Mud – Amor Bandido

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Gosto de filmes com garotos. Porque estas produções, normalmente, resgatam aquele desejo de aventura e de descobrir o que ainda não se sabe antes da fase adulta, quando o cinismo costuma entrar em cena. Mud segue a tradição de filmes do gênero e nos apresenta uma obra singela, mas muito interessante. Destas que fazem a gente pensar sobre as nossas apostas, nos conceitos e sentimentos que queremos seguir acreditando, e na necessidade de saber quando dar o passo adiante.

A HISTÓRIA: Brinquedos e lembranças marcadas pelo tempo decoram o quarto de Ellis (Tye Sheridan). O garoto está sentado no escuro, à espera de um sinal. Quando o walkie-talkie que ele tem na mão toca, Ellis age. Saindo de casa, ele escuta a mãe, Mary Lee (Sarah Paulson), falando que está cansada de morar ali. O marido (Ray McKinnon) escuta sem tirar os olhos do jornal. Ellis parte para uma aventura com o amigo Neckbone (Jacob Lofland). Eles vão conferir a história de que existe um barco abandonado sobre uma árvore em uma ilha próxima. Lá, Ellis e Neckbone conhecem a Mud (Matthew McConaughey), um sujeito com uma história atribulada e que vai alterar a rotina dos garotos a partir do encontro com eles.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso só recomendo que continue a ler quem já assistiu a Mud): Como comentei lá no início, sempre gostei de filmes que tem na aventura de dois ou mais garotos o seu mote principal. Não por acaso dois dos meus filmes preferidos de todos os tempos são Stand By Me, do diretor Rob Reiner, baseado em um livro de Stephen King, e The Goonies, dirigido por Richard Donner, com roteiro de Chris Columbus sobre uma história de Steven Spielberg.

Claro, vocês podem falar, que Stand By Me, The Goonies e Mud são muito diferentes entre si. Verdade. Mas este trio de filmes guarda alguns elementos em comum. Para começar, todos são narrados sob a ótica de um par de garotos. Assim, a essência das histórias parte do desejo pelo conhecimento e por aventura que é típico desta fase da vida. Por isso, cada uma destas histórias, a sua maneira, está cheia de encantamento, de curiosidade e do vigor da juventude. Os três filmes também tratam de amizade, um tema que sempre esteve entre os meus preferidos.

Mas as semelhanças terminam aí. Mud é um filme mais adulto que os citados neste texto e que marcaram a década de 1980. Mas este viés do roteiro não se esforça para isso, o que é fundamental para o filme funcionar. Ou, em outras palavras, o roteiro do diretor Jeff Nichols prima pela fluência, pela busca pela legitimidade da história, e não força a barra procurando frases clássicas ou surpresas inusitadas na ação. O que é um alívio para quem já viu muito roteiro com esse tipo de “artimanha”.

Ainda que o espectador aguarde que algo de ruim aconteça a qualquer momento, o desfecho do filme dificilmente será previsto. Então há surpresa, o que também é um grande trunfo para qualquer filme. Mas o que realmente me encantou nesta produção é a essência da história.

(SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Achei uma grande sacada de Nichols colocar como protagonista desta história o garoto Ellis. Ainda que o filme leve o nome de Mud, ele não é o personagem central. Ellis é o narrador, e a figura central da história porque ele carrega a ação. As principais decisões são dele, e a história só acontece da forma com que acontece por causa do garoto. E a sacada acertada de Nichols é ter um garoto em fase de desenvolvimento confrontado com uma das grandes indagações da vida: afinal, vale a pena acreditar no amor? Sacrificar-se por ele?

Indagação fantástica para um filme, não é mesmo? Quase todas as produções românticas abordam esta questão, de uma forma ou de outra. Mas poucas conseguem fazer isso com a inteligência deste filme de Nichols. Ellis vive um momento difícil, de ruptura, algo que é apresentado a ele e para a gente, por tabela, logo nos primeiros minutos do filme. Mas vamos entender isso em profundidade apenas depois. Este é outro acerto do texto do diretor: a compreensão dos fatos vai se desdobrando para o espectador na mesma medida em que o entendimento bate para o protagonista.

Mesmo sendo adulta e tendo vivido mais que Ellis, eu demoro mais neste jogo porque não tenho as informações que o personagem tem. Essa técnica de Nichols mostra a inteligência do roteiro. Mas as qualidades não terminam aí. Ellis fica encantado com Mud por mais de uma razão. Primeiro, e isso fica evidente mais tarde, com um comentário de Juniper (Reese Witherspoon) porque o personagem de Matthew McConaughey sabe como fascinar uma pessoa, fisgá-la com as suas histórias. Depois, porque com a separação iminente dos pais, Ellis vê na história de Mud e Juniper uma alternativa para continuar acreditando no amor.

O próprio Ellis, como pede qualquer filme que tem a passagem da inocência da infância para a maturidade da vida adulta como pano de fundo, está vivendo a descoberta do amor. Ele está encantado por May Pearl (Bonnie Sturdivant), uma garota de 16 anos – ele tem 14 – que, não por acaso, tem o nome composto como a mãe de Ellis. Aliás, nada neste roteiro sobra ou existe por acidente. Cada fala, cada imagem da cidade ou do entorno do rio, cada personagem tem uma razão de ser nesta produção.

Mud e Juniper destoam das pessoas da cidade nos Estados Unidos onde se passa esta história. Ao redor de Ellis e do amigo Neckbone, que comandam as “aventuras” desta produção, o cenário é de poucas oportunidades e de sacrifícios. Os homens costumam falar pouco, a exemplo do pai de Ellis. E as mulheres… bem, elas tem dificuldade de diálogo com os homens e, aparentemente, estão no comando da situação – vide May Pearl e Mary Lee. O que resta, neste cenário, para garotos como Ellis e Neckbone?

Eles se divertem com a realidade que tem. Mas quando Ellis fica fascinado com Mud e encara os desafios que ele vai colocando na sua frente como uma verdadeira missão, aquele entorno difícil do rio ou do centro urbano da cidade fica em segundo plano. Mais uma explicação para o fascínio de Ellis, que tem naquela aventura uma válvula de escape para a separação dos pais e para a consequente mudança no estilo de vida que ele terá ao deixar a casa ribeirinha.

Interessante como, no início, Ellis é movido apenas pelo sentido de “ajuda ao próximo”. Quando Neckbone pergunta para o amigo porque ele está ajudando ao desconhecido Mud, o protagonista responde de forma direta que é porque aquilo “é o certo a fazer”. Depois, quando os garotos conhecem Juniper, eles ficam fascinados por aquela bela mulher, e a motivação de Ellis tem a ver com a defesa de sua própria crença do amor.

Que história maravilhosa, não é mesmo? Fiquei encantada com este filme. E apenas não dou um 10 para ele porque acho que Reese Witherspoon destoa do conjunto da obra. Tanto a personagem dela não é bem explorada pelo roteiro – talvez o único pecado de Nichols -, quanto a interpretação da atriz me pareceu um pouco displicente. Não percebi o mesmo envolvimento dela do que dos outros atores. Mas esse deslize não tira o brilho dos méritos citados desta produção.

NOTA: 9,6.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Neste filme não faz falta e nem sobram personagens. Até os atores coadjuvantes tem o seu tempo e o espaço adequado – a exceção fica apenas com a personagem de Juniper. Talvez a mãe de Ellis poderia aparecer um pouco mais, alguém pode dizer. Talvez. Mas acho que também há lógica na escolha de Nichols de fazer com que Mary Lee tenha o poder de decidir o futuro do protagonista e de sua família, ao mesmo tempo em que sobra para o pai dele, alguém com pouca criatividade para contra-argumentar, mais espaço para lamentar-se.

A postura do pai de Ellis, aliás, me faz refletir sobre como as pessoas que se colocam sempre na posição de vítimas são cansativas e, normalmente, não conseguem resolver os seus próprios problemas. Isso porque elas são muito “boas” contaminando o ambiente e jogando umas pessoas contra as outras, mas não conseguem assumir uma posição de resolução dos problemas ao encontrar saída para as suas próprias fraquezas e equívocos.

Mesmo com a reflexão anterior, devo dizer que uma outra sacada desta produção me impressionou pela sua eficácia. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). A forma muito natural com que Nichols “humaniza” estereótipos que estamos acostumados a ver nas reportagens dos jornais ou nas conversas de psicólogos. Isso vale tanto para a “vítima constante” e que não consegue sair de seu papel vivida pelo pai de Ellis, quanto pelo “bandido charmoso” Mud. Quem pode julgá-los? Quem pode defendê-los ou atacá-los? Cada personagem tem as suas razões e consegue, a seu próprio modo, causar empatia, pena ou apenas reflexão.

