La Piel Que Habito – A Pele Que Habito

Pedro Almodóvar é um sujeito raro. Ele tem um gosto estético e apreço pelas estranhezas da alma humana diferenciados no cinema mundial. Quem mais, além dele, poderia fazer um filme como La Piel Que Habito? David Lynch, talvez. Mas certamente Lynch faria isso com menos dramaticidade, cores, lógica histérica e sóbria, dependendo do momento, como Almodóvar. O diretor espanhol sabe como fascinar, provocar risos, tesão e chocar como poucos. Mais uma vez, ele faz tudo isso. Ainda que com menos maestria que em produções anteriores. Ou, talvez, um pouco menos de classe.

A HISTÓRIA: Toledo, 2012. Na propriedade El Cigarral, uma mulher faz exercícios. Depois ela medita, enquanto lhe preparam um café da manhã com um remédio dissolvido no suco de laranja. Com um livro de Louise Bourgeois ao lado, ela corta um pedaço de tecido fino com uma lixa de unha para moldar mais um personagem. Marilia (Marisa Paredes), empregada da casa, envia por um elevador interno o café da manhã de Vera (Elena Anaya). Depois de fazer um pedido e tê-lo recusado, Vera escolhe um vestido, o coloca e corta um pedaço do pano. Corta. Ouvimos, em um auditório, o médico Robert Ledgard (Antonio Banderas) fala sobre a importância da reconstrução estética para a recuperação de sobreviventes de queimaduras. Logo mais, vamos descobrir o que une Vera e Ledgard.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir comenta trechos importantes do filme, por isso só recomendo que continue a ler quem já assistiu a La Piel Que Habito): O apuro estético e a força da trilha sonora de La Piel Que Habito foram os dois elementos que me chamaram a atenção no filme, logo no início. E eles seguiram se destacando até o final. Almodóvar tem um gosto plástico e estético fundamental. Ele avançou nesta qualidade com o tempo e, mesmo que a história deste novo filme relembre produções mais antigas, este apuro estético revela a evolução do diretor. Relembra sua fase mais atual. E a trilha sonora…

Logo no início, fiquei imaginando o filme sem a música que o cadencia. Ele perderia, sem dúvida, muito de sua graça. O que só comprova que La Piel Que Habito é uma produção dramática, que exige uma trilha sonora potente para intensificar as “emoções” exploradas pelas linhas do roteiro. De fato, o ótimo e experiente Alberto Iglesias faz neste filme mais um grande trabalho. A trilha é tão protagonista desta produção quanto Antonio Banderas e Elena Anaya.

Além da música e do critério estético apurado de Almodóvar, La Piel Que Habito se destaca por retomar um tom dramático exarcebado do diretor. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Ainda que ele nunca tenha deixado de ser “visceral”, em seus últimos filmes a violência ligada ao sexo perdeu força. Os gostos mais duvidosos e as taras mais estranhas perderam força em outras produções – algo que era mais comum no início da carreira de Almodóvar. Mas aqui, elas voltam a mexer com a libido e a imaginação do espectador.

Sem medo de errar, o diretor e roteirista investe em uma história densa, que trata de loucura, paixão, desejos reprimidos, busca da perfeição e de vingança e, claro, desejo de fugir. (SPOILER – não leia… bem, você já sabe). Elementos que Almodóvar conhece bem, por eles estarem tão entranhados na cultura espanhola. Não deixa de ser especialmente significativo este filme desenrolar-se em Toledo, uma cidade pequena, muito turística, tradicional e que é “vendida” como local do encontro de três culturas: a cristã, a judia e a islâmica.

Interessante que, desde o princípio, La Piel Que Habito deixa claro que Vera era uma prisioneira. Sabemos disso, mas não entendemos bem o porquê daquela prisão, no início. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). A semelhança dela com Gal, a mulher morta de Robert, abre uma série de conjecturas. Por exemplo: seria possível ele ter feito um clone da mulher? Mas aí a questão da idade não bateria – ele teria que estar muito mais velho. Por isso mesmo, quando descobrimos o que realmente aconteceu, a surpresa não é completa. O que surpreende, claro, é a narrativa das mudanças pelas quais passa Vicente (o ótimo Jan Cornet) feita com esmero e requintes de sadismo por Almodóvar.

Este desejo de mostrar o absurdo em detalhes, quase com uma lupa, é o que faz Almodóvar sem quem é. E que torna La Piel Que Habito um retorno curioso para o lado mais sádico do diretor. Há humor e absurdo na história, claro, como é típico de Almodóvar. Mas o dramalhão está ali, assim como o esforço do diretor em mostrar que muitos dos problemas psicológicos e ações desmedidas/violentas tem origem em desejos sexuais mal administrados.

A respeito dos protagonistas, algo me chamou a atenção: o quanto eles estão presos a desejos opostos. (SPOILER – não leia… bem, você já sabe). Desde o princípio, Vicente/Vera alimenta um desejo angustiante de fuga. Ele quer sair de Toledo, daquela forma de vida provinciana. Mas apegado à mãe (Susi Sánchez), ele adia a saída do “pueblo”. Depois, quando acontece o que acontece e ele passa a ser prisioneiro, ele segue querendo fugir. Mesmo quando parece que não, que ele está conformado. É apenas a forma dissimulada que ele adota para sobreviver.

(SPOILER). Por outro lado, Robert está apegado àquela “finca”, à sua propriedade e sentimentos. Mesmo quando o amor que ele sente é por pessoas que já morreram e por realidades que não podem mais ser resgatadas. Ele é a permanência, o tradicional, o sujeito que aparenta uma coisa para a sociedade mas que, em casa, revela-se algo totalmente diferente – e repugnante, detestável. Vicente é o rebelde, aquele que toma drogas para aguentar uma realidade que não suporta. Ele é o novo que não consegue lidar com o antigo e com as aparências enganosas.

