Un Prophète – A Prophet – O Profeta

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Um homem é definido por suas circunstâncias. Mas não apenas por elas. Un Prophète abre a temporada de críticas das produções que disputam uma vaga na categoria de melhor filme estrangeiro do Oscar 2010 com maestria. Perfeito em cada detalhe, especialmente em seu roteiro, direção e no trabalho de seus atores, o representante francês para uma vaga no próximo Oscar mereceu os prêmios recebidos até agora – e os que virão. Un Prophète é um filme potente e possivelmente um dos mais realistas sobre a escola do crime chamada cadeia. Mas paralelo a esse tema, acaba ganhando protagonismo na história conceitos como perseverança, honra, conflitos raciais e de minorias, marginalização social, luta pela sobrevivência, entre tantos outros. Um filme complexo, crítico e sensível ao mesmo tempo.

A HISTÓRIA: O jovem Malik El Djebena (o fantástico Tahar Rahim) acompanha, na delegacia de polícia, a chegada revoltada de mais um preso. Ele acaba de ser informado por seu advogado (Rabah Loucif) que terá que cumprir uma condenação de seis anos de prisão. A caminho da penitenciária, ele guarda no velho tênis um bilhete de dinheiro e vê, pelo vidro do veículo, as últimas paisagens a que terá direito de vislumbrar por muito tempo. Chegando na prisão, ele vive sozinho, até que o grupo liderado por César Luciani (o excelente Niels Arestrup) lhe coloca contra a parede em um plano de homicídio dentro da penitenciária. Sendo obrigado a se aproximar dos bandidos da Córsega, Malik é visto pelos árabes, sua etnia de origem, como traidor. Para sobreviver dentro da prisão, ele se submete às ordens de Luciani, mas insiste em dizer que trabalha para si mesmo.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Un Prophète): Este filme impressiona pela maneira natural e “simples” com que trata o drama do protagonista. Não há pirotecnia e nem exageros na direção, nos efeitos visuais ou especiais. Não. O que interessa ao diretor e roteirista Jacques Audiard é assumir a posição de uma testemunha ocular invisível da história de Malik. A câmera está sempre próxima do protagonista, presente o tempo suficiente para registrar seus diferentes momentos de tensão, medo, vergonha, dúvida e satisfação. Mas não assumimos os olhos de Malik, a narrativa não é feita em primeira pessoa – ainda que ela esteja centrada no rapaz preso aos 19 anos que vai se tornando um criminoso pior a cada momento de sua condenação. As câmeras de Audiard estão sempre próximas e, em alguns momentos, chegam até a revelar os sonhos e a imaginação do protagonista. Um trabalho que se aprofunda no cotidiano, na imaginação e nos desejos de um rapaz que não tem família ou perspectivas, mas que é colocado à prova constantemente.

Há muito tempo eu não assistia a um filme que questionasse de forma tão potente a questão das circunstâncias, do “destino” e da capacidade do homem em sempre fazer as suas escolhas – mesmo quando tudo pareça ir contra a sua própria autonomia. Malik tenta, a todo custo, fugir da “missão” imposta por Luciani de matar Reyeb (Hichem Yacoubi), um preso que tenta um acordo judicial em troca de dedurar os seus comparsas. Como praticamente todos os bandidos, Luciani também obedece a um superior. No caso de Un Prophète, o nome do “chefe” de Luciani é Jacky Marcaggi, que pede a cabeça de Reyeb. Sem querer arriscar um de seus homens, Luciani vê no isolado árabe Malik sua arma perfeita.

Não vou estragar as surpresas do filme, porque isso seria um pecado, mas queria comentar como Malik impressiona por sua paciência em esperar o momento certo para tudo. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Inicialmente, ele tenta denunciar a coação de Luciani para o diretor do presídio, mas ele logo percebe que o chefe de detenção (Frédéric Graziani) come nas mãos do bandido corsário. No melhor estilo “ou mata, ou morre”, ele extermina Reyeb em uma sequência de forte impacto e verdade. E a partir deste momento, em uma de várias escolhas líricas dos realizadores deste filme, a vítima de Malik passa a conviver com ele. Em sua solidão, o “fantasma” de sua primeira vítima fatal lhe acompanha como seu único parceiro fiel. Culpa e absolvição estão em jogo, e não apenas neste caso.

(SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). De qualquer forma, Malik sabe os momentos certos de se submeter aos desejos e desígnios impostos por Luciani da mesma forma com que aprende muito rápido os caminhos para fazer os seus próprios negócios e alianças. O rapaz impressiona por sua perspicácia e, com suas atitudes, demonstra como mesmo no pior dos cenários e sob as mais duras circunstâncias o indivíduo ainda pode fazer o seu próprio caminho. Que este não fosse o caminho ideal ou desejado no início, mas pelo menos ele foi diferente do que os outros, que se sentem donos do destino de alguns, haviam traçado. Claro que Malik não havia planejado se tornar um assassino ou um traficante antes de entrar no presídio. Mas levado pelas circunstâncias, ele fez o que era necessário para sobreviver e, por mais absurdo que isso pareça, sair “limpo” desta experiência. E ele aprendeu muito no caminho.

Curioso como o protagonista, até entrar no presídio, não tinha uma ligação muito forte com suas origens. Não sabemos com detalhes as razões que o levaram a ser preso, nem sabemos muito sobre sua vida anterior, fora do crime. Mas no momento em que ele dá entrada no presídio, somos apresentados a algumas pistas importantes – que ganham mais detalhes quando ele se inscreve na escola da instituição. Tudo indica que ele foi abandonado pelos pais ou deixou a família muito cedo. Crescendo nas ruas, ele aprendeu a se virar muito rápido, cometendo pequenos crimes e estudando em um reformatório até os 11 anos. Quando passa pela triagem no presídio, fica subentendido que ele foi condenado por agredir a policiais – provavelmente após ter se envolvido em algum crime pequeno. Mesmo sendo de origem árabe, ele não seguia nenhuma religião. Por isso, não tinha problemas em comer carne de porco ou em ficar em uma ala em que não se previa orações pontuais como é costume entre os árabes.

Curioso como, ao ficar isolado do mundo, Malik se viu obrigado a olhar para si mesmo. Pouco a pouco ele foi aprimorando a própria capacidade de observação, aprendendo mais sobre suas origens árabes, seus costumes e religião. Também aprendeu sobre os corsários e sentiu na pele o preconceito que muitos árabes sofrem na França. Como nos morros dominados por traficantes, ele serviu como uma ferramenta para os poderosos – prestando serviços cada vez mais complexos para sobreviver. (SPOILER – não leia… bem, você já sabe). Autodidata, ousado e inteligente, ele aproveitou o tempo que passou na cadeia para aprender a língua dos corsários, assim como aprendeu a ler e escrever corretamente. Ousado, ele se aproximou de pessoas que não faziam parte do círculo de Luciani, como o árabe Ryad (Adel Bencherif), que conhece nas aulas do presídio; e o traficante Jordi – O Cigano (Reda Kateb). Com eles, Malik consegue estabelecer parcerias que acabam sendo sua alternativa para sobreviver.

Un Prophète é um filme excepcional. Bem dirigido, com um roteiro perfeito e atores muito, muito competentes, não há o que questionar desta produção. Ela funciona com perfeição em cada detalhe. Gosto da levada sombria e acizentada da direção de fotografia de Stéphane Fontaine, por exemplo. A permanente sensação de que algo de muito ruim vai acontecer com Malik a qualquer momento mantêm o clima tenso da história – e o interesse do espectador. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). O que irá acontecer com o protagonista depois que ele deixa a prisão, não sabemos. Mas o importante de Un Prophète não é apresentar um personagem perfeito ou que não irá sucumbir nunca mais ao crime. O que interessa desta história é a capacidade de Malik em sobreviver, em seguir vivo da melhor forma possível e, ao mesmo tempo, buscando a sua própria verdade.