Gostei muito do final de Mud. Não apenas por ele terminar com aquele espírito “esperançoso”, mas principalmente pelo gesto de Ellis. (SPOILER – não leia… bem, você já sabe). O protagonista desta produção nos dá mais uma lição, além daquela de ajudar ao próximo que ninguém ousaria auxiliar, que é a de aprender com o que viveu com a aparição de Mud. Se ele ficou frustrado com Juniper, esta decepção não foi suficiente para ele descartar o amor como um plano viável. May Pearl foi igualmente uma decepção? Pois com a mudança de casa e de vida, Ellis fica atento às novas possibilidades. E segue em frente. Palmas pra ele!

O pai de Ellis me parece o típico “machão”. Capaz de ter uma conversa franca com o filho, de falar o que pensa para ele, mas incapaz de dialogar com a própria mulher e de pensar diferente do que pensa atualmente. Em outras palavras, ele não tem condições de “pensar fora da caixa”, de se recriar quando é preciso e quando acha que é necessário. Uma pena. E o pior de tudo é que existem tantas pessoas assim – tanto homens quanto mulheres. Ô dó!

Fiquei encantada com os garotos que interpretam os protagonistas deste filme. Tye Sheridan e Jacob Lofland estão perfeitos, de tirar o chapéu. Especialmente o primeiro, que merece ser indicado para alguns prêmios. Além deles, gostei do desempenho de Matthew McConaughey. Acho que é a melhor interpretação dele, exatamente no tom necessário, em muito tempo. Quando ele assume a postura de “herói”, mostra como tem perfil para este papel. Um verdadeiro deleite. 🙂

Além deles, vale citar mais um belo trabalho de Sam Shepard, que interpreta a Tom Blankenship, o homem que criou Mud. Ray McKinnon e Sarah Paulson, que interpretam aos pais de Ellis, estão precisos – sem displicência e sem exageros – em seus papeis. E o ótimo Michael Shannon faz um papel bem secundário, quase uma ponta como Galen, tio de Neckbone e responsável pelo garoto.

Os vilões desta produção tem um desempenho menor. São praticamente coadjuvantes. Mas vale citar os atores que interpretam as ameaças principais: Paul Sparks vive Carver, o primeiro perseguidor de Mud que aparece em cena; e Joe Don Baker, bastante irreconhecível, interpreta a King, pai de Carver.

Da parte técnica do filme, destaco a excelente trilha sonora de David Wingo, parte fundamental para ajudar o filme a ter ritmo; a direção de fotografia equilibrada de Adam Stone, e a edição detalhista de Julie Monroe.

Além de um roteiro que beira a perfeição, Jeff Nichols tem uma direção segura, que equilibra o foco das lentes da produção nos atores e seus personagens tanto quanto no entorno que ajuda a explicá-los. Gosto dos silêncios desta produção, assim como das interações entre os atores. Os garotos roubam a cena, e é encantadora a franqueza deles – algo que muitas vezes falta para os adultos, habituados a jogos de poder e de dissimulação.

O tom principal deste filme é o de aventura, mas há drama, tensão e, porque não, comédia e humor no meio. Uma obra completa e que tem ritmo e estilo.

Este é o terceiro longa-metragem do jovem roteirista e diretor Jeff Nichols. Nascido no Arkansas, ele tem 34 anos – fará 35 em dezembro – e é irmão de Ben Nichols, vocalista da banda Lucero. Antes de Mud, ele filmou Shotgun Stories e Take Skelter, ambos bem cotados no site IMDb. Algo em comum entre os três filmes dirigidos por Nichols é a participação do ator Michael Shannon.

Mud estrou em maio do ano passado no Festival de Cannes. Depois, o filme passou por outros quatro festivais. Nesta trajetória, ele foi indicado a dois prêmios, mas não levou nenhum deles.

O terceiro filme de Nichols arrecadou, apenas nos Estados Unidos, quase US$ 21,57 milhões até o último dia 18. Um bom desempenho.

Mud foi rodado em diversas cidades do Arkansas, terra natal do diretor. As principais locações foram feitas em Eudora, Dumas e Stuttgart.

Agora, uma curiosidade da produção: pouco mais de 2 mil garotos participaram das audições para a escolha de quem faria o papel de Neckbone. E outra: Mud foi filmado em oito semanas, com a maior parte do elenco secundário formada por habitantes do Arkansas, incluindo cerca de 400 pessoas contratadas como figurantes.

Eu entendo que as distribuidoras brasileiras sempre se preocupam em tornar os nomes dos filmes mais “acessíveis” e compreensíveis, mas Amor Bandido entrou na lista das escolhas lamentáveis. Era melhor ter deixado Mud. Pelo menos, seria mais coerente com o filme.

Os usuários do site IMDb deram a nota 7,6 para Mud. Uma avaliação muito boa, levando em conta o histórico do site. Mais animados que os internautas estão os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes. Eles escreveram 154 textos positivos e apenas três negativos, o que garante para o filme uma aprovação impressionante de 98% e uma nota média de 7,9.

CONCLUSÃO: Quem não gostaria de manter a inocência e o vigor da infância para sempre? Mas a vida “ensina”, como nos dizem desde sempre, e com o tempo algumas crenças ficam mais difíceis. Mud trata da diferença da visão de mundo das pessoas, principalmente o que diferencia a postura de adultos e crianças. A motivação do nosso protagonista é a mais simples possível – e, ao mesmo tempo, complexa. Ele quer comprovar que é possível a vitória do amor. Existe algo mais belo e motivador?

O roteiro e a direção de Mud são perfeitos, porque não exageram em nenhuma dose. A impressão que o espectador tem é que está diante de uma história curiosa e que vai crescendo com o tempo. Existe a expectativa de algo ruim pode acontecer a qualquer momento, e este suspense, mas sem exagerar no peso dele, dá ritmo para a produção até o desfecho final. Há covardia e heroísmo nesta história. Clareza nos propósitos, obstinação e fuga. Quase todas as interpretações estão irretocáveis. Mas alguns detalhes não deixam o filme chegar à perfeição. Mas quem se importa? Eis um belo exemplar de cinema, e é isso o que interessa. Vale ser visto com a cabeça fresca, aberta e conectada nas tuas próprias experiências de vida.

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Los Amantes Pasajeros – I’m So Excited! – Os Amantes Passageiros

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O mundo é gay. E as pessoas aguardam apenas um momento de incerteza para transar, e muito. Essas são duas premissas do novo filme do espanhol Pedro Almodóvar, Los Amantes Pasajeros. Entendo o desejo do diretor de perder um pouco o controle vez ou outra, mas este filme, que começa até engraçado, lá pelas tantas perde a direção de maneira impressionante. Esqueça a fase mais filosófica e interessante do diretor. Em Los Amantes Pasajeros Almodóvar volta a trilhar o caminho iniciado no anterior La Piel Que Habito, no qual o principal interesse do realizador é assumir o exagero como ideia fundamental de seu trabalho.

A HISTÓRIA: Equipamentos são retirados após o embarque dos passageiros em um avião da companhia aérea Península. Uma das últimas etapas é a retirada das proteções dos pneus dos trens de pouso, feita por León (Antonio Banderas). Ao ver a Jessica (Penélope Cruz), León se entusiasma. E é correspondido. Distraída, Jessica atropela a um operário (Coté Soler). Este incidente interrompe as tarefas de León, o que vai prejudicar o voo pilotado por Benito Morón (Hugo Silva) e Álex Acero (Antonio de la Torre), e exigir jogo de cintura da equipe formada por Fajas (Carlos Areces), Joserra (Javier Cámara) e Ulloa (Rául Arévalo) para controlar os poucos passageiros que acabam não sendo sedados no avião.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Los Amantes Pasajeros): Gosto muito do estilo Almodóvar de fazer cinema. Especialmente porque ele deu um novo vigor para um cinema que tinha pouca relevância há algumas década, que era o cinema espanhol.

Depois de alguns experimentos nos anos 1970, Almodóvar chegou na década seguinte com filmes como Pepi, Luci, Bom y Otras Chicas de Montón, Entre Tinieblas e o divertidíssimo Qué He Hecho Yo para Merecer Esto!! O cinema dele era exagerado, mas carregado de sentido, de significados, da cultura espanhola e de uma carregada crítica ao puritanismo, a hipocrisia e aos valores antigos que pareciam não fazer mais sentido em uma sociedade que tentava ser mais moderna e libertária.

No final dos anos 1990, com Todo Sobre Mi Madre e Hable con Ella, Almodóvar deixa para trás o desejo de chocar com sexo e comédia carregada de costumes para fazer um cinema mais denso, psicológico, quase filosófico. Com estes filmes, ele chega ao auge da carreira, ganhando fãs internacionalmente que ele nunca tinha imaginado um dia conseguir. Paralelo a isso, ele também melhorou com a técnica da direção e da narrativa. Tornou-se um diretor e um roteirista melhor.

