Una Pistola en Cada Mano – O Que os Homens Falam

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As pessoas são uma coisa e normalmente falam sobre si mesmas de outra maneira. Esta é uma das reflexões deste Una Pistola en Cada Mano, um filme recheado de diálogos, descobertas e um bocado de conflito. Quando me refiro ao choque, não se trata apenas de desentendimentos entre pessoas, mas também sobre as ideias de umas fazem das outras – e, algumas vezes, de si mesmas. Um filme diferente e interessante, e que provavelmente fará você pensar sobre que imagem passa para os outros e a respeito do que os outros escondem de você.

A HISTÓRIA: Chove forte. Protegido por um jornal, E. (Eduard Fernández) chega devagar em um prédio. Olha as caixas de correspondência, larga o jornal e aperta o botão chamando o elevador. Quando o elevador chega, E. vê pelo espelho J. (Leonardo Sbaraglia) chorando. Os dois se cumprimentam, e E. pergunta se ele mudou tanto assim. Só então J. o reconhece. Eles foram colegas no colégio e estão se encontrando 10 anos depois da última vez em que esbarraram. A conversa sem muita graça começa a se tornar mais profunda, até que os dois desabafam sobre as próprias vidas. Conversas francas assim vão surgir em diferentes relações entre os personagens desta história.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso só recomendo que continue a ler quem já assistiu a Una Pistola en Cada Mano): Filmes como este são cada vez mais difíceis de encontrar. Os arrasa-quarteirões (blockbusters) que forram os estúdios e seus realizadores de dinheiro seguem a mesma fórmula: muitos efeitos especiais, atores de renome interpretando personagens rasos e uma história recheada de ação e/ou suspense. Una Pistola en Cada Mano é a antítese de tudo isso. Os atores são conhecidos em seus países de origem, mas não podem ser considerados astros mundiais. Os outros dois quesitos nem fazem parte do enredo.

Como vários outros filmes, esta produção dirigida e com roteiro de Cesc Gay (que escreveu a história junto com Tomàs Aragay) junta vários personagens com histórias que parecem isoladas em uma colcha de retalhos – exemplos de filmes assim remontam a Short Cuts, Magnolia e Babel, apenas para citar alguns. Mesmo que parte dos personagens que vemos em duetos que parecem isolados se conheçam, cada história particular pode ser vista isoladamente, o que dá um caráter de confessionário para o filme.

Aliás, este caráter dos personagens contarem um para os outros o que eles não tem coragem de verbalizar para mais (ou quase) ninguém é o que chamar a atenção desde o encontro dos primeiros a entrar em cena, os atores Eduard Fernández e Leonardo Sbaraglia. A conversação entre eles lembra a de tantos outros encontros de “bons” ou “grandes” amigos que por diversas contingências da vida ficam muito tempo sem se falar e que, quando se esbarram, vivem aquele misto de estranheza, culpa e vontade de tirar o atrasado.

Os diálogos são ótimos. E os trocados por E. e J. vão do constrangedor até o legitimamente confessional. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Ainda que a sensação que ficamos – pelo menos eu fiquei – do início ao fim da cena é que E. parecia estar enrolando J.. Ou ele poderia apenas estar se desfazendo para que o amigo se sinta melhor. Ainda que o final ajude a ampliar a leitura sobre E., não fica totalmente claro o quanto do que foi trocado por ele e J. era, de fato, 100% legítimo.

De qualquer forma, a esbarrada dos dois começa a introduzir um dos temas do filme, que é o de como encontros “casuais” podem despertar conversas de profunda intimidade – ao ponto de algumas delas flutuarem sempre entre o constrangedor e o surpreendente. Consequentemente, nos faz refletir sobre as razões que fazem algumas pessoas terem tanta dificuldade de serem honestas consigo mesmas e com as pessoas com quem elas convivem diariamente ao mesmo tempo em que são capazes de destilar honestidade com pessoas que não são próximas.

Para mim, essa dificuldade em ser honesto com quem está mais próximo é uma forma de defesa. Afinal, abrir-se com um quase desconhecido faz as vezes de uma confissão ao mesmo tempo que afasta o risco de ser cobrado ou julgado por alguém que estará presente no cotidiano e que poderá “cobrar um preço” pela honestidade. Esta também é a vantagem da confissão dos pecados, porque o padre não vai lembrar do que foi dito e nem poderá contar para ninguém sobre a confissão. Mas a sensação de ter sido honesto e de ter se revelado, além de conseguir o perdão, será importante para quem buscou este consolo.

Outra reflexão que a conversa inicial nos faz desenvolver é como a leitura de que “tudo está mal” depende da perspectiva. Para J. ele tem vários motivos para envergonhar-se, até que E. confessa que a vida dele toda está mal. Os “níveis” são diferentes, segundo E., mas ambos tem problemas. E quem não os tem? Mas o quanto estes problemas devem ser valorizados, servindo inclusive como agentes paralisantes, ou quanto eles devem ser superados, esquecidos, sublimados? Esta é a escolha que cada um deve fazer sozinho.

A introdução do filme é potente. Até porque percebemos como é fácil ajudar alguém. Basta querer. Ainda que uma ajuda mais profunda depende de uma abertura mútua, de quem está sofrendo também querer mudar a própria realidade. E isso sim, é mais difícil. Mas vale a pena o contato quando abrimos a guarda. Depois, cada um dos personagens vai para o seu lado e J., de forma bem simbólica, se encaminha para atravessar a “passagem da paz”. Ele saiu do encontro mais reconfortado, de fato.

Aliás, muito bom rever Barcelona pelas lentes de Gay. Em seguida, S. (Javier Cámara) aparece com o filho em um dos bares tradicionais da cidade, o Pintin Bar, que fica bem próximo ao Parc de la Ciutadella. Em seguida, S. também vai passar por uma “humilhação” ao declarar-se para a ex-mulher Elena (Clara Segura).

Evidente, logo no encontro deles na porta, que as intenções de S. eram muito diferentes da de Elena. Mesmo sem sabermos sobre a história deles – e vamos ser apresentados a ela em seguido -, dá para presumir que Elena não quer mais nada com ele. Mas S. não lê os sinais e abre o coração, apenas para ser rechaçado e ver que a vida da ex-mulher avançou para a frente, sem possibilidade de volta.

E isso acontece muito entre homens e mulheres, não é mesmo? Eles tendem a levar as relações de forma muito mais “frugal”, sem tanto apego e preocupação. Enquanto isso as mulheres se apegam, se entregam. O resultado? Muitas vezes o que percebemos em diversas histórias contadas em Una Pistola en Cada Mano: homens vendo as vidas que eles fizeram dar errado, sentindo-se miseráveis, quando eles são os atores da própria tragédia ao terem se entregado a relações sem sentido que apenas lhe fizeram perder o que gostariam de preservar.

