Marie Heurtin – Marie’s Story – A Linguagem do Coração

marieheurtin1

Todos merecem uma oportunidade, inclusive de ver a luz. Em outras palavras, todos deveriam ter a chance do conhecimento que, inevitavelmente, passa pela comunicação. Marie Heurtin fala de um caso em que esta luz trazida pelo conhecimento parecia impossível de ser vista. Voltamos para o século XIX para conhecer a história de uma freira que fica comovida por uma garota cega, surda e muda e que acaba se dedicando para trazê-la à luz. Uma história linda, em diversos momentos difícil, mas fundamental.

A HISTÓRIA: Começa dizendo que o filme está inspirado em uma história real que aconteceu na França no final do século XIX. Marie Heurtin (Ariana Rivoire) levanta a mão na carroça para sentir o calor do sol. Quem guia o cavalo ao lado da menina é o pai dela, o Sr. Heurtin (Gilles Treton). A menina está bem amarrada com cordas para não cair. Ele se dirige para o convento em que freiras abnegadas ensinam meninas surdas e mudas a se comunicar. Mexendo na horta com diversos tomates está uma destas freiras, a irmã Marguerite (Isabelle Carré). Ela é a primeira a ver a chegada do Sr. Heurtin e da filha. O contato entre as duas será decisivo para Marie Heurtin.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso só recomendo que continue a ler quem já assistiu a Marie Heurtin): Até hoje não é simples a educação de uma pessoa que é cega, surda e muda. Como fazer a criança aprender as palavras se ela não tem a audição ou a visão para auxiliá-la nessa tarefa. Agora, se hoje ainda existem dificuldades neste sentido, imagine há 120 anos, mais ou menos.

O primeiro fascínio deste filme é justamente mostrar como a educação de cegos, surdos e mudos era tratada há tanto tempo atrás. Na verdade, muitos consideravam que as crianças e adultos com estas deficiências “não tinham jeito”. Não dava para fazer nada para ajuda-las. Mas aí entra em cena a freira Marguerite que, ao ver a Marie Heurtin, sente uma grande compaixão pela menina.

Afinal, paramos pouco para pensar nisso, mas qualquer um de nós poderia ter nascido cego(a), surdo(a) e mudo(a). E que tipo de oportunidade teríamos tido se isso tivesse acontecido? Marguerite tem uma série de sentimentos em relação a Marie Heurtin logo no início. Primeiro, ela fica surpresa, depois fascinada, curiosa, desafiada e com compaixão da menina. E faz aquilo que todo católico deveria se dispor a fazer: levar o conhecimento de Deus e de Jesus para todas as pessoas, independente das condições em que elas se encontrem.

Contrariando a todas as pessoas daquela época, Marguerite insistiu com a madre superiora para buscar Marie Heurtin e tentar ensinar-lhe a língua dos sinais. A tarefa é duríssima e vemos isso em detalhes neste filme. Aliás, este é um dos aspectos desafiadores e ao mesmo tempo um diferencial desta produção: ela não alivia em contar a história. Há diversos momentos de angústia porque vemos Marguerite batalhando para fazer Marie Heurtin sair de seu casulo e começar a entender o mundo ao seu redor e, principalmente, interagir com os outros.

Normalmente não paramos para pensar, mas o que seria de nós sem a comunicação? Mesmo a mais básica, aquela estabelecida entre as pessoas antes da criação do alfabeto. Como jornalista, justamente estudei a história da comunicação, a sua evolução e importância, e existe um autor que trata de forma diferenciada esta questão de como a comunicação foi – e é – fundamental para a história da Humanidade: Manuel Martín Serrano.

Eu tive a sorte de ter uma aula com ele como ouvinte na Universidad Complutense de Madrid. Ele é ótimo, magistral, e quem tiver a oportunidade de ler a algum de seus livros, terá uma noção ainda melhor sobre a importância da comunicação. Mas voltemos para Marie Heurtin. Até que a freira Marguerite se interessa pela garota, ela vive na escuridão. Não apenas da cegueira, mas principalmente da comunicação e, quase que por consequência, do conhecimento.

Como outros filmes já trataram do tema, sem conhecimento, é como se o indivíduo fosse um bicho. Marie Heurtin vivia isolada e se comportava como quase um animal. Por instinto, ela reagia ao que ela não entendia com tapas, socos, esperneando. O que você faria se estivesse exatamente no lugar dela? Uma parte considerável do roteiro do diretor Jean-Pierre Améris e de Philippe Blasband mostra este isolamento e resistência de Marie Heurtin em sair de sua própria escuridão. De fato, não é algo simples. Mas Marguerite não desiste.

Alguns podem achar que Améris e Blasband poderiam ter encurtado um pouco o processo. Afinal, de fato, há muitas cenas quase repetidas de Marguerite tentando ensinar algo para Marie Heurtin e a garota resistindo a isso. Ela não fazia por mal, evidentemente, mas para se proteger. É verdade que há muita repetição neste período, mas acho que a angústia que esta repetição e até uma certa violência que vemos ali ajuda o filme a ser mais realista.

Certamente o sacrifício de Marguerite foi ainda mais intenso do que vemos no filme – afinal, bem ou mal, a história desta produção não se passa dia após dia, mas encurta o processo entre a freira e a sua potencial discípula. De fato o filme tem um ritmo diferenciado, mais lento, bem ao estilo dos filmes europeus – e diferente da maioria dos filmes de Hollywood. Mas isso tem um propósito e ele é bem justificado. Quem vence aquelas cenas de angústia e sofrimento, chega até a redenção do momento em que Marie Heurtin finalmente sai de seu próprio isolamento e entende o primeiro conceito.

Empregando muita repetição e até um pouco de “violência” física, Marguerite consegue pouco a pouco o que quer. Primeiro ela tira Marie Heurtin de seu isolamento e de seu estado de quase selvageria ao fazer a garota tomar banho e comer sozinha. O passo seguinte e mais difícil é fazer ela pensar além dos instintos e das sensações e transformar o que ela sente e o que ela quer em gestos com significado. Uma criança surda e muda, mas que enxerga, faz isso por repetição. O mesmo acontece com uma criança normal ou apenas cega, mas que escuta. Por repetição ela aprende a se comunicar e a saber o que falar ou gesticular para ser entendida pelos adultos.

