Amour – Amor

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A vida é bela, grande. Alguma vezes, longa. A vida é difícil. Algumas vezes cruel, no final. Amour trata, bem ao estilo do diretor Michael Haneke, sobre a mudança crucial que acontece na vida de um casal que compartilha a velhice. Não há espaço para floreios, mas para a observação precisa de uma rotina complicada. A intenção do diretor é compartilhar com o espectador aquela intimidade que ninguém conhece, nem é capaz de compreender em toda a sua complexidade. Como o nome da produção sugere, este filme lança um olhar atento para o mais nobre dos sentimentos, cheio de conflitos, altos e baixos, mas também de uma certeza contagiante.

A HISTÓRIA: Com a ajuda de bombeiros, a polícia abre a porta trancada. Vizinhos chegam, e o odor forte da residência cria reações esperadas de repúdio. Um ambiente da casa está, além de trancado, lacrado com fitas adesivas. O policial que lidera a operação (Laurent Capelluto) abre as janelas, para que o cheiro seja dissipado. Quando os bombeiros abrem a porta do quarto trancado, ele encontra o corpo de Anne (Emmanuelle Riva) deitado sobre a cama, com flores secas espalhadas ao redor de sua cabeça, no travesseiro. Corta. Em um teatro lotado, olhamos para uma plateia que, primeiro, se acomoda e, depois, ouve a um concerto de piano. No meio desta plateia, o casal Anne e Georges (Jean-Louis Trintignant). Acompanhamos eles cumprimentando ao pianista, Alexandre (Alexandre Tharaud), e depois voltando para casa. Em breve, a vida deste casal será modificada quando Anne começa a apresentar alguns problemas de saúde.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso só recomendo que continue a ler quem já assistiu a Amour): A vida é cheia de imprevistos. O que temos como certo hoje, pode mudar radicalmente amanhã. Quando somos crianças, ou jovens, não percebemos o quanto somos frágeis. Com o passar do tempo, e com todas as dificuldades que a vida adulta vai nos trazendo, é que percebemos esta impermanência que marca cada um de nós e a existência de tudo que um dia já existiu.

Amour é um filme rico que, entre outros temas, trata justamente desta fragilidade. A percepção de que “viver é uma questão de sorte”, como diria a letra da música de um amigo meu espanhol, vai se tornando mais clara conforme vamos enfrentando momentos difíceis. Nossos ou de pessoas próximas. Ainda não estou perto da idade dos protagonistas desta produção, mas tenho certeza que quanto mais eu me aproximar da realidade deles, e se eu tiver esta sorte de viver tanto, mais claro terei esta vulnerabilidade em mente.

Ainda assim, mesmo que a gente tenha cada vez mais consciência disto, a imprevisibilidade da vida sempre vem e nos surpreende. Não há preparo para enfrentar o que Amour nos apresenta. Por mais equilibrada que seja uma pessoa e independente da crença que ela tenha na vida, em um Deus ou nas pessoas, não há estrutura suficiente para, em todos os momentos, tratar com força e esperança a situação vivida por Anne – olhando sob a ótica de Georges.

Michael Haneke é um realizador absurdo. No sentido de brilhante. A construção que ele faz desta história, com tanta naturalidade e, ao mesmo tempo, com tanta precisão na construção de cada cena, de cada sequência, é exemplar. Há momentos arrebatadores, como aquele em que Anne “se desconecta da realidade” na cozinha, antes de ir para o hospital, mas a maestria do diretor e roteirista se revela em todo o restante da história. Especialmente nos momentos mais complicados, mas também nas cenas mais “comuns”.

Porque aquela rotina “ordinária” provoca o espectador a olhar para a sua própria rotina, olhar com atenção para o interior do seu lar, de seus sentimentos e de suas relações. Fiquei especialmente maravilhada com sequências como aquela em que o diretor mostra os quadros que o casal preserva em casa. Georges e Anne eram pessoas sensíveis, atentas aos detalhes, que gostavam de arte e cultura. Educados, civilizados, seguem a linha de tantos idosos da França e de outros países europeus. Mas quem poderia, ainda, observar aqueles quadros com a sua beleza? Eles haviam perdido totalmente o valor e o significado. Como tudo que, por mais belo e inventivo que seja, é um artigo material. Afinal, somos nós que damos valor a estas coisas. Mas o que realmente tem valor, e que transcende a nossa fragilidade e, consequentemente a vida, sempre vai sobrepujar tudo isso.

E este artigo valioso, que dá nome a este filme, não está isento de contaminações. As diferentes vertentes e variações do amor são explicadas justamente pela contaminação do amor pelas demais características humanas. Assim, há amor possessivo, altruísta, que morre em si mesmo, é doado, se multiplica, egoísta e tantas outras variações. A mesma relação pode sustentar estas e tantas outras variações. E quem poderá classificar este amor?

O filme de Haneke, aliás, mostra como somos ignorantes. Como desconhecemos, de fato, o que acontece com as outras pessoas. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Este, sem dúvida, foi um dos aspectos mais marcantes desta produção para mim. Enquanto os vizinhos de Georges e Anne, interpretados por Ramón Agirre e Rita Blanco, admiravam a dedicação de Georges para cuidar da mulher, a filha deles, Eva (Isabelle Huppert) questionava as decisões do pai. Qual leitura estaria certa? A otimista e benevolente dos vizinhos ou a extremamente crítica da filha? Eu diria que ambas estavam certas e, ao mesmo tempo, erradas.

Ninguém, e isso aprendi com a vida, mas este filme aborda muito bem, sabe de fato o que acontece na vida da outra pessoa. De fato somos pequenos universos complexos e cheios de sentimento, histórias, percepções, que seremos “tocados” e “entendidos” apenas em parte por outra pessoa. Na melhor das hipóteses. Temos sorte quando encontramos alguém que nos entende sem precisarmos falar muita coisa. E ainda assim, mesmo dando esta sorte, seremos compreendidos e conhecidos apenas em parte. Amour trata muito disto. Georges e Anne compartilharam uma vida juntos e, ainda assim, ele contava histórias que Anne nunca havia ouvido.

Não importa o tempo que passemos ao lado de alguém. Esta pessoa nunca vai nos entender plenamente. E, apesar disto, é possível amar ao outro de uma forma absurda, completa. Mesmo sem o entendimento pleno. Um ponto chave para isto, e Amour nos ensina um bocado a este respeito, é o respeito. Georges, mesmo intimamente contrariado, respeita ao máximo a vontade de sua amada. E busca, até o final, ajudá-la, e respeitar a vontade dela. E é muito difícil fazer isso porque, muitas vezes, respeitar ao máximo a vontade de quem se ama é aceitar abrir mão não apenas da tua própria vontade, mas também daquilo que você acha certo. A vontade de quem se ama pode estar totalmente equivocada, mas o esforço altruísta está, justamente, em segui-la apesar disto.

Difícil. Complicado. Amour é assim. Um filme duro que nos faz observar a vida como ela é. Porque nem sempre as histórias tem final feliz. Nem sempre a vida toma rumos que a gente gostaria. Porque um elemento fundamental da vida é o imprevisível, e todos os acidentes que podem ocorrer a partir daí. Apesar disto, nos aventuramos no percurso. Algumas vezes, temos a sorte de amar. E de fazer este sentimento transcender as dificuldades e a morte. Porque estas duas últimas são inevitáveis. Mas o amor… para existir e vencer, precisa ser buscado, conquistado, batalhado. Ele não é inevitável. Mas faz todo o resto valer a pena.

