Kray – The Edge

Alguns rapazes gostam de brincar de carrinho – especialmente os possantes.  Outros, de trem. Pois o filme russo Kray trata de contar a fixação de alguns homens por trens – e a importância que estas máquinas tiveram (e tem) para a Rússia. A história se passa em um ambiente isolado, pouco após o final da Segunda Guerra Mundial, e revela parte do sentimento e das carências dos soviéticos depois que eles venceram a batalha contra os alemães. Interessante como há pouca glória e muita cobiça, falta de esperança e disputa em cena.

A HISTÓRIA: Uma garota corre por um bosque enquanto se ouvem tiros. Ela chega até uma ponte de uma estrada de ferro, mas para ofegante. Parte de sua rota de fuga está destruída. A garota de tranças e vestido tenta escapar pelo rio, mas é levada pelas águas. Os tiros não param. Aparece a placa Kray, escrita em russo, enquanto um trem apita ao fundo. O trem para naquela estação, localizada na Sibéria, em setembro de 1945. Desembarca dele Ignat (Vladimir Mashkov), um homem que esteve na frente da guerra e, por isso, é considerado um “herói”. Ele é chamado para trabalhar ao lado do chefe do posto de trabalho da Gulag. Obcecado por trens, ele luta para adquirir novamente o direito de ser o maquinista de um deles.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Kray): Equipamentos e pessoas são considerados troféus neste filme. Um paralelo interessante para uma reflexão sobre o que restou do “mundo” após os trágicos anos da Segunda Guerra Mundial. Kray tem uma levada de filme de ação mas, entre uma e outra cena impressionante de disputas de trens – e egos -, o espectador é convidado para refletir sobre uma sociedade corrompida e carente de valores.

Há tempos eu não assistia a uma autocrítica tão contundente. Kray é dirigido por Aleksei Uchitel e tem roteiro e história de Aleksandr Gonorovsky. Os russos se debruçam sobre um campo da Gulag, como ficou conhecido o “sistema de campos de trabalhos forçados” da extinta União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS). Achei este texto curto e bastante explicativo sobre o assunto, publicado pela revista Aventuras na História. Mas não faltam fontes sobre este tipo de local.

As primeiras características que impressionam quando Kray inicia são a direção de fotografia de Yuri Klimenko e a trilha sonora dramática – e propícia para a história – de David Holmes. Este dueto continuará até o último minuto do filme, o que lhe garante parte da qualidade técnica que caracteriza esta grande produção russa. A dinâmica da direção de Uchitel também se destaca desde o princípio.

Há mil maneiras de uma mesma história ser contada. Uchitel e Gonorovsky optam pelo drama, com referências evidentes à história do cinema russo. Há relações com o cinema de Sergei Eisenstein, o maior cineasta daquele país, e até com uma crítica evidente ao cinema do “realismo socialista“, imposto por Andrei Jdanov a partir de uma determinação de Stalin.

No caso da referência à Eisenstein, ela não se apresenta através da forma, mas do conteúdo. O espectador não verá em Kray o “cinema intectual” ou “dialético” do mestre do cinema russo, mas uma simplicidade narrativa muito maior. A referência a Eisenstein está na mensagem, na dualidade entre homem e máquina e na forma com que os novos cineastas exploram o conceito repressivo do regime soviético. Mas as comparações terminam por aí.

Primeiro, porque a edição de Kray não é simbólica e cheia de dualidades como no cinema de Eisenstein. Feito para ser popular, a obra de Uchitel é linear, com cortes tradicionais e uma narrativa sem sobressaltos. Há drama e algumas surpresas no caminho, e a escolha de Vladimir Mashkov e outros atores com expressão marcante lembram um pouco as opções do próprio Eisenstein. Mas, claro, aqui não encontramos a genialidade do diretor de Bronenosets Potyomkin.

Mas voltemos ao filme… depois da direção de fotografia e da trilha sonora, o elemento que mais chama a atenção em Kray é a direção firme de Uchitel e a atuação de seu protagonista. Não demora muito para sabermos que os prisioneiros sob a administração de Fomitch (são “traidores” transferidos dos campos nazistas antes do final da guerra.

Isolados e distantes de tudo, eles vivem na miséria e no trabalho forçado. Mas também se divertem. Sem muito controle, homens e mulheres vivem de casos, de furtos e de trocas de favores. Neste cenário, a chegada de um sujeito que lutou do lado russo, ainda que tenha provocado um acidente com um trem por imprudência, quase é comemorada pelo administrador do campo da Gulag. Uma das prisioneiras, Sofia (Yulia Peresild) logo se joga na direção do “herói de guerra” para, literalmente, conquistá-lo como um troféu.

Obcecado pelo desejo de voltar a conduzir um trem, Ignat acaba personificando a ideia de herói. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). E o interessante desta produção é que este herói é imperfeito. Frustrado por não conseguir a admiração de seu “próprio povo” – ainda que seja um grupo considerado a “escória” da sociedade russa -, ele acaba se apoiando na única mulher que, como ele, procura uma nova chance: a alemã Elsa (Anjorka Strechel). O “herói” russo que não recebe o tratamento diferenciado que esperava de seu próprio povo encontra na também marginalizada Elsa o apoio e a admiração necessários. Ela depende dele e o admira, além de mostrar-se também uma mulher determinada e corajosa. O protagonista percebe que ele não é um troféu para a garota, mas o “seu herói”. Elsa, por sua vez, representa para ele uma redenção e a via de escape para uma nova vida – algo que poucos, naquele entorno, poderiam desejar ou alcançar.

Interessante a forma com que o roteiro de Gonorovsky aproxima e distancia personagens. Em Kray, a linha que separa “mocinhos” e “bandidos” é bastante tênue. Ainda que, no final, fique muito evidente a conclusão a que os espectadores devem chegar. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). São “mocinhos” aqueles que ignoram a origem da pessoa e não lhe maltratam pelo simples fato dela ser “diferente” (ou “estrangeira”, como acabam se configurando as figuras de Ignat e Elsa). Bandidos, claro, todos os demais que consideram mais forte a sua própria nacionalidade do que os acertos e erros que o indivíduo possa ter cometido. No cenário de Kray, as pessoas valem menos que uma máquina. Muito menos, aliás. São vistas como “escória”, peças que podem ser retiradas de cena com a mesma facilidade com que se mata um bicho para retirar a sua carne e devorá-la. Milhares de russos foram mortos durante o regime de Stalin por não serem considerados dignos de viver – seja porque essas pessoas eram apontadas como “traidoras” da pátria ou por qualquer outro motivo torpe e questionável.

Desta forma, de maneira bastante direta e sem rodeios, Kray faz uma crítica contundente ao fisiologismo e ao nacionalismo, resgatando os princípios do “realismo socialista” que foi empurrado goela abaixo a partir do regime de Stalin. A ideia dos heróis e do ufanismo está presente nos cartazes vistos em Kray, mas também na “aura” que circulava entre os russos enfocados nesta história – mesmo que eles fossem “traidores” e a “escória” do sistema.

A lavagem cerebral e a opressão, aliás, não faz distinção de classe social. Não importa em que local a pessoa se encontra na “pirâmide social”; o que interessa é que as ideias e comportamentos que podem ferir o sistema – seja ele injusto ou não – devem ser combatidas. A supremacia das máquinas, tão “endeusadas” quanto a figura do soldado heróico – desde que ele não se rebele contra as regras, isso é evidente -, fica evidente também na produção.

