Fish Tank – Aquário

A cada nova geração, um certo discurso se repete na boca de certas pessoas: “a juventude está perdida”. O choque de gerações parece inevitável quando os indivíduos perdem a capacidade (e a paciência) para perceber as demandas, necessidades e vontades dos demais. Fish Tank trata sobre estes e tantos outros temas. Para complicar a história, a protagonista do filme cresce em uma realidade cruel, na qual mães jovens tem filhos sem qualquer vocação e na qual a garotada disputa cada pedaço de um território cinza e urbano. Um filme independente até a medula que traz um olhar interessante sobre parte da juventude atual.

A HISTÓRIA: Uma garota toma fôlego. Ela respira de forma acelerada. De frente para umas janelas que dão para uma vista geral da cidade urbana comum na qual ela vive, esta garota liga para uma amiga que não lhe atende. Irritada, ela sai em busca da amiga, Keeley (Sarah Bayes). Mia (Katie Jarvis), a garota irritada, enfrenta um grupo de garotas que acompanha Keeley. Desta forma, geralmente no confronto, é que Mia aprendeu a resolver seus problemas. Filha de uma mãe nada afetiva, Joanne (Kierston Wareing), Mia não vê a hora de escapar de sua realidade com poucas perspectivas. Quando Tyler arranja um novo namorado, Connor (Michael Fassbender), a vida da família muda significativamente.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Fish Tank): Gosto de filmes independentes. Especialmente porque eles não se preocupam em seguir as regras básicas dos filmes mais “óbvios”, ou seja, daqueles comerciais que prevêm altos e baixos extremamente marcados e planejados para cair no gosto do leitor. Depois, também, porque os filmes independentes se baseiam, quase sempre, em uma grande idéia e orçamentos enxutos. Fish Tank segue todas estas regras e vai ainda um pouco além.

A primeira grande qualidade deste filme inglês é que ele desconhece o truque da maquiagem. Seguindo em parte a lógica dos filmes de documentário, Fish Tank segue os passos da protagonista e revela com crueza os cenários, modos e a forma de falar e de agir das pessoas de uma cidade industrial e comum do Reino Unido. Fish Tank foi filmado em bairros de Londres e de Essex, mas muito bem poderia ter sido rodado em uma periferia de São Paulo ou de tantas cidades urbanas mundo afora.

A dureza do cenário caminha lado a lado e de forma “harmônica” com a dureza das pessoas e suas relações. A protagonista, uma garota talentosa que sonha em dar voos mais altos com a dança, enfrenta a dureza de seu cotidiano batendo forte também. Ela não sabe ser sutil. Mia é capaz de quebrar o nariz de uma garota que lhe enfrenta da mesma forma com que se arrisca ao tentar libertar um cavalo que visivelmente está sofrendo.

Sensível, atenta aos detalhes, dedicada e inspirada na dança, Mia tenta se manter “limpa” em meio a uma realidade complicada, para dizer o mínimo. Filha de uma mulher jovem que aparentemente não sabe porque se tornou mãe, Mia tem pena da irmã mais jovem, Tyler (Rebecca Griffiths), mas não consegue ser melhor com a garota. Ela ainda não descobriu como romper com o círculo vicioso de pouca (ou nenhuma) afetividade no qual ela foi criada.

E o perigo ronda muito perto. Seja através dos grupos de adolescentes que andam em bandos e ameaçam uns aos outros, seja na figura atrativa e aparentemente amistosa de um homem jovem que se aproxima da família. (SPOILER – realmente não leia se você ainda não assistiu ao filme). Muito antes de Mia cair nas garras de Connor, era evidente a atração que ambos sentiam uns pelos outros. E mesmo que também fosse um tanto previsível que ele não estivesse contando toda a verdade para aquela família, não deixa de ser um tanto surpreendente como Fish Tank se desenrola mais para a parte final.