NOTA: 10.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Un Prophète mostra uma direção cuidadosa e inspirada de Jacques Audiard. A câmera orquestrada pelo francês está permanente em busca das imagens que expliquem, sem palavras, o que está acontecendo. Assim, temos closes das mãos de Malik quando ele dobra, cuidadosamente, a desgastada nota de dinheiro quando está indo para o presídio; ou os detalhes de como os presos fazem mercadorias ilegais entrarem no local de segurança pública através da cozinha ou da lavanderia. Malik vira “porteiro” na prisão e, assim, percebe a aprende com os detalhes do que acontece ao seu redor. Audiard está atento a cada um destes pequenos detalhes e, ao mesmo tempo, às nuances interpretativas de seus atores.

Para dar força a esta história, Audiard contou com o excelente trabalho de edição de Juliette Welfling. A sequência em que Malik incorpora a função de “olhos e ouvidos” de Luciani, ou quando o protagonista entra em ação em cenas de brutalidade e assassinato, revelam a importância de uma boa edição e da segurança do diretor neste filme. A verdade é que Audiard se cercou de profissionais muito competentes, o que fica evidente pela qualidade técnica vista nesta produção.

O roteiro de Un Prophète é assinado por Audiard e por Thomas Bidegain. Eles trabalharam sobre o texto original de Abdel Raouf Dafri e Nicolas Peufaillit, o primeiro, um dos novos expoentes do cinema francês. Misturando uma narrativa em certos momentos um tanto pop – com a já tradicional pausa para a inserção dos nomes de alguns personagens importantes – com uma levada essencialmente crua, Un Prophète segura o interesse do público em pouco mais de duas horas e meia graças, principalmente, ao trabalho do diretor e do ator principal, Tahar Rahim.

Ainda que pouco presente na produção, a trilha sonora de Alexandre Desplat se mostra fundamental em determinados momentos da história – como deveriam ser todas as trilhas sonoras de filmes.

Não deixa de ser curiosa a “população presidiária” mostrada pelo filme. Quando Un Prophète inicia, domina o cenário os presos políticos ligados à Frente de Libertação Nacional da Córsega – conhecida também como Armata Corsa. Segundo este breve texto da Wikipédia, o movimento político que defende a independência da Córsega frente ao domínio francês foi criado em 1976 e é conhecido por utilizar métodos similares ao da máfia italiana – o que fica evidente no filme. Mas, pouco a pouco, conforme os anos dentro da prisão vão passando, começa a crescer no presídio a população de muçulmanos, o que reflete a realidade da população carcerária francesa.

Segundo este texto de 2004, mais de 50% dos presos na França naquele ano eram muçulmanos. O intelectual Tahar Ben Jelloun comenta, nesta entrevista, por exemplo, que na maior prisão de Marselha (uma das cidades importantes para a história de Un Prophète), em 2002, quase 70% da população carcerária era de origem não-francesa. Estes são detalhes que tornam a narrativa do filme ainda mais realista, especialmente porque o tema de origem étnica e das diferenças religiosas e culturais joga um importante papel na história.

Un Prophète estreou no Festival de Cannes em maio deste ano. Ele não saiu com o prêmio principal do evento, mas garantiu o Grande Prêmio do Júri para o diretor Jacques Audiard. Este mês, a produção francesa se consagrou com o prêmio de melhor filme do 53º Festival de Cinema de Londres. Na ocasião, a atriz Anjelica Huston, presidente do júri, considerou Un Prophète um filme perfeito, acrescentando que ele tem a “ambição, a pureza de visão e a clareza de propósitos que o tornam um clássico instantâneo”.

Os usuários do site IMDb deram a nota 8,1 para o filme. Até o momento, a crítica internacional falou pouco da produção. O Rotten Tomatoes, por exemplo, registra apenas uma crítica sobre Un Prophète. Assinada por Liam Lacey, do Globe and Mail, a crítica destaca a direção “sensacional” de Audiard e o “desempenho convincente” de Rahim como elementos fundamentais para que a audiência mantenha o interesse na história. O crítico também afirma que a história se mostra, algumas vezes, “desconcertante ao traçar as complexas alianças e rivalidades entre as gangues e seus chefes” no presídio.

Para o crítico Richard James, neste texto do In The News, Un Prophète apresenta um ritmo de ação “implacável” e, sobretudo, um drama sobre crimes “verdadeiramente original”, com um personagem principal que apresenta uma profundidade real. Estou totalmente de acordo com James, que ainda classifica as interpretações de Rahim como “soberba” e a de Arestrup como “fantástica”.

Um detalhe sobre Un Prophète: apesar de ser uma produção essencialmente francesa, o filme também recebeu dinheiro da Itália. No roteiro, são faladas três línguas: a francesa, a árabe e a corsa (que se assemelha ao dialeto toscano, tendo como base o idioma italiano).

CONCLUSÃO: Um filme potente e que busca o realismo no cotidiano de uma prisão francesa. Un Prophète se lança no árduo caminho de se aprofundar nos sentimentos e nas motivações de um jovem de 19 anos que cai em um presídio e se torna, pouco a pouco, um homem formado no mundo do crime. Com uma direção primorosa e um protagonista impecável, Un Prophète ganha destaque entre as produções do gênero pelo realismo e pela profundidade com que trata o seu personagem principal, como já foi citado. Mas, especialmente, este filme se destaca por equilibrar os elementos anteriores com um olhar sensível sobre a realidade, as fantasias, a imaginação e a capacidade de se conectar com o que acontece ao seu redor por parte do protagonista (ou, para alguns, pela forma com que seu sexto sentido é mostrado pela história). Como os grandes filmes do gênero, Un Prophète apresenta algumas cenas muito duras, inclusive de violência, mas todas perfeitamente justificadas. Uma grande história sobre valores e a incapacidade do sistema prisional em “reformar” criminosos especialmente bem contada.

PALPITE PARA O OSCAR 2010: Ainda é cedo para lançar um palpite certeiro sobre o futuro de Un Prophète no próximo Oscar – afinal, ainda tenho que assistir aos outros 63 pré-candidatos (porque La Teta Asustada eu já vi). 😉 Mesmo assim, não tenho medo de arriscar: o candidato francês à estatueta mais cobiçada da grande indústria do cinema deve estar entre os cinco finalistas. Também acho que ele corre, desde já, como um dos grandes favoritos.

Em outras palavras, ele tem boas chances de ganhar. Quer dizer, isso se ele vencer outros candidatos muito fortes, como o alemão Das Weisse Band (o próximo na minha lista para ser assistido), o iraniano Darbareye Elly, o italiano Baaria, o coreano Madeo, o inglês Afghan Star e, (admito que essa é uma torcida minha), quem sabe, até mesmo o peruano La Teta Asustada. Este último, aliás, comentado aqui no blog. Não sei se a produção francesa terá forças para ganhar o Oscar de filme estrangeiro, mas acho que seria uma injustiça se ele ficasse de fora da lista dos finalistas.

Dance Flick – Ela Dança com meu Ganso

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Tem filmes que, muito antes de assistí-los, sabemos que será um desperdício de tempo. Mas somos levados a conferir estas produções por diferentes razões. Eu sabia que Dance Flick era a nova investida dos irmãos Wayans, os criadores da “onda besteirol” lançada com os dois primeiros Scary Movie. Então fui preparada para assistir a esta paródia dos musicais. Francamente, como muitos dos filmes da “nova geração” de musicais é mais do mesmo e apresenta uma história fraquinha, eu até achava que eles mereciam uma tiração de sarro. Mas, desta vez, os Wayans ficaram muito abaixo do que se esperava e conseguiram apenas fazer uma salada de frutas de referências de musicais com pouca carga prática de humor. O filme se mostra um bocado arrastado, com cenas de “dança” um pouco longa demais e, como qualidade, apenas algumas boas tiradas espalhadas pela produção aqui ou ali.