Estas reflexões e críticas propostas por Kray, além da tradicional intriga de “alcovas” e de um ritmo de aventura sobre trilhos fazem de Kray uma produção diferenciada, interessante e dinâmica. Sem contar que o filme traz detalhes da vida em um campo da Gulag pouco explorados pelo cinema russo. Apenas por estas razões, ele vale a pena.

Mas nem tudo são flores nesta produção. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Ainda que impressionem as sequências de disputas entre os trens e, principalmente, a reconstrução precária da ponte destruída por Ignat e Sofia, algumas vezes o diretor e o roteirista exageram nas longas sequências com pouca inventividade. Uma edição mais dinâmica, por exemplo, poderia transformar alguns trechos da produção em um resultado mais dinâmico e eficaz. A dupla investe tempo demais também no romance fadado ao fracasso de Ignat com Sofia. E o final, em especial, deixa a desejar – afinal, como explicar o “sumiço” de Ignat e a captura tão “fácil” de Elsa (que, aliás, não é mostrada na produção, apenas mostram quando ela é jogada para dentro do trem)? Ok que alguém fala que ele foi “limpar a neve nos pontos de desvio”. Mas por que ele iria sem ela? E por que ela, ao ver a chegada de seu algoz, o superior russo Fishman (Sergey Garmash) não fugiu? Parece que os realizadores perceberam que o filme deveria terminar logo e descuidaram de explicar melhor alguns lances no final. Uma pena, porque ele vinha muito bem, no geral, até aquele momento – descontado algum dramalhão que poderia ter sido evitado. Um pouco mais de realismo teria feito bem para esta história.

NOTA: 9,2.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Kray estrou no dia 9 de setembro no Festival Internacional de Cinema de Toronto. Na ocasião, houve quem o comparasse à obra-prima de Buster Keaton de 1927 The General. No mês seguinte, o filme russo passou pelo Festival de Cinema de Warsaw e, em dezembro, pelos festivais de Thessaloniki e Les Arcs. Provavelmente o filme marcará presença em todos os eventos do “segundo escalão” no mundo – até pela data em que ele chegou ao mercado, dificilmente conseguirá emplacar uma exibição nos principais festivais de cinema do mundo.

Este deve ser um dos filmes mais caros da filmografia russa recente. Kray custou US$ 11 milhões e arrecadou, até o dia 24 de outubro, pouco mais de US$ 5,1 milhões na Rússia. Ainda falta um bocado para ele conseguir se pagar.

Os usuários do site IMDb não se empolgaram muito com o filme. Tanto que conferiram para ele, até o momento, apenas a nota 6,7. O site Rotten Tomatoes não abriga nenhum link com crítica para a produção – o que demonstra que ela tem sido um bocado ignorado pela crítica até o momento, um ponto negativo para o seu desempenho no próximo Globo de Ouro ou mesmo para conseguir emplacá-lo no Oscar.

Encontrei dois cartazes da produção. Um deles, o que publico aqui no blog, me chamou a atenção por seguir a linha do material de propaganda daqueles tempos de Stalin, ou seja, ele segue na direção de transformar um homem em herói. E não sei se foi só impressão minha, mas a figura de Ignat, com aquela calça larga – mais do que o normal – não lembra a de um minotauro? Para mim, mais um elemento para transformá-lo em ser mitológico, viril e imbatível – algo que casa com a ideia que querem dar dele em boa parte do filme.

Falado em russo e alemão, Kray é um filme com algumas paisagens fantásticas. Fiquei impressionada com elas e, consequentemente, com a direção de fotografia, bastante iconográfica, atenta aos melhores ângulos e também na captura das imagens mais significativas.

Entre os atores secundários que merece destaque está Aleksandr Bashirov. Ele interpreta o “encarregado” da música do campo de trabalho que, ao mesmo tempo, é o ladrão comerciante do pedaço e o informante das autoridades russas sobre o que acontece no acampamento. Ele encarna o melhor estilo de “bobo da corte” que sabe tudo e que tem uma importância muito maior no lugarejo do que, inicialmente, sua posição e comportamento podem sugerir.

CONCLUSÃO: História ambientada no cenário de um campo de trabalho forçado da URSS após o final da Segunda Guerra Mundial, Kray reflete sobre a vida nestes locais e mais que isso, sobre o tipo de sociedade corrupta e em crise de valores em que se transformou  a URSS com o regime de Stalin. Repressão, violência, corrupção e furto fazem parte do cotidiano, assim como o fascínio dos homens pelas máquinas – no caso, trens. Fazendo referências à algumas das escolas de cinema  russas anteriores, Kray se mostra um filme interessante, rico em informações, mas simplista na forma. Faltou inventividade e ousadia na edição e mesmo em parte do roteiro que, voltado para o grande público, investe tempo demais em um triângulo amoroso que pouco acrescenta para a história. Mas vale por algumas sequências belíssimas e eletrizantes, assim como por apresentar uma reflexão importante sobre um cenário e um tempo pouco explorados pelo cinema. Justamente uma era em que as máquinas valiam muito mais que as pessoas – algo que continua ocorrendo hoje, em alguns lugares e situações? – e quando o nacionalismo justificava formas ultrajantes de exclusão social e crimes variados. Esta produção tem, assim, valor histórico e de reflexão sobre a formação dos mitos heróicos, e de como é fácil desconstruí-los quando assumimos um olhar mais cuidadoso e crítico.

PALPITE PARA O OSCAR 2011: Kray deu o primeiro passo para entrar como um dos fortes concorrentes no próximo Oscar: foi selecionado entre as cinco produções finalistas do Globo de Ouro de 2011. Claro que uma coisa, necessariamente, não leva a outra, mas é fato que ao ser selecionado para o Globo de Ouro, Kray ganha uma evidência que não teria caso tivesse ficado de fora.

Interessante observar que alguns dos concorrentes de Kray no Globo de Ouro não estão na lista de pré-indicados ao Oscar. Biutiful, minha aposta para ganhar o Globo de Ouro, por exemplo, não foi indicado por seu país (México/Espanha) para o Oscar. Mas, provavelmente, a produção entrará na disputa – mas em categorias principais e não na de Melhor Filme Estrangeiro.

Io Sono L’amore e Le Concert, ambos premiados, também estão fora da disputa pelo Oscar. Concorrem diretamente com Kray por uma das cinco vagas no prêmio da Academia e também no Globo de Ouro apenas Haevnen. Não assisti a nenhum dos outros concorrentes, mas pela qualidade da filmografia da diretora Susanne Bier, de Heavnen, posso apostar que ela é uma das fortes concorrentes ao prêmio – junto com Biutiful, no caso do Globo de Ouro.

Kray mereceu chegar entre os finalistas ao Globo de Ouro – ainda que, cá entre nós, eu prefira a Carancho. Tem qualidade técnica e um bom foco de roteiro. Mas lhe falta um pouco mais de ousadia e de profundidade. Se ele realmente tivesse se inspirado nos melhores exemplos do cinema russo, teríamos um produto melhor em mãos.

No Globo de Ouro, dificilmente ele conseguirá levar a melhor tendo Biutiful e Heavnen como concorrentes. Consequentemente, no Oscar, seu desafio é ainda maior. Talvez ele chegue entre os cinco finalistas, mas dificilmente conseguirá ganhar a estatueta. Se levar a melhor, será mais por um “incentivo” de Hollywood para o cinema russo, tão esquecido nos tempos atuais – e, também, será uma decisão injusta.

