Life, Animated

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Cada pessoa é um mundo, com as suas regras, sentimentos, desejos e forma diferente de encarar a realidade que a cerca. Mas há alguns mundos que são mais complicados de entender à primeira vista. Life, Animated surpreende por se debruçar na história de uma pessoa que tem um mundo um tanto difícil de ser alcançado. Pelo menos pela forma de compreensão da maioria. Com o tempo, contudo, aquele mundo foi descoberto também. Documentário cotado para o Oscar 2017, Life, Animated fascina pela história do protagonista e pela homenagem indireta que faz ao cinema.

A HISTÓRIA: Começa com um vídeo caseiro. Cornelia Suskind pergunta a Ron, seu marido, que está com um dos filhos do casal no colo, se ela deve ficar com o botão vermelho pressionado. Na sequência, Ron aparece em uma cadeira de balanço com os filhos Walter e Owen. Os vídeos caseiros são intercalados por desenhos que parecem storyboards. Faz parte do cotidiano daquela família brincadeiras, leituras e desenhos animados. Corta. Owen, já adulto, caminha por um corredor e fala um pouco sozinho, citando Walt Disney e o Oscar.

Ele entra em uma sala. Ali ele e outros alunos tem aulas de como eles devem se portar para viver com certa tranquilidade em uma comunidade. Em um mês Owen vai se graduar e sairá da casa dos pais para morar sozinho. Ele tem um comportamento bem diferente e, conforme a história vai se desenvolvendo, vamos conhecendo mais de perto sobre Owen.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Life, Animated): Eu sempre tive um interesse muito grande por conhecer melhor os diversos tipos de desordem e de dificuldades mentais que um indivíduo pode apresentar durante a vida. Nenhum de nós está livre de passar por determinadas limitações durante a nossa trajetória, e algumas pessoas desenvolvem elas muito cedo, ainda crianças.

O autismo sempre foi algo que me chamou a atenção. A leitura que eu tinha sobre o tema até assistir a este documentário é que as pessoas com autismo tinham uma certa dificuldade de se relacionarem com as outras pessoas e que elas viviam “fechadas” em seus próprios mundos. Esta é uma forma simplista de ver à realidade de um autista, sem dúvida, e isso ficou ainda mais claro para mim depois que eu assisti a Life, Animated.

Algo que eu gostei muito no filme dirigido por Roger Ross Williams é a forma natural com que ele é construído. Partimos de imagens de família, de vídeos caseiros, para mergulhar na história de Owen e de sua família. Mas no roteiro escrito pelo pai do protagonista, o jornalista Ron Suskind, por mais que outras pessoas apareçam em cena, o foco está sempre em Owen e na sua forma de lidar com o mundo.

A arte entra justamente neste esforço em compreender as razões que fazem Owen agir de uma certa maneira e não de outra. Depois de muito tempo, como costuma acontecer na vida real, os pais de Owen compreenderem que ele entendia o mundo e se expressava através dos desenhos da Disney.

O filme não poderia também começar em um momento mais interessante. Começamos a acompanhar a rotina do protagonista em Cabo Cod, uma península no extremo leste do Estado americano de Massachusetts, quando ele está se preparando para ganhar a “independência” e viver sozinho. Este é um passo gigante, para muitos pais de autistas, praticamente impensável. Mas Owen está perto de conseguir isso.

Life, Animated ganha interesse, desta forma, não apenas em mostrar a preparação para este grande momento na vida de Owen, como também por mostrar as suas dificuldades e, claro, a trajetória que levou ele e seus familiares até ali. Como os filmes de Walt Disney são fundamentais para entender o universo particular de Owen, este documentário também está cheio de cenas e de diálogos dos filmes animados do estúdio.

Tão fascinante quanto mergulhar e conhecer melhor a rotina de um autista como Owen é verificar mais uma história de como a arte pode mudar vidas. As produções da Disney fascinam não apenas a Owen, mas a todas as pessoas do grupo que ele forma para apreciar sessões de cinema que tem as produções do estúdio como foco.

Com criatividade, Suskind e Williams apresentam um filme que aborda não apenas esta relação apaixonada entre Owen e a Disney, mas também torna parte da narrativa da história do protagonista também um expressão artística com desenhos belíssimos. Achei toda a produção de muito bom gosto e de grande sensibilidade.

Para que, como eu, precisava conhecer um pouco melhor a realidade de um autista, Life, Animated apresenta diversas visões sobre a rotina de alguém que tem este diagnóstico. Boa parte da produção aborda a própria ótica de Owen e de seus pais e irmão, mas há também depoimentos de especialistas e um olhar atento para os amigos, colegas e para a namorada do protagonista. Só senti falta de ouvir mais estas outras pessoas diagnosticadas com autismo.

Verdade que há um protagonista claro nesta produção, o filho do roteirista. Ao mergulhar na história dele, temos mais detalhes sobre a visão de mundo, os desejos, as capacidades e limitações dele. Mas o filme poderia ter abordado mais os amigos e colegas dele dando um pouco mais de “voz” para alguns deles. Faltou um pouco esta abordagem um pouco mais ampla da história.

Ainda assim, não tenho dúvidas, este é o melhor filme que eu já assisti sobre um autista. Não apenas por contar a sua história, mas especialmente por valorizar as suas conquistas. Em uma sociedade que tenta entender e incluir os autistas e em uma família que tem condições financeiras para buscar o melhor para ele, Owen consegue um desenvolvimento impressionante. Ele passa a ter uma certa independência e, perto do final da produção, faz um discurso maravilhoso em um evento mundial sobre o tema na França.

Mas apesar das alegrias e dos pontos altos de Owen, Life, Animated não foge das dificuldades e dos momentos de dor pelas quais ele e os familiares passam. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). É impressionante e comovente como ele sofre quando a namorada termina com ele. Sem dúvida alguma ele, assim como tantas outras pessoas que passam por algum distúrbio mental, tem muita dificuldade em lidar com o sofrimento, com uma perda e com a dor.

O ponto alto do filme, sem dúvida alguma, é justamente aquele depoimento de Owen no congresso sobre autismo. Nesta parte, me chamou a atenção, em especial, quando o protagonista desmistifica alguns lugares-comum sobre o autismo. Por exemplo, quando ele diz que o autista não quer viver isolado, sem amigos, muito pelo contrário.

Ele quer ter amigos, mas só tem uma forma diferente de se expressar sobre isso e sobre outros temas. Belo filme, tanto pela abordagem sincera sobre o tema quanto pelo olhar artístico sobre a história de Owen – inclusive transformando uma história que ele criou em animação. Bela sacada. Um filme que deveria ser praticamente obrigatório, especialmente nas escolas, para que as crianças aprendam a conviver com as diferenças e entendê-las melhor. Quem sabe assim teríamos, no futuro, sociedades mais inclusivas? Esta é uma boa meta a ser perseguida.

NOTA: 9,5.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Um dos pontos fortes desta produção é a forma com que a história de Owen Suskind é contada. Apesar de ter uma “coluna vertebral” linear, mostrando a rotina do protagonista pouco antes dele se tornar mais independente e um pouco depois disto acontecer, Life, Animated também retorna na história de Owen, explicando como o quadro ele evoluiu e como o diagnóstico foi sendo aprimorado. Sem contar a parte do documentário “puro e duro” ser intercalado pela arte e pela fantasia. Um filme diferenciado, por este conjunto “da obra”.

Além de uma direção cuidadosa de Roger Ross Williams, que acompanha muito de perto e de forma atenta Owen, vale destacar a homenagem que Ron Suskind faz para o filho ao contar a sua história com tanto carinho. Desta forma, o jornalista também ajuda a muitas famílias e autistas a enxergarem as suas próprias realidades com outra perspectiva, além de esclarecer particularidades do autismo para quem não tem um caso destes por perto.

Da parte técnica do filme, vale destacar o excelente trabalho do departamento de animação de Life, Animated com oito profissionais e a trilha sonora irretocável de T. Griffin Dylan Stark. Também fazem um bom trabalho o diretor de fotografia Thomas Bergmann, o editor David Teague e Lucien Harriot, que é responsável pelos efeitos visuais da produção.

Life, Animated estreou no Festival de Cinema de Sundance em janeiro deste ano. Depois, o filme participou de outros 30 festivais pelo mundo. Nesta trajetória a produção ganhou 11 prêmios e foi indicada a outros 18. Entre os prêmios que recebeu, destaque para o Directing Award no Festival de Cinema de Sundance; para o de Melhor Documentário pela escolha da audiência no Festival Internacional de Cinema de San Francisco; para o mesmo prêmio que foi dado pela audiência do Festival de Cinema de Nantucket; para o Truly Moving Picture Award no Heartland Film; para o de Melhor Filme pela escolha do público no Full Frame Documentary Film Festival; para o prêmio especial do júri como Melhor Documentário do dead CENTER Film Festival; para a escolha dos críticos de documentário como Most Compelling Living Subject of a Documentary no Critics Choice Documentary Award; e para o prêmio do júri estudantil para Roger Ross Williams no Black Reel Awards.

Esta produção também foi escolhida como uma das cinco melhores na categoria Documentário do National Board of Review. Junto com ela estão Gleason, The Eagle Huntress, Miss Sharon Jones! e De Palma.

Não encontrei informações sobre o custo de Life, Animated, mas achei sim que a produção fez pouco mais de US$ 244 mil nas bilheterias dos Estados Unidos. É pouco, sem dúvida. Até agora ele me parece um filme de “nicho”. Precisa ser mais conhecido, até para ganhar fôlego para o Oscar.

Life, Animated é o 10º filme do currículo de diretor de Roger Ross Williams. O americano de 43 anos já tem um Oscar na carreira, ganho em 2010 com o curta de documentário Music by Prudence. Williams estreou como diretor em 2003 com o documentário feito para a TV New York Underground. Depois de Life, Animated ele voltou para os curtas, dirigindo um curta de documentário para a TV e um curta para o cinema.

O pai de Owen e roteirista deste filme, o jornalista Ron Suskind, tem 57 anos de idade e se formou mestre em jornalismo na Universidade de Columbia em 1983. Ele começou a trabalhar em 1990 no Wall Street Journal e já virou um repórter sênior da cobertura nacional do mesmo jornal três anos depois, ficando neste cargo até o ano 2000. Em 1995 ele ganhou um Prêmio Pulitzer por uma série de reportagens no Wall Street Journal que depois seria transformada no livro “A Hope in the Unseen”. Hoje ele escreve para as revistas Esquire, Time e a do New York Times.

Os usuários do site IMDb deram a nota 7,8 para esta produção, enquanto os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 85 críticas positivas e apenas cinco negativas para o filme, o que lhe garante uma aprovação de 94% e uma nota média de 7,6. As duas avaliações são bem positivas se levarmos em conta o padrão dos sites.

Entre os nomes que fazem pontas no filme estão os atores admirados no mundo Disney Jonathan Freeman e Gilbert Gottfried.

Esta é uma produção 100% dos Estados Unidos. Por isso o filme entra em uma lista de críticas que atende a uma votação feita há algum tempo aqui no blog.

CONCLUSÃO: Um filme muito bem construído e que terá, a exemplo de tantas outras produções, diferentes camadas de entendimento. Para quem tem um autista na família, sem dúvida esta produção terá uma identificação imediata e deve emocionar muito ao apresentar a história de um rapaz que soube avançar bem em sua forma de se comunicar.

Para os que não tem um caso na família, sem dúvida será um grande aprendizado e um mergulho interessante na realidade de um autista. Diferente de outras produções, Life, Animated acerta ao explorar os desejos, sentimentos e o cotidiano do protagonista pouco antes dele se tornar mais independente e logo após ele obter esta conquista. Bem feito, merece ser visto, sem dúvida. Um dos bons achados deste ano.