NOTA: 9,7.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Possivelmente este filme mereceria uma nota 10. Eu sei disso. Admito. Mas vou explicar a razão de eu não ter conseguido dar a nota máxima pra ele: sou uma otimista inveterada. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Eu entendo, e admiro Michael Haneke pro ele fazer um filme como este, sem um final redentor. O que temos é a vida real, sem firulas. Sendo assim, muitas vezes, não há uma solução bacana para uma situação complicada como a mostrada por Amour. Paciência. É assim mesmo. Ainda assim, pelo estilo de pessoa que eu sou, me incomoda um pouco esta dureza, esta falta de compreensão final. O gesto de Georges, para mim, não foi o complicado. E sim a chegada de Eva na casa vazia. Nem Georges, após tudo que ele fez por Anne, teve uma sobrevida. Isto sim me incomodou. Esta falta de diálogo entre pai e filha que nunca será resolvido. Uma falta de esperança definitiva. Não consigo dar um 10 para este filme por isso. Por mais que eu saiba que, algumas vezes, seja isso mesmo que aconteça.

Fiquei extremamente fascinada pelo trabalho destes dois gigantes chamados Jean-Louis Trintignant e Emmanuelle Riva. Acredito que sempre que se fale de grandes atuações, a partir de agora, deveriam citar estes atores fenomenais. Não entendo, por exemplo, porque ela foi indicada ao Oscar e ele não. Para mim, é evidente que ambos fazem um trabalho soberbo. E imagino que Hollywood não fará o certo, em premiar a Emmanuelle Riva. Não será totalmente uma injustiça dar a estatueta para Jessica Chastain, que isso fique claro. Mas sem dúvida Emmnauelle dá um banho. Para mim, se ela realmente não ganhar, será como o Oscar 1999, quando Fernanda Montenegro deveria ter levado a estatueta. Paciência, pois.

Sobre a história, há outro aspecto que me chamou a atenção, além da dificuldade de entendimento da filha sobre a realidade dos pais. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). O abismo das nossas relações atuais entre a vontade de fazer boas ações e a prática deste altruísmo. Eva tem uma vida complicada, é verdade. Está cheia de razão quando tenta ver uma alternativa para a mãe que, evidentemente, ela ama. Mas não consegue sair desta posição de “voz crítica” e, de fato, fazer algo prático a respeito. Claro que aí também entra o respeito do qual eu falava acima. Ela não quer invadir a vida dos pais, e obrigar Georges ou Anne a fazerem o que eles não querem. Esta complexidade do amor é o que parece impossível de conciliar. Onde está o limite para a ação? Sabendo que cada indivíduo sabe, com exatidão, o que pensa e o que sente, como não impor a sua vontade, por mais bem intencionada que ela seja? E ao não fazer isso, como não ser visto como egoísta ou displicente? Como eu disse, é complexo.

Michael Haneke é um diretor interessante. Em muitas sequências deste filme ele não nos mostra o ângulo que seria “esperado”. Desde a cena no teatro, em que não assistimos ao artista, e sim à plateia, até o momento em que Alexandre visita a antiga professora e, enquanto espera por Georges, não acompanhamos a ação propriamente, de Georges buscando a Anne, e sim a espera de Alexandre. É como se a todo momento Haneke nos lembrasse que aquele filme não era para satisfazer as nossas vontades. Porque o amor não pode ser assim. Mas que deveríamos seguir observando e captando os detalhes do que ele, mestre do artifício, queria nos mostrar. Observar o que não é o foco evidente das atenções sempre nos traz elementos interessantes. Haneke acerta também nisto.

Além do fantástico trabalho do diretor e roteirista Michael Haneke e da sua estupenda dupla de protagonistas, Amour tem uma direção de fotografia impecável. Mérito de Darius Khondji. Muito bom, e merece ser citado também, o trabalho dos editores Nadine Muse e Monika Willi.

Uma curiosidade sobre esta produção: a cena do pombo foi rodada 12 vezes. Diferente de cães e cavalos, certamente os pombos são mais difíceis de “dirigir”. 🙂

Outra curiosidade: esta produção teve uma certa inspiração em uma experiência pessoal de Haneke. Uma tia dele sofria de uma doença degenerativa, e as pinturas vistas na produção são da coleção particular dos pais do diretor.

Michael Haneke escreveu este roteiro pensando em Jean-Louis Trintignant que, segundo o IMDb, estava há sete anos sem atuar. Que bom que ele voltou, para nos brindar com uma interpretação tão marcante.

Indicada ao Oscar deste ano, Emanuelle Riva se tornou a atriz com maior idade da história a concorrer a uma estatueta. Ela chega à disputa com 84 anos, batendo o recorde anterior, de Jessica Tandy, que foi indicada e saiu vencedora do Oscar aos 80 anos de idade. A premiação deste ano também tem outro recorde na mesma categoria: Quvenzhané Wallis se tornou a atriz mais jovem indicada a um Oscar, aos nove anos de idade.

Vejam como um ótimo filme não precisa consumir um absurdo de dólares ou euros. Amour teria custado cerca de 7,29 milhões de euros. Até o momento, ele teria arrecadado pouco mais de US$ 1,33 milhões nos Estados Unidos e US$ 13,1 milhões no restante do mundo. Honestamente, espero que ele ganhe algumas estatuetas no Oscar para conseguir um lucro muito maior. Merece.

Amour estreou em maio de 2012 no Festival de Cannes. Depois, o filme passou por outros 22 festivais. Belo número. Nesta trajetória, a produção conquistou 28 prêmios e foi indicada a outros 30, além de ter sido indicada para cinco Oscar’s. Entre os prêmios que recebeu, absoluto destaque para a Palma de Ouro como melhor filme no Festival de Cannes. Também merecem menção os prêmios de Melhor Filme, Melhor Diretor, Melhor Ator e Melhor Atriz no Festival de Cinema Europeu; Melhor Filme em Língua Estrangeira no Globo de Ouro; e Melhor Filme em Língua Estrangeira no National Board of Review.

Esta produção foi totalmente rodada em Paris.

Amour é uma coprodução da França, Alemanha e Áustria. Mas na indicação ao Oscar, apareceu como uma indicação austríaca.

Os usuários do site IMDb deram a nota 8 para esta produção. Os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 127 críticas positivas e 11 negativas para Amour, o que rendeu uma aprovação de 92% e uma nota média de 8,6. Para os padrões do site, esta nota é muito, muito boa.

CONCLUSÃO: O diretor Michael Haneke é um especialista em desconcertar o espectador e fazê-lo pensar nos seus sentimentos mais profundos. E também em fazer ele pensar sobre a razão de atos extremos que, anteriormente, ele não compreendia. Amour é um filme duro, pesado. Ao mesmo tempo, um libelo impressionante sobre o amor, a doação, o altruísmo e, porque não dizer, o egoísmo. Esta produção abre mão de uma mensagem redentora, que seria tão natural em filmes de Hollywood, para explorar uma de tantas histórias difíceis da vida pela ótica da falta de esperança. Mais uma vez, a dificuldade que as pessoas tem de se comunicarem e se compreenderem entra no foco, na relação da filha e do genro e dos demais “estranhos” com o casal de idosos. E a dificuldade que, muitas vezes, os próprios protagonistas têm de dialogar. Haneke não cede aos finais redentores e, desta forma, mais uma vez, trilha o caminho de um cinema provocador. Sorte da gente ter uma figura como ele para acompanhar.

PALPITE PARA O OSCAR 2013: Amour foi indicado para cinco estatuetas: Melhor Filme, Melhor Filme em Língua Estrangeira, Melhor Diretor, Melhor Roteiro Original e Melhor Atriz. Exceto pela indicação dupla como melhor filme, francamente, ele tem potencial para ganhar todos os demais prêmios. Ou seja: pode receber até quatro estatuetas neste Oscar.