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The Kids Are All Right – Minhas Mães e Meu Pai

Ah, como um roteiro bem escrito faz toda a diferença! Depois de alguns filmes “conceituais”, eu queria me largar em um suspense, em um filme cabuloso de dramático. Acabei colocando The Kids Are All Right na frente da lista depois que vi que esta produção foi indicada a quatro prêmios no Globo de Ouro. Um bom sinal. Me chamou a atenção, especialmente, que Julianne Moore e Annette Bening foram indicadas ao Globo de Ouro de Melhor Atriz na categoria Comédia/Musical. Mesmo que a produção não deve chegar com toda essa força no Oscar, coloquei ela na frente de outras. E não me arrependi.

A HISTÓRIA: Dois adolescente, um de skate e outro de bicicleta, andam a toda velocidade por algumas ruas. O que está de skate, Clay (Eddie Hassell) se comporta como um idiota e vai derrubando lixeiros pelo caminho. O outro, Laser (Josh Hutcherson) apenas observa sem falar nada. Em seu quarto, Joni (Mia Wasikowska) joga Palavras Cruzadas com um amigo, Jai (Kunal Sharma) enquanto sua amiga desbocada Sasha (Zosia Mamet) especula sobre os caras bonitos que a garota vai encontrar logo mais, quando começar a faculdade. Enquanto isso, Clay oferece cocaína para Laser. Os rapazes brigam na frente do pai de Clay, que dá um “sossega leão” no garoto. À noite, em casa, Laser mexe os dedos freneticamente, na mesa, irritando a irmã, Joni. Neste momento, chega em casa a mãe dos garotos, Nic (Annette Bening) que, ao lado de Jules (Julianne Moore) tenta educar os jovens da melhor maneira possível. Mas incentivada por Laser, Joni busca o doador de esperma que possibilitou o nascimento dos dois – em outras palavras, o pai biológico deles, Paul (Mark Ruffalo). A aproximação deles altera a rotina da família.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso eu recomendo que só continue a ler quem já assistiu a The Kids Are All Right): Interessante como alguns filmes recentes tem se debruçado sobre as novas configurações de algumas famílias contemporâneas. Depois de Juno (que tem aqui uma crítica no blog), que tratou de forma precisa questões como pais divorciados, gravidez na adolescência e seus derivados, surge este inteligente The Kids Are All Right. Gostei muito da direção e do roteiro de Lisa Cholodenko. Um trabalho surpreende e interessante, com alguns diálogos verdadeiramente inteligentes e que bebem diretamente da realidade.

O roteiro, a melhor qualidade do filme juntamente com as interpretações, foi escrito pela diretora e por Stuart Blumberg. Com todos os méritos o texto deles está indicado ao próximo Globo de Ouro. E ainda que o filme não tenha muito lobby para chegar ao Oscar, eu acho que ele merecia um espaço entre os cinco indicados nesta categoria – com muito mais méritos que Inception, para dar apenas um exemplo.

Claro que o filme não é perfeito. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Para começar, um tanto óbvio demais colocar uma das duas mulheres do casal como a “calculista”, racional que está muito centrada no trabalho e no sustento da família e não percebe mais a companheira. Ok, esta é a razão principal de 90% dos problemas nos casamentos mundo afora mas, aqui, achei que o problema poderia ser um pouco menos simplificado. Se bem que, por outro lado, é interessante perceber que este tipo de questão afeta a todos os casais, sejam eles hetero ou homossexuais. Outro ponto que questiono é a forma “fácil” com que Jules sucumbe (e repetidamente, o que é pior) a Paul. Acho que teria sido mais interessante se eles tivessem tido algumas relações, mas não a ponto dele “achar que estava se apaixonando por ela”. Dispensável.

Se fosse um filme francês as coisas seriam diferentes. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Certamente uma lésbica francesa teria um sofrimento muito maior do que a personagem interpretada por Julianne Moore. Ela ficaria com o cara, ok, mas se martirizaria muito mais depois. Além disso, ok que ela queria ser desejada. Mas acho que seria mais interessante – e convincente – se ela tivesse se interessado pela ajudante de Paul, por exemplo. Afinal, pelo que tudo indica, ela não tinha dúvidas sobre a própria sexulidade. Era lésbica e não bissexual. Ainda que, até por isso, o roteiro se mostra interessante. Flertando com a ideia de que a sexualidade humana não é tão definida e classificada como alguns gostam de defender. Uma lésbica pode sucumbir a um hetero, assim como um hetero pode ter relações homossexuais. Esta parece ser a ideia principal por trás da infidelidade revelada pelo filme.

No mais, esta produção trata de um tema interessante de forma totalmente inovadora. Muitas reportagens em revistas e jornais já trataram sobre os filhos de casais homossexuais – sejam eles homens ou mulheres. Mas ninguém abordou esta questão de forma mais complexa, revelando as angústias, relações, dúvidas e alegrias de adolescentes que foram criados por estes casais e sua busca, no caso de uma concepção através de uma doador de esperma, do responsável paterno.

Interessante a forma honesta com que o roteiro trata as duas rupturas de realidade na família de Jules e Nic. (SPOILER – não leia… bem, você já sabe). A saída de casa de Joni, para ir para a faculdade, explica boa parte da fragilidade e da crise vivida pelo casal. Soma-se a isso a insegurança da chegada de uma figura como Paul para a convivência familiar e o desgaste até então pouco aparente entre as duas mulheres e temos um barril de pólvora prestes a explodir. Muito interessante como o roteiro vai tratando estas mudanças, a aproximação de Joni e de Paul e, depois, a dele com Jules. Quando eles se beijam, não é algo forçado. Pelo contrário. Assim como a primeira transa. O que não convence é a continuidade da relação por mais tempo.

Para dar mais caldo à confusão, Paul é um sujeito que se descobre pai de dois adolescentes de uma hora para a outra. Satisfeito com sua vida de solteiro, ele só percebe o quanto seria bacana ter uma família quando descobre que faz parte de uma sem querer. Pelo menos é isso que ele interpreta quando se aproxima do casal e dos filhos adolescentes. Há muitas novidades a serem digeridas por pouco tempo. E sentimentos até então guardados acabam aflorando. Para todos e cada um, o que torna a história ainda mais realista e interessante.

Quando a vida das pessoas passa por rupturas poderosas, muitos sentimentos escondidos e camuflados surgem até a superfície. Isso, mais o esforço de Jules e Nic em manter a família unida em uma fase complicada – a dos filhos adolescentes – dá um caldo bem interessante. Algo que gostei muito nesta produção é que ela trata as relações de forma honesta. Jules e Nic tem os problemas de um casal qualquer, depois de muito tempo educando os filhos, lidando com problemas, com contas para pagar… como Jules comenta em certo momento importante, o tempo passou e elas pararam de se olhar como se olhavam antigamente. Isso ocorre com praticamente todos. Como lidar com estas questões é que o problema. O amor resiste, no final das contas, e sai vivo de crises e traições? O filme aposta que sim. E eu também.

Além de um roteiro maravilhoso, com algumas sacadas verdadeiramente preciosas – especialmente aquelas “largadas” pelo casal de adolescentes e por alguns diálogos entre Jules e Nic -, a direção de Lisa Cholodenko tem o ritmo e a cadência certos. Ela acelera e se mostra jovial em relação aos adolescentes ao mesmo tempo em que veste uma roupagem casual e romântica nos momentos em que Jules, Nic e Paul estão juntos (em um triângulo amoroso, no mínimo, curioso e acidentado). Cuidadosa nos detalhes, a diretora dá o espaço adequado para as interpretações, arrancando emoção dos atores e, consequentemente, dos espectadores. Ela sabe focar nas expressões deles quando preciso, assim como está atenta para os toques de mãos e os demais detalhes que fazem a diferença em uma história cheia de nuances que precisa desta atenção.