A HISTÓRIA: Em um ringue de dança, dois grupos se enfrentam. De um lado, a turma de Thomas (Damon Wayans Jr.) e A-Con (Affion Crockett), de outro, o grupo 409, liderado por Truck (Craig Wayans). Um acidente acaba dando a vitória para o 409. Com a derrota, Thomas e A-Con devem prestar contas para o mafioso viciado em comida Sugar Bear (David Alan Grier). Enquanto não aparece a oportunidade da dupla tentar uma revanche na dança, Thomas conhece a Megan (Shoshana Bush), uma garota do interior que vai morar com o pai alcóolatra depois que a mãe morre em um acidente de carro.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Dance Flick): Como eu disse em repetidas vezes anteriormente, aqui mesmo no blog, as expectativas são fundamentais na nossa vida e na impressão que acabamos tendo da arte – e dos filmes, em particular. Grandes expectativas, normalmente, são ruins – exceto no caso de obras-primas. Dance Flick, claro, não me despertava nenhuma expectativa. Melhor dizendo, eu esperava ver a uma bomba. Talvez por isso, até eu não tenha considerado este filme um lixo assim tão monumental.

A verdade é que ele começa chato. Não sei vocês, mas achei aquela sequência inicial – e que, infelizmente, praticamente se repete no final, com pouca variação – muito chata e longa. Ok, eles querem exagerar nas coreografias para mostrar o absurdo que são estas sequências de “duelo” artísticos nos musicais… entendi a piada, mas ela podia ser mais curta e ligeira. Depois deste começo “descerebrado”, o roteiro escrito por cinco Wayans (comento sobre cada um deles mais abaixo, na seção “obs de pé de página”) parte para a apresentação da “heróina” da trama, a encantadora, ambiciosa e desajeitada Megan. Neste ponto o filme começa a melhorar.

A primeira grande sequencia do filme, para mim, foi o acidente com a mãe de Megan. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Muito boa a sacada do acidente de trânsito sugerir a participação de pessoas como Lindsay (Lohan, atriz), Brandy (cantora) ou Halle (Berry, atriz, que aparece como Mulher-Gato), celebridades envolvidas em casos recentes de violência no trânsito. Sim, o humor deles, algumas vezes, é pesado. Algo visto antes na filmografia dos irmãos Shawn e Marlon Wayans, criadores do Scary Movie.

Os irmãos, aliás, foram muito inteligentes. Eles começaram esta década tirando sarro dos filmes de terror, que voltaram no final dos anos 1990 e nestes últimos anos com força total, e fecharam os anos 2000 fazendo paródia de outro fenômeno deste período: os musicais. Na verdade, a tentativa deles era a de repetir o sucesso de Scary Movie – mas eles ficaram muito distantes disto. Primeiro, porque os nove anos que separam estes dois filmes (Dance Flick e Scary Movie) foram forrados de filmes do gênero “comédia-escrachada-e-autorreferenciada-no-cinema”. Depois, porque eles simplesmente não conseguiram manter a qualidade de seu roteiro.

Mas voltando a Dance Flick. O filme faz paródia de exatamente 23 cenas de dança e/ou personagens de diferentes filmes (não apenas musicais). O problema desta grande quantidade de referências é que há personagens colocados no meio da história sem qualquer lógica, como no caso de Ray (George Gore II), uma claríssima referência à premiada interpretação de Jamie Foxx no filme homônimo sobre Ray Charles. Em Dance Flick, ele aparece em cenas desastradas e que não tem nenhuma serventia para a história central. Por outro lado, a personagem de Tracy Transfat (Chelsea Makela), claramente inspirada na Tracy Turnblad interpretada por Nikki Blonsky no filme Hairspray é pouco explorada pela história dos Wayans.

O casal de protagonistas vive o clássico papel de “estudantes-de-origens-muito-diferentes-que-acabam-ficando-juntos-apesar-dos-pesares” e, claro, como em 99% dos musicais estrelados por jovens, por causa da dança. Shoshana Bush e Damon Wayans Jr. são bons atores, mas não tem a química adequada para convencer como o casal principal de Dance Flick. Apesar disto, individualmente, eles se saem bem. Mas o problema desta produção, além dos fatos já comentados, é que suas piadas são previsíveis e bobas demais, na maior parte das situações, e também por seus personagens, na maioria, caricatos demais. Um dos mais irritantes, para mim, é o do “mafioso” Sugar Bear que faz piadas, essencialmente, com seu peso e sua tara por qualquer tipo de comida. Um bocado patético.

Como passatempo, o filme talvez agrade aos que procuram mais argumentos para fazer piada dos musicais. Afinal, há piadas que fazem referência a clássicos como West Side Story, de 1961, ou Fame, de 1980, até filmes bem mais recentes, como a conhecidíssima cena da protagonista de Little Miss Sunshine, de 2006. Os Wayans atiram para todos os lados. E não deixa de ser um passatempo curioso encontrar, além das homenagens escancaradas, as outras 17 referências a filmes e séries de TV feitas no roteiro – e que vão de Edward Scissorhands até Brokeback Mountain. Dance Flick, aliás, resgata todas as categorias de piadas “infames” do mercado, apontando a metralhadora dos roteiristas para negros e brancos (e suas diferenças), alcóolatras, obesos, homossexuais e o estereótipo do adolescente norte-americano. Mas claro, ninguém esperava nada diferente de um filme como este.

NOTA: 4,5.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Dance Flick ficou léguas distante do megasucesso inesperado de Scary Movie. O filme do ano 2000 que tornou os irmãos Wayans conhecidos custou, na época, US$ 19 milhões e faturou, apenas nos Estados Unidos, quase US$ 157 milhões. Um fenômeno. Dance Flick, por sua vez, teria custado aproximadamente US$ 25 milhões e faturado, entre os norte-americanos, pouco mais de US$ 25,6 milhões. Ou seja, ele mal se pagou.

Um acerto do filme, na minha opinião, é que ele segue um bocado a linha dos musicais – e de muitos filmes pornôs. Ou seja: o que menos interessa é a história central. Tudo que vemos em tela é uma desculpa para coreografias de dança (no caso do pornô, para cenas de sexo, evidente). E, claro, no caso de Dance Flick, a história do filme também serve como “desculpa” para as sequências de humor – ainda que boa parte das piadas tenha pouca graça.

Além dos atores já citados, ganha destaque neste filme o trabalho de Essence Atkins como Charity, irmã de Thomas e amiga de Megan; Christina Murphy como Nora, a “super-rival” da protagonista; e Brennan Hillard como Jack, um estudante gay que é o sonho de consumo de Tracy.

Como prometi anteriormente, vou comentar sobre os cinco roteiristas deste filme. Os irmãos Shawn e Marlon Wayans foram os responsáveis por Scary Movie. Junto com eles, assina o roteiro de Dance Flick: Keenen Ivory Wayans, irmão de Shawn e Marlon; Craig Wayans, primo do trio citado; e o diretor Damien Dante Wayans, sobrinho de Shawn, Marlon e Keenen.