Garotas como Mia, tão carentes de afeto, incentivo e educação, existem aos montes em diversos cenários de muitos países. Uma juventude muito conectada, visualmente criada pela televisão e por outros meios de comunicação, mas que sofre com a falta de algumas das virtudes mais básicas em seus berços. Crescendo em ambientes cinzas e duros em vários sentidos, estes jovens, especialmente as garotas, são vítimas fáceis. Seja de mães despreparadas, de garotos(as) altamente competitivos(as), ou de aproveitadores como Connor.

Muito interessante a direção e o roteiro de Andrea Arnold. O primeiro elemento se destaca pelo cuidado que a diretora teve com os detalhes e com o ritmo da produção. Ela destila sequências realmente belíssimas, como aquelas que revelam os ensaios de Mia em um apartamento ocupado por ela ou as que envolvem o cuidado e a atenção que Connor lhe dispensa. Provocantes, sedutoras e bem ritmadas várias destas sequências – em contraste com outros momentos de pura violência e “choque”.

No segundo quesito, o roteiro, o trabalho de Andrea Arnold se destaca por sua preocupação e busca pelo realismo. Em suas linhas, a diretora e roteirista reproduz a forma de falar e  os trejeitos das pessoas focadas por sua história. O mesmo tom realista se exprime de forma profunda em sua forma de filmar. Um trabalho muito bem pensado e bem casado. E ainda que a história não seja “edificadora”, ela faz pensar. Sem contar que, de forma surpreendente, ela termina com um tom otimista – pelo menos Mia terá a sua chance de buscar a própria felicidade, distante do cenário que mais lhe fazia mal do que bem.

NOTA: 9.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Meus caríssimos e estimados leitores deste blog. Sei que muitos de vocês estiveram preocupados comigo. A verdade é que fiquei muito tempo sem atualizar este blog. Graças a Deus não ocorreu nada grave… mas tenho passado por uma série de mudanças muito rápido. Primeiro, mudei de cidade. Ao mesmo tempo, voltei a trabalhar freneticamente. E ainda sem minha casa definitiva, fiquei sem internet boa parte deste tempo. Mas prometo que em breve voltarei ao normal e atualizarei este blog mais vezes. 🙂

Obrigada, de qualquer forma, a todos que mandaram mensagens carinhosas e de incentivo. Se tudo der certo, em no máximo 10 dias, voltarei a atualizar o blog pelo menos duas vezes por semana.

Assisti a Fish Tank há algumas semanas, mas infelizmente não consegui escrever sobre ele antes. É um filme honesto, direto, e que traz um olhar curioso, atento e sensível sobre boa parte da problemática de uma parcela considerável dos jovens atuais. Uma geração que cresceu pouco amada, com oportunidades de se desenvolver limitadas e em cenários duros demais. Uma garotada que, mais que nada, precisa de incentivo, cuidado e oportunidades para fazer grandes coisas em suas vidas.

Inicialmente, achei Fish Tank um filme engraçado. A forma com que Mia se relaciona com os outros e, especialmente o jeito com que a irmã mais nova da protagonista, Tyler, responde para ela logo no início – na cena em que ela está tomando um “banho de sol” – me fizeram dar boas risadas. Mas, logo em seguida, o filme se mostrou capaz de muitos altos e baixos. De forma matemática, praticamente, a diretora intercalou momentos cômicos, tensos, sensuais e provocativos. Uma forma interessante de nos conduzir “pelas mãos” pelos caminhos que ela planejou.

A inglesa Andrea Arnold, responsável por este filme, nasceu na cidade de Kent, no Reino Unido, e possui nada menos que um Oscar e 47 prêmios em seu currículo. A cobiçada estatueta dourada entregue em Hollywood ela conseguiu em 2003, com o curta Wasp.

Fiquei encantada com a atriz Katie Jarvis. Ela rouba a cena e demonstra uma grande maturidade, mesmo com seus 19 anos, para reproduzir todos os vários nuances de sua complexa personagem. Brilhante. Michael Fassbender também faz um grande trabalho.