Mas uma criança que não vê, não ouve e não fala tem uma dificuldade muito, mas muito maior. Afinal, ela não consegue imitar por causa de seu isolamento criado pelas limitações físicas. Por isso é mágico e especialmente belo quando este filme mostra Marie Heurtin entendendo pela primeira vez que algum gesto que ela faça possa significar algo para outra pessoa. A partir daí a garota tem um avanço rápido intelectual e uma sede enorme por aprender o máximo de palavras que ela pode.

Quando a protagonista aprende a se comunicar, um mundo de possibilidades se abre para ela. Marie Heurtin não está mais isolada e sozinha, ela pode usar o raciocínio para construir frases, conceitos, verbalizar o que sente, o que pensa e o que deseja. Da sua parte, Marguerite já era uma mulher doente quando iniciou o processo de tentar ensinar Marie a falar por meio da língua de sinais. Claro que o processo lhe desgasta ainda mais – mas ele também lhe dá um novo sentido de vida.

Marguerite leva à sério a missão que todo cristão tem – especialmente os dedicados integralmente a Deus, como são as freiras – de evangelizar. Para ela não existe limitação física que possa impedir uma pessoa como Marie Heurtin de ser apresentada para Deus. Este é o objetivo dela e ela se dedica de corpo e alma para esta missão. Este é um outro aspecto do filme, junto com o já comentado da comunicação, que torna esta produção especial. Independente do teu credo ou da falta dele, algo é preciso ser dito: como é bonito e poderoso quando alguém batalha para colocar em prática a missão em que ela acredita. E é especialmente bonito quando esta missão significa ajudar outra pessoa.

Achei tocante o fato de Marguerite querer levar Deus para uma pessoa que inicialmente ninguém acreditava que pudesse sair do isolamento. Mas como a freira comenta para Marguerite em certo momento, Deus está em todos os lugares, inclusive dentro de Marie Heurtin. Pensando nisso, Marguerite tinha a fé de conseguir se comunicar com o Deus que estava no interior daquela jovem que tinha, como os demais, o direito de não apenas saber deste Deus, conhecê-lo, mas também de ter as ferramentas para se desenvolver e crescer.

Este filme pode não ser perfeito – achei ele um pouco repetido e demorado em alguns trechos -, mas achei ele extremamente original e tocante. Também acho que ele tem uma mensagem muito bonita, que não apenas nos faz refletir sobre a importância e o poder da comunicação, mas também da beleza da inclusão de todas as pessoas na sociedade. Todos devem ter uma oportunidade, como eu comentei lá no início.

Além disso, esse filme nos revela a beleza de uma vida dedicada para os outros. Apenas mensagens bonitas e que nos fazem pensar em como nós também poderíamos estar fazendo a diferença para o bem. Tecnicamente, Marie Heurtin pode não ser um filme perfeito, mas pela história que ele propaga, certamente ele é.

NOTA: 9,8.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Este é um filme centrado no trabalho de duas atrizes. E que trabalho, minha gente! A tarefa de Isabelle Carré como a freira Marguerite e a de Ariana Rivoire como Marie Heurtin não são nada simples. Muito pelo contrário. Mas as duas atrizes se entregam de corpo e alma em suas interpretações e passam muita verdade nos dois papéis. Enquanto Ariana Rivoire vive uma boa variação de tipo de interpretação por causa da evolução de sua personagem, Isabelle Carré acerta ao mostrar uma freira com espírito destemido mas singelo, cheia de pureza, obstinação e suavidade – além de uma fragilidade justificada pela questão da sua saúde debilitada. Perfeitas.

Da parte técnica do filme, gostei da direção de Jean-Pierre Améris. Ele está sempre muito próximo das atrizes, especialmente das protagonistas, cuidando de mostrar cada detalhe da interação delas e de seus sentimentos. Algo fundamental para uma história como essa. Como o filme se passa em poucos locais, praticamente inteiro no local em que as freiras vivem, a relação entre as personagens é o ponto a ser explorado.

Outros elementos que merecem ser destacados: a direção de fotografia de Virginie Saint-Martin; a trilha sonora de Sonia Wieder-Atherton; o design de produção de Franck Schwarz; a direção de arte de Vincent Dizien; os figurinos de Danièle Colin-Linard e a edição de Anne Souriau.

Como comentei antes, Marie Heurtin é um filme bastante focado nas duas personagens centrais – a que dá o título da produção e aquela que a ajuda a sair do isolamento em que ela se encontrava. Mas o filme também tem outras atrizes com papéis secundários relevantes. Além da já citada Brigitte Catillon como madre superiora, vale comentar o trabalho de Noémie Churlet como a freira Raphaëlle; e de Gilles Treton como o pai e de Laure Duthilleul como a mãe de Marie Heurtin. Esses são os principais coadjuvantes, mas há ainda as freiras Verónique, vivida por Martine Gautier; Joseph, por Patricia Legrand; Elisabeth, por Sonia Laroze; Blandine, por Valérie Leroux; Marthe, por Fany Buy; entre outras.

Marie Heurtin estreou em agosto de 2014 no Festival de Cinema de Locarno. Depois, o filme participaria de outros 12 festivais, sendo o último deles o Festival de Cinema BUFF, no dia 16 de março deste ano. Nesta trajetória o filme conquistou dois prêmios e foi indicado a outros três. Os prêmios que ele recebeu foram o Variety Piazza Grande Award no Festival Internacional de Cinema de Locarno e o de Melhor Narrativa por escolha da Audiência no Festival de Cinema de Wisconsin.

Os usuários do site IMDb deram a nota 7,5 para a produção. Os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 13 textos positivos e seis negativos para a produção, o que lhe garante uma aprovação de 68% e uma nota média de 7. Belas avaliações, ainda que eu acho que o filme merece mais – dei o 10 acima porque acho ótimas as mensagens do filme, mas se for olhar ele sem paixão, talvez ele merecesse um 9,5 ou 9.

