Sudoeste

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Sempre fui da opinião que se é para fazer algo parecido com algo que já foi feito, que seja feito, pelo menos, algo melhor. Ou então, que se faça diferente. E foi este segundo caminho que o diretor Eduardo Nunes escolheu ao fazer o filme Sudoeste. Eis uma produção diferenciada, que resgata algumas das qualidades de clássicos do cinema nacional e que, mesmo assim, ainda apresenta uma identidade interessante. A história, em si, acaba sendo um tanto óbvia demais. Mas o filme é belíssimo e tem na qualidade das imagens e do estilo o seu principal trunfo.

A HISTÓRIA: Em primeiro plano, mato. Na sequência da imagem, parece que existe uma estrada. Ouvimos o som da Natureza, ao mesmo tempo que começa a se solidificar o barulho do que parece ser uma carroça. A imagem vai deslizando para a direita até que vemos, de fato, uma carroça se aproximando. Nela, está a parteira, também chamada por alguns de bruxa, Darci (Léa Garcia). Ela é chamada para atender a uma mulher que está dando a luz em uma pensão. Só que Darci chega tarde, e Clarice (Simone Spoladore) morre antes de sua criança nascer. Mas a história dela não termina ali.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes da história, por isso sugiro que só continue a ler quem já assistiu a Sudoeste): A primeira característica que me chamou a atenção neste filme foi a escolha do diretor em contar a história utilizando longos planos de câmera, uma vista panorâmica dos diferentes locais por onde esta história se passa. Até porque, tudo indica, o cenário é fundamental. Para entender como vive aquela gente, e que tipo de (falta de) perspectiva e limites eles tem acessíveis.

Gostei daquela significação em cada plano, em cada escolha de ângulo e do ritmo. Com bastante frequência a câmera do diretor Eduardo Nunes percorre a tela sem interrupção, mas de forma muito lenta, tanto para dar ritmo para o filme quanto para nos mostrar que o tempo não passa com rapidez naquele cenário que poderia compor diversos lugares do interior brasileiro. O gesto de guiar o olhar do espectador para a direita ou para a esquerda, lentamente e em um movimento contínuo, dá ritmo para o filme e também serve de fio condutor para diferentes cenas, ajudando a montar a identidade desta produção.

Depois, me chamou a atenção a escolha do diretor do que filmar. Na primeira cena do filme, mas em outros momentos de Sudoeste também, aparentemente enxergamos um elemento pouco significativo – seja o mato, no início, seja as pás de um catavento, em outro momento. Um recurso interessante porque estimula o espectador a utilizar outros sentidos que geralmente ficam em segundo plano no momento de assistir a um filme, como a audição.

Se o que aparece em primeiro plano é menos significativo do que aquilo que ouvimos, nossa atenção parte para identificar o som antes de dar importância para a imagem. Assim, Nunes nos mostra que nem tudo que é visível, de fato, é importante. Ou, como diria uma certa canção, que as aparências enganam, tanto àqueles que amam quanto aqueles que odeiam. Neste filme, o elemento predominante é o amor. Ainda que a raiva e a indignação estejam presentes – não, neste caso, no enredo, mas na possível reação do público.

Nem tudo que se vê é real. Esta afirmação acaba sintetizando a experiência de Clarice. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Depois de morrer, antes de dar a luz a sua primeira e única filha, a personagem vivida pela atriz Simone Spoladore “renasce” na figura de sua filha. Em um dia, ela acaba passando de bebê até uma senhora idosa que ela não chegou, de fato, a vivenciar. Nesta trajetória, ela se reencontra com a própria família e com outras pessoas para relembrar pelo que passou. É como se esse fosse um rito de passagem dela para a morte. Uma forma de encarar a própria trajetória e, ao mesmo tempo, se despedir das pessoas que amava antes de partir definitivamente deste plano para outro.

Não vou discutir aqui as diferentes crenças religiosas. Até porque, e os leitores que me acompanham há mais tempo sabem disso, este não é o propósito deste blog. Ainda assim, Sudoeste segue a linha de várias doutrinas. Especialmente aquelas que acreditam que alguém, quando morre de forma trágica – o que é o caso de Clarice -, precisa de um “tempo” e/ou de um rito de passagem para entender porque deixou a vida de forma tão prematura.