PALPITES PARA O OSCAR 2017: Life, Animated é um dos 15 documentários que avançaram na disputa por uma das cinco vagas no Oscar 2016. Ele tem pela frente “favoritos” como O.J.: Made in America (comentado por aqui) e Weiner e outros fortes candidatos como 13th (com crítica neste link), Fuocoammare (comentado aqui) e Gleason, apenas para citar alguns.

A vida de Life, Animated não será fácil. Aparentemente este é um ano bem disputado na categoria dos documentários. Ainda preciso assistir a vários dos concorrentes, mas acho que a causa levantada por este filme e a forma interessante com que ele trata a história do protagonista merecem ser mais conhecidas. Uma boa forma de fazer isso é esta produção emplacar entre os cinco finalistas. Acho que ela merece, só não sei se os outros concorrentes vão deixar.

Torço para que Life, Animated consiga figurar entre os cinco finalistas para o Oscar de Melhor Documentário. Agora as chances dele ganhar a estatueta dourada são remotas. Digo isso analisando a chuva de prêmios que O.J.: Made in America tem recebido. Acredito que ele seja o favorito segundo a opinião dos críticos – não é o meu favorito, já que prefiro 13th.

Hell or High Water – A Qualquer Custo

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O Velho Oeste é agora. Ele não terminou com o passar das décadas e com a mudança ocorrida no cenário. Alguns personagens podem ter mudado, com o passar do tempo, mas a mesma “terra sem lei” parece continuar valendo. Alguns tem muito, outros tem pouco e parte desta desigualdade tenta ser resolvida à força, à bala. Hell or High Water é um filme despretensioso que tem muitos argumentos interessantes e surpreendentes. Um dos bons achados da temporada pré-Oscar 2017.

A HISTÓRIA: Uma cidade do interior como outra qualquer do Texas. Um carro desliza devagar pelas ruas enquanto Elsie (Dale Dickey) chega para mais um dia de trabalho. Em um muro está pixado “três missões no Iraque, mas não refinanciam as nossas hipotecas”. O cenário ao redor do Texas Midlands Bank é comum, ordinário.

Depois de terminar mais um cigarro, Elsie vai para a agência, quando é rendida por dois bandidos armados. Ela informa que não tem dinheiro no caixa, apenas no cofre. Os bandidos resolvem esperar o gerente, Sr. Clauson (Wiliam Sterchi). Quando ele chega, logo é agredido. Os criminosos não estão brincando, e esta é apenas uma das agências que eles vão roubar pelo caminho. Perto de se aposentar, o policial Marcus Hamilton (Jeff Bridges) acaba vendo na série de crimes da dupla um motivo para uma última emoção.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Hell or High Water): O começo desta produção é certeiro. Muito bem conduzido, o filme dá o seu recado logo nos primeiros minutos. Instigante, Hell or High Water mostra que nem tudo avançou na sociedade americana como normalmente estamos acostumados a ver nos filmes de Hollywood.

O Velho Oeste segue válido em várias partes da América das oportunidades. Depois da crise do mercado imobiliário e financeiro de 2008, muitas cidades dos Estados Unidos sofreram com o desemprego e com a dívida de boa parte de sua população.

Esta “bancarrota” na vida de muitas pessoas é o pano de fundo fundamental desta história e mostrado muitas vezes em diversas placas de “vende-se” e de ofertas de crédito pelas cidades do interior do Texas onde a história desta produção é ambientada. Este, para mim, é um dos pontos fortes do filme. Enfocar uma realidade pouco mostrada nos filmes americanos – ainda que esta realidade tenha melhorado nos últimos tempos, segue sendo complicada para muita gente.

Uma qualidade e ao mesmo tempo um problema do filme é que ele começa arrasador. Não apenas o roteiro de Taylor Sheridan, mas principalmente a câmera atenta e ágil do diretor David Mackenzie nos apresentam um início bastante dinâmico e potente. Cenas de ação muito bem filmadas e com uma trilha sonora que desde cedo mostra todo o seu potencial.

Depois, o filme passa a ter a narrativa dividida em duas frentes: a dos criminosos que seguem em sua “missão” até atingir o objetivo proposto e a dos “mocinhos” que estão no encalço deles. Mackenzie e equipe escolheram a dedo cada um dos atores e acertaram na mosca. Ben Foster e Chris Pine estão ótimos como os irmãos Tanner e Toby Howard, os homens por trás das máscaras e dos crimes. E Jeff Bridges dá mais um show como o policial Marcus Hamilton, tendo ao seu lado o competente e menos “estrelado” Gil Birmingham como o policial Alberto Parker.

Hell or High Water não tem firulas. Ele não doura a pílula. Muito pelo contrário. O roteiro de Sheridan tenta permanecer embebedado o máximo possível na realidade. É desta forma com que começamos a nos debruçar no dia a dia da dupla de irmãos e de seus perseguidores. Como antes da ação sempre há o tempo de espera, o filme também tem estes hiatos de “calma” e de preparação. Momentos em que o roteiro explora as características de cada um dos personagens.

Na medida em que o filme perde em ritmo, adentramos na relação dos irmãos Tanner e Toby e sabemos um pouco mais sobre as suas motivações. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Tanner passou 10 anos de sua vida preso, enquanto Toby cuidou da mãe deles até que ela morreu. Quando Tanner deixa a prisão, Toby vai procurar o irmão pedindo ajuda. Um dos bancos do Estado – justamente aquele que vira o alvo deles – coloca a mãe dos dois em uma dívida que poderá fazer eles perderem a propriedade que a família penou muito para conseguir.

Além da hipoteca atrasada, a família está com impostos atrasados que foram assumidos pelo banco em vias de vencer. Para evitar que eles percam tudo e pensando em seus próprios filhos, Toby resolve radicalizar. Chama o irmão para ajudá-lo a roubar agências pequenas de cidades do interior do Texas, onde está a propriedade da família. Para “limpar” o dinheiro do crime, eles se utilizam da falta de checagem e de controle de um cassino.

Enquanto eles seguem na levada de cometer crimes, trocar de carros e de locais de hospedagem, Marcus Hamilton e o seu parceiro Alberto Parker procuram seguir os rastros deles. Mais experiente e muito irônico – até que ponto ele usa de ironia ou é preconceituoso? -, Hamilton é o que dá a direção para o trabalho da dupla. Perto do fim, ele conclui certo sobre o próximo local do assalto à banco, mas eles chegam atrasados.

Um ponto fundamental desta produção, sem dúvida, é a forma com que ela mergulha na “América profunda”. O roteiro de Sheridan acerta especialmente ao nos mostrar um “jeito de ser” em que andar armado, usar chapéu de cowboy e falar de forma ríspida é lugar-comum, faz parte da identidade das pessoas. No Texas que vemos no filme o cidadão comum não pensa duas vezes em atirar em criminosos que estão roubando o banco.

Nem por isso os homens que estão no restaurante em que os irmãos param para almoçar não deixam de ver um certo “mérito” no estilo Robin Hood dos bandidos. Afinal, como um dos senhores comentam, são os bancos que estão acabando com as pessoas e deixando todos cada vez mais pobres. Ainda que exista este questionamento na produção, na hora do “vamos ver”, a última cidade roubada reage contra a dupla de assaltantes. Todos saem na caçada deles.

Neste momento, os irmãos se revelam ainda mais diferentes. E a ação volta a dominar a cena. A revelação da “América profunda” e as cenas de ação são pontos fortes de Hell or High Water, é verdade, mas, para mim, o filme só é grande por causa da sequência final.

(SPOILER – não leia… bem, você já sabe). Achei simplesmente brilhante o desfecho da produção. Um tanto entediado com a aposentadoria e, principalmente, ainda indignado pela morte de seu companheiro, Marcus Hamilton não se conforma que o segundo criminoso não foi preso ou morto – preferencialmente o segundo caso, na visão dele. Porque naquela terra de “bravos”, vale lembrar, a morte é a solução mais adequada para os problemas – nada mais equivocado e, aparentemente, nada mais texano.

Pois bem, incomodado com aquele desfecho que não lhe agrada nem um pouco, Hamilton volta para a delegacia para tentar encontrar algum fio que alguém pode ter deixado solto. E assim que ele vai procurar Toby em seu território. E aí, meus amigos, aquele final ao melhor estilo de “duelo” é incrível. Não é apenas um duelo de palavras, mas de ameaças de morte. Hamilton mata toda a charada, e sem Toby negar, muito pelo contrário, sobre o perfil de cada irmão, o papel de cada um nos crimes e a motivação para eles terem feito o que fizeram.

De fato, o “cérebro” da sequência de crimes foi Toby. Enquanto ele tinha a motivação de garantir o futuro dos filhos, que nunca mais precisariam correr atrás de dinheiro, se eles não quisessem – acabando com uma sequência familiar de “pobreza” -, a motivação de Tanner era a diversão que o crime lhe dava. “Picado” pela adrenalina dos assaltos e das mortes, ele sentia prazer em fazer aquilo – diferente de Toby, aparentemente.

No final, o tiroteio é evitado pela aparição dos filhos de Toby. Mas o suspense e a ameaça da “caça” e do “caçador” ficam no ar, podendo ou não ser resolvida em algum outro momento. Final genial para um filme que tem a coragem de nos mostrar uma América que nem sempre os americanos gostam de revelar. Ou sobre a qual muitos deles não se importam. Pois muitas daquelas pessoas, ao menos daquele perfil de personagens que vemos no filme, elegeram este ano Donald Trump como presidente. Veremos o que ele apresentará para o mundo como resposta.

NOTA: 9,7.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Algumas vezes eu dou uma determinada nota para os filmes e esqueço de comentar um pouco sobre como eu cheguei até ela. Pois bem, vou fazer isso por aqui e também vou atualizar a crítica que publiquei ontem, a de Sully (acessível por aqui), para explicar melhor o meu critério para vocês.

Achei que Hell or High Water é um filme quase irretocável. Com um bom ritmo e boas apostas, esta produção tem a coragem de mostrar um Estados Unidos que nem sempre Hollywood gosta de mostrar. Um país em que as pessoas andam armadas e tem orgulho disso. Em que ninguém se importa muito em chamar a polícia mas, tendo a oportunidade, agem rápido para atirar contra o “bandido”. E detalhe: sem lembrar que o criminoso é uma pessoa como eles, só que geralmente desesperada.

O filme sabe a hora certa de acelerar e de apostar na ação e os momentos de aprofundar nos personagens e nas suas relações. Mas para não dizer que a produção é perfeita, ela me incomodou perto do final. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). O encontro de Hamilton com Toby é incrível, mas a falta de investigação policial que fez com que aquele final fosse possível me parece um bocado forçado e irreal. Difícil acreditar que realmente ninguém foi atrás do irmão do bandido morto. Nesta parte, achei a escolha do roteirista um pouco equivocada. Ao menos ele poderia ter mostrado mais interesse da polícia em Toby. Faria mais sentido.

O elenco de Hell or High Water foi muito bem escolhido. Começando pela coadjuvante Dale Dickey, perfeita como a caixa do primeiro banco que é roubado. Ben Foster, Chris Pine e Jeff Bridges estão perfeitos em seus papéis. Foster tem aquele olhar e trejeito um tanto desequilibrado e pronto para explodir a qualquer momento que caem como uma luva para o personagem de Tanner. Pine equilibra bem o sujeito “do bem” que se coloca em uma situação perigosa porque está farto de seguir o “caminho certo” e não conseguir nada com isso. E Bridges é o sujeito que plasma com o sotaque e cada trejeito o estilo do homem de meia idade que mora naquele local. Estão ótimos, todos.

