Vivir es Fácil con los Ojos Cerrados – Viver é Fácil com os Olhos Fechados

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Ter sonhos e persegui-los é algo fundamental. Especialmente em tempos duros e complicados. Vivir es Facil con los Ojos Cerrados se passa em uma época difícil para a Espanha, de ditadura, quando a liberdade de sonhar não era um artigo comum. Além de tratar daquela época e de uma Espanha pouco difundida mundo afora, esta produção aborda um momento cultural único, dos The Beatles e dos questionamentos que John Lennon levantou em sua época. Especialmente sobre o que de fato é importante na vida.

A HISTÓRIA: Um rádio antigo é sintonizado. Nas notícias de uma emissora, a apresentadora comenta que muitas pessoas se perguntam o que estaria acontecendo com John Lennon. Havia, na época, rumores de que ele iria acabar com a banda The Beatles. Em uma reportagem de jornal, aparece a notícia de que Lennon está em Almería, na Espanha, para participar de um filme.

A notícia segue contextualizando a época, comentando sobre a histeria que circunda os Beatles, trata das ameaças que começam a surgir pelas declarações de Lennon e sobre como pode ser desagradável para eles se apresentarem em países com ditaduras como a Espanha. É neste país que o professor Antonio (Javier Cámara) ensina inglês para os seus alunos com músicas dos Beatles. Fã da banda e de Lennon, ele decide viajar para Almería para se encontrar com o ídolo. No caminho, ele encontra Belén (Natalia de Molina) e Juanjo (Francesc Colomer) em suas peregrinações pessoais.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Vivir es Facil con los Ojos Cerrados): Tinha ouvido falar desse filme, há tempos, mas não tinha conseguido assisti-lo até agora. Gosto do cinema espanhol e de filmes que se debruçam sobre uma certa época na história. Especialmente quando esta época é delicada para o país.

Vivir es Fácil con los Ojos Cerrados é ambientado em 1966, durante a ditadura do general Francisco Franco – que esteve no poder entre 1939 e 1976. Interessante um filme falar sobre falta de liberdade e pobreza nas ruas naquela época já que a imagem que o regime franquista sempre procurou passar foi de um país unido e aonde tudo ia bem. Não é apenas no Brasil, infelizmente, que muita gente se diz saudosista da época da ditadura. Na Espanha há muita gente que ainda diz ter saudade de Franco, enquanto outros simplesmente não viveram aquela época e não tem lembrança dos horrores da ditadura – a exemplo do que acontece no país.

Mas voltemos ao filme. Vivir (tratarei do filme assim, desta forma abreviada) é um filme interessante por unir dois temas importantes: a falta de liberdade individual e a falta de liberdade coletiva versus a busca por essas liberdades. Ao mesmo tempo que esta produção fala de uma época bem específica em um país, a Espanha, ela também aborda um fenômeno cultural que ultrapassou todas as barreiras de território, que foi a beatlemania.

O filme, em si, é bem simplista. A história gira em torno de três personagens que buscam, cada uma sua maneira, o seu próprio caminho. O professor Antonio ensina inglês para crianças através das letras das músicas do The Beatles. Belén é uma jovem que não tem muitas perspectivas e que está procurando reencontrar a mãe em um momento delicado de sua vida. Enquanto isso, Juanjo sai de casa porque não aguenta a repressão paterna e quer experimentar a experiência de viver por conta própria.

Ao saber que John Lennon está rodando um filme em Almería, Antonio decide viajar de Albacete até a pequena cidade na Andalucía, no Sul da Espanha, para tentar se encontrar com o líder da sua banda preferida. A primeira parte do filme mostra a vida de Antonio e a sua viagem até lá. No caminho, ele encontra Belén em um posto de gasolina e Juanjo na estrada. Acaba dando carona para os dois, e os três acabam juntos em Almería.

