Klass – The Class

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Chacinas de jovens estudantes provocadas por colegas de escola foram tema de milhares de reportagens mundo afora e de alguns filmes. Os mais conhecidos talvez sejam Bowling for Columbine e Elephant, dirigidos por Michael Moore e Gus Van Sant, respectivamente. Klass vem se juntar a eles ao reconstruir o drama pessoal de dois garotos que passam por diversos maltratos, físicos e psicológicos, protagonizados por colegas de classe. Com uma direção e uma edição muito boas, Klass reune uma série de histórias reais para criar uma chacina que poderia ter acontecido em diversas escolas de qualquer país. Tecnicamente, o filme é perfeito, especialmente planejado para cair no gosto de seu público-alvo – jovem, essencialmente. O problema é que Klass pode render um tipo de justificativa para os fatos que me parece perigosa. Por isso mesmo, é preciso entender o que o diretor quis dizer com esta produção e, assim, deixar-se levar apenas em parte pelos sentimentos que esta história provoca – o restante tem que ser analizado de forma crítica.

A HISTÓRIA: Joosep (Pärt Uusberg) é o típico adolescente que virou piada da turma. Inteligente, tímido, sensível e considerado “estranho” pelos demais, Joosep é visto como o saco de pancadas perfeito pelo valentão Anders (Lauri Pedaja). Liderados por eles, os garotos – e a maioria das meninas – da turma de Joosep fazem com que ele seja vítima, diariamente, de sessões de tortura física e psicológica. A situação piora quando Kaspar (Vallo Kirs), um dos garotos que sempre marcou posição contra Joosep, muda sua conduta e passa a apoiar o garoto. Sentindo sua liderança ameaçada, Anders lidera os demais para intensificar as humilhações contra Joosep e, agora, também focando suas ações contra Kaspar.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Klass): A primeira característica positiva deste filme fica evidente logo em seus primeiros minutos. Klass prima, do início até o final, por uma edição criativa e veloz. Mérito do editor Tambet Tasuja. Mas para que o editor conseguisse um bom material para trabalhar, antes foi necessário o trabalho primoroso do diretor e roteirista Ilmar Raag, atualmente o principal nome do cinema produzido na Estônia. Inspirado por Lars von Trier e influenciado por diretores tão diferentes quanto Ingmar Bergman e Ridley Scott, Raag escreveu um roteiro que buscasse trazer realismo para as histórias sobre crimes que envolvessem escolares. A intenção do realizador foi evitar o “politicamente correto” e revelar, assim, as motivações reais de jovens que resolvem responder à violência com ações ainda piores.

Acredito que Klass caia como uma luva no gosto do público jovem. Primeiro, pelo que eu já comentei: a edição competente, criativa e veloz. Depois, pela trilha sonora que mistura percussão, música eletrônica e que imprime um tom ainda mais acelerado ao filme. Mérito do trio formado por Martin Kallasvee, Paul Oja e Timo Steiner que, com essa trilha sonora, acabam sendo fundamentais na função de intensificar a marcação do ritmo da produção articulado pelo roteiro e pela edição. Mas sem dúvida o trabalho dos atores e as linhas da história escrita por Raag devem conquistar o público. Realistas, eles convencem e nos conduzem emocionalmente até o desfecho previsível – mas, ainda assim, impactante.

Dividido em sete partes, carregadas por conceitos e que revelam os sete dias decisivos para a história dos personagens, Klass mostra até que ponto pode chegar a crueldade e a covardia de adolescentes que se sentem intocáveis. É a velha história de “o que você faria se não se sentisse protegido por um grupo”? Sabemos, seja pelos absurdos cometidos por alguns grupos de torcedores de futebol, seja por atos covardes praticados por skinheads, neonazistas e companhia, que muitas pessoas ganham coragem para praticar ações ultrajantes quando sentem-se protegidas por um coletivo. Lamentável. Pois Klass trata deste tema, mas de vários outros.

Trata, por exemplo, da falta de comunicação efetiva entre o “mundo” de diretores, professores e pais e o “mundo” de jovens e adolescentes. Na história criada por Ilmar Raag, a preocupação da escola e dos familiares dos jovens protagonistas nunca chega a lugar algum. Parece inócua, vazia. No caso da escola em que estudam Kaspar e Joosep, chega a ser absurda a conduta de sua diretora (Kaie Mihkelson). Ela simplesmente aceita a versão do melhor aluno da turma, Paul (Mikk Mägi), que acusa Kaspar de perseguir Joosep. No lugar de investigar a fundo o que estava acontecendo naquela classe e, assim, possivelmente evitar o pior, a diretora acaba ameaçando o único garoto que tentava impedir que os absurdos contra Joosep continuassem. Outra professora também ajuda no processo de ridicularizar o saco de pancadas da turma – quando questiona sua postura “contra o consumismo”, por exemplo.

As famílias dos garotos também não conseguem saber de verdade o que está acontecendo. A avó (Leila Säälik) de Kaspar realmente se interessa pelo garoto mas, ainda assim, não consegue manter algum diálogo frutífero com o rapaz. Ainda que a relação deles seja menos explorada do que a dos pais de Joosep com ele, é possível perceber como a avó se distancia do neto quando, por exemplo, desestimula ele a manter um relacionamento com Thea (Paula Solvak). A tentativa dela de proibir Kaspar de sair de casa ou namorar, evidentemente, acaba sendo um tiro no pé – como a maioria das proibições puras e simples, sem convencimento ou argumentação. Por parte de Joosep, a situação é ainda mais complicada, porque ele se sente um peixe fora d’água na escola e em casa.

A mãe (Tiina Rebane) de Joosep parece ser a única a perceber que seu filho é diferente, especial, sensível. O pai (Margus Prangel), um brucutu que, na escola, deveria seguir os passos de Anders, não entende o filho. Pelo contrário. Ele torna a pressão sobre o garoto pior quando o incentiva a revidar – o que, evidentemente, vai contra a sua natureza. Joosep, provavelmente, vê o exemplo do pai e tenta, com todas as forças, se distanciar dele o mais longe possível. O problema é que a mãe do garoto, como praticamente todas as mulheres que se casaram com um valentão, não consegue ter voz suficiente para apoiar o filho. E Klass sugere, desde o princípio, que Joosep tem na casa do pai a oportunidade perfeita de se armar para a previsível vingança.