E seria justo. Mas acho difícil que isso aconteça. Primeiro porque não vejo Hollywood deixando de “lado” produções com forte lobby para trás, como Lincoln e Argo. Depois, que a mesma regra vale para Melhor Diretor. Dificilmente vão premiar Michael Haneke no lugar de Steven Spielberg ou David O. Russell. Mas surpresas, especialmente na categoria, diretor, sempre podem ocorrer.

Vejo mais chances desta produção vencer nas demais categorias. Amour tem boas chances contra Moonrise Kingdom, Zero Dark Thirty, Flight e Django Unchained. Não assisti, ainda, aos últimos dois. Mas posso dizer que acho justo se ele vencer nesta categoria. E olha que eu gostei muito dos roteiros de Moonrise Kingdom e Zero Dark Thirty. Bem diferentes uns dos outros.

Do que assisti até agora do trabalho das concorrentes à Melhor Atriz, sem dúvida o meu voto iria para Emmanuelle Riva. Ela destrói qualquer concorrência com o seu trabalho soberbo. E em Melhor Filme em Língua Estrangeira, ainda que eu não tenha assistido aos outros quatro concorrentes, me arrisco a dizer que Amour é o franco favorito. Quase uma barbada.

Zero Dark Thirty – A Hora Mais Escura

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Tem histórias que precisam ser contadas. Não apenas porque marcaram uma nação, mas porque fecharam um ciclo que definiu uma época. Zero Dark Thirty é uma destas histórias. Mais uma vez a grande diretora Kathryn Bigelow mostra que sabe focar como ninguém o ambiente militar, traduzindo a tensão daquele ecossistema como poucos diretores desta época. Zero Dark Thirty é um filme envolvente, que passa boa parte de seu tempo procurando respostas. Tudo para nos levar a um ponto final que, propositalmente, tem uma pergunta sem resposta.

A HISTÓRIA: Começa dizendo que este filme foi baseado em fatos reais. Gravações de áudios começam a ser reproduzidas, trazendo parte do drama vivido pelas vítimas dos ataques terroristas feitos no dia 11 de setembro de 2001 nos Estados Unidos. Enquanto os áudios são reproduzidos, estamos no breu. Dois anos depois, um homem é torturado em um local não identificado. Ele faz parte de um grupo saudita. Dan (Jason Clarke) avança em direção a Ammar (Reda Kateb), que está com braços e pernas amarrados, e diz que ele é de sua propriedade. O homem preso está bem machucado, e sabe que irá sofrer muito mais. Ainda assim, ele não colabora. Esta cena e outras que virão são assistidas por Maya (Jessica Chastain), uma agente que está levando um “choque” de realidade. Tanto ela quanto Dan trabalham com a missão de encontrar os líderes responsáveis pelos ataques feitos contra os Estados Unidos.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso só recomendo que continue a ler quem já assistiu a Zero Dark Thirty): Primeiro vieram os filmes sobre os ataques aos Estados Unidos. A maioria deles, como era de se esperar de Hollywood, focando o drama dos civis que foram mortos em 11 de setembro. Depois, surgiram as produções que trataram do ambiente militar após o ataque, alguns deles revelando torturas e práticas condenáveis.

Com o assassinato de Osama bin Laden em maio de 2011, era apenas uma questão de tempo para que a história que levou até a localização e morte dele fosse contada. Ainda há muita desinformação sobre os bastidores daquela ação. Mas Zero Dark Thirty ajuda a explicar uma parte do processo que levou os militares dos Estados Unidos até aquele ponto.

Kathryn Bigelow entende muito bem de seu ofício. Acredito que ela seja uma das melhores diretoras da atualidade. E ela comprova isto a cada minuto desta produção. Começando pelo início, quando acerta ao não mostrar as famosas imagens das Torres Gêmeas sendo acertadas pelos aviões. Estas imagens já estão por demais desgastadas. E se um diretor quer causar impacto, nada melhor do que escolher áudios angustiantes e deixar o espectador “no breu” enquanto os reproduz. Belo começo de filme. E o melhor: este estilo de escolhas certas prossegue até o final.

Claro que parte do mérito para este resultado positivo é do roteirista Mark Boal, um sujeito que, prestes a completar 40 anos – ele fará esta idade redonda no próximo dia 23 -, tem três ótimos trabalhos no currículo: além deste Zero Dark Thirty, ele escreveu The Hurt Locker e a história de In the Valley of Elah. Todos com uma visão crítica ou, pelo menos, um bocado realista do ambiente militar. Jornalista de profissão, Boal traz para o cinema o senso de realidade da profissão. Mesmo na ficção de uma história “baseada” em fatos reais, ele guarda o compromisso de tentar ser o mais verossímel possível. E o efeito disto na telona é devastador.

Zero Dark Thirty criou uma certa polêmica nos Estados Unidos. Primeiro, porque políticos – especialmente os contrários ao reeleito Barack Obama – quiseram saber se informações confidenciais “vazaram” para alimentar a produção. Segundo, porque houve quem considerasse que esta produção apoia e justifica a tortura.

Para mim, tudo isso é uma grande bobagem, e uma forma da oposição nos EUA querer fazer algum barulho. Será que eles não aprenderam nada com Julian Assange? De que não adianta querer esconder todas as informações porque algumas delas, e muitas vezes as mais vexatórias, uma hora vão aparecer? Está cada vez mais difícil manter segredo, mesmo quando há muitos bilhões de dólares envolvidos na área de segurança. Depois que é evidente que Zero Dark Thirty não justifica a tortura.

O que o filme faz, e acho muito correto que seja assim, é tentar narrar os acontecimentos o mais próximo da realidade possível. Todos sabemos, desde os escândalos da Prisão de Guantánamo, que muitos militares dos Estados Unidos perderam totalmente a mão e a cabeça após os atentados terroristas. Então não há novidade alguma que usaram de tortura para conseguir informações.

Para mim, o que mais me chamou a atenção em Zero Dark Thirty é como a obstinação de uma pessoa, neste caso, a protagonista, foi fundamental para o desfecho daquela caçada humana. Se não fosse Maya, e não sei até que ponto de fato esta figura existiu na vida real, provavelmente Osama bin Laden não teria sido encontrado. Ou teria escapado, apesar da desconfiança de que ele estaria naquele esconderijo em Abbottabad.

Além da obstinação de Maya, chama a atenção neste filme o quanto figuras importantes da CIA e do alto escalão do governo e do Exército dos EUA estavam “boiando” sobre a realidade. Em uma das horas mais tensas desta produção, quando Maya confronta o seu superior, ela descarrega em Joseph Bradley (Kyle Chandler) toda a frustração das pessoas “de campo” que não conseguem ter a compreensão adequada de seus “superiores”, tão isolados nos próprios gabinetes que desconhecem os detalhes da realidade que eles deveriam acompanhar de perto.

Quando se junta ao grupo da CIA em Islamabad, no Paquistão, Maya não começa leve. Logo vai impondo a sua opinião, e se aproxima de Jessica (Jennifer Ehle), de Jack (Harold Perrineau) e de Thomas (Jeremy Strong). Especialmente de Jessica. O clima vai ficando mais tenso conforme o tempo passa, novos atentados vão ocorrendo no Ocidente, e aquele grupo – assim como outros envolvidos na busca pelos terroristas – não consegue avançar na captura de figuras-chave do núcleo terrorista.

Zero Dark Thirty conta muito bem esta história. Não apenas foca bem na personagem de Maya – tanto que o filme é praticamente todo narrado sob a sua ótica -, em suas relações e reações, como também mantêm um ritmo interessante de narrativa. O espectador sente o desdobrar dos fatos, o tique-taque do relógio tendo cada vez mais peso, todas as tentativas de buscar informações que levam apenas a becos sem saída, até que Debbie (Jessica Collins) encontra, em uma busca no sistema, uma das ligações com Osama bin Laden mais procuradas por Maya e equipe. Neste ponto, após uma hora de filme, que Zero Dark Thirty dá uma reviravolta importante.