Muito bem, isso até este Los Amantes Pasajeros. Certo que suas produções anteriores, Los Abrazos Rotos (comentada aqui no blog) e La Piel que Habito (o qual comentei neste texto) não falavam tanto dos dilemas humanos quanto os brilhantes Todo Sobre Mi Madre e Hable con Ella mas, cada um deles, tinha peso dramático e envolvia o espectador a sua maneira. Além de roçar com exageros interessantes, que revisitavam partes “perdidas” da filmografia do diretor.

Los Amantes Pasajeros retoma a parte mais sexual de Almodóvar, mas sem muito sentido. Na verdade, o filme inicia como uma grande brincadeira. Os espanhóis tem um pouco essa filosofia de “cachorros de rua”. Até recentemente, antes da conquista da última Copa do Mundo, a Seleção espanhola era sempre vista como aquela que lutava, brigava, mas sempre morria na praia. E em muitas outras esferas, que não apenas a do futebol, eles são vistos como incapazes de grandes feitos – e essa leitura eu faço por ter morado na Espanha por alguns anos e ter visto esta estranha e constante divisão dos espanhóis entre serem arrogantes e terem este complexo de inferioridade mal resolvido.

Então imaginar uma situação como a vivida em Los Amantes Pasajeros com a filosofia do “cachorro de rua” espanhola é divertido. Um avião com risco de não conseguir pousar é um problema para qualquer tripulação e passageiros, mas nem todos lidariam com esta situação de forma tão displicente e típica quanto os espanhóis. Certo, a ideia até que não é ruim. Mas o desenvolvimento dela que acaba sendo o problema.

Quem já assistiu a muitos filmes, certamente viu a alguns clássicos que tem o ambiente claustrofóbico de um avião como cenário principal. A referência máxima de comédia sobre uma situação complicada é o filme Airplane!, simplesmente genial. Então quando Los Amantes Pasajeros começa a ganhar corpo e percebemos que aquele avião com três comissários de bordo gays tem problemas, é inevitável não relembrar do descontrole de Airplane! O que é ruim para a nova produção do diretor espanhol.

O roteirista Pedro Almodóvar faz comédia nos mínimos detalhes. A companhia aérea da produção chamar-se Península, por exemplo, faz alusão à empresa Iberia – que, inclusive, faz “presença” no filme com um avião que decola antes da aeronave onde a maior parte da história se passa. Os primeiros minutos da produção, com Antonio Banderas e Penélope Cruz fazendo pontas com acentuados sotaques andaluzes, também é uma cereja no bolo – os dois, como vocês sabem, foram descobertos e lançados no cinema por Almodóvar.

(SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Em seguida, somos apresentados a figuras muito típicas do imaginário espanhol – a mulher “vidente”, Bruna (Lola Dueñas); o “matador de aluguel” Infante (José María Yazpik); o “don juan de meia idade” Ricardo Galán (Guillermo Toledo); o “executivo ladrão” Sr. Más (José Luis Torrijo) e a “celebridade” que conhece os homens mais poderosos do país, Norma Boss (Cecilia Roth). Almodóvar junta todos eles na classe executiva de um avião que tem o risco de não conseguir pousar por causa da trapalhada que acontece no início da produção.

Para enfrentar o problema, estes passageiros e mais os tripulantes, incluindo o trio de comissários gays e os pilotos “de cabeça aberta”, entram em uma sequência de “buscas pelo essencial” de suas vidas. Daí surgem as ligações telefônicas em que todos escutam tudo, e que passam pela escolha de Almodóvar em mostrar as mulheres da vida de Galán, assim como a tentativa de Norma em ameaçar um ministro para defender a própria vida e a retomada de um contato importante na vida de Sr. Más.

Para mim, o filme começa a perder a graça quando sai do avião e segue Alba (Paz Vega, irreconhecível) e Ruth (Blanca Suárez). Uma história paralela que não agrega praticamente nada para a trama e que faz o filme perder o ritmo. Dispensável, pois. A única justificativa para aquelas sequências foi o diretor colocar duas belas mulheres – especialmente Blanca – em cena.

Além de fazerem contato com as últimas pessoas com quem gostariam de falar na vida – afinal, existe a dúvida se aquele voo pode ser o último de suas existências -, os personagens principais da trama enchem a cara de álcool e sexo. No melhor estilo “o que você faria se este fosse o seu último voo”, cada um revela a sua personalidade sem filtros e sem censura. E isso é tudo.

O filme é cheio de baboseira mas, se visto com um pouco de distanciamento, se revela uma sátira à Espanha contemporânea. Algo que marca o cinema de Almodóvar – aqui, pelo menos, ele não se perdeu. O problema apresentado no filme é provocado pelos próprios espanhóis – com aquela trapalhada inicial protagonizada pelos personagens de Antonio Banderas e Penélope Cruz. Fazendo um paralelo, é o mesmo que dizer que a bolha imobiliária, a grande causadora da crise atual na Espanha, foi causada pela ambição e pela falta de critério dos próprios espanhóis – se não de todos, pelo menos do sistema financeiro, que no filme é criticado pelo exemplo do Sr. Más. Aliás, no jornal que o personagem lê, é possível ver vários escândalos envolvendo “cajas” e bancos do país – o que de fato aconteceu.

Como as pessoas agiram para enfrentar a crise atual, e que segue persistente, no país de Almodóvar? Houve o 15M, é claro – que envolveu passeatas e “acampadas” para protestar contra as políticas de cortes do governo e contra a crise. Mas, no dia a dia das pessoas, houve também muita gente enfrentando os problemas com álcool, drogas, sexo e musicais. Alguns quiseram manter as aparências, como Norma Boss, enquanto tantos outros, talvez a maioria, permaneceu “anestesiado” – como a maior parte dos passageiros do voo comanda por Almodóvar.

Fazendo esse exercício de paralelo dramático/artístico com a realidade espanhola, até que o filme não parece tão idiota assim. Mas enquanto eu estava assistindo à produção, o pensamento predominante era: “Almodóvar, meu caro, aonde você vai com esta história burlesca?”. Não achei que ele fosse chegar a parte alguma, mas torcia para o filme não ter mais de duas horas. E, uma das poucas qualidades desta produção, além de uma ou outra parte realmente engraçada, é que ela dura menos de uma hora e meia. Gracias! Agora, nos resta esperar a um Almodóvar um pouco mais inspirado e menos tresloucado da próxima vez.

NOTA: 5,5.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Sempre que assisto a uma comédia, fica evidente para mim que o humor é algo muito, muito pessoal. Até mais do que outras escolhas que fazemos na vida – como o time de futebol para o qual torcemos, nossa religião ou forma de amar. Muitas vezes o meu senso de humor não coincide com o de vários leitores deste blog. Sabendo disso, sou obrigada a comentar que o “ponto alto” desta produção, que é a encenação da música I’m So Excited, de The Pointer Sisters, não me fez gostar mais do filme. Pelo contrário. Achei muito sem graça.

Adoro assistir a Madrid como personagem de filmes – especialmente dos de Almodóvar. Mas achei bem forçada a entrada da cidade na história junto com as personagens Alba e Ruth. Ok que o diretor quisesse dar mais “profundidade” para os seus personagens. Mas, de fato, a entrada das duas mulheres no roteiro torna o filme mais interessante? Não achei.

Agora, nem tudo são problemas em Los Amantes Pasajeros. Javier Cámara está maravilhoso no papel de Joserra, o comissário que ganha protagonismo na história. Também foi muito bom rever Raúl Arévalo, Carlos Areces, Hugo Silva e Antonio de la Torre em cena. Eles são alguns dos atores mais importantes do cenário do cinema espanhol atual. Sem contar, claro, a sempre diva Cecilia Roth e a respeitada e competente Lola Dueñas.

Algo bacana nesta produção é o espaço que ela dá para os bonitões made in Espanha. Hugo Silva, claro. E, além dele, Miguel Ángel Silvestre como o Noivo que é um colírio para os comissários do avião – e para os espectadores.

Tecnicamente, mais uma vez, Almodóvar nos entrega um filme limpo e bem construído visualmente. Para isso, ele contou com a ajuda do diretor de fotografia José Luis Alcaine. A trilha sonora, um dos pontos fortes da produção, achei apenas “ok”, nada demais. E ela é assinada por Alberto Iglesias, antigo parceiro do diretor.

Inicialmente eu estava dando até uma nota menor para este filme. Um 5. Mas aí o paralelo com a atual situação da Espanha me fez melhorar um pouquinho a nota. Ainda assim, claro, ela está muito abaixo da média para os filmes do Almodóvar.