Fish Tank estreou no dia 14 de maio de 2009 na noite de abertura da mostra competitiva do Festival de Cannes. Na época, os críticos consideraram que o trabalho de Andrea Arnold seguiu os passos de diretores como Ken Loach e Mike Leigh. Na coletiva após a exibição de seu filme, a diretora fez o seguinte comentário sobre o seu trabalho: “Eu deixo os personagens viverem. Antes de fazer o filme, vi muitos documentários na televisão e, de alguma maneira, me fascinei com a realidade. Fiquei muito interessada pela adolescência, essa época na qual não se é nem uma criança, nem um adulto”.

A produção passou ainda por muitos outros festivais durante o ano, incluindo os do Rio e de São Paulo. Em sua trajetória por distintos festivais e indicações em prêmios de diversos mercados, Fish Tank abocanhou 18 prêmios, um BAFTA (o “Oscar inglês”) e outras 15 indicações. O BAFTA que recebeu foi como “filme britânico marcante”. A produção ainda levou o Prêmio do Júri em Cannes; os prêmios de melhor filme, melhor diretor, melhor ator coadjuvante para Michael Fassbender e melhor performance jovem para Katie Jarvis na premiação entregue pelo Círculo de Críticos de Cinema de Londres; além dos prêmios de melhor diretor e melhor atriz revelação para Katie Jarvis no British Independent Film Awards.

Não encontrei informações sobre os custos deste filme, mas vi que ele arrecadou pouco mais de US$ 367 mil nos Estados Unidos até início de maio deste ano e pouco mais de 598 mil libras no Reino Unido. Bilheterias enxutas, pequenas, bem ao sabor de um filme independente que não tem nenhum nome muito conhecido no elenco – apesar dos prêmios que recebeu.

Uma curiosidade interessantíssima sobre esse filme: antes de atuar em Fish Tank, a jovem Katie Jarvis nunca havia participado de uma produção de cinema. A diretora se interessou por ela depois de vê-la brigando com o namorado em uma estação de trem. Destas descobertas potentes – e que apenas alimentam ainda mais a idéia de que grandes talentos se escondem em qualquer parte das urbes pelo mundo.

A diretora e roteirista Andrea Arnold utilizou uma técnica interessante para filmar Fish Tank: a produção foi gravada cronologicamente, com os atores recebendo partes do roteiro referentes apenas à semana seguinte das filmagens. Ou seja: nenhum deles sabia o que iria acontecer com seus personagens até o final do filme. Mais um recurso para tornar o filme ainda mais realista.

Vale a pena citar o trabalho do diretor de fotografia Robbie Ryan e a edição de Nicolas Chaudeurge.

Os usuários do site IMDb deram a nota 7,6 para o filme, enquanto que os críticos que tem seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 98 textos positivos e apenas 12 negativos para Fish Tank – o que lhe garante uma aprovação de 89%.

Como em tantas outras ocasiões, destaco esta crítica de Tom Long, do The Detroit News. Ele chega a comparar o realismo de Fish Tank com o de Precious e afirma que a produção de Andrea Arnold não é nada fácil de ser assistida mas que, ainda assim, guarda algumas boas idéias e fios de esperança que precisam ser encontrados no meio do caminho – como na tentativa da protagonista em salvar o cavalo ou na dança “familiar” perto do final. Mesmo sem “respostas fáceis”, na opinião de Long, Fish Tank apresenta boas perguntas. Um belo resumo o seu.

CONCLUSÃO: Um filme divertido, duro, poético e chocante ao mesmo tempo. Fish Tank segue uma linha realista para traçar o perfil de uma família e de uma realidade composta de cenários cinzas, de relações duras e de pouca perspectiva de melhoras. Jogando e ao mesmo tempo desconstruindo o conceito de “juventude perdida”, esta produção independente até a medula dirigida e escrita por Andrea Arnold traz à tona diversas responsabilidades para o “estado das coisas”. Faz pensar. Questiona. E revela que mesmo a pior das realidades pode ser sempre modificada, apesar das cicatrizes ou heranças malditas que alguns adultos despreparados ou mal-intencionados podem insistir em deixar para seus filhos. Um filme duro, mas também belo, especialmente indicado para quem não se contenta apenas com narrativas óbvias.

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