Speed Racer

Diferente de vários heróis em quadrinhos que eu conhecia dos “originais”, ou seja, do material em que eles foram criados – e antes deles chegarem nos cinemas -, Speed Racer é um personagem clássico dos desenhos animados que eu perdi. Quer dizer, até assisti algum desenho dele aqui e ali, mas não sou uma fã, daquelas que acordava de manhã e assistia ao jovem e destemido piloto do Mach 5 arrasando nas pistas de corrida. E como escrevi antes sobre o novo filme do Indiana Jones, acabei assistindo a produção que levou Speed Racer aos cinemas em um formato longe do ideal: em uma telinha da empresa TAP no vôo que me trouxe de volta ao Brasil depois de morar alguns anos em Madrid. Mas diferente do comentado sobre Indiana Jones, o filme de Speed Racer me surpreendeu positivamente. Talvez porque eu tivesse escutado falar mal da produção antes, a verdade é que gostei do que os irmãos Wachowski apresentaram desta vez.

A HISTÓRIA: Speed Racer (interpretado quando criança por Nicholas Elia e, quando adulto, por Emile Hirsch) é um garoto superativo. Fascinado pelo mundo das corridas, que é o ganha-pão de sua família, ele não consegue se concentrar nas aulas. Prefere passar o tempo desenhando carros e disputas ferozes até o momento em que ele pode sair correndo para encontrar o irmão, Rex Racer (Scott Porter). A vida familiar vai bem até que Rex resolve sair de casa, deixando para trás o pai e fabricante de carros de corrida (John Goodman), a mãe (Susan Sarandon) e Speed. Rex começa então a trilhar o caminho dos grandes patrocinadores de corridas até que sofre um acidente fatal. O tempo passa, a família se recupera com relativo sucesso da perda de Rex, e Speed começa a correr. Depois de quase bater o recorde do irmão em uma pista de corrida, ele começa a ser pressionado a entrar para o sistema. Ameaçado pelo magnata E.P. Arnold Royalton (Roger Allam), Speed se envolve em uma arriscada manobra para desmascarar o grupo de empresários que manipula o resultado das corridas.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Speed Racer): Inicialmente fiquei curiosa com Speed Racer, o filme. Especialmente pelo fato de que ele marcava o retorno à direção dos irmãos Andy e Larry Wachowski, os responsáveis pela revolução chamada Matrix. Apenas por isto o filme já valia ser visto. Depois, claro, porque se tratava da primeira versão norte-americana para os cinemas do personagem clássico dos desenhos animados. Mas a vontade de ver o filme foi diminuindo conforme fui sabendo de mais detalhes da história e, admito, porque comecei a ouvir um “burburinho” de comentários negativos – inclusive o Eduardo, leitor deste blog, tinha comentado por aqui o excesso e o perigo das imagens mirabolantes criadas pelos diretores.

Em resumo, assim como tinha ocorrido com o novo Indiana Jones, Speed Racer seria um filme para ver depois, sem pressa, quando eu não tivesse quase mais nada de interessante para assistir – o que, cá entre nós, poderia demorar muito e muito tempo para acontecer. Mas mudei de idéia ao ver as opções que eu tinha para ver no vôo Madrid-Rio. Speed Racer foi a segunda opção daquela viagem – depois de Indiana Jones.

A verdade é que valeu a pena enfrentar a “aura” de críticas que eu tinha escutado sobre o filme. Gostei do que assisti. Talvez realmente ele possa criar problemas para pessoas mais suscetíveis ao excesso de cores e na mudança repentina de imagens – um problema que foi provocado anteriormente pelo desenho Pokémon. Mas se você não tem nenhum problema com estas características, é o típico filme interessante de assistir. Ok, ele não tem nenhuma grande história ou mesmo alguma “mensagem” mais profunda. Se trata de puro entretenimento. Mas de qualidade – muito maior que a maioria dos filmes que se apresentam como tal.

Os irmãos Wachowski acertaram a mão e me surpreenderam. Eles escreveram um roteiro que aliou a essência do desenho animado com algumas das técnicas mais modernas dos efeitos especiais. O resultado é um filme que preserva idéias como a importância da família e a necessidade de se manter “limpo” em um mundo super competitivo como é o da alta velocidade (e de muito dinheiro rolando por trás) e que, ao mesmo tempo, renova os planos que caracterizam os animes (desenhos japoneses).

Gostei muito, para ser franca, dos planos e dos cortes na direção e na edição. Os diretores respeitaram algumas das principais características dos animes, como a agilidade nos planos filmados, muitas mudanças de cena e uma boa carga de humor – além da valorização dos rostos e expressões dos atores. Feito para agradar vários públicos, especialmente as crianças, o filme tem um humor simples, nada cínico ou satírico. A história também não surpreende pela criatividade – trata, basicamente, de resumir a história da família Racer.

O excesso de cores do filme – e, mais que isso, as mudanças repentinas de cenários multicoloridos – foi classificado por alguns como algo “psicodélico” e exagerado. A verdade é que eu achei um recurso inteligente para contar esta história – modernizada, é claro. Ao invés de fazer um filme “retrô”, os irmãos Wachowski decidiram filmar a história descaradamente como um produto do ano 2008, século 21, quando o excesso de informações, a poluição sonora, a propaganda intermitente por todos os lados marcam parte da nossa vida.

Além da parte técnica – devo ainda destacar o trabalho de edição de Roger Barton e Zach Staenberg -, o filme acerta na história. Afinal, todos sabem que Speed Racer não é nenhum filósofo. Ele interessa pelo entretenimento, pelo humor e pela velocidade da história e da narrativa.

Além dos atores já citados – todos estão bem, sem nenhum grande destaque -, vale a pena ainda comentar a interpretação de Christina Ricci como Trixie, a namorada de Speed; Paulie Litt como Spritle, o caçula dos Racer; Matthew Fox como Racer X, um piloto de primeira linha que acaba se aliando a Speed na manobra para desmascarar os vilões do filme; Benno Fürmann como o inspetor que incentiva os pilotos a desmascarar os empresários manipuladores; Richard Roundtree como Ben Burns, um dos pilotos lendários do filme; Kick Gurry como Sparky, o mecânico e amigo dos Racer; Christian Oliver como o ambicioso e inescrupuloso piloto Snake Oiler; e Rain como Taejo Togokahn, um dos pilotos envolvidos na manobra para desmascarar os ambiciosos empresários manipuladores.