E o que acontece a partir daí, com infindáveis reuniões para discutir o que seria feito com aquela informação, torna o filme interessante novamente. Além das ruas e torturas, entramos mais no cenário dos gabinetes e dos engravatados que tem a caneta e o botão na mão. De forma inteligente, Boal e Bigelow tornam a expectativa e a angústia de Maya na expectativa e na angústia do espectador, que aguarda para que algo seja feito. O que não deixa de ser irônico, porque todos nós sabemos qual será o desfecho. O que apenas demonstra o talento desta dupla – e de Chastain, que transfigura perfeitamente esta missão.

Os bastidores que levam até a ação e, finalmente, o grand finale, com toda a sequência da operação que levou à morte de Osama bin Laden, aumentam o ritmo até a grande pergunta sem resposta no final. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Após a grande “catarse” da morte do “vilão” bin Laden, o que virá? Bigelow e Boal merecem que a gente tire o chapéu para eles com aquela sequência em que a “importante” Maya entra no avião e, quando lhe perguntam para onde ela quer ir – e ela pode escolher qualquer parte do mundo – ela apenas chora, um tanto desolada, e olha pra frente sem uma resposta. O que pode vir depois? Não apenas para ela, mas para a sua própria nação e para todos nós, afetados de alguma forma com aquela loucura toda – dos terroristas e da caçada a eles. Pelo virtuosismo da direção, pelo roteiro envolvente e por este questionamento final, Zero Dark Thirty merece ser visto.

NOTA: 9,6.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Como no ótimo The Hurt Locker, filme anterior de Kathryn Bigelow que foi comentado neste blog aqui, Zero Dark Thirty é caracterizado pela excelência técnica. A direção de fotografia de Greig Fraser cuida de cada detalhe e do jogo de luz e sombra que ajuda a narrar cada momento desta história. O trabalho dele na sequência da operação militar, na reta final da produção, é fundamental, assim como a direção precisa de Bigelow. O outro roteiro de Boal, In the Valley of Elah, foi comentado no blog aqui.

Outros elementos também funcionam muito bem. Para começar, a ótima edição de William Goldenberg e Dylan Tichenor que, junto com o roteiro de Boal e da direção de Bigelow, dão o ritmo adequado para a produção. A edição de som, os efeitos especiais e visuais também são fundamentais, especialmente durante a operação militar derradeira. Vale citar, também, a trilha sonora bem planejada e que entra nos momentos mais adequados – o que nem sempre tem sido feito, pelo menos não nos últimos filmes que eu assisti – do trabalhador Alexandre Desplat.

Quem brilha, realmente, nesta produção é a atriz Jessica Chastain. Mas além dela, fazem um bom trabalho Jason Clarke e Jennifer Ehle. Esta última me lembrou muito, em alguns momentos, a Meryl Streep quando era jovem. Além dos atores já citados, vale comentar o trabalho dos coadjuvantes Mark Strong, como George; e James Gandolfini em uma superponta como o diretor da CIA.

E uma curiosidade sobre o filme: originalmente, Rooney Mara tinha sido convidada para estrelar esta produção. Mas ela resolveu pular fora do projeto, quando então foi substituída por Jessica Chastain. Sorte da segunda.

A expressão “00 dark 30”, no jargão militar, significa um tempo não especificado nas primeiras horas da manhã quando, normalmente, está escuro “lá fora”.

Outra curiosidade sobre esta produção: inicialmente, ela abordaria uma década sobre o trabalho fracassado dos Estados Unidos em buscar Osama bin Laden. Mas com a morte dele em maio de 2011, o roteiro foi totalmente reescrito.

No livro No Easy Day, escrito por um ex-combatente das forças de elite Seal e que narra a operação que levou à morte de bin Laden, a personagem de Maya é identificada apenas como Jen.

O clímax da produção dura 25 minutos – e não dá para perceber que ela leva tanto tempo -, apenas alguns minutos a menos do que a sequência real da operação envolvendo as forças especiais dos EUA.

Segundo o livro No Easy Day, pelo menos três pontos importantes foram deixados de fora deste filme: 1) a discussão se seria melhor bombardear a residência onde poderia estar bin Laden ou fazer uma incursão de forças especiais no local; 2) a construção de uma maquete da residência para que fosse planejado o ataque; 3) os testes feitos com helicópteros para que os militares estivessem preparados para qualquer contratempo quando fosse feita a operação.

Zero Dark Thirty foi filmado em Londres, Washington, Patiala (na Índia), no Manimajra Fort (também na Índia, que reproduziu Abottabad), Amman (Jordânia) e Chandigarh (Paquistão).

Este filme estreou para um público limitado, nos Estados Unidos, no dia 19 de dezembro. Depois, estreou no dia 4 de janeiro na Espanha e, no dia 11, em circuito comercial nos Estados Unidos e em outros três países.

Zero Dark Thirty teria custado cerca de US$ 40 milhões. Após três dias em cartaz nos Estados Unidos em pouco mais de 2,9 mil salas de cinema, ele faturou pouco mais de US$ 24,4 milhões. Uma marca impressionante. Certamente ele vai faturar muito alto.

Até o momento, esta produção ganhou 21 prêmios e foi indicada a outros 33, além de cinco indicações ao Oscar. Entre os prêmios que recebeu, destaque para o de Filme do Ano pela AFI Awards; Melhor Atriz – Drama para Jessica Chastain no Globo de Ouro; e Melhor Atriz, Melhor Filme e Melhor Diretora pelo respeitadíssimo National Board of Review.

Os usuários do site IMDb deram a nota 7,7 para esta produção. Achei a avaliação baixa, levando em conta as qualidades da produção. Os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes escreveram 173 textos positivos e 13 negativos para Zero Dark Thirty, o que lhe garante uma aprovação de 93% e uma nota média de 8,7. Bem melhor.

CONCLUSÃO: A história dos Estados Unidos e do mundo nunca mais foi a mesma após os ataques terroristas de 11 de setembro de 2001. Todos os que viveram a década posterior aquele momento sabem disso. O mundo mergulhou em uma caçada alimentada pelo medo. Pouco mais de 11 anos se passaram desde aquele dia, e os efeitos dos ataques continuam criando eco. Mas houve um ponto importante na “resposta” aos terroristas: quando uma operação militar matou Osama bin Laden quase 10 anos depois da destruição das torres do World Trade Center. A essência do que aconteceu entre setembro de 2001 e maio de 2011 é contada neste novo filme de Kathryn Bigelow, uma diretora de primeira que sabe contar os bastidores do ambiente militar como poucos. Esta produção é envolvente, muito bem dirigida, com uma história recheada de ação e de bastidores militares e políticos. Bigelow não se preocupa em fazer um filme partidário. Ela segue a linha documental, que pôde ser vista em The Hurt Locker. Nos entrega todos os ingredientes para refletirmos sobre o que aconteceu, e tirarmos as nossas próprias conclusões. Respeita o espectador, e conta muito bem esta história. Para fechar, nos deixa sem resposta, como acontece com a protagonista. Intocável.

PALPITE PARA O OSCAR 2013: Zero Dark Thirty foi indicado para cinco estatuetas. Todas muito justas. Exceto pelo “esquecimento” de Kathryn Bigelow como Melhor Diretora. Ela deveria ter entrado na competição. Ainda não vi ao trabalho de todos os outros, mas certamente a direção dela neste filme é muito melhor que o de Steven Spielberg com Lincoln. Mas o peso do nome dele, aparentemente, contou mais do que o resultado prático da direção deles.