Não acho que foi um acaso a escolha do título deste filme ou mesmo do que este nome significa dentro da trama. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Afinal, todo aquele cuidado de Robert com a pele de Vera simboliza o seu apreço pelas aparências. Mas a pele e, consequentemente, estas aparências não resistem muito tempo. Não resistem ao desejo da mudança de Vera/Vicente. Roupas, tecidos, peles se rasgam e se cortam facilmente. Robert, que simboliza a sociedade tradicional espanhola – e de vários outros países – pode até costurar, remendar, consertar. Alterar as aparências para atingir determinados padrões de beleza. Mas o que Almodóvar parece nos dizer, implícita ou explicitadamente, é que este jogo de aparências terá fim. Uma hora ou outra, e talvez de maneira trágica. Porque, afinal de contas, “o novo sempre vem”. E ele, normalmente, quebra os padrões até então vigentes. Rasga peles. Algumas vezes sem remendos.

Esta, para mim, é a leitura principal de La Piel Que Habito. É a mensagem de fundo de um filme que pode ser visto apenas como uma sequência de bizarrices. Ok, essa compreensão também não estaria equivocada. Mas como qualquer outro filme de Almodóvar, o diretor quer dizer mais do que o óbvio. Pelo que eu comentei antes, achei o filme interessante. Os atores, mais uma vez, são um ítem a parte. Muito bem escolhidos pelo diretor, eles dão um show. Convencem. Emocionam. Conduzem os espectadores pela mão.

Antonio Banderas, que há tempos não me convencia como ator, está bem. Para a minha surpresa, devo admitir. Ele não está exagerado – em um papel onde não seria difícil um ator se perder. Está sóbrio, preciso, charmoso e viril, como o personagem exige. Elena Anaya também está perfeita, mostrando fragilidade nos gestos e firmeza no olhar que definem a personagem. Marisa Paredes… bem, ela está engraçada como sempre. Uma veterana que merece respeito. Mas quem rouba a cena, para mim, foi o ator Jan Cornet. Fantástico. Ele vai ganhando pontos conforme a história vai ficando mais densa. Mas toda a sua interpretação é bem cadenciada, equilibrada para cada momento.

Até aqui, só falei dos acertos de La Piel Que Habito. Mas o filme tem algumas falhas também, a meu ver. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Para começar, e acho que só nós, brasileiros, vamos entender esta crítica com a devida prudência, achei muito “fake” a forma com que o diretor, que conhece bem o Brasil, simplificou a história de Zeca (Roberto Álamo). Meio boba a mistura do português com o espanhol – ok, muitos brasileiros que moram na Espanha falam o “portunhol”, mas não vi muito sentido em introduzir isso na história. Também bastante óbvia a ideia de “meu filho não foi criado por mim, e sim em uma favela, virando ‘aviãozinho’ logo cedo” para justificar o desvio de Zeca. A velha e batida história de que qualquer criança que cresce na favela está fadada a ser bandido. Achei bobo, simplista. Dispensável.

Além deste ponto e, francamente, o que mais me incomodou, foi o final. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Ok, sabemos que Almodóvar é dramático. Quem conhece um pouco mais de perto a cultura espanhola, sabe que eles gostam de um drama. Mas aquele “tiroteio” realmente era a forma mais interessante de terminar a história? Para o meu gosto, pareceu demais com o final de qualquer novela. Muito previsível e simplista… até parecia que o diretor estava com pressa de terminar o trabalho. Almodóvar me deu a impressão, com este final, que ele achou muito mais interessante contar a história do que terminá-la. Além disso, há a cena do vestido… eu acho que foi uma forma bacana de terminar o filme. Afinal, como o personagem convenceria quem ele queria com a sua história? Elementos simbólicos sempre ajudam neste sentido. Mas não deixei de me perguntar, mesmo assim, da onde ele tirou aquele vestido? A peça estaria na casa da mãe dele e ele passou lá antes de ir para a loja, já vestido? Certo, nem todo filme precisa ser lógico e convencer em todos os seus pontos. Ainda assim, estas sequências finais me incomodaram e tiraram parte do êxito do filme.

NOTA: 8,8.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Acho que é hora de fazer uma confissão, por aqui. Afinal, eis o último dia de 2011. E eis que publico mais um texto atrasado. E a minha confissão para vocês, queridos leitores deste blog, é que eu também sou um pouco rara. Não com o talento do Almodóvar para rareza – e outras coisitas más – mas sou meio estranha para outras coisas. Como na decisão sobre o filme seguinte que eu vou assistir.

La Piel Que Habito estava na minha lista de filmes a serem assistidos há vários e vários meses. Claro, o novo filme do Almodóvar, só poderia fazer parte da minha lista. Mas daí ele foi lançado, chegou aos cinemas brasileiros, e eu não consegui assistí-lo naquele momento. Daí eu pensei: “Ah, agora passou do tempo”. Porque eu sou estranha assim… por mais que eu goste de um diretor ou por mais que eu queira ver a um determinado filme, se eu acho que passou do tempo de assistí-lo, eu deixo pra lá. E vou assistir a outra produção qualquer que está na minha lista.