Falta de comunicação e de ensinar princípios para aquela garotada e, no caso da escola, de responsabilidade sobre o que está acontecendo com aquele grupo de jovens no ambiente escolar resulta no viveiro perfeito para os absurdos que acabam ocorrendo. O diretor Ilmar Raag não alivia ao mostrar, de forma gradativa, como a vida de Joosep e Kaspar vai se transformando em um inferno. A tensão cresce pouco a pouco até chegarmos ao final… e neste processo, justamente, reside o perigo (e a oportunidade) deste filme. (SPOILER – não leia se você não assistiu a Klass). Raag cria um clima de indignação tão grande entre os espectadores que, no momento em que os protagonistas passam a atirar a esmo na lanchonete escolar, praticamente estamos torcendo por eles. A impressão é que seus atos são justificados. E, claro está, que eles não são. O perigo do filme é que muitas pessoas podem assistí-lo, vivenciar a indignação que os atos contra Joosep e Kaspar provocam e não fazerem a crítica necessária sobre o que viram. Por isso, atenção.

NOTA: 9,3.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Até buscar mais informações sobre Klass, eu tinha dúvidas sobre a questão dele ser “baseado em fatos reais”. Inicialmente pensei que esta produção estava inspirada em uma chacina concreta, como o caso dos filmes de Michael Moore e Gus Van Sant haviam se baseado nas mortes em Columbine. Mas não. Conforme o diretor e roteirista Ilmar Raag esclarece nesta entrevista (em inglês), ele escreveu o argumento original de Klass e, depois, passou uma temporada conversando com 15 estudantes entre 15 e 18 anos para conhecer suas histórias reais no ambiente escolar. E foi assim, através da vivência destes jovens, que Raag construiu a sua história.

Segundo o diretor, ele e a equipe de produção do filme realizaram duas oficinas com esse grupo de jovens em um local remoto da Estônia. “Eu disse para cada um deles: ‘Talvez você não entrará para o filme mas, por favor, me conte histórias reais de sua escola'”, comenta Raag que acrescenta, ainda, que cada jovem pegou o roteiro e, basicamente, preencheu os espaços em branco com estas histórias reais. Depois do texto finalizado, o diretor escolheu um grupo de atores jovens e que não eram profissionais para atuar no filme. Durante um mês, aproximadamente, eles ensaiaram as cenas do roteiro. Mas as filmagens propriamente ditas foram feitas em apenas 12 dias. Tudo por causa do baixo orçamento do projeto – que teria custado US$ 120 mil. A verdade é que o filme tem uma grande qualidade, levando em conta o seu baixíssimo orçamento – mais uma prova de que o cinema não depende apenas de grana.

Para o diretor, o tempo curto que eles tiveram para filmar foi o maior problema da produção. “Ter apenas 12 dias para filmar significa que, com esta velocidade de trabalho, você não tem tempo para pensar no set (de filmagens). Você apenas executa um plano traçado anteriormente. Então temos um par de cenas que sofre com esta velocidade acelerada”, avalia Raag. Ainda assim, os jovens atores escalados para esta produção surpreenderam ao realizador que, admite, chegou a chorar com alguns momentos de suas interpretações.

A verdade é que todos os atores que aparecem em cena, sejam eles jovens ou adultos, fazem um trabalho competente e que convence. Mas ainda que todos estejam muito bem, Vallo Kirs e Pärt Uusberg (mais o primeiro que o segundo) roubam a cena. Além deles e dos outros já citados, vale citar os nomes de Riina Ries, que interpreta a Riina, uma das garotas que se diverte com as humilhações impostas a Joosep e que promove, em sua casa, uma festa que termina em confusão; Joonas Paas, que interpreta a Toomas, o braço direito de Anders; e os outros que fazem parte do grupo deles, como é o caso de Kadi Metsla, Triin Tenso, Virgo Ernits, Karl Sakrits, entre outros.

Uma questão levantada por Klass é um bocado assustadora: até que ponto o levante de Kaspar contra os seus colegas de classe ajudou ou prejudicou a Joosep? Aí está um ponto de reflexão importante do filme. Afinal, não basta reagir contra as injustiças e os absurdos. É preciso saber como fazer isso sem que tudo seja colocado a perder. A verdade é que as soluções estão mais próximas de uma ação racional do que de uma ação passional. Eis um belo ensinamento de Klass. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Como o roteiro sugere, lá pelas tantas, Joosep tinha armas em casa mas nunca tinha pensado em utilizá-las –  até que Kaspar joga esta idéia para ele. Tudo o que Joosep queria era terminar os seus estudos e sair de perto daquela gente que lhe fazia mal. Mas a covardia e a violência de seus colegas contra ele e Kaspar chegaram a tal ponto que, motivado pela idéia do “amigo”, ele resolveu atuar. A dura verdade é que sem os “atos heróicos” de Kaspar, dificilmente esta história teria chegado tão longe.

Algo que incomoda neste filme é que as tais “brincadeiras” com Joosep vão perdendo o rumo de uma maneira absurda, até chegarem ao ponto das piores práticas de tortura e violência. Se o grupo de estudantes tivesse 10 anos de idade ou menos, até poderíamos discutir sobre a falta de educação ou aconselhamento de pais e professores. Mas, francamente, tendo a idade que eles tinham – de aproximadamente 16 anos, em média -, seus atos devem ser classificados como criminosos. Nada mais, nada menos. Anders e companhia eram delinquentes socialmente aceitos.