Achei um acerto também os diretores e roteiristas optarem por um macado de verdade ao invés de um “animado” como o mascote da família Racer. Afinal, a maioria dos exemplos de animais animados atuando com atores de verdade se mostraram, na verdade, um tiro no pé.

O problema do filme, como praticamente não poderia deixar de ser, é o tanto que o roteiro se mostra vazio. Com ele, não existe muito espaço para desenvolver os personagens ou mostrá-los humanos, ou seja, complexos. Todos são muito “retos”, ou bonzinhos ou malévolos. Não existe espaço para personagens dúbios ou complexos. Por tudo isso não consegui achar o filme ótimo ou mesmo muito bom. Achei bacana, apenas isto. Entretenimento para diversas idades.

NOTA: 7.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Speed Racer gastou uma burrada de dólares – grande parte, claro, em efeitos especiais. Ele teria custado aproximadamente US$ 120 milhões. E arrecadou pouco até agora… pouco menos de US$ 44 milhões nos Estados Unidos. Ou seja: está longe, muito longe de se pagar. No Brasil ele conseguiu uma bilheteria considerável: R$ 6,8 milhões. O problema do filme ter ido tão mal nas bilheterias – pelo menos pelo critério dos produtores – é que ele pode prejudicar novos projetos dos irmãos Wachowski. O que seria uma pena porque eles são dois diretores que não tem medo de experimentar – algo raro, muitas vezes.

Speed Racer foi indicado para cinco prêmios em 2008 – mas acabou perdendo todos eles.

Os usuários do site IMDb gostaram menos do filme do que eu. Pouco menos de 21 mil pessoas conferiram a nota 6,5 para o filme. Os críticos também torceram um bocado o nariz: o site Rotten Tomatoes publica 119 textos negativos e apenas 69 positivos para Speed Racer.

O filme transporta para o cinema a lenda criada por Tatsuo Yoshida na década de 1960 no Japão. A história dos Racer foi contada em 52 episódios de aproximadamente meia hora cada um em sua versão original – um pouco menos na versão norte-americana. Mas antes de virar desenho animado, Speed Racer – chamado originalmente de Go Mifune – era o protagonista de um mangá intitulado Mach Go Go Go criado por Yoshida. O protagonista do mangá e, depois, dos animes criados por Yoshida era, na verdade, o carro – chamado Mach Go. Na versão estadunidense é que o foco passou a ser Speed Racer e, em segundo plano, seu carro, agora batizado de Mach 5.

Segundo o produtor Joel Silver, o único cenário real no filme é a casa da família Racer. Todo o restante que assistimos no filme foi criado por computação gráfica. Absolutamente tudo – agora se entende onde gastaram a maior parte da grana da produção. A idéia do produtor era lançar uma sequência de filmes – algo que, com a bilheteria baixa alcançada, não deve acontecer.

Matthew Fox finalmente interpreta um papel em que ele tem mais de duas falas – mais do que em Vantage Point. Ainda assim, não fala tanto mais… mas o que interessa mesmo em sua interpretação é uma luta que ele tem contra uns vilões ninjas. Uma das melhores partes do filme, digamos… 😉

CONCLUSÃO: Adaptação para o cinema do anime homônimo japonês que virou “cult” nos Estados Unidos e nos demais países que são influenciados por ele – inclusive o Brasil. Deve ser visto como puro entretenimento – e levando em conta que ele foi feito para a “família”, ou seja, tanto para crianças quanto para adultos. Ele não complica em parte alguma, não profundiza na caracterização dos personagens e nem apresenta nenhuma “moral da história” importante – além de valorizar a família. Mas vale a pena pela ousadia dos diretores em reinventar o ambiente veloz e multicolorido dos Racer – trazendo para os tempos modernos uma história criada em forma de mangá e anime há mais de 40 anos.

SUGESTÃO DE LEITORES: O Eduardo falou de sua preocupação com a “psicodelia” de Speed Racer em maio. Sei que você, Eduardo, na verdade, não indicou o filme… pelo contrário, alertou as pessoas para o perigo que o filme poderia representar para as pessoas sensíveis ao excesso de cores, luzes e movimentos da produção. Ainda assim, achei importante citar a sua sugestão por aqui – nem que fosse para ressaltar, mais uma vez, o seu alerta. Aproveito para dizer para você aparecer – andas sumido! 😉

Indiana Jones and the Kingdom of the Crystal Skull – Indiana Jones e o Reino da Caveira de Cristal

Antes de mais nada, eu quero admitir algo: não assisti a esse filme da melhor maneira possível. Ou, pelo menos, da forma recomendada. Quando soube que Indiana Jones voltaria aos cinemas, fiquei empolgada. Sempre gostei do herói. Mas não me empolguei o suficiente para sair correndo até o cinema mais próximo quando o filme estreou. Sendo assim, fui assistir a Indiana Jones and the Kingdom of the Crystal Skull semana passada, no vôo entre Madrid e Rio de Janeiro – na minha volta para o Brasil. A verdade é que gostei do filme por alguns detalhes e sacadas, mas fiquei com uma impressão um tanto forte na mente e no coração de fã do herói durante a maior parte do filme: desperdiçaram o personagem. Ou, como alguns andaram dizendo por aí, parece que a época do arqueólogo aventureiro passou. Talvez. Pessoalmente, acho que faltou mesmo um roteiro melhor – porque Harrison Ford continua muito bem no papel, mesmo aos 66 anos de idade.