Além dos três atores que são os nomes fortes do filme, vale comentar o bom trabalho do já citado Gil Birmingham como Alberto Parker; de Dale Dickey em uma super ponta como Elsie; de William Sterchi bem convincente na ponta como Mr. Clauson; do veterano Buck Taylor que aparece de forma genial como o “velho senhor” que está sendo atendido no banco pela caixa Olney Teller (interpretada por Kristin Berg) quando eles são assaltados; Katy Mixon bem como a garçonete Jenny Ann, interessada no bonitão Toby; Keith Meriweather como o caubói que ajuda Hamilton; Joe Berryman como o gerente de banco “boa praça”; Margaret Bowman como a garçonete de idade que mostra que as mulheres também podem ser ríspidas; Marin Ireland como a ex-mulher de Toby, Debbie Howard; John-Paul Howard como o filho mais velho de Toby, Justin; e Christopher W. Garcia em uma pequena ponta como o filho mais novo de Toby, Randy. Não aparece nos créditos, mas a menina que dá em cima de Toby no cassino e que leva um “chega pra lá” forte de Tanner é Melissa-Lou Ellis.

Da parte técnica do filme, sem dúvida alguma merecem destaque o roteiro bem feito e quase perfeito de Taylor Sheridan e a ótima direção de David Mackenzie. O diretor acerta em cada detalhe, dando dinâmica interessante e estilosa nas cenas de ação e valorizando o trabalho dos atores sempre que possível. Destaque também para a direção de fotografia de Giles Nuttgens, para a edição de Jake Roberts e para a envolvente e interessante trilha sonora da dupla Nick Cave e Warren Ellis. Ponto forte do filme, aliás, é a sua trilha sonora.

Ainda merecem ser citados o design de produção de Tom Duffield, a direção de arte ótima de Steve Cooper, a decoração de set de Wilhelm Pfau e os figurinos acertados de Malgosia Turzanska.

Hell or High Water estreou em maio no Festival de Cinema de Cannes. Depois, o filme participou de outros seis festivais de cinema pelo mundo. Em sua trajetória até o momento, o filme ganhou cinco prêmios e foi indicado a outros 24, incluindo três indicações ao Globo de Ouro 2017.

Entre os prêmios que recebeu, destaque para o de Melhor Ator Coadjuvante para Jeff Bridges dado pelo National Board of Review; o de Melhor Elenco pelo Prêmio da Associação de Críticos de Cinema da Área de Washington DC; e o quinto lugar na lista dos 10 Melhores Filmes do Ano pela Associação de Críticos de Cinema Online de Boston. Hell or High Water também foi escolhido como um dos melhores filmes do ano pelo AFI Awards e pelo National Board of Review.

Hell or High Water foi indicado ao Globo de Ouro 2017 nas categorias Melhor Filme – Drama, Melhor Ator Coadjuvante para Jeff Bridges e Melhor Roteiro para Taylor Sheridan. Sem dúvida, são indicações justas.

Esta produção, que teria custado cerca de US$ 12 milhões, faturou pouco mais de US$ 27 milhões apenas nos Estados Unidos. Não é um graaaande sucesso, mas também não é um fracasso. O filme está batalhando para conseguir começar a lucrar.

Hell or High Water foi totalmente rodado no Novo México, nos Estados Unidos. Entre outros lugares, ele teve cenas rodadas nas cidades de Clovis, Portales, Tucumcari, Albuquerque, Estancia, Moriarty e Quay County. O cassino escolhido fica na famosa Rote 66 e faz parte de uma reserva Comanche.

Este é o 15º trabalho do diretor inglês David Mackenzie. Ele começou a carreira na direção em 1994 com o longa Dirty Diamonds. Ele tem na filmografia também curtas e séries de TV. Até o momento, Mackenzie tem 20 prêmios no currículo. Nada mal para um diretor que completou 50 anos em 2016 e tem muito trabalho para apresentar ainda.

A frase “hell or high water” (algo como “que venha o inferno ou a água alta”) normalmente significa “fazer o que precisa ser feito não importando as consequências”. A expressão também tem a ver com a cláusula de alguns contratos, especialmente os de arrendamento, que prevê que os pagamentos devem continuar sendo feitos independente de qualquer dificuldade que o devedor poderá eventualmente passar. As duas leituras tem tudo a ver com o “espírito” deste filme, não?

Hell or High Water é dedicado para David John Mackenzie e para Ursula Sybil Mackenzie, os pais do diretor que morreram enquanto ele estava fazendo o filme.

Uma curiosidade sobre esta produção: apesar da história do filme ser ambientada no Texas, nenhuma cena de Hell or High Water foi rodada por lá. Comancheria, que era o nome original da produção, faz referência à região Oeste do Texas, também conhecida como Novo México, parte do território ocupado pelos Comanches antes dos anos 1860.

Outra curiosidade: o Texas é um dos 10 Estados dos EUA que permitem que menores de idade bebam álcool desde que eles estiverem em casa ou forem supervisionados por um adulto – em uma certa cena Toby oferece uma cerveja para o seu filho mais velho e menor de idade.

O roteirista Taylor Sheridan faz uma ponta no filme como o caubói que está liderando o grupo que tenta levar o gado para longe de um incêndio na mata.

Os usuários do site IMDb deram a nota 7,8 para esta produção. Os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 203 textos positivos e apenas quatro negativos para a produção, o que lhe garante uma aprovação de 98% e uma nota média de 8,5. As duas avalições são muito boas, mas chama a atenção, em especial, a alta aprovação dos críticos no site Rotten Tomatoes.

Esta é uma produção 100% dos Estados Unidos. Por isso o filme entra para a lista de produções que atendem a uma votação feita aqui no blog há algum tempo.

CONCLUSÃO: Um filme potente, que começa forte e que termina de forma brilhante. Entre um ponto e outro, Hell or High Water nem sempre segura a tensão. Mas neste miolo ele acaba se debruçando em outros elementos, como no contexto social e no estilo dos personag

PALPITES PARA O OSCAR 2017: Antes das indicações do Globo de Ouro saírem nesta última semana, Hell or High Water já era apontado em várias bolsas de apostas do Oscar como um dos fortes nomes na disputa por estatuetas na próxima edição da premiação. Ao assistir ao filme, eu entendi o porquê.

Estou de acordo com a maioria dos críticos e especialistas que colocou este filme entre os fortes indicados para a premiação da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood. Francamente, acho que Hell or High Water tem mais chances para ser indicado como Melhor Filme, Melhor Roteiro Original e Melhor Ator Coadjuvante para Jeff Bridges. Pode emplacar, ainda, Melhor Trilha Sonora e até Melhor Diretor.

Para chegar em todas estas categorias ou na maioria delas, ainda falta ver a outros dos favoritos. Aparentemente Jeff Bridges é um dos favoritos de sua categoria, então dificilmente vai ficar de fora. Como a premiação tem 10 vagas na categoria Melhor Filme, dificilmente ele não chegará lá. As reais chances de levar nas categorias mais “fáceis” para ele, como Melhor Ator Coadjuvante e Melhor Roteiro Original, só saberemos após assistir aos concorrentes diretos. Veremos.

Sully – Sully: O Herói do Rio Hudson

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Não é fácil assistir a Sully depois do que aconteceu com o voo da Chapecoense. Talvez outras culturas ou nacionalidades não tenham esse problema, mas para nós, que vivemos tudo de perto, tem outro impacto ver as cenas deste filme. Bem produzido e com uma direção impecável do mestre Clint Eastwood, Sully tem um Tom Hanks em grande forma, mais uma vez vivendo um “homem comum” em uma situação extraordinária. Construído com esmero, Sully faz o espectador se emocionar sem apelar para o sentimentalismo. É um filme honesto.

A HISTÓRIA: Começa com o áudio de uma conversa entre o piloto Sully (Tom Hanks) e os operadores do aeroporto La Guardia. Sully diz que eles estão sem os dois motores e que precisam de um pouso de emergência. Com 155 passageiros e tripulantes, o avião se choca contra prédios de Nova York. Este é um pesadelo. Sully acorda ofegante.

No dia seguinte, ele corre às margens do Rio Hudson e, distraído, quase é atropelado. Depois de tomar um bom banho, ele assiste às notícias sobre o pouso que fez no Rio Hudson. Em seguida, ele vai para uma audiência do NTSB (National Transportation Safety Board) que investiga o que aconteceu com o avião e as razões que fizeram Sully decidir fazer um pouso forçado no rio e não voltar para um dos dois aeroportos que estavam disponíveis.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Sully): Como eu comentei lá no início, não é fácil assistir ao pedido de socorro do comandante do voo 1549 da US Airways e não pensar no desespero do que aconteceu com o voo da Chapecoense. E não apenas isso, mas nos faz pensar também que tudo poderia ter acabado de uma forma totalmente diferente.

Diferente do exemplo de Sully, que tinha 42 anos de experiência e teve um controle impressionante no pouso forçado no Rio Hudson, o piloto da LaMia acabou fazendo escolhas erradas e não encontrou nenhuma rota para salvar a maior parte dos tripulantes e passageiros de seu voo.

Como catarinense, não consegui me desprender totalmente deste fato “fora do filme” quando assisti a Sully. Consegui me colocar mais no lugar dos envolvidos do que se não tivesse passado pela experiência de acompanhar de perto a cobertura sobre o acidente com o time da Chapecoense. Isso semanas depois de tudo ter acontecido. Por isso mesmo foi acertadíssima a decisão da distribuidora de Sully de adiar um pouco a sua estreia – originalmente o filme estrearia na mesma semana em que o acidente da Chapecoense aconteceu.

Uma característica fundamental deste filme é mergulhar no personagem-título. O roteiro de Todd Komarnicki, baseado no livro escrito por Chesley “Sully” Sullenberger e Jeffrey Zaslow, mostra a história sempre sob a perspectiva do protagonista. A produção magistralmente dirigida pelo mestre Clint Eastwood começa com o pós-grande evento, ou seja, com Sully acordando após um de seus vários pesadelos depois dele ter conseguido um pouso praticamente impossível no Rio Hudson.

A partir deste momento, o filme é praticamente todo linear, mostrando as reações e o dia a dia de Sully e do copiloto Jeff Skiles (Aaron Eckhart) durante as investigações sobre o voo feitas pelos especialistas do NTSB (National Transportation Safety Board), uma organização independente nos Estados Unidos responsável pelas investigações sobre acidentes aéreos.

Desde o início o grupo formado por Charles Porter (Mike O’Malley), Ben Edwards (Jamey Sheridan) e Elizabeth Davis (Anna Gunn) questionam as decisões tomadas na cabine de comando do avião. Diferente do que Sully havia afirmado, eles dizem que um dos motores estava funcionando, ainda que em marcha lenta, e que todos os cálculos dos engenheiros aeronáuticos mostravam que Sully e Skiles poderiam ter voado até um dos dois aeroportos disponíveis e que já tinham sido avisados para um pouso de emergência.

Inicialmente você poderia imaginar que um filme sobre uma investigação de um acidente de avião poderia ser chato, maçante, mas não é isso que vemos em Sully. A tensão entre os investigadores e os pilotos é evidente, mas mais que isso, o filme de Clint Eastwood nos mostra todas as informações conflitantes que circundam a vida dos protagonistas.

Enquanto dentro de uma sala eles são questionados pelo grupo do NTSB e parecem cada vez mais equivocados em suas decisões, nas ruas, bares e na casa das pessoas eles são considerados heróis por terem salvado todas as pessoas que estavam naquele avião. A imprensa ajuda nesta construção do heroísmo, mas como sempre acontece, há algumas vozes dissonantes na imprensa também e que começam a questionar as decisões do comandante.

Todos os atores estão perfeitos em seus papéis. De forma inteligente, o roteirista e o diretor sabem explorar bem o dia a dia de Sully, em especial. Vemos os efeitos de angústia, pesadelos e a solidão que surge após o acidente e durante o isolamento pelo qual ele e Skiles passam durante as investigações sobre o acidente. As conversas de Sully com a mulher Lorraine (Laura Linney) ajudam a tornar o personagem humano, mais completo. Ele tinha uma família, contas para pagar e estava preocupado com a iminência de ser culpado por parte do acidente e, com isso, ter a carreira terminada antes do tempo – e sem direito à aposentadoria.