Falando em notas, vale citar os dois sites que eu normalmente comento por aqui. Os usuários do IMDb deram a nota 5,7 para esta produção. Para vocês terem uma ideia, esta é a menor nota para um filme de Almodóvar no site, exceto por Folle… Folle… Fólleme Tim!, primeiro e desconhecido longa do diretor lançado em 1978. Todas as outras produções lançadas por ele depois tem uma nota melhor que Los Amantes Pasajeros. Achei justo porque, afinal, este filme está beeeem abaixo do padrão do diretor ao qual estamos acostumados. Os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 56 textos negativos e 52 positivos para esta produção, o que lhe garante uma aprovação de 48% e uma nota média de 5,7. Quase empatei na avaliação com eles – e só porque gosto muito do Almodóvar.

Agora, algumas curiosidades sobre esta produção: Los Amantes Pasajeros marcou a sétima parceria entre Banderas e Almodóvar e a quinta entre Penélope Cruz e o diretor. Mesmo com tantas presenças em filmes do diretor espanhol, esta foi a primeira vez que os dois contracenaram juntos em uma produção de Almodóvar.

Como normalmente faz em suas produções, Pedro Almodóvar dá uma pequena ponta para o irmão e produtor Agustín Almodóvar. Ele “interpreta”, neste filme, ao controlador da torre do aeroporto onde a produção acaba.

Los Amantes Pasajeros estreou no circuito comercial dos cinemas espanhóis em março deste ano. Depois, o filme passaria por cinco festivais, nenhum de ponta. O mais conhecido é o de Los Angeles. Nesta trajetória, a produção não foi indicada para nenhum prêmio – seria uma surpresa se tivesse acontecido diferente.

Para quem gosta de saber os locais em que o filme foi rodado, Los Amantes Pasajeros teve cenas gravadas em Madrid e em Ciudad Real.

De acordo com o site Box Office Mojo, este último filme de Almodóvar conseguiu, até o último dia 22 de agosto, quase US$ 1,3 milhão nas bilheterias dos Estados Unidos e pouco mais de US$ 10,3 milhões nas bilheterias dos demais mercados onde já estreou. Pouco, como se pode ver.

CONCLUSÃO: Gostei do começo despretensioso e irônico de Los Amantes Pasajeros. As pontas dos astros Antonio Banderas e Penélope Cruz foram muito bem planejadas e tem o tempo adequado para o filme. Depois, achei brilhante o desempenho de Javier Cámara e Lola Dueñas. Mas quando Los Amantes Pasajeros resolve colocar histórias paralelas para “aprofundar” a ação, em um filme nada profundo, e descamba para a orgia, me cansei.

Aparentemente Almodóvar se cansou de fazer filmes mais “existenciais”, naquela fase em que ele se tornou um cineasta premiado e reconhecido internacionalmente. Não acho que ele seja obrigado a seguir uma filmografia séria, até porque o passado dele é muito mais satírico, exagerado e polêmico e abandonar esta verve seria negar o próprio passado do diretor. Mas este novo filme dele, para mim, apenas tirou uma hora e meia do meu tempo, que poderia ter sido utilizado para assistir a um filme melhor, com um diretor e roteirista mais inspirado. Esta produção tem alguns momentos engraçados mas, no saldo geral, achei ela beeeeem dispensável – apesar da produção fazer uma sátira contemporânea da Espanha. Veja se gostar muito do diretor e se não tiver nada melhor para assistir.

Passion

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As mulheres mais ambiciosas do ambiente corporativo ganharam, finalmente, um filme para homenageá-las. Passion recria em parte um dos maiores clássicos do cinema, All About Eve, ao mostrar a conturbada relação entre uma chefe poderosa e uma pupila que aprende rápido sobre os jogos de poder e de sedução. Mas as comparações entre os filmes terminam aí. Porque Passion não tem a qualidade de roteiro ou mesmo uma dupla de protagonistas como o clássico dirigido por Joseph L. Mankiewicz. Ainda assim, esta é uma produção curiosa pela ousadia de Brian De Palma, claramente obcecado com a ideia de levar até os extremos o confronto entre diferentes mulheres – inclusive no quesito sexual.

A HISTÓRIA: Close na maçã da Apple. E a lente vai ampliando o foco. Então vemos a executiva Christine Stanford (Rachel McAdams) ao lado de Isabelle James (Noomi Rapace). Elas estão atentas a um vídeo no computador que mostra o novo smartphone da Panasonic, preparado para resistir inclusive a um mergulho na água. Elas concordam que o vídeo está ótimo e que será um grande desafio para elas, que devem pensar em algo à altura para um novo lançamento de smartphone. Enquanto Christine se esbalda em mais uma noite quente com Dirk Harriman (Paul Anderson), Isabelle vai para casa trabalhar e, durante a noite, ela tem um “insight” decisivo. Ela cria um vídeo inovador junto com a sua ajudante, Dani (Karoline Herfurth), o que dá início a uma disputa pelos holofotes e pelo poder entre Christine e Isabelle.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Passion): Um filme pode ser ganho ou perdido por causa dos atores. E do roteiro, é claro. Por isso mesmo conseguir um filme excepcional é tão difícil. Afinal, todos os elementos que o compõe devem funcionar com perfeição para atingir o objetivo proposto – ou algo totalmente diferente, mas acima da curva.

Passion tem o estilo muito próprio de Brian De Palma, esse diretor norte-americano prestes a completar 73 anos (no dia 11 de setembro) que ajudou a construir o cinema dos Estados Unidos a partir dos anos 1970. Mas, infelizmente, esta nova produção após um hiato de cinco anos do diretor não chega aos pés de suas obras-primas.

Para começar, o filme tem um grande problema: a maioria de seus atores tem um desempenho apenas razoável. Exceto por Rachel McAdams, claramente a mulher que rouba a cena nesta produção. Mas a exemplo do já citado All About Eve, quando a fantástica Bette Davis teve um contraponto importante e à altura em Anne Baxter, em Passion faltou o “outro lado da moeda” para o papel de McAdams. Noomi Rapace se esforça, é verdade, mas não consegue convencer em muitas cenas, quando ela tem apenas uma interpretação maniqueísta – faltando aquele detalhe que faz com que a gente acredite que ela mesma acredita em suas falas e atos como atriz.

O resultado é que a queda de braços entre McAdams e Rapace fica “bamba”. Sem profundidade dramática nas interpretações centrais, o que resta é explorar a tensão sexual. Bem pensado, De Palma. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Neste quesito, Passion é um dos filmes com conotação lésbica mais contundente dos últimos tempos. Afinal, ele não está nem na categoria de pornô, nem na de filmes criados para o segmento LGBT. Esta é uma produção do mainstream que resolveu apostar as suas fichas na tensão sexual e na relação afetiva entre mulheres. E neste filme há gosto para todas, porque há tanto a personagem lésbica assumida, como é o caso de Dani, quanto aquela que parece ter a preferência bissexual (Christine) e a que flerta com mulheres porque é conveniente, mas que é heterossexual (Isabelle).

passion4Normalmente, como vocês sabem, eu não costumo colocar fotos das produções no meio dos textos publicados no blog. Mas neste caso, me vi obrigada. Porque vejam a expressão do diretor De Palma nesta imagem. Ele parece um pouco alucinado, não? 🙂 E me parece que, de fato, De Palma se divertiu muito com estas belas mulheres, não? E estes parecem ser os motes principais de Passion: a obsessão pela beleza, pela tensão/atração sexual e pela disputa pelo poder entre mulheres.

Muita gente vai se divertir com o mise-en-scène cheio de malícia do roteiro de Brian De Palma baseado no trabalho feito no filme Crime d’amour, com roteiro de Natalie Carter e Alain Corneau. Mas eu não tenho dúvidas de que a diversão seria maior se o elenco fosse um pouquinho mais talentoso. Volto a dizer que achei Rapace maniqueísta em muitos momentos, e Karoline Herfurth, assim como Paul Anderson, conseguem ser ainda mais superficiais. Não senti firmeza em nenhum deles, diferente de Rachel McAdams que, sem dúvidas, é o melhor da produção.

Não lembro de ter assistido a um triângulo amoroso feminino e, ao mesmo tempo, a um outro triângulo amoroso, agora com um homem e duas mulheres no meio, em uma mesma produção. E isso acontece em Passion. A criatividade do roteiro com o triângulo feminino (ainda que ele foi apenas sugerido) e a ousadia de tratar de forma tão aberta os perigos de gente extremamente ambiciosa no ambiente corporativo fazem o filme ter o seu valor. Mas, como sempre, faltaram cenas mais abertas do envolvimento entre as mulheres – a provocação fica estrita, quase que totalmente, a alguns beijos. Então a “ousadia” é relativa.