O diretor francês Jean-Pierre Améris nasceu em Lyon e Marie Heurtin é o 17º trabalho dele na direção. A estreia de Améris foi em 1988 com o curta Interim. Depois de Marie Heurtin ele lançou Une Famille à Louer, de 2015. Até o momento, ele recebeu 11 prêmios, a maioria por Les Aveux de L’Innocent, de 1996, e por C’est la Vie, de 2001.

A parisiense Isabelle Carré tem uma carreira bem longa. A atriz estreou em 1989, tem nada menos que 75 trabalhos no currículo e cinco prêmios. Ariana Rivoire, por outro lado, tem 21 anos e estreou como atriz com Marie Heurtin – depois do filme ela participou de um episódio da série de TV Cherif.

Esta é uma produção 100% francesa.

CONCLUSÃO: Um filme fundamental, não apenas por nos fazer refletir sobre o muito que não sabemos e sobre como evoluímos na educação nas últimas décadas, mas também por nos fazer repensar sobre os nossos próprios atos. Quantos de nós poderíamos ajudar mais pessoas a “verem” a luz mas não fazemos isso? Quantos de nós pensamos que sabemos muito e ignoramos tudo aquilo que os outros podem nos ensinar?

Um filme grande e singelo ao mesmo tempo, mas que nos dá um belo exemplo de dedicação ao outro, assim como da importância e da força da comunicação para a nossa evolução – individual e coletiva. Lindo, complexo, fascinante. Se tiver a oportunidade, o assista.

Anúncios

Trumbo – Lista Negra

trumbo3

Quase todos os países do mundo já viveram épocas tenebrosas em suas histórias. Os Estados Unidos não é diferente. Na verdade, o mundo enquanto conjunto civilizatório já viveu diversas épocas tenebrosas e que valeriam variados filmes críticos. Trumbo trata de uma destas épocas sob uma ótica pouco mostrada pelos filmes de Hollywood: a chamada caça à bruxas dentro dos estúdios de cinema durante a Guerra Fria. Eu já tinha lido um bocado a respeito e sabia sobre a perseguição de vários nomes, mas nunca tinha visto um filme tão direto e focado neste assunto quanto este Trumbo.

A HISTÓRIA: Começa explicando que durante os anos 1930, em resposta à Grande Depressão e ao crescimento do Fascismo, milhares de americanos se filiaram ao Partido Comunista dos Estados Unidos. Depois que os Estados Unidos se aliaram à União Soviética durante a Segunda Guerra Mundial, muitos mais se juntaram ao partido. O roteirista Dalton Trumbo, antigo defensor dos direitos trabalhistas, tornou-se membro do partido em 1943. Mas a Guerra Fria lançou uma nova luz de suspeita sobre os comunistas americanos. A história propriamente começa em 1947, na propriedade de Trumbo ao norte de Los Angeles. Vemos o autor trabalhando, o cenário de Hollywood naquela época e o início da caça aos comunistas em Hollywood.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso só recomendo que continue a ler quem já assistiu a Trumbo): Gosto de filmes que falam de cinema e da relação que esta arte tem com a sociedade e vice-versa. Eles não são muito frequentes, por isso é sempre um deleite quando encontramos uma boa produção que trate desta indústria. Trumbo, para ser ainda melhor, não trata de uma fase qualquer da indústria, e sim quando ela mudou para sempre.

Há diversos acertos e alguns pequenos deslizes neste filme. Primeiro, vou falar de todos os acertos – que, em número, excedem em muito as falhas da produção. Para começar, o roteirista John McNamara, baseado no livro de Bruce Cook, acerta em focar a carreira de Trumbo pouco antes dela começar a ser questionada e desmoronar. Não demora muito, assim, para o filme entrar na questão central, que foi a criação pelo Comitê de Atividades Anti-Americanas, criado em 1938, de um inquérito para investigar a Indústria Cinematográfica de Hollywood em 1947.

Ao mesmo tempo que o roteiro de McNamara acerta em ir direto ao ponto e em se debruçar no que aconteceu durante, imediatamente depois e nos anos seguintes deste processo que ficou conhecido como “caça às bruxas em Hollywood”, o filme perde um pouco de contextualização. Eis um motivo para, apesar de soberbo, brilhante e necessário, este filme não ser perfeito.

Valeria ter gasto alguns minutos a mais para explorar melhor aquelas ameaças de greve que aparecem rapidamente no início de Trumbo. Na verdade, elas foram causadas, mais que por influência dos “comunistas”, como o filme pode ter sugerido, por uma mudança de lógica em Hollywood. Na década de 1940 os grandes estúdios, até então predominantes nas decisões de Hollywood, estavam começando a ruir enquanto catalisadores da indústria. Grandes diretores e atores surgiram com poder criativo e de escolha, ditando regras e não mais repetindo as velhas fórmulas dos estúdios.

Neste cenário, naturalmente diversas categorias começavam a exigir mais. Trumbo mostra os designers de produção fazendo piquetes e greve, mas na história de Hollywood há diversos outros profissionais que fizeram isso. Uma das greves mais conhecidas foi a relativamente recente paralisação dos roteiristas de Hollywood entre o final de 2007 e o início de 2008, em uma paralisação que durou 100 dias e que afetou produções para o cinema e para a televisão – confira aqui uma matéria que fala do final desta greve.

Comentei isso apenas para deixar claro que a greve dos designers de produção e as manifestações de outras categorias na Hollywood da segunda metade dos anos 1940 tinha pouco a ver com os comunistas. Verdade que eles defendiam uma outra organização econômica e social, mas nem todos eram panfletários. E mesmo que fossem, eles não faziam isso através dos filmes e sim em sua vida particular. Trumbo, o filme, mostra isso com propriedade.