O filme só abandona a narrativa linear nos momentos em que apresenta em pinceladas um pouco a carreira de Sully, há 42 anos atuando como piloto de diferentes tipos de avião, e quando retorna a história em mais de uma dimensão para mostrar os momentos que antecederam o embarque e o curto voo da aeronave da US Airways pilotada por Sully.

A direção de Eastwood especialmente nestes momentos de retrocesso na narrativa é muito precisa, sem sobras, sem desperdícios. Toda a sequência do acidente e do que acontece após o pouso forçado são de tirar o chapéu. Ajuda muito também na narrativa a escolha do elenco, que tem grandes nomes além de Tom Hanks.

Por todo esse conjunto da obra, e muito pelo talento de Hanks, o espectador não tem dificuldade de se colocar no lugar das pessoas. Especialmente de Sully. Hanks consegue, mais uma vez, uma grande empatia no papel do “sujeito comum” que é colocado em uma situação extraordinária.

Algo interessante que Sully levanta é sobre as diferentes versões sobre o mesmo fato e de como uma mesma situação pode levantar diferentes interpretações. Por pouco Sully não foi responsabilizado por uma decisão que parecia equivocada. Isso teria significado o fim de uma carreira de muita dedicação e de talento puro – do contrário, ele não teria conseguido êxito em um pouso tão difícil e raro.

A postura de Sully é um elemento fundamental e que nos dá muitas lições. Para começar, ele não contou com a sorte. Ele tinha 42 anos de experiência e soube ser muito profissional no momento em que passou por uma situação de emergência. Ele se manteve calmo e gastou o tempo necessário para fazer a adequada leitura do cenário que tinha pela frente e tomar a decisão mais acertada para aquela situação. Também teve grande controle e precisão no momento do pouso na água.

Mas mais que a dedicação constante para tornar-se cada vez melhor naquilo que ele fazia, Sully teve uma postura exemplar de humildade. Tanto é verdade que, apesar de ter certeza de que ele tinha feito o que era preciso naquela situação, ele chegou a começar a duvidar de si mesmo conforme o comitê do NTSB apresentavam as suas argumentações.

Depois, quando Sully percebe um elemento fundamental que eles não estavam levando em conta, ele não bate no peito e se vangloria como o herói que grande parte da sociedade está o classificando. Ele diz que conseguiu o êxito em uma situação que pode ser considerada milagrosa por causa do bom desempenho de toda a tripulação e dos passageiros que estavam no voo. Divide o mérito com todos eles. E a verdade é que ele tem razão ao fazer isso. Cada uma das pessoas que estavam naquela avião teve uma parte de responsabilidade para tudo dar tão certo.

Por outro lado, Sully dá a entender que os interesses econômicos podem estar acima dos valores humanitários e do bom senso em diversas ocasiões. Enquanto assistimos ao filme, parece realmente que os interesses da companhia aérea estão forçando a investigação a penalizar Sully – afinal, ao pousar na água, ele destruiu um avião que poderia, em teoria, ter pousado sem danos em um dos dois aeroportos próximos.

Mas após o filme terminar, o espectador pode refletir um pouco mais e pensar que há razões para uma organização independente questionar qualquer acidente aéreo. Só ao avaliar com exatidão cada decisão, cada falha e cada acerto é que eles podem trabalhar para evitar que outros acidentes aconteçam.

A resposta para o drama de Sully parece meio óbvia, mas da forma com que este filme é narrado, demoramos um pouco para perceber o óbvio. Somos levados pelas mãos por Eastwood para duvidar um pouco sobre o que está sendo argumentado, especialmente porque o próprio protagonista chega a duvidar de si mesmo.

Qualquer um de nós está sujeito a uma tomada de decisão difícil em algum momento da vida. Estarmos preparados o melhor que podemos e procurarmos sempre estar cercados das melhores pessoas podem ajudar no processo e, principalmente, em uma resposta mais satisfatória. Sully nos mostra isso e muito mais. Trata também da força da mídia para erguer ou sepultar heróis – ainda que, no caso de Sully, a maioria estava no processo de valorizar o seu feito.

Mais um belo filme de Clint Eastwood, um dos meus diretores preferidos. Mais uma grande interpretação de Tom Hanks, cada vez mais o ator que dá vida para sujeitos comuns que encantam o público pela empatia que eles despertam. Perfeito tecnicamente, Sully também é um filme que surpreende por fazer de uma história relativamente simples uma grande peça de cinema. Bela produção.

Admito que em mais de um momento me emocionei, especialmente por causa da postura de Sully, o seu caráter e o próximo que ele ficou de perder tudo por uma interpretação equivocada e injusta de tudo que aconteceu. Nos faz pensar. E sentir.

NOTA: 9,4.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Um dos grandes destaques deste filme, sem dúvida alguma, é a interpretação precisa, sem exageros e bastante convincente de Tom Hanks. Ele é um ator que sabe interpretar como ninguém um sujeito comum que vive situações que qualquer um de nós pode entender. Hanks convence em cada olhar de angústia, em cada gesto de determinação e de procura de respostas de seu personagem.

O ator que completou 60 anos de idade em 2016 já ganhou dois Oscar’s. Além das estatuetas douradas por seus papéis em Philadelphia e Forrest Gump, Tom Hanks tem nada menos que 78 prêmios no currículo e outras 125 indicações. É um dos grandes atores de sua geração e pode conseguir, com Sully, mais uma indicação ao Oscar. É possível, ainda que não seja uma “bola cantada”. Muitos especialistas colocam o nome dele como um dos possíveis indicados, mas ele ter ficado fora do Globo de Ouro não ajuda nesta expectativa.

O elenco escolhido por Clint Eastwood é um dos pontos fortes de Sully. Além do ótimo Tom Hanks, vale destacar o bom trabalho de Aaron Eckhart e Laura Linney, em especial. Os dois ajudam a dar uma dimensão mais humana para a história. Também estão bem em seus papéis o trio de “investigadores” do acidente, Mike O’Malley, Jamey Sheridan e Anna Gunn. Também se saem muito bem as atrizes que interpretam as comissárias do voo com pouso heróico: Jane Gabbert como Sheila Dail, Ann Cusack como Donna Dent, e Molly Hagan como Doreen Welsh.

Entre os atores com papéis menores, vale citar o trabalho de Blake Jones como Sully quando ele tinha 16 anos de idade e começou a pilotar; Chris Bauer como Larry Rooney, amigo de Sully; o trio de passageiros que chegaram atrasados e quase não entraram no voo e que representa algumas das dezenas de histórias que estavam dentro daquele avião e que foram interpretados por Max Adler (como Jimmy Stefanik), Sam Huntington (como Jeff Kolodjay) e Christopher Curry (o pai de Jeff, Rob Kolodjay); Patch Darragh como o operador de voo do aeroporto Patrick Harten; e o ótimo Michael Rapaport em uma super ponta como o barman Pete que atende a Sully.

Algo impressionante nesta história não foi apenas o pouso feito por Sully no Rio Hudson, mas também toda a operação de resgate dos passageiros e tripulantes que foi impressionantemente rápida e bem orquestrada. Só mesmo em um país que leva a segurança a sério como os Estados Unidos para que uma operação como aquela acontecesse de forma tão impressionante. Sem dúvida alguma no Brasil e em tantos outros países temos muito a avançar ainda neste sentido. Ainda que, é preciso admitir, tudo também correu também porque estamos falando de Nova York e de um rio importante como o Hudson, bem explorado e com uma excelente infraestrutura atrelada a ele.

Da parte técnica do filme, além da direção exemplar de Clint Eastwood, vale citar a excelente edição de Blu Murray; a competente direção de fotografia de Tom Stern; o design de produção de James J. Murakami; a direção de arte de Ryan Heck e Kevin Ishioka; a decoração de set de Gary Fettis; o impressionante trabalho dos 25 profissionais envolvidos com o Departamento de Arte; o fundamental trabalho dos 29 profissionais envolvidos com o Departamento de Som; o competente trabalho dos oito profissionais dos Efeitos Especiais; e o trabalho fundamental dos 140 profissionais envolvidos com os Efeitos Visuais. Sem o trabalho dedicado de toda esta equipe Sully simplesmente não seria possível de ser feito.

Sully estreou no Festival de Cinema de Telluride em setembro. Depois o filme estreou em diversos países antes de passar por outros três festivais: o de Londres, o de Torino e o Festival de Cinema Americano. Até o momento a produção ganhou quatro prêmios e foi indicada a outros nove.

Entre os prêmios que recebeu estão o de Ator do Ano para Tom Hanks no Hollywood Film Awards e o Icon Award para Tom Hanks no Festival Internacional de Cinema de Palm Springs. A produção também aparece como um dos 10 filmes do ano no Prêmio AFI (junto com Arrival, Fences, La La Land, Moonlight, Silence, Zootopia, Hacksaw Ridge, Hell or High Water e Manchester by the Sea) e na lista Top Ten Films do National Board of Review (ao lado de Arrival, Hacksaw Ridge, Hell or High Water, La La Land, Moonlight, Silence, Hidden Figures, Patriots Day e Hail, Caesar!).

Sully teria custado cerca de US$ 60 milhões. Certamente grande parte deste orçamento foi gasto nos efeitos visuais, especiais e sonoros. Grande trabalho da equipe técnica envolvida. Apenas nos Estados Unidos o filme fez nas bilheterias até o dia 15 de dezembro quase US$ 124,8 milhões. No restante dos países em que o filme estreou ele fez outros Us$ 94 milhões. Ou seja, perto de US$ 218,8 milhões. Ele já é um sucesso de bilheteria.

Esta produção foi rodada em várias cidades dos Estados Unidos. Além de Nova York, que aparece de forma evidente no filme, Sully teve cenas rodadas em Atlanta e no Gwinnett Technical College, ambos na Georgia; e as cenas de simulação de voos na cidade de Charlotte, na Carolina do Norte.

Esta é uma produção 100% dos Estados Unidos, por isso ela passa a atender a uma lista de pedidos que foi feita aqui no blog há algum tempo.

Agora, algumas curiosidades sobre a produção. O capitão do barco Vincent Lombardi, que comandava o primeiro ferry boat a chegar no socorro do avião que pousou no Rio Hudson interpreta a si mesmo no filme.

As cenas de resgate foram filmadas no mesmo local do Rio Hudson em que o resgate verdadeiro aconteceu. Sully também teve cenas rodadas no New York Marriot Downtown, local em que o piloto e o copiloto do voo foram levados após o acidente.

O ator Tom Hanks passou metade de um dia com o verdadeiro Sully para compreender ele melhor e, principalmente, pegar as suas característica para logo interpretá-lo melhor.

Sully utiliza o mesmo recurso de Forrest Gump na cena da entrevista feita por David Letterman. Ou seja, a entrevista original é utilizada no filme, apenas trocando os rostos das pessoas pelos atores da produção – com exceção de Letterman, é claro. A jornalista Katie Couric participou da produção reproduzindo a entrevista que ela fez com o Sully original para o 60 Minutes e que foi ao ar no dia 8 de fevereiro de 2009, apenas 24 dias após o acidente ter acontecido.

A canção “A Real Hero” da artista eletrônica francesa College feita em colaboração com a Electronic Youth foi feita em 2010 em homenagem ao Sully real. O líder da Electronic Youth Austin Garrick foi inspirado nos comentários que o avô dele fez sobre Sully, afirmando que ele era um “ser humano real e um verdadeiro herói”.

É bacana ficar até o final dos créditos por causa das cenas das pessoas reais envolvidas naquele voo milagroso. Depois de várias pessoas falarem, inclusive o verdadeiro Sully, a esposa dele, Lorraine, finaliza com uma declaração emocionada. É bacana ver tantas pessoas vivas contrastando com tantas pessoas que já morreram em desastres aéreos.