Sem Bigelow como Melhor Diretora, Zero Dark Thirty chega ao Oscar indicado nas categorias Melhor Filme, Melhor Atriz para Jessica Chastain, Melhor Roteiro Original para Mark Boal, Melhor Edição de Som e Melhor Edição. Nenhum dos filmes que assisti até agora e que estão concorrendo ao Oscar me conquistaram totalmente. Mas dos que eu vi, gostei mais de Zero Dark Thirty até o momento. Não seria uma surpresa completa se ele ganhasse o Oscar principal, mas acho que ele corre por fora. Lincoln e Argo, aparentemente, estão na dianteira.

Jessica Chastain ganhou alguns pontos para a corrida a uma estatueta do Oscar ao vencer as concorrentes na categoria de Melhor Atriz – Drama no Globo de Ouro. Não assisti ao desempenho de nenhuma das outras quatro atrizes que estão na disputa ao Oscar, mas apenas ao ver a Chastain em Zero Dark Thirty eu posso dizer que ela merece. Faz um belo trabalho, e no tom certo.

Mark Boal tem uma tarefa bem difícil pela frente, porque concorre com pesos-pesados. Da minha parte, gosto muito do trabalho de Wes Anderson e Roman Coppola em Moonrise Kingdom. Mas eles são a zebra da disputa. Amour e até Django Unchained estão na dianteira. Possivelmente com uma certa vantagem de Amour.

Zero Dark Thirty tem mais chances em Edição de Som e, principalmente, Edição. No cômputo geral, acredito que o filme poderá levar um ou duas estatuetas, nestas categorias técnicas. Mas não seria surpreendente se levasse outra para Chastain e, se o lobby for bom, até como Melhor Filme. Se levasse todos estes, não seria injusto. Porque é um filme muito bem acabado, e que faz pensar. Acima da média deste ano no Oscar, pois.

Lincoln

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Os predicados de Lincoln são atraentes. Para começar, Steven Spielberg na direção. Depois, o gigante Daniel Day-Lewis como protagonista. Para completar, nesta semana, quando a lista de concorrentes ao Oscar foi divulgada, as 12 indicações do filme para a cerimônia deste ano. Todos estes elementos juntos fazem qualquer pessoa ter uma grande expectativa para esta produção, correto? Pois é, normalmente grandes expectativas são difíceis de serem supridas. E, infelizmente, neste caso, as expectativas são maiores do que o efeito que o filme consegue provocar no espectador. Especialmente no brasileiro. Porque o estadunidense deve ficar especialmente tocado. Afinal, Lincoln trata de um herói para os EUA. E o filme trata de alguns valores que fizeram a história daquela nação. Pra gente, contudo, falta algo. Ou muito.

A HISTÓRIA: Homens com uniformes azuis e cinzas se degladiam em um campo cheio de lama e água. Entre eles, passa uma bandeira dos Estados Unidos. Quando a câmera se aproxima, notamos que há negros apenas de um lado da batalha: entre os homens vestidos de azul, que lutam pela União. Do outro lado, pela Confederação, apenas homens brancos. Enquanto aqueles homens se matam, o soldado Harold Green (Colman Domingo) conta para Abraham Lincoln (Daniel Day-Lewis) que ele e o cabo Ira Clark (David Oyelowo) faziam parte do batalhão de negros que lutou contra os “rebeldes” em Ferry Jenkins em abril de 1864. Green conta que, depois de todos os soldados negros terem sido mortos pelos inimigos em uma batalha anterior, em Ferry Jenkins eles decidiram não deixar prisioneiros. Lincoln escuta tudo com atenção e de forma amável, e fica especialmente impressionado com a opinião de Clark. Ele critica o fato dos negros receberem menos que os brancos, naquela guerra, até pouco tempos antes daquela conversa, e que perdurava a injustiça de nenhum negro ter o posto de oficial. Em seguida, dois jovens recrutas chegam perto de Lincoln e um deles cita o discurso do presidente sobre a igualdade entre os homens. Reeleito, Lincoln decide, em janeiro de 1865, aprovar com urgência, na Câmara dos Deputados, uma emenda à Constituição que termina com a escravidão. Mas o país ainda vive a Guerra da Secessão, e Lincoln vai precisar usar de alguns artifícios para levar a sua ideia adiante.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme,  por isso só recomendo que continue a ler quem já assistiu a Lincoln): Os Estados Unidos da América gosta de preservar a sua história e os seus mitos. Lincoln é um deles. Talvez o maior. Spielberg há tempos queria fazer um filme sobre ele, porque acredita que cada geração deveria resgatar o décimo sexto presidente para inspirar-se.

Com Lincoln, Spielberg tenta fazer o filme definitivo, pelo menos para esta geração, deste mito. Ele faz um bom trabalho, mas que não surpreende o espectador em momento algum. Parece que estamos assistindo a uma peça de teatro. Isso não é ruim, mas cinema não é teatro e nem vice-versa. Cada um tem a sua característica e mantemos uma expectativa ao assistir a um ou a outro. De Spielberg, sempre espero alguma ousadia. Em Lincoln, não há ousadia alguma.

O filme busca humanizar o mito. Nesta tentativa, foca a relação de Lincoln com sua mulher, Mary (Sally Field), e com os filhos Tad (Gulliver McGrath) e Robert (Joseph Gordon-Levitt). Dentro de casa, Lincoln parece manter a mesma postura que tem fora dela, na vida política: é atencioso, escuta as pessoas com atenção, mas é firme em suas palavras, postura e convicto no que acredita. Não importa se esta firmeza signifique deixar a mulher desolada, ou o filho mais velho sentindo-se à sombra do pai. Lincoln está preocupado em ser correto, nunca condescendente.

Mesmo dedicando uma parte do filme para a vida privada do mito, o roteiro de Tony Kushner, baseado no livro Team of Rivals: The Political Genius of Abraham Lincoln, de Doris Kearns Goodwin, dedica grande parte da história para os bastidores políticos da aprovação da décima terceira emenda, que tinha como objetivo pôr fim à escravidão. E aí, justamente nesta parte, é que a história fica interessante. Porque o mito também se rendeu a uma prática que hoje, mais do que nunca, é questionada: oferecer emprego para conseguir votos.

No caso do Brasil, o toma-lá-dá-cá costuma ser feito com o oferecimento de cargos dentro do governo, mas votos também já foram comprados, pura e simplesmente, com dinheiro – vide o mensalão. Pois bem, logo no início de Lincoln, quando o presidente dos EUA diz que seus aliados devem conseguir os votos para aprovar a emenda, ele deixa claro que devem ser oferecidos empregos, cargos, mas não dinheiro.

O seu braço direito, o chefe de governo William Seward (David Strathairn), dá a ideia de buscar “homens sem escrúpulos” que poderiam fazer o aliciamento de democratas indecisos e/ou “compráveis” para que eles apoiassem a emenda. Aí aparece a figura de W.N. Bilbo (James Spader), o mais divertido do filme. A ideia de Seward é preservar Lincoln, que não deve “se envolver” diretamente na negociata. Alguém lembrou do Brasil?

Sem dúvida este viés do filme é o que ele tem de mais interessante. Afinal, é possível a democracia sem estas artimanhas? Uma Câmara dos Deputados ou um Senado é capaz de representar, realmente, os interesses de um povo sem colocar, muitas vezes, os interesses próprios dos homens eleitos em primeiro lugar? Lincoln, como outros governantes, acredita que práticas imorais podem ser adotadas quando há uma boa causa a ser defendida. Ninguém duvida que a escravidão era algo absurdo e que precisava ser extinta. Mas que preço a violação da democracia poderia cobrar de uma nação a partir daí? Que preço estas convicções de causas de alguns governantes continuam cobrando um preço até hoje, a cada dia?