Gostei muito das interpretações. De todos. Julianne Moore está bem, ainda que, em alguns pontos, parece que lhe falta um pouco mais de naturalidade. Annette Bening, por sua vez, consegue um tom acima e chega à perfeição. Não há o que colocar ou tirar de sua interpretação. Gosto muito da jovem atriz Mia Wasikowska que, mais uma vez, faz uma interpretação iluminada, convincente e, em certa parte, emocionante. Mark Ruffalo acha o tom exato de seu personagem que também tem que enfrentar seus próprios medos e incertezas, enquanto Josh Hutcherson se mantêm firme no papel do garoto um tanto “deslocado”. Todos muito bem – o que, certamente, também é, em parte, mérito da diretora.

Um filme ousado e contemporâneo que trata sobre os conflitos de relações de um casal nada ortodoxo. Rupturas causam estranhamento. Curiosidades podem provocar saias justas. Proximidades e distâncias causam trocas de cadeira e de papel. Tomadas de consciência provocam revisões de valores e comportamentos. No final, o amor provoca reações sinceras, pedidos de perdão e, finalmente, a resposta surge naturalmente. Com algumas linhas de ironia, algumas pitadas de provocação, em um filme que trata de uma época interessante. Quando os valores continuam definindo realidades e a educação, assim como o amor e o respeito, precisam sempre ser renovados – e compreendidos.

NOTA: 9,5.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: O primeiro elemento que me chamou a atenção neste filme foi a trilha sonora. Muito, muito boa. Perfeita para o contexto da história. Mérito do trio formado por Carter Burwell, Nathan Larson e Craig Wedren. O segundo ponto foi a direção de Cholodenko, bastante ajustada e no ritmo certo para a história. Depois, claro, vieram os diálogos espertos, ágeis, e a interpretação dos atores. Um conjunto muito bem acabado e que resulta em um filme interessante, que não baixa o ritmo e que se configura com um desenvolvimento bastante linear e constante.

Todos falam de Julianne Moore. Eu já havia visto comentários de pessoas que apontavam a atriz como indicação certa no próximo Oscar. Mas, cá entre nós, gostei mais de Annette Bening do que de Moore. A atriz está bem, que ninguém me entenda de forma errada. Mas não acho que é a sua melhor interpretação. Está longe disso, aliás. E nos momentos mais críticos da produção, por assim dizer, Bening se mostra mais firme na interpretação. Me emocionou, é a verdade.

Gosto demais também da menina que interpreta a Joni. Mia Wasikowska tem um magnetismo interessante em cena. Ela hipnotiza e revela bastante domínio do emocional de sua personagem. Sem dúvida uma atriz que merece ter a carreira acompanhada.

Além dos atores já citados, vale comentar a interpretação da coadjuvante Yaya DaCosta como Tanya, a pseudo-namorada de Paul. Da equipe técnica, merece ser citado o diretor de fotografia Igor Jadue-Lillo e, principalmente, o editor Jeffrey M. Werner.

The Kids Are All Right estrou em janeiro no Festival de Sundance. Depois, participou do Festival de Berlim, no mês seguinte. Até agora, passou ainda por outros nove festivais – incluindo os do Rio de Janeiro e de São Paulo. Ganhou o prêmio Teddy no Festival de Berlim, como melhor filme. A premiação, como explica este texto do jornal Deutsche Welle, é entregue desde 1987 no festival para produções “de e sobre gays e lésbicas”. Além deste prêmio, The Kids Are All Right foi indicado a outros 20 – incluindo quatro Globos de Ouro, cinco prêmios do Independent Spirit Awards e três do Screen Actors Guild Awards (entregue pelo sindicato dos atores de Hollywood). A grande concorrente de Annette Bening nas premiações que serão entregues até o Oscar – e nele próprio – é a atriz Natalie Portman. Todos estão babando sobre o seu desempenho em Black Swan. Tudo indica que o páreo será apertado.

Filme totalmente independente, The Kids Are All Right teria custado a “bagatela” (para os padrões de Hollywood e tendo um elenco como este) de US$ 4 milhões. Até o momento, a produção tem sido um sucesso. Faturou, até outubro deste ano, apenas nos Estados Unidos, pouco mais de US$ 20,8 milhões. Ou seja, cinco vezes o que custou. Nada mal, hein? E eu diria que de forma merecidíssima. Sinal de que ele ultrapassou o público gay e lésbico e chegou até um público maior. Bacana.

Além de ir bem de público, este filme tem se saída bem com a crítica. Os usuários do site IMDb deram a nota 7,5 para ele. Os críticos que tem seus textos linkados no Rotten Tomatoes foram mais generosos. The Kids Are All Right foi aprovado por 94% deles – ou seja, a produção recebeu 181 críticas positivas e apenas 11 negativas.

Um dos críticos que aprovou The Kids Are All Right foi Eric D. Snider, da Film.com (a crítica dele pode ser lida, em inglês, neste link). Ele escreveu que, apesar da relação no centro da história não ser ortodoxa, ela é retratada de forma mais realista do que a maioria dos relacionamentos mostrados pelos filmes. E Snider tem razão. Este provavelmente é um dos grandes méritos de The Kids, tratar os relacionamentos como eles verdadeiramente são – e não como as pessoas gostam de esboçar. “Acontece que você pode ser amoroso e comprometido e ainda assim ter divergências. Nem sempre um parceiro é imaturo e egoísta enquanto o outro é santo; algumas vezes ambos são falhos. Algo surpreendente, mas verdadeiro!”, escreveu o crítico. E, com isso, ele resumiu a essência desta produção.

Após este elogio para a produção, Snider comenta que gostaria que os conflitos mostrados pelo filme fossem menos estereotipados. Ele está certo, mais uma vez. O crítico classifica The Kids como um “drama de relacionamentos sofisticado e divertido” que perde um pouco da força depois que a premissa incomum é devidamente explorada. Snider comenta ainda que o filme não é político ou estridente, que os jovens criados pelas lésbicas, como o título sugere, estão bem, e que os problemas residem mesmo nos adultos. Ele destaca ainda como as atrizes principais fazem com que o espectador se familiarize com elas – mesmo que ele/a tenha um relacionamento muito diferente.

O ótimo crítico Tom Long, do The Detroit News, comenta neste texto que The Kids Are All Right é um dos “filmes mais honestos e cativantes do ano”. E ele está certo. Para Long, esta produção coloca “definições de amor, família e amizade” à prova “com humor e ternura”. Ele destaca ainda o elenco “extremamente talentoso” e o roteiro que traça um “retrato da família moderna” que toca em muitos pontos interessante sem, contudo, ficar martelando em nenhum deles.

Para Long, a diretora e roteirista combina os elementos mais modernos – a sexualidade, o estilo de vida alegre da Califórnia, a “santidade” orgânica de Paul e suas tendências de Peter Pan – de forma bastante hábil. O crítico destaca, em especial, a interpretação de Julianne Moore, afirmando que ela está muito solta no papel, jogando-se de “corpo e alma em uma personagem que está ao mesmo tempo perdida e centrada”. Long comenta que o filme escorrega um pouco perto do final mas que, ainda assim, ele mantem a “fé no poder da família e do amor”. Para o crítico, a produção merece chegar ao Oscar pelo menos na categoria de Melhor Atriz e pode ser considerada como “o melhor filme sobre famílias do ano”.