Além do desempenho dos atores, o que me incomodou mesmo na produção foi o desfecho. (SPOILER – não leia… bem, você já sabe). A partir do momento em que Dani descobre que os remédios que Isabelle estavam tomando eram falsos, não passavam de placebo, ficou evidente que o plano estava todo armado. Então a “reviravolta” final só deve surpreender os pouco atentos. E que difícil acreditar naquela história de que Dani filmou toda a ação de Isabelle e que teria escondido o “celular maquiavélico” em local tão óbvio, não? Sem contar que, tendo sido comprado para apenas aquele propósito (de guardar as provas do crime), como aquele aparelho poderia ser “acionado” por alguém? Quem conheceria aquele número? Beeeeeem improvável aquele desfecho e, por isso, para mim, frustrante.

No mais, acho que Passion tem alguns bons momentos. O vídeo criado por Isabelle e Dani foi, realmente, uma grande sacada. Assim como o jogo muito bem dirigido pelo diretor entre as cenas do balé e da casa de Christine. Muitos filmes usaram o recurso de dividir a narrativa em duas telas em que ações simultâneas se desenvolvem. Mas De Palma fez um pouco diferente desta vez, tornando o recurso novamente interessante – e sem parecer repetitivo. Também gostei das cenas provocativas entre as protagonistas, a maioria delas convincente. Apenas por estes fatores e porque o exagero da produção acaba sendo até divertido, é que eu resolvi dar a nota abaixo. Afinal, é preciso manter viva a capacidade de rir dos estereótipos do cinema quando eles são bem explorados, ainda que a produção tenha vários defeitos.

NOTA: 7.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: A autoironia de Passion ficou evidente, para mim, desde os primeiros minutos. Começando pela trilha sonora exagerada de Pino Donaggio. Por algum tempo, seja por essa trilha, seja pelo roteiro dramático, me lembrei do estilo exagerado do diretor espanhol Pedro Almodóvar. Se o filme fosse dele, a nota teria sido maior. Porque a produção teria feito mais sentido dentro da filmografia de Almodóvar.

Não é em todo momento que Noomi Rapace decepciona como atriz. Há cenas em que ela está muito bem. Especialmente quando faz aquele duelo provocativo com Rachel McAdams. Mas toda vez que ela precisa entrar mais nos “sentimentos” da personagem, especialmente quando começa a se decepcionar com o personagem de Paul Anderson, o nível dramático da atriz se mostra comprometido. As cenas de descontrole emocional mesmo… difíceis, beeeem difíceis. Infelizmente ela é uma pessoa muito importante para o filme, o que acaba comprometendo o resultado final. Acredito que ela deve se dar melhor em filmes de ação do que em produções em que o trabalho dramático é maior.

Como eu disse antes, Rachel McAdams carrega o filme. Mas mesmo ela tem momentos difíceis na produção. Por culpa do roteiro, evidentemente. Como na sequência em que ela “surpreende” (mesmo? aquela cilada estava mais que prevista, convenhamos) Isabelle com o vídeo que ela fez com Dirk.

Mas se o roteiro de Passion tem vários defeitinhos cruciais, a direção de Brian De Palma é outro fator importante para esta produção ter a qualidade que tem. Ou, em outras palavras, é o ponto forte do filme junto com McAdams. De Palma sabe valorizar o trabalho dos atores, assim como os cenários e, o que é bacana, os recursos tecnológicos disponíveis em qualquer ambiente corporativo. Ele tem boas sacadas na forma de narrar a história, ajudando o filme a ter o ritmo correto – e a não causar sono nos espectadores.

Quem está mais obcecado pelo outro neste filme? O páreo é duro. O filme me fez lembrar um pouco os versos de Drummond no poema Quadrilha. Só que Passion não chega a ter seis personagens centrais, como na obra do poeta. 🙂

Para funcionar com estilo, além de uma trilha sonora bem temperada, Passion fez uso da competente direção de fotografia de José Luis Alcaine e da edição de François Gédigier, fundamentais para dar ritmo e garantir um bom visual para a produção. Além deles, vale destacar o design de produção de Cornelia Ott, a direção de arte de Astrid Poeschke, a decoração de set de Ute Bergk e os figurinos de Karen Muller Serreau. A boa sintonia entre estes últimos elementos é fundamental para Passion ter um estilo interessante.

Uma curiosidade sobre esta produção: Dominic Cooper tinha topado fazer o papel de Dirk Harriman, mas acabou caindo fora do filme. Acho que ele teria se saído melhor que o fraquinho – mas muito bonito, como manda este filme em que a beleza é fundamental – Paul Anderson.

Este é o sétimo filme dirigido por De Palma com uma trilha sonora do italiano Pino Donaggio. A primeira colaboração entre eles foi feita no clássico Carrie. O filme de 1976 foi o quinto trabalho de Donaggio, que tem impressionantes 193 trilhas compostas até o momento – incluindo longas, curtas e séries de TV.

Passion teria custado US$ 30 milhões. Impressionante, não? Duvido muito que ele consiga lucrar muito, apesar de ter nomes como De Palma e Rachel McAdams à frente.

Esta produção estreou em setembro do ano passado no Festival de Veneza. Depois, passou por outros quatro festivais. Chegou a ser indicada ao Leão de Ouro de Veneza, mas perdeu a disputa para Pieta, do diretor sul-coreano Ki-duk Kim.

Para quem gosta de saber sobre o local em que os filmes foram rodados, Passion foi totalmente dirigido na Alemanha, na cidade de Berlim.

Além dos atores já citados, vale comentar o trabalho de Rainer Bock como o inspetor Bach, a ponta de Benjamin Sadler (mais um belo homem) como o promotor de Justiça, Michael Rotschopf como o advogado de Isabelle, e Dominic Raacke como J.J. Koch, o chefão “da firma” a quem todos querem impressionar. Gostei muito dos bailarinos que aparecem em cena também, por isso vale citá-los: Polina Semionova e Ibrahim Öykü Önal.

Os usuários do site IMDb deram a nota 5,4 para Passion. Uma nota ruim, evidentemente. Os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes se dividiram: o site traz 10 críticas positivas e 10 negativas, o que garante uma aprovação de 50% para a produção e uma nota média de 5,9. Ninguém conseguiu passar do 6.

Passion é uma coprodução França e Alemanha.

CONCLUSÃO: Tenho quase certeza que a maioria das pessoas que assistirem a este filme vão achá-lo ruim. Eu mesma demorei um tempo para saber o que eu realmente tinha achado de Passion. O tempo todo, enquanto a produção se desenrolava, eu buscava encontrar paralelo no passado do diretor Brian De Palma. E foi difícil ver este filme como uma peça da filmografia deste diretor, normalmente mais acostumado a temáticas sérias ou a resultados melhor trabalhados do que este. A impressão que ficou é que De Palma quis chocar em um filme claramente – e me parece propositalmente – exagerado e que acaba parecendo uma autoironia do gênero que ele mesmo trabalhou bem no passado.

Mas a grande questão, como eu sempre me pergunto quando escrevo uma crítica, é: funciona? A estratégia do diretor de nos envolver ao contar uma história, buscando fazer algo diferente em relação à própria filmografia, surtiu um efeito interessante no espectador? Passion não é um filme chato. Tem atores razoáveis – descontados os casos já citados, faz rir pelo excesso em muitos momentos, mas é previsível demais. Certo que desta vez parece que a preocupação principal do diretor foi outra, a de tirar sarro de si mesmo. Mas ainda assim… O trejeito maniqueísta da atriz que protagoniza esta produção e a previsibilidade do desfecho atrapalham o produto final. Nem de longe este pode ser considerado o filme mais brilhante de De Palma, um diretor que teve o ponto alto de sua carreira nos anos 1970 e 1980. Passion entra apenas no rol de produções medianas, com alguma pitada de estilo, uma ou duas sacadas bem feitas, e só. Nada revolucionário ou que faça pensar além do período da projeção.

Karen Llora en un Bus – Karen Chora no Ônibus

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Os cinemas brasileiros não exibem com a frequência que deveriam os filmes produzidos na América Latina. Por isso mesmo, não é todo dia que conseguimos assistir a um filme como Karen Llora en un Bus, produção da Colômbia dirigida pelo estreante Gabriel Rojas Vera. Apenas por isso, por ter chegado até aqui, o filme merece algum crédito. Afinal, é um sobrevivente nesta seara onde proliferam produções norte-americanas, europeias e, em menor grau, argentinas. E ele não chegou tão longe por acaso. Com seu estilo low profile, Karen Llora en un Bus apresenta uma história interessante, moderna – especialmente em países latinos menos liberais que o Brasil – e com uma grande atuação.