Para completar o “filme em família”, fazem parte da produção Damon Wayans Jr., que interpreta o protagonista, sobrinho de Keenen, Shawn e Marlon; Kim Wayans, que interpreta a Ms. Dontwannabebothered, irmã do trio citado; Cara Mia Wayans, irmã de Damon W. Jr., que faz uma ponta como uma garota no clube; sem contar que Shawn, Marlon e Keenen ainda aparecem no filme em papéis secundários. Uma produção familiar, sem dúvida.

Dance Flick registra avaliações péssimas de público e crítica. Os usuários do site IMDb, por exemplo, deram a nota 3,2 para a produção. O Rotten Tomatoes, por sua vez, abriga links para 66 críticas negativas e 15 positivas – o que lhe garante uma aprovação de 19% ou, o que é o mesmo, uma reprovação de 81%.

CONCLUSÃO: O subgênero de filmes que tiram sarro de outras produções parece, realmente, não ter fim. Desde Scary Movie, a cada ano, é lançado um novo produto nesta linha. Mas Dance Flick, para mim, mostra um pouco o cansaço da fórmula. Isso fica evidente não apenas pela bilheteria minguada – se comparada com a produção que tornou os Wayans famosos no ano 2000 – assim como pela pequena quantidade de grandes sacadas dos roteiristas. Parece que a fonte está secando. Mesmo sofrendo com cenas de dança longa demais e com o excesso de personagens secundários, Dance Flick apresenta algumas grandes e raras tiradas geniais. Recomendado para os que não tem absolutamente outra opção melhor para assistir – e, preferencialmente, espere para que o filme chegue à TV. Não vale a pena desembolsar dinheiro para assistí-lo.

Sugar

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O sonho de fazer a vida nos Estados Unidos (mas que bem podia ser na Europa ou no Japão) visto de maneira realista e através do esporte. Sugar, um filme com orçamento enxuto dirigido por Anna Boden e Ryan Fleck, acostumados a dirigir documentários, nos revela parte dos desafios, da coragem, dos sonhos e da realidade dos imigrantes latinos em um país desenvolvido. A barreira do idioma, da raça e dos costumes são os aspectos mais evidentes, mas entra em jogo também a busca pelo lucro e pelos resultados de um ambiente competitivo como o do beisebol – que encanta torcedores nos Estados Unidos e na República Dominicana, países focados em Sugar. Um filme potente pela naturalidade de seu enredo, pela franqueza com que contrapõe distintas realidades e pela força de seus atores.

A HISTÓRIA: Na ensolarada Escola Profissional de Beisebol do Kansas City Knights, localizada em Boca Chica, na República Dominicana, todos observam os lançamentos de Miguel Santos, conhecido como Sugar (Algenis Perez Soto). O rapaz impressiona pela precisão, força e rapidez de suas jogadas. Mas naquele local, vários são os garotos talentosos em busca de uma oportunidade nos Estados Unidos, onde acreditam que poderão fazer dinheiro e ajudar suas famílias na República Dominicana. Mas Sugar consegue um diferencial quando um olheiro dos Estados Unidos lhe ensina a lançar uma bola com o efeito da “curva spike”. O garoto sabe que se ele treinar e conseguir fazer bem a tal jogada, esta pode ser a sua melhor chance para conseguir sua tão desejada oportunidade em um grande time norte-americano. E ele, junto com um colega de Boca Chica, realmente consegue chegar aos Estados Unidos. Mas antes de pensar em entrar em alguma divisão da liga profissional de beisebol, Sugar deve se destacar no Centro de Treinamento de Primavera do Kansas City Knights em Phoenix.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Sugar): Gosto de filmes que evitam maquiar a realidade. Na mesma proporção, admiro diretores que consideram a interpretação de seus atores como algo tão importante quanto o cenário em que eles desenvolvem suas histórias. Sugar é um filme admirável por respeitar estes aspectos. Para começar, os diretores e roteiristas Anna Boden e Ryan Fleck seguem suas vocações em trabalhar com histórias reais. Os dois filmaram juntos, antes de Sugar, a dois documentários – sendo um deles, um curta. Além destes, Fleck tem no currículo dois curtas de ficção (dramas) e a direção do premiado e elogiado Half Nelson.

Mas falemos de Sugar. Ainda que um de seus temas centrais seja o esporte, este filme não tem como sua principal pretensão emocionar o público com o virtuosismo do beisebol – como outras produções fizeram antes com o boxe ou o futebol americano, para citar dois exemplos. Mesmo o beisebol sendo fundamental para a história, por mostrar como o esporte é um dos canais mais utilizados para a ascensão social de jovens de comunidades pobres mundo afora, este é apenas um dos aspectos desta produção. Possivelmente, o menos importante, porque em lugar do beisebol poderiam ser focados vários outros esportes. Quem se interessar por esta produção por causa do beisebol, vá se preparando para o foco do roteiro em outros temas.

Para começar, Sugar mostra como o esporte tem várias leituras possíveis. Para as pessoas que se dedicam nos treinamentos e tem talento para ele, o esporte é uma vocação. Para os que contratam e treinam estes jovens, um negócio. Para os torcedores e apoiadores das equipes, uma paixão. Sugar mostra com precisão cada um destes lados. A vocação do esportista através de Sugar, o protagonista, mas também pela história de Jorge Ramirez (Rayniel Rufino), Johnson (Andre Holland), Alvarez (Jose Rijo) e tantos outros jogadores. A visão comercial do beisebol através da figura do técnico Stu Sutton (Michael Gaston), um homem que, como toda pessoa em sua posição, deve apresentar bons resultados – e fazer o que é preciso para que eles apareçam. E a paixão dos torcedores pode ser vista na família de Helen (Ann Whitney) e Earl Higgins (Richard Bull), que temporada após temporada recebem jogadores do Swing, o time do coração deles.

Mas o mais interessante é que, além de mostrar o beisebol contextualizado, com todos estes seus “atores” sociais bem representados, Sugar vai além. E ele mostra uma qualidade toda especial quando explora o modo de vida de dominicanos e estadunidenses, seus valores, seus costumes, assim como os tipos de dificuldade que um imigrante latino enfrenta em um país de língua estrangeira. Para começar, não deixa de ser engraçado (ainda que um pouco triste, talvez patético) como na escola profissional em Santo Domingo os jogadores tem “aulas” de inglês. Na verdade, eles são adestrados a repetir frases e expressões específicas do beisebol. Algo comum, infelizmente, em países onde falha o sistema de ensino. Por não saber se comunicar em inglês, Sugar e os demais penam em suas chegadas. A barreira do idioma pode ser especialmente dura e excludente.

Depois, como efeito desta primeira grande barreira, Sugar e os demais devem enfrentar uma solidão das pesadas alimentada também pelas diferenças de costumes. Os Higgins são muito polidos e educados mas estão longe da amabilidade e do contato físico costumeiro de países em que as pessoas tendem a ser menos individualistas – isso serve para República Dominicana, Cuba, Brasil, entre tantos outros. Digo isso porque aprendi um bocado sobre costumes nos anos que vivi na Espanha. Lá, conheci pessoas de diversos países, inclusive dominicanos, cubanos, equatorianos e um longo etcétera que me mostraram as diferenças entre seus costumes.

Sugar também mostra como os imigrantes passam por um momento de deslumbramento. Narrado sempre sob a ótica do protagonista, o filme revela como ele sai de uma realidade simples, de privações, e passa a conviver em um ambiente muito diferente, onde quase todas as possibilidades estão nas pontas dos dedos de quem tem dinheiro. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Sugar fica fascinado, por exemplo, com a beleza e a simpatia de Anne Higgins (Ellary Porterfield), filha do casal que o recebe na temporada do Swing. Espero não ser mal-interpretada, mas Sugar mostra uma característica do homem latino: sua vocação pelo duplo sentido e por entender gestos de simpatia como manifestações de desejo sexual. A religiosa Anne está mais preocupada em levar Sugar para a Igreja e para participar de seus grupos de reflexão e evangelização do que por ter algum caso com o rapaz. Mas para ele, que vê nela a única recepção verdadeiramente carinhosa no país, existe algo mais a ser descoberto.