Gostei do trecho da entrevista anteriormente citada em que Ilmar Raag comenta sobre os filmes que abordam a violência no ambiente estudantil. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). “Você não pode (ou não deveria) fazer um filme sobre a violência sem tentar, honestamente, explicar as razões desta violência. Então, Klass é a história na qual você praticamente pode pensar que os garotos que atiram em seus colegas são os mocinhos e as vítimas infelizes (desta história). E quando isso acontece o filme faz pensar sobre a manipulação mais uma vez”. Genial, não?

Além da entrevista para Jason Whyte comentada, destaco este texto (também em inglês) sobre o filme.

A qualidade das imagens de Klass devem muito ao trabalho do diretor de fotografia Kristjan-Jaak Nuudi.

Em sua trajetória, Klass recebeu quatro prêmios – dois no Festival Internacional de Cinema de Karlovy Vary e dois no Festival Internacional de Cinema de Warsaw. O filme ainda foi indicado como o representante da Estônia na categoria de Melhor Filme Estrangeiro no Oscar 2008.

Com o sucesso deste filme foi anunciada uma série para a televisão que, originalmente, deveria ir ao ar no outono de 2009.

Klass conseguiu a nota 8,2 na avaliação dos usuários do site IMDb.

CONCLUSÃO: Um dos filmes mais realista sobre crimes praticados em escolas por alguns de seus estudantes. Bem dirigido e com uma edição impecável, Klass foi planejado para agradar especialmente ao público jovem. Klass é protagonizado por um grupo de atores não-profissionais que surpreende e embalado por uma trilha sonora envolvente. Depois de apresentar o argumento de seu novo filme para uma turma de 15 adolescentes, o diretor e roteirista estoniano Ilmar Raag conseguiu, destes jovens, histórias reais sobre acossos, torturas e diferentes formas de violência física e psicológica praticados no ambiente escolar. Com este material o diretor nos conta uma história com a qual é impossível ficar indiferente. Espero, honestamente, que Klass consiga o objetivo de seu idealizador, que é o de criar debate sobre esse tipo de violência nas escolas, na busca por soluções para o problema e, ainda, que o filme provoque uma reflexão sobre o poder do cinema e das demais mídias em manipular emoções e ideologias.

SUGESTÕES DE LEITORES: Cheguei até esta produção superinteressante – melhor que Elephant, de Gus Van Sant, por exemplo – através da sugestão do Rodrigo, querido leitor deste blog, que indicou o filme em março deste ano. Grande Rodrigo!! Muito boa a tua dica, hein? Gostei muito do filme. Ele realmente nos provoca indignação e desconforto, em um primeiro momento e, depois, reflexão. Hoje mesmo a imprensa brasileira divulgou o caso de uma adolescente que foi espancada por duas colegas em Brasília. A menina foi agredida de forma covarde por duas garotas – uma parece que a segurava enquanto a outra batia na vítima – porque, tempos atrás, teria defendido uma colega. Que absurdo! E a verdade é que diariamente parte da garotada resolve cair para este lado que considero criminoso. Então, mais do que nunca, um filme como Klass deveria ser visto e debatido – inclusive em salas de aula. Obrigada, mais uma vez, Rodrigo, por esta dica. E volte aqui mais vezes – andas sumido!

P.S.: E só para registrar: hoje o Crítica (non)sense da 7Arte completa 2 anos de vida! Viva!!! Queria agradecer a todos vocês que fazem deste blog um espaço dinâmico e de troca de idéias. Com este texto de Klass, chego a 201 críticas neste período. Vida longa ao CND7A!! 😉

The Hurt Locker – Guerra ao Terror

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Desde que o ex-presidente estadunidense George W. Bush decidiu invadir o Iraque em 2003 – querendo “terminar o trabalho” que o pai tinha começado com Saddam Hussein mais de uma década antes -, Hollywood questionou a nova guerra através de diversos filmes. Mas de todos eles, possivelmente The Hurt Locker seja o melhor da nova safra (descontados os documentários, é claro). Ele não faz discursos – seja a favor ou contra a invasão. Também evita repetir os passos dos filmes que “simplesmente” reproduzem combates, invasões e crimes de guerra. Não. The Hurt Locker se aproxima de Apocalypse Now e Full Metal Jacket ao mostrar como a adrenalina e o perigo da guerra podem viciar como uma droga. Este, aliás, é o lema do filme, dirigido com cuidado e exemplarmente por Kathryn Bigelow. Mas o que faz The Hurt Locker ser diferente dos demais é o foco de sua narrativa, centrada em um grupo de soldados especializado em desarmar bombas. Ação, suspense, dramas pessoais e guerra em um mesmo caldeirão. E o resultado disso, além de manter o espectador atento durante toda a história, é o de provocar a reflexão de forma natural. Agora, ignore o título do filme para o mercado brasileiro – mais uma escolha infeliz de uma distribuidora, porque o nome de “Guerra ao Terror” não tem nada a ver com a idéia original de The Hurt Locker.

A HISTÓRIA: Um robô desliza pelo solo árido de Bagdá. Enquanto ele avança, mulheres, homens e crianças correm para se proteger. Soldados tentam convencer os comerciantes do local a saírem dali porque há um perigo eminente na rua. A Companhia Bravo, liderada pelo sargento Matt Thompson (Guy Pearce) toma todos os cuidados possíveis para evitar que a bomba que eles devem desarmar seja acionada. Mas a missão deles sofre uma reviravolta quando o especialista Owen Eldridge (Brian Geraghty) identifica um suspeito em um açougue próximo e, ao hesitar em puxar o gatilho, permite que a resistência árabe detone o dispositivo. Faltando 38 dias para que o grupo formado por Eldridge e o sargento JT Sanborn (Anthony Mackie) seja substituído por outros especialistas em desarmamento, começa a trabalhar com eles o chefe de equipe e sargento William James (Jeremy Renner). Militar experiente, com experiência na guerra do Afeganistão, James apresenta um comportamento distinto de Thompson: para alguns, ele é corajoso e ousado, beirando o heróico, para outros, suicida e enlouquecido.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a The Hurt Locker): Filmes de guerra, normalmente, primam pela ação e por ótimos efeitos especiais. The Hurt Locker não foge desta regra. Mas ele dá um passo à frente ao explorar um tipo de ação diferente, centrada em um trabalho altamente perigoso e feito por especialistas que, normalmente, não viram tema de reportagens, filmes ou ganham o holofote como heróis de guerra. Ainda que muitos especialistas em desarmamento sejam condecorados e subam de postos dentro do exército, normalmente o protagonismo da guerra vai para líderes de equipe, fuzileiros e demais combatentes da “linha de frente”. Por essa inversão de papéis, ao colocar um grupo “menos visado” como protagonista da história, The Hurt Locker interessa. Além disso, há tempos não vejo a um filme que assimile tão naturalmente os efeitos especiais que a indústria cinematográfica disponibilize atualmente.