Só voltei atrás e assisti a La Piel Que Habito no início desta semana porque eu vi que ele está concorrendo ao próximo Globo de Ouro. Daí eu pensei: “Taí a minha desculpa para ressuscitá-lo”. E eis que ele acabou sendo o último filme que eu assisti em 2011. Queria ver outro filme, esta semana, mas não deu tempo. Gostei que, no fim das contas, mesmo que meio que por acidente, acabou sendo este o último a aparecer por aqui em 2011. Faz sentido. Quem sabe esta não é uma homenagem indireta à Espanha, país que eu adoro e que voltei a visitar este ano? Pois…

Até o momento La Piel Que Habito não obteve êxito nos cinemas. Há estimativas de que o filme tenha custado cerca de US$ 13 milhões. Nos Estados Unidos, até o dia  18 de dezembro, ele tinha arrecadado pouco mais de US$ 2,94 milhões. E olha que Almodóvar é bem conhecido e respeitado na terra do Tio Sam. Na Espanha, o filme chegou perto de conseguir uma bilheteria de US$ 5,8 milhões. No fim das contas, juntando todo o resultado nos cinemas, talvez o filme se pague. Mas não conseguirá quase lucro algum. Algo ruim, claro. Mas nada que impedirá o diretor a seguir trabalhando.

Esta produção estreou no Festival de Cannes, em maio de 2011. Depois, ele participou de outros 12 festivais e duas semanas de cinema. Entre os festivais, esteve no Karlovy Vary, no de Toronto, no do Rio de Janeiro e em Estocolmo. Mesmo com esta trajetória, ele não saiu vencedor em nenhum evento no qual participou.

O único prêmio recebido por La Piel Que Habito, até o momento, foi o de melhor filme em língua estrangeira entregue pela Associação de Críticos de Cinema de Washington DC. Além deste, ele foi indicado a outros sete prêmios.

Francamente, não acho que este novo trabalho de Almodóvar vai ganhar o próximo Globo de Ouro. Não porque o diretor não mereça. Não porque o filme seja ruim. Mas eu acho que há concorrentes mais fortes. Não assisti a nenhum dos outros quatro indicados, mas acho que seria mais fácil a crítica premiar o iraniano Jodaeiye Nader az Simin (que tem a nota 8,6 no IMDb) ou o belga Le Gamin Au Vélo (com nota 7,6) do que este La Piel Que Habito. Se fosse outro filme do Almodóvar, acho que ele até poderia ganhar. Mas este novo é muito “underground” para levar um prêmio comercial como o Globo de Ouro. Sempre posso errar, claro, mas esta é a minha aposta.

Para quem ficou curioso de saber onde o filme foi rodado, além de Toledo, que aparece identificada no início da história, La Piel Que Habito tem cenas rodadas em Pontevedra, na Galícia; em Puente Ulla e Santiago de Compostela, em La Coruña; e em Madrid.

Todos os atores que aparecem no elenco deste filme fazem um belo trabalho. Mesmo o personagem tosco do Zeca é bem interpretado por Roberto Álamo. Sempre é um prazer assistir a Marisa Paredes. E foi surpreendente ver Banderas bem, assim como o trabalho competente de Elena Anaya. Volto a comentar que achei o grande destaque do filme o ator Jan Cornet. E faltou citar, antes, o bom trabalho de Blanca Suárez como Norma (ou Norminha), filha de Robert Ledgard;  Bárbara Lennie como Cristina, em uma ponta que se destaca na produção; o conhecido ator (pelo menos na Espanha) Eduard Fernández como Fulgencio, amigo do protagonista e que ajuda ele a manter uma clínica ilegal; e de Fernando Cayo em uma ponta como médico.

Como acabou sendo costume na segunda parte da filmografia de Almodóvar, aqui, outra vez, ele dedica momentos relevantes da história para a interpretação de algumas músicas. A artista da vez, na ótica do diretor, é Buika, uma cantora de 39 anos nascida na cidade de Palma, nas Ilhas Baleares. No filme, são interpretadas duas canções dela: El Último Trago e Pelo Amor.

A trilha sonora é fundamental para este filme dar certo. Mas além dela, outros aspectos técnicos merecem ser destacados. O diretor de fotografia José Luis Alcaine faz um belo trabalho, assim como José Salcedo na edição, Antxón Gómez no design de produção e Carlos Bodelón na direção de arte. O figurino, assim como a trilha e a fotografia, também ganha relevância especial. Um bom trabalho de Paco Delgado.

Os usuários do site IMDb deram uma boa nota para La Piel Que Habito: 7,7. Os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes quase acompanharam esta nota. Eles publicaram 112 textos positivos e 30 negativos para a produção, o que lhe garante uma aprovação de 79% (e uma nota média de 7,3). Especialmente a nota me chamou a atenção, já que os críticos do Rotten Tomatoes geralmente são bem exigentes.

Lembrei de outro detalhe do filme que talvez incomode a algumas pessoas mais detalhistas. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Alguns de vocês podem pensar, como eu: “Ok, até posso engolir que Vera foi totalmente ‘moldada’ ao gosto de Robert, cortando aqui, emendando ali, enchendo com silicone acolá. Mas como diabos ela foi ter aquela voz, tão diferente?”. Pois então, eis algo muito mais difícil de mudar. Não apenas as mãos e pés são complicadas de serem alteradas. Assim como a estrutura física – um ser mais alto que outro. Mas principalmente, e eis o ponto, a questão da voz. Só que no início do filme vemos Marilia colocando um remédio na bebida de Vera. Poderia ser um tipo de hormônio – ainda que eu ache que deveria ser tranquilizante. E até o “ópio” poderia ser outra substância. Ou enfim, Vera poderia ser tratada com hormônios em outro momento, o que “afinaria” a voz. E no fim, é preciso “tapar um olho” para embarcar na história, não é mesmo? 🙂

Ah sim, e antes que eu me esqueça, La Piel Que Habito não foi o indicado da Espanha para o próximo Oscar. Sendo assim, ele concorreria na premiação apenas em alguma categoria principal – melhor filme, diretor, atores ou roteiro. Acho difícil.

Não comentei antes, mas La Piel Que Habito foi escrito por Pedro Almodóvar com a colaboração de Agustín Almodóvar, seu irmão. Os dois se basearam no livro Tarantula, de Thierry Jonquet.