Entre outras formas de discriminação, a provocada pela raça (ou talvez pela origem dos rapazes) fica evidente na sequencia filmada em uma danceteria estadunidense. Uns rapazes se sentem ultrajados por Sugar e Jorge estarem dançando com duas garotas loirinhas. Racismo e xenofobia entram em cena nesta cena e em algumas outras. Por mais que atitudes como esta sejam absurdas, elas fazem parte da realidade. E este filme acerta ao explorar justamente aspectos do que acontece na vida real. Algo que dá muita força também para esta produção é a forma com que seus diretores mostram as paisagens das diferentes cidades de cada país. Os lugares tem características e impactos diferentes no protagonista, e foi importante para o filme destacá-los como um personagem vivo da história.

Fiquei especialmente surpresa, contudo, com o desenvolvimento da história. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Ao invés de seguir o “caminho fácil” de mostrar como Sugar imigrou para os Estados Unidos e, depois de muita luta, se tornou um ídolo do beisebol, os roteiristas preferiram mostrar o que acontece com a maioria das pessoas como o protagonista. Primeiro, ele viu o amigo e colega de time, Jorge, ser dispensado porque não estava jogando bem. Machucado, Sugar vê a história se repetir com ele, quando Stu Sutton apresenta para o time o “arremessador reserva” Sal (Salvador, interpretado por Kelvin Leonardo Garcia). Salvador era um velho conhecido do protagonista, já que os dois passaram pela mesma escola de beisebol em Boca Chica. Mas diferente de Jorge, Sugar não espera o momento de ser dispensado. Em um ato de extrema coragem, ele abandona o time e viaja para Nova York, para onde o amigo foi depois de sair do Swing.

O filme ganha um renovado interesse neste ponto porque, na nova cidade, Sugar não tem a proteção de um time de beisebol e nem de uma família que o abrigue. Ele está por conta própria. (SPOILER – não leia… bem, você já sabe). Como ocorre com muitos imigrantes, ele encontra uma oportunidade de trabalho com outros latinos. Na verdade, ele escolhe se relacionar, basicamente, com pessoas que falam a mesma língua que ele. Se isso o limita por uma parte e o afasta de conhecer melhor a cultura do país onde ele está momentaneamente, por outro lado se entende a sua atitude porque, entre latinos, ele se sente seguro e acolhido. Existem mais desvantagens que vantagens quando uma pessoa decide viver, praticamente, em um gueto cultural como este. Mas é difícil convencer alguém que ele deve abandonar completamente seus costumes, suas necessidades de afeto e compreensão para ganhar o respeito e melhores oportunidades no país que considera estranho. Os imigrantes são corajosos e valentes, mas também humanos. Sugar nos revela esta complexidade de maneira exemplar.

NOTA: 9,3.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Não sei se todos vocês sabiam disso, mas só depois de assistir a Sugar eu soube que o beisebol é o esporte nacional dos Estados Unidos, da República Dominicana e de Cuba (segundo este texto).

Sugar foi indicado, até o momento, a dois prêmios. O primeiro ao qual ele concorreu foi no ano passado, no Grande Prêmio do Júri do Festival de Sundance na categoria drama – quando ele acabou sendo vencido por Frozen River. Este ano, o filme concorreu ainda como melhor roteiro no Independent Spirit Awards, mas perdeu nesta categoria para Vicky Cristina Barcelona.

Uma curiosidade da produção: o filme utiliza alguns dos sobrenomes dos verdadeiros jogadores do time Swing. Eles não apareceram no filme porque, enquanto Sugar estava sendo rodado, os atletas estavam no meio de uma temporada regular.

Nos Estados Unidos o filme conseguiu um desempenho baixo nas bilheterias: arrecadou, até o dia 9 de agosto deste ano, pouco mais de US$ 1 milhão. Outro filme independente, mas que ganhou certa força após ser indicado a dois Oscar este ano, Frozen River, conseguiu uma bilheteria um melhor: US$ 2,5 milhões.

Quem gostou das paisagens retratadas pelo filme e ficou curioso/a para saber onde Sugar foi filmado, vale comentar que a produção foi rodada em Consuelo e em San Pedro de Macoris, na República Dominicana; e nas cidades de Burlington e Davenport, no estado do Iowa, e em Mesa e Phoenix, no Arizona, todas elas nos Estados Unidos.

Como a maioria dos “pequenos” filmes – falando exclusivamente do orçamento que eles receberam -, Sugar fez uma carreira focada em diferentes festivais mundo afora. Sua carreira começou no Festival de Sundance, em janeiro de 2008, e prosseguiu em outros seis eventos do gênero.

Os usuários do site IMDb deram a nota 7,3 para o filme, enquanto que os críticos que tem textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 92 textos positivos e apenas sete negativos para a produção – o que garante a Sugar uma aprovação de 93%.

Uma grande surpresa do filme é a interpretação naturalista e intuitiva do estreante Algenis Perez Soto no papel do protagonista. O dominicano nascido na cidade de San Pedro de Macoris ganhou os espectadores e recebeu inúmeros elogios dos críticos. Outro ator que não foi citado anteriormente e que faz um bom trabalho é Jaime Tirelli, que interpreta Osvaldo, um imigrante porto-riquenho que acaba dando uma oportunidade para Sugar seguir a sua vocação como carpinteiro.

Na parte técnica do filme, vale citar o trabalho competente da trilha sonora latina de Michael Brook e a direção de fotografia de Andrij Parekh.

CONCLUSÃO: Um filme inteligente, sensível e crítico sobre o sonho americano e a dura realidade dos imigrantes latinos em um país rico e de língua estrangeira. Sugar mistura esporte (especificamente o beisebol) com os elementos anteriores em um drama realista e cheio de esperança. Uma das grandes lições desta produção de baixo orçamento é de que os sonhos mudam e que as pessoas precisam rever seus ideais de sucesso de tempos em tempos. Destaque para a direção segura da dupla Anna Boden e Ryan Fleck que, acertamente, destacam os personagens desta história na mesma medida em que dão importância para as características dos cenários em que a história se desenvolve – tanto na República Dominicana quanto nos Estados Unidos. O estreante Algenis Perez Soto, que interpreta a Sugar, também ganha protagonismo.

Chugyeogja – Chaser – O Caçador

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Quem procura um bom filme de suspense e/ou terror encontra no cinema coreano uma das melhores opções do mercado. Nesta década, as produções asiáticas vêm conquistando espaço ao mostrar criatividade neste segmento, conquistando críticos e público. Chugyeogja surge para se juntar a essa boa safra. Misturando uma narrativa clássica, na maior parte do tempo linear, com um roteiro envolvente, cheio de humor, suspense, violência e alguns dilemas morais, Chugyeogja revela um grande trabalho do diretor e roteirista Hong-jin Na. Os atores desta produção, especialmente o protagonista interpretado por Yoon-suk Kim, também merecem destaque.