Impressionante pensar também que tudo durou 208 segundos… Pouco mais de três minutos e meio entre a decolagem, o choque com as aves e o pouso forçado no rio. Incrível.

Os usuários do site IMDb deram a nota 7,6 para esta produção, enquanto os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 227 críticas positivas e 38 negativas para o filme, o que lhe garante uma aprovação de 86% e uma nota média de 7,2. Especialmente a avaliação do público no IMDb é boa, ainda que ela e a avaliação do Rotten Tomatoes demonstrem que este filme não tem o mesmo padrão alto de outras produções que estão buscando uma vaga no Oscar 2017.

Para quem ficou curioso para saber mais sobre a história real de Sully e o seu pouso milagroso, este artigo da Wikipédia traz muita informação, inclusive com links interessantes para reportagens e vídeos. Sem dúvida alguma foi um episódio muito documentado.

CONCLUSÃO: Um filme com esmero técnico e narrativa competente, que sabe valorizar o trabalho do protagonista e que ganha pontos pela escolha à dedo do elenco de apoio. Uma história relativamente simples, que para alguns poderia não ter grande interesse no cinema, mas que ganha contornos interessantes graças à sensibilidade do roteirista Todd Komarnicki e do diretor Clint Eastwood. Mais um filme que nos faz refletir sobre os valores da nossa sociedade e sobre escolhas difíceis que alguns tem que fazer em segundos. Bem construído, tecnicamente perfeito e com grandes interpretações, especialmente de Tom Hanks, Sully merece ser visto.

PALPITES PARA O OSCAR 2017: Achei muito estranho como Sully foi esnobado pelo Globo de Ouro 2017. Claro que todos nós, que acompanhamos as principais premiações do cinema mundial a cada ano, sabemos que Globo de Ouro não significa Oscar e vice-versa. Ainda assim, não deixou de ser estranho o filme não ser lembrado em nenhuma categoria.

Nas bolsas de apostas para o Oscar 2017, contudo, Sully aparece em mais de uma ocasião. Da minha parte, acho sim que o filme tem potencial de chegar a algumas indicações. As mais óbvias seriam a de Melhor Filme, Melhor Ator para Tom Hanks e algumas indicações técnicas. Mas é preciso avaliarmos com um pouco mais de carinho estas chances.

Há muitos filmes ainda para assistir para poder comentar realmente sobre as chances de Sully como Melhor Filme. Desde que a Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood abriu esta categoria para até 10 indicações, as chances para filmes “não-óbvios” conseguirem uma vaga aumentou. Aparentemente, Sully não está entre os favoritos este ano. Há produções muito mais “fortes” na disputa e o filme de Eastwood estaria correndo “por fora”.

Ainda assim, como é possível até 10 concorrentes na categoria Melhor Filme, acredito que Sully poderá chegar lá. Mas ganhar… daí é algo muito mais difícil. Há outros filmes que levam vantagem neste sentido. Tom Hanks merece uma indicação ao Oscar, não tenho dúvidas. Mas para saber se ele realmente chegará lá será preciso antes assistir a outros fortes concorrentes. Como esta categoria tem apenas cinco vagas, Hanks terá mais trabalho para chegar lá.

No caso do ator conseguir uma vaga, a vida dele será bem difícil para conseguir conquistar a estatueta. Não há dúvidas de que ele merece por tudo que já fez no cinema, mas acaba sendo um tanto improvável ele vencer este ano.

Sobre as indicações em categorias técnicas, sem dúvida Sully tem argumentos para ser indicado a Melhores Efeitos Visuais, Melhor Edição de Som, Melhor Mixagem de Som e até Melhor Edição. O problema é que este ano estamos “recheados” de filmes inspirados em HQs e que dão um “banho” justamente nestes quesitos.

Então Sully pode até emplacar uma indicação em alguma destas categorias, mas não é algo provável. Quanto a ganhar… bem, aí sim a tarefa será ainda mais complicada, porque os filmes de heróis são favoritos. No geral, acredito que o filme tem chances de ser indicado a duas ou mais categorias, mas tenho dúvidas se vencerá algo. De qualquer forma, estou na torcida para ao menos ele chegar lá, porque acho que os envolvidos e o filme em si merecem.

ATUALIZAÇÃO (19/12): Como comentei na crítica de Hell or High Water (que pode ser acessada aqui), nem sempre eu deixo clara as razões que fazem eu dar uma nota e não outra nas minhas críticas. Acho que não deixei muito claro, por exemplo, porque eu dei a nota acima para Sully e não uma nota maior. Muito bem, vou explicar melhor.

Como destaquei em toda a crítica sobre este filme, ele é perfeito, tecnicamente falando, e muito bem construído. O roteirista e o diretor surpreendem por fazer uma história relativamente “simples” de ser contada ter tanto “suspense” e emoção. Os atores estão bem, especialmente Hanks, mas alguns aspectos da produção me incomodaram um pouco e me impediram de dar uma nota maior para o filme.

Para começar, acho que o mesmo roteirista que torna a história interessante erra a mão um pouco em dois aspectos. Primeiro, em algumas cenas em que ele “exagera” um pouco no texto para emocionar – destaco, neste sentido, em especial, o “drama” do pai que procura o filho e não o encontra logo após o acidente, um tanto forçado para o meu gosto.

Outro ponto que me incomodou um pouco é a forma com que o roteirista carrega nas tintas para aparentar uma certa “perseguição” ou “caça às bruxas” dos representantes da NTSB nas investigações sobre os motivos para o acidente. Parece que eles estão tentando culpabilizar o tempo todo Sully, e me parece que a situação era muito mais técnica e menos “persecutória” do que o filme dá a entender. Estes dois pontos do roteiro me incomodaram um pouco e por isso eu dei a nota acima para Sully.

13th – A 13ª Emenda

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Algumas pessoas não querem saber de política. Mas são decisões políticas, muitas vezes, que pioram significativamente a sociedade em que vivemos. 13th é um documentário corajoso e que tem um objetivo muito claro: demonstrar como a exploração dos negros nos Estados Unidos não parou de acontecer com o fim da escravidão. Você pode até discordar de um ou outro argumento apresentado no filme, mas algo é certo: o sistema pode sim segregar e tornar os conflitos na sociedade cada vez piores ao transformar o nosso entorno em um ambiente cada vez mais injusto. Bem construído, com uma proposta interessante, 13th é um dos grandes filmes desta temporada pré-Oscar.

A HISTÓRIA: Começa com estatísticas e uma animação que mostra como os Estados Unidos, com uma população que equivale a 5% da população mundial, tem nada menos que 25% dos presos do mundo. O comentarista político Van Jones reflete sobre isso, como um a cada quatro cidadãos do mundo estão presos na “terra da liberdade”. Em 1972, o país tinha 300 mil presos e, atualmente, tem cerca de 2,3 milhões, ou seja, os EUA têm a taxa de encarceramento do mundo.

A advogada dos direitos civis Michelle Alexander pondera que, agora, muitas pessoas no país querem reduzir o sistema carcerário, porque ele estaria muito caro e grande, mas ela afirma que estas pessoas que defendem a redução do sistema carcerário não falam sobre como o Estado deveria remediar o dano que foi feito. De acordo com a 13ª Emenda da Constituição Americana, ninguém pode ser escravo no país. Ou seja, todos são livres. Uma exceção à regra é se a pessoa é criminosa. Esta produção defende que justamente o adendo neste artigo da Constituição abriu o flanco para uma série de desvios de políticas públicas que seguiram perseguindo os negros no país.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a 13th): Você pode até discordar de algum argumento apresentado pelo filme de Ava DuVernay, mas algo não dá para negar: esta produção é muito bem construída, planejada e apresentada. Cada detalhe do filme é pensado com um propósito e ele atinge o seu propósito de provocar reflexão, debate e indignação – pelo menos na maioria das pessoas, aquelas que não tem, a priori, resistência a qualquer argumento que revele desigualdade no tratamento racial.

Sim, porque há pessoas que realmente negam o que acontece ao redor delas. Até dá para entender quando estas pessoas não vivem na realidade comum da maioria – há pessoas abastadas e que vivem em uma certa “redoma” de segurança, riqueza e miopia social. Para as demais pessoas, as que vivem batendo pé nas ruas, que conhecem a realidade como ela é, não chega realmente a ser uma surpresa saber mais sobre as chagas mal resolvidas até hoje do escravagismo norte-americano. Quer dizer, não é uma surpresa completa, mas nem por isso 13th não deixa de ser surpreendente.

De forma muito inteligente o roteiro da diretora Ava DuVernay e de Spencer Averick larga com dados impressionantes e com uma espécie de introdução dos argumentos de alguns dos mais interessantes entrevistados do filme. Como em qualquer série de TV que logo quer mostrar as suas credenciais, este filme produzido para a Netflix também apresenta nos primeiros minutos a linha dorsal de seu argumento e do seu questionamento. Logo entendemos a razão do título 13th.

Após uma introdução instigante, acompanhada de uma trilha sonora que, logo no início, vai se mostrando marcante, Ava DuVernay vai nos mostrando com diferentes recursos de que forma a imagem do negro foi construída e apresentada nos Estados Unidos. Ela retorna para as primeiras representações gráficas e as primeiras histórias que mostravam o negro como um estuprador e criminoso, quase “uma besta” que não se controlava e que queria atacar sempre os brancos, especialmente as mulheres, até chegar a um “clássico” nesta representação que foi o infame The Birth of a Nation, que no ano passado completou 100 anos e que marcou negativamente a trajetória do diretor D.W. Griffith.

Utilizando muito bem recursos gráficos, fotografias e vídeos e filmes antigos, Ava DuVernay vai narrando não apenas a representação dos negros/afro-americanos nas artes e no imaginário da população, mas também o que aconteceu com eles depois que a escravidão foi abolida. Como disse um entrevistado logo no início do filme, somos “produto de uma série de escolhas” ou de “não-escolhas” que nossos antepassados fizeram.

Por isso que eu sempre digo que é muito importante cada um de nós conhecer a nossa própria história, enquanto nação e enquanto civilização, até para sabermos como chegamos aqui e de que forma a sociedade ao nosso redor está constituída. Não dá para ignorar o passado, porque ele continua influenciando ou até mesmo ditando a nossa realidade no presente.

Ainda que a gente saiba um pouco sobre o que aconteceu nos Estados Unidos desde a abolição da escravatura, sem dúvida alguma 13th nos apresenta vários fatos novos. E com uma visão bem clara e crítica sobre como tudo aconteceu – com a vantagem do filme ser feito agora, com os direitos humanos muito mais desenvolvido do que há 10 ou 20 anos. De forma bem argumentativa e convincente, os roteiristas vão nos apresentando os fatos históricos intercalados pela análise crítica dos entrevistados e com uma boa escolha de trilha sonora que trata sobre o preconceito e o tratamento diferenciado que os negros tem nos Estados Unidos sob o critério do governo e da lei.

Algo que perpassa o filme do início ao fim é o interesse econômico que sempre evolveu a exploração dos afro-americanos nos Estados Unidos. A escravidão era um “grande negócio” e, depois que ela se tornou insustentável do ponto de vista humanitário e do bom senso, as classes dominantes do país arranjaram um outro jeito de “lucrar” com os ex-escravos. Utilizando a exceção prevista na 13ª Emenda da Constituição, passaram a prender os negros por quase qualquer motivo – incluindo “vagabundagem”, ou seja, alguém estar caminhando na rua sem estar “fazendo nada” – para então utilizar a mão de obra deles como presidiários para obras de infraestrutura no país.