CONCLUSÃO: Este não é o melhor filme de Almodóvar. Mas com esta produção ele retoma uma fase de estranheza deixada para trás há bastante tempo. Almodóvar dá um tempo na profundidade dramática plasmada em suas últimas produções para contar uma história que flerta entre o terror psicológico, o terror ligeiro e o drama. Claro que há loucura e sexo no meio da história. Dois dos temas de fundo preferidos do diretor. E ainda que ele não emocione, como em outras ocasiões, ele provoca outros sentimentos. E se o cinema existe para isso, para provocar, Almodóvar segue em forma. Há momentos em que a história flerta perigosamente com o mau gosto, com o tosco, mas o diretor acerta o momento exato que faz ele desviar-se do abismo. Como eu disse antes, não é o seu melhor filme. Mas La Piel Que Habito mostra um frescor importante do diretor. Quem sabe o próximo não vem ainda melhor calibrado?

Pa Negre – Black Bread – Pão Negro

Uma Espanha para sentir-se envergonhado. Onde as pessoas andam com medo. Um país de poderosos e onde os mais “fortes”, claramente, subjugam os mais “fracos”. Onde se ensina preconceitos na escola. Pa Negre trata desta Espanha de uma forma romântica e ao mesmo tempo contundente. Sob a ótica – adivinhem? – de um menino. Certo, este é um recurso bastante conhecido e batido. Quase caindo de maduro. Mas não parece deslocado nesta produção dirigida por Agustí Villaronga. Escolhido pela Academia de Cinema espanhola para representar o país no próximo Oscar, Pa Negre é uma produção interessante – e que deve mexer, em especial, com os sentimentos de quem ainda vive os resquícios e ecos daquele tempo, para o bem, e para o mal.

A HISTÓRIA: Um homem puxa um cavalo e caminha à frente dele em um bosque. A roda da carroça puxada pelo animal fica presa em umas pedras. Quando tenta soltá-las, o homem escuta um barulho entre as folhas secas. Assustado, ele busca a fonte do ruído, mas não encontra ninguém. Ele pega um canivete, mas acaba sendo atacado por alguém encapuzado, por trás. Dentro da carroça, o filho dele vê o pai ser morto. Depois, o encapuzado puxa a carroça, mata o cavalo e faz eles caírem de um penhasco. Outro menino corre, após ouvir o barulho, e vê o cavalo estraçalhado. Em seguida, encontra o menino que estava dentro da carroça, e o reconhece: é Culet (Miquel Borràs). O menino, todo ferido e com os olhos arregalados, repete o nome de Pitorliua. O menino, Andreu (Francesc Colomer) então corre para avisar a mãe do menino ferido. Em seguida, aparece o pai do garoto, Farriol (Roger Casamajor). A partir daquelas mortes, Andreu vai conhecendo a verdade sobre a própria história, da família e das pessoas que o cercam.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso eu só recomendo que continue a ler quem já assistiu a Pa Negre): A sequência inicial de Pa Negre é a mais contundente da história. E dá a ideia de que veremos um filme assim, direto, duro, sem “papas na língua”. Mas pouco a pouco vamos vendo que não é bem assim. O filme suaviza, ainda que nunca perca a direção.

Como tantas outras produções em que um garoto centraliza as atenções do roteiro, em Pa Negre o espectador é convidado a ir descobrindo o que está acontecendo na mesma levada que o protagonista. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Pouco a pouco, Andreu percebe que vive em uma sociedade desigual, violenta e cheia de mentiras e fingimento. Parece que todos estão contaminados por aquela realidade de contrastes alimentados com a miséria alheia. A questão política é citada várias vezes, especialmente pelos pais de Andreu, mas a questão dos “comunistas” perde espaço para o preconceito contra os homossexuais. A “lenda” de Pitorliua é apenas um dos elementos que transpassa todo o filme e que toca neste ponto.

Importante saber de que época estamos falando. E mais para o final do filme, quando a câmera do diretor Villaronga percorre o cenário de uma prisão, está na parede a resposta para esta dúvida: 1944. Um ano considerado marcante para a Espanha. A Guerra Civil Espanhola tinha terminado, o general Franco estava no poder e a Europa estava mergulhada ainda na Segunda Guerra Mundial. Eram tempos de violência, extremismo e privações. Mas havia algo de errado além dos generais e daquele grupo de homens que tomavam decisões equivocadas. Havia hipocrisia, corrupção e violência no coração das sociedades – incluindo a espanhola.

O ano de 1944, como eu disse antes, foi marcante para aquela época. Como bem explica esta reportagem do jornal El País (em espanhol), aquele ano foi marcado pela Operação Reconquista de Espanha, que envolveu 4 mil homens motivados a derrubar o general Franco. A ideia deles era “invadir” o próprio país através da fronteira com a França e tirar do poder o ditador. A operação deu errado. Mas aqueles tempos “negros” – e justamente o ano de 1944, considerado do “fim da esperança” por esta operação, que deixou claro que não seria possível mudar o que estava posto – também serviram de pano de fundo para outro filme: El Laberinto de Fauno, dirigido e escrito por Guillermo del Toro – e, francamente, muito melhor que este Pa Negre.

O curioso é que mesmo falando tanto em política, Pa Negre não deixa claro quem são os “vermelhos” (rojos) e quem são os fascistas. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Quer dizer, há vários indícios e dicas, jogados aqui e ali. Mas acho que acabou sendo proposital, da parte do diretor e roteirista Agustí Villaronga, que se baseou na obra de Emili Teixidor, deixar os lados pouco definidos. A ideia que o filme nos dá, desta forma, é que era difícil distinguir entre uns e outros. E que nem sempre o discurso de “esquerdistas” como o pai de Andreu poderiam ser levados à sério. Afinal, no fim das contas, o que eles precisavam era sobreviver. E para conseguir isso, em épocas especialmente complicadas, muitas vezes os convictos se vêem obrigados a largar mão de seus ideais e convicções. E ao fazer isso, eles se tornam iguais, exatamente, àqueles que eles gostariam tanto de combater.