A HISTÓRIA: Na movimentada noite de Seul, uma bela garota dirige seu carro ao mesmo tempo em que fala ao celular. Ela busca um rapaz que ainda não conhece pessoalmente. Young-min (Jung-woo Ha) aparece e guia a garota até uma casa, em um bairro periférico da cidade. O tempo passa, e com o desaparecimento da mulher, o ex-policial e agora agenciador de garotas de programa, Jung-ho (Yoon-suk Kim), vai em busca do carro da prostituta desaparecida que trabalhava para ele. Joong-ho não vive uma boa fase. Nas últimas semanas ele perdeu duas de suas empregadas. O ex-policial acredita que elas estão fugindo ou sendo vendidas para um outro cafetão. Com poucas prostitutas a seu serviço, ele obriga a Mi-jin Kim (Young-hee Seo), que está doente em casa, a atender a um cliente. Quando volta ao escritório, Joong-ho percebe que o cliente de Mi-jin é o mesmo das garotas que desapareceram. Neste instante, o ex-policial começa a investigar o caso por sua conta.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Chugyeogja): Eu gosto da ousadia dos diretores coreanos. Eles sabem equilibrar, como poucos hoje em dia, ação, suspense, ironia e terror em seus filmes. Chugyeogja, por exemplo, pode ser considerado um filme policial com requintes de terror. Há cenas bastante fortes – o diretor não economiza na quantidade de sangue que jorra pela tela. Mas cada cena violenta se justifica pelo roteiro, escrito por Hong-jin Na, Won-Chan Hong e Shinho Lee. E mesmo que o filme parece, inicialmente, caminhar pela mesma trilha de outras produções do gênero, a verdade é que ele surpreende por quebrar algumas tendências de um filme policial.

(SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Chugyeogja parece, inicialmente, seguir a velha regra dos filmes focados na perseguição de policiais a um bandido. Mas a lógica do “gato que caça o rato” logo é quebrada, porque o suspense da perseguição ao criminoso não sustenta a história até o final. Não. Jung-ho encontra o psicopata Young-min por acidente (literalmente) no minuto 28 do filme. A partir deste ponto, o criminoso fica detido entre policiais desastrados que, mesmo com a confissão de Young-min, não conseguem encontrar provas de seus crimes. E o pior, o “experiente” Jung-ho não acredita na versão do homem que deu um sumiço nas suas garotas. Provavelmente por culpa, Joong-ho não quer admitir que, enquanto ameaçava de morte as prostitutas, ainda que por “brincadeira” devido a sua revolta, na verdade elas estavam sendo mortas por um homem com complexos sexuais.

O filme segura a atenção do espectador pela qualidade de seu roteiro mas, especialmente, pela direção ajustada de Hong-jin Na e pela edição moderna de Sun-min Kim. O diretor acerta em sua primeira incursão em longas-metragens (antes ele havia dirigido dois curtas). Atualmente, Hong-ji Na está na fase de pós-produção de seu segundo longa, The Murderer. O mais interessante de Chugyeogja é como ele insere na história questionamentos morais. Para começar, seu protagonista é um homem que desistiu da polícia para ganhar mais dinheiro no submundo da moderna Seul. Visto com desprezo por muitos ex-colegas, ele é respeitado pelo detetive Gil-woo (In-gi Jung), que continua seu amigo apesar das más escolhas que o protagonista fez.

Explorando mulheres, Joong-ho se sente culpado, especialmente, pelo sumiço de Mi-jin Kim. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Essa culpa fica ainda maior quando ele descobre que a prostituta tinha uma filha – ele acaba se sentindo co-responsável pelo que pode ter ocorrido com Mi-jin. Pressionado por ter feito a garota trabalhar mesmo doente e pela versão de Young-min de que ela ainda poderia estar viva, Jung-ho tenta desesperadamente encontrar a garota. A sua busca contra o tempo – afinal, em teoria, Mi-jin está gravemente ferida e/ou a ponto de morrer – e a ineficiência da polícia em encontrar provas contra o psicopata é o que mantêm a tensão nesta história. Uma forma diferente, sem dúvida, de narrar um filme policial.

Chugyeogja é um filme policial com várias cenas macabras, mas ele não se limita apenas a isto. O filme se coloca acima da média de produções do gênero também por tocar em temas secundários interessantes, como a crítica mordaz e irônica do trabalho de investigação policial e à disputa, muitas vezes escancarada, de promotores e políticos por espaço na mídia. Esta última situação é explorada ao mostrar como o chefe da polícia se dedica em levar à fundo a investigação dos crimes de Young-min, preocupado em solucionar um caso antigo – chamado de Mapo – e, ao mesmo tempo, em destacar na imprensa um evento que ofusque o ataque que o prefeito recebeu de um cidadão indignado. No fim das contas, a disputa entre o promotor e o chefe de polícia para provar quem é mais eficiente em seu trabalho que desencadeia em um final de arrepiar (e que possivelmente não agrade a muitos, ainda que seja o mais perto da realidade possível).

Interessante perceber que, ainda que inove em alguns aspectos da história, o roteiro de Chugyeogja respeita uma regra de ouro de muitas produções: começa em uma curva ascendente, chegando a um pico narrativo para, depois, diminuir de ritmo, se aprofundando em alguns personagens até que, na reta final, começa a subir novamente a curva da tensão. O suspense se mantêm em bom ritmo até o encontro do protagonista com seu antagonista. Depois deste ponto, a história desacelera para se aprofundar no personagem do ex-policial, sua relação com o próprio passado, o sentimento de honra, justiça e o comprometimento que passa a sentir com a filha de Mi-jin Kim. Além do drama, entra em cena também o jogo psicológico protagonizado por Young-mi, tanto em relação aos policiais (com especial destaque para algumas sequências com a detetive Oh, interpretada por Hyo-ju Park) quanto em relação ao cafetão Jung-ho.

(SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Chugyeogja deve convencer aos espectadores de filmes policiais e/ou de suspense/terror que gostam de uma história bem amarrada e que explica cada detalhe dos acontecimentos. Por isso mesmo, talvez alguns fiquem incomodados, como eu, no princípio, com a atitude de Jung-ho em mandar o seu empregado vasculhar todas as casas que tivessem porão e onde os celulares ficassem sem cobertura desde o início de uma extensa ladeira. Afinal, por que ele não mandou o tal empregado para as proximidades de onde estava estacionado o utilitário de Mi-jin? Tive que assitir ao filme mais uma vez para descobrar a resposta para esta pergunta.

Primeiro que Jung-ho não pede para que o funcionário procure nas casas do início daquela ladeira. Dentro do carro, em certo momento, ele chega a apontar um ponto no alto do morro, comentando que a casa deveria estar ali. Depois, ele não poderia realmente procurar apenas nas casas próximas ao carro de Mi-jin. (SPOILER – não leia… bem, você já sabe). Em certo momento do filme, quando Young-min sai com o carro do casal de amigos do proprietário da casa onde está morando e onde mata suas vítimas, é possível perceber que aquela residência está localizada duas ruas acima do local onde Mi-jin deixou o seu carro. Ainda assim, certamente, teria sido muito mais rápido começar por aquelas imediações do que por onde Jung-ho deixou o seu empregado. Como na maioria dos filmes policiais, cada fração de tempo pode ser fundamental para salvar ou perder uma vida.

NOTA: 9,2 9,5.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Chugyeogja concorreu a três prêmios no Asian Films Awards deste ano, mas recebeu apenas um deles, o de melhor edição para Sun-min Kim. O trabalho do editor é fundamental para a história. Merece destaque também a direção de fotografia de Sung-je Lee e a iluminação de Chol-o Lee. Os dois conseguem, com perfeição, a luminosidade correta em todas as cenas noturnas do filme – que ocupam a maior parte da história.

No material de divulgação do filme, seus realizadores destacam o impacto que crimes em série tem na sociedade ao mesmo tempo em que questionam o comportamento extremamente individualista desta própria sociedade. O texto reflete que nestes contextos, onde as pessoas são “indiferentes aos outros e centradas nos ganhos materialistas individuais”, questões sobre quem são as vítimas de assassinos seriais e que esforços cada pessoa ou a sociedade como um todo poderiam ter feito para salvá-las nunca são levantadas.