A HISTÓRIA: Noite. Uma mulher (Ángela Carrizosa Aparicio) chora muito dentro de um ônibus, olhando para a cidade que passa fora do coletivo. Aos poucos, ela se acalma. Ela deixa a linha F23 – Port Americas puxando uma mala e carregando uma bolsa. Anda um bocado, até chegar a uma pensão. Insiste com a proprietária (Margarita Rosa Gallardo) para que ela possa entrar, apesar do horário adiantado. Para isso, paga três meses de aluguel. Neste local Karen, a mulher que chorava no ônibus, vai conhecer a jovem Patricia (Maria Angélica Sanchez Parra), que vai lhe ajudar nesta nova fase de sua vida.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso só recomento que continue a ler quem já assistiu a Karen Llora en un Bus): Este não é um filme complicado. Pelo contrário. Ele conta uma história simples do início até o final: a reconstrução de Karen, uma mulher de meia idade que decide mudar radicalmente de vida. Ela deixa um lar confortável, onde vivia com o marido Mario (Edgar Alexea), para buscar a própria independência.

Claro que ninguém entende a atitude dela. Como manda uma boa (só que não) sociedade machista, essa busca de Karen parece absurda. A mãe dela (interpretada por María León Arias), do início ao fim, estimula Karen a voltar para Mario. Fica evidente como a mulher fica do lado do marido da filha, sem ao menos tentar saber os motivos de Karen. E o primeiro reencontro dela com o marido deixa evidente como eles não tem mais nada.

As cenas do casal são típicas – o que evidencia, ainda mais, a qualidade do jovem diretor Gabriel Rojas Vera como roteirista. Mario e Karen não falam a mesma língua. Isso quando eles conseguem se comunicar. No jantar que deveria ser de conversa entre eles, Mario chama uma parceira de negócios que levou um bolo para ficar com eles. Típica ação absurda de um sujeito que não consegue enxergar as necessidades da parceira de vida. Algo muito mais comum do que gostaríamos. No jantar, por falar de negócios, Mario tem conversa fácil. Depois, indo para casa com Karen, eles emudecem.

Existem muitos tipos de silêncio. Da minha parte, adoro a maioria deles. Gosto do silêncio quando você está sozinho e pode contemplar a vida. Também aprecio o silêncio quando você está com quem você ama e contempla esta pessoa em todos os detalhes, algumas vezes usando a visão, outras vezes, apenas o tato. Existe o silêncio em um grupo de amigos também, quando todos estão percebendo o quanto é valioso um laço antigo. Mas o silêncio revelado pelo casal Karen e Mario é o fim. Porque ele está carregado de desencontros, de falta de sintonia, de ausência de propósitos em conjunto.

Karen, muito corajosa, especialmente na sociedade em que vive, decide romper com aquela infelicidade. E passa por maus bocados para conseguir reerguer-se sozinha. Sem sentir apoio da mãe, ela não pede ajuda, mesmo quando tem a bolsa roubada. Aliás, esse episódio merece um parêntese. De fato, a bolsa preta e grande que ela tinha até chegar ao restaurante some. Mas depois, ela aparece novamente com uma bolsa com a mesma cor. Demorei um tempo para perceber que não houve uma falha na continuidade. As bolsas são um pouco diferentes, no final das contas.

Me chamou a atenção como o roteiro valoriza a solidariedade dos colombianos. Se, por um lado, Karen bate cabeça para achar algum emprego – aparentemente ela não tem qualificação e, por isso, só consegue concorrer a subempregos -, por outro lado ela consegue sobreviver com a ajuda de doações dos moradores da cidade, especialmente dos usuários do sistema público de transporte para quem ela pede dinheiro diariamente após ter tido a bolsa furtada.

Mas nem todos são bacanas. O dono do restaurante (Julio César Bula) onde Karen perde a bolsa age como um cretino. Sinal de que pessoas imbecis existem por todas as partes. Além de trazer uma mensagem bacana, de reinício, este filme revela uma atriz muito talentosa.

Ángela Carrizosa Aparicio carrega o filme e faz uma parceria bacana com os outros dois nomes fortes da produção: Maria Angélica Sanchez Parra como Patricia, um contraponto interessante para a “certinha” e antiquada Karen, e Juan Manuel Díaz Oróztegui, como Eduardo, um escritor de livros e de peças de teatro que conquista a protagonista. Acompanhamos a transformação de Ángela, que muda não apenas na aparência, mas também no comportamento. É lindo de se ver como sai de cena aquela personagem contida, reprimida, com corte de cabelo de “tia” e roupas escuras e entra em cena uma mulher segura de si, que retoma as leituras, os sorrisos, assume um corte de cabelo mais ousado e roupas coloridas.

Um filme simples, que vai evoluindo com o tempo, e que ganha pontos por sua premissa singela, mas corajosa. Não há ousadia na técnica da direção, ou em um roteiro com grandes reviravoltas. Mas a atriz principal ganha o espectador, e a mensagem de que recriar-se vale a pena é o que fica no final. Sempre haverá alguém chorando em um ônibus, ou em outra parte qualquer, mas é preciso ter paciência e coragem para mudar aquela situação de sofrimento.

NOTA: 9.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: O filme começa em uma noite e termina em um dia ensolarado. A simbologia está presente do primeiro até o último minuto. O que demonstra que a estreia de Gabriel Rojas Vera foi bem planejada. A noite inicial representa o fim, o término de um período da vida de Karen. O dia ensolarado, ainda que tenha outra personagem chorando, representa um novo alvorecer, uma nova vida. Simples, mas eficaz.

Gostei da forma direta com que o diretor e roteirista contou esta história. Sem firulas, sem prometer mais do que poderia cumprir. Esta produção também funciona porque trilha o caminho do “realismo”, explorando bem a vida na cidade e as relações comuns que aparecem no cotidiano das pessoas que vivem naquele espaço urbano. Por isso o filme mantêm o interesse dos espectadores.

Além dos atores já citados, vale comentar o bom trabalho de Emerson Rodríguez Gómez como Alberto, o homem casado que mantém um caso com Patricia, e a ponta de David Guerrero como o homem que oferece emprego para Karen no curso de inglês. Os dois aparecem pouco, mas acabam sendo marcantes na produção.

A parte técnica do filme não apresenta nenhum grande destaque. Mas vale citar o bom trabalho do diretor de fotografia Manuel Castañeda, a montagem de Carlos Cordero e a trilha sonora de Rafael Escandón.

Karen Llora en un Bus estreou em fevereiro de 2011 no Festival de Berlim. Depois, a produção passaria por outros seis festivais, terminando a trajetória no de Biarritz, em setembro de 2012. Nesta trajetória, a produção foi indicada como Melhor Filme no Festival de Cartagena, na Colômbia, mas perdeu o prêmio para Post Mortem, uma co-produção do Chile com a Alemanha e o México. Lendo a página oficial do filme, vi que ele recebeu pelo menos um prêmio: a Caravela de Prata como a Melhor Obra Prima do Festival de Cinema de Huelva.

Os usuários do site IMDb deram a nota 6,5 para esta produção. Não existem críticas sobre o filme no Rotten Tomatoes.

Lendo a página oficial do filme, no Facebook, achei curioso que esta produção já estreou na televisão colombiana. Ela passou em rede nacional em setembro do ano passado – e nos cinemas brasileiros, está chegando apenas agora.

Antes eu falei da importância do silêncio. E algo que eu gostei neste filme é que ele dá espaço para ele existir. Isso é bom, especialmente frente a outros filmes do gênero que apresentam um excesso de discursos.

Para os curiosos sobre a locação dos filmes, Karen Llora en un Bus foi totalmente rodado em Bogotá.

O diretor Gabriel Rojas Vera nasceu em Bogotá em 1977 e estudou Cinema e Televisão na Universidade Nacional da Colômbia. Ele escreveu e dirigiu vários curtas e codirigiu o documentário Falsos Positivos em Extradición, de 2010. Segundo esta página do Festival do Rio, ele dirigiu o primeiro longa em 2005, Cristina, uma produção ainda não finalizada.

CONCLUSÃO: Karen Llora en un Bus não é um filme arrebatador. Ainda bem. Esqueça o estilo dramático das novelas mexicanas, ou a parte do cinema exagerado de Pedro Almodóvar – que não vive em um país da América Latina, mas que influenciou esta e outras escolas de cinema pelo mundo. Esta produção dirigida por Rojas Vera flerta bastante com o teatro, em alguns momentos, e apresenta os seus argumentos sem pressa. Quem nunca reinventou a própria vida que atire a primeira pedra.