Não vou escrever mais, porque este texto já está grandinho, mas para quem quiser ter acesso a outras opiniões, sugiro este texto escrito por Rick Groen, do The Globe and Mail, um dos poucos que achou esta produção “maçante”; e este outro texto, assinado pelo sempre ótimo Ty Burr, do The Boston Globe, que destaca, em especial, as interpretações de Annette Bening e Julianne Moore.

CONCLUSÃO: Ter filhos adolescentes é, hoje em dia, mais do que algumas temporadas atrás, barra pesada. Este filme trata disso e de outro elemento curioso de nosso tempo: a criação de garotos e garotas em lares “nada convencionais” segundo a ótica tradicional. Ou seja: por casais de lésbicas ou gays. Com diálogos inspirados e um roteiro envolvente, The Kids Are All Right trata de assuntos conhecidos por muitas famílias, como podem ser os desafios de lidar com jovens em fase de amadurecimento, a ruptura da saída do primeiro filho de casa e a crise de um casamento que vinha em uma levada morna há algum tempo. A diretora Lisa Cholodenko consegue captar com muita fidelidade o convívio de um casal de adolescentes com suas mães lésbicas e o problema causado pela entrada de um homem nesta equação – o pai biológico dos garotos. Os diálogos, assim como a trilha sonora e as interpretações são o ponto forte desta produção envolvente. Um foco interessante sobre uma realidade até agora pouco explorada pelo cinema. E, mais do que isso, um filme realista sobre o quanto difícil podem ser as relações humanas – e que não existem fórmulas para um casamento ou a felicidade, mas que estas realidades são construídas cotidianamente e em conjunto/parceria.

PALPITE PARA O OSCAR 2011: Como em todos os outros anos, as indicações ao Globo de Ouro servem como um termômetro para o Oscar. Desta vez isto não será diferente. The Kids Are All Right conseguiu emplacar as suas duas atrizes principais no Globo de Ouro, além de conquistar indicações como Melhor Filme na sub-categoria Musical ou Comédia e como Melhor Roteiro. Francamente, uma das duas atrizes deve chegar até o Oscar – dificilmente as duas.

Pelo histórico de indicações da Academia, Julianne Moore leva uma certa vantagem. Mas por méritos, por ter conseguido uma interpretação mais complexa, bem acabada e emotiva, eu acredito que Annette Bening merecia a vaga. Só o tempo dirá qual das duas chegará até o Oscar. Meu voto seria por Bening – ainda que eu goste muito da carreira e do estilo de Moore. Seja uma ou outra, elas terão que ganhar a estatueta em uma disputa acirrada com Natalie Portman, até agora apontada como a favorita na disputa por seu papel em Black Swan – como comentei anteriormente. Não sei a quantas anda a disputa por Melhor Atriz Coadjuvante, mas se Mia Wasikowska fosse indicada por seu papel em The Kids, eu não me surpreenderia.

O filme tem boas chances também de emplacar na categoria de Melhor Roteiro, mas tenho minhas dúvidas se ele terá cacife para chegar entre os 10 indicados como Melhor Filme. Primeiro, por tratar-se de uma produção independente, de baixo orçamento – se bem que, neste ano, Precious se encaixava nos mesmos requisitos. Além do mais, 10 vagas é bastante coisa… Acredito que esta produção estará concorrendo pela nona ou décima vaga, tendo que deixar para trás filmes menos “óbvios” na disputa, como Biutiful, London Boulevard, Miral e Alice in Wonderland. Talvez ele chegue, mas é difícil apostar nele agora. De qualquer forma, mesmo que consiga estar entre os 10, ele não tem chances de levar o Oscar principal. É muito independente – e, cá entre nós, não tem o apelo necessário – para isso.

Sui Yuet San Tau – Echoes of the Rainbow

Tempos difíceis são sucedidos por tempos bons e, depois, mais uma vez, por tempos difíceis. Falar sobre estes períodos cíclicos da vida de forma suave, quase pueril, é a característica principal de Sui Yuet San Tau, representante de Hong Kong no próximo Oscar. Com direção e roteiro de Alex Law, este filme se caracteriza por um cinema inocente, que pode irritar a alguns por sua simplicidade. Mas esta suavidade esconde uma reflexão interessante sobre a realidade cheia de contrastes do país asiático. Pelos olhos de um garoto – como em tantas outras produções – o espectador conhece um pouco mais sobre a vida e a história de Hong Kong.

A HISTÓRIA: Flores coloridas dão lugar a peixes laranjas. Um aquário cheio deles aparece em primeiro plano. Surge, ao fundo, um garoto curioso. Ele olha com atenção o movimento dos peixes no aquário. Este menino, conhecido como Orelhas Grandes (Buzz Chung) será o narrador desta história. Após observar a vários tipos de peixes e tartarugas pequenas, ele rouba uma delas, coloca no bolso, e leva um aquário pequeno com ele, utilizando-o como um capacete que lhe projeta no tempo e no espaço. Caminhando pelas ruas da cidade, o menino nos conta um pouco sobre a realidade histórica do país. Com este garoto vamos conhecer as diferenças sociais de Hong Kong e as dificuldades de uma família comum do país.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Sui Yuet San Tau): Não existem segredos ou diferentes camadas de interpretação neste filme. Ele é simples, direto e, pela forma de narrativa, chega a ser até um pouco pueril. Os diálogos foram desenhados para que até uma criança pequena entenda o que está acontecendo. O romance que aparece em cena não tem nada de picardia e as relações passam longe da ironia ou do cinismo de algumas reflexões europeias (especialmente do cinema francês) sobre as entranhas das famílias tradicionais.

Não. Nada complicado integra Sui Yuet San Tau. A produção que representa Hong Kong no Oscar 2011 pode ser assistida por todos os públicos. Não tem contra-indicações porque não mostra cenas de violência ou mesmo um linguajar pesado. Talvez esta simplicidade e esta “candura” afaste parte do grande público, mais habituado a filmes com sangue, tiros, ironia e sensualidade. Sui Yuet San Tau caminha em sentido contrário.

O excesso de inocência da história, algumas vezes, chega a cansar. Admito. Especialmente porque o menino que nos conduz na história, interpretado por Buzz Chung, tem algumas reações que, aos olhos ocidentais, podem parecer de pura manha. Na verdade, o choro escandaloso dele em algumas cenas revela um tipo de reação bastante comum entre as crianças de seu país. Meninos e meninas que não tem a “etiqueta” de um choro contido, de sentimentos que não devem ser extravasados publicamente com “exagero” como, talvez, nós ocidentais tenhamos.

Para gostar desta produção é preciso, antes de mais nada, ter esta percepção de lente. Entender que há diferenças grandes entre as culturas dos distintos países – especialmente quando olhamos com “olhos ocidentais” para realidades do oriente. Dito isso, também é preciso um pouco de paciência para perceber que a influência da cultura inglesa está por todos os lados desta produção. Além das músicas cantadas – e compostas pelo personagem de Desmond (Aarif Lee), irmão do Orelhas Grandes -, ela está presente também na forma de romance que é explorado pela história e nas observações sobre o quanto a Inglaterra “explorou” e influenciou o país por uma longa temporada.

Especialmente interessante essa reflexão do diretor e roteirista Alex Law. Ele consegue, com certo equilíbrio, revelar uma cultura única, típica de Hong Kong, mostrando a forma dos pais lidarem com os filhos, a tentativa deles em sobreviver em uma sociedade com poucos recursos – e com grandes diferenças sociais -, a maneira com que as pessoas se ajudam e socializam na hora de comer nas periferias, ao mesmo tempo em que reflete sobre o forte domínio/influência cultural da Inglaterra no país.