O ponto de partida do filme, segundo o mesmo texto de divulgação, é justamente o de uma sociedade e de um indivíduo que se esforça por uma pessoa comum. Interessante essa reflexão e essa carga de “boas intenções” dos realizadores de Chugyeogja. Ainda que o filme revele que as intenções de seu “herói” passam, mais que pelo altruísmo, por sentimentos de responsabilidade e de culpa. Mesmo assim, não deixa de ser curioso o texto de apresentação do filme que destaca o esforço individual de uma pessoa frente à “uma situação absurda e um sistema social deficiente”.

O diretor Hong-jin Na escreveu um texto bem curioso sobre um vilarejo que estava ameaçado por uma inundação e que foi abandonado por seus moradores. Antes de saírem, alguns deles libertaram seus cães – outros continuaram presos com correntes. Como o vilarejo não foi inundado, as pessoas voltaram para suas casas, mas ficaram estarrecidas ao encontrarem boa parte de seus cães de estimação mortos ou mutilados. Hong-jin Na comenta que encontrou um cão branco, com a boca ensanguentada, querendo atacar outro, mas que não sabe se ele teve algo a ver com a morte ou a mutilação dos outros animais. No final deste conto, ele afirma: “este filme poderia ser a história de dois cães de uma aldeia vazia em uma noite muito chuvosa”.

No material de divulgação de Chugyeogja há ainda uma entrevista com o diretor no qual ele afirma que seu filme não critica um indivíduo, mas os problemas de uma organização, porque “quando um indivíduo entra em uma organização, ele se torna parte dela” – no caso do filme, a crítica vai para a instituição policial, é claro. Hong-jin Na responde ainda a uma série de questões envolvendo detalhes do filme, como a presença constante de crucifixos na produção e a falta de resposta sobre as motivações do assassino em série de Chugyeogja. Achei curioso (e bacana) que ele não defende Jung-ho como um herói, comentando que ele não deixa de ser um transgressor que bate em Young-min.

Chugyeogja conta com um trabalho excepcional de seus atores principais, com destaque especial para o desempenho de Yun-seok Kim.

O filme conseguiu uma boa avaliação de público e crítica. Os usuários do site IMDb deram a nota 7,9 para a produção, enquanto os críticos que tem textos linkados no Rotten Tomatoes lhe dedicaram 15 textos positivos e apenas três negativos (o que lhe garante uma aprovação de 83%).

Para os interessados nos filmes coreanos, recomendo este texto que cita alguns de seus expoentes mais importantes, como Chan-wook Park, Ji-woon Kim, Ki-duk Kim, Joon-ho Bong e Je-gyu Kang; e este outro, que fala de uma mostra do cinema sul-coreano promovida em São Paulo este ano.

CONCLUSÃO: Um filme policial sem heróis e que segue técnicas de narrativa conhecidas ao mesmo tempo em que quebra algumas de suas regras. Tenso, potente, Chugyeogja segue a tradição recente de filmes sul-coreanos que apostam em roteiros de qualidade, uma edição moderna e a coragem de mostrar sangue em profusão. Que ninguém se engane: esta produção não alivia. Ainda assim, seu diretor e roteirista, Hong-jin Na, torna a história mais interessante que um simples filme de ação ao inserir no enredo humor e uma boa dose de crítica ao trabalho de organizações como a polícia. Chugyeogja convence com a apresentação de uma série de personagens realistas – o que torna a evolução de sua história ainda mais angustiante. Recomendado aos que não tem problemas com cenas de violência, tortura e pancadaria, e especialmente aos que têm interesse em acompanhar filmes de qualidade produzidos por diferentes nacionalidades/vertentes.

Arráncame la Vida – Arranca-me a Vida

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O cinema adora personagens de mulheres fortes. A superprodução mexicana Arráncame la Vida revela uma destas personagens em uma adaptação para os cinema da obra homônima premiada da escritora Ángeles Mastretta. Badalado em seu país pela crítica e pelo público – ele teve um ótimo desempenho nas bilheterias -, o filme tentou uma vaga entre os cinco finalistas para o Oscar de melhor filme estrangeiro deste ano, mas ficou de fora da disputa. Com uma história envolvente e que apresenta algumas características importantes da história e dos costumes mexicanos, Arráncame la Vida poderia perfeitamente concorrer com o vencedor Okuribito ou com os fortes concorrentes Vals Im Bashir e Entre Les Murs. Mas em seu lugar entraram os filmes Revanche e The Baader-Meinhof Komplex. Com levada feminista e uma narrativa clássica, Arráncame la Vida conta a história de uma mulher que nos faz lembrar, até certo ponto, a mais conhecida personagem “mulher-valente” do cinema: Scarlett O’Hara. Mas diferente do clássico que este ano completa sete décadas, Arráncame la Vida não tem papas na língua para mostrar a busca de sua protagonista por prazer e independência.

A HISTÓRIA: Na cidade mexicana de Puebla, em 1932, Catalina Guzman (Ana Claudia Talancón), filha de um produtor de queijos, conhece ao general Andrés Ascencio (Daniel Giménez Cacho) na praça central do município. Sedenta por descobrir sobre o amor e para sair de sua cidade, Catalina fica fascinada pela figura mais velha, experiente e dominante de Andrés. Frente ao general, os pais de Catalina tem pouco a fazer. O general acaba levando a adolescente para conhecer o mar e, ali, eles iniciam um romance. Depois, sem perguntar a opinião da moça, Andrés decide que eles vão se casar. Através da vida de Catalina acompanhamos a ascensão do marido ao poder e alguns dos acontecimentos que ocorrem no México nas décadas de 1930 e 1940, em uma história de paixões, poder, crimes e traições.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Arráncame la Vida): Não por acaso existia uma grande expectativa sobre esta produção muito antes dela ser finalizada. A obra que a precedia havia recebido, em 1985, um dos mais importantes prêmios literários do México, o Mazatlán. A estréia de Ángeles Mastretta, uma mulher de 60 anos que nasceu em Puebla, a cidade que serve de pano-de-fundo para parte desta história, não poderia ter sido melhor. Seu livro, além de ter recebido o Mazatlán, foi publicado na Espanha e traduzido para cinco idiomas da Comunidade Européia. Mastretta conhecia bem tanto Puebla, onde havia nascido, quanto a Cidade do México, onde fez o curso universitário de jornalismo. As duas cidades servem como ambiente para o desenvolvimento de sua heroína, Catalina Guzman.

A personagem central de Arráncame la Vida, contudo, não é uma heroína qualquer. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Ainda que uma das cenas finais desta produção nos remeta à cena mais emblemática de Gone With the Wind, Catalina Guzman é uma mulher muito mais liberal do que Scarlett O’Hara um dia ousou imaginar. No começo, as duas se assemelham na inocência e na vontade por conhecer a vida. Tanto Catalina quanto Scarlett também sofrem com uma figura masculina dominante, com o machismo e acabam, para se defender, sucumbindo às pressões e se submetendo aos caprichos de alguns homens. Mas, desde o início, Arráncame la Vida revela uma protagonista que não teme procurar a curandeira/cartomante da cidade para que ela lhe ensine a ter prazer, já que seu amante – Andrés ainda não era seu marido – só se preocupa com o próprio gozo. Alguém já imaginou Scarlett O’Hara em uma cena similar? Impossível.