Como bem explica este texto interessante e completo de Paulo Roberto de Almeida no site Hispanista, “a crise econômica mundial e o período de recessão que atinge toda a Europa, trazendo desequilíbrios econômicos igualmente para a Espanha” tornam difícil “o prosseguimento da política reformista” no início da década de 1930. O resultado é que a direita ganha as novas eleições e, entre 1934 e 1935, “o governo instalado persegue uma política de anulação pura e simples das conquistas sociais e regionais alcançadas no período anterior”. De acordo com Almeida, citando Jackson, o que a Espanha viveu naqueles anos “não se tratava de uma simples guerra civil, no sentido em que as partes em luta se digladiavam por questões meramente locais ou se dividiam em função de querelas políticas nacionais. A Espanha dos anos trinta foi um grande laboratório político e militar de todas as rupturas ideológicas deste século, em particular a luta entre a democracia, o fascismo e o comunismo”.

Neste cenário, jogou um papel importante a Igreja Católica na Espanha, defendendo os princípios de família, propriedade e combatendo os “vermelhos”. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Não por acaso toda a repressão e “ojeriza” das pessoas, especialmente dos homens, com figuras como Pitorliua (Joan Carles Suau). O exemplo dele, que acaba percorrendo todo o filme para imprimir-lhe um pouco de “mistério”, revela também a hipocrisia daquela sociedade – e de tantas outras, inclusive nos dias atuais. Afinal, muitos homens “se divertiam” com Pitorliua. Mas eles jamais admitiriam isso.

E a poderosa família Manubens, que nesta produção “incorpora” todo o tradicionalismo da sociedade espanhola de “posses” da época, não poderia suportar aquele tipo de “afronta” aos bons costumes. (SPOILER – não leia… bem, você já sabe). Pela perseguição e brutalidade sofrida por Pitorliua, pelo caminho equivocado que Farriol foi obrigado (será?) a percorrer, pelos ensinamentos absurdos das escolas representadas pela aula do professor Escolapis (Jordi Esteva) e por tantas mentiras escondidas pelo autoritarismo disfarçado em várias famílias do filme, aquela era uma Espanha para ter vergonha. E os ecos daquele tempo continuam ecoando por lá. Seja para que alguns destes erros não se repitam mais, seja para reforçar algumas ideias equivocadas em algumas “rincões” daquele país. Pa Negre, por toda a discussão que ele pode suscitar, merece aplausos. Nem tanto pela qualidade fenomenal da produção, que tem alguns erros aqui e ali, mas por resgatar aquelas histórias, seus panos de fundo, e retomar discussões muitas vezes deixadas de lado. Ter memória histórica é fundamental. E a Espanha sabe disso. Espero que, um dia, o Brasil e outros países também.

NOTA: 8.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Algo que Pa Negre tem de bom é o trabalho dos atores. Experientes, eles dão conta do recado e despertam a emoção devida. Vestem a camisa, convencem. Ainda que todos estejam bem, merecem destaque Nora Navas como Florència, mãe de Andreu; Roger Casamajor como o pai do garoto, Farriol; Laia Marull como Pauleta, mulher de Dionís (que é morto no início do filme e interpretado por Andrés Herrera); e Marina Comas como a menina Núria, que encanta e assusta o protagonista. O garoto que interpreta a Andreu, Francesc Colomer, também está bem. Ainda que ele irrite um pouco, em alguns momentos, pela visível falta de experiência e insegurança em certas cenas. Mas no geral, o menino está muito bem.

Na parte técnica do filme, fazem um bom trabalho o diretor de fotografia Antonio Riestra e o editor Raúl Román. A trilha sonora de José Manuel Pagán praticamente inexiste, mas quem ficou curioso para saber quem assinou a parte musical do filme, eis o seu responsável. Falando em som, achei ruim o trabalho feito neste filme. Tanto que ele acabou rendendo “retrabalho”, ou seja, a regravação de vários diálogos depois, na pós-produção.

Pa Negre foi todo rodado na Cataluña. Em localidades próximas de Barcelona, em Lleida e em Girona.

Esse filme pode ser considerado uma grande produção, porque custou aproximadamente 6 milhões de euros. Uma quantidade bem acima do padrão de gastos do cinema espanhol. Segundo o site IMDb, no entanto, o filme não foi muito bem nos cinemas da Espanha. Ele arrecadou pouco mais de 839 mil euros depois de dois meses de exibição nos cinemas.

Pa Negre estreou no dia 21 de setembro de 2010 no Festival de Cinema de San Sebastián. Depois ele passou por outros cinco festivais. Nesta trajetória, ele ganhou impressionantes 26 prêmios, e foi indicado a outros nove. A produção ganhou nada mais, nada menos que 13 prêmios no Gaudí Awards – entre outros, os de melhor filme falado em catalão, melhor diretor, melhor direção de fotografia, melhor roteiro, melhor ator coadjuvante, melhor atriz e melhor atriz coadjuvante. Ele ganhou também nove prêmios no Goya Awards, incluindo melhor filme, melhor diretor, melhor roteiro, melhor atriz, melhor atriz coadjuvante e melhores nova atriz e novo ator.