Bonita a forma com que o diretor e roteirista David Trueba conta essa história. De forma clara ele contrapõe as pessoas mais velhas e sua forma dura de lidar com a realidade com a forma fresca e mais leve dos jovens, ao mesmo tempo que mostra uma Espanha igualmente fechada e cheia de problemas contra uma cultura estrangeira que não tem fronteiras e que fascina a qualquer pessoa. Com isso, Trueba não quer dizer que a grama do vizinho é sempre mais verde, mas que alguns países e pessoas demoram mais tempo para perceber o que é importante e o que simplesmente é a continuação de velhos costumes e modos de agir que não incluem aos demais.

Ainda que praticamente não vejamos Madri ou outra grande cidade maior da Espanha neste filme, parece ficar evidente a intenção de Trueba nos falar da “Espanha profunda”, ou seja, do interior que vai demorar mais para evoluir. Ao mesmo tempo que em Almería temos pessoas simples e sem pompas e circunstâncias, temos figuras que são grosseiras, preconceituosas, e que só aceitam pessoas que sejam iguais a elas.

O exemplo mais claro deste perfil é o valentão da cidade que, gratuitamente, zomba de Juanjo por causa de seu cabelo e agride o adolescente quando tem uma oportunidade. Outros homens da localidade simplesmente não fazem nada. Esse é um comportamento que ainda se vê muito na Espanha – por isso chamei de “Espanha profunda” antes -, aonde “o que vem de fora” não é bem aceito. Talvez, tolerado. Neste sentido, Antonio encarna um modelo de adulto mais moderno, que não tem problemas em admirar o que vem de fora quando o modelo é bom e positivo – como no caso de Lennon e The Beatles. Além disso, fica claro que ele defende sempre Belén e Juanjo. De fato ele se preocupa com os demais.

Mas além deste recorte histórico e comportamental de um país, Vivir trata de questões que independem da fronteira. Ao se debruçar em canções dos The Beatles, o filme repercute o que muitas músicas de Lennon e companhia queriam evidenciar, como a solidão de estar rodeado de pessoas e estar sozinho, os valores que são realmente importantes versus o ouro de tolo que a fama propicia, entre outros questionamentos. Antonio representa um sujeito solitário e libertário que se identifica com as músicas e suas reflexões. Pouco a pouco ele vai contaminando com esperança aos demais personagens desta história.

Falando em personagens, sem dúvida alguma os melhores construídos são os de Antonio e Juanjo. Do primeiro, já falei bastante. O segundo, representa os jovens bem educados e que não se satisfazem com o regime repressor – seja o de casa, seja o de fora de casa. Responsável, amável, ele está pronto para a vida, mas quer mudanças. É o lado corajoso da história. Belén demonstra, para mim, a perda da inocência – seja de uma pessoa em uma época da vida, seja do próprio país, a Espanha. Mas ela, no filme, acaba tendo um papel um pouco controverso.

Ao mesmo tempo que Belén é admirável, pela beleza e pela honestidade, ela parece ser a peça sempre desejável da história. Então ela ainda é vista de forma machista, em uma sociedade que é assim e que, por ser assim, acha que ela deve se casar com alguém e ter filhos – essa é a sua única opção. Ela, por outro lado, parece querer ser dona de si mesma – é libertária e, algumas vezes, me pareceu que até demais. Desejada por Antonio e por Juanjo, ela acaba sendo a peça de um tradicional triângulo amoroso – que, no fundo, não se concretiza.

Desta forma, Vivir fala de muitos temas e tem diversas nuances. Esse emaranhado todo percebemos em parte enquanto o filme está se desenrolando. O restante surge com o tempo e depois que a produção acaba. Mas algo bonito que a história deixa como mensagem é que é possível sonhar e ir atrás dos seus sonhos, independente da idade ou do quanto as outras pessoas possam achar a sua ideia maluca.