A HISTÓRIA: Um comboio do Exército dos Estados Unidos chega a uma base militar isolada. O ano é de 1957. Proibidos de entrar, eles matam a todos que encontram pela frente. O grupo, na verdade, é de soviéticos. Eles trazem em seus carros, sequestrados, o arqueólogo e professor Indiana Jones (Harrison Ford) e seu amigo George McHale – conhecido apenas por Mac (o londrino Ray Winstone). Liderados pela super-agente Dra. Irina Spalko (a australiana Cate Blanchett), o grupo busca um artefato encontrado no deserto e que foi mantido trancado a sete chaves pelos americanos. Depois de ajudar os russos a encontrarem o que eles buscavam, Indy e Mac conseguem fugir. Livre, Indy passa a ser vigiado pelo FBI e, de volta a Universidade Marshall, onde leciona, descobre que seu histórico em ajudar o governo dos Estados Unidos foi posto em dúvida. Depois que o reitor Dean Charles Stanforth (Jim Broadbent) lhe comunica que ele será afastado de seu trabalho por algum tempo, aparece na vida de Indy o jovem Mutt Williams (Shia LaBeouf). Ele busca ajuda para resgatar o professor Harold Oxley, ou apenas Ox (John Hurt), mentor de Indy e de Mutt. Neste ponto começa a aventura de Indy – de seus amigos e dos soviéticos – atrás da Caveira de Cristal.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Indiana Jones and the Kingdom of the Crystal Skull): Algo interessante do filme foi mexer com dois temas historicamente importantes na trajetória dos Estados Unidos: a Guerra Fria e o Caso Roswell. Curioso o roteiro de David Koepp – baseado na história de George Lucas e Jeff Nathanson – tocar nestes dois temas. Afinal, desde que Indiana Jones foi criado, esta foi a primeira vez em que o herói foi envolvido diretamente em questões “norte-americanas”. Mas fora este lado curioso, o roteiro se mostrou fraco em relação a pelo menos dois dos três filmes anteriores. Algo que não surpreende totalmente em se tratando de Koepp, responsável por roteiros interessantes como os do primeiro Homem-Aranha e de O Quarto do Pânico, assim como por desastres como Olhos de Serpente e A Guerra dos Mundos.

Vou comentar inicialmente o que eu gostei no filme. Achei interessante o resgate de personagens como Marion Ravenwood (Karen Allen) – realmente a melhor das “indygirls” até hoje – e do Professor Oxley (que, virtualmente, parecia estar morto). Por outro lado, achei um desperdício o tratamento que deram para o personagem de Mac – que virou apenas um grande mercenário, sem demonstrar nenhuma característica dúbia ou de complexidade.

Gostei também da entrada em cena de Mutt. Mas apenas sua entrada em cena. Explico: ele aparecendo com todo aquele “capote”, inspiradíssimo em James Dean e Marlon Brando, reflete muito aquela época – quando haviam sido lançados, recentemente, filmes como Juventude Transviada (Rebel Withouth a Cause, de 1955, com James Dean) e principalmente O Selvagem (The Wild One, de 1953, com Brando). Engraçada e curiosa a sua caracterização, assim como a sua vontade de enfrentar os perigos – como Indy quando era jovem, mas com menos ousadia. (SPOILER – não leia se não assistiu ao filme ainda). Só não achei necessário, realmente, “forçar a barra” fazendo com que Mutt fosse o filho de Indy. Não que o herói não pudesse ter um filho, mas todo o discurso dele de que Marion seria a sua mulher “inesquecível” e tal pareceu bem forçada. Para mim esse filho caiu de pára-quedas… e fiquei pensando: seria uma jogada dos produtores para logo lançar uma sequência de história do “filho de Indy”? Se for, lamentável.

Como antes nos filmes da grife Indiana Jones, neste filme o diretor Steven Spielberg e os demais envolvidos mesclam ação com cenas de humor. Existem algumas sequências realmente muito boas, como a perseguição – e duelo de espadas – nas selvas do Peru. Spielberg continua fazendo bons filmes de ação, ainda que nesta produção tenha faltado, realmente, um texto melhor. O sempre competente e talentoso diretor de fotografia polonês Janusz Kaminski faz novamente um ótimo trabalho – especialmente nas complicadas cenas noturnas. John Williams levanta a adrenalina dos fãs com uma trilha sonora matematicamente calculada. Tecnicamente o filme realmente faz sentido.

Depois de falar dos pontos positivos, vamos aos negativos. Não gostei, como disse antes, de boa parte do roteiro. Acho que ele cai, volta e meia, em lugares-comum, em fórmulas fáceis para resolver problemas previsíveis. Exemplos: as lutas de Indy com o russo Dovchenko (Igor Jijikine) chegam a cansar, assim como boa parte das “ameças” da Dra. Irina Spalko. Aliás, neste filme faltaram realmente vilões melhor caracterizados – sem eles, o filme ficou basicamente “família feliz” by Indiana Jones. Legal ver o herói em ação, especialmente ao explorar o caminho para a tão cobiçada Caveira de Cristal de Akator, mas faltou um pouco mais de “tempero” nesta história. Os vilões russos, por exemplo, são o cúmulo do estereótipo. Dra. Irina que, teoricamente, busca a todo custo o poder que a Caveira de Cristal poderia lhe dar no quesito “leitura de mentes” e de domínio mental da Humanidade, mostra pouca – ou nenhuma – capacidade paranormal (que o roteiro insinua que ela teria). No final, ela e seu comandado Dovchenko não parecem intimidar muito a ninguém.

Também não gostei muito do artefato visado neste filme. Vejamos: na primeira produção da grife Indiana Jones o nosso herói buscava a Arca da Aliança; na segunda, as pedras Sankara; e na terceira, nada mais, nada menos que o Santo Graal. Todos fundamentados na História e, em maior ou menor grau, em “poderes” conquistados por figuras importantes na trajetória humana. Ok. (SPOILER – não continue lendo se você não assistiu a Indiana Jones and the Kingdom of the Crystal Skull). Só que neste novo filme o artefato não tem apenas uma trajetória de interesse histórico – ainda que esteja localizado na emblemática e perdida “cidade de ouro” – mas possui, sobretudo, um carácter sobrenatural (ou, neste caso, mais especificamente, extraterrestre). Achei, para ser franca, uma grande forçada de barra. Não entro na discussão do Caso Roswell e da influência de extraterrestres na evolução humana – defendida por alguns -, mas achei que desta vez os responsáveis pela história perderam o Norte. Até parece que Indiana Jones precisa de desafios além-Terra, como muitos dos heróis de HQs que passaram a dominar as bilheterias nos últimos anos. Acho desnecessário esse tipo de manobra – não seria interessante nosso Indy continuar como nos velhos tempos, sendo aventureiro, determinado e cínico sob medida?