As cenas de slow motion da explosão que “abre” o filme, para começar, são lindas (no que uma explosão pode ser bonita… hehehehehehe) e perfeitamente justificadas. Assim como o uso de imagens de “vídeo”, reproduzindo o “olhar” do robô utilizado para a missão. A diretora Kathryn Bigelow, com o auxílio do diretor de fotografia Barry Ackroyd sabe utilizar, em cada momento, a técnica adequada para exprimir o maior realismo possível da história que está sendo contada. Não falta nesta produção também o bom e velho recurso da “câmera na mão”, que propicia o movimento adequado para o filme ao “acompanhar” os atores em suas ações.

Algo que gostei muito também, a respeito das escolhas da diretora, foi o seu apreço por mostrar cenas da cidade e da população de Bagdá. As condições de vida daquela população e, especialmente, a sua expressão a respeito dos “invasores ianques” falam mais que muitas linhas de roteiro. E mesmo tratando de algo originalmente feio, como é o caso de um conflito armado, a verdade é que Bigelow consegue nos surpreender com algumas cenas belíssimas e surpreendentes, como aquela do “ninho” de bombas descoberto por James logo em sua primeira missão em Bagdá.

Falando na história, The Hurt Locker agrada por não acelerar a narrativa artificialmente, como tantos filmes de guerra e/ou de ação. O que eu quero dizer com isso? Que ele segue o “tempo real” da ação, criando tensão justamente quando nada está acontecendo – regra básica do suspense, a de criar expectativa no espaço da narrativa em que “nada acontece” até que o extraordinário entre em cena. Acompanhamos, assim, a angústia de Sanborn e de Eldridge cada vez que James parte para uma missão e, contrariando os companheiros, desliga o rádio ou deixa de se comunicar. Todos querem sobreviver naquele território de conflito, mas alguns parecem ter mais apreço às suas vidas do que outros.

Gostei muito do roteiro de Mark Boal. O autor equilibra muito bem, em diferentes doses, ação, drama, suspense e questionamentos sobre a guerra e o modo de vida que ela procura sustentar. Boal acerta também ao dar profundidade aos seus personagens, especialmente ao trio que compõe a Companhia Bravo. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). A verdade é que, ainda que o filme tenha vários personagens interessantes, o maior deles é mesmo o do sargento William James. Como em qualquer história bem escrita, em The Hurt Locker não conseguimos definir se ele é louco, viciado em adrenalina ou um cara que já passou por tanto, que já viu tanto que, no fim das contas, ele se importa com o que realmente é importante. Digo isso porque está claro que ele não consegue mais se adaptar a “vidinha normal” de família consumista nos Estados Unidos. Fascinado por explosivos e pela criatividade dos que colocam a vida em perigo nos combates mundo afora, ele vive de adrenalina. Mas não apenas isso. A atitude dele em relação ao garoto Beckham (Christopher Sayegh) revela que ele, diferente de seus companheiros de farda, se importa com as pessoas que não levam a sua bandeira. Isso é tão raro para um estadunidense quanto a sua vontade de atuar em um campo de batalha mais do que a de voltar para casa. The Hurt Locker mostra, assim, tanto o horror da guerra, sua loucura e capacidade de viciar, quanto o lado das pessoas que fazem parte dos dois lados desta moeda.

NOTA: 10.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Todos os atores de The Hurt Locker se destacam. Este é um destes raros filmes em que não há profissional que entre em cena e que não mostre estar comprometido com aquelas linhas do roteiro destinadas para ele. Ainda assim, de todos os atores de The Hurt Locker, o grande nome do filme é mesmo Jeremy Renner. Que desempenho o deste ator! Fiquei impressionada. Também gostei muito, muito mesmo de Anthony Mackie. Além deles, esta produção conta com algumas pontas de luxo: o já citado Guy Pearce; Ralph Fiennes como o líder de um grupo de soldados que voltava de uma missão de captura de alvos para o exército; David Morse em uma super ponta como o Coronel Reed, que elogia o trabalho de James; e Evangeline Lilly como Connie James – a atriz aparece apenas no finalzinho do filme para falar três frases. 😉

Em um filme em que tudo funciona bem, impossível não citar aspectos técnicos que auxiliam em muito a história, como é o caso da edição de som da equipe de Paul N.J. Ottosson ou a trilha sonora bastante pontual de Marco Beltrami e Buck Sanders. Tão importante quanto a direção precisa e criativa de Bigelow para o filme é a edição de Chris Innis e Bob Murawski. Todos estão de parabéns pelo trabalho bem feito.

Achei especialmente interessante a simbologia de uma das cenas finais do filme. (SPOILER – não leia se você não assistiu ainda a The Hurt Locker). Aqueles meninos correndo ao lado do Humvee de James e Sanborn e atirando pedras no veículo mostravam como, independente das razões que fizeram aqueles soldados irem até o Iraque, não fazia com que eles fossem bem-vindos. Pelo contrário. Mesmo que soldados como eles salvassem vidas impedindo explosões de bombas em locais públicos, para os garotos dali eles eram e sempre serão invasores – e muitas vezes os responsáveis indiretos para que aquelas bombas que eles queriam impedir que explodissem tivessem sido colocadas, em primeiro lugar. Com aquela sequência e de maneira muito singela Boal e Bigelow refletem sobre a eficácia da guerra e do trabalho de James e companhia. Todos sabemos, no fim das contas, que histórias como esta acabam se revelando parte de um círculo de erros repetidos sem fim.