Os usuários do site IMDb deram a nota 7,1 para Pa Negre. Uma boa nota, para os padrões do site. O Rotten Tomatoes apresenta apenas uma crítica para o filme. E positiva, assinada por Fernando F. Croce, do House Next Door. Mas essa falta de críticas e a quantidade de prêmios que o filme recebeu se restringirem, basicamente, à Espanha, revelam o quanto esta produção está longe de ser conhecida – pelo menos o suficiente para chegar com alguma força ao Oscar.

Mesmo que o filme não trate deste tema, acho interessante falar sobre “os meninos roubados pelo franquismo”. Foram chamados assim os garotos que, durante a Guerra Civil Espanhola, foram levados das casas de suas famílias republicanas depois que suas mães foram mortas ou presas. Vale começar a leitura por este artigo da Wikipédia. Para quem quiser saber um pouco mais sobra a Guerra Civil Espanhola, também recomendo estes textos de Voltaire Schilling.

Ah sim, e um comentário importante sobre o final de Pa Negre (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme): tenho certeza que muita gente ficará meio “indignada” com o desprezo com que o protagonista trata a própria mãe, na parte final. Mas eis que, neste momento, a história deixa claro a vergonha que algumas gerações futuras sentiram de seus próprios pais, do que eles foram capazes de fazer – mesmo que isso fosse em nome deles, dos filhos, e mesmo que fosse para sobreviver. No final, o diretor e o roteirista deixam claro a mensagem de que nada justifica atos hediondos. Mais tarde, no futuro, até é possível que Andreu desculpe a mãe e o pai. Mas certamente ele tentará ao máximo evitar os erros que eles cometeram. O irônico, contudo, é que a vida melhorada que ele tiver, no final das contas, ele deve justamente para as pessoas que ele desprezou um dia.

Pa Negre é uma co-produção da Espanha e da França.

CONCLUSÃO: Conhecer a história de um país é, também, destrinchar os comportamentos de sua gente. Aquilo que eles escondem, ou do que se orgulham. Pa Negre trata de um tempo difícil mas, mais que isso, do complicado que pode ser descobrir a verdade sobre a sua própria família – em uma clara alusão à própria nação. Bem dirigido, com um ritmo que busca acompanhar, com calma, os sentimentos e as descobertas do protagonista, mas sem “enrolações”, este filme mostra a maturidade do cinema de releitura histórica espanhol. O roteiro também se revela bastante equilibrado entre o drama – a essência da história -, algumas pitadas de comédia, romance (normalmente com certa sordidez) e memória histórica. O que incomoda um pouco, na parte técnica, é a dublagem dos atores feitas após as filmagens – algo que fica nítido em outras produções espanholas e brasileiras. Mas fora este pequeno detalhe, que realmente é pequeno, é um filme bom. Ele começa visceral, depois vai diminuindo a força, e não termina de uma maneira muito surpreendente. Ainda assim, mantêm a crítica do roteiro até o final, o que é um ponto positivo. Deve interessar a maioria do público, especialmente àqueles que gostam de conhecer um pouco a história de momentos de ruptura social de países como a Espanha.

PALPITE PARA O OSCAR 2012: Eis um filme com vários elementos que podem agradar aos jurados da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood. Primeiro, Pan Negre tem um menino no centro da história. Depois, ele é bem filmado, tem um elenco competente de atores e trata de um momento histórico importante – para a Espanha e para o mundo. Pela história e pela qualidade técnica do filme (exceto pelo som, que apresenta várias falhas), ele se mostra um bom concorrente. Mas é preciso ver aos demais filmes que estão na disputa para mensurar se Pa Negre poderia chegar entre os cinco finalistas.

De fato, falta um pouco mais de ousadia e criatividade nesta produção. Diferente do que outro filme que se passa em 1944 na Espanha fez: El Laberinto del Fauno. Pa Negre é uma produção cheia de boas intenções. Bem produzida, mas lhe falta um pouco mais de “energia”, de encanto e/ou de invenção. Ele não deixa de ser um filme interessante, mas lhe falta um pouco mais de tempero para surpreender o espectador. Talvez, para os votantes da Academia, baste as qualidades deste filme. Para indicá-lo entre os cinco. Mas não vejo que ele tenha méritos suficientes para levar a estatueta. Não é conhecido e nem badalado o suficiente para isso. E francamente, acho que não terá forças nem para ficar entre os cinco finalistas.

A Torinói Ló – The Turin Horse – O Cavalo de Turim

Um filme que começa citando a Nietzsche não pode ser ruim, certo? Sim e não. Depende, claro, do ponto de vista. Tenho certeza que os intelectuais e alguns apreciadores do cinema vão tirar o chapéu para este A Torinói Ló. Da minha parte, achei um filme chato, longo, teoricamente artístico, mas essencialmente insuportável. Não pelo que acontece, mas pelo que deixa de acontecer.

A HISTÓRIA: Uma voz conta, sem imagens, que em Turin, no dia 3 de janeiro de 1889, Friedrich Nietzsche saiu pela porta do número 6 da Via Carlo Alberto para caminhar ou para buscar suas correspondências nos Correios. “Não muito longe, aliás, bastante longe dele, um cacheiro estava tendo problemas com o seu teimoso cavalo”, conta o narrador. Apesar de todos os esforços do cacheiro, o animal se recusava a mover-se. O dono do cavalo perdeu a paciência e começou a chicoteá-lo. Nietzsche teria surgido no meio da “multidão” e interrompe a sessão de tortura ao colocar os braços ao redor do pescoço do cavalo, para a ira do cocheiro. Levado por um vizinho para casa, ele teria ficado dois dias silencioso no sofá, até que teria dito: “Mãe, eu sou um tolo”. Segundo o narrador, Nietzsche teria vivido mais 10 anos, calmo e louco, aos cuidados da mãe e das irmãs. Mas sobre o cavalo, não se soube mais nada. A partir daí, mergulhamos na história de um cavalo castigado, seu dono e filha. Uma história silenciosa e louca, que reflete o “fim do mundo” ou, pelo menos, da “Humanidade”.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a A Torinói Ló): Eu entendo as intenções dos diretores Béla Tarr e Ágnes Hranitzky. Eles buscaram imprimir em película a falta de esperanças em uma Humanidade violenta, fria e que age de forma automática. Sem refletir, sem relacionar-se afetivamente. O fim dos tempos, neste cenário, deveria ser visto quase como uma recompensa.