Este filme é sobre uma mulher que tem a coragem de encarar a ruptura de um casamento falido e de recomeçar tudo do zero sem apoio algum. Haja coragem! Mas é esta atitude que une Karen a tantas outras mulheres latinas. Em sociedades onde ainda o machismo dita muitas regras e comportamentos, Karen Llora en un Bus é um filme que rompe conceitos e formas de pensar. Por essa razão, principalmente, e também por ter um ótimo trabalho da atriz Angela Carrizosa Aparicio, que eu me rendo a este filme singelo, mas carregado de boas intenções.

Jagten – The Hunt – A Caça

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Alguns diretores dificilmente decepcionam. Eles normalmente apresentam um trabalho interessante. Thomas Vinterberg é um destes casos. Jagten tinha passado por mim sem merecer a devida atenção. Isso porque eu não tinha percebido o nome que está à frente da produção. Ao perceber que era um trabalho de Vinterberg, observar que o protagonista era o ator da série Hannibal e receber uma indicação contundente de um colega jornalista, não tive dúvidas que eu deveria abrir uma exceção e assistir ao filme mesmo “atrasada”. Ainda bem que fiz isso. Esta produção é simplesmente imperdível.

A HISTÓRIA: Um grupo de amigos aposta quem vai mergulhar primeiro em um lago no inverno. Crianças passam de bicicleta, e outras pessoas da comunidade se aproximam para ver a cena de marmanjos se desafiando na brincadeira. É novembro, e é preciso muita coragem para tirar os casacos, quanto mais para mergulhar nu na água gelada. O primeiro a pular começa a ter cãibras, e Lucas (Mads Mikkelsen) entra com roupa e tudo para ajudá-lo. Ele faz parte do grupo de amigos que sempre se reúne para caçar, beber e falar besteiras, e trabalha como professor em um jardim de infância. Amigo próximo do casal Theo (Thomas Bo Larsen) e Agnes (Anne Louise Hassing), Lucas vai enfrentar uma perseguição grave quando a filha deles, Klara (Annika Wedderkopp) se irrita com ele.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes da produção, por isso só recomendo que continue a ler quem já assistiu a Jagten): Sempre gostei muito do estilo de direção e dos textos de Vinterberg. Seus filmes mergulham no cotidiano dos personagens e, ao chegar tão perto deles, especialmente de grupos – sejam eles de amigos ou famílias -, revela toda a gama de sentimentos possível e as ações provocadas por eles. É um estilo de cinema psicológico.

Jagten não foge desta filmografia. Ainda que a família, mais uma vez, seja um elemento importante na produção, aqui os grupos sociais ganham protagonismo. E foca em um tema que é muito delicado – e conhecido bem pela sociedade brasileira desde o caso da Escola Base: o risco das denúncias sobre abusos contra crianças.

(SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). O ótimo roteiro de Vinterberg e Tobias Lindholm nos transportam para um caso clássico de denúncia de abuso sexual contra crianças. Klara fica muito próxima de Lucas e, irritada com as barreiras que ele coloca em determinado momento, fala “besteiras” para a coordenadora do jardim de infância, Grethe (Susse Wold). A lógica da mulher é compreensível: como uma criança como Klara pode inventar que Lucas tem um “pau levantado”?

A afirmação é chocante, de fato. Mas o que vem depois é ainda mais aterrador. Afinal, a própria Klara tenta falar, em mais de uma ocasião, que tudo aquilo é uma grande bobagem. Que Lucas não fez nada. Mas os adultos, especialmente os pais da menina, tão preocupados em que a criança estaria voltando atrás por medo de represálias, não querem saber de ter dúvidas. E esse é o problema central deste caso e de tantos outros. Quando as pessoas abrem mão da dúvida.

O alerta principal desta produção está no perigo do julgamento, tão alimentado pela crueldade dos dias atuais, feito muitas vezes às pressas por um coletivo qualquer. Algumas vezes este julgamento é feito por comunidades no interior, como a mostrada pelo filme. Outras vezes, por grupos na internet ou em outros espaços que permitem a manifestação coletiva. As pessoas tem pressa, e isso para mim está ficando cada vez mais claro nos diferentes ambientes sociais, em classificar, rotular, julgar.

Jagten, este filme brilhante, mostra o perigo do que isto pode representar. Rapidamente Grethe assume a premissa de que Klara foi abusada por Lucas. E incentiva os pais que tem filhos no jardim de infância a tentarem tirar informações das crianças. A psicologia explica como a sugestão pode ser decisiva no caso de crianças. E é assim que, rapidamente, todos entram na mesma história fantasiosa. Grave também é a postura dos pais de Klara que, mesmo sendo grandes amigos de Lucas, não duvidam em nenhum momento do que está acontecendo.

O roteiro de Vinterberg e Lindholm é brilhante porque vai crescendo com o tempo e cerca todas as variáveis de uma história deste gênero. (SPOILER – não leia… bem, você já sabe). Todas as pessoas duvidam de Lucas, exceto o filho dele, Marcus (Lasse Fogelstrom), personagem decisivo para a virada que acontece na produção. A reação do grupo de habitantes daquela cidade, incluindo a nova namorada do protagonista, Nadja (Alexandra Rapaport) chega a abalar a convicção do espectador.

Afinal, quem garante que assistimos às cenas fundamentais? Lucas teve a oportunidade de abusar de Klara, mas não parece ter a motivação. Mas nunca se sabe… A incerteza dura pouco tempo, mas chega a existir. O que reforça, ainda mais, a qualidade do filme em mostrar uma realidade delicada e que divide opiniões. Mas como ocorreu no clássico exemplo da Escola Base, os efeitos do julgamento precipitado do caso Klara e Lucas são devastadores.

O tema abuso infantil é muito delicado, não há dúvida disso. É preciso cuidar para não traumatizar ainda mais as crianças, fazer justiça e, ao mesmo tempo, apurar a situação bem para impedir novos abusos. Dá para entender a angústia e a indignação dos pais. Mas também é possível se colocar no lugar do acusado. Um filme completo, pois. E aí outro ponto fundamental desta produção: afinal, quem é a caça e quem é o caçador?

A sequência final mostra a insegurança que sempre vai acompanhar o protagonista. Aquele episódio nunca será apagado, apesar de ter sido desmentido. (SPOILER – não leia… bem, você já sabe). O final pode ter múltiplas interpretações (e, antes que alguém me pergunte, acho que nenhuma delas é equivocada): de fato, aquele tiro existiu; ou, ao contrário, ele representa apenas o sentimento de perseguição constante de Lucas. Se o primeiro caso é o verdadeiro, quem teria efetuado o tiro? Dificilmente um dos integrantes do grupo erraria o disparo, correto? Então teria sido o filho de Lucas – o único inexperiente que poderia errar aquele tiro?

Perguntas que não precisam ser respondidas porque, como perguntas, elas já atingem o objetivo proposto por Vinterberg. Todos estes elementos fazem esta nova produção do diretor dinamarquês ser brilhante. Especialmente pelo questionamento do perigoso comportamento de manada e do, para mim cada vez mais frequente, método de julgamento precipitado das pessoas nas mais diferentes situações. Espero que Vinterberg siga com este foco, questionando os desvios sociais e familiares. Os espectadores que gostam de ser desafiados agradecem. 🙂

NOTA: 10.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Estou fascinada pelo trabalho do ator Mads Mikkelsen. Ele é brilhante. Além de ser um nome fundamental nesta produção, ele é o grande responsável pelo sucesso da série Hannibal. Não há dúvida de que Mikkelsen, ao lado de Annika Wedderkopp, que interpreta a Klara, e o pai dela, interpretado por Thomas Bo Larsen, são os nomes fortes de Jagten.

Falando no título original do filme, fui atrás para saber o que Jagten significa. A palavra, segundo o tradutor do Google, significa “procurar”. Um sentido muito mais amplo que “the hunt” que, este sim, tem paralelo com o título dado em português. Procurar, por sua vez, pode significar sim o gesto de buscar um alvo, uma caça, mas também um culpado.

Algumas cenas de Jagten mexem com o brio do espectador. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Da minha parte, fiquei muito indignada com a reação dos pais de Klara desde o início e, especialmente, com a sequência de Lucas no supermercado. Não apenas pela injustiça que o protagonista sofreu naquela sequência com vários “machões”, mas porque eu conheço muitos homens que seriam capazes de agir daquela forma.

A direção de Vinterberg é toda centrada na atuação dos atores e em suas ações, aproximando o espectador do que está acontecendo e, também, dos sentimentos explorados pela trama. Assim, nos sentimos “envolvidos” com a situação. Ajuda neste envolvimento o ótimo ritmo do texto do diretor com o parceiro Tobias Lindholm. Conhecemos, de forma muito planejada, aquele grupo de amigos, a confiança que eles tem um nos outros e, ao mesmo tempo, a relação superficial desenvolvida naquele meio.