A verdade é que há muitos anos se especulava a volta da parceria Steven Spielberg, George Lucas e Harrison Ford. Talvez a expectativa desta espera, tantos boatos e a vontade dos fãs em ver a Indy em ação novamente tenha prejudicado o efeito do novo filme. No fundo, eu esperava mais. Indiana Jones e o Reino da Caveira de Cristal acaba sendo apenas mais um entretenimento, com algumas várias pérolas distribuídas aqui e ali para os fãs (leia-se referências aos filmes anteriores) e nada mais. Pouco para um aventureiro que tinha marcado os anos 80 com filmes bem ritmados e cheios de novidades técnicas e narrativas. A sensação, mesmo com extraterrestres no meio da história – e um bocado de efeitos especiais – é que a saga de Indy ficou para trás, na nostalgia dos fãs.

NOTA: 6,5.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: A nota acima, claro está, leva em conta o quanto eu gosto do personagem. Se fosse avaliar apenas o filme, especialmente o roteiro e a direção – que achei, ambas, um pouco “preguiçosas” -, sem levar em conta o que veio antes na trajetória do personagem, possivelmente a nota seria ainda menor. Um 6, provavelmente.

Como já era de se esperar, o filme foi um sucesso nas bilheterias. Apenas nos Estados Unidos ele faturou pouco mais de US$ 317 milhões. Na Inglaterra ele teve um desempenho relativamente baixo: 39,7 milhões de libras esterlinas. No Brasil o filme acumulou, até o dia 29 de junho, uma bilheteria de R$ 21,3 milhões. Ainda que os valores parecem altos, na verdade não foram tanto assim.

Vejamos: o filme custou aproximadamente US$ 185 milhões. Ou seja, a bilheteria nos Estados Unidos não chegou a dobrar o valor dos custos. O filme que lançou Indy nos cinemas, Os Caçadores da Arca Perdida, de 1981, teria custado US$ 18 milhões e faturado US$ 230,3 milhões. Uma bela diferença, não é mesmo? O segundo filme do herói, Indiana Jones e o Templo da Perdição, de 1984, custou US$ 28 milhões e faturou apenas nos States algo como US$ 175 milhões. E o último da “trilogia” – que agora já não é mais trilogia -, Indiana Jones e a Última Cruzada, de 1989, teria custado US$ 48 milhões e faturado, apenas em solo estadunidense, algo como US$ 197 milhões.

Claro que quanto mais se gasta em um filme, menor será o lucro. Mas, ainda custando muito, o último Indiana Jones faturou pouco comparado com outras produções milhonárias. Este ano, por exemplo, Batman – O Cavaleiro das Trevas, que teria custado os mesmos US$ 185 milhões de Indiana Jones, faturou até outubro nos Estados Unidos pouco mais de US$ 527,3 milhões. Duzentos e tantos milhões mais que o filme de Indiana – o que possibilitaria custear um outro filme do mesmo porte. A diferença não é pequena. Homem de Ferro, que custou pouco menos (aproximadamente US$ 140 milhões) faturou um pouco mais: US$ 318,2 milhões. Para um estreante no cinema, Homem de Ferro se saiu melhor que a “lenda” Indiana Jones. Se eu fosse da equipe do filme, estaria chateada. 🙂

Na questão de notas, o filme de Indy também não foi muito bem. Os usuários do site IMDb conferiram a nota 6,9 para o filme, enquanto que os críticos que tem textos publicados no site Rotten Tomatoes dedicaram 184 críticas positivas e 57 negativas para o filme – acho que desta vez estou mais “do lado” do povão que dos críticos. 😉

Lendo a respeito do novo Indiana Jones, encontrei uma entrevista em que George Lucas comenta que pensa em produzir um quinto filme do herói… e que o verdadeiro protagonista seria Mutt. Pois sim… meu medo de que eles quisessem transformar o garoto no “herdeiro” do herói – que, obviamente, só pode ser interpretado por Harrison Ford – para novos filmes se confirmou. Que pena! Pelo visto realmente querem aposentar Indy.

Ainda que o filme deixe a impressão que o tempo de Indiana Jones passou, eu não sou partidária dessa idéia. Assim como não passou o tempo de James Bond – o personagem em quem George Lucas se inspirou para criar Indy. O que falta é realmente mentes criativas e um pouco mais de ousadia para trazer estes personagens ao cinema com histórias interessantes.

Em se tratando de prêmios, Indiana Jones and the Kingdom of the Crystal Skull foi indicado até agora a seis deles, ganhando até agora apenas o de melhor ator em filmes de ação/aventura para o jovem Shia LaBeouf na escolha do público do Teen Choice Awards.

CONCLUSÃO: A volta tão esperada do professor e arqueólogo aventureiro Indiana Jones demorou 19 anos para acontecer e acabou, depois de tanto tempo de espera, sendo apenas mais um filme de entretenimento. O roteiro deixa a desejar – e até a direção de Steven Spielberg se mostra pouco inventiva. Existem bons momentos no filme, uma ou outra perseguição bacana e várias referências aos filmes anteriores. Mas isso é tudo. Como passatempo, ok. Mas é uma pena que o filme não honre a trajetória do personagem – para mim, acaba sendo o mais fraco dos quatro filmes lançados com Indy até agora.

The Pursuit of Happyness – À Procura da Felicidade

Caros leitores deste blog, não se surpreendam com esta desenterrada do baú… Tirei esse filme da cartola porque encontrei ele no meio de vários outros e pensei: “Por que não?”. Afinal, mais cedo ou mais tarde eu terei que olhar alguns filmes perdidos na gaveta e assistí-los. Bem, e para falar a verdade, foi um amigo que escolheu este no lugar de vários outros que eu tinha à disposição na minha filmoteca de histórias não assistidas. Foi assim que assisti, finalmente, este “dramalhão” estrelado por Will Smith. Admito que nunca fui muito fã do ator… ainda assim, para ser franca, tenho que admitir que ele está muito bem neste The Pursuit of Happyness. Parece que ele amadureceu. Perdeu aquelas caras e bocas que lhe tornaram conhecido em outros filmes e passou a vestir o fardo de um papel mais duro e complexo. O filme é bacana, ainda que eu tenha algumas ressalvas com ele.