As negociações políticas são interessantes, mas há um excesso de discursos no filme. Bacana a escolha do roteirista em valorizar o Lincoln contador de histórias, um homem que gostava de conversar e trocar impressões com pessoas comuns. Mas o momento que ele escolhe para contar algumas histórias chega a ser cômico – como quando estavam tensos sobre o resultado e o desdobramento do bombardeio ao porto de Wilmington.

Apesar de fazer um esforço para mostrar a astúcia de Lincoln para a aprovação da décima terceira emenda, este filme falha ao não contextualizar a história como deveria. Para começar, explicando que a Guerra da Secessão, que já durava quatro anos, teve sua origem fortemente ligada à figura de Lincoln. O filme dá a entender que o presidente tinha que lidar com esse tema, e que escolheu terminar com a escravidão para, então, acabar com a guerra. Cuidando para que o conflito não terminasse antes – até porque, se isso ocorresse, ele sabia que não aprovaria a emenda.

Mas o problema está justamente aí. Porque basta ler um pouco mais sobre a história dos EUA e, especificamente, sobre a Guerra da Secessão para saber que os estados do Sul daquele país decidiram se “separar” da União e criar os Estados Confederados da América para resistir ao movimento republicano e dos estados do Norte de espalhar o fim da escravatura para todas as partes do país. Quando os republicanos escolheram Lincoln como o candidato do partido para as eleições de 1860, os sulistas estavam com medo de que as mudanças do norte se espalhassem. E começou a secessão.

Então Lincoln estava totalmente ligado àquela guerra civil que teria matado 970 mil pessoas. Depois de quatro anos, as pessoas queriam o fim da guerra, mais que nada. E Lincoln sabia que tinha pouco tempo para terminar com a escravidão através da lei. Mas o filme não deixa esta ligação direta da postura de Lincoln e de seus aliados com o conflito. Ele apenas reforça a ideia de um líder correto, libertário e solitário. Que, segundo o roteiro sugere, tem um forte apelo popular – informação esta pouco confirmada pela história que vemos na telona.

A morte do filho do casal Lincoln é um elemento importante nesta história. Mas em momento algum sabemos do que o filho deles morreu. Ele tinha idade para ir para a guerra e teria morrido lá? Não. Pesquisando mais sobre Lincoln é que eu descobri que William, terceiro filho do casal, morreu em fevereiro de 1862, quase três anos antes da história do filme começar, aos 11 anos de idade, provavelmente de febre. Mas ele não foi o único filho dos Lincoln que morreu jovem. Edward, segundo filho do casal, morreu aos quatro anos de idade, em 1850, de tuberculose.

Para resumir, achei Lincoln, o filme, uma obra bem acabada no resgate de elementos históricos, mas com algumas falhas de roteiro e com uma direção um tanto “preguiçosa”. Daniel Day-Lewis está estupendo, mas os demais atores apenas cumprem bem os seus papéis. Achei um exagero indicar Sally Field e Tommy Lee Jones como Melhor Atriz e Melhor Ator Coadjuvante, respectivamente, ao Oscar 2013. Só explicam a indicação deles dois fatores: 1) Hollywood realmente resolveu forçar a barrar e fazer este o filme mais premiado do ano, em uma competente campanha de marketing dos estúdios envolvidos; 2) a safra de filmes está tão ruim que interpretações apenas corretas merecem ser premiadas com um Oscar.

NOTA: 8.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Gosto muito do Tommy Lee Jones. Acho um dos grandes atores que seguem trabalhando com convicção em Hollywood. Ainda assim, não acho que a atuação dele mereça indicação ao Oscar. Se alguém fosse ser indicado como coadjuvante neste filme, eu acho que deveria ser o David Strathairn ou, até mesmo, mas correndo por fora, o James Spader.

Lincoln tem uma fila de atores ótimos fazendo quase pontas. Evidentemente o espaço principal da produção é dado para Daniel Day-Lewis que, realmente, está estupendo. Ele incorporou, de seu jeito perfeccionista que todos conhecemos desde The Unbearable Lightness of Being (1988) e My Left Foot: The Story of Chrsity Brown (1989), Lincoln com maestria. Modulou a voz do mito, assim como o seu jeito de olhar, caminhar, portar-se no trato com as pessoas. Impressionante.

Mas há muitos outros atores que ficam na sombra de Day-Lewis. Além dos já citados, vale comentar o trabalho de Hal Holbrook como Preston Blair; John Hawkes como Robert Latham, que apoia Lincoln; Jackie Earle Haley como Alexander Stephens, o vice-presidente dos Estados Confederados da América; Jared Harris como Ulysses S. Grant, general encarregado do Exército dos EUA; David Costabile como James Ashley, o republicano que apresentou a emenda na Câmara; Lee Pace como Fernando Wood, um dos democratas mais fervorosos contra a emenda; e Michael Stuhlbarg como George Yeaman, um dos democratas que “vira a casaca” e garante a aprovação da emenda.

A trilha sonora praticamente não existe neste filme. Por outro lado, há outros elementos técnicos que merecem ser citados, porque funcionam bem, como é necessário em qualquer filme de época. Vale elogiar o figurino de Joanna Johnston e o design de produção de Rick Carter e Jim Erickson, os três indicados ao Oscar. Gostei também da decoração de set de Jim Erickson e Peter T. Frank, assim como da maquiagem feita por uma equipe de 52 profissionais.

Honestamente, não entendi algumas indicações ao Oscar para este filme. Exemplo: a direção de fotografia de Janusz Kaminski. Adoro o trabalho dele, mas ele não faz nada de extraordinário nesta produção. Também não vi um trabalho surpreendente do editor Michael Kahn.

E uma curiosidade sobre esta produção: inicialmente, Lincoln seria protagonizado por Liam Neeson, que desistiu do projeto porque ele achava que estaria muito velho para interpretar o personagem quando o filme, após vários anos, finalmente saiu da gaveta.

Steven Spielberg gastou 12 anos pesquisando para fazer Lincoln. Ele reproduziu o escritório do ex-presidente com perfeição, resgatando o mesmo tipo de papel de parede e os mesmos livros que ele tinha, incluindo o mesmo tique-taque do relógio de Lincoln.

Esta produção teria custado US$ 65 milhões, aproximadamente. E conseguiu um bom resultado nas bilheterias de seu principal território para o sucesso, os EUA: alcançou pouco mais de US$ 144 milhões até o dia 6 de janeiro.

Lincoln estreou em outubro no Festival de Cinema de Nova York. Até o momento, o filme ganhou 14 prêmios e foi indicado a outros 60, além de ser indicado a 12 Oscar. Entre os prêmios que recebeu, destaque para o de Filme do Ano pelo Prêmio AFI e para cinco prêmios recebidos por Daniel Day-Lewis como Melhor Ator pelos críticos de Boston, Las Vegas, Nova York, San Diego e Washington.

Os usuários do site IMDb deram a nota 8,1 para esta produção. Os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 173 textos positivos e 17 negativos para Lincoln, o que lhe garante uma aprovação de 91% e uma nota média de 8,1.

Para quem não assistiu a The Conspirator, filme dirigido por Robert Redford e que trata do julgamento que ocorre após o ato final mostrado em Lincoln, vale dar uma conferida. É outro estilo de filme, que tem suas falhas também, mas que complementa bem ao que vemos na produção de Spielberg. Comentei The Conspirator aqui.

Quem quiser saber mais sobre Lincoln e a Guerra de Secessão, vale dar uma conferida neste texto, neste, e neste outro em inglês. Sobre o projeto de Spielberg, este filme traz algumas informações interessantes.