A troca de Cámara e Segura é uma das mais hilárias do filme. Junto com as confissões de “cornudo” de G. (Ricardo Darín), sem dúvida as respostas dela para as investidas do ex-marido são a parte cômica da produção. Outras trocas são mais dramáticas, como a que abre o filme e a última, na qual as mulheres de A. e M. expõe de forma cruzada os segredos do matrimônio. De perto, já dizia o sábio, ninguém é muito normal – ou todo mundo, algumas vezes, é normal demais.

Ainda que seja engraçada a troca entre S. e Elena, não dá para evitar uma certa irritação com a cara-de-pau dele ao “filosofar” que a vida é feita de casualidades… e que se não tivesse chovido, e ele não tivesse por isso entrado em um bar, não teria traído ela apesar de uma história de 10 anos juntos. Ah, vamos! Os homens realmente arranjam desculpa para tudo, quando querem.

Ao mesmo tempo, a reflexão dele tem um certo grau de verdade. A vida é frágil, e são os pequenos desvios, as pequenas e grandes escolhas que fazemos diariamente que nos conduzem para uma direção ou para outra. Claro que a desculpa da chuva não convence. Ele poderia ter entrado no bar e não ter traído a mulher. Mas é o acúmulo de decisões e circunstâncias que definem as nossas vidas. Una Pistola en Cada Mano trata disso e, como deu para vocês perceberem até agora, das relações humanas e dos sentimentos pessoais que algumas vezes demoram para aflorar.

Depois de tentar se justificar, S. de fato confessa que fez besteira e que gostaria de voltar atrás. Mas como os personagens anteriores já esboçaram em dizer, não existe uma borracha para apagar os atos que cometemos. Por isso é tão importante pensar no que fazemos e falamos. Uma palavra dita e um ato desencadeado não podem ser apagados – na melhor das hipóteses, perdoados. Mas nem sempre o perdão quer dizer que tudo pode voltar para o ponto anterior – como em uma recuperação feita no Windows.

Em seguida somos apresentados à história de G., que descobre que está sendo traído pela mulher e que resolve segui-la. Bonita essa parte da história. Diferente dos demais, é G. que não quer se separar. Ele ama a mulher e quer reconquistá-la. Quem dera que mais pessoas acreditassem no amor desta forma. E que bom que o texto de Gay e Aragay resolveu fugir da maioria dos perfis masculinos, que é de cafajestes – ou de figuras que tem a moral bem “flexível”, para dizer o mínimo – para mostrar que existe exceções.

Mesmo que o que G. diz é bonito e sentimental – ele só podia ser argentino, não? – de fato é possível perdoar e reconquistar uma pessoa quando a relação está muito desgastada? Como comenta L. (Luis Tosar), um ótimo parceiro de cena para Darín, é fácil dizer que é preciso perdoar e valorizar a pessoa que sucumbiu à traição, mas o difícil é colocar essa ideia em prática. Acredito que há relações em que isso vale a pena, já em outras… o melhor mesmo é cada um seguir a sua vida.

A surpresa do duelo entre G. e L. demora para aparecer não apenas pelo bom texto dos roteiristas, mas também pelo trabalho competente dos atores. O que apenas reforça estas que são as duas qualidades principais da produção. Chegamos então até o encontro de P. (Eduardo Noriega) e Mamen (Candela Peña). Ele, um cafajeste clássico, que tenta trair a mulher com uma colega do trabalho com quem ele nunca tinha agido direito. Mas o importante é a transa, não é mesmo? Para figuras como ele, com certeza.

Para fechar a produção, outro ponto alto: a troca de confissões entre A. (Alberto San Juan) e María (Leonor Watling) quando ela dá carona para o amigo do marido já que eles vão para o mesmo lugar e, em um encontro casual, uma troca similar entre M. (Jordi Mollà) e Sara (Cayetana Guillén Cuervo) casados com os personagens anteriores.

Por mais que os homens se achem muito amigos e próximos, na conversa com suas respectivas mulheres que as “máscaras caem” e eles ficam sabendo de pormenores que jamais desconfiariam. Daí que surge aquela que é a grande reflexão do filme, para mim, dita por María: “Todos somos uma coisa e parecemos outra, não?”. E a expressão final dos amigos A. e M. quando eles ficam sozinhos diz tudo… quantos de nós olharíamos do mesmo jeito para os nossos amigos e para as demais pessoas que amamos se soubéssemos de todos os seus pecados e do que eles fazem entre as quatro paredes?

O que chama a atenção no filme, além do ótimo texto da dupla Gay e Aragay, são as interpretações dos atores. Só há feras no elenco. Eu conhecia a maioria deles, mas mesmo as “novidades” foram de tirar o chapéu. Todos envolvidos com os seus personagens e convencendo em falar cada linha do roteiro.

Um excelente trabalho do elenco, uma direção voltada para estas interpretações e para mostrar, entre uma história e outra, um pouco de Madrid. Dá para pedir mais? Definitivamente o filme agrada e faz pensar. Talvez lhe tenha faltado apenas um “arremate” melhor no final. Por isso a produção não ganha a nota máxima, mas fica perto dela. Ainda que há um sentido para as conversas entre os homens terem voltado a ser vazias: todos estão muito bem escondendo-se uns dos outros. Ou isso eles pensam.

NOTA: 9,5.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Como comentei antes, todos os atores estão ótimos. Mas para mim Javier Cámara consegue superar os demais em uma interpretação muito verdadeira e tocante. Grande ator espanhol. Merece sempre ser acompanhado. E mesmo que os outros estejam todos os ótimos, tanto atores quanto atrizes, gostei muito de rever Eduardo Noriega em cena. Desta vez no papel de crápula da história. Interessante vê-lo nesta posição diferente.

Ainda que as histórias girem em torno, principalmente, do comportamento masculino, as atrizes que contracenam com os protagonistas de Una Pistola en Cada Mano dão o tom exato para o filme funcionar. Teria sido muito chato se todas as pequenas histórias fossem narradas apenas por homens. A interação deles com elas, em especial, enriquece o filme. Todas estão muito bem, mas gostei, em especial, das atuações de Clara Segura e Candela Peña. E foi ótimo rever a diva Leonor Watling.