O que eu achei mais interessante neste filme, além do estilo da direção e do virtuosismo da direção de fotografia de Mauro Pinheiro Jr., foi a reação dos vivos à presença de Clarice. A família dela, certamente, não a enxergou de forma realista. Do contrário, não teria reagido tão bem ao seu “retorno” à vida. Na fase dela como menina, interpretada pela ótima atriz Raquel Bonfante, até podemos imaginar que a garota não seguiu a mesma fisionomia da Clarice real. Mas depois, quando ela é interpretada por Simone Spoladore novamente, não deixa de ser curioso como as pessoas reagem à ela de forma natural – quando todos sabem que ela morreu.

Uma outra forma de justificar essa naturalidade com que os familiares tratam o retorno da garota ao seu convívio é que nada daquilo, de fato, aconteceu. Ou seja, que ao invés de encarar a passagem de Clarice como sendo uma “despedida” de seus familiares e a adaptação do espírito dela antes de sua partida para outro plano, ver que aquela experiência de “uma vida em um dia” foi vivida por ela sozinha. Talvez até antes de morrer – sua experiência de projeção mental ocorreu sem a respectiva interação com aquelas pessoas. É outra forma de explicar o que Sudoeste explora.

Independente de uma interpretação ou outra, esta produção conta a história de uma garota sofrida, que teve um destino trágico por causa do pai, Sebastião (Julio Adrião). (SPOILER – não leia… bem, você já sabe). Como acontece em tantas partes do interior do país, meninas e moças são estupradas por seus pais e não encontram espaço para falar deste abuso com ninguém. A mãe de Clarice, Luzia, interpretada com perfeição e profundidade pela atriz Mariana Lima, assume a pele de muitas mulheres submissas deste país. Que ignoram os abusos do marido por duas razões, basicamente: por amor, por uma parte, e por dependência financeira, por outra. Sem perspectivas e sentindo-se dependentes dos maridos abusivos, elas sofrem diariamente, mas não conseguem romper com aquela dependência e por fim aos abusos e crimes dos homens que elas escolheram para casar.

Desta forma, Sudoeste trata de uma realidade nacional que segue sendo válida em várias latitudes do país. O cenário é agreste, mas esta mesma história poderia ter sido contada em um ambiente urbano. E acredito que não apenas no Brasil, mas em outras parte do mundo também. Infelizmente. Este filme, além de belo nas imagens e com estilo na narrativa, trata de um tema universal e muito duro. Fala sobre abuso sexual, mas também sobre falta de perspectivas, relações desiguais de poder, família e necessidade de compreensão da própria realidade e de perdão. Porque nem sempre é possível perdoar um agressor, mas é preciso desculpar a si mesmo e às pessoas que estavam perto, mas que não sabiam de nada ou que, mesmo sabendo, foram incapazes de agir de outra forma.

NOTA: 9,3.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Filme em preto e branco e com um ritmo muito diferente daquele que as pessoas acostumadas ao cinemão comercial – seja brasileiro, seja de Hollywood – estão habituadas a assistir. Sudoeste pode não ser um filme fácil para a maioria dos perfis de espectadores. Mas honestamente eu espero que as pessoas dêem uma chance para ele. Afinal, este é o estilo de cinema nacional que foge da preocupação com a bilheteria e tenta produzir algo diferenciado e com estilo. Existe vida inteligente e que foge dos padrões no Brasil. Graças a Deus!

Com Sudoeste, sigo a minha promessa de abraçar a uma série de filmes brasileiros. Resultado de uma votação feita aqui no blog, na qual eu pedia para vocês indicarem que país da América do Sul deveria ser foco de uma série de críticas. Não tenho previsão de até quando vou com esta série de críticas. Mas tenham certeza que a vontade é que a lista siga forte por muito tempo. Só devo intercalar estes textos sobre filmes nacionais com outros lançamentos, para não ignorar boas produções que vão aparecer nos cinemas nos próximos meses.

Sudoeste faz referência a vários filmes nacionais. A mais evidente, especialmente quando Darci coloca o bebê no barco, é feita para o clássico Limite, uma das produções que marcaram a história do cinema brasileiro.

Duas atrizes roubam a cena nesta produção: Simone Spoladore e Mariana Lima, respectivamente filha e mãe. Elas convencem e, mais que isso, comovem com as suas interpretações sensíveis e sofridas. Mas vale destacar outras participações. Como Dira Paes na pele de Conceição, uma mulher que tem um caso com Sebastião e que acompanha Clarice em sua fase de isolamento e gravidez quase secreta. Além dos atores já citados, vale comentar o trabalho de Everaldo Pontes como o comerciante Malaquias – que defende “a bruxa” Darci, sem sucesso.