Gostei muito do roteiro de McNamara e da direção de Jay Roach. Os dois realmente focam no personagem central, o roteirista Dalton Trumbo, mas nem por isso ignoram o que acontece ao redor dele. Verdade que acho que faltou um pouco mais de contextualização histórica, como eu comentei antes. Afinal, depois da prisão e da soltura de Trumbo, passados alguns anos daquela perseguição descabida, parece um tanto inusitado para quem não acompanhou a história de Hollywood o ator Kirk Douglas (interpretado por Dean O’Gorman) bater à porta do roteirista para pedir que ele refizesse o roteiro de Spartacus.

Afinal, quando Trumbo começa, figuras como Louis B. Mayer (interpretado por Richard Portnow), um dos fundadores do estúdio MGM, é quem dita as regras da indústria. Como, anos depois, Kirk Douglas era o produtor de seu próprio filme e, junto com Stanley Kubrick, foi o grande responsável por Spartacus? Isso tem a ver com o que eu disse antes, com a ascensão de diretores como Alfred Hitchcock e de atores como Huphrey Bogart e Kirk Douglas, que ganharam mais independência, autoridade e autonomia, enquanto os estúdios perderam força.

Essa falta de contextualização atrapalha um pouco Trumbo. Senti falta também de serem citados mais nomes perseguidos naqueles tempos. Afinal, verdade que Trumbo fez parte do “The Hollywood Ten” (Os Dez de Hollywood), primeiro grupo identificado e penalizado por ser comunista e trabalhar em Hollywood, mas em junho de 1950 três ex-agentes de FBI e um produtor de televisão de direita, Vincent Harnett, publicaram o Red Channels.

Esse documento listava nada menos que 151 nomes de roteiristas, diretores e atores que passaram a integrar a lista negra do Comitê de Atividades Anti-Americanas. Conforme as pessoas eram convocadas para falar com o Comitê e preferiam ficar caladas, elas também eram listadas – cerca de 320 pessoas passaram a fazer parte desta lista que as impedia, em teoria, de trabalhar na indústria. Entre os nomes incluídos nesta relação estavam os de Leonard Bernstein, Charlie Chaplin, John Garfield, Dashiell Hammett, Lillian Hellman, Arthur Miller e Orson Welles.

Claro que eu não esperava que Trumbo listasse todos esses nomes, mas poderia ter indicado, aqui e ali, no roteiro de McNamara, alguns destes nomes conhecidos além daqueles 10 iniciais que acabaram presos. Mas esses são os únicos aspectos que me “incomodaram” um pouco neste filme, pensando neles especialmente depois que a produção terminou. Porque enquanto o filme está se desenrolando ele é apenas um grande deleite.

Trumbo acerta ao mostrar os bastidores de Hollywood e, principalmente, em focar os efeitos daquela caça às bruxas na vida dos nomes perseguidos e suas famílias. Para mim, o filme tem dois grandes recortes: o óbvio, sobre a indústria do cinema, e o menos óbvio, dos perigos da histeria coletiva e da política do medo. Especialmente o segundo tema é mais do que atual. Nos Estados Unidos, desde o ataque às Torres Gêmeas, a política do medo vive assombrando a população e a cultura do país, provocando estragos particulares e coletivos dentro e fora do país.

Falemos primeiro do recorte sobre Hollywood que o filme faz. Fiquei impressionada não apenas com a interpretação de Bryan Cranston, que está perfeito, mas também com os atores que interpretam personagens importantes daquela época e daquele círculo como Edward G. Robinson (interpretado por Michael Stuhlbarg), Hedda Hopper (a ótima Helen Mirren), John Wayne (David James Elliott), Arlen Hird (Louis C.K.), Buddy Ross (Roger Bart), Frank King (John Goodman), Hymie King (Stephen Root) e Otto Preminger (Christian Berkel). Ainda ainda o já citado Kirk Douglas e uma ponta de John F. Kennedy (Rick Kelly).

Sempre é um prazer ver tantos personagens importantes da história – especialmente de Hollywood – sendo reinterpretados e trazidos novamente “à vida”. A reconstituição de época e os “bastidores” do cinema que permeiam toda a história são interessantíssimos, especialmente para quem gosta do tema. Interessante ver as relações de poder e o jogo de interesses que permeia os diferentes estúdios e profissionais que atuam naquela área, assim como o governo e formadores de opinião – como a jornalista Hedda Hopper. Na época figuras como ela podiam destruir ou, pelo menos, abalar reputações com bastante facilidade.

Essa narrativa dos bastidores de Hollywood não é muito comum e, por isso mesmo, Trumbo se torna um filme diferenciado. No fim das contas, apesar de toda a pressão e “terrorismo” das pessoas que queriam acabar com os comunistas no país, o talento venceu. Com a ajuda inicial fundamental dos irmãos Frank King e Hymie King, Trumbo conseguiu sobreviver e, pouco a pouco, trabalhar cada vez mais – e até em demasia – para pagar as contas e dar estabilidade para a família.

E daí surge o outro aspecto interessante de Trumbo. Ao focar essencialmente em um personagem importante daquela época, o filme dirigido por Roach se aprofunda na personalidade e no cotidiano do personagem, mostrando não apenas o seu talento, mas também o seu contexto familiar e de amizades. Esta produção acerta, sem dúvida, ao fazer isso, porque daí percebemos os efeitos daninhos de uma perseguição aloprada como aquela da caça às bruxas. Vale lembrar também que aquele tipo de perseguição se espalhou pelo mundo, em diferentes países e realidades – no Brasil ela também existiu e, como diz Trumbo, vitimou não apenas a cultura, mas também tirou vida de várias pessoas.

Bueno, voltando para o filme. Ao se debruçar na história de Trumbo, vemos como aquela paranoia coletiva cobrou um preço alto das famílias, que eram hostilizadas por vizinhos e conhecidos e não podiam admitir o que os perseguidos faziam para viver. As pessoas eram condenadas pelo que elas acreditavam e pensavam e não por seus atos. Como Trumbo afirma na entrevista que o filme reproduz apenas uma parte, o tal Comitê de Atividades Anti-Americanas nunca conseguiu provar nenhuma atividade realmente daninha para o país.