Una Pistola en Cada Mano estreou em novembro de 2012 no Festival Internacional de Cinema de Roma. Depois, o filme participaria ainda de quatro festivais. Nesta trajetória, ele ganhou sete prêmios e foi indicado a outros seis. Entre os que recebeu, destaque para o de Melhor Atriz Coadjuvante para Candela Peña no Prêmio Goya 2013; para o de Melhor Performance para o elenco inteiro no Festival de Cinema de Miami; e os de Melhor Filme sem ser falado em catalão, Melhor Roteiro, Melhor Atriz Coadjuvante para Candela Peña e Melhor Ator Coadjuvante para Eduard Fernández no Prêmio Gaudí.

Agora, algumas curiosidades sobre a produção: o ator Leonardo Sbaraglia substituiu o ator Javier Bardem, que inicialmente foi escalado para viver J.; Ricardo Darín procurou o diretor de Una Pistola en Cada Mano consultando ele sobre o papel de G. depois que ele leu o roteiro; e o diretor e roteirista escreveu a personagem de Mamen especialmente para Candela Peña.

Da parte técnica do filme, gostei da direção de fotografia de Andreu Rebés, bem eficaz; da trilha sonora pontual de Jordi Prats e da edição precisa de Frank Gutiérrez. Além deles, ótimo trabalho do produtor de elenco José Manuel Gómez.

Os usuários do site IMDb deram a nota 6,5 para Una Pistola en Cada Mano. Achei baixa, mas bem coerente com o tipo de público que tem lotado as salas de cinema mundo afora e que não curtem uma produção neste estilo. Os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram duas críticas positivas para o filme – ele praticamente não recebeu críticas até o momento.

Fiquei interessada pelo trabalho de Cesc Gay. Natural de Barcelona, Gay tem 47 anos e 10 filmes na carreira como diretor – e 11 como roteirista. Nesta trajetória, ganhou 26 prêmios e foi indicado a outros 17. Ele estreou na direção em 1998 com o filme Hotel Room e ficou mais conhecido pelas produções Krámpack (de 2000) e En La Ciudad (de 2003). O próximo filme dele, previsto para ser lançado no ano que vem, é Truman, que tem Ricardo Darín e Javier Cámara no elenco. Vale acompanhá-lo.

Esse é mais um exemplar do que há de melhor no cinema espanhol. Lembrando que a produção foi toda rodada em Barcelona, terra natal do diretor.

Una Pistola en Cada Mano é um filme de 2012… mas chegou apenas agora, em maio de 2014, no mercado brasileiro. Eis o típico exemplo de “antes tarde do que nunca”.

CONCLUSÃO: Sempre que alguém se sente muito surpreso com a descoberta de uma “faceta” nova de outra pessoa, inevitavelmente reflito sobre o quanto as pessoas conseguem ser honestas consigo mesmas e com as demais. Para mim, cada notícia de pessoas “acima de qualquer suspeita” que cometem alguma barbaridade reforça a teoria que as pessoas são uma coisa na rua e outra muito diferente entre quatro paredes. Alguns filmes já trataram deste tema, mas poucos da forma direta, honesta e interessante como este Una Pistola en Cada Mano. O roteiro e a reunião de atores de primeira linha são as principais qualidades do filme, que reúne diversas histórias de pessoas que se comunicam melhor com desconhecidos do que com pessoas próximas. Cinema de qualidade baseado em duetos de interpretação e muitos diálogos. Fuja se o que lhe interessa são cenas de ação.

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Heli

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Há lugares no mundo onde o risco de uma pessoa ser morta ou de ter a vida modificada de forma radical por praticamente razão alguma é muito maior que em outras partes. O México é um destes lugares. Mas há periferias de vários outros países latinos, africanos, do leste europeu, e de praticamente quase todas as latitudes do mundo onde o risco de tragédias acontecerem também é grande. Em Heli somos apresentados a um cenário complicado em diferentes sentidos no México, onde a vida de um jovem e de sua família muda radicalmente. Um filme humano, que dá espaço para vários silêncios, mas que sofre com um bocado de previsibilidade.

A HISTÓRIA: Dois pés, sangue e uma cabeça encostada no chão com uma bota pressionando-a contra a lataria. O rapaz que está com o rosto pressionado pisca, tem uma fita na boca e algumas vezes tenta se livrar daquela bota. A câmera percorre a carroceria da caminhonete mostrando os dois corpos, passa pelo motorista e pelo caroneiro e se fixa no cenário que vai surgindo à frente do veículo. Os homens que estão nele chegam até uma passarela para pedestres que passa sobre a rodovia, carregam os dois corpos e largam um deles lá do alto enforcado. Depois, deixam o local. Corta. Heli (Armando Espitia) tenta namorar com a mulher, Sabrina (Linda González), mas é contido por ela. Batem à porta. Uma garota que está fazendo o censo (Berenice Arnold Hernández) registra os dados da família de Heli. Em pouco tempo eles terão a rotina interrompida de forma trágica.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Heli): Vários filmes gostam de usar a técnica de mostrar uma cena importante, próxima do final, logo no início para, só depois, retomar no tempo para explicar como os protagonistas chegaram naquele ponto. Algumas vezes essa técnica funciona, porque estimula o espectador a ficar atento a cada detalhe do que virá para saber como os personagens chegaram naquele extremo. Mas outras vezes, como em Heli, esse recurso vai contra a história.

Logo nos primeiros minutos do filme a câmera comandada pelo diretor Amat Escalante, responsável pelo roteiro ao lado de Gabriel Reyes – a dupla ainda contou com a colaboração de Zümrüt Çavusoglu e Ayhan Ergürsel -, revelam dois corpos que sofreram com a violência. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Depois que um dos corpos é jogado da passarela para pedestres, não é difícil desconfiar que o rosto que estava com uma bota sobre ele era o de Heli – afinal, o rapaz aparece na sequência com a mulher. E mesmo de costas, não é difícil desconfiarmos (e não me admira se alguém teve certeza) que a outra vítima era Beto (Juan Eduardo Palacios).

Conforme a história vai se desenvolvendo, achei ruim sabermos logo no início que os dois serão vítimas de um grupo de bandidos. A surpresa, ainda mais em um filme que conta a história de gente simples e marginalizada em diversos sentidos, acaba sendo vital. Heli abre mão deste recurso para tentar despertar a curiosidade do espectador. Uma escolha que vai contra a própria história, não apenas por ser um recurso batido, mas principalmente porque a surpresa da reviravolta sem aquelas cenas teria sido mais impactante.

Se a história de Heli perde impacto ao mostrar parte do desfecho do protagonista e de Beto, o mesmo não pode ser dito do momento em que o filme entra no “castigo” sofrido pelos dois. As cenas são fortes e muito realistas. Especialmente a tortura e a surra sofrida por Beto gela a espinha de qualquer pessoa. Cenas que não podem ser vistas por qualquer pessoa – especialmente pelos jovens, ainda que naquele cenário menores de 18 anos estavam presentes para serem “moldados” por aquela violência.