Quando a população de ex-escravos e seus descendentes se espalhou pelo país, inclusive ocupando subúrbios de grandes cidades, a prisão teve que ser disseminada para estes centros urbanos também. Pouco a pouco as polícias começaram a fazer este trabalho, muitas vezes prendendo afro-americanos por praticamente razão alguma. Em paralelo, veio a segregação racial, a lei que literalmente dizia qual era o espaço dos brancos e qual era o espaço dos negros.

A resposta para isso foi a resistência de uma parte importante dos afro-americanos com, especialmente no final dos anos 1960, nomes como Martin Luther King, os Panteras Negras e tantos outros defendendo uma resistência a este absurdo da segregação legal após o fim da escravidão. Muitas pessoas, naquela época, foram consideradas “inimigos públicos” do país. Mas pouco a pouco mais gente se juntou a causa deles e os direitos humanos começaram a ganhar corpo no país.

Conforme este movimento, que pedia direitos iguais para todos, foi ganhando voz, a repressão teve que mudar o argumento. Sob a justificativa de combater a criminalidade crescente, as leis foram ficando cada vez mais severas mas, na prática, elas claramente seguiam perseguindo os afro-americanos e os latinos e deixando boa parte dos brancos de fora. Tanto isso é verdade que basta ver a proporção de negros e de brancos no sistema carcerário americano.

Mas isso não é tudo. Como bem mostra 13th e várias reportagens que mostraram recentes levantes populares nos Estados Unidos, um dos grandes problemas é quando policiais matam negros desarmados e sob argumentos suspeitos e questionáveis. A população afro-americana, juntamente com brancos, latinos e pessoas de outras origens que se revoltam contra injustiças, passou cada vez mais a se indignar com isso, com diferentes levantes e revoltas em momentos diferentes dos EUA desde os anos 1960 – e no ano passado e neste ano também.

Se a parte histórica de 13th pode não ser tão surpreendente para muitos, já que várias pessoas conhecem o que aconteceu no país em rápidas pinceladas e com os fatos principais desde o fim da escravidão, a parte em que o filme desvela os interesses econômicos por trás de tudo isso chama a atenção. Especialmente quando o filme trata da Alec (American Legislative Exchange Council) e das empresas que faziam parte da associação e que mexeram os pauzinhos para aprovar leis que fariam, no fim das contas, com que todos eles faturassem ainda mais dinheiro. Porque ninguém deve duvidar que o “combate ao crime” serve a alguns interesses bem específicos e enche os bolsos de várias pessoas.

Para mim, além de jogar os holofotes para estas questões, me chamou muito a atenção como 13th ajuda a explicar o impasse pelo qual os Estados Unidos está neste momento. Tanto Hilary Clinton quanto Donald Trump aparecem mais jovens com declarações absurdas contra afro-americanos e, mais que isso, ambos estão imersos em interesses econômicos que ganham muito dinheiro com o sistema carcerário inflado que o país tem atualmente, com 2,3 milhões de presos em 2014.

Mais que isso, todos sabemos, Donald Trump é uma figura muito ligada à indústria armamentista. Ele jamais vai concordar em uma saída mais humana para o problema, uma saída que esteja preocupada com as causas da violência e não apenas com a repressão que não resolve nada. Porque esta é a grande questão que 13th e outras obras levantam.

Se a sociedade tivesse na valorização da vida humana um elemento fundamental, estaríamos olhando para a desigualdade social, para a diferença de oportunidades e de condições adequadas para o desenvolvimento das pessoas e em formas de resolver isso mais do que em prender pessoas e, o que 13th mostra bem, segregá-las da sociedade para o resta da vida.

Um dos elementos fundamentais deste filme é mostrar não apenas a desigualdade de tratamento da polícia e da Justiça a respeito de brancos e negros, mas também como a minoria acaba sendo julgada. Esse é um dos fatos mais impressionantes que 13th nos apresenta. Diferente do que podemos imaginar no Brasil, onde as pessoas podem demorar para ser julgadas, mas costumam passar por um julgamento, nos Estados Unidos a maioria disparado é coagida a fazer um acordo com a promotoria e não ir para um julgamento. A alegação é que elas ficarão poucos anos presas se fizerem um acordo e, se não fizerem isso, serão condenadas por um período muito mais longo.

Além disso, diversos governos, inclusive e especialmente o do democrata Bill Clinton, foram endurecendo as leis que, no fim das contas, apenas aumentaram a discriminação e a segregação racial no país. Desta forma, ficou ainda mais claro para mim a razão pela qual muitas pessoas nos Estados Unidos estavam resistindo a votar em Hilary Clinton. Afinal, ela era “mais do mesmo” da política do marido dela. A alternativa para Hilary? Ainda pior. Ela se chamava Donald Trump.

Após assistir a 13th ficou ainda mais claro para mim que não é uma exclusividade do Brasil termos que votar no “menos pior”. Nestas últimas eleições os americanos tiveram que decidir entre o ruim e o péssimo. Complicado. No fim, além de apresentar argumentos muito convincentes sobre como um sistema pode funcionar não para promover a justiça e a igualdade, mas para garantir o oposto, incluindo governos, legisladores, sistema judicial e policial, 13th lança perguntas salutares sobre os passos seguintes que serão dados no país.

Como bem demonstra os roteiristas do filme e os seus entrevistados, quem está se forrando de dinheiro com o “combate” à criminalidade não vai perder o controle jamais. Conforme as pessoas vão resistindo e vão pedindo mudanças, estas corporações vão se adequando aos novos tempos e buscando novas formas de faturar muito dinheiro com a segregação racial e social.

Como a professora de Ciências Políticas da Universidade da Pensilvânia Marie Gottschalk argumenta em determinado momento do filme, o combate ao “inimigo” da sociedade pode estar migrando dos afro-americanos para os latinos e para os imigrantes de outras partes. Mas este combate vai seguir acontecendo porque ele traz lucro e “benefícios” para muita gente.

A grande questão é que deveríamos pensar em formas de incluir as pessoas e não excluí-las, maneiras de tornar as sociedades mais igualitárias de verdade e não fazer de conta que vivemos em países de oportunidades para todos. Não é assim nos Estados Unidos, 13th deixa claro, e não é assim no Brasil. Ou tomamos uma posição mais humanista e que exija mudanças para melhor a partir do sistema, incluindo leis mais adequadas e trabalhos da segurança pública da mesma forma, ou vamos cada vez mais ter conflitos sociais e problemas.

Chega de colocar o interesse econômico à frente dos direitos humanos. Esta talvez seja uma das grandes mensagens de 13th. Ainda que o filme, e de forma muito acertada, não termine com otimismo. Muito pelo contrário. Ele finaliza quase fazendo um alerta para o espectador de que o andar da carruagem está nos levando para um abismo. Documentário bem filmado, planejado e construído. Utiliza os recursos de forma adequada e tem uma direção de Ava DuVernay que explora ângulos diferentes dos entrevistados para tornar a estética da produção ainda mais interessante. 13th se destaca pelo conteúdo e também pelos detalhes, muito bem planejados e que funcionam bem para prender a atenção do espectador.

NOTA: 9,8.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Admito que não dei a nota 10 para este filme por muito pouco. Na verdade, apesar de ter achado a produção irretocável, eu só não dei a nota máxima porque achei que o filme não mexeu tanto comigo quanto poderia. Ou, em outras palavras, achei este filme marcante, elogiável, imperdível até, mas não o considerei inesquecível.

Eu não sou assinante da Netflix, mas admito que por produções como esta a empresa merece aplausos e ser cada vez mais disseminada. Produções independentes fazem falta e uma empresa como a Netflix pode consolidar-se cada vez mais por fazer apostas corajosas como esta. Neste sentido, desde já, estou um pouco na torcida para eles ganharem um Oscar, o que consagraria ainda mais a empresa e a sua proposta que foge do “mainstream” de Hollywood.

A exemplo do comentado aqui O.J.: Made in America, 13th estreou primeiro em um festival. No caso de 13th, foi no Festival de Cinema de Nova York, em setembro. Depois o filme estrearia no Festival de Cinema de Londres, no dia 6 de outubro, um dia antes dele ser lançado pela Netflix na internet. Ao ter sido lançado primeiro em festivais de cinema, 13th se credenciou para tentar uma vaga no Oscar 2017.

A exemplo de O.J.: Made in America, 13th também avançou da lista inicial de 145 filmes habilitados para concorrer na categoria Melhor Documentário do Oscar 2017 para figurar na lista de 15 filmes que seguem na disputa por uma das cinco vagas finais. Seria uma grande zebra se estes dois filmes não estiverem entre os cinco finalistas ao prêmio da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood.

Agora, algumas curiosidades sobre 13th. O filme foi rodado na Estação West Oakland Amtrack, na cidade de Oakland, na Califórnia. Sem dúvida alguma uma locação interessante para as entrevistas.

Este é o 26º documentário produzido pela Netflix. Impressionante o que esta empresa já fez em termos de produções próprias. E, a cada ano, ela vem acumulando cada vez mais prêmios. O que mostra que boas ideias e serviços baseados na internet podem render dinheiro e, o mais importante, uma diversidade interessante de olhares sobre fatos importantes para as nossas sociedades.

Até o momento, 13th ganhou três prêmios e foi indicada a outros cinco. Os prêmios que o filme recebeu foram de Melhor Diretor TV/streaming para Ava DuVernay, Melhor Documentário TV/streaming e Melhor Documentário Policial no Critics Choise Documentary Awards. Vale lembrar que esta mesma premiação consagrou O.J.: Made in America. Possivelmente estas duas produções vão fazer a grande queda-de-braços no Oscar 2017. Veremos. Da minha parte, e falo mais sobre isso abaixo, gostei mais de 13th do que de O.J.: Made in America. Os dois filmes são importantes, mas achei 13th mais interessante, impactante e bem feito. Além disso, ele tem uma temática muito mais atual para os Estados Unidos e para o mundo do que o “sonho americano desfeito” de O.J. Simpson.

13th é uma produção 100% dos Estados Unidos. Por causa disso o filme entra na lista de críticas que atendem a uma votação feita aqui no blog há muito tempo.

Quando coloquei a tag para a diretora Ava DuVernay eu percebi que esta não foi a primeira vez que escrevi um texto em que ela era citada. Olhando para a filmografia dela, que inclui 17 títulos entre curtas, filmes para a TV, documentários, séries para a TV e filmes para o cinema, percebi que eu já assisti a outra produção dirigida por ela: Selma (comentado por aqui).

Vale recordar que a produção, de 2014, acabou sendo indicada em duas categorias do Oscar 2015 e faturou a de Melhor Canção. Grande filme. como 13th, merece ser visto. Depois de 13th, Ava fez Battle of Versailles, um filme para a TV, e agora está filmando A Wrinkle in Time, uma aventura para os cinemas com Chris Pine e Reese Witherspoon, entre outros.

Os usuários do site IMDb deram a nota 8,4 para esta produção, enquanto os críticos do Rotten Tomatoes dedicaram 55 críticas positivas e duas negativas para o filme, o que lhe garante uma aprovação de 96% e uma nota média de 8,9. Ainda que as avaliações nos dois sites sejam boas e acima da média de ambos, elas estão abaixo das notas e da aprovação de O.J.: Made in America. Sem dúvida o filme sobre o astro do futebol americano parece ter um fascínio maior para o público americano do que esta produção que coloca o dedo na ferida sobre o racismo e sobre o sistema injusto dos Estados Unidos.

CONCLUSÃO: Um filme forte, objetivo e com uma argumentação poderosa. Questionar um dos pilares da sociedade americana não é para poucos, e 13th faz isso ao argumentar que o país é tudo, menos a “terra da liberdade”. Interessante a forma com que a produção destrincha os interesses econômicos e corporativos por trás da lucrativa “indústria” das prisões nos EUA. Indústria esta que, como no Brasil, sabe segregar muito bem negros de brancos e pessoas com ou sem dinheiro. Forte, bem construído e utilizando recursos interessantes como a música nos lugares certos, sem dúvida alguma é uma das boas pedidas de documentários deste ano. Merece ser visto e ser debatido, inclusive para repensarmos o que estamos fazendo no Brasil e em outras partes em termos de “segurança pública”.