The Hurt Locker ganhou, até o momento, seis prêmios – e foi indicado ainda a outros quatro. Entre os que recebeu, destaque para quatro prêmios especiais no Festival de Veneza do ano passado (incluindo um que faz referência aos direitos humanos); um para a diretora Kathryn Bigelow no Festival Internacional de Cinema de Seattle e outro para o roteirista Mark Boal no desconhecido Festival de Cinema de Nantucket.

Fiquei especialmente impressionada com a avaliação excelente que o filme têm conseguido entre o público e a crítica. Os usuários do site IMDb deram a nota 8 para a produção, enquanto que os críticos que tem textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 128 textos positivos e apenas três negativos para a produção – o que lhe garante uma aprovação impressionante de 98%. Bacana.

The Hurt Locker estreou no Festival de Veneza do ano passado, em setembro. Depois, o filme fez a sabatina de participar de outros nove festivais mundo afora – o último deles foi o de Melbourne, na Austrália, em julho de 2009. No Brasil o filme foi lançado diretamente em DVD.

Esta produção teria custado aproximadamente US$ 11 milhões – e arrecadado, apenas nos Estados Unidos, até o dia 16 de agosto deste ano, pouco mais de US$ 10,3 milhões. Certamente ela vai conseguir se pagar e, com o faturamento em outros mercados, obter algum lucro – nada comparado a um arrasa-quarteirão claro, mas acredito que não seja essa sua intenção também.

Para os que perderam o fio da história e não lembram exatamente da obsessão dos Bush com Saddam Hussein e o Iraque, deixo aqui um link com um mega resumo sobre esse tema.

The Hurt Locker foi filmado em três locais: na cidade de Amman, na Jordânia; no Kuwait e na cidade de Langley, no Canadá. A escolha da Jordânia ocorreu por sua proximidade ao Iraque – o foco da narrativa.

Durante as filmagens, foram utilizadas três, quatro ou até mais que quatro câmeras de mão de super 16-mm para registrar os detalhes das cenas de ação – o que garante a The Hurt Locker, segundo os produtores, um certo clima de documentário de guerra. O material resultante teria se aproximado a 200 horas de filmagens – mais do que foi reunido pela produção de Apocalypse Now, por exemplo.

Segundo as notas de produção do filme, a equipe de The Hurt Locker foi surpreendida, na primeira semana de filmagens, por uma onda de calor do verão da Jordânia. O sufoco foi tanto que o diretor de fotografia Barry Ackroyd chegou a ficar doente com uma insolação.

Durante as filmagens foram registrados alguns acidentes. Um deles envolvendo o ator Jeremy Renner, que caiu de uma escada, enquanto carregava um menino iraquiano. Por causa deste acidente as filmagens foram atrasadas durante vários dias até que Renner tivesse o tornozelo totalmente recuperado. Outro acidente envolveu um ônibus cheio de refugiados iraquianos contratados como extras para o filme. O veículo tombou em uma estrada quando se dirigia até o local das filmagens. Os produtores afirmaram que ninguém ficou gravemente ferido – mas um dos ocupantes do ônibus teria quebrado o nariz.

A trilha sonora do filme conta com três músicas da banda Ministry – Khyber Pass, (Fear) Is Big Business e Palestina fazem parte do álbum Rio Grande Blood, um trabalho declaradamente crítico à guerra do Iraque e em relação a administração de George W. Bush.

Gostei deste texto (em inglês) da crítica Ann Hornaday, do Washington Post. Ela afirma que “The Hurt Locker trata do Iraque da mesma forma com que Paths of Glory tratou sobre a Primeira Guerra Mundial ou Full Metal Jacket sobre o Vietnã”. Hornaday comenta ainda que o filme consegue manter os seus personagens e, por extensão, o público na ponta nervosa de uma faca entre “o caos e o controle, bravatas e colapsos, ameaças e promessas que definem a vida de um soldado”.

Lendo o ótimo (e extenso, o que é bacana) texto de Hornaday fiquei sabendo que Mark Boal é um jornalista que conheceu de perto a realidade por ele descrita neste roteiro. Boal acompanhou, durante várias semanas, um esquadrão de elite do Exército especializado no desarmamento de bombas. Como um bom jornalista, habituado a observar os detalhes ao seu redor, ele conseguiu capturar a essência do trabalho destes personagens. Para a crítica de cinema, The Hurt Locker é o melhor trabalho da carreira da diretora Kathryn Bigelow.

CONCLUSÃO: Um filme de guerra primoroso. Bem acabado e misturando diversos estilos cinematográficos – além do óbvio, o de filmes de guerra -, The Hurt Locker inova ao centrar a sua narrativa em um grupo de especialistas em desarmamento de bombas. Como outras produções clássicas do gênero, este filme questiona as motivações pessoais e a eficácia da guerra de maneira muito natural, sem grandes discursos. Centrado em três atores de talento, The Hurt Locker ainda conta com várias pontas de astros conhecidos em papéis minúsculos – o que demonstra a sua capacidade em atrair bons nomes para o projeto. Além de contar com um ótimo roteiro e uma direção criativa, esta produção prima pela qualidade técnica, com a escolha dos recursos adequados para cada momento da história – do slow motion até imagens da câmera de vídeo de um robô, passando pelo uso frequente de câmeras na mão. Merece ser visto tanto por suas belas imagens, pela narrativa envolvente quanto pelos questionamentos que deixa no ar.