Antonio não era o perfil clássico do cara que parte de uma cidade para outra para falar com o seu ídolo. Mas ele faz isso e dá exemplo para os jovens que parecem ser mais libertários que ele. Buscar os sonhos exige vontade, saída e perseverança. Independe de idade, classe social ou profissão. Apenas essa mensagem já vale o filme. Assim como outros detalhes espalhados aqui e ali. Uma das minhas cenas preferidas é quando Juanjo consegue fazer o gravador de Antonio funcionar na volta para casa. Momento delicado e cheio de esperança. Esse é um filme bacana, mas faltou um pouco mais de emoção, talvez, para que eu o considerasse marcante.

NOTA: 8,8.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: David Trueba é um nome relativamente conhecido do cinema espanhol. Nascido em Madri em 1969, ele tem 16 prêmios no currículo e outras 24 indicações a prêmios. De sua filmografia com 17 trabalhos como diretor, os destaques, além deste Vivir es Fácil con los Ojos Cerrados, são La Buena Vida, de 1996; e Soldados de Salamina, de 2003. Ele é o irmão mais novo do Trueba mais conhecido do cinema espanhol, o veterano Fernando Trueba. Fernando, o irmão mais velho de David, tem 29 prêmios e 26 indicações no currículo, incluindo uma indicação ao Oscar em 2012 pelo filme Chico & Rita.

O roteiro deste filme, claramente, está focado no trabalho de três atores. Javier Cámara, mais uma vez, demonstra ser um ótimo ator, sensível e atento aos detalhes. Ele convence no papel que for. Faz o mesmo aqui. Os jovens Natalia de Molina e Francesc Colomer, especialmente o segundo, também demonstram talento e convencem. Além deles, tem um certo destaque o trabalho de Ramon Fontserè, que interpreta a Ramón, o dono do restaurante que acaba sendo um ponto de encontro importante dos viajantes; Rogelio Fernández como Bruno, o filho cadeirante de Ramón; Jorge Sanz como o pai de Juanjo e Ariadna Gil como a mãe do jovem. Os demais tem papeis pouco relevantes.

A direção de David Trueba é bem tradicional, assim como o seu roteiro, que é linear e revisita aspectos conhecidos de road movie e de filmes que mesclam drama e humor. Nada a destacar do trabalho dele como diretor ou roteirista, apenas que ele valoriza o trabalho dos atores. Da parte técnica do filme, vale comentar o bom trabalho do diretor de fotografia Daniel Vilar e da editora Marta Velasco. A trilha sonora de Pat Metheny também é boa.

Vivir es Fácil con los Ojos Cerrados estreou em setembro de 2013 no Festival de Cinema de San Sebastián. Depois, o filme passou por outros 14 festivais de cinema. Nesta trajetória, o filme recebeu 16 prêmios e foi indicado a outros 18. Entre os que recebeu, destaque para os de Melhor Filme, Melhor Roteiro Original e Melhor Nova Atriz para Natalia de Molina pelo Prêmio do Círculo de Roteiristas de Cinema da Espanha; e para os de Melhor Ator para Javier Cámara, Melhor Nova Atriz para Natalia de Molina, Melhor Diretor, Melhor Trilha Sonora, Melhor Roteiro Original e Melhor Filme no Prêmio Goya.

Para quem gosta de saber aonde os filmes foram rodados, Vivir foi filmado em duas cidades da Espanha: Madri e Almería.

Esta produção foi a indicação oficial da Espanha para o Oscar 2015.

Agora, pequena curiosidade sobre o filme. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). De acordo com a história criada por Trueba, Lennon mostrou para Antonio uma música nova na qual ele estava trabalhando. Isso aconteceu durante o encontro deles no trailer do compositor nos intervalos das filmagens em Almería. Inicialmente, Antonio achou que a música não tinha sido gravada. Mas depois, voltando para Madri, Juanjo percebe que faltava um ajuste na velocidade do gravador para escutar a música. Quem conhece um pouco de The Beatles e de Lennon sabe que aquela música era uma primeira versão de Strawberry Fields Forever.