CONCLUSÃO: Eis um filme para norte-americanos ver. Ou quase. Não serei tão cruel e afirmar que Lincoln só interessa ao público dos EUA. Porque qualquer retrato cinematográfico de uma figura histórica transcende o seu país de origem e ganha interesse mundial. Ainda mais quando esta figura é do porte de Abraham Lincoln. Mas convenhamos que este filme nos afeta de uma maneira muito diferente que a um estadunidense. Ainda que muitas das questões levantadas pelo filme nos sejam muito familiares, como o preço que um governante paga para conseguir aprovar o que acredita ser correto (vide mensalão e tantas outras situações questionáveis na política brasileira), não temos a mesma identificação com a história como os americanos.

Então, se não há toda essa identificação – ainda que exista aquela reflexão sobre o paralelo da história com o Brasil -, o que nos sobra? Este não é um filme que inova na linguagem cinematográfica. E nem na interpretação, apesar de Daniel Day-Lewis fazer um grande trabalho. Tecnicamente, é um filme bem acabado, mas sem nenhuma invenção. Bastante “papai e mamãe”, aliás. Spielberg faz um trabalho correto, e ponto. O roteiro tem como seu principal trunfo o respeito aos discursos de Lincoln. Mas qualquer pessoa que conhece um pouco da história sabe tudo o que virá, sem nenhuma surpresa ou arrebatamento.

Para mim, um grão no resgate histórico dos EUA, nada mais. Não emociona, faz a gente refletir apenas um pouco “fora da caixa”. Porque buscamos paralelos, encontramos eles e levamos a discussão para o fundamento da democracia. Lincoln faz refletir tanto quanto, ou talvez um centímetro a mais do que o recente The Conspirator. Ambos fazem um resgate importante da história dos EUA, mas acabam sendo mornos. E não acho que filmes históricos precisam ser assim. Faltou um pouco mais de ousadia. No fim das contas, este filme será facilmente esquecido. Há outros melhores nesta safra. Apesar do legado que Lincoln, o filme, pode deixar, e um e outro debate que suscinta, ele não marca nossa época e nem mesmo este ano.

PALPITE PARA O OSCAR 2013: Francamente, achei um exagero Lincoln receber 12 indicações para o Oscar deste ano. Mas bueno… também entendo Hollywood e suas políticas de lobby. Este é um filme histórico, que resgata um mito em uma época conturbada nos EUA – com democratas e republicanos tornando as votações importantes no país em objetos de uma disputa complicada. Além disso, é um filme que exigiu 12 anos de trabalho de Spielberg – até parece que ele recebeu, como prêmio, uma indicação para cada ano destes de trabalho.

Como eu disse antes, achei algumas indicações simplesmente forçadas. Como as de Direção de Fotografia, Edição e Trilha Sonora. Eu também não acho que o Roteiro Adaptado de Tony Kushner merecia ser indicado, ou mesmo Spielberg como Melhor Diretor. Para mim, ambos fazem um trabalho competente, mas nada excepcional.

Daniel Day-Lewis sim, mereceu a indicação. Assim como Sally Field – que, para mim, talvez merecesse a indicação de Melhor Atriz Coadjuvante, e não Melhor Atriz. Agora, Tommy Lee Jones deve ter entrado na lista porque tivemos um ano fraco de coadjuvantes. Mixagem de Som, por outro lado, mereceu estar lá, assim como Melhor Figurino e Design de Produção.

Hollywood pode querer consagrar Lincoln. E se isso acontecer, o filme vai receber a maioria dos prêmios, mesmo sem merecê-los. Agora, se a premiação esquecer um pouco o ufanismo e a força de Spielberg e for justa, talvez Lincoln receba três estatuetas: Melhor Ator, Melhor Figurino e Melhor Design de Produção. Agora, falta assistir aos outros concorrentes para poder afirmar, com convicção, se estes são prêmios justos.

http://www.imdb.com/name/nm0654648/

De Rouille et d’Os – Ferrugem e Osso

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Para a maioria dos filmes, é fácil começar um texto como este. Porque eles são diretos no que eles querem dizer e significar. De Rouille et D’Os não é assim. O que é curioso, já que é um dos filmes mais diretos e “simples” (reforço as aspas) que eu assisti nos últimos tempos. Ele fala de desejos primários. E de como a vida é cheia de pancadas. No final das contas, o que importa é como reagimos a estes golpes. Pronto, consegui escrever um início de texto sobre o filme. E, nem por isso, De Rouille et D’Os é simples de ser assistido.

A HISTÓRIA: Água. E outras imagens vão se fundindo. Um quarto, um menino, um local de espetáculos. Das imagens que parecem saídas de um sonho, partimos para a realidade dos passos de Sam (Armand Verdure), que tenta acompanhar a caminhada do pai, Alain van Versch (Matthias Schoenaerts). Em uma avenida, eles pedem carona. Sem dinheiro, Alain deixa a Bélgica e viaja para a casa da irmã Anna (Corinne Masiero), onde procura recomeçar a vida com algum apoio. Após conseguir emprego como segurança de uma casa noturna, ele conhece a Stéphanie (Marion Cotillard), uma mulher que é agredida no local em que ele trabalha.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a De Rouille et D’Os): Propositalmente eu contei pouco sobre o enredo de De Rouille et d’Os ali no resumo da história. Isso porque, e não tenho um pingo de dúvida sobre isso, o filme só tem a força que ele tem porque vai surpreendendo o espectador conforme o tempo vai passando. E com isso eu não quero dizer que a história tenha grandes reviravoltas. Mas, sem dúvida, ela tem algumas surpresas dramáticas que são fundamentais.

Como um soco que levamos na cara, ou no estômago, as surpresas de De Rouille et d’Os deixam marcas. E para cada grande cicatriz que a vida vai deixando, existe a criatividade de buscar saídas para aqueles golpes e, principalmente, para a dor que volta de feridas mal curadas. Este é o grande lance deste filme. A grande sacada do roteiro escrito por Jacques Audiard e Thomas Bidegain e que foi inspirado na história escrita por Craig Davidson.

Os personagens principais desta produção passaram por tempos difíceis. E, para surpresa geral, inclusive deles mesmos, vão passar por dificuldades ainda piores. Machucados por histórias de amor marcantes, mas que deram errado, Stéphanie e Alain se encontram justamente no momento em que se esforçam para continuar tocando a vida. Ela, sai à noite em busca de alguma diversão. Sente-se melhor ao perceber que segue sendo desejada pelos homens. Ele, encara qualquer mulher que queira dar uma rapidinha. Ele não se importa em repetir a dose, desde que fique claro que ele não tem compromisso com ninguém.

Fiquei especialmente impressionada com o personagem de Alain. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Como tantas pessoas que a gente encontra na vida, é possível fazer uma leitura rasa dele. Alain é um sujeito bruto, direto, que transpira testosterona a todo momento. Apenas isso? Fica evidente que não. Ele também é um sujeito que paga um preço alto por pensar e atuar a sua maneira, contra convenções, e por viver em um constante pêndulo entre agir como um sujeito egoísta e solidário, altruísta. Na mesma medida em que ele gosta de ganhar dinheiro batendo em outros sujeitos e vivendo a experiência de ser um campeão, ele também é capaz de carregar Stéphanie nas costas até o mar. Sempre direto, ele parece não ter filtros. E isso é fantástico.

O personagem de Alain me fez refletir sobre algo: dá para simplificar a vida ao ponto de ser tão direto em seus atos e forma de pensar que chega a assustar outras pessoas? Porque ele é assim. Sem se importar com o que os outros vão dizer ou pensar sobre como ele atua, Alain rompe convenções, teorias, e resgata um modo de vida primário. Quase primitivo. Ele ama o filho, mas é capaz de estourar e dizer, para a própria criança, que a odeia. Porque a gente não ama e “odeia” quem amamos em alguns momentos? Somos generosos, mas também egoístas.