Como eu disse lá no início, em alguns lugares do mundo a vida é dura e pode ficar radicalmente pior de uma hora para a outra. O ambiente ao redor do personagem Heli é marginalizante. Não apenas porque há perspectiva praticamente nula de melhora de vida, mas também porque o perigo de confrontos entre cartéis de narcotraficantes e de policiais/militares corruptos é constante.

Interessante como o diretor e roteirista Amat Escalante narra esta história. A câmera dele está sempre próxima dos personagens, mas não fica alheia ao ambiente. Pelo contrário. A escassez de oportunidades de trabalho e de estudo, a violência do treinamento militar e dos traficantes, tudo é explorado através das ações das pessoas e do ambiente inóspito e de escassez de recursos – da estrada de terra e dos quilômetros que devem ser percorridos para ir da casa até o trabalho, até os locais “de lazer” sem nada para fazer procurados por Beto e Estela (Andrea Vergara).

Neste sentido, este filme mostra como uma família e uma cidade podem ser moldados pelo ambiente social. Heli e sua família não conseguem se libertar daquele cenário e acabam, por causa da tentativa mal planejada de Beto em quebrar com aquela rotina, tendo a violência que sempre ficou do lado de fora da porta de entrada entrando com força e mudando a vida de todos.

Sacaneado pelos colegas militares, muitas vezes porque não conseguia acompanhar o ritmo de treinamentos, Beto enxerga no furto de pacotes de cocaína desviados de uma operação que deveria significar a destruição de toda a droga uma oportunidade de fazer dinheiro fácil, rápido e, assim, de buscar uma vida diferente ao lado de Estela, com quem queria casar.

O problema destas “ideias de liberdade” é que elas dão errado em 99,999999% dos casos. E é isso o que acontece com Beto. Imaturo, ele esconde a droga roubada na propriedade da namorada. E é aí que a família de Heli se vê envolvida em algo que eles jamais chegariam perto. A violência surge destruidora, invade a residência e faz quase todos de vítima – apenas Sabrina escapa porque foi se consultar com uma espécie de vidente local.

Escalante acerta ao continuar a história após a cena do enforcamento. Um terço do filme, mais ou menos, revela os desdobramentos daqueles fatos. A vida continuou dura após a morte do patriarca dos Silva, especialmente porque Heli não tem notícias da irmã, acaba sendo visto com reticências pela polícia e ainda perde o emprego. Não há generosidade naquele ambiente. Apenas desconfiança, penalização no primeiro erro e ressentimento.

Criado em um ambiente de extrema simplicidade, Heli não tem muita paciência com a mulher que após dar a luz ao primeiro filho do casal, está se preservando porque não quer abortar. Para ela, é difícil ter abandonado a própria família para viver com o jovem naquele local agreste. Levando em conta o que acontece com Beto e Estela, o romance neste filme é visto com desconfiança – afinal, que frutos o amor pode dar? Apenas a continuidade da pobreza e da vida cheia de explorações?

A dúvida que fica no ar, quando Sabrina diz que não quer abortar, é se aquela comunidade está habituada a resolver a gravidez com abortos ou tendo filhos sem refletir nas condições para dar-lhes uma boa vida, com oportunidades de crescimento satisfatórias. Ou seja, planejamento familiar nulo, como acontece em tantos outros lugares. E aí a pobreza apenas segue de geração em geração.

O que Heli nos ensina, como tantos outros filmes com histórias complicadas, é que a vida segue após a tragédia. Nesta produção, de forma dura, com outros problemas, como a vida real. Ainda assim, há esperança e pequenas surpresas. Como o retorno de Estela, que aparentemente foge do cativeiro e consegue voltar para a casa da família caminhando. E o próprio Heli, mesmo demitido, pouco a pouco parece retomar a própria vida. Tanto ele quanto a irmã conseguiram sobreviver. E mesmo sob condições complicadas, não existe presente maior que este. Esta produção vale por esse tipo de reflexão que surge após os créditos finais.

NOTA: 8.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Algo interessante no trabalho de Escalante neste filme é como o diretor varia entre extremos. De cenas em que ele se aproxima dos atores e valoriza as suas interpretações até aqueles planos abertos em que a paisagem praticamente oprime os personagens. Na questão da fotografia, com direção de Lorenzo Hagerman, os tons são naturalistas, valorizando a claridade e a escuridão quando é o momento de cada uma delas aparecer. Também vale destacar a ótima edição de Natalia López.

Sobre o roteiro, outro acerto de Escalante e de seus parceiros é dar bastante espaço para o silêncio. Nestes momentos não importam as palavras ou as intenções, e sim as atitudes dos personagens e a expressão dos atores – o que, em teoria, demonstraria muito mais a vontade de cada um deles. O cinema dos Estados Unidos não está muito acostumado a estes recursos, mas eles funcionam bem na cinematografia latina e na europeia. Para a nossa sorte.

Falando em cinematografia… Heli é uma coprodução do México com a França, a Alemanha e a Holanda. O filme foi rodado em duas cidades mexicanas: Calderones e Guanajuato, ambas no distrito de Guanajuato.

Dos atores presentes neste filme, vale citar o trabalho dos coadjuvantes Reina Torres como a detetive Maribel; Gabriel Reyes como o detetive Omar; e Ramón Álvarez como Evaristo, pai de Heli e de Estela.

Heli é o quarto longa-metragem do diretor espanhol Amat Escalante. Nascido em Barcelona no dia 28 de fevereiro de 1979, Escalante estreou na direção com o curta Amarrados, em 2002, produzido no México, e lançou o primeiro longa três anos depois, Sangre. Heli, sua produção mais recente, foi a escolha do México para representar o país na categoria de Melhor Filme em Língua Estrangeira no Oscar 2014. Mas o filme não chegou a ficar entre os cinco finalistas da categoria.

Heli estreou em maio de 2013 no Festival de Cannes. Depois, o filme passaria por outros 21 festivais – um número impressionante! O mais recente foi o Festival de Cinema de Skopje, no dia 26 de abril. Nesta trajetória o filme conquistou 10 prêmios e foi indicado a outros cinco. Entre os que recebeu, destaque para o de Melhor Diretor no Festival de Cannes; Melhor Direção de Fotografia no Festival de Cinema de Estocolmo; Melhor Filme no Prêmio ARRI/OSRAM do Festival de Cinema de Munique; e o Melhor Filme no Elcine First Prize do Festival de Cinema Latino-americano de Lima.