A HISTÓRIA: Chris Gardner (Will Smith) vende um aparato médico que poucos querem comprar. Acreditando em seu potencial de vendedor e na tecnologia do aparato que lhe estavam oferecendo, ele colocou as economias da família na compra de dezenas destes aparelhos. O problema é que ele não consegue vendê-los. E as contas acumulam. Sentindo-se pressionada pela situação e descrente do marido, Linda (Thandie Newton) resolve deixar Chris e o filho Christopher (Jaden Smith).

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a The Pursuit of Happyness): Esse filme poderia ser resumido assim: quando você acha que tudo está ruim, tenha certeza que ainda vai ficar pior. 😉

Pura verdade. Por incrível que pareça mas, cada vez que a vida de Chris Gardner vai ficando pior, ainda existe mais ladeira para ele percorrer costa abaixo. O filme diz ser baseado em uma história real. Não sei, sinceramente, até que ponto o roteirista Steve Conrad foi fiel a tal história verídica, mas se ela foi assim mesmo… bem, palmas para o cidadão, que conseguiu bravamente cuidar do filho, manter a cabeça erguida e buscar melhorar de vida. Um exemplo para todos aqueles que “questionam” a pressão que a sociedade exerce sob o cidadão que vira marginal. Afinal, em outro contexto, seria fácil imaginar o nosso herói, negro e pobre, assaltando, roubando, ou qualquer coisa do gênero, não é mesmo? Mas ele justamente mostra um outro caminho que, com certeza, terminou muito melhor do que se ele tivesse engrossado as estatísticas do crime.

Por isso o filme vale muito. Por realmente mostrar que quando alguém tem a noção do correto, é honesto e tem capacidade, pode conseguir dar a volta por cima – não importa quantas vezes isso seja necessário. Por outro lado, claro está, isso é uma ficção. O roteirista acertou em muitos momentos – como na cena em que Chris brinca com o filho no metrô de que o aparelho médico que ele recuperou do mendigo é uma máquina do tempo -, assim como no equilíbrio entre humor e drama, mas acho que ele exagerou um pouco em outros termos. Por exemplo: ok que a San Francisco de 1981 deveria ser bem menor do que a cidade que se conhece agora, 20 anos depois, mas daí a Chris encontrar tantas vezes e com uma certa “facilidade” os hippies e o mendigo que lhe roubaram… é pedir demais para que o espectador acredite em contos de fadas.

Também acho bem difícil o Chris verdadeiro nunca ter se descontrolado. Seja com a mulher, que lhe abandonou, ou mesmo com o filho. A única vez que ele fala em um tom um pouco mais “alto” com o menino é na sequencia do parque, depois que ele consegue o último aparelho de volta. Com isso não defendo a violência ou qualquer ato do gênero, mas digo que acho difícil alguém na situação dele manter a calma todo o tempo – como o que aparece no filme.

Fora estas resalvas, realmente a história é bacana e foi bem dirigida por Gabriele Muccino. O diretor italiano tratou com delicadeza o assunto, mas sem deixar de mostrar o lado áspero da história. Realmente um filme interessante sobre como pessoas com talento e com vontade podem chegar longe e não precisam se conformar com pouco ou com sofrer – como muitos por aí fazem.

Meu único e verdadeiro porém para o filme é que o título dele leva à crer que a busca da felicidade se resume a ter dinheiro… Bem, é uma maneira de encarar como o filme termina. Vejamos: tudo o que acontece, todo o esforço de Chris é para trabalhar como corretor da Bolsa. Depois, no epílogo do filme, sabemos que ele ficou rico e tudo o mais, quando abriu seu próprio negócio posteriormente. Então parece que tudo valeu a pena por isso, por seu sucesso. Eu já prefiro ver o filme antes do final, quando o que parece realmente importar para Chris é estar com seu filho, ensinar-lhe valores e deixar-lhe claro quem é o seu pai. Isso sim me pareceu o mais importante da história, o que deveria ter ficado de verdadeira mensagem – muito mais do que o final que resume o sucesso do personagem.

NOTA: 8.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Além dos atores já citados, destaque para o trio de executivos responsáveis pela “guinada” na vida de Chris: o divertido Brian Howe como Jay Twistle; o veterano James Karen como Martin Frohm; e Dan Castellaneta como Alan Frakesh. Para quem gostou da hippie ladra, o nome da atriz é Joyful Raven. Ainda fazem “pontas” Kurt Fuller como o executivo Walter Ribbon, responsável por levar Chris e o filho para um jogo de beisebol; e Takayo Fischer como Mrs. Chu, a responsável pela creche em que as crianças mais assistem TV do que aprendem inglês (ou chinês). 🙂

Esse foi o primeiro filme em Hollywood do italiano Gabriele Muccino, conhecido por filmes como L’Ultimo Bacio, de 2001. Curioso, mas agora mesmo o diretor está trabalhando na pós-produção de seu segundo filme em Hollywood: Seven Pounds, novamente estrelado por Will Smith. Além do ator, estão no elenco Rosario Dawson, Woody Harrelson, entre outros.

The Pursuit of Happyness trouxe lucro para os executivos que investiram no filme. A produção, que teria custado aproximadamente US$ 55 milhões, faturou pouco mais de US$ 162,5 milhões apenas nos Estados Unidos. Praticamente três vezes o valor de seu custo.

O filme também foi bem de crítica… os usuários do site IMDb conferiram a nota 7,8 para ele; enquanto que os críticos que tem textos publicados no Rotten Tomatoes dedicaram 108 críticas positivas e 55 negativas para The Pursuit of Happyness. Nada mal.

Para os que observaram o mesmo sobrenome dos atores que interpretam pai e filho no filme, aí vai a certeza: sim, o garoto que faz o filho de Will Smith é também seu filho na vida real. Jaden Smith hoje tem 14 anos – quando fez o filme ele tinha 12.