Vale lembrar que Hong Kong, que pertencia à China, passou a ser uma colônia da Inglaterra em 1842, após a Guerra do Ópio. O domínio inglês sobre o país terminou apenas em 1997, quando Hong Kong passou a ser uma “região administrativa especial” da República Popular da China. Em outras palavras, Hong Kong é um país com um grande grau de autonomia, mas não decide a sua própria política em duas áreas: defesa e política externa, que dependem do crivo chinês.

Sui Yuet San Tau critica, mas com muita suavidade, a forma com que as autoridades inglesas atuaram no país no período em que eles gestionaram Hong Kong. Policiais cobravam propina de comerciantes e aceitavam presentes para deixá-los trabalhar. Evidente a crítica de Law para os ingleses – desmontando um dos grandes argumentos da Inglaterra, considerado um país “correto”, e que estaria lutando contra a “corrupção chinesa”. Neste filme o diretor defende a ideia de que os ingleses também foram corruptos e, se olharmos para o que se ensinava em salas de aula, impuseram a sua cultura e língua para um país que tinha outras carências e valores a serem difundidos.

Enquanto o espectador vai acompanhando as estrepulias do curioso e nada aplicado Orelhas Grandes, conhecemos um pouco mais sobre os seus pais, o trabalhador e pouco “estudado” Sr. Law (o veterano Simon Yam) e sua esposa (Sandra Ng Kwan Yue), perita em saídas criativas para os problemas cotidianos. Com este casal aprendemos que a vida é feita de altos e baixos e que, ainda assim, é preciso enxergar a beleza que resta após as perdas e danos.

Junto com a reflexão sobre o “legado inglês” deixado no país e a forma de vida diferenciada da gente comum de Hong Kong, talvez esta seja a grande mensagem e sentido do filme: que após tempos difíceis, sempre virão tempos bons. Até que um novo ciclo recomece e outras dificuldades apareçam. Disso é feita a vida – o ciclo de pessoas e de países. E nós, que vivemos estas mudanças, devemos encarar cada desafio da melhor forma, mantendo a esperança para o que virá de bom e a percepção/atenção despertas para as pequenas surpresas/belezas que esta mesma vida nos dá no caminho – como os peixes coloridos, os arco-íris raros e relações idem.

NOTA: 8,2.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Chega a ser emocionante a interpretação naturalista do patriarca da família Law. O ator Simon Yam se destaca por sua forma contida e ao mesmo tempo equilibrada de agir – seja mergulhado no trabalho, na relação amorosa com a esposa ou na forma de educar aos filhos. Exigente e ao mesmo tempo generoso – dentro de suas possibilidades -, o Sr. Law é um exemplo interessante sobre a figura masculina na sociedade de Hong Kong. O mesmo se pode dizer da atriz Sandra Ng Kwan Yue que, diferente do parceiro de cena, aposta em uma interpretação calculadamente extravagante, revelando a força e malícia da mulher daquele país asiático.

Falando em malícia, a corrupção e as carências de um país dominado por uma cultura tão diferente como a inglesa por tanto tempo estão evidentes não apenas na “propina” paga para o policial estrangeiro. Elas estão presentes também nos cuidados de médicos e enfermeiras nos hospitais. Interessante como perceber que, apesar das peculariedades culturais de cada lugar, países tão diferentes quanto podem ser Hong Kong e Cuba, só para dar dois exemplos, podem ter tantas carências e “economias paralelas” em comum. Quando não existe um sistema adequado de assistência jurídica, médica, de direitos e que chegue a tantas outras áreas, há distorções na vida cotidiana como aquelas vistas nesta produção.

O romance entre Desmond e Flora (Evelyn Choi) reforça e intensifica o tom pueril de Sui Yuet San Tau. A levada da história destes dois, ele sonhador, ela riquinha, lembra os romances juvenis dos anos 1950/60 de Hollywood que, de certa forma, foram resgatados na onda “juventude comportada” explorada pelo mesmo cinema recentemente.

A história de Sui Yuet San Tau se concentra no núcleo familiar liderado pelo sapateiro Sr. Law, sua esposa e os dois filhos. Ainda assim, alguns personagens secundários valem ser citados. Como o barbeiro irmão do Sr. Law, interpretado por Paul Chun; a avó dos garotos, interpretada por Ping Ha; o vendedor de peixes vivido pelo ator Lawrence Ah Mon; e a professora da escola de Orelhas Grandes, interpretada por Chank-Ming Chan.

Na parte técnica, o destaque principal é a direção de fotografia de Charlie Lam. Ele utiliza lentes diferenciadas para cada ambiente – mais “quentes” e aconchegantes para a rua da família Law, mais “frias” e/ou neutras para os demais cenários, incluída a casa de Flora. Merece menção também a edição feita pela dupla experiente Chi Wai Chan e Chi-Leung Kwong.

A direção de Alex Law é correta, com alguns momentos inspirados, especialmente quando ele se “solta” para acompanhar a imaginação e os momentos mágicos do protagonista. Mas o roteiro dele é bastante irregular. Acerta quando mostra um pouco da realidade de Hong Kong, mas exagera a mão nas estrepulias do narrador e no romance que chega a ser artificial em alguns momentos. Entendo que a forma de fazer cinema em Hong Kong é diferenciada, mas justamente a falta de um toque mais original de seu criador é o que torna esta produção menos interessante.

Sui Yuet San Tau estreou no Festival de Berlim em fevereiro deste ano. Ele ganhou, por lá, o Urso de Cristal como melhor filme no Generation Kplus, um segmento do festival. Além do festival na Alemanha, a produção de Hong Kong participou do festival de cinema de seu próprio país, de onde saiu com as mãos abanando.

O filme de Alex Law foi todo filmado em Hong Kong e é falado em cinco idiomas: cantonês, mandarim, inglês, francês e um dialeto típico de Shangai. Vale comentar que os idiomas oficiais do país são o chinês e o inglês.

Os usuários do site IMDb deram a nota 7,4 para o filme, uma média bastante boa entre os pré-concorrentes deste ano para uma vaga no próximo Oscar. O site Rotten Tomatoes, até este momento, não tinha nenhuma crítica linkada sobre o filme – o que revela que ele precisa de uma divulgação muito maior para começar a aparecer e, consequentemente, ter alguma chance de chegar ao Oscar, já que a premiação depende muito do bom e velho lobby.

De forma singela, Sui Yuet San Tau apresenta alguns ensinamentos importantes. O mais evidente é que a vida é feita de ciclos, de altos e baixos, e que devemos estar preparados para os tempos bons e os ruins sem nos desesperarmos ou iludirmos com uns e outros. O outro, subentendido neste primeiro, faz referência a necessidade de vivermos a vida em sua plenitude porque, afinal, ninguém sabe até quando estará por aqui. Sem evitar a dor e a perda, Sui Yuet San Tau acaba revelando-se um filme cheio de esperança e uma aposta no “saber viver” que passa pela fraternidade, pelo amor e pelas relações familiares fundamentadas na união e na compreensão. Apenas por isso, ele vale a nota que recebeu.