Como na maioria das sociedades desenvolvidas, aquela que assistimos no filme mantém uma certa distância entre as pessoas. Lucas percebe que o casal Theo e Agnes tem problemas, mas ele não se envolve. Esta barreira é quebrada quando todos acreditam que algo errado está acontecendo. Daí que aquela “proximidade” que a pequena comunidade parecia ter cai por terra, já que ninguém, de fato, se conhecia ou convivia – apenas mantinham uma relação superficial.

O roteiro de Jagten acerta em cheio no ritmo e ao apresentar rapidamente para o espectador todos os elementos importantes para a história. Depois de conhecermos a relação entre aquele grupo de amigos que caçam juntos, logo acompanhamos a proximidade de Lucas com Klara e seus pais.

A menina ganha protagonismo na primeira parte do filme, especialmente, com aquela cena do irmão dela, Torsten (Sebastian Bull Sarning) e do amigo não passando desapercebida. Pelo contrário, quando ela acontece, achei a proposta descolada, estranha, até que, na sequência, ela se justifica perfeitamente. Estas agressões cotidianas, muitas vezes, passam assim desapercebidas mas, no final das contas, podem ter um impacto grande para algumas pessoas – especialmente crianças.

Além dos atores já citados, vale destacar o trabalho de Lars Ranthe como Bruun, o único amigo de Lucas, e padrinho de Marcus, que fica ao lado do professor condenado antes da hora; Daniel Engstrup como Johan, o amigo grandão da turma que confronta Lucas em mais de uma ocasião; e Bjarne Henriksen como Ole, chamado por Grethe para falar com Klara e que, no fim das contas, acaba induzindo as respostas da menina. Oyvind Hagen-Traberg é o açougueiro que protagoniza uma das sequências mais fortes da produção, junto com Allan Wibor Christensen, que interpreta ao ajudando do açougueiro, e Nicolai Dahl Hamilton, que atua como um tipo de gerente do supermercado.

Da parte técnica do filme, vale destacar a direção de fotografia precisa de Charlotte Bruus Christensen, que atua bem nas mais diferentes situações, com destaque, em especial, para as cenas noturnas. Muito bom, também, o trabalho dos editores Janus Billeskov Jansen e Anne Osterud.

Antes eu citei o Caso da Escola Base. No próximo ano, em 2014, o caso que envergonha a mídia do país completa 20 anos. Até hoje ele é lembrado como um exemplo a não ser seguido, ainda que, diariamente, meios de comunicação dos mais diferentes portes repitam injustiças como aquela da mesma forma. Só que sem tanta projeção – ou crítica sobre este equívocos, vai saber… Jagten não explora o peso da mídia para que uma injustiça como aquela possa ser difundida. E nem precisa. O equívoco da Escola Base e da história de Jagten tem elementos anteriores, especialmente esta pressa em condenação e julgamento da sociedade – difundida e ampliada pela mídia, no caso brasileiro.

Para quem não lembra muito da história da Escola Base, deixo aqui algumas leituras. Para começar, estes textos – um que fala da condenação dos meios e outro que relembra os equívocos passado algum tempo, em 2005 – e, depois, estes vídeos – este trabalho de estudantes que relembra o episódio; mais esta reportagem 18 anos após o ocorrido e, finalmente, esta entrevista com o jornalista Valmir Salaro que recorda o papel dele e da imprensa.

Jagten teria custado US$ 3,8 milhões e arrecadado, nos Estados Unidos, em quase um mês de exibição nos cinemas, quase US$ 459 mil. Evidente que o filme não está tendo uma grande repercussão na terra do Tio Sam. Na Holanda, a produção conquistou pouco mais de 1,24 milhão de euros. Não há informações, por enquanto, sobre o resultado do filme no acumulado das bilheterias pelo mundo.

Esta produção estreou em maio de 2012 no Festival de Cannes. Depois, a produção passaria por outros 18 festivais, incluindo os de Karlovy Vary, Toronto, Zurich, Londres, São Paulo, entre outros. Nesta trajetória, Jagten recebeu 10 prêmios e foi indicado para outros oito. Entre os que ganhou, destaque para os prêmios de Melhor Ator, Prêmio do Júri Ecumênico e o Prêmio Vulcain para Artista Técnico (para a diretora de fotografia Charlotte Bruus Christensen) no Festival de Cannes de 2012; assim como o prêmio de Melhor Roteiro no European Film Awards; e os prêmios de Melhor Filme pela escolha do público e o Canvas Audience Award entregue para Thomas Vinterberg no Festival Internacional de Cinema de Ghent, na Bélgica.

Jagten foi totalmente rodado na Dinamarca, com a cena da igreja rodada na cidade de Taastrup. Aliás, esta é uma produção 100% dinamarquesa.

Os usuários do site IMDb deram a nota 8,2 para esta produção. Uma avaliação muito, muito boa, para os padrões exigentes do site. O filme também caiu no gosto da crítica. O site Rotten Tomatoes traz 94 avaliações positivas e apenas cinco negativas para a produção, o que lhe garante uma aprovação de 95% e uma nota média de 7,9 – também muito acima da média do site. Devo dizer que concordo com a maioria, desta vez. 🙂

Esta nova produção de Vinterberg entrou e saiu do meu radar. Queria assistir ao filme, mas perdi o tempo de fazer isso e ele caiu na minha gigante lista de “filmes que passaram”. Até que o meu colega Jacson Almeida, com quem eu tive o prazer de trabalhar nos meus últimos dias no Diário Catarinense, me provocou a assisti-lo. Jacson, caso você passar por aqui e ler este texto, quero publicamente agradecer pela provocação. Como podes ver, adorei o filme. 🙂

Thomas Vinterberg é um destes diretores que vale conhecer a filmografia. Além do clássico Festen, que abalou o cinema mundial com a filosofia do Dogma95 em 1998, destaco Dear Wendy, de 2004. Infelizmente não publiquei a crítica de nenhum dos dois porque comecei este blog depois. Por outro lado, aqui você pode ler a crítica de Submarino, outro trabalho do diretor que vale ser visto.

ADENDO (incluído no dia 7/10): Hoje saiu a lista dos 76 países que estão habilitados a concorrer a uma das vagas na categoria Melhor Filme Estrangeiro no Oscar 2014. Fiquei muito feliz ao ver que Jagten está lá, na lista, representando a Dinamarca. Achei muito merecido. E espero que o filme consiga avançar e chegar até a lista dos cinco indicados.

CONCLUSÃO: Há tempos eu queria assistir a um filme que realmente prendesse a minha atenção do primeiro até o último minuto. Não encontrava nada do gênero até pegar este Jagten pela frente. Há uma grande diferença entre uma produção que você assiste, admira, saboreia, mas que não te prende a atenção e mexe com você e uma que faça tudo isso. Muito bom reencontrar Vinterberg, um dos grandes nomes do novo cinema europeu, em sua melhor fase.

Jagten trata de um tema delicado e de forma angustiante. Não apenas porque envolve crianças, mas especialmente porque trata desta crueldade de grupos sociais que pode destruir um indivíduo ou uma família com precisão e de forma muito “natural”. Aliás, o cinema de Vinterberg amadureceu no uso da filosofia do Dogma95 e, assim, acompanhamos de perto e da forma mais “realista” possível a história de uma comunidade, suas relações e a personalidade dos protagonistas.

Um verdadeiro deleite artístico e que mexe com os nossos conceitos. Com um roteiro primoroso e interpretações precisas e envolventes, especialmente dos protagonistas, Jagten nos provoca enquanto dura a produção e, depois, faz refletir sobre os nossos próprios julgamentos e reações quando estamos envolvidos em grupos. Perfeito, do início ao fim e depois.

PALPITE PARA O OSCAR 2014: Não sei se Jagten terá fôlego para ganhar o Oscar, até porque é uma produção forte, que toca em um assunto complicado. Mas não tenho dúvidas que ele merece chegar até perto da estatueta dourada, pelo menos, até para que possa ser visto por mais pessoas. Afinal, o Oscar dá muita visibilidade para qualquer produção que chega a ser selecionada. Logo mais veremos… Ainda preciso assistir aos outros concorrentes ao Oscar 2014, mas inicialmente eu estou torcendo por Jagten.

ATUALIZAÇÃO (21/12/2013): A Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood divulgou ontem, dia 20 de dezembro, a lista de filmes que avançaram na disputa da categoria de Melhor Filme em Língua Estrangeira. Jagten é um dos filmes que avançou na tentativa de uma indicação ao prêmio. As outras produções que constam na lista são as seguintes: The Broken Circle Breakdown (Bélgica), An Episode in the Life of an Iron Picker (Bósnia e Herzegovina), The Missing Picture (Camboja), Two Lives (Alemanha), The Grandmaster (Hong Kong), The Notebook (Hungria), La Grande Bellezza ou The Great Beauty (Itália) e Omar (Palestina).