PALPITES PARA O OSCAR 2017: Eu realmente espero que a Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood tenha coragem de colocar 13th como um de seus finalistas na categoria Melhor Documentário. O filme tem qualidades para chegar lá, não há dúvidas. Mas todos nós sabemos que Hollywood também é uma “instituição” política, de formação de opiniões e que manda mensagens muito claras não apenas para a sociedade americana, mas mundial. Assim sendo, terá que ter coragem para dar visibilidade para um filme que questiona muitos interesses nos Estados Unidos.

Depois de ter sido muito questionada em 2016 por não ter indicado a grandes atores negros para a premiação máxima do cinema de Hollywood, o que todos esperam é que as mudanças provocadas após a gritaria geral tenham efeitos no Oscar 2017. Uma forma de demonstrar isso seria indicando 13th entre os cinco melhores documentários do ano. Veremos. Da minha parte, ainda preciso assistir a outros concorrentes que estão na lista dos 15 pré-selecionados nesta categoria, mas o que já posso comentar é que gostei muito mais deste 13th do que de O.J.: Made in America, outro dos favoritos.

Ainda que seja bem feito e que agregue algumas informações em relação ao que já sabíamos sobre O.J. Simpson, O.J.: Made in America não tem o impacto que este 13th tem. Além disso, o filme de Ava DuVernay tem algumas “sacadas” mais interessantes e foge um pouco do óbvio, especialmente ao intercalar músicas de rap no meio da narrativa. Achei também o argumento do filme mais contundente e menos disperso do que o filme de O.J. Simpson.

Ainda preciso assistir aos demais para dizer se 13th é o melhor do gênero no ano, mas desde já posso dizer que estou torcendo por ele em um confronto direto com O.J.: Made in America. Também é possível afirmar, desde já, que seria muito bacana para a Academia não apenas colocar 13th como um de seus filmes indicados como Melhor Documentário, mas também dar uma estatueta dourada para ele. Quem sabe, assim, o filme teria um apelo mais forte no país – apesar de Donald Trump ter vencido como presidente nas últimas eleições? Seria importante para a sociedade americana debater francamente o tema da criminalidade e do sistema penitenciário do país. O Oscar pode dar uma forcinha neste sentido.

O.J.: Made in America

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Há muitas formas de uma pessoa se perder. Uma história muito conhecida de alguém que “tinha tudo” e que perdeu tudo é o foco do longo documentário O.J.: Made in America. Esta é a história não apenas do esportista que era um fenômeno em seu país e que virou assunto mundial ao ser julgado por um crime brutal, mas também é a história de problemas não resolvidos nos Estados Unidos até hoje. A questão racial naquele país entra ano e sai ano e parece ter sempre avanços e retrocessos. Esta produção trata disso e de muito mais.

A HISTÓRIA: Começa mostrando uma estrada e uma paisagem deserta com a voz de O.J. Simpson dizendo que desde sempre ele quis fama mais que dinheiro. Na sequência, surge um presídio. Imagens de arquivo mostram uma audiência da Justiça com O.J. Simpson quando ele já estava há cinco anos em Lovelock. Perguntam para ele como ele se saiu nestes cinco anos, e ele conta como começou a trabalhar como faxineiro e que, pouco tempo depois, ele já estava trabalhando na academia. Em seguida, perguntam para ele se ele tinha 46 anos quando foi preso pela primeira vez, em 1994. O.J. se irrita e pergunta se eles vão falar “daquele caso”. Em seguida, ele confirma a informação. Corta. A partir deste momento, o filme conta a trajetória de O.J. Simpson desde que ele começou a se destacar no esporte.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já tenha assistido a O.J.: Made in America): A história de Orenthal James Simpson sempre será uma grande história. Até assistir a este documentário, eu nunca tinha entendido bem a dimensão que esta figura tinha nos Estados Unidos. Mas o documentário dirigido por Ezra Edelman ajuda a dimensionar exatamente quem foi O.J. Simpson para o público americano.

Os Estados Unidos não tem apenas um esporte nacional. Lá é muito forte o futebol americano, o beisebol e o basquete. Diferente do Brasil, onde até segunda ordem o “esporte nacional” é o futebol. Ainda que nos EUA outros esportes dividam a atenção e a paixão do grande público, provavelmente o futebol americano é o esporte mais democrático do país. O.J. Simpson foi um fenômeno neste esporte.

A comparação pode parecer absurda e ridícula, mas o que aconteceu com ele pode ser “entendido” pelo brasileiro que tem hoje os seus 60 anos ou mais como se o Pelé, ainda no auge da carreira, resolvesse parar de jogar futebol e fizesse uma trajetória bem-sucedida como “celebridade” do cinema e dos comerciais, faturando rios de dinheiro e, depois, de forma “misteriosa”, fosse acusado de assassinato. A comparação é exagerada, claro, até porque o contexto social de racismo escancarado e disputas envolvendo a questão racial nos EUA não é o mesmo que o contexto brasileiro.

Essas reminiscências foram apenas para deixar ainda mais claro que fica difícil para o público que não seja o dos EUA entender realmente o que significou a figura de O.J. Simpson. Não apenas para o público do Brasil é difícil de dimensionar uma figura que era tão conhecida e controversa como, imagino, ocorra o mesmo em outros países. Mas O.J.: Made in America ajuda a explicar isso.

Como comentei lá no início, ainda lembro do “burburinho” criado pelo “julgamento do século” envolvendo O.J. Simpson. Ainda tenho na memória toda a expectativa criada após o crime, as artimanhas de Simpson para fugir da polícia – incluindo a absurda perseguição por ruas de Los Angeles filmada por helicópteros das TVs – e o derradeiro julgamento que todos acharam injusto. Ou quase todos, ao menos.

Neste ano, até porque a série ganhou diversos prêmios, eu já tinha assistido a The People x O.J. Simpson: American Crime Story. A série tinha me chamado a atenção não apenas pelos prêmios que recebeu, mas também pelo elenco estelar envolvido na produção. Então a história de Simpson já tinha voltado à minha memória por causa da série da FX antes mesmo do documentário começar a ganhar evidência e ser apontado por muitos como um dos favoritos ao Oscar 2017.

Dividido em cinco partes, O.J.: Made in America faz um grande trabalho de resgate histórico. No início, além de dimensionar quem foi O.J. Simpson ao mostrar a sua carreira no esporte, o filme também conta, em paralelo, o que estava acontecendo na cidade natal dele e onde ele fez a sua trajetória, Los Angeles, em relação aos conflitos raciais. Todo este contexto social e pano de fundo da história de Simpson acaba sendo determinante para a vida dele e, principalmente, para o que acontece com ele e com outras figuras desta história.

De forma muito inteligente e detalhista, o diretor amarra todos os fios desta história utilizando sempre a lógica de imagens de arquivo e trechos de entrevistas com diversas pessoas que foram testemunhas oculares do que aconteceu em Los Angeles. Tão importante quanto saber a origem pobre e humilde de Simpson e a sua trajetória espetacular no esporte é entender a forma com que os afro-americanos (ou negros, como é citado em vários momentos do filme) eram tratados na cidade.

Ao ver as cenas da trajetória de Simpson no futebol americano – algo que eu não tinha assistido até então -, fica claro que ele era um sujeito muito inteligente. Conforme ele foi ganhando projeção e sendo “paparicado” pelos torcedores e pela mídia, ele foi se tornando cada vez “malandro” e soube aproveitar as oportunidades que foram aparecendo pela frente. Em paralelo, outros atletas negros tiveram posição de resistência, iniciando pelos Panteras Negras e seguindo com figuras conhecidas mundialmente como o pugilista Muhammad Ali.

Interessante, aliás, que Muhammad Ali era mais conhecido globalmente do que o próprio O.J. Simpson. Mas, dentro dos Estados Unidos, sem dúvida alguma o segundo parece ter tido uma admiração maior que o primeiro. Isso pode ser explicado pela popularidade diferente entre os esportes e também pela forma “manipuladora” e sempre preocupada com a mídia que Simpson tinha e que Ali não tinha.

Não foi apenas Simpson quem explorou a mídia muito bem a seu proveito, mas possivelmente ele foi um dos primeiros a fazer isso de forma tão precisa e profissional. Nada do que ele fazia não era planejado para que os seus atos lhe trouxessem algum benefício. “Malandro”, ele sabia muito bem o que dizer e como se portar para conseguir o que ele queria. Em todos os sentidos.

Costurando sempre cenas da época e depoimentos de pessoas que vivenciaram aquela história, Edelman vai narrando a trajetória de Simpson e o contexto social dos EUA desde os anos 1960. Por isso, também, este é um filme que conta um bocado do que aconteceu no país em um momento de efervescência cultural e social importante. Diversos personagens históricos aparecem para o espectador, desde o senador Robert F. Kennedy até o pastor e ativista Martin Luther King Jr.

Depoimentos de pessoas fascinadas pela USC (Universidade do Sul da Califórnia), onde Simpson estourou em 1968, ano marcante na história dos EUA e do mundo, ajudam a mostrar como parte da sociedade americana era “cega” para assuntos mais sérios e fascinada apenas pelo esporte que fez a fama de Simpson. Ele, por sua vez, por ter feito a carreira em uma faculdade de brancos, fazia questão de “transcender” a raça.

Ambicioso, ele queria ser um cara de sucesso, ser reconhecido por todos e não ter a “raça” como um empecilho. Neste sentido, O.J.: Made in America demonstra, com diferentes depoimentos de pessoas que eram próximas de Simpson, como ele gostava do fato de não ser “visto como negro”. Ele fazia questão de ser visto como um sujeito bem-sucedido, acima de tudo. Como falou no início da carreira, quando ainda era uma promessa do futebol americano no colégio e não tinha estourado na liga universitária ou como profissional, ele queria ser famoso acima de tudo.

Ele conseguiu a fama e também muito dinheiro. Soube explorar muito bem a sua imagem e até foi favorecido com a questão racial ao adotar a figura do “negro bom”. De forma corajosa Edelman mostra isso. Que muitas empresas, a polícia e a mídia gostaram da ideia de ter um negro “do bem”, alguém que, diferente de outros atletas e personalidades da época, não criavam “polêmica” ou “problemas” por causa da questão racial. Ele foi “usado” mas também soube usar muito bem esta estrutura de dinheiro que queria “vender” um bom exemplo da comunidade negra.

Todo este contexto da época é bem contado pelo documentário. E talvez seja a parte mais interessante do filme. Outra parte acertada da narrativa é aquela que mostra como o ego de Simpson foi crescendo até ele se tornar quase incontrolável. A parte pública dele é muito bem explorada pelo diretor, mas a parte pessoal deixa um pouco a desejar. Principalmente porque o documentário não trata muito sobre a primeira esposa de Simpson ou revela muito da intimidade do casal ou dele com Nicole Brown.

Alguns amigos próximos dele e de Nicole contam um pouco sobre os “bastidores” da relação deles, mas acho que faltou explorar um pouco mais como era a relação da família dela com ele ou escutar outros amigos do casal. Uma parte interessante e diferenciada desta produção é o diário de Nicole, com várias informações importantes para traçar um lado pouco conhecido da personalidade de Simpson e até a linha temporal da relação deles quando ela começa a degringolar.

Bem construído, com uma ótima edição, trilha sonora, resgate histórico e depoimentos, O.J.: Made in America prende a atenção do espectador. Não é difícil querer assistir aos cinco episódios de forma quase seguida. Envolvente, o filme é atrativo especialmente por causa do contexto amplo que ele apresenta. A parte da acusação, da perseguição e do julgamento de O.J. Simpson é interessante, mas ao mesmo tempo é um pouco de “mais do mesmo”, ou seja, de relembrar o que praticamente todos já conhecem.