CONCLUSÃO: Uma produção singela que reflete, de forma suave e sem complexidade, sobre o domínio da Inglaterra sobre Hong Kong e os efeitos que isto teve sobre a vida cotidiana das pessoas daquele país. Misturando drama, comédia e romance com um certo equilíbrio, Sui Yuet San Tau conta parte da trajetória de uma família comum do subúrbio de Hong Kong. Narrada pela ótica de uma criança, que percebe as dificuldades e as perdas de forma gradativa e diferenciada, esta história busca revelar as agruras e, ao mesmo tempo, a determinação e a honestidade de pessoas comuns em contraste com a corrupção e a cobrança de serviços básicos como parte de uma sociedade doente. Com algumas sequências muito bem dirigidas e que primam pela plasticidade, este filme só perde pontos por seguir a mesma influência inglesa que ele tenta criticar. Sui Yuet San Tau acaba revelando-se pouco original ou, em outras palavras, ele não apresenta a força necessária para mostrar um caminho ou direção para o cinema genuinamente de Hong Kong. No fim, esta produção parece uma cópia com alguma pitada de identidade própria dos filmes ingleses e/ou estadunidenses de algumas décadas atrás. Está deslocado, assim, de seu próprio território e tempo.

PALPITE PARA O OSCAR 2011: Faltam muitos filmes ainda da lista de pré-indicados para serem assistidos. Mas me arrisco a dizer que Sui Yuet San Tau tem pouquíssimas chances de chegar entre os cinco finalistas para o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro em 2011. Primeiro, pela falta de tradição de Hong Kong na disputa. Depois porque falta para o filme mais originalidade – de roteiro e narrativa – e identidade própria. Infelizmente ele copia demais do modelo de cinema que a sua própria história tenta criticar. Não parece muito lógico questionar os efeitos malévolos de uma invasão cultural, militar e política e, ao mesmo tempo, render homenagem ao estilo desta mesma cultura em contar histórias de amor e dramas familiares. Falta a Sui Yuet San Tau elementos próprios do cinema de seu país para que a produção possa ser digna de uma disputa entre finalistas do Oscar em uma categoria que exige produções com certa singularidade. Por mais gracioso, otimista e curioso que o filme possa ser, ele não deve ter chances de chegar até a reta final desta disputa.

Bal – Honey – Um Doce Olhar

Calma. Tenha muita, muita calma. Este é um destes filme para ser visto com um caminhão de paciência. Naqueles raros dias em que você tem tempo para parar e apenas apreciar algo por uma hora e 43 minutos. Vencedor do Urso de Ouro do Festival de Berlim este ano e um dos pré-candidatos ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro em 2011, Bal é um mergulho demorado em um modo de vida diferenciado. A Natureza, o aprendizado e a família estão no centro da história. Um filme bonito, ainda que reflexivo demais.

A HISTÓRIA: Sombras dançam em um bosque de árvores altas. Lentamente, no fundo da paisagem, algo surge. Um homem caminha junto com seu cavalo branco. Este homem, Yakup (Erdal Besikçioglu) vive do cultivo de abelhas. Mas com o mel cada vez mais raro em sua região, ele se prepara para buscar o sustento da família cada vez mais longe. Dependem dele o esperto e tímido Yusuf (Bora Altas) e sua mãe, Zehra (Tülin Özen). Quando o filme começa, Yakup está em uma situação difícil e perigosa.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso só recomendo que continue a ler quem já assistiu a Bal): Longas sequências. Muitos momentos de câmera parada e “naturalismo”. A narrativa de Bal transcorre praticamente em tempo real. Claro que há cortes. Não assistimos a 1h40 na vida daquelas pessoas de forma ininterrupta. Mas a sensação, muitas vezes, é que estamos há muito tempo inseridos naqueles cenários.

A direção de fotografia é algo impressionante nesta história. A luz certa parece ser fácil de conseguir em cada cena. Mérito do diretor de fotografia Baris Ozbicer. E também, é preciso admitir, para as paisagens da cidade de Camlihemsin, na Turquia, onde Bal foi filmado.

A produção começa bem. Pelo menos, inicia sem falsas promessas. Os primeiros minutos do filme revelam que ele é contemplativo, sereno na forma de acompanhar os personagens. Mas da tranquilidade da chegada de Yakup em cena, logo passamos para um momento de perigo e tensão. E isso é tudo. O restante da produção retoma o ritmo tranquilo, de aparente “falta de ação” para inserir, em momentos muito precisos, situações tensas e dramáticas.

Mas em uma leitura geral, esta produção é como um rio que transcorre sobre pedras e sem interferência humana. O espectador acompanha a história escrita pelo diretor Semih Kaplanoglu junto com Orçun Köksal de maneira atenta, com certa expectativa, e uma salutar dose de paciência extra.

Algumas vezes, Bal me fez lembrar de um clássico no cinema “contemplativo” que é Mùi Du Du Xanh (ou L’odeur de la Papaye Verte – O Cheiro da Papaia Verde). Só que diferente do filme vietnamita co-produzido pela França, que também prima pela beleza e pela contemplação, Bal se mostra menos inovador e, porque não admitir, menos interessante. Mùi Du Du Xanh tem sequências de puro deleite, uma curiosidade sobre aquela história sendo contada que transforma até longas sequências acompanhando uma fileira de formigas como algo sugestivo e curioso.

Bal, por sua vez, tem momentos assim. Mas eles são raros. Em muitas ocasiões, o filme apenas dá sono. Isso porque, diferente de documentários bem planejados, neste não somos envolvidos em uma história com contexto e várias camadas de informação. Acompanhamos, apenas, um período curto na vida daquela família de turcos que seguem o islamismo – como 99,8% da população do país.

Claro que é interessante perceber como é a vida no interior da Turquia, longe das grandes cidades. Fascina – e assusta um pouco – a forma de ensino, tão arcaica e que não se preocupa em realmente ensinar; as alternativas econômicas e o modo de vida daquela região; assim como as relações entre homens, mulheres e crianças. Tudo isso é curioso, mas poderia ser mais interessante. E para se tornar mais significativo, o filme não precisaria de grandes artifícios. Mas de um pouco mais de reflexão – cérebro em lugar de apenas uma simples exposição de fatos.

De qualquer forma, e é preciso comentar, o grande astro da produção é o garoto que interpreta a Yusuf. Ele é terno, comovente, interessante em sua simplicidade e astúcia. Yusuf é o primeiro a perceber as mudanças, os perigos, mesmo que ele não saiba muito bem como comunicar tudo isso para os demais. Sua história nos lembra como o conhecimento “científico” ou, pelo menos, aquele ensinado e aprendido nas escolas tem, muitas vezes (ou seria na maioria das vezes) pouca importância na vida prática. Na hora do “vamos ver”, outros conhecimentos, aprendidos fora das salas de aula, se mostram muito mais significativos.

Com isso – e quem acompanha esse blog deve saber -, não quero dizer que o conhecimento científico não é importante. Pelo contrário. A ciência é fundamental. E a busca pelo conhecimento também. Mas na vida prática e, especialmente, em determinados cenários/momentos – como aqueles mostrados em Bal -, outros aprendizados valem mais.

Yusuf é um exemplo curioso de um garoto que sabe das coisas mas que, em um ambiente de “pressão” e, para alguns, repressor como a escola mostrada em Bal, acaba se fechando como em uma concha e não mostra para os demais as suas capacidades. Poderíamos entrar, agora, em um longo debate sobre o papel do professor e da escola para uma inclusão/exclusão social, mas acho que não faz falta, não é?