Os usuários do site IMDb deram a nota 7 para Heli. Os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 13 críticas positivas e sete negativas para a produção, o que lhe garante uma aprovação de 65% e uma nota média de 6,3.

Dos atores envolvidos no filme, achei todos competentes – apesar de, aparentemente, inexperientes. Mas de todos eles, sem dúvida alguma o destaque é a jovem Andrea Vergara. Muito expressiva, ela dá credibilidade para a personagem que é fundamental para a história – afinal, toda a ação se desenvolve a partir desta personagem. Ela simboliza a perda da inocência de uma sociedade agredida pela violência.

Procurei saber um pouco mais sobre Escalante e encontrei esta entrevista interessante dele para o site Butaca Ancha. Logo na primeira pergunta ele comenta porque gosta de trabalhar com atores não-profissionais. De como busca, para um filme como Heli, pessoas do local em que ele vai contar a história. Para começar, Escalante comenta, ele gostaria de fazer documentários.

Depois, afirma que as pessoas precisam acreditar nas histórias e nos personagens e que, por isso, já não é tão fácil pegar uma jovem de um centro urbano e fazer ela se passar por alguém do interior. Ele tem razão, ainda que eu ache que, muitas vezes, um grande ator consegue se fazer passar por qualquer pessoa – e que trabalhar sempre com não-profissionais é uma forma de desvalorizar a categoria. Mas concordo que, algumas vezes, é necessário – como é o caso de Heli.

Outra entrevista interessante com o diretor é esta do TimeOut México. Nela, Escalante comenta como quis mostrar através de imagens a insegurança relacionada ao crime organizado no país – onde não sabe de onde pode vir o perigo. Ele comenta que utilizou fatos reais para se inspirar para a história – como vídeos que vazaram de treinamentos militares em que havia humilhações como a sequência do rapaz tendo que passar sobre o próprio vômito e um sequestro seguido de morte que aconteceu em Guanajuato envolvendo militares. Interessante e recomendada a entrevista.

CONCLUSÃO: A história de pessoas simples normalmente não é contada. Há inúmeros filmes sobre personalidades famosas e histórias incríveis, mas o que acontece com gente comum em lugares complicados geralmente não importa para o cinema. Heli rompe com essa regra não oficial e nos apresenta uma história dura, com pelo menos uma cena de arrepiar, e que faz cada espectador refletir sobre a capacidade das pessoas – e da gente mesmo – em sobreviver independente do que aconteça. Ainda que a produção perca força porque as cenas iniciais “estragam” boa parte da surpresa, após os créditos finais a reflexão sobre o que vimos bate forte. Há esperança no final, por mais difícil que algumas retomadas possam parecer.

Dom Hemingway – A Recompensa

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Um Jude Law muito diferente do que você está acostumado a ver. E este é o principal trunfo de Dom Hemingway. Além disso, o filme é uma releitura fraca e repetitiva do politicamente incorreto cinema inglês visto antes em filmes melhores. A ideia da produção é velha e tem a sorte de contar com bons atores para fazer o tempo passar. Pouco para os dias atuais, quando é mais fácil escolher um filme melhor na sala de cinema ao lado.

A HISTÓRIA: Sons de dentro de uma prisão. E começa um grande monólogo de Dom Hemingway (Jude Law) sobre as qualidades do próprio pau. Ele está segurando duas barras de ferro enquanto é chupado por um cara cabeludo na prisão. Corta. Uma frase diz que “12 anos é muito tempo”. Enquanto termina um pudim no refeitório, Dom recebe um recado de um guarda da prisão (Richard Graham). Chegou uma ordem interna. Em seguida, ele sai para a liberdade. E a primeira ação de Dom é procurar e surrar Sandy Butterfield (Nick Raggett). Em seguida, ele pretende receber o dinheiro que Mr. Fontaine (Demian Bichir) está lhe devendo e, se possível, resgatar algum contato com a filha, Evelyn (Emilia Clarke), que ele não viu crescer.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Dom Hemingway): Quem tem na memória ainda o Jude Law de filmes como My Blueberry Nights (comentado aqui), Sleuth (com crítica neste link), 360 (comentado aqui), Side Effects (com texto neste link), apenas para citar alguns de seus títulos mais recentes, vai ficar impactado com Dom Hemingway. O ator elimina qualquer lembrança romântica dele com o monólogo sobre as qualidades do pau de Dom Hemingway nos minutos final do filme com roteiro e direção de Richard Shepard.

Para quem não está muito acostumado ao estilo de parte do cinema inglês, a introdução de Dom Hemingway pode ser impactante. Da minha parte, que já vi vários filmes de ação, violência e sarcasmo originários da terra da Rainha, aquele monólogo e o que veio depois não foi, exatamente, uma surpresa. Na verdade, lembrei de uma série de filmes com o mesmo “espírito”. Apenas para citar alguns do diretor Guy Ritchie: Lock, Stock and Two Smoking Barrels (excelente); Snatch. (divertido); Revolver e RocknRolla (estes dois últimos, menos interessantes).

Se você já assistiu a estes filmes de Ritchie e aventurou-se também em Dom Hemingway, acredito que vai perceber que a produção de Shepard segue uma “tradição” de produções que escangalham na violência, nos palavrões e no humor politicamente incorreto. Sem contar nos monólogos quase sem fim dos protagonistas que, normalmente, estão drogados ou bêbados. Pois bem, Dom Hemingway segue a cartilha à risca.

Além disso, o filme resgata aquela velha premissa do bandido que vai preso e cumpre a condenação integralmente para proteger o chefão do crime. Ele espera avidamente pela liberdade para, quando finalmente a consegue, ir atrás do acerto de contas com quem lhe deixou naquela situação. Dom Hemingway vai nesta linha. O protagonista sai da prisão e procura resgatar o que perdeu em 12 anos de cadeia.

Primeiro, espanca o ex-colega/amigo que acaba casando com a mulher e mãe da única filha de Dom. Certo que eles se separaram quando o protagonista foi para a prisão, mas esse tipo de argumento não serve para Dom. Na sequência, ele quer o dinheiro que o chefão dele está devendo – e antes disso, recebe um presentinho: duas mulheres e muita cocaína para ele usar sem parar por três dias. Além do dinheiro que ele merece, Dom tem esperança de resgatar a relação perdida com a filha que ele deixou em casa adolescente e que, agora, é uma mãe de família e cantora de bares.

Se o roteiro é o ponto fraco do filme porque ele acaba parecendo apenas um apanhado de linhas requentadas, a atuação do elenco é o que acaba valendo o interesse por Dom Hemingway. Interessante ver Jude Law se esforçar tanto em um papel tão diferente de tudo que ele fez até então. Cheguei até a lembrar de Leonardo DiCaprio em The Wolf of Wall Street (com crítica por aqui). Mas a grande diferença é que o trabalho da dupla DiCaprio e Martin Scorsese é cheio de vitalidade, inovação, ousadia… algo muito diferente deste Dom Hemingway. Se você for escolher entre os dois filmes, não tenha dúvida em preferir The Wolf.