O que aquela perseguição provocou foi a perda de liberdade de centenas de pessoas que, no fim das contas, foram impedidas de trabalhar. E sem trabalho, passaram por diversas agruras – algumas morreram, como diz Trumbo, vítimas dos efeitos desta perseguição. No caso do protagonista deste filme, depois que saiu da prisão Trumbo ficou obcecado por fazer exatamente aquilo que a caça às bruxas queria lhe impedir de fazer: trabalhar.

Obcecado por escrever cada vez mais, mas sem a possibilidade de assinar os próprios roteiros, Trumbo virava as noites, trabalhava praticamente o tempo inteiro e sem ter mais tempo para a família – algo que ele conseguia fazer muito bem antes de ser perseguido. O filme mostra muito bem essa mudança e a forma com que Trumbo acaba envolvendo toda a família naquela nova rotina – até que a esposa dele, Cleo (interpretada pela ótima Diane Lane), resolve dar um basta e chamar a atenção do marido sobre a forma repressora que ele adotou em casa.

Esse filme tem grandes momentos – dois que me tocaram muito foi a conversa de Cleo com o marido e as vezes em que a família dele, em casa, torceram para que ele ganhasse os dois Oscar’s que ele ganhou assinando com outros nomes duas produções premiadas pela Academia.

Todo o contexto cruel que cercou todas aquelas vidas é um verdadeiro absurdo. E é bom falar deste absurdo hoje, em 2016, porque há muitas figuras que querem voltar para aquele tempo de censura e de perseguição. É preciso recordar, lembrar, para impedir que histórias assim se repitam. Trumbo funciona muito bem neste sentido. Grande filme, mais uma das boas descobertas apresentadas pelo Oscar 2016.

NOTA: 9,7.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Vale listar os “The Hollywood Ten”: Herbert Biberman, Lester Cole, Albert Maltz, Adrian Scott, Samuel Ornitz, Dalton Trumbo, Edward Dmytryk, Ring Lardner Jr., John Howard Lawson e Alvah Bessie. Eles foram condenados a períodos que variaram entre seis e doze meses de prisão.

O tema da caça às bruxas feita em Hollywood é fascinante. Vale buscar mais a respeito. Recomendo, para quem quiser iniciar essa pesquisa, este texto bem ilustrativo sobre o Macartismo da Planeta Educação; também este outro texto do blog Ready for My Close Up Now que não apenas traz os nomes e obras dos 10 de Hollywood, mas também os movimentos de solidariedade à eles (algo que Trumbo também ignora); vale dar uma olhada neste texto da revista Época, com outras informações curiosas sobre o período; e, mesmo escapando um pouco do tema, mas complementando ele um bocado, vale a leitura deste texto da História Viva sobre a “colaboração” ou influência direta do Exército americano no cinema até que eles se divorciaram após o Vietnã.

Trumbo não trata do tema, mas o blog Ready for My Close Up Now lembra bem que se existia o MPA (Motion Picture Alliance for the Preservation of American Ideals), que tinha entre um de seus líderes John Wayne, também existia para contrabalancear a balança o Comitê Pela Primeira Emenda que contava com Humphrey Bogart, Lauren Bacall, John Huston, entre outras personalidades que defendiam os 10 de Hollywood. Aliás, falando em MPA, Trumbo não trata disso, mas ela foi fundada por Walt Disney – sim, meus caros! – e tinha como participantes, ainda, Gary Cooper, Barbara Stanwick, Cecil B. DeMille, Ginger Rogers, Ronald Reagan, King Vidor, entre outros.

Uma coisa, e Trumbo aborda bem isso, é alguém “dedurar” um colega para sobreviver, como alegou o ator Edward G. Robinson, interpretado com precisão e brilhantismo por Michael Stuhbarg, outra bem diferente é a delação “por prazer”, praticamente, como aquela feita por Elia Kazan – que era brilhante, mas pisou na bola ao destruir a vida de diversos colegas. Diversos nomes não precisavam ter denunciado os colegas para sobreviver.

O diretor Jay Roach acerta ao apostar no talento de Bryan Cranston e estar sempre próximo do ator, assim como dos outros personagens próximos a ele. Ele faz uma boa e competente direção, mas sem nenhuma grande “invenção”. O que é bom, porque valoriza o trabalho dos atores e o bom roteiro de John McNamara – ainda que ele tenha falhado em alguns pontos que eu já comentei, especialmente na falta de contextualização e da citação de mais nomes daquele contexto histórico.

O elenco de apoio do filme é muito competente – e chama a atenção a quantidade de estrelas. Além de Bryan Cranston, se destacam Helen Mirren, Diane Lane, Michael Stuhlbarg e Louis C.K. Mas além deles e dos outros nomes já citados, vale comentar o bom trabalho dos atores que dão vida para os filhos dos Trumbo: Toby Nichols como Chris Trumbo entre as idades de seis e 10 anos; Madison Wolfe como Niki Trumbo na idade entre oito e 11 anos; Meghan Wolfe como Mitzi Trumbo na idade entre seis e oito anos; Mitchell Zakocs como Chris Trumbo entre os 10 e os 12 anos; Mattie Liptak como Chris Trumbo entre os 13 e os 17 anos; Becca Nicole Preston como Mitzi Trumbo entre os nove e os 12 anos; John Mark Skinner como Chris Trumbo quando ele tem 29 anos; e a sempre competente Elle Fanning como Niki Trumbo na fase universitária/adulta quando ela tem uma troca mais madura com o pai.

Da parte técnica do filme, vale destacar a ótima trilha sonora de Theodore Shapiro; a direção de fotografia de Jim Denault; a edição de Alan Baumgarten; o design de produção de Mark Ricker; a direção de arte de Lisa Marinaccio e Jesse Rosenthal; a decoração de set de Cindy Carr; e os figurinos de Daniel Orlandi. Todos eles, especialmente os últimos, são fundamentais para a ambientação da história.

Achei os irmãos King – que, na verdade, tinham o sobrenome Kozinsky – mais que admiráveis. Eles deram emprego não apenas para Trumbo, mas para vários outros nomes perseguidos pela lista negra. Vale dar uma conferida na história deles neste link da Wikipédia.