Muito bacana essa “tirada” do filme. Afinal, como tantas outras músicas, o filme trata esta música como tendo um título provisório diferente, “Living is Easy with Eyes Closed”, o título do próprio filme e que cai como uma luva para aquela realidade. Afinal, se você ignorar que vive em uma ditadura, ignorar a pobreza e os valores deturpados da sociedade, poderá viver de forma mais fácil. Mas se você se importa com tudo isso, certamente ficará incomodado e terá uma vida mais “difícil”. A escolha é sempre sua/nossa.

Os usuários do site IMDb deram a nota 7 para esta produção, enquanto que os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 13 textos positivos para o filme, o que lhe garante uma aprovação de 100% e uma nota média de 7,8. Este é um raríssimo caso de um filme com 100% de aprovação dos críticos. Interessante.

Esta é uma produção 100% espanhola.

CONCLUSÃO: Este é um filme simpático, com diversas nuances críticas e de reflexão. Bem dirigido, com atores comprometidos, só não é arrebatador por causa do roteiro, um tanto singelo demais. Ainda assim, Vivir es Fácil con los Ojos Cerrados tem diversas provocações, seja na análise de uma época, na reflexão sobre a formação de uma identidade nacional, ou na ponderação sobre um fenômeno cultural “invasor”. Um dos acertos do filme é mostrar um pouco da “Espanha” profunda e pouco conhecida, assim como no desejo dos realizadores de valorizar os bons exemplos e a aposta nos jovens. Por outro lado, a história é singela, bacaninha, mas não arrebata e nem surpreende. Um filme simpático, que vale ser conferido em uma tarde ou noite tranquila.

Respire – Breathe

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Você está lá, tranquilo(a), vivendo a sua vida em paz, até que alguém surge do nada e muda tudo. Respire é mais um filme que conta uma história destas. Mas esta não é uma história qualquer. Esta é a história de duas pessoas, uma boa, suave, generosa, e outra que vai se revelando aos poucos de forma totalmente diferente do que ela parecia inicialmente. Com um roteiro bem escrito e, em especial, uma direção fabulosa por ser muito atenta aos detalhes, além de ter duas jovens atrizes ótimas, Respire é um bálsamo, uma pérola que merece ser apreciada.

A HISTÓRIA: Pouco a pouco a noite vai dando lugar ao dia. O movimento na rua começa a aumentar e as pessoas que estão dormindo, como Charlie (Joséphine Japy), a acordar. Quando vai tomar o café da manhã, a jovem percebe o climão entre a mãe, Vanessa (Isabelle Carré) e o pai (Radivoje Bukvic). Eles estão discutindo porque ele sumiu por um tempo, mais uma vez. Enquanto o pai de Charlie serve o café da manhã para a filha, Vanessa chora. Charlie não aceita a carona do pai e vai para a escola por contra própria. Quando chega na escola, ela encontra as amigas. Na sala de aulas, eles falam sobre paixão e como ela é capaz de tirar a liberdade das pessoas. Em breve ela vai conhecer Sarah (Lou de Laâge), uma nova aluna que vai mudar a sua vida.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Respire): Achei esse filme impressionante. Primeiro, pelo roteiro e pela direção de Mélanie Laurent, mais conhecida de todos nós por seu desempenho como atriz. Depois, pelo trabalho das jovens intérpretes Joséphine Japy e Lou de Laâge – especialmente pelo da primeira. E em terceiro lugar, mas talvez esse seja o fator principal, porque este filme me fez revisitar histórias que conheço. E vocês, meus caros leitores, sabem bem como a interpretação de um filme depende disso, da nossa própria vivência e/ou conhecimento sobre o tema.

Assisti a Respire de forma bem despretensiosa. Como costumo fazer, não me informei nada sobre ele antes. Por isso mesmo, foi uma grata surpresa encontrar esta produção que tem não apenas a duração certa, mas também um apreço pela história e pela narrativa como há tempos eu não via em um filme. O roteiro de Respire é uma adaptação feita por Laurent e Julien Lambroschini do livro da francesa Anne-Sophie Brasme que, pelo que eu andei pesquisando na internet, fez um grande sucesso não apenas na França, mas em outros países da Europa, como a a Espanha.