Esta reflexão é feita por Bal. Ainda que nada, neste filme, seja entregue de forma mastigada. É preciso observar e refletir por sua própria conta e risco. Outro tema que o filme expõe é a falta de perspectivas dos homens e das mulheres daquela região. Sem acompanhamento ou informação sobre novas técnicas de produção de mel ou mesmo alternativas para a própria sobrevivência, aquelas pessoas se sentem obrigadas a ir cada vez mais longe para buscar seu sustento. E para isso, acabam se arriscando cada vez mais.

Interessante como a Natureza é exuberante neste filme. A paisagem é magnífica, mas toda aquela beleza não é mais intensa que a falta de educação – seja na escola ou de capacitação para os trabalhadores. O cenário vale os momentos contemplativos, mas a falta de sintonia entre as pessoas de uma mesma família acendem a luz amarela e tornam os minutos de “mergulho” naquela realidade um tanto incômodos.

O fascínio de Bal reside na ótica “inocente” e de aprendizado de Yusuf. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Descontado este aspecto, a produção acaba se revelando cansativa em muitos momentos. Para ser franca, ela chega a dar sono. A sequência final, de descanso, talvez seja necessária não apenas para o espírito de Yusuf, que terá uma vida difícil pela frente, mas também para o espectador. Que teve, claro, um período de folga em seu dia assistindo a belas paisagens. Mas que também mergulhou em cotidianos um pouco inquietantes e em um ritmo também cansativo.

NOTA: 6,8.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: De poucas palavras. Essa foi a leitura da sociedade turca que eu tive com Bal. Chega a impressionar a forma contida com que eles interagem. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Quando Yusuf “sacaneia” um colega de turma, impressiona como o garoto não revela o engano. Ele sofre o castigo e fica quieto. A consequência da injustiça acaba sendo pior e o nosso pequeno protagonista mostra, ao abrir mão do barco que ele tanto queria, que é consciente da bobagem que fez. Em outras cenas, as pessoas também não revelam o que pensam ou sentem. Todos parecem ter muito cuidado com o uso das palavras – o que torna a dificuldade de Yusuf em proferí-las nas leituras da turma ainda mais interessante.

Algo que eu gostei, nesta produção, é o jogo que a dupla Kaplanoglu e Köksal fazem com as sequências que mostram a realidade com aquelas que revelam os sonhos dos personagens – mais precisamente, os de Yusuf. Essa “artimanha” confunde um pouco os espectadores – o que acaba sendo interessante.

Agora, tenho que admitir algo: eu esperava mais de Bal. Especialmente porque a produção ganhou o principal prêmio do Festival de Berlim deste ano. Sem contar que ele ganhou ainda o Prêmio do Júri Ecumênico do festival. Dois prêmios de destaque que, francamente, supervalorizaram a produção. Se ela não tivesse ganho absolutamente nada, talvez, eu teria esperado menos e gostado mais do que vi.

Bal estreou no dia 11 de fevereiro no Festival de Berlim. Depois, a produção turca passou ainda por oito festivais, incluindo os de Sydney, Karlovy Vary e o de San Sebastian. Não abocanhou mais prêmio algum – o que, para mim, foi justo.

Estima-se que o filme tenha consumido 1,25 milhões de euros. Um custo baixíssimo, claro – ainda que para a Turquia ele deva significar muito.

Co-produzido pela Turquia e pela Alemanha, Bal é falado totalmente em turco.

Pouco comentado pela crítica, Bal registra uma nota 7,6 no site IMDb – com votos de usuários cadastrados. O Rotten Tomatoes, que serve de termômetro da crítica internacional, não apresenta nenhum comentário sobre o filme – na verdade, ele nem tem uma página específica no site.

Encontrei este texto sobre o último Festival de Berlim no El País. Carlos Boyero considerou esta última edição do festival como digna de “esquecimento”. Uma palhinha do quanto chato deve ter sido o festival – o que talvez justificaria a premiação de Bal. Na leitura de Boyero, porém, Bal é um filme “bonito, que tem seu encanto, tem vocação poética e é extremamente pausado” (tradução livre). Ele segue: “(no filme) ocorrem poucas coisas, mas elas estão bem descritas. Sobretudo, (vale pel)as sensações compartilhadas em meio à Natureza que transmitem um apicultor e seu silencioso e super sensível filho pequeno”.

Honestamente, não há mais muito o que falar sobre Bal. 🙂

Este é o quinto filme no currículo do diretor Semih Kaplanoglu. Segundo o IMDb, ele começou a carreira há pouco tempo. Seu primeiro filme, Herkes Kendi Evinde data de 2001. Com esta produção ele ganhou seis prêmios. Em 2005, Kaplanoglu lançou Melegin Düsüsü, que levou outros 10 prêmios. Depois veio Yumurta, em 2007 (mais 12 prêmios) e Süt, em 2008 (que recebeu um prêmio). Francamente, não assisti a nenhum dos anteriores, mas fiquei curiosa por Yumurta.

Uma pena que não pude usar por aqui o melhor cartaz do filme… é que ele trazia o título utilizado no mercado francês, “Miel” – e como sigo o lema de usar os cartazes “oficiais” ou, pelo menos, os que tenham o título original, tive que abrir mão do belo cartaz com fundo verde/da floresta.

Ah, e uma curiosidade: em um dos cartazes do filme, vi a frase “da trilogia de Yusuf”. Nessas, descobri que este é o terceiro filme com o personagem Yusuf. Os anteriores foram Yumurta e Süt.

CONCLUSÃO: Um filme bonito, “lírico” e/ou “poético”, como alguns podem considerar… mas que nem por isso chega a arrebatar o coração do espectador. Gostoso e inquietante ao mesmo tempo – pelos silêncios, falta de perspectivas e de alento -, Bal se mostra interessante por evidenciar uma forma de vida e rotina pouco explorada no cinema. Afinal, quantas vezes assistimos a pessoas do interior da Turquia e suas formas de festejar, rezar, lidar com dificuldades e aprendizado? Neste sentido, é um filme bacana. Mas chega a dar sono, e muito, o que nunca é um bom sinal. Para mim, há limites para o lirismo e a “veia poética” no cinema. Bal perde a dose perfeita e acaba se mostrando abaixo do esperado. Especialmente por ter ganho um prêmio importante como o Urso de Ouro de Berlim. Não era para tanto.

PALPITE PARA O OSCAR 2011: Faltando dezenas de filmes da lista para assistir, fica difícil fazer uma grande aposta sobre Bal. Ele até pode chegar na lista dos cinco finalistas mas, cá entre nós, acho difícil. Mesmo tendo ganho o Festival de Berlim, não vejo que esta produção tenha força para chegar até o Oscar. Primeiro porque, mesmo participando de outros festivais, ele não ganhou mais nada no caminho. Depois porque quase nenhum crítico importante falou sobre ele – o que sempre serve de termômetro. Enfim, Bal tem grandes chances de ser esquecido e nem figurar entre os finalistas ao Oscar 2011.

SUGESTÕES DE LEITORES: Admito que assisti Bal em duas partes. Quando comecei a vê-lo, um dia de noite, estava cansada demais e não resisti até o final. Terminei de vê-lo apenas hoje. Entre uma data e outra, meu querido Mangabeira publicou um recado aqui no blog, no post anterior, perguntando se eu já tinha assistido a Bal. Eita, quanta coincidência!! Mais uma de tantas outras, não é, Mangabeira? Você e eu parece que combinamos de assistir a alguns filmes. 🙂 Pois, aí está o comentário sobre Bal. Não achei tudo aquilo que poderia ser… Agora, espero um recado teu por aqui para falar sobre o que achaste do filme e da minha crítica. Abraços e obrigada por sempre aparecer por aqui!