A parte mais interessante do resgate desta parte da história é revelar a essência da relação entre Simpson e Nicole. Com diferentes depoimentos o diretor sustenta o argumento que Simpson, sentindo-se tão poderoso, não aceitava a “rebelião” de Nicole. Mulherengo, aparentemente machista, ele não aceitava que a mulher que ele queria sob os seus pés decidisse por outro caminho. Como ela não ficou submissa e nem cedeu às chantagens dele, Simpson teria se descontrolado e acabado com a vida dela e de Ronald Goldman que, e isso é um ponto fraco do filme, ninguém sabe exatamente que relação tinha com Nicole.

Eu não teria me importado em assistir a um sexto episódio e ter mais detalhes da história. Acho que falta para O.J.: Made in America não apenas explicar melhor a relação de Nicole e Goldman mas, também, revelar um pouco melhor o que acontece com Simpson depois que ele é absolvido e, principalmente, o que aconteceu com alguns dos personagens principais desta história nos últimos anos.

Essa é a parte, na verdade, que me incomodou mais. Afinal, como está hoje Simpson na cadeia? Não seria possível entrevistar pessoas que convivem e/ou mantêm relação com ele até hoje e contar sobre como é a vida dele após a condenação por roubo, sequestro e toda aquela trapalhada no quarto do hotel? Eu também gostaria de saber mais sobre o paradeiro dos filhos dele com Nicole, dos seus familiares e das pessoas envolvidas no “julgamento do século”. Acho que o filme deixa a desejar neste sentido e é por isso que eu dou a nota a seguir para ele.

Apesar deste “porém”, O.J.: Made in America é um belo filme que ajuda a contar não apenas a história de um sujeito que quis ter tudo, conquistou o que ele queria e soube perder tudo, como também é um interessante retrato de uma época e de uma sociedade. Faz pensar sobre como as massas são fascinadas por histórias de sucesso e se iludem com elas sem parar para pensar que as pessoas são humanas, cheias de qualidades e de defeitos e que por mais talentoso que alguém seja, ele não é um deus. Ele não está acima das outras pessoas. O poder da fama, do dinheiro, da manipulação e da cobiça está todo escancarado nesta produção. Que ela sirva de lição para muita gente.

NOTA: 9.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: O diretor Ezra Edelman fez o seu nome com O.J.: Made in America. Até dirigir a este documentário, ele tinha apenas outros três títulos como diretor. Edelman estreou na direção de um filme em 2010 com o documentário para a TV Magic & Bird: A Coutship of Rivals. Depois, ele dirigiu um episódio para cada uma destas séries de TV: 30 for 30, em 2014, e 30 for 30: Soccer Stories, do mesmo ano. Agora ele apresenta O.J.: Made in America. Como produtor, ele tem 10 títulos no currículo, quase todos relacionados com o mundo dos esportes.

O estilo de Edelman é “clássico”. Ele não tem nenhuma grande sacada na direção. Pelo contrário. A narrativa é praticamente toda linear e segue aquela lógica já citada anteriormente de mesclar diferentes cenas históricas – incluindo imagens de TV, vídeo, fotografias, peças publicitárias e etc. – com depoimentos de pessoas que foram entrevistadas para a produção. Como O.J. Simpson era uma celebridade, e foi assim desde os anos 1960, não faltou material para Edelman e sua equipe trabalhar.

Tão importante quanto a direção de Edelman são outros aspectos técnicos que ajuda O.J.: Made in America a ter ritmo. Fundamental o excelente trabalho do trio de editores Bret Granato, Maya Mumma e Ben Sozanski. Muito importante também a ótima trilha sonora de Gary Lionelli, um trabalho importante para ajudar a situar o público na época dos fatos que estão sendo narrados.

Complementando o time de profissionais que ajudaram este filme a ter uma boa qualidade técnica está o diretor de fotografia Nick Higgins. Ele garante, em especial, o padrão das entrevistas que dão corpo para a produção. Falando nas entrevistas, achei especialmente interessantes os depoimentos de duas das juradas que ajudaram a absolver Simpson da acusação de assassinato. Os depoimentos delas são muito reveladores, assim como de alguns amigos de Simpson.

Antes comentei sobre a série American Crime Story. Pois bem, comparando os dois, sem dúvida alguma O.J.: Made in America é melhor. Mas vale assistir a série cheia de estrelas por curiosidade. Ainda que, ao comparar as duas produções, fica ainda mais claro o exagero de algumas interpretações da série ficcional – especialmente do ator Cuba Gooding Jr. Isso demonstra como, muitas vezes, uma série que fascina o grande público americano pelo seu tema ganha mais destaque por isso do que por suas qualidades. Não tenho dúvidas de que há séries muito melhores no mercado.

O.J.: Made in America estreou no Festival de Cinema de Sundance em janeiro de 2016. Depois, o filme participou de apenas um outro festival, agora em novembro, o Festival Internacional de Documentários de Amsterdã. Em sua trajetória até agora, o filme colecionou 10 prêmios e outras 10 indicações. Entre os prêmios que recebeu, destaque para os quatro entregues no Critics Choice Documentary Awards: Melhor Diretor, Melhor Documentário, Melhor Série Limitada de Documentário e Melhor Documentário de Esporte. A produção ganhou ainda como Melhor Documentário no Gotham Awards; Melhor Edição no Prêmio da Associação de Críticos de Cinema de Los Angeles (merecido); Melhor Documentário segundo o National Board of Review; Melhor Filme de Não-Ficção no Prêmio do Círculo de Críticos de Cinema de Nova York; e Melhor Filme no Festival de Cinema de Filadélfia.

Esta produção estreou no Festival de Cinema de Sundance e passou por alguns festivais e cinemas antes de ser lançada pela ESPN em cinco partes. Por isso, apesar de ter sido veiculado na TV, o filme foi originalmente lançado nos cinemas e pode, desta forma, concorrer na categoria Melhor Documentário do Oscar 2017. Se ele vencer e ganhar a estatueta, será o primeiro filme feito por um canal de TV a conseguir isso.

Falando no prêmio máximo da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood, O.J.: Made in America já venceu a primeira etapa para chegar até a conquista de uma estatueta dourada. Inicialmente a Academia divulgou a lista de 145 documentários que estavam “habilitados” a concorrer ao Oscar. Nesta semana, contudo, como tem feito nos últimos anos, a Academia divulgou a lista dos filmes que avançaram na disputa. Entre as 15 produções que seguem buscando uma vaga entre os indicados ao Oscar está O.J.: Made in America. Pelos prêmios que eu citei antes e pelas bolsas de apostas de especialistas é quase certo que ele chegará entre os cinco finalistas.

Outros documentários foram feitos sobre O.J. Simpson. Admito que este foi o primeiro que eu assisti a respeito da história dele. Minha motivação, claro, foi por ele ser um foto candidato ao Oscar. Não sei se outros documentários feitos anteriormente jogam outras luzes na história. Mas, sem dúvida, este filme é importante por retratar parte dos conflitos raciais nos EUA de forma muito franca. Diferente do que muitas pessoas normalmente imaginam, que a questão do preconceito está ligado aos Estados mais “conservadores” dos EUA, ao Sul do país, fica claro com O.J.: Made in America que cidades “bem vendidas” como modernas e inclusivas como Los Angeles também tem problemas sérios neste sentido. Importante, até porque estas questões continuam bem vivas e pulsantes naquele país. Infelizmente.

O.J.: Made in America caiu no gosto do público e da crítica. O filme tem uma nota impressionante nos dois sites que uso como referência e os quais eu cito sempre aqui no blog. No site IMDb o filme aparece com a nota 9 e no Rotten Tomatoes, que agrega a opinião de diversos críticos, ele tem a impressionante e um tanto rara aprovação de 100% da crítica – 41 pessoas consideraram o filme bom e ninguém fez uma crítica negativa para ele. A nota média dos críticos é de 9,2.

Conceitos muito altos para os padrões dos dois sites. Da minha parte, eu tinha dado a minha nota antes de ver estes sites… para quem acompanha o blog, já sabe que a nota 9 é boa, mas que está longe da perfeição do 10. Ou seja, gostei do filme, mas não achei ele “tudo aquilo”.

Matei a minha curiosidade sobre como está O.J. Simpson atualmente nesta matéria do jornal L.A. Times. Além de resgatar um pouco da história de Simpson e de falar um pouco sobre o cotidiano dele atrás das grades, a reportagem comenta sobre outra produção a respeito do ex-atleta que será lançada em 2017 (Hard Evidence: O.J. Is Innocent), com outra perspectiva, e sobre a possibilidade dele sair em liberdade condicional em outubro de 2017 após ter cumprido os primeiros nove anos de sua pena.

Esta é uma produção 100% dos Estados Unidos. Por isso ela entra na lista de críticas que atende a uma votação feita há tempos atrás aqui no blog.

CONCLUSÃO: Este filme ajuda qualquer pessoa que não nasceu nos Estados Unidos a realmente dimensionar e entender o apelo que O.J. Simpson tinha/tem naquele país. Lembro bem do “julgamento do século”, mas até assistir a este documentário eu não tinha entendido de forma mais completa quem era aquele cidadão que fez boa parte do mundo – e especialmente os EUA – parar para ver um julgamento.

Bastante amplo, este documentário acerta ao contar a trajetória de Simpson e o contexto racial que explica boa parte dos fatos que aconteceram com ele, mas peca na reta final ao não contextualizar o que aconteceu com as pessoas após os fatos principais serem narrados. É um bom filme, bem costurado, mas poderia ter caprichado melhor no final. E apesar de entregar quase tudo que se espera de um documentário sobre este tema, ele não chega a ser realmente marcante. Em outras palavras, há documentários que concorreram ou ganharam um Oscar nos últimos anos que perduram mais tempo na nossa memória.

PALPITES PARA O OSCAR 2017: É quase certo que O.J.: Made in America seja um dos cinco finalistas da categoria Melhor Documentário. Apenas uma zebra deixaria esta produção da ESPN fora da disputa pela estatueta dourada. Digo isso com base em alguns fatores que precedem a divulgação dos filmes finalistas da disputa.

Para começar, O.J.: Made in America aparece nas principais bolsas de apostas pré-Oscar como um dos favoritos da disputa. Depois, ele foi o documentário mais premiado, junto com o filme 13th, no recente Critics Choice Documentary Awards. A terceira razão que faz qualquer um apostar em O.J. Simpson: Made in America para figurar entre os cinco finalistas é que ele já venceu a primeira barreira, avançando na pré-lista de finalistas da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood com outros 14 filmes – normalmente a Academia divulga em dezembro algumas listas preliminares.

Além destas questões que mostram que o filme tem força para chegar até o Oscar 2017, vale dizer que este documentário foi um dos mais comentados do ano entre produções do gênero. E não é difícil identificar a razão para isso. Até hoje a figura de O.J. Simpson fascina os americanos – que, no final das contas, é o público principal para o qual o Oscar se direciona. Mesmo provavelmente não sendo o melhor documentário do ano, este filme cai como uma luva (sem fazer piada sobre isso) no gosto do público americano. Ele também acaba sendo importante por retratar a história dos conflitos raciais em centros urbanos como Los Angeles – revelando que não é apenas uma coisa do “interior” dos EUA.

Enfim, certamente O.J.: Made in America será um dos cinco finalistas na categoria Melhor Documentário do Oscar 2017. Agora, ele terá forças para ganhar uma estatueta? Por tudo que já comentei, até acredito que sim. Resta saber se ele é o melhor documentário da temporada. Desconfio que não, mas isso eu vou dizer com mais propriedade após assistir aos outros indicados/pré-finalistas deste ano.