Eu nem preciso dizer que Bryan Cranston mais que mereceu a indicação como Melhor Ator no Oscar 2016, né? Grande ator. Espero que ele faça mais filmes excelentes e que logo mais ganhe, por mérito puro, uma estatueta dourada. Este ano não tinha como porque a Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood já devia um Oscar há tempos para o Leonardo DiCaprio, mas eu espero, sinceramente, que a hora de Cranston chegue. Agora, falando ainda e Oscar, Helen Mirren bem que podia ter sido indicada como Melhor Atriz Coadjuvante pelo trabalho neste filme, não? Ela está tão bem que não tem como não odiar a personagem que ela está fazendo. 😉

Trumbo estreou em setembro de 2015 no Festival Internacional de Cinema de Toronto. Depois, o filme participaria, ainda, de outros sete festivais mundo afora. Nesta trajetória, até o momento, o filme recebeu dois prêmios e foi indicado a outros 31. Ele rendeu apenas o terceiro lugar como Melhor Ator para Bryan Cranston no Prêmio dos Críticos de Cinema de Iowa; o Spotlight Award no Festival Internacional de Cinema de Palm Springs para Bryan Cranston e o prêmio de Melhor Ator para Cranston no Prêmio da Associação de Críticos de Cinema Southeastern.

Algo que este filme aborda e que nunca eu vou entender: por que tantas pessoas tem medo de outras que pensam diferente e preferem combatê-las do que aceitar que elas tem o direito de pensar diferente? Isso já aconteceu muito na história da Humanidade – da Inquisição na Idade Média até a “blacklist” de Hollywood – e volta e meia alguém tenta fazer este tipo de medo e de atitude predominar. Temos que estar alertas e cada vez mais defender que todas as pessoas tenham liberdade de pensar diferente – desde que este pensamento não se materialize em crime e infrinja as leis, evidentemente. Neste segundo caso, a aplicação da lei deve ser feita. E isso é tudo.

Agora, algumas curiosidades sobre o filme: o diretor Jay Roach disse que muitas cenas de Trumbo em que o protagonista escreve sozinho na mesa ou na banheira foram improvisadas por Bryan Cranston enquanto as câmeras estavam rodando e que ele realmente estava criando frases para os roteiros que o personagem estaria escrevendo.

O ator Steve Martin comentou que quando ele era muito jovem a sua namorada e a família dela lhe apresentaram novas ideias e oportunidades intelectuais – e o pai dela era Dalton Trumbo, de quem Martin nunca tinha ouvido falar até aquele momento.

Gary Oldman foi cogitado para o papel de Trumbo. Francamente, Cranston faz um trabalho tão impressionante como o roteirista que eu não consigo imaginar mais ninguém como protagonista deste filme.

Importante observar duas “incorreções” do filme. Edward G. Robinson, na verdade, nunca delatou nenhum nome para o Comitê, como Trumbo mostra. Ele testemunhou quatro vezes, mas nunca apontou nenhum nome. Outro personagem, Arlen Hird, não existiu com este nome – ele é, na verdade, um amálgama de vários nomes de escritores que fizeram parte da lista negra. Observando a lista dos 10 de Hollywood, da qual ele teria feito parte, realmente já dá para perceber isso. Curioso não terem escolhido um outro personagem real, não é mesmo? Não vi muito a razão para isso. Também não entendi porque colocar Robinson como delator quando ele não foi – e outros sim.

Trumbo fez pouco mais de US$ 7,8 milhões nos Estados Unidos. Somando com o que a produção fez nas outras bilheterias mundo afora, ele chegou a US$ 8,2 milhões. Ainda pouco para o filme.

Os usuários do site IMDb deram a nota 7,5 para esta produção, enquanto os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 107 críticas positivas e 38 negativas para o filme, o que lhe garante uma aprovação de 74% e uma nota média de 6,7. Fiquei curiosa para ver o documentário sobre Trumbo. Será que é melhor que o filme? Alguém viu e quer comentar? 😉

Esta é uma produção 100% dos Estados Unidos.

CONCLUSÃO: Filme extraordinário e que conta um momento muito importante da história não apenas dos Estados Unidos, mas do mundo. Afinal, enquanto artistas eram perseguidos naquele país, tínhamos situação parecida no Brasil quando por aqui tivemos ditadura militar, e em tantos outros países em fases um pouco anteriores ou posteriores. Bem narrado, com um ator de primeiríssima linha como protagonista e um belo elenco de apoio nos outros papéis, Trumbo é um destes filmes inevitáveis para quem gosta de cinema.

Quem dera que mais filmes se debruçassem não apenas nas relações e bastidores da Sétima Arte, mas que também falassem de épocas tenebrosas da nossa história coletiva. O filme acerta no ritmo e na crítica, assim como na imersão na história pessoal e profissional do protagonista. Por pouco ele não é perfeito. Senti falta da produção citar mais nomes importantes de Hollywood que foram perseguidos naquela época, assim como explicar um pouco melhor a mudança do “sistema” da indústria, que deixou naqueles anos de ser dominada por grandes estúdios para passar a ser muito mais autoral.

Ich Seh Ich Seh – Goodnight Mommy – Boa Noite, Mamãe

goodnightmommy1

A loucura e a violência se manifestam e, muitas vezes, não conseguimos ver além de seus estragos e efeitos. As causas, as razões e a história que antecederam a insanidade não são conhecidos. Goodnight Mommy é um filme perturbador não apenas por mostrar uma situação fora do esquadro o tempo todo até que a violência domina a cena, mas principalmente por abrir espaço mais para perguntas do que para respostas. Um filme forte, cruel, indicado apenas para os que estão mais preparados para ver a crueldade em sua forma mais bruta.