Pois bem, não li o livro. Mas gostei muito da forma com que Laurent e Lambroschini conduzem esta história. Logo as primeiras cenas do filme já nos mostram o que podemos esperar do que virá em seguida. Não há imagem que sobre no trabalho de Laurent. A diretora – este é apenas o segundo longa da atriz – escolhe cada cena como um pintor seleciona cuidadosamente cada tom, cada cor e os locais exatos em que vai pintar luz ou sombras.

Como se estivéssemos nos despedindo da noite escura e adentrando no “dia” da vida de Charlie, ou seja, o obscuro do desconhecimento dá lugar para a claridade do conhecimento da vida dela, Respire nos apresenta a personagem principal e o seu entorno rapidamente. Conhecer essa adolescente é fundamental. Sensível, meiga, alegre mas também um pouco melancólica, Charlie é, claramente, uma menina do bem.

Ela não é isolada. Pelo contrário. Tem bons e verdadeiros amigos. Se destacam, nesse grupo, Victoire (Roxane Duran), amiga de infância da protagonista, e Lucas (Louka Meliava), um ex-namorado da garota que segue sendo seu amigo e está sempre por perto na esperança de ter uma chance com Charlie novamente. Sendo assim, a forma com que Charlie se agarra a Sarah não é explicada pela carência da garota, mas por outros fatores.

Primeiro que Sarah é um elemento novo e totalmente diferente do que Charlie está acostumada. A garota tem um jeito independente de agir e de pensar. Fuma, sabe fazer festa como poucas, parece ser um “espírito livre”. Isso fascina Charlie. Compreensível. Quem nunca passou por isso? Mas quem já tem um pouco de vivência e já encontrou uma pessoa canalha na vida, logo percebe o que está acontecendo. Respire acerta por nos contar a história assim, de forma honesta e sem demorar muito a entrar no âmago da questão.

(SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Cada um tem uma experiência de vida. Minha leitura deste filme tem totalmente a ver com as pessoas que encontrei na minha trajetória até agora. Neste caminho, encontrei pessoas fantásticas, mas encontrei também canalhas. E por saber como eles são, logo identifiquei o jogo de Sarah. E aí, meus caros, não sei vocês, mas logo pensei: “Isso não vai acabar bem”. As tragédias se desenham e quem está atento ou consegue identificar bem os sinais, percebe isso muito antes delas aconteceram. Claro que quem está envolvido pela história tem mais dificuldade de enxergar. Especialmente se é adolescente e tem pouca vivência.

Sarah é uma canalha. Ela usa Charlie para se enturmar na escola e para logo ser aceita no grupo de amigos. No início, claro, ela foca a atenção totalmente em Charlie, envolvendo a garota – quem não gosta de ser valorizado e querido? Tudo anda bem, até que no feriado as duas se beijam bêbadas e Sarah percebe, no dia seguinte, que deve mudar de atitude para Charlie não se sentir “dona demais” da situação. Daí ela começa a mostrar o que ela realmente é: uma manipuladora egoísta que usa as pessoas para se dar bem.

Como qualquer pessoa com esse perfil, ela mente sem diferenciar que está mentindo. Charlie começa a se isolar, sofrendo com a separação mas, ao mesmo tempo, começa a analisar Sarah. Ao perceber as primeiras mentiras, e sem se dar conta ainda que a outra é uma canalha, ela acaba procurando respostas. Esse é o grande equívoco da protagonista. Claro que qualquer pessoa inteligente e sensível quer encontrar respostas. E ainda que elas existam, não vale a pena correr atrás delas. Mas Charlie não pensa assim. Ela quer entender a mudança de comportamento de Sarah.