PALPITE PARA O OSCAR 2010 (atualização dia 16/01/01): Bem, escrevi a crítica sobre este texto bem antes de The Hurt Locker começar a receber a avalanche de prêmios que ele tem recebido e de ser, também por isso, um dos favoritos a ganhar o Globo de Ouro e o Oscar. Escrevo estas linhas logo depois de The Hurt Locker ter recebido os prêmios de melhor filme e melhor direção no Critics Choice Movie Awards 2010. Ele tem ainda três indicações no Globo de Ouro. Francamente, considero ele um dos melhores filmes de 2009. Se ele vencer as premiações mais importantes da temporada, seja como melhor filme e/ou melhor direção, será algo justo. Agora a dúvida é se o Oscar vai premiar uma produção perfeita como esta ou se vai preferir um fenômeno de mercado. Meu voto seria para ele.

The Informers

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Sexo, drogas e rock’n roll consumidos e/ou praticados por robôs. Ou quase. The Informers parecia um filme interessante – pelo elenco e por tratar de uma Los Angeles na efervescente década de 1980. Mas as aparências enganam, como um dia cantou Elis Regina. The Informers é um belo exemplo de dinheiro disperdiçado em Hollywood. Um filme vazio de significados e de emoções que parece ter sido escrito para um bando de intérpretes anestesiados e para um público de robôs (ou vice-versa). Se você não tiver mais nenhuma outra opção de filme para assistir e nem nada de melhor para fazer da vida, talvez valha a pena gastar seu tempo com este filme desenhado pelo roteirista e escritor Bret Easton Ellis – autor, entre outros, de O Psicopata Americano e Regras da Atração. A trilha sonora dos anos 80 vale um pouco o seu tempo – assim como o desfile de corpos belos e nus da história. Mas nada, nem o sexo apresentado pelo filme, aquece o frio glaciar de The Informers. Infelizmente o que esta produção tem de mais curioso é a ironia de uma morte: a do ator Brad Renfro, irreconhecível no papel do “sensível” e limpo Jack – e que na vida real tinha uma série de problemas com drogas até que morreu vítima delas antes do lançamento deste seu último filme.

A HISTÓRIA: Los Angeles, 1983. Embalada pelo rock daquela época, uma galera jovem, bonita, rica e influente (todas estas características juntas ou pelo menos parte delas) curte uma festa das boas. Neste cenário que parece mais uma locação para um videoclipe, somos apresentados a alguns dos personagens principais do filme. Entre eles, Graham Sloan (Jon Foster), filho do produtor de filmes William (Billy Bob Thornton), um garoto extremamente belo dividido entre a relação que tem com os amigos e a namorada Christie (Amber Heard). Nesta noite de festa, um dos integrantes do “grupo de Graham”, Bruce (Fernando Consagra), morre atropelado. Sua morte, ao invés de servir como momento de reflexão para os amigos, revela a frieza de quase todos eles no que se refere à vida e aos demais. Nesta história, acompanhamos um rockstar, uma apresentadora de TV, um aspirante a ator que tem um tio bandidão, um produtor de cinema e sua família – assim como o entorno de amizades de um de seus filhos, o protagonista Graham.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue lendo quem já assistiu a The Informers): Um filme vazio, frio, que eleva a uma potência bastante alta o trinômio que, em teoria, resume a vida dos rockeiros… sexo, drogas e rock’n roll. Neste caldeirão em que cozinhou o argumento do autor Bret Easton Ellis – que escreveu o roteiro do filme junto com Nicholas Jarecki – não poderia faltar a beleza, o charme e o poder. Mas e os sentimentos? A impressão é que nenhum dos vários personagens focados em The Informers é capaz de sentir qualquer coisa verdadeiramente. Nem amor, nem ódio, raiva ou frustração. Parece que todos estão em um permanente estado de anestesia – moral, física e psicológica.

O filme começa em ritmo de clipe de rock, exibindo a beleza de parte de seus protagonistas, e segue um bocado de tempo neste ritmo. Para falar a verdade, até o final da história, apenas algumas vezes saímos deste estado de “videoclipe permanente”. Tudo parece fabricado, falso, fake nesta história. E mesmo quando Graham solta algumas frases estarrecedoras, suas palavras parecem serem incapazes de realmente ter algum efeito. Nós também, pelo visto, estamos anestesiados por esta história sobre a falta de limites e de sentimentos das pessoas que viram a Aids começar a se disseminar (e ajudaram para que isso acontecesse) na Los Angeles do início dos anos 1980.

Não li o livro de Ellis que deu origem a este filme. Imagino que até, pela aura que este autor conseguiu construir como um dos melhores da sua geração, esta história funcione muito melhor no papel do que em celulóide. Bem, talvez… porque segundo este texto de Eduardo Haak, muito bom, aliás, Ellis está mais para um garoto malcriado de quem se aceita tudo porque escreveu dois grandes livros do que para um autor realmente competente. Então, cá entre nós, tenho mais dúvidas se The Informers sequer funcione em livro.

Mas voltando ao filme… achei que The Informers tem uma história que se perde pelo excesso de personagens – alguns como o de Cheryl Laine, interpretado por Winona Ryder, acabam sendo tão secundários que, praticamente, “sobram” para o desenrolar da trama. E se isso não bastasse, ele ainda fica ridiculamente pequeno por não nos convencer em momento algum. As palavras todas proferidas, seja por Graham, sua namorada ou pelo astro de rock descompassado Bryan Metro (Mel Raido), parecem ser feitas de isopor. Elas existirem ou não, realmente, não faz diferença alguma.

Para tornar a história fria de forma convincente, até seus atores parecem ter sido fabricados em uma escala industrial. Ninguém se destaca. Bem, talvez Mickey Rourke como o criminoso Peter, tio do porteiro e aspirante a ator Jack (Brad Renfro). Mas fora Rourke, nenhum dos outros atores sai do ponto morto. Nem mesmo os astros Billy Bob Thornton ou sua parceira de cena, Kim Basinger (que interpreta Laura, mulher indecisa entre se separar ou não do pai de seus dois filhos). Certo, a Sra. Basinger está linda e, em algumas cenas de “desespero”, até parece sair da letargia dos companheiros. Mas, francamente, nem aí ela me convenceu. Enfim, uma lástima assistir a tantos atores bons desperdiçando seu tempo em um filme que tenta explorar os absurdos de uma Los Angeles sem limites e que, no fim das contas, não leva a parte alguma.