Mesmo tendo muito de repeteco, Dom Hemingway tem pelo menos uma reflexão interessante: que seguir uma certa “ética” no crime pode nem sempre trazer bons frutos, mas que vale a pena no final. Como Lestor (Jumayn Hunter) bem provoca o protagonista, em certo momento, ele só se deu mal seguindo as “regras”. Mas o sacrifício uma hora se reverte em recompensa, como bem explica o título na versão nacional.

Dom tem sorte ao reencontrar Paolina (Madalina Diana Ghenea), mas também sabe “cavar” a própria sorte ao jogar os dados certos com Evelyn. Claro que para o último item ele conta com a interessante ajuda do neto Jawara (o simpático Jordan A. Nash). E isso acontece na vida real. A sorte é um presente, mas também pode ser conquistada. Esta é uma reflexão interessante para um filme no estilo de Dom Hemingway.

Outra ponderação da história é que mesmo as pessoas mais “nervosas” e adeptas ao exagero como Dom podem encontrar um caminho mais equilibrado – dentro de suas limitações – se tiverem uma boa motivação para guiar-lhes os passos. Os brutos também amam, Dom reforça a antiga máxima. E apostar neste cão, e não naquele que significa violência, tende a levar a recompensas.

NOTA: 7.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Jude Law é o sujeito que mais se esforça neste filme, não há dúvidas. Ele tem um “passado” de papéis bacanas para desmistificar com este Dom Hemingway. No geral, ele se sai bem no intento – só não gostei muito daquele “monólogo” no túmulo da ex-mulher… me pareceu um tanto exagerado e descolado do personagem apresentado até então. Mas ele não é o único a brilhar neste filme em uma interpretação convincente e interessante. Demian Bichir está muito bem como o perigoso e poderoso Mr. Fontaine, assim como Richard E. Grant faz uma parceria fundamental para Law desenvolver o seu papel.

Outras figuras interessantes aparecem em papéis menores, mas se saem bem. Um exemplo é a competentíssima Emilia Clarke, uma das estrelas da série Game of Thrones, em um papel importante mas de pouca presença como a filha do protagonista. Kerry Condon também se sai bem no papel de Melody, uma garota de programa que é salva por Dom e acaba fazendo as vezes de “vidente” na história. Fechando a lista de mulheres com destaque na produção, Madalina Diana Ghenea faz as vezes de diva da produção, equilibrando beleza e presença de espírito – rouba a cena quando aparece. Dá para acrescentar ainda o nome de Nathan Stewart-Jarrett como Hugh, marido de Evelyn e que dá uma forcinha para a reaproximação de pai e filha.

Richard Shepard faz um bom trabalho na direção, dando agilidade para a produção sem, contudo, tirar o foco do trabalho dos atores – o que é uma escolha acertada, já que o roteiro escrito por ele é o ponto fraco do filme. Da parte técnica do filme, o único elemento que merece ser citado é a trilha sonora de Rolfe Kent que, como pede filmes do gênero, tem uma presença marcante na narrativa. Os demais profissionais apenas cumprem o seu papel, sem grande destaque.

Dom Hemingway estreou em setembro de 2013 no Festival Internacional de Cinema de Toronto. Depois, o filme participaria de outros três festivais, mas sem ganhar nenhum prêmio.

Não encontrei informações sobre o custo de Dom Hemingway, mas segundo o site Box Office Mojo, até o dia 2 de abril a produção teria conseguido pouco mais de US$ 523,5 mil nos Estados Unidos. Uma miséria.

Para quem gosta de saber sobre as locações dos filmes, Dom Hemingway teve cenas rodadas em Saint-Tropez, na França; em Londres, na Inglaterra; na cidade de Kent e nos estúdios Pinewood, em Buckinghamshire, ambos na Inglaterra também.

Agora, uma curiosidade sobre a produção: Jude Law teria engordado 30 pounds (cerca de 13,64 quilos) para fazer o protagonista deste filme. E para conseguir esta “façanha” ele tomava 10 latas de Coca-Cola por dia.

Os usuários do site IMDb deram a nota 6,3 para Dom Hemingway. Os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 68 textos positivos e 47 negativos para a produção, o que lhe garante uma aprovação de 59% – e uma nota média de 5,9.

Esta é uma produção 100% do Reino Unido.

Ainda que este filme de Richard Shepard tenha um espírito bem inglês, o diretor e roteirista é natural de Nova York. Ele tem 23 títulos no currículo como diretor, sendo que a maioria deles é de séries para a TV – a mais recente delas, a série Salem. Antes de Dom Hemingway ele dirigiu a filmes como The Hunting Party e The Matador. Nada de grande expressão até agora, pois.

CONCLUSÃO: Se você tem no currículo uma boa quantidade de filmes assistidos, sem dúvida alguma vai ficar com o sentimento de deja vù ao assistir Dom Hemingway. E não, você não estará errado(a) ao ter esse gosto de obra revisitada o tempo todo na boca. Primeiro porque filmes ingleses melhores que este já exploraram características bem batidas nesta produção como o descontrole do protagonista e a sua verborragia, assim como o tom politicamente incorreto constante. Depois porque a história deste filme já foi filmada, com pequenas alterações, dezenas de vezes. Assim, Dom Hemingway é um filme que sai do forno com gosto de requentado. Os atores se esforçam, e é interessante ver Jude Law tão diferente. Este talvez seja a melhor motivação para ver esta produção. Se o roteiro é fraco, o protagonista se sai bem tentando dar algum interesse para o filme. Assista se não tiver nenhuma outra opção melhor.

Les Garçons et Guillaume, à table! – Eu, Mamãe e os Meninos

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Um dos filmes mais interessantes sobre o autoconhecimento e a definição da própria identidade. Essa tarefa não é fácil, mas Les Garçons et Guillaume, à table! consegue executá-la com perfeição. Há tempos não via uma produção que consegue equilibrar tão bem o humor e a sensibilidade em um roteiro em que não há uma linha sobrando. Mérito não apenas do realizador, Guillaume Gallienne, responsável não apenas pela direção, mas também pelo roteiro e por protagonizar a produção, mas também da equipe que ele escolheu à dedo para ajudá-lo neste filme.