Mas o surpreendente está na forma com que ele vê as suas relações pessoais, especialmente o sexo. Como ocorre para muitos homens – e o filme, de forma inevitável, trata das diferentes óticas entre homense  mulheres – Alain encara o sexo como algo natural, que pode ser feito a qualquer hora em que não é preciso estar fazendo outras coisas. E com qualquer pessoa. Sem cobranças, expectativas, fidelidade. Stéphanie, por sua parte, como ocorre com quase todas as mulheres, espera o inverso. Ela quer se dedicar a alguém e ser retribuída, e não dividir essa fidelidade com uma terceira pessoa. Qual versão é mais natural? Qual faz mais sentido? Poderíamos escrever textos apenas sobre isto, mas não é esta discussão que importa. O interessante é a forma com que estas formas diferentes de amar e de se entregar são mostradas no filme.

Igualmente importante como cada um deles, Stéphanie e Alain, acaba aprendendo com o outro. Porque no final do filme, eles não estão iguais ao início. Especialmente após as últimas experiências traumáticas. Isso porque, especialmente quando a dor ensina algumas lições, você entende que não há decisão melhor do que a de ficar comprometido com alguém. De compartilhar e crescer ao lado desta pessoa, tendo o amor como elemento em comum. E não importa se Alain é meio tosco, não pensa direito em seus próprios atos. Apenas age. E se Stéphanie é sensível, observadora, e sente tudo com uma intensidade impressionante. No fim das contas, os dois se aproximam, se respeitam, ficam perto o suficiente para se perceberem. E superam todo o restante. Belo filme. Grande exemplo de história e de narrativa.

NOTA: 9,8.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Gostei do estilo da direção de Jacques Audiard, que filma como se fizesse um documentário, mas com um toque muito cuidadoso nos detalhes. Ele “esconde o jogo” sempre que possível, para surpreender ao público, e mantem a câmera muito próxima dos atores, valorizando o trabalho deles e a fotografia. Muito bom!

Aliás, a direção de fotografia também merece um comentário específico. Constantemente ela valoriza a luz, algumas vezes até destacando o brilho do local, mesmo em momentos sombrios da história. Valoriza as belas cenas, quando elas aparecem, e busca estas imagens que perduram na memória do espectador depois que o filme termina. Belo trabalho de Stéphane Fontaine.

Tudo funciona bem em De Rouille et d’Os. Além dos elementos já citados, vale citar a trilha sonora deliciosa e marcante de Alexandre Desplat, e a competente edição de Juliette Welfling.

Pela primeira vez em muito tempo eu vejo uma tradução literal de um título de outro país. Muito bom! Ferrugem e Osso é um belo título, sem dúvida, para esta produção.

De Rouille et d’Os teria custado cerca de 15,4 milhões de euros. E arrecadou, apenas na França, pouco mais de US$ 14,5 milhões até o dia 1 de julho de 2012. Na Bélgica, fez outros US$ 1,26 milhões e, no Reino Unido, mais US$ 1,3 milhões. Pouco a pouco o filme foi conseguindo algum lucro, apesar de ter conseguido um resultado fraco nos Estados Unidos, onde fez pouco mais de US$ 866 mil até o dia 6 de janeiro deste ano.

Esta produção estreou na Bélgica em maio de 2012 e, depois, participou do Festival de Cannes. Em sua trajetória, até agora, passou por outros 17 festivais.

Neste caminho, ganhou seis prêmios e foi indicado a outros 11. Além destes, nomeado para dois Globos de Ouro: Melhor Filme em Língua Estrangeira e Melhor Atriz – Drama para Marion Cotillard. Ela realmente dá um banho nesta produção. Mostra maturidade e muita força, uma entrega comovente. Entre os prêmios que recebeu, destaque para o de Melhor Filme no Festival de Londres de 2012, assim como para os prêmios de Melhor Ator para Matthias Schoenaerts, Melhor Diretor para Jacques Audiard e Melhor Roteiro no Festival Internacional de Cinema de Valladolid.

De Rouille et d’Os foi filmado na França, em várias cidades do Alpes-Maritimes, e também nas cidades de Liège e Spa, ambas na Bélgica.

Os usuários do site IMDb deram a nota 7,6 para esta produção. Uma boa avaliação, levando em conta o padrão do site. Os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes foram um pouco mais generosos com a quantidade de textos positivos, dedicando 101 críticas positivas e 25 negativas, o que garante, para o filme, uma aprovação de 80% e uma nota média de 7,6.

Este é um filme co-produzido pela França e pela Bélgica.

O francês Jacques Audiard é um veterano roteirista que, 20 anos depois de escrever o seu primeiro trabalho para o cinema, estreou como diretor, em 1994, com a produção Regarde les Hommes Tomber. Inicialmente, quando assisti a De Rouille et d’Os, achei o seu trabalho impressionante, tanto pelo roteiro quanto pela direção. Mas, de imediato, “minha ficha” não tinha caído sobre ele. Audiard é o diretor Un Prophète, filmaço indicado ao Oscar que eu comentei por aqui. Ou seja, ele merece ter a filmografia conferida e, especialmente, ser acompanhado a partir daqui. Porque, tudo indica, ele fica melhor a cada nova produção.

CONCLUSÃO: Difícil encontrar apenas um ponto de destaque em De Rouille et D’Os. Afinal, esta é uma história de amor? Ou de superação? Ou ainda uma crônica amarga sobre pessoas sem muitas perspectivas na vida? É a história de pessoas simples ou complexas? De Rouille et D’Os é tudo isso, mas um pouco mais. O personagem principal da produção ser um sujeito que luta para conseguir dinheiro não é acidental. Porque todos nesta história, da criança até o adulto, apanham um pouco da vida. E batem de volta. Cada a sua maneira, na busca pela sobrevivência e desfrutando do amor. E sem padrões, fórmulas, mas daquela maneira acidentada que a vida mesma se apresenta. Por tudo isso, achei este filme excepcional. Realmente perfeito, no espírito, nas escolhas de seus realizadores e na interpretação dos protagonistas. Um filme inteligente, preciso na mensagem e na condução, e sem parecer óbvio – como outras produções recentes da França.

PALPITES PARA O OSCAR 2013: No fim das contas, demorei mais de uma semana para escrever toda esta crítica e a lista do Oscar saiu… deixando De Rouille et d’Os totalmente fora da disputa pelas estatuetas deste ano. Compreensível, até. Afinal, este filme não tem o perfil do Oscar. Seria muito mais uma produção a vencer Sundance.

Mas De Rouille et d’Os está concorrendo ao Globo de Ouro. Merece estar na lista, não há dúvidas. E, para ser franca, gostei mais dele do que do popularíssimo Intouchables. Especialmente porque De Rouille et d’Os é muito mais duro, direto, pé no chão. Intouchables fala bem de marginalizados que se respeitam e, por isso, surpreendem. E de como o politicamente correto é chato e muitas vezes nos atrapalha. Mas De Rouille et d’Os trata da capacidade humana de superação e de aprendizado. E sempre vou preferir histórias assim.

Apesar das minhas preferências, e sem ter assistido a todos os concorrentes ao Globo de Ouro ainda, admito que a disputa parece estar polarizada entre o popular Intouchables e o super elogiado Amour. Meu palpite é que o filme de Michael Haneke leve a melhor. E digo isso até por analisar que ele foi indicado a cinco Oscar. Isso não é para qualquer um. Mas o Globo de Ouro é diferente, costuma ser mais popular. Por isso é possível que Intouchables também leve. De Rouille et d’Os tem tudo para contentar-se apenas com a indicação.