Além de ter ido bem de crítica e bilheteria, o filme ganhou alguns prêmios em sua trajetória, além de ter rendido uma indicação ao Oscar para Will Smith na categoria de melhor ator – prêmio que foi ganho por Forest Whitaker por sua interpretação em The Last King of Scotland (outro que está na minha lista para ser visto e ainda não foi). Nenhum dos prêmios foi de grande destaque, mas é interessante observar que dos nove prêmios que o filme levou para casa, muitos deles foram para o desempenho de Jaden Smith ou para a dobradinha dele com Will Smith.

Uma curiosidade: o Chris Gardner real, que inspirou a história, foi um dos produtores do filme. Ele aparece na cena final de The Pursuit of Happyness andando na rua em que Will Smith passa com o filho.

CONCLUSÃO: Um filme edificante sobre a volta por cima de um homem. Uma bela interpretação de Will Smith – uma das melhores de sua carreira até agora. Ainda assim, é um filme que parece um pouco “forçado” em alguns momentos. Tem boa sintonia entre os atores e um roteiro que equilibra humor e drama, mas deixa uma sensação estranha de que a busca da felicidade para ser “encontrar o dinheiro”.

Savage Grace – Pecados Inocentes

Tem filmes que impressionam por muitas razões. Savage Grace, por exemplo, demonstra uma potência desconcertante por suas interpretações – especialmente pelo magistral trabalho de Julianne Moore -, por sua história e, porque não dizer, por sua verdade. Até assistí-lo eu não sabia que se tratava de uma história real. Fiquei impressionada com o ponto em que uma família pode chegar devido a obsessões, fraquezas, interesses e descontroles. Os personagens são muito bem desenvolvidos, assim como a história contada – ainda que dura de se assistir, algumas vezes – também vá se desenrolando naturalmente até os extremos não previstos. Uma bela peça de cinema e, principalmente, uma interpretação de Julianne Moore que entra para as grandes de uma atriz nos últimos anos.

A HISTÓRIA: Tony Baekeland (interpretado por Barney Clark quando criança e, depois, pelo inglês Eddie Redmayne nas fases seguintes) nasceu no berço esplêndido do casal Barbara (Julianne Moore) e Brooks (o também inglês Stephen Dillane). Quando bebê, na Nova York de 1946, ele era cuidado pela avó Nini Daly (Anne Reid) quando os pais resolviam ir a algum de seus inúmeros eventos sociais. Conforme o garoto vai crescendo, a família muda de cidade e de país várias vezes, agravando os sentimentos de atração e repúdio entre os seus três integrantes, até o ponto em que a convivência desmorona e Tony se vê obrigado a cuidar da mãe, manipuladora, consumista e carente de atenção.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir estraga as surpresas do filme, por isso só recomendo que continue lendo quem já assistiu a Savage Grace): Difícil resumir um filme como este em uma crítica. Ele tem várias nuances, interpretações e camadas de informação. Mas o resumo pode ser o seguinte: Savage Grace conta a história de uma família que vai sendo dinamitada de dentro para fora pouco a pouco, ano após ano. Cada personagem é complexo. Um trabalho realmente difícil de ser levado para o cinema e que foi feito de maneira exemplar, na minha opinião, pelo roteirista Howard A. Rodman. Não sei quanto foi mérito apenas dele ou do livro de Natalie Robins e de Steven M. L. Aronson no qual ele se inspirou para escrever o roteiro. De qualquer forma, achei ele deliciosamente bem escrito.

O diretor Tom Kalin também me impressionou. Ele conseguiu sacar o mais belo e selvagem de cada personagem, dando especial atenção para a relação principal desta história: entre mãe e filho. Junto com eles, trabalhou com primor o diretor de fotografia Juan Miguel Azpiroz – responsável por importantes variações de cor e texturas de imagem durante a passagem de tempo no filme – e a trilha sonora clássica assinada por Fernando Velázquez.

Apenas no final do filme eu soube que se tratava de uma história real. Fiquei impressionada. Ok que sabemos que existem absurdos acontecendo mundo afora, crianças sendo maltratadas e sofrendo abuso sexual pelos próprios pais, assassinatos sendo praticados dentro de uma mesma família depois de anos de repressão, etc., mas é muito diferente assistir isso através da narrativa do principal envolvido. Acompanhar tudo o que aconteceu ao redor de Tony, vislumbrar a ladeira abaixo que seguiu uma família “rica” da sociedade norte-americana, realmente foi impactante. É muito diferente você assistir uma notícia na televisão (no meu caso isso não acontece porque não assisto TV) ou ler algo sobre um caso assim no jornal e ler um livro ou ver um filme que conta em detalhes o que aconteceu.

Para mim o filme é, entre outras coisas, uma crítica mordaz ao “way of life” (modelo de vida) estadunidense, tão cercado de pudores e de discursos e que, na prática, se visto com lente de aumento, se percebe podre  e corrupto. Acho que um dos pontos fortes do filme é justamente mostrar como tal decadência surge justamente nas famílias, passando depois para as rodas de amigos, negócios e tudo o demais. Com isso não quero dizer que os habitantes dos Estados Unidos são mais podres que outros, mas sim que eles tentam vender uma imagem de puritanismo, sistema de vida perfeito, patriotismo e tudo o mais que se percebe bastante hipócrita.

(SPOILER – não leia se não assistiu ao filme ainda). Mas além desta visão “paralela” do filme, acredito que Savage Grace se torna impactante por tocar em vários temas ainda considerados “tabus”, como o incesto, o adultério, a homossexualidade, entre outros. Existem cenas realmente muito fortes, por isso o filme é recomendado apenas para adultos – e especialmente para quem não tem receio de ver determinados fatos reais sendo mostrados de maneira bastante crua.

Outro aspecto interessante do filme é que ele mostra como um indivíduo pode ser muitas pessoas ao mesmo tempo. Barbara era uma pessoa encantadora, doce, charmosa e instigante na sociedade. Alguém que entrava em uma sala e não deixava as pessoas incôlumes. Mas ela era também uma mulher manipuladora, insegura, desequilibrada e neurótica em outros sentidos – especialmente com o marido e o filho. E isso praticamente ocorria com todos os personagens, que se mostravam de diferentes maneiras conforme o contexto.