Além da cena inicial que parece um videoclipe, o filme nos apresenta, até o minuto oito, nada menos que 12 personagens centrais da história – que aparecem diretamente, na frente das lentes do diretor australiano Gregor Jordan, ou indiretamente, como é o caso do personagem de Peter, ao qual escutamos através de uma conversa com o sobrinho por telefone. Ou seja: aqui as informações são jogadas, como em um vídeo de rock, rapidamente na cara do espectador. Depois é que vamos ligando os pontos e entendendo o que se esconde por trás da beleza e do dinheiro que rola naquele cenário.

E o pior é que pouco sobra além das aparências. Conteúdo, meus caros, parece ser um artigo impossível de circular entre os personagens, mais preocupados com as aparências e com ter dinheiro suficiente na conta para pagar por suas drogas. Assim, temos ao executivo William que tenta voltar para a mulher Laura apenas para se livrar de uma separação litigiosa – mas, em paralelo, tenta continuar seu romance com a amante Cheryl, apresentadora de um canal televisivo. Os filhos de um casal tão “fabricado” parecem seguir a mesma linha perdida dos pais. Graham namora com Cheryl e acompanha, pouco a pouco, a namorada tendo casos com quase todos os seus amigos.

No filme, parece que de todas as relações de traição, a que mais incomoda a Graham seja a mantida por Cheryl com Martin (Austin Nichols). (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Em certo momento do filme, a única questão que parece levantar algum interesse é saber se Graham se interessa mais por Martin ou por Cheryl. Afinal, o rapaz teve relações com ambos – daí a preocupação de Ellis em nos mostrar como aquele ambiente era “promíscuo”. Mas, honestamente, o que isso importa? Pois nada, meus caros.

Até porque, fica claro lá pelas tantas que ninguém se importa realmente com ninguém por aquelas bandas. E o pior é que, no final desta história – bastante previsível, diga-se -, nós também nos perguntamos: e por que alguém deveria se importar com eles? Por que, afinal, nos importaríamos com um bando de pessoas sem limites e que não conseguem sentir realmente nada de dor, prazer, felicidade ou qualquer outra emoção? A impressão é que o roteiro de Ellis e Jarecki se preocupa em nos tornar tão insensíveis quanto seus personagens. Para resolver isso, nada como desprezar esta história e se importar com outras, como aquelas contadas por The Soloist, War/Dance, The Visitor e um longo etcétera (para nossa sorte).

Mas além de Graham, o casal William e Laura teve uma filha, Susan Sloan (Cameron Goodman), que parece ser a única a se importar com algo que acontece ao seu redor – e está suficientemente sóbria para notar o golpe que o pai quer dar em sua mãe novamente. Pena que Susan apareça tão pouco na história – afinal, The Informers é um conto sobre pessoas frias e que não se importam e, por isso, não pode ter muito espaço para gente que não segue essa cartilha. Outro, aliás, que parece um pouco mais humano é o personagem de Tim Price (Lou Taylor Pucci). Mesmo que ele não consiga ter nenhuma relação de afeto com o pai, o mulherengo e sempre bêbado Les (Chris Isaak), pelo menos Tim tem a capacidade de olhar criticamente para o seu redor e dizer não para algumas práticas que considera ridículas.

Completa o quadro de personagens o bandidão Peter, interpretado por um competente Mickey Rourke – alguém tinha que fazer valer o seu salário -, que não pensa duas vezes em sequestrar um garoto para negociá-lo com um grupo de gente da pesada. Peter também não se importa em usar a casa do sobrinho, Jack, como cativeiro para o garoto. O personagem de Jack, aliás, parece ser o único “acima de qualquer suspeita” da história. Ou seja, ele não usa drogas, não é bandido e parece se importar com os demais. Ah, e ele tem sonhos também. Mas para sua infelicidade, Jack provêm de uma família que não parece ser das melhores.

E a triste ironia do filme é que justamente o personagem mais humano de The Informes e o único que não se droga e nem se prostitui foi interpretado por Brad Renfro, o ator para quem o filme é dedicado nos créditos finais. Renfro, descoberto com apenas 12 anos pelo diretor Joel Schumacher no filme The Client, e que se destacou ainda em outras produções como Sleepers e Apt Pupil, morreu vítima de uma overdose de heroína acidental em janeiro de 2008. Em sua breve biografia no site IMDb é possível perceber as diversas vezes em que Renfro foi preso e respondeu judicialmente pelo uso de drogas. Ele, mais que qualquer outro neste filme, parece ter incorporado na própria pele a falta de limites da vida de aparências de Los Angeles. Uma pena – o garoto era talentoso.

NOTA: 4,5 3.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Para vender um filme, os produtores e a imprensa fazem de tudo, incluindo alguma forçada de barra, volta e meia. E eis que com The Informers fizeram uma destas. Li por aí que o filme era algo interessante de ser visto porque colocava, depois de pouco mais de duas décadas, os astros Kim Bassinger e Mickey Rourke para atuarem juntos. Ah, me poupem! Os dois nem se cruzam em The Informes. Não dividem nenhuma cena! Mas os textos que li destacavam como sendo o “máximo” os dois se encontrarem novamente já que eles teriam tido um “péssimo relacionamento” nos bastidores do filme Nine 1/2 Weeks. Ah tá.

Provavelmente The Informers merece uma  nota menor que este 4,5, mas resolvi deixar com esta avaliação mesmo porque, ainda que o roteiro seja uma droga, eu gostei da direção de Gregor Jordan e, principalmente, da direção de fotografia de Petra Korner. Os dois fizeram um trabalho muito bom, cuidadoso com os detalhes, tentando valorizar o trabalho dos atores e destacando os tons cinzas e frios das imagens, o que torna o clima ainda mais “glacial”. E ainda que a trilha sonora tenha algumas escolhas equivocadas, no geral, gostei do trabalho de Christopher Young.