Compreendo também que eles viram na crueza do neorrealismo italiano o recurso natural para contar essa história, embebida até a raiz da crítica de Nietzsche, o homenageado da produção. Tudo isso é compreensível. Mas, francamente? Não vejo muito espaço, atualmente, no cinema moderno (ou pós-moderno) para fazermos um filme tão embebido no neorrealismo italiano. Não tenho problema algum, pelo contrário, em assistir aos clássicos do gênero. Mas clássicos são clássicos. Eles ajudaram a definir uma época, surgiram para contrapor uma realidade específica. Não vejo problemas em homenagear um gênero do cinema, mas é preciso fazer algo novo e condizente com a realidade em que vivemos agora.

A Torinói Ló poderia, muito bem, ser um filme mudo. Bem, ele quase é um filme mudo – mas sem o significado e a criatividade que os filmes mudos, em sua época, tinham. Qualquer filme de Charles Chaplin, na fase do cinema mudo, é mais criativo e dinâmico que esta produção dirigida por Tarr e Hranitzky. Para mim, ficou evidente a intenção do filme em angustiar o espectador, tornar a experiência de ver a este filme tudo, menos prazerosa. Compreensível, especialmente pela crítica que a produção busca fazer. Mas serei franca mais uma vez: para um filme ser crítico e provocar angústia, ele não precisa ser interminável, sonolento, chato até o extremo. Se eu quiser passar por esta experiência, busco outras formas de tortura, e não o cinema.

Bem, mas falemos da produção. O roteiro escrito por László Krasznahorkai e Béla Tarr começa contando, apenas em narrativa em “off” (sem imagens) a história da defesa de Nietzsche de um cavalo que era fustigado pelo seu proprietário. Para a época em que vivia e, até pela ótica de muitas pessoas atualmente, aquela manifestação do filósofo já era um indicativo de que ele estava ficando louco. Mas aí aparece a pergunta fundamental: o que é a loucura? Muitas vezes uma pessoa é considerada louca apenas porque ousa pensar e agir diferente dos padrões. E o que A Torinói Ló deixa claro é que, tantas e tantas vezes, na história das nossas civilizações, os padrões sociais eram absurdos. E deveriam ser combatidos.

Depois da narrativa em “off” da atitude de Nietzsche, mergulhamos na história do cavalo que foi defendido pelo filósofo. Uma história possível, é claro. E com ela, assistimos a uma alegoria do “ocaso da Humanidade”. Pai e filha que acompanhamos são autômatas. Simbolizam, desta forma, a própria Humanidade. Afinal, quantas pessoas não “fazem todo dia tudo sempre igual”, como diria o Chico? Muitas, certamente. Agem sem pensar, sem realmente sentir os sabores, cheiros, nada. Seus corações pulsam por hábito, não por convicção.

Desta forma, acompanhamos pais e filhas, miseráveis. Mas a miséria deles está menos na ausência de móveis e de comida farta na mesa e muito mais na falta de carinho, de esperança, de emoção. Eles praticamente não trocam palavras. O único momento “verborrágico” no filme acontece quando a família “de dois” recebe a visita do vizinho Bernhard (Mihály Kormos). Ele fala sobre a destruição da “cidade” (certamente uma alegoria para “civilização”), e comenta sobre a responsabilidade “deles” (das pessoas que integravam essa civilização) na própria destruição. Aí está o tratado do filme. De que o cataclismo que assistimos não é algo “divino” (Nietzsche dizia que o homem teve que inventar Deus), mas um efeito do vício pelo julgamento, mais a cobiça e a ganância dos homens e mulheres que integram as diferentes sociedades. “Porque tudo que eles tocam, e eles tocam tudo, foi degradado”, diz o personagem.

Quem lê o resumo anterior, pode achar que o filme é inteligente, interessante. Até que a crítica é pertinente. Mas a forma de apresentá-la é excessiva. Para nos mostrar o que ele nos mostra, A Torinói Ló poderia ter 30 minutos de duração. E não duas horas e 46 minutos! Mesmo provocando um desejo irrepreensível de deixar de assistí-lo pela metade e, nos insistentes, uma vontade de dormir profunda, este filme tem algumas particularidades interessantes. Primeiro, que mesmo não “acontecendo muita coisa” no filme, o diretor nos mostra maneiras diferenciadas de “prender” a atenção e/ou variar a narrativa de forma simples. O “eles fazem tudo sempre igual” se mostra diferente com uma simples variação de câmera. Em um momento, acompanhamos a rotina da filha vestindo o pai por um ângulo. No outro dia, acompanhamos o mesmo, mas por outro ângulo. E isso, mais um ou outro detalhe, é o que fazem o filme não ser uma repetição permanente. Há uma certa variação no ar, ainda que ela seja restrita.