Falando na personagem de Darci, eis um ponto curioso do roteiro desta produção. Mulher forte e que vive isolada, ela sintetiza muitas brasileiras que, no interior ignorante de várias latitudes do país, tem conhecimento sobre a vida que outros não tem e, por isso, é vista com ressalvas pelas pessoas que tem medo de tudo aquilo que elas desconhecem. Além de parteira, Darci é um tipo de curandeira – em outras palavras, alguém que domina as propriedades de diferentes tipos de plantas. Ela ajuda a trazer pessoas para a vida e a curar quem precisa. Desta forma, é vista com respeito e com temor pelas pessoas. Vira alvo de brincadeiras de desafio entre as crianças, assim como de ataques dos adultos. Como todas as bruxas que já foram combatidas na história da Humanidade, Darci é poderosa porque sabe muito sobre o que a maioria desconhece. Segue a própria intuição e sabe perceber os sinais que estão em todas as partes.

Gostei do roteiro de Guilherme Sarmiento e do diretor Eduardo Nunes, especialmente pela imersão dele em um estilo de Brasil que eu gostaria que fizesse parte apenas de obras de ficção. O texto equilibra a dura realidade com a fantasia. Isso é bacana e funciona. Mas só achei o “grande segredo” da produção muito previsível. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Não sei vocês, mas para mim ficou logo evidente que o pai da criança que matou Clarice era o próprio Sebastião. As falas dele, ao saber da morte da filha, praticamente terminam com o mistério. Uma pena. O filme seria mais interessante se a informação chocante, de fato, chegasse no momento certo e de forma estratégica.

Da parte técnica do filme, vale citar o ótimo trabalho do editor Flávio Zettel e a trilha sonora de Leandro Lima e Gabriel d’Angelo.

Sudoeste estreou nos cinemas brasileiros em outubro do ano passado. Antes, ele participou do Festival Internacional de Cinema de Rotterdam, na Holanda, em janeiro de 2012; foi exibido, em maio, no Festival de Cinema Brasileiro de Paris, na França e, em setembro, participou do Festival de Cinema Independente Katowice, na Polônia. O filme participaria, ainda, dos festivais de cinema de Thessaloniki, na Grécia, e do Mar del Plata, na Argentina. Nos Estados Unidos, a produção estreou em janeiro deste ano.

Nesta trajetória, Sudoeste ganhou sete prêmios e foi indicado a outros quatro. Entre os que recebeu, destaque para o de Melhor Contribuição Artística no Festival de Cinema de Havana para Eduardo Nunes; os prêmios de Melhor Filme Latino-Americano, Melhor Fotografia e Prêmio Especial do Júri no Festival Internacional de Cinema do Rio de Janeiro; Melhor Fotografia e Melhor Diretor pela Associação Paulista de Críticos de Arte (APCA); e o Melhor Longa Metragem no Vitória Cine Video. Bastante premiado, pois, entre os anos 2011 e 2013.

Os usuários do site IMDb deram a nota 7,4 para esta produção. Uma bela avaliação, especialmente porque este filme foge dos padrões mais comuns do cinema comercial. Apenas dois críticos relacionados no Rotten Tomatoes dedicaram textos para esta produção. O texto do Stephen Holden, do New York Times, elogia a produção brasileira, enquanto o crítico Tomas Hachard, da Slant Magazine, não gostou do que assistiu.

Algo curioso sobre Sudoeste: ao procurar a página oficial do filme, não consegui encontrá-la. Por outro lado, encontrei a página do filme no Facebook. Sinal dos tempos?

Sem dúvida a fotografia deste filme está entre as melhores que eu já vi no cinema nacional. E entre as melhores que eu assisti nos últimos tempos no cinema mundial. Grande trabalho!

CONCLUSÃO: Beleza, disse um dia o poeta, é fundamental. E Sudoeste é um filme duro, árido, triste, lírico, mas também muito belo. As principais qualidades dele estão, em ordem de importância, na direção de fotografia, na direção e no trabalho dos atores. Longos planos de câmera, perspectivas estendidas, e a dinâmica própria da produção, que estimula o espectador primeiro a ouvir, depois a ver e, por fim, a entender, tornam esta produção diferenciada. Um belo trabalho do diretor Eduardo Nunes e que merece ser descoberto. Com fotografia preto e branco e com um estilo muito diferente do que as pessoas estão acostumadas a ver, seja nas novelas brasileiras, seja nos filmes de Hollywood, Sudoeste pode demorar um pouco para fazer sentido para você. Mas se deixe levar por um projeto que beira o experimental e abra os sentidos. A história, dura, poderia ter alguns elementos menos previsíveis. Mas nada que tire os méritos da produção.