A HISTÓRIA: Um grupo de crianças cerca uma mulher loira e canta com ela uma canção de ninar. Corta. Um menino corre em um milharal. Ele olha ao redor e não vê nada, até que o seu irmão gêmeo o acerta e o derruba. Depois, os dois meninos voltam para casa. No caminho, Elias (Elias Schwarz) chama por Lukas (Lukas Schwarz), que tomou a dianteira. No lago Elias faz o mesmo, chama por Lukas. Corta. Um carro se aproxima da casa e buzina. Os dois meninos correm e encontram a mãe (Susanne Wuest) com o rosto todo enfaixado. O encontro não é dos mais afetivos. Acompanhamos a relação destes personagens.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Goodnight Mommy): O tom predominante neste filme é o de estranheza. Os meninos, irmãos gêmeos, vivem colados, parecem não ter uma vida independente. Quando a mãe chega, com o rosto e a cabeça toda enfaixada, sabemos que algo de muito errado aconteceu antes. O que aconteceu com eles é apenas a primeira de muitas perguntas que esta história irá levantar.

O encontro entre os meninos e a mãe não demora muito para acontecer. E daquele momento em diante o espectador fica se perguntando o que está acontecendo. Afinal, por que a mãe dos gêmeos não reconhece e não interage com um deles? Em certo momento esta resposta vem à tona mas, até lá, você tem dois caminhos lógicos para seguir – dentro do que um filme como este permite de lógica, claro.

Fiquei observando os gêmeos. Além deles estarem sempre quase colados, claramente eles praticamente falam a mesma coisa. E quando falam algo diferente, quem realmente é “escutado” é Elias. Ora, será que a mãe deles está desprezando de fato alguém real? (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Daí surgem duas interpretações possíveis e bem diferentes para esta história. Francamente, desde o início do filme, acreditei na primeira. Mas a segunda é tão viável quanto a primeira – dependendo das tuas crenças e pontos de vista.

Conforme as poucas informações que o espectador vai recebendo no desenrolar da história, sabemos que a mãe dos gêmeos está se recuperando de um acidente gravíssimo. Não sabemos com certeza se foi nesse acidente que Lukas morreu, mas de fato o menino foi vítima de algum acidente do qual a mãe faz questão de inocentar o outro filho. Após o acidente, a mãe dos meninos se divorciou e, agora, tem que lidar com a própria recuperação e com o comportamento estranho de Elias.

Logo no início do filme achei o comportamento dos gêmeos muito estranho. E comecei a reparar que um deles, provavelmente, não existia. Daí surge a primeira interpretação possível deste filme – e foi a que eu adotei durante praticamente a história toda. Lukas, na verdade, só existe na imaginação de Elias. Antes de saber que o garoto realmente existiu, eu achei que Lukas fosse o “irmão imaginário” de Elias. Depois que a mãe insiste com o filho de que ele não foi culpado pela morte de Lukas, temos certeza que o garoto existiu.

Mas então por que Elias segue tratando Lukas como se ele ainda existisse? Novamente, duas interpretações possíveis. Da minha parte, acho que Elias, como tantas outras pessoas, teve dificuldade de lidar com a perda. Ao invés de aceitar que o irmão morreu, ele seguiu imaginando Lukas do lado dele como antes. Como se o irmão fosse um amigo invisível, ele interage com Lukas o tempo todo, inclusive ao ponto de tomar algumas atitudes como se o irmão estivesse o levando àquilo – comportamento explicável após um trauma importante.

O erro da mãe do menino foi não levar tão a sério essa situação. Ela não deveria ter desprezado o fato do filho seguir interagindo com Lukas mesmo depois do garoto ter morrido. Claro que ela estava também em choque e ainda tendo que lidar com a própria perda e com a recuperação de sua saúde, mas ela deveria ter pedido ajuda de alguém, talvez de algum familiar ou, especialmente, de um psiquiatra ou psicólogo. O garoto deveria, imediatamente, ter passado por um tratamento. Ao desprezar o que estava acontecendo ela abriu caminho para a loucura do menino chegar ao extremo.

Essa é uma forma de analisar o que aconteceu. Outra forma, e que acho menos plausível, é a de que Lukas de fato estava junto com Elias o tempo todo, mas como espírito. Ou seja, o menino que tinha sido morto tragicamente voltou para acompanhar o irmão, pela forte ligação que os gêmeos tem e, de fato, influenciou nas decisões de Elias. Juntos eles não aceitaram a mãe quando ela voltou, torturando-a para saber a “verdade” e, depois, acabando com ela sem, aparentemente, sentir remorso. Afinal, “ela não era a mamãe”.

Aparentemente Elias, que é a pessoa real em questão, parece não sentir nada. Ele tem um comportamento estranho, deslocado da realidade. Procurando saber um pouco mais sobre o estresse pós-traumático, encontrei esse interessante artigo que ajuda a explicar, talvez, pelo que o garoto passou: distresse. Vale citar um trecho: “Há uma organização psicofísica que sustenta a pessoa no estado de distresse, criando a percepção de que o mundo é de um certo modo – no caso, hostil – e produzindo repetições infinitas de pensamentos, fantasias, pesadelos e sentimentos em torno de uma mesma questão, criada e mantida por um padrão alterado de funcionamento”.

Há mais informações sobre essa situação de distresse. Francamente, vejo que Goodnight Mommy se justifica não pela crueldade e violência que o filme apresenta, mas pelo alerta que ele nos dá sobre o perigo que situações traumáticas podem ter quando o estresse e o distresse causados por elas não são levados a sério e tratados. Esta é a minha leitura do filme. Acho que Elias não aceitou a morte do irmão e que reagiu muito mal com o retorno da mãe, vivendo uma realidade recheada de terror e de fantasia. Os pais dele desprezaram os efeitos deste trauma e deu no que deu. De arrepiar a crueldade do garoto.

Outra forma de interpretar o que aconteceu é aquela que eu comentei antes, esquecendo o viés psicológico e abraçando o viés paranormal. Lukas seria, assim, o espírito “vingador”, aquele que não aceitou que morreu e que volta para tentar ter a vida que tinha antes. Como ele não é reconhecido pela mãe, ele também não a reconhece e “inspira” o irmão a acabar com tudo aquilo.