A verdade é que Charlie, como eu disse lá no início, é uma boa pessoa. Lá pelas tantas ela percebe, e nós junto com ela, que sem querer ou planejar ela repete um pouco o comportamento da mãe. Para alguns, que nunca sofreram com um casamento ou com violência doméstica, uma mulher que aceita mil vezes um cara sem caráter é fraca. Mas é preciso entender o que os canalhas fazem. Eles envolvem a pessoa emocionalmente de uma maneira vil, absurda, e nem todos conseguem se dar conta disso. Como o filme sugere no início, os apaixonados são prisioneiros, perdem a liberdade.

Vanessa, a mãe de Charlie, sofreu e foi aprisionada pelo pai da garota por quase duas décadas. Não é fácil se desfazer de algo assim. Em certo momento do filme, Charlie pergunta para a mãe porque ela sempre perdoa ele – claramente um cafajeste. Ela diz que não consegue ser diferente. Esse momento é muito ilustrativo. As pessoas são boas. Mas nem sempre deveriam ser assim, porque elas acabam fazendo mal para si mesmas e, sem querer, para os outros. Mas Charlie é uma pessoa boa, como a mãe dela e, infelizmente, as duas são vítimas de dois canalhas.

Mesmo sofrendo todo o tipo de humilhação na escola por causa de Sarah, ela não procura dar o troco. Não se volta contra a ex-amiga. Ela apenas observa e tenta entender. Busca uma explicação racional para a aparente loucura da outra. Vez ou outra Charlie tem um ataque de asma. Claramente, a falta de ar é provocada pela questão emocional. Algumas vezes o coração dela fica tão “apertado” que o ar entra com dificuldade no corpo magro da jovem. Mais que desgaste físico, a questão é emocional.

Daí surge uma leitura muito interessante do nome deste filme. (SPOILER – não leia… bem, você já sabe). Sem perceber, Charlie somatiza o que ela não consegue resolver na própria vida. O pai dela é um canalha, ela vê a mãe sofrer e não lida bem com isso. Depois, ela mesma conhece outra pessoa canalha, Sarah, que lhe envolve e lhe faz sofrer. Enquanto ela tem esses problemas e não se livra deles, lhe falta ar.

Como sempre na vida, você pode decidir romper com a situação que lhe faz mal virando a página, mudando o foco, rompendo relações. Mas tem pessoas que não conseguem fazer isso se não for de forma definitiva, trágica. Infelizmente este é o caso de Charlie. Mas algo positivo ficou depois de tudo isso: ela rompeu o ciclo e conseguiu respirar. Terá que pagar pelo que fez, talvez por pouco tempo, porque teve atenuantes. Mas possivelmente ela aprendeu muito com tudo aquilo. Saberá identificar e se distanciar de canalhas nas próximas vezes. Na vida, tudo é aprendizado.

Esta história não interessa, assim, apenas a adolescentes. Verdade que esta é uma fase especial na vida de qualquer pessoa. Quando estamos nos descobrindo e desbravando também o mundo. Aprendendo com as relações, pensando por conta própria. É uma fase decisiva na vida, e que vais nos moldar por bastante tempo.

Mas a beleza da existência é que podemos vivenciar isso por toda a fase adulta. Perceber aprisionamentos e formas de nos libertar em qualquer momento da vida. Respire trata disso. Da nossa capacidade de compreender, perdoar a nós mesmos e aos demais e de seguir em frente. Porque pessoas boas, infelizmente, sempre serão magoadas pelas pessoas ruins. Não podemos evitar isso. O que podemos é saber lidar bem com estas situações. Respirar e virar a página sem o elemento trágico no meio.

Respire é maravilhoso pelo conjunto da obra. Pelo roteiro, pela direção cuidadosa e bela e pelo trabalho fantástico das atrizes. Especialmente a intérprete de Charlie. Como ela é fantástica! Deslumbrante! Linda, frágil e honesta na medida certa, sem afetações e com muita naturalidade. Ela tem a sorte de conseguir uma dobradinha preciosa com a atriz que interpreta Sarah.

