovem. Mesmo em papéis menores, vale citar os bons trabalhos de Jeff Goldblum como o advogado perseguido Kovacs; Harvey Keitel como o presidiário Ludwig; e Bill Murray como M. Ivan, da rede de concierges que ajudam M. Gustave. Fazem pontas também Jason Schwartzman, Léa Seydoux, Owen Wilson, Bob Balaban, entre outros.

De acordo com o site Box Office Mojo, The Grand Budapest Hotel teria faturado pouco menos de US$ 58,8 milhões apenas nos Estados Unidos, e outros US$ 108 milhões nos demais mercados em que o filme estreou até o momento. Mesmo sem informações sobre o custo da produção, estes não me parecem resultados ruins.

Esta produção conseguiu uma nota impressionante no site IMDb. Considerando, claro, o padrão normalmente visto naquele banco de dados sobre cinema: 8,3. Essa é uma excelente avaliação! Além disso, os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 205 textos positivos e apenas 19 negativos para a produção, o que lhe garante uma aprovação de 92% e uma nota média de 8,4.

Ah sim, e antes falei que este filme faz lembrar vários outros… Para começar, basta olhar na própria filmografia de Wes Anderson. E depois, vale conferir clássicos recentes do cinema, como Le Fabuleux Destin d’Amélie Poulain. Mesmo bebendo de várias fontes, é fascinante ver como Anderson utiliza bem a tecnologia moderna e enquadramentos antigos, dos primeiros filmes do cinema, ainda na era preto e branco. Bela homenagem, e com muita propriedade.

Este filme é uma coprodução dos Estados Unidos com a Alemanha. Assim sendo, ele entra na lista de filmes dos Estados Unidos, eleito como um dos países que merecia uma série de críticas aqui no blog.

CONCLUSÃO: Um indicativo sobre o impacto que um filme teve para mim é a vontade que eu tenho de escrever sobre ele logo após o fim da produção. Quando terminei de ver a The Grand Budapest Hotel, admito que não tive um grande interesse de falar sobre ele por aqui. Sinal de que esta produção não me pareceu tão boa quanto poderia. E essa é a vida. O cinema é feito de percepções, vivência e momentos. Refletindo mais sobre o filme depois, percebi que esta produção é interessante se nos focamos mais na homenagem feita para Stefan Zweig e sua obra. Mas descontada essa reverência, há pouco de novo nesta produção. De qualquer forma, vale dizer que ela é bem acabada, com bons princípios e tem qualidade. Que fica mais evidente quando refletimos no paralelo com Zweig. Vale ser conferido sob esta ótica.