A HISTÓRIA: Uma voz afirma que o espetáculo vai começar em cinco minutos e pede para que Guillaume (Guillaume Gallienne) entre em cena. Ele olha para a própria imagem, no espelho. Ao redor dele, mensagens de incentivo e fotos inspiradoras. Guillaume limpa o rosto e vai para o palco. Lá ele começa a contar a própria história. Primeiro, chama a mãe (interpretada também por Gallienne). Fica evidente a admiração do filho por ela, a ponto de idolatrá-la. Mas esta admiração fará com que ele confunda a própria identidade, até que comece a perseguir o senso realista sobre si mesmo. Acompanhamos esse processo.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Les Garçons et Guillaume, à table!): Gosto quando os filmes desconstroem a expectativa do público. Conforme a história desta produção vai se desenvolvendo, o que seria o mais previsível de acontecer? Que o protagonista seguisse lutando contra o preconceito por ser homossexual e que, em certo ponto, finalmente tivesse a oportunidade de ser quem ele desejava ser em plenitude, correto?

Por isso que é tão interessante o roteiro de Les Garçons et Guillaume, à table!. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Afinal de contas, qual é a história mais comum sobre a definição da sexualidade desde que as sociedades ficaram modernas? Sem dúvida alguma a repressão em casa e fora de casa daqueles que se mostram “diferentes” do padrão. Ou seja: a repressão do rapaz que parece uma moça e da moça que age como um rapaz. Isso acontece neste filme, mas não é tudo. E é aí que esta produção se mostra diferente.

A definição da própria identidade não é uma tarefa fácil. Até porque as pessoas vão mudando com o tempo, moldando o próprio caráter e a própria identidade conforme vão se relacionando umas com as outras e conforme os acontecimentos de suas vidas vão se desenvolvendo. Para facilitar nosso processo mental, normalmente classificamos os eventos, nossos sentimentos, relações e as pessoas com quem convivemos.

Se alguém não se encaixa no “padrão” mais comum, recebe outro rótulo e, muitas vezes, sofre preconceito. Afinal, a maioria das pessoas tem dificuldade de aceitar o que é diferente. Falta maturidade para estas pessoas – e ela é feita, entre outras qualidades, pela capacidade de colocar-se no lugar do outro. Quem consegue fazer isso, dificilmente fará piadas ou será violento com aquele que é diferente.

O interessante de Les Garçons et Guillaume, à table! é que o filme mostra a história mais comum sobre a definição da própria sexualidade para, só depois, inverter a história e surpreender o espectador. Fascinado pela própria mãe, Guillaume é visto por cada um dos familiares como um “ser estranho” no ninho. Apesar de ser homem, ele age e é tratado como uma menina. Isso fica evidente não apenas pelo título original do filme, que é a forma com que a mãe de Guillaume chama os familiares para comer, mas em cada interação do protagonista com seus familiares.

Mas além das reações dentro de casa, Guillaume é identificado como um sujeito afeminado fora da residência familiar. Ele descobre isso de forma mais evidente quando começa a sair da França e ir para outros países estudar e conhecer outras culturas. Primeiro acompanhamos ele pela Espanha e, depois, na Inglaterra. Na primeira situação, ele percebe como as mulheres lhe identificam como “uma igual”. Na segunda, entende o que é o respeito pela privacidade do outro e começa a flertar com rapazes.

Interessante a forma com que o roteirista, diretor e protagonista nos apresenta, de uma forma muito natural, as diferenças de costumes e de comportamento de pelo menos três sociedades europeias. De fato, cada país lida com a sexualidade e com as diferenças de uma forma muito específica. A intimidade ganha maior ou menor importância conforme o estilo de cada sociedade.

É especialmente forte o momento em que Guillaume percebe como é visto pelo pai (André Marcon). Diferente do que muitos pensavam até ali, o protagonista não tinha se identificado como homossexual. Na verdade, ele não tinha tido nenhuma experiência sexual e, para sua própria definição, enxergava-se como uma menina. Não existia atração ou repulsa sexual em relação a mulheres ou homens. Pelo contrário. Ele admirava ambos, mas tinha uma “queda” maior na admiração pela mãe – e, depois, vamos descobrir, pelas mulheres em geral.

Antes mesmo daquela cena em que Guillaume desabafa para o público de que não se via como homossexual, mas como a única filha da família, eu me perguntava se, de fato, ele era gay ou apenas um grande admirador das mulheres. E se fosse o segundo caso, ele teria essa admiração toda originada na mãe e que, posteriormente, poderia ser repassada para uma outra mulher, uma parceira para a vida.

Impressiona nesse filme não apenas o roteiro bem escrito, mas a honestidade de cada linha. Gallienne consegue fazer o público colocar-se na pele dele e, nos momentos mais emotivos, em que ele enfrenta a própria definição de sua identidade, fica impossível não entender pelo que está passando. Essa qualidade do texto pode levar muitas pessoas a reverem os seus próprios valores e preconceitos, repensando a pressa de etiquetar algumas pessoas com quem convivem.

Outro qualidade do roteiro de Les Garçons et Guillaume, à table! é que o filme se debruça nas relações familiares. E daí não fica evidente apenas os jogos de poder, as pequenas generosidade e crueldades do dia a dia, mas também o papel muito bem definido que cada pessoa desempenha no núcleo familiar. Neste sentido, achei especialmente engraçada a forma com que a família de Guillaume trata a avó (a ótima Françoise Fabian). Dei boas gargalhadas quando ela começa a ficar mais confusa que o normal conforme a idade vai chegando. Podemos não trabalhar bem com isso, mas todos chegaremos naquela fase – se tivermos sorte. 🙂

Mas é uma das tias do protagonista (interpretada por Carole Brenner) que dá um conselho que vale ouro: quando Guillaume se apaixonar, seja por uma homem ou uma mulher, é que ele terá certeza sobre a própria sexualidade. Até isso acontecer, o que ele deveria fazer é experimentar. E ele sai em busca desta experimentação, indo atrás, primeiro, de homens. Neste momento é que ele percebe o que precisa fazer para se libertar, e vai atrás desta sensação.

Não é fácil conhecer a si mesmo pra valer, sem abraçar as expectativas de pai, mãe ou quem mais for importante para você. No caso de Guillaume, o pai dele gostaria que o filho agisse como homem. A mãe, contudo, aparentemente dominante na família, enxergava o filho como uma menina ou uma “quase-menina” (o que, para ela, significa ser um homossexual). Neste contexto, não tinha como Guillaume não frustar um ou outro – pai ou mãe.