Falando dos personagens, algo interessante do filme é que ele mostra as diferentes “responsabilidades” de cada um na história. Afinal, para Tony foi tão importante a ausência e o desprezo do pai – para o qual seguia escrevendo cartas para as quais não tinha resposta – quanto a dependência e o controle que exercia a mãe na sua vida. Também a descoberta da sua sexualidade e a relação conturbada com Sam (o sempre ótimo Hugh Dancy), um merchandt bissexual que causou a ruptura do relacionamento que ele vinha tendo com Jake (Unax Ugalde) mexeu com a sanidade do rapaz. A ponto de que a briga sobre um medalhão que ele vinha carregando como o seu único bem legítimo levou ao final perturbador do filme.

NOTA: 9,5.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: O filme demorou oito anos para sair do papel. A razão? Segundo um dos produtores, Iker Monfort, o culpado foi o “puritanismo dominante” nos Estados Unidos. Savage Grace estreou no Festival de Cannes no ano passado conquistando o público da mostra paralela Quinzena dos Realizadores. O filme ainda foi selecionado para os festivais de Sundance e Tribeca.

(SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Como foi sugerido antes, Savage Grace conta o que ocorreu na família Baekeland antes da morte de Barbara, em 11 de novembro de 1972. Para os que gostam de temas de crimes, se trata de uma interessante leitura sobre as razões que vão formando a personalidade de um assassino e a oportunidade para um crime como este.

O filme narra a história de Barbara em seis “episódios”, que vão da Nova York de 1946 até a Londres de 1972, passando Cadaqués, Maiorca (ambas cidades na Espanha) e Paris. Segundo notas da produtora, Barbara nasceu perto de Boston em 1920. Na adolescência ela perdeu o pai, que se matou. O corpo dele foi encontrado pelo irmão de Barbara que, alguns anos depois, morreu em um acidente de carro. Bonita, carismática e ambiciosa, ela tentou ascender socialmente envolvendo-se com pessoas da alta classe, mas acabou tentando a vida de atriz em Hollywood no início dos anos 40. Antes mesmo de seguir com a carreira, ela se casa com Brooks Baekeland, neto e herdeiro de Leo Baekeland, químico belga inventor de um plástico chamado Baquelita.

O diretor Tom Kalin estreou nos cinemas com Swoon – Colapso do Desejo, de 1992. Depois, filmou vários curtas, caracterizando seu trabalho por temas como a homossexualidade e a AIDS. Savage Grace é seu retorno aos longa-metragens depois de 15 anos longe de produções desta categoria.

Os usuários do site IMDb conferiram a nota 5,9 para o filme. Achei muito, muito baixa. Talvez tal nota foi motivada pelo duro que alguns temas ainda são vistos pela maioria do público. Realmente não é um filme fácil. O que achei interessante é que os críticos também não foram mais condescendentes: aqueles que tem textos publicados no Rotten Tomatoes dedicaram 45 textos negativos e 31 positivos para o filme.

Além dos atores que eu já tinha comentado, destaco as participações das espanholas Belén Rueda como Pilar Durán, amiga da família Baekeland; e de Elena Anaya como Blanca, a mulher que acaba dividindo a atenção dos dois homens da família.

O filme teria custado aproximadamente US$ 4,6 milhões – um orçamento relativamente baixo para os padrões de Hollywood, especialmente por ter sido filmado em mais de um país. Aliás, o filme realmente foi rodado em Barcelona e Sitges (Espanha), na França, e em Londres (Inglaterra). Com uma distribuição super pequena, ele conseguiu nos Estados Unidos pouco mais de US$ 434 mil. Talvez em DVD ele consiga um desempenho melhor – ainda que eu acho difícil por sua temática e porque poucos parecem estar indicando o filme.

Gostei muito também do trabalho de figurino de Gabriela Salaverri e da cenografia de Deborah Chambers. Diferentes épocas e diferentes cidades que foram perfeitamente retratados em roupas e caracterização de cenários. Savage Grace é uma produção da Espanha, França e Estados Unidos.

CONCLUSÃO: Um filme difícil sobre temas polêmicos como o adultério, o incesto e a homossexualidade. Conta a história da família de uma mulher que ascendeu socialmente e que viu a sua vida mudar quando perdeu a “galinha dos ovos de ouro”. Uma interpretação primorosa de Julianne Moore, acompanhada de perto por outros atores excelentes. Com cenas fortes, é um drama para quem não se importa de ver “verdades difíceis” algumas vezes de acreditar. Ou, como diz com muita propriedade a frase que está no cartaz do filme “a verdade é mais chocante que a ficção”. Algumas vezes, pelo menos.

The Eye – O Olho do Mal

Hollywood parece não ter se cansado de “inspirar-se” (para alguns, simplesmente copiar) a criatividade sombria dos filmes de terror japoneses. Desde que The Ring marcou época em 2002, tirando do quase anonimato o diretor Gore Verbinski, em uma refilmagem do japonês Ringu, a lista de histórias de terror adaptadas nos Estados Unidos não parou de crescer. Até Walter Salles chegou a Hollywood em um projeto assim: Dark Water, de 2005, com Jennifer Connelly, uma refilmagem do filme Honogurai Mizu no Soko Kara de Hideo Nakata (o mesmo diretor de Ringu). Pois The Eye é mais um exemplo do quanto Hollywood anda necesitando da criatividade nipônica. O filme estrelado por Jessica Alba é uma versão repaginada do original, Jian Gui, de 2002, dirigido por Oxide Pang Chun e Danny Pang em um produção de Hong Kong e Singapura. Achei a refilmagem fraca, um bocado de “mais do mesmo”. Talvez se eu não tivesse assistido mais nenhum filme do gênero… mas tendo visto vários outros, inclusive os citados anteriormente, me pareceu um esforço despropositado para ganhar uns trocados garantidos – afinal, os fãs do gênero assistem de tudo, não importa se é algo ruim ou não.