A cena final delas, em especial, é digna de aplausos. Como toda canalha, Sarah quer reverter o jogo e se coloca no papel de vítima. Quando ela fala de Charlie, na verdade, está falando de si mesma – e vice-versa. Sequência para tirar qualquer um do sério. Mas alguém experiente saberia ter o sangue frio para lidar com aquela situação. Infelizmente não é o caso de Charlie. O importante, contudo, é que ela aprendeu a respirar. Estará muito mais preparada para a próxima vez.

NOTA: 10.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Como citei anteriormente, este é apenas o segundo longa-metragem dirigido por Mélanie Laurent. Mais conhecida pelo trabalho de atriz, com 38 produção no currículo como intérprete, Laurent estreou na direção com o curta De Moins en Moins, em 2008. Depois ela dirigiu um episódio da série X Femmes, no mesmo ano. A estreia com longas veio em 2011, com Les Adoptés. No ano seguinte, ela dirigiu o curta Surpêche. Depois de Respire, lançado em 2014, ela está trabalhando na pós-produção do documentário Demain.

Pelo que eu vi em Respire, Laurent merece ser acompanhada. Eu gostava dela como atriz. Sempre achei que ela tinha uma sensibilidade em seus papéis diferenciada. Mas como diretora… que bela surpresa! Gostei de cada escolha de ângulo e de ótica da diretora. Do olhar colado no carpete e que mostra o All Star e os primeiros passos da protagonista até diversas cenas durante o feriado idílico por um tempo e revelador no segundo período. Em outras ocasiões, ela assume a postura quase de documentarista, com a câmera tremendo em alguns momentos no afã de ficar próxima dos atores. Bonito trabalho.

Agora, tão fascinada com a ótica de Mélanie Laurent, fiquei com o trabalho de Joséphine Japy. A jovem atriz francesa de 21 anos tem uma presença marcante na tela, além de uma delicadeza impressionante na interpretação. Mesmo interpretando uma personagem contida, se comparada com Sarah, ela consegue roubar a cena em muitos momentos. Atriz que, sem dúvida, merece ser observada e acompanhada. Respire foi apenas o quinto filme na carreira de Japy. Ela tem outros três filmes no currículo após esta produção dirigida por Laurent.

O elenco de Respire foi escolhido a dedo. Pelo menos é isso que o trabalho de direção de Laurent nos sinaliza. Além da protagonista, todos os outros atores fazem uma entrega muito boa, bastante legítima – ninguém parece estar “forçando” uma barra na interpretação. Fator importantíssimo para o conjunto da obra. Japy rouba a cena, mas tem em Lou de Laâge uma parceira à altura e ideal. A atriz que interpreta Sarah consegue dar o tom exato para a sua personagem. Extrovertida, ela ocupa os espaços dos ambientes e se faz notar. A atriz se sai muito bem nessa tarefa.

Além das duas atrizes principais, vale citar o ótimo trabalho de outros três coadjuvantes já citados anteriormente: Isabelle Carré como Vanessa, mãe de Charlie; Roxane Duran como Victoire, amiga de infância da protagonista; e Louka Meliava como Lucas, apaixonado por Charlie. Eles estão muito bem por interpretarem os seus personagens com emoção e na medida certa. Passam verdade. Além deles, vale citar o bom trabalho de Claire Keim como Laura, tia de Charlie; e Thomas Solivéres como Gastine, um dos amigos mais próximos de Charlie depois de Victoire e Lucas.

Há outros jovens que fazem parte do grupo, como Camille Claris como Delphine; Louise Grinberg como Louise; Fanny Sidney como Isa; e Marie Denarnaud como Marie, mas nenhum deles se destaca muito – pelo menos não ao ponto de darmos muita atenção para o seu papel na história. Além deles, durante o feriado, merece um pouco de destaque pela aparição, já que ele praticamente não tem fala alguma, o bonito Alejandro Albarracín como Esteban, o romance espanhol de alguns dias de Vanessa.