No fim do filme, independente da interpretação que se faça para a reação de Elias e a relação dele com Lukas, o filme dá a entender que todos ficam juntos “após a morte”. Um final um tanto estranho, fantasioso, como o próprio começo do filme. No fim, tudo parece um tanto irreal. Seria a forma dos diretores e roteiristas Severin Fiala e Veronika Franz encararem histórias como essa com certo tom de fantasia e irrealidade?

Sabemos que histórias como a mostrada por Goodnight Mommy aconteceram e/ou podem acontecer. O filme acerta quando mostra as situações com crueza – ainda que várias cenas sejam perturbadoras demais. Por isso mesmo é estranho aquele final que tenta “embelezar” ou deixar uma mensagem fantasiosa sobre o que aconteceu. Achei tão sinistro quando o restante do filme que, francamente, não é fácil de assistir. Mas algo tem que ser dito: o trabalho de Fiala e Franz leva a sério a loucura e a violência que pode advir de um distúrbio psicológico. Que o filme sirva de alerta para muitas famílias e pessoas que passam por situações de violência e ficam traumatizadas com elas.

NOTA: 8.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Tudo neste filme foi pensado para que reforçar o tom de estranheza e de deslocamento da realidade. Do roteiro e da direção da dupla Severin Fiala e Veronika Franz até a trilha sonora asfixiante em muitos momentos de Olga Neuwirth e a direção de fotografia exageradamente luminosa e com muitos contrastes de Martin Gschlacht.

Da parte técnica do filme, vale comentar também o bom trabalho do editor Michael Palm. Funcionam bem também o design de produção de Hubert Klausner e Hannes Salat e os figurinos de Tanja Hausner. Como é um filme contemporâneo, as escolhas que ressaltam a ideia de “história de pessoas comuns” funcionam.

Os meninos Lukas Schwarz e Elias Schwarz fazem um trabalho bastante honesto e, dentro da proposta do filme, bastante convincentes e assustadores. A atriz Susanne Wuest também ajuda no reforço desta mensagem de estranheza. A tensão está no ar o tempo todo e o espectador, de forma acertada, fica esperando que algo de ruim aconteça. Ainda assim, quando o pior de fato acontece, não estamos suficientemente preparados para isso. Mérito da criatividade dos realizadores, que levam à fundo a crueldade e o deslocamento da realidade. É preciso ter muito cuidado com distúrbios psicológicos, está claro.

O filme é centrado nos dois irmãos e na mãe deles. Mas vale citar a rápida aparição de outros atores, como Hans Escher como o padre que leva os meninos de volta para casa; Christian Steindl como o sacristão que recebe Elias; Christian Schatz como o fazendeiro que pede para o menino se afastar das chamas; e Georg Deliovsky como o entregador de pizzas. Como se pode notar, fora os meninos que protagonizam a história, todos os demais não tem nome, são identificados apenas por suas “funções” na história.

Francamente eu não gostei muito desse filme. Daria, originalmente, uma nota ainda menor que a que dei acima. Achei um filme muito pesado, muito cruel e perturbador. Mas depois que o filme terminou, refleti sobre ele e vi um alerta importante nesta história para as situações traumáticas e seus efeitos. Além disso, também observei a forma com que ele deixa pelo menos duas interpretações possíveis. O que, inicialmente, é sempre válido. Analisando tudo isso, resolvi dar a nota acima. Ainda que, para o meu gosto pessoal, o filme merecia uma avaliação um tanto menor. Só dei o 8 porque acho que a mensagem de alerta dele é importante – se levarmos em conta a interpretação de que Elias reagiu daquela forma por causa do distresse.

Goodnight Mommy estreou em agosto de 2014 no Festival de Cinema de Veneza. Depois, o filme participou de outros 41 festivais mundo afora. Uma carreira impressionante entre festivais, sem dúvida. Neste trajetória o filme ganhou 17 prêmios e foi indicado a outros 25.

Entre os prêmios que recebeu, destaque para os de Melhor Filme, Melhor Diretor, Melhor Direção de Fotografia, Melhor Maquiagem e Melhor Design de Produção no Festival de Cinema Austríaco. O filme também ficou na lista dos cinco melhores filmes em língua estrangeira da National Board of Review.

Não há informações sobre o custo de Goodnight Mommy, um filme 100% produzido pela Áustria, mas há informação sobre o resultado dele nas bilheterias dos Estados Unidos: cerca de US$ 1,18 milhão. Pouco, muito pouco.

Agora, algumas curiosidades sobre este filme: os atores não receberam o roteiro do Goodnight Mommy, para decorá-lo antes, e a produção foi totalmente rodada em ordem cronológica. No total, 240 gêmeos fizeram os testes para os papéis principais.

Goodnight Mommy foi a indicação da Áustria para o Oscar 2016. O filme acabou não ficando entre os cinco finalistas ao prêmio. Francamente, não merecia mesmo.

Para quem gosta de saber aonde os filmes são rodados, Goodnight Mommy teve como locação a propriedade em Schlossgasse, 2, em Raabs an der Thaya, na Áustria.

Os usuários do site IMDb deram a nota 6,7 para esta produção, enquanto os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 98 críticas positivas e 18 negativas para o filme, o que lhe garante uma aprovação de 84% e uma nota média de 7,3.

Fiquei curiosa para saber mais sobre os realizadores deste filme. Goodnight Mommy é o quarto filme no currículo do diretor Severin Fiala e o segundo no currículo da diretora Veronika Franz. Antes deste filme Fiala dirigiu a dois curtas e ao documentário Kern – este último codirigido por Veronika Franz.

CONCLUSÃO: Um dos filmes mais cruéis que eu assisti em muito tempo. Goodnight Mommy parece fora do esquadro desde o início. Sabemos que algo está muito errado naquela história, e ela só vai piorando com o tempo até que acaba em um desfecho trágico. Filme psicológico ou paranormal, ele tem duas possibilidades de interpretação muito claras. Da minha parte, achei violento demais e sem um propósito definido além de provocar repúdio no espectador. Entre as produções mais estranhas dos últimos tempos, ele deixa mais perguntas que respostas no ar. Algumas vezes isso funciona mas, em outras, nos faz perguntar a razão de tudo aquilo. Talvez a falta de razão seja a resposta.