Primeira parte da produção: clima inglório, sacrifício, os mais fracos (simbolizados pelo cavalo) explorados até o osso pelos mais fortes (dono do cavalo). (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Depois, ela segue mostrando que o cataclismo não iria ceder. Pelo contrário. E como as pessoas lidam com isso? Pelo que mostra o filme, fazendo o mesmo. Não mudam a sua rotina. Depois de um tempo, tentam uma saída, mas já sem chance alguma de conseguir um resultado diferente do desastre. Retornam. Escutam o pior – o que contribui para a decisão de buscar uma saída -, mas se fazem de surdos. Depois, quando agem, descobrem que o pior está acontecendo. O cavalo é o primeiro a perceber que aquela forma de vida havia terminado. Mas pai e filha continuam. Antes, recebem a visita de “bárbaros”. Pessoas que eles não entendem. A quem eles temem. Mas que podem, eles sim, encontrar uma saída – até porque acreditam que ela existe. Em seu caminho, vão encontrando e intensificando a destruição. E, no final, os protagonistas decidem seguir com a vida quase igual (exceto pelo contato com o exterior, que fica impossibilitado). Mas descobrem suas próprias limitações e que, sem esse contato com o exterior, eles não vão conseguir sobreviver.

O filme é angustiante. Sonolento. Primeiro, pela falta de ação. Depois, pela repetição do que acontece. E, finalmente, pela decadência da humanidade simbolizada pelos protagonistas. Entendo que o filme foi feito da maneira que foi justamente para provocar estes sentimentos no espectador. Mas francamente? Não acho que você precise colocar alfinetes sob as unhas de alguém para fazê-lo sentir dor. Há outras formas, mais interessantes, para fazer alguém ficar angustiado. Não recomendo, pois, A Torinói Ló para ninguém. Há muitas e muitas outras produções mais bacanas para serem assistidas.

NOTA: 3.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Logo que terminei de assistir a esse filme, fiquei pensando que nota dar para ele. Provavelmente, “no calor da hora”, teria dado uma nota ainda mais baixa que este 3. Mas resolvi dar a nota acima em homenagem ao cavalo – gostei muito dele – e pela ousadia dos diretores. Afinal, é preciso ter coragem para lançar um filme como este hoje em dia, no ano 2011. Também gostei dos atores principais, ainda que eles tenham me dado sono. Eu teria aceitado melhor o que eu vi se eu estivesse em um teatro – onde, provavelmente, eu daria um cochilo, aqui e ali. Além do mais, a nota se justifica pela “dificuldade” de algumas cenas, especialmente pela intensificação da tempestade. Foi bem feito.

Os principais responsáveis pelo filme, além dos diretores já citados, são os roteiristas. Ainda que eles não tiveram muito trabalho para escrever diálogos – poucos estão espalhados pela produção -, eles são os “culpados” pela dinâmica e essência da história. O diretor Béla Tarr assina o texto junto com László Krasznahorkai. A direção de fotografia em preto e branco, esta sim, trabalhosa e que merece 15 segundos de palmas, é assinada por Fred Kelemen. E a trilha sonora, muito pontual – restrita à abertura, essencialmente, leva a assinatura de Mihály Vig.

Eis um filme fácil de conduzir… afinal, ele tem, basicamente, dois atores. Um único cenário. Por isso mesmo, vale a pena citar a dupla de protagonistas: János Derzsi interpreta ao pai de Erika Bók.

Uma curiosidade: A Torinói Ló foi rodado totalmente na cidade de Budapeste, na Hungria.

O filme de Tarr e Hranitzky estreou no Festival de Berlin em fevereiro deste ano. Depois, ele participou de outros 13 festivais e mostras. Nesta trajetória, ganhou quatro prêmios: o Urso de Prata como melhor filme segundo os jurados do Festival de Berlin e o Prêmio FIPRESCI no mesmo evento; e dois prêmios Golden Camera 300 para o diretor de fotografia Fred Kelemen no Festival Internacional de Cinema Brothers Manaki, promovido na cidade de Bitola, na Macedônia.

E outra curiosidade sobre o filme: A Torinói Ló é uma co-produção da Hungria, da França, da Alemanha, da Suíça e dos Estados Unidos.

Para a minha surpresa, A Torinói Ló registra uma ótima nota no site IMDb: 8,3. Muito, muito acima do que eu acho que o filme mereça – por mais “artístico” que ele seja, no fim das contas, ele é apenas chato e longo demais. Apesar de todas as suas intenções… mas ele funcionaria muito melhor no teatro. Mas não são apenas os usuários do site IMDb que acharam esse filme mais interessante do que eu achei. Não há muitas críticas linkadas no site Rotten Tomatoes. Mas dos textos que podem ser acessados lá, seis são positivos e dois, negativos. O que garante para a produção uma aprovação de 75% – e uma nota média de 7,6.

CONCLUSÃO: Representante da Hungria no próximo Oscar, A Torinói Ló deveria render uma estatueta dourada para cada pessoa que consegue assistí-lo até o final. Porque é dura, bastante complicada esta tarefa. A premissa do filme é interessante: mostrar a decadência da Humanidade através da exploração criativa de um fato ocorrido com Nietzsche. Mas francamente, não era preciso tanta angústia, tanta tortura para o espectador. Planos infindáveis, um estilo de cinema de extremo realismo, ao ponto de sobrarem silêncios e expectativas. Palmas para quem conseguir assistir este filme até o final e, principalmente, para aqueles que gostarem do que acabaram de ver. Da minha parte, achei esta produção excessivamente pretensiosa, cansativa. Talvez rendesse um curta. Mas jamais um longa.

PALPITES PARA O OSCAR: A Torinói Ló representa a Hungria na disputa por uma vaga no Oscar. Francamente? O filme pode agradar aos críticos e a uma parte dos espectadores. Mas não acho que ele tenha qualquer vocação para chegar entre os finalistas do Oscar. E muito menos levar a estatueta para casa. Acredito que ele ficará de fora da lista dos cinco e, consequentemente, não terá chances de ganhar o prêmio. Se isso acontecer, será uma boa revolução na premiação que, pela primeira vez em muito tempo, premiaria um filme artístico, conceitual e nada popular.