Para pessoas inteligentes como Charlie é difícil aceitar o que acontece. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme, passe para dois parágrafos adiante). Ela precisa encontrar uma explicação para o comportamento de Sarah. Isso dá para entender. Para perdoar, é preciso compreender. Por ser uma pessoa do bem, Charlie quer perdoar. Ela até tenta esse caminho, mas o que ela não percebe é que por mais que ela tente entender Sarah, ela não pode “medi-la” com a mesma base com que leva e compreende a própria vida. As pessoas canalhas são doentes. Precisariam de tratamento psicológico. Merecem piedade, mas não proximidade. Precisam se tratar e, se uma pessoa sã perto delas não percebe isso, tem grande risco de ser arrastada por aquela mesma loucura.

Isso acontece com Charlie. Ela ainda não percebeu, mas talvez um dia perceba, que existe uma grande diferença entre entender o outro – porque para tudo existe uma explicação – e querer ele perto de você. O difícil, especialmente quando a pessoa está envolvida, é enxergar que está refém e que precisa se libertar. Se você não faz isso por bem, em uma saída pacífica e espontânea, acabam acontecendo saídas trágicas e, sem dúvida alguma, nada desejadas pela vítima que, na verdade, é do bem e que não gostaria de nada daquilo. Para evitar o Mal, é preciso se afastar dele.

A direção de Laurent é perfeita, irretocável – dá para entender e perdoar aquelas sequências de câmera um pouco tremida e citadas anteriormente. Além desta parte vital do filme, vale citar outros pontos fortes da parte técnica da produção. Para começar, a direção de fotografia também perfeita de Arnaud Potier.

Depois, funcionam bem a trilha sonora de Marc Chouarain, a edição de Guerric Catala (outro ponto forte da produção), e o conjunto da obra que ajuda a dar o estilo e o ambiente da história formado pelo design de produção de Stanislas Reydellet, pela direção de arte de Arnaud Denis, a decoração de set de Cécilia Blom, os figurinos de Maïra Ramedhan Levi e o departamento de maquiagem formado por Melisa Klein, Pascale Bouquière e Jimmy Springard.

Respire estreou em maio de 2014 no Festival de Cinema de Cannes. Depois, o filme faria uma trajetória longa em outros 21 festivais de cinema pelo mundo – o último deles em julho de 2015, o Festival de Cinema Pula. Nesta trajetória o filme recebeu um prêmio e foi indicado a outros nove.

O único prêmio que Respire levou para casa foi o de narrativa pelo John Schlesinger Award entregue no Festival Internacional de Cinema Provincetown. Entre os prêmios aos quais ele foi indicado, destaco duas indicações como Atriz Mais Promissora para Lou de Laâge e Joséphine Japy no Prêmio César e a indicação de Mélanie Laurent como Melhor Diretora no Festival de Cinema de Cannes.

Produção 100% francesa, Respire foi rodada totalmente no departamento de Hérault, em comunas como Marseillan, Mèze e Béziers, que fazem parte da região administrativa Languedoc-Roussillon, que fica no Sul da França.

Os usuários do site IMDb deram a nota 7,1 para Respire. Uma boa avaliação levando em conta o padrão do site. Os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 32 críticas positivas e três negativas para a produção, o que lhe garante uma aprovação de 91% e uma nota média de 7,7.

CONCLUSÃO: O olhar, a forma de enxergar tudo o que nos cerca, do quadro mais amplo até os mínimos detalhes, é o que faz toda a diferença. E, neste sentido, geralmente, o cinema francês é único e diferenciado. Respire é mais um ótimo exemplar deste cinema. Um filme envolvente, atento a todos os detalhes e belo, tanto na forma com que ele é dirigido quanto na condução das atrizes. A história, como foi escrita e especialmente como é contada, não dá espaço para o espectador desviar a atenção. Mais um belo exemplar do cinema francês e que vale ser conferido.