A HISTÓRIA: Sydney Wells (Jessica Alba) é uma música virtuosista que ficou cega quando tinha 5 anos de idade. Ela se acostumou a viver sem a visão, aguçando os demais sentidos. Vive sozinha e tem uma vida independente, até que recebe um transplante de córneas por iniciativa da irmã, Helen Wells (Parker Posey). Durante a sua recuperação da cirurgia, Sydney começa a ver imagens estranhas e irreais. Segundo o médico Paul Faulkner (Alessandro Nivola) ela está passando por uma fase de resistência psicológica, mas até o científico passa a duvidar deste diagnóstico quando Sydney se envolve em estranhos acontecimentos.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que não siga lendo quem ainda não assistiu a The Eye): Ok, o filme tem alguma ironia dispersa aqui e ali, o que me fez até dar uma relaxada. Por exemplo, na hora em que o médico pergunta a sua paciente de forma irônica se ela está vendo “pessoas mortas”, em uma clara referência a frase que virou o cartão-de-visitas de The Sixth Sense. Mas fora essa “piadinha”, o filme é um amontoado de situações-comum e frases mais que esperadas em filmes do gênero.

Jessica Alba está bem, ainda que me irrite um pouco a sua preocupação em estar sempre “piscando” para demonstrar um naturalismo maior da personagem que “acabou de fazer um transplante de córneas”. Os demais atores também estão ok, em nenhum papel que realmente vá mais do que o estágio médio de profundidade. Ok, ninguém espera personagens mais trabalhados em filmes assim – exceto por Dark Water e alguns outros, talvez. O que se espera são sustos dos bons e efeitos idem.

Bem, os sustos também são poucos… pelo menos se você já assistiu mais de 10 filmes do gênero, não é pego de maneira tão fácil por figuras distorcidas que se jogam na frente da câmera. Também algo que me irrita um pouco em filmes do gênero: porque diabos os tais fantasmas não verbalizam o que eles querem? Ficam nesse jogo mudo de sustos até que o “perseguido” perceba o que eles querem. Ai, não tenho tanta paciência não com os fantasmas. 🙂

Talvez alguém ache o filme interessante como passatempo, mas eu não achei nem isso. Fraco, realmente. Fiquei curiosa para ver o original, que talvez seja mais ousado na direção, pelo menos. Aliás, a dupla David Moreau e Xavier Palud fizeram, na minha opinião, um filme bem modesto… poderiam ter se arriscado mais na direção.

No mais, sei que os fãs do terror vão me jogar pedras, mas é inevitável perguntar: (SPOILER – não leia se não viu o filme ainda) se todo o propósito de Ana Christina Martinez (Fernanda Romero) era mesmo que Sydney impedisse a morte de várias pessoas, o que teria acontecido se ela conseguisse as informações da sua doadora só um dia depois? Ou várias horas depois? Ok, ok, eu sei que os roteiros de filmes assim não devem ter lógica, necessariamente, mas sei lá… custa ter um pouco mais de sentido? Enfim… quero deixar claro que não foi nem a falta de lógica que me incomodou, mas que os sustos foram poucos e fracos. E o final… mais artificial impossível.

NOTA: 4,5.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Algo que o filme me incomodou um pouco: essa mensagem de que algum órgão transplantado pode carregar uma certa “memória celular” da pessoa anterior… Fiquei pensando até que ponto isso não pode afetar doações. Procurei informações a respeito (recomendo este texto e este outro para começar) e parece realmente que existiram casos de pessoas que relataram fatos que só poderiam ter vindo como “herança” da pessoa de quem elas receberam determinado órgão – normalmente coração ou pulmão. Mas existe muita divergência entre os cientistas sobre isso. E, claro está, não ocorreria algo assim como se vê no filme, com um transplante de córneas e uma série de “visões” que a pessoa passaria a ter. De qualquer forma, é um tema interessante – ainda que perigoso porque é cercado por mais dúvidas que certezas.

O filme foi bem nas bilheterias… até o dia 6 de abril ele tinha arrecadado pouco mais de US$ 31,3 milhões apenas nos Estados Unidos. Nada mal. E a cifra também comprova que Hollywood pode continuar fazendo refilmagens do tipo que sempre terá uma boa bilheteria para os filmes – especialmente se tiver alguém como Jessica Alba na frente do elenco.

Falando da atriz, além dela e das pessoas já citadas, faz parte do grupo de atores em cena Rade Serbedzija como o maestro Simon McCullough; a veterana Rachel Ticotin como Rosa Martinez, mãe de Ana Christina; e Obba Babatundé como o médico Dr. Haskins.

O filme conseguiu a nota 5,3 dos usuários do site IMDb. Os críticos que tem textos publicados no Rotten Tomatoes dedicaram 59 textos negativos e 16 positivos para o filme.

Curioso que o filme acumulou dois prêmios até agora: melhor cartaz de filme de terror no Golden Trailer Awards; e melhor atriz de filmes de terror para Jessica Alba no Teen Choice Awards.

Para não dizer que Jessica Alba não se esforçou para o papel, conta a lenda que ela se preparou com aulas de violino por seis meses, além de ter recebido aulas básicas de braile – só não vi muito o que isso fez diferença no filme, mas tudo bem. 🙂

O filme foi rodado em Los Angeles – sequencia inicial; em Vancouver, no Canadá; e em duas cidades do Novo México: Albuquerque e Isleta Pueblo.

CONCLUSÃO: Mais uma refilmagem de um filme de terror nipônico, esta produção acaba por não mostrar nada de novo – nem na direção e nem nos sustos. Acaba se mostrando fraco para os fãs do gênero que já estão acostumados com outras histórias similares. Ainda assim, não deixa de ser curioso o “mote” do filme, ou seja, a ainda não esclarecida questão da “memória celular” que passaria de doador para receptor de transplantes. Para quem gosta do gênero, talvez seja um passatempo. Para os que não são muito fãs, será um filme um tanto chatinho.

SUGESTÃO DE LEITORES: Mais um filme comentado anteriormente por um dos bons leitores deste blog. The Eye foi comentado por Elizeu há vários meses… aqui está o comentário, meu bom Elizeu. Finalmente assisti ao filme. Jessica Alba está bem, realmente, mas achei que ela não fez nada assim… “excepcional”. Talvez para uma tarde chuvosa e sem nada melhor para ver, ele valha a pena. hehehehehehehe. Mas quero ver você aqui comentando sobre o filme também. Fiquei curiosa mesmo é para ver o original. Um abraço para ti e para os demais leitores que sugerem filmes por aqui – prometo continuar assistindo o que vocês indicam dentro do possível. 🙂