De qualquer forma, o ótimo roteiro de Gallienne deixa claro um fato incontestável: descobrir quem se é para valer significa um longo processo que, geralmente, abriga um ou vários momentos doloridos e de sofrimento. Enfrentar as expectativas alheias e as próprias para encarar o que se é de verdade não é fácil. Mas quando se vence esse processo, a vida fica muito mais interessante. E daí é possível amar pra valer, como bem demonstra a reta final de Les Garçons et Guillaume, à table! Um filme que faz rir, que não tem nenhuma sobra de recursos e que também emociona. Além de estimular a quebra de preconceitos. Perfeito e raro.

NOTA: 10.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: O roteiro é sempre a galinha do ovo de ouro do cinema. Um filme pode até ter atuações medianas, um diretor que escolhe seguir a cartilha dos grandes mestres e não inova em nada, mas ele não pode ter um roteiro ruim. Para mim um bom texto é fundamental para um filme ganhar a nota máxima aqui no blog. E apesar de ter outras qualidades, Les Garçons et Guillaume, à table! se destaca mesmo é pelas linhas bem desenvolvidas pelo roteirista, diretor e protagonista Guillaume Gallienne.

O realizador deste filme contou a própria história com matizes cômicos e dramáticos primeiro no teatro. A peça que inspirou o filme estreou em 2008 e ganhou um prêmio Molière – um dos mais importantes do gênero no mundo. Segundo esta matéria do El País, o realizador resolveu contar a própria história não porque se considera especial, mas porque achou que ela bonita e merecia ser contada – até porque muitos se identificariam com ele. Ainda de acordo com a matéria, Gallienne descende da aristocracia russa, cresceu no bairro mais rico de Paris e passou parte da adolescência em um internato na Inglaterra – como ele mesmo conta no filme e, antes, na peça de teatro.

Falando em teatro, achei muito acertado o filme trazer a história de Guillaume como uma peça que, ao ser narrada para um público, acaba sendo transportada para cenas “dramatizadas” no cinema. Nada mais legítimo, já que o material original foi feito e lançado primeiro no teatro. Os cortes do “filme” para as cenas no teatro – que também fazem parte do filme de forma inteligente – sempre são bem justificadas e ajudam a tornar a história ainda mais legítima. Segundo a matéria do El País, Gallienne interpreta a 52 personagens quando conta esta história no teatro.

E para terminar as citações da matéria do El País, achei interessante reproduzir aqui uma resposta do realizador de Les Garçons et Guillaume, à table!: “A única forma de explicar para mim mesmo (sobre o sucesso da peça de teatro e do filme) é que eu fui muito sincero. Não busquei agradar. E eu acredito que funcionou. Cada um vê as coisas do seu jeito, há gente que vê apenas a parte engraçada, há gente que desde o princípio não entende porque os outros riem tanto”. E é assim o mundo. Perdi as contas das vezes que fui no cinema e não entendi a reação da maioria. E às vezes a “estranha” sou eu. De fato, cada um vê as coisas de seu jeito.

Para quem quiser sabe mais sobre o realizador deste filme, segue aqui uma outra entrevista com Gallienne, desta vez do site La Llave Azul. Bem interessante.

Gallienne adaptou o texto que havia escrito para o teatro para o cinema. E para isso, contou com a ajuda de Claude Mathieu e Nicolas Vassiliev. O trio fez um excelente trabalho. Da parte técnica do filme, vale destacar ainda a bem planejada direção de fotografia de Glynn Speeckaert, a ótima trilha sonora de Marie-Jeanne Serero, o design de produção de Sylvie Olivé e os figurinos de Olivier Bériot. O trabalho dos últimos dois é fundamental para ambientar o espectador na época e nos lugares da história.

Guillaume Gallienne brilha também na atuação. Ele é um excelente ator. E ele acertou na escolha do elenco de apoio. Além das já citadas Françoise Fabian e Carole Brenner, que estão perfeitas, vale citar o trabalho de Brigitte Catillon como a tia de Guillaume que mora na América; Nanou Garcia como Paqui, a espanhola que recebe Guillaume em sua primeira incursão fora da França; Charlie Anson mostra bastante charme como Jeremy, que Guillaume acredita ser a sua primeira paixão na escola inglesa; e em papéis menores, mas com aparições também marcantes, Yvon Back como o professor de equitação e Clémence Thioly como Amandine, esta sim, a verdadeira paixão do protagonista. A conhecida Diane Kruger faz uma pequena ponta como Ingeborg, uma das alemãs duras na queda do spa para onde Guillaume vai em busca de relaxamento – e onde acaba sendo quase torturado.

Les Garçons et Guillaume, à table! estreou no Festival de Cannes em maio de 2013. Depois, o filme passaria por outros 11 festivais, sendo o último deles o Festival Internacional de Cinema de Seattle, que começa no próximo dia 22. Nesta trajetória, o filme recebeu nove prêmios e foi indicado a outros seis. Entre os que levou para casa, destaque para cinco Prêmios César, considerado o Oscar do cinema francês: Melhor Filme, Melhor Primeiro Filme (quando a produção marca a estreia do realizador), Melhor Ator para Guillaume Gallienne, Melhor Roteiro Adaptado e Melhor Edição para Valérie Deseine. Aliás, esqueci de mencioná-la antes. Deseine faz um trabalho impecável de edição neste filme. Mereceu o César.

Para quem gosta de saber sobre os locais em que os filmes foram rodados, Les Garçons et Guillaume, à table! foi feito essencialmente na França, em Paris e em Essonne, tendo apenas algumas cenas gravadas em Cádiz, na Espanha.

Os usuários do site IMDb deram a nota 6,7 para Les Garçons et Guillaume, à table! Uma boa avaliação, levando em conta o padrão do site, mas que eu acho que poderia ser melhor. No site Rotten Tomatoes o filme tem apenas três críticas linkadas, todas positivas.

Não encontrei informações sobre o desempenho do filme nos cinemas mundo afora.

Les Garçons et Guillaume, à table! é uma coprodução da França com a Bélgica.

CONCLUSÃO: Nos dias de hoje, há temas que são delicados. Sempre que se discute raça, credo e orientação sexual, alguns ânimos ficam exasperados. No fundo, todos parecem sempre perto do limite em algumas discussões, e o politicamente correto predomina após uma época de piadas de mau gosto. Les Garçons et Guillaume, à table! surge neste cenário de forma corajosa e precisa. Ele debate a definição de um homem sobre si mesmo após ele passar por uma grande confusão. Algo bastante comum hoje em dia, quando todos parecem ter que se definir ou serem definidos o quanto antes. Bem escrito, bem dirigido e com ótimas atuações, este filme acerta em cada linha e faz pensar sobre a nossa sociedade. Em como lidamos com o que não entendemos ou com os nossos desejos. Capaz de fazer rir, emocionar e pensar, este filme é uma destas joias raras. Merece ser visto.