Pois aqui começam as diferenças de Arráncame la Vida a respeito de outros filmes do gênero. A história, contada toda pela ótica de Catalina, não teme ser julgada por sua ousadia ao tratar abertamente temas como orgasmo ou traições. (SPOILER – não leia… bem, você já sabe). Não demora muito para que a jovem e inexperiente protagonista perceba que seu marido é um típico machista mexicano (e que pode ser encontrado em vários outros países), que se interessa apenas por seu próprio prazer, lucro e poder. Andrés tem várias amantes e (Catalina irá descobrir com o tempo) filhos fora do casamento. Verdade que a protagonista chega a responder a essas descobertas com algumas cenas de ciúmes e cobrança mas, pouco a pouco, ela vai se jogando em romances clandestinos também. O mais importante deles com o maestro Carlos Vives (José María de Tavira).

A narrativa do filme segue a linha clássica de romances históricos – sejam eles basedos em biografias reais ou fictícias. Ou seja, o roteiro do diretor Roberto Sneider tem um desenvolvimento linear, com direito a citar, em alguns momentos, o local e a data em que a ação está ocorrendo. Contando com um orçamento invejável para os padrões do cinema mexicano – US$ 6,5 milhões -, o diretor se armou com os melhores profissionais, com destaque para o diretor de fotografia Javier Aguirresarobe. Esta dupla consegue lapidar imagens verdadeiramente muito bonitas, com inevitável atenção para a que mostra os amantes Catalina e Carlos em um campo de flores. Os atores, aliás, protagonizam muitas cenas desnudos, em uma curiosa escolha do diretor para tornar a narrativa o mais naturalista possível – o que é praticamente uma ironia em uma história tão escancaradamente literária.

A grande qualidade de Arráncame la Vida é contar, através do amadurecimento de uma mulher, a evolução também de um país. Sem medo de incomodar os puritanos, Roberto Sneider bebe da fonte revolucionária de Mastretta e preserva o caráter feminista de sua obra. O centro da história é Catalina e sua luta por liberdade e independência, utilizando para isso sua inteligência e o jogo de cintura femininos em uma luta contra o domínio de um marido autoritário e machista (e que representa a sociedade onde a escritora foi criada). Possivelmente a história, que sofre um pouco com a obviedade, não vá agradar a todos. Mas nem sempre um bom filme é feito de surpresas ou reviravoltas. Ainda que Arráncame la Vida pareça um novelão em alguns momentos, ele é um filme mais corajoso do que pode parecer em um primeiro momento.

NOTA: 8,7.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: É fácil perceber quando um filme tem um grande orçamento por trás. Especialmente quando se trata de uma produção de época, como é o caso de Arráncame la Vida. Nestes casos, o dinheiro é fundamental para o resgate de figurinos e objetos que vão compor as cenas. Na parte técnica, Arráncame la Vida se revela uma das melhores produções do cinema mexicano dos últimos tempos. Tudo funciona bem, o que garante para o espectador uma pequena incursão nas paisagens e no tempo histórico de algumas cidades do México. Além do diretor de fotografia, se destaca entre a equipe técnica do filme a direção de arte de Rafael Mandujano. Merece uma menção especial também a trilha sonora de Leonardo Heiblum e Jacobo Lieberman que, de forma muito inteligente, mescla músicas clássicas e parte de um cancioneiro mexicano folclórico.

Ainda que a política e a importância dos militares na história do México não sejam os temas centrais de Arráncame la Vida, ambos jogam um papel fundamental na caracterização dos personagens e no desenvolvimento do filme. Por isso, não é demais comentar que os militares dominaram o cenário político mexicano desde a luta de independência do país em relação à Espanha. Quando o filme começa, em 1932, o México passava por um período de transição. O engenheiro agrônomo Pascual Ortiz Rubio, eleito presidente no final de 1929, decidiu demitir-se do seu cargo em setembro de 1932, depois de sobreviver a um atentando logo início do seu mandato, que começou em 1930, e alegando que seu governo sofria muitas interferências de Plutarco Elías Calles. Rubio foi substituído pelo militar Abelardo Luján Rodríguez, que governou de 1932 até 1934, sendo sucedido por outro militar, Lázaro Cárdenas del Río.

O primeiro a assumir a presidência do México sem ser um militar foi Miguel Alemán Valdés, em 1946 – mas um detalhe: ele era filho de um general que participou da Revolução Mexicana. De qualquer forma, o que nos interessa em relação ao filme é que o contexto que envolve o personagem de Andrés é  bastante realista, porque no México real eram fundamentais os jogos, conchavos e acertos pela disputa do poder envolvendo militares e seus protegidos. Tanto que o Partido de la Revolución Mexicana (PRM), depois rebatizado de Partido Revolucionário Institucional (PRI) dominou as eleições do país até o ano 2000, quando terminou o mandato do presidente Ernesto Zedillo Ponce de León.

Quem ficou interessado em saber um pouco mais sobre a política e a importância dos militares na vida mexicana, recomendo a leitura destes textos: primeiro artigo, segundo, terceiro e quarto. De qualquer forma, Arráncame la Vida acaba sendo uma contribuição interessante para introduzir os interessados em parte da história, da disputa política e de forças e, principalmente, dos costumes do México.

O elenco de Arráncame la Vida, em geral, faz um bom trabalho. Mas o destaque do filme, de forma um tanto óbvia e indiscutível, é a atriz Ana Claudia Talancón. Primeiro, porque ela é a protagonista. Depois, porque o texto funciona inteiramente para que ela se destaque, conduzindo-a de uma interpretação mais “naturalista” e inocente, no início da produção, para um trabalho mais complexo moralmente e maduro conforme sua personagem vai ganhando experiência. Importante para a história, também, a força da interpretação de Daniel Giménez Cacho e o carisma de José María de Tavira (ainda que, para mim, faltou ao ator um pouco mais de segurança para interpretar o personagem de Carlos). Os demais atores ganham realmente um espaço de coadjuvantes, sem nenhum grande destaque.

Este filme ganhou dois prêmios e foi indicado ainda a um terceiro. Arráncame la Vida arrebatou os de melhor atriz para Ana Claudia Talancón na votação da Associação de Jornalistas Mexicanos especializados em Cinema; e o Prêmio Ariel de melhor direção de arte.

Além de ter contado com o melhor orçamento da história do cinema mexicano (segundo esta reportagem), Arráncame la Vida conseguiu um público excepcional em seu próprio país: levou para os cinemas 2,6 milhões de pessoas. Em apenas três dias de exibição, o filme teria arrecadado US$ 1,6 milhões de dólares – tendo estreado em impressionantes 500 salas de cinema. Em menos de uma semana, com o Feriado da Independência mexicana no meio, Arráncame la Vida tinha conseguido ultrapassar a bilheteria de US$ 2,3 milhões. Segundo este texto, a melhor bilheteria de um filme mexicano em seu país, até o filme de Sneider, tinha sido KM 31, que em 2006 conseguiu US$ 1,5 milhões em seu primeiro final de semana de exibição.

Arráncame la Vida registra a nota 7,8 na votação dos usuários do site IMDb.

CONCLUSÃO: Um filme narrado sob a ótica de uma adolescente que no México dos anos 1930 se apaixona e se casa com um general ambicioso e que, através da biografia desta jovem, conta parte da história de seu próprio país. Arráncame la Vida acerta na medida em que preserva a levada crítica, irônica e feminista do livro no qual ele é baseado, mas exagera um bocado em sua preocupação em ser aceito pelo grande público. Em outras palavras, lhe falta originalidade. Ainda que o filme lembre, em alguns momentos, uma produção feita para a televisão (ou uma novela), ele apresenta para o espectador uma história de busca pelo autoconhecimento e por independência bem amarrada e, de quebra, uma parte da história do México importante. Arráncame la Vida é o filme mais caro já produzido no México e um de seus recordistas de bilheteria. Apenas por estas credenciais, ele merece ser visto.