Li em vários resumos sobre o filme que ele contava, entre seus personagens, com um vampiro. Aí fiquei pensando: “Será que eu não entendi o filme? Porque não vi vampiro algum nesta história”. Mas eu não estava errada não… inexplicavelmente os roteiristas preferiram tirar uma parte importante do livro de Ellis – o curioso é que ele próprio ajudou na adaptação de sua obra para o cinema. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Como bem revela este texto (em inglês) de David Louis Edelman sobre o livro The Informers, ajuda a compor o romance um grupo de vampiros de “vinte e poucos anos” que trocam dicas sobre suas práticas sanguessugas e fofocam “sobre as formas mais modernas de decorar seus caixões”. Meus caros, nada disso faz parte do roteiro deste filme. Pelo visto, o tal grupo de vampiros foi substituído, simplesmente, por um grupo de jovens bon vivants que vivem transando entre si. Ou, talvez, os tais vampiros sejam os que iriam levar o garoto sequestrado por Peter – mas isto não fica claro no filme. Inicialmente, achei que o garoto ia ser vendido para um grupo de pedófilos, nada mais. Não acho que o filme sequer sugira a idéia de que o grupo que contratou Peter seja formado por vampiros. Um sinal para quem leu o livro é o nome do sujeito que bate à porta de Jack: Dirk (interpretado por Diego Klattenhoff). Se um dos vampiros do livro se chama Dirk, então matamos a charada. 😉

Outra razão para dar pelo menos um 4,5 para The Informers é que ele tem, para não dizer que nenhum, até que dois questionamentos interessantes. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). O primeiro deles é lançado quando Graham “filosofa” com o amigo Martin sobre a sua falta de “noção” sobre o que é o certo ou o errado, sobre o que ele deve pensar ou sentir em cada situação. Concordo com ele que fica difícil para uma pessoa que foi criada por um casal sem moral aparente ter, por conta própria, limites e noção do que é certo e errado. Mas será possível que apenas a criação errada dos pais pode ser responsável por um indivíduo sem sentimentos? E os amigos dele ou as demais pessoas com quem ele foi se relacionando durante a vida? Não me digam que todos, absolutamente todos eram igualmente sem moral e sem limites.

Difícil, hein? Isso me parece mais uma fantasia do autor de The Informers do que uma leitura crítica de certa realidade. (SPOILER – não leia… bem, você já sabe). Outro questionamento é feito no final do filme, também por Graham. Ele pergunta, para Nina Metro (Simone Kessell) do que adianta ele amar Christie… o que seu amor servirá para a garota moribunda? Até certo ponto, ele está certo: realmente o amor não é sinônimo de cura ou milagre. Em determinados casos, ele pode até ajudar em uma recuperação, mas nunca será responsável, sozinho, pela cura de outra pessoa. Agora, mesmo que o amor não seja suficiente para curar, mas ele sempre é válido para confortar a outra pessoa, para dar-lhe um apoio que tornará o caminho que for mais fácil. Só um indivíduo sem nenhum noção de sentimentos e de realidade para não entender algo assim.

Completando o grupo dos “quatro amigos” centrais do filme, além de Graham, Tim e Martin, temos a Raymond (Aaron Himelstein). Ele também, a exemplo de Susan Sloan, parece ser um dos poucos que tem sentimentos e que conseguem se importar com os outros na história. E, por isso mesmo, ele aparece praticamente nada. O ator Rhys Ifans também está no filme em um papel secundário, interpretando a Roger, empresário de Bryan Metro.

Ainda que seu personagem seja um completo verme, admito que gostei da interpretação de Mel Raido para o rockstar tresloucado Bryan Metro. O ator consegue dar, a exemplo de Mickey Rourke, uma certa densidade para o seu personagem, conseguindo se destacar dentro da mediocridade das outras interpretações. Também achei o seu personagem o mais “realista” desta história – afinal, até hoje, quantos astros do rock não permanecem o tempo todo chapados sob a supervisão de seguranças e verdadeiras “babás” da fama paga por seus empresários? Vários… ainda! E  parece que muitos deles nunca vão crescer – pelo menos até morrerem de uma overdose de drogas. E se tornarem, assim, “eternamente jovens”.

Também acho que a atriz Amber Heard se destaca no filme. Além das razões óbvias, por causa de seu corpão, porque a atriz parece ter talento como intérprete – ainda que, coitada, sejamos justos, ela foi escalada nesta produção para falar pouco e mostrar tudo. De qualquer forma, Amber está bem no que isso quer dizer sobre projetos futuros. Este ano está previsto que ela apareça em outros cinco filmes, entre eles ExTerminators, com Heather Graham, e The Joneses, com Demi Moore e David Duchovny. E para o próximo ano ela está confirmada em outros três filmes, pelo menos. Nada mal.

The Informers estreou em janeiro deste ano no Festival de Sundance. Depois, no final do mesmo mês, participou do Festival de Santa Barbara. Neles, colecionou uma série de críticas negativas. A produção, que teria custado aproximadamente US$ 18 milhões, dificilmente vai conseguir se pagar. Na sua semana de estréia nos Estados Unidos, o filme chegou a 482 salas de cinema e conseguiu arrecadar apenas US$ 300 mil. Um desempenho mais que medíocre.

Estranho que o ator Brandon Routh havia sido escalado para interpretar o vampiro Jamie mas, pouco antes do filme começar a ser rodado, ele foi dispensado do trabalho. Curiosa essa decisão dos produtores, de simplesmente limar a parte mais visivelmente macabra de The Informers – quem sabe com uns vampiros na história o filme teria sido mais interessante (ou engraçado, pelo menos). 😉

Para tornar o filme ainda mais hilário, The Informers nos brinda com pelo menos um erro de gravação quase amador. Como quando Peter vai mostrar Mary (Angela Sarafyan) para Jack. Antes da cena ser cortada, vemos claramente uma pessoa da equipe de gravação parada na frente do vidro dianteiro da van. Ei menino, acorda e sai daí! hehehehehehehehe.

Além das locações óbvias para um filme como esse, como é o caso de Los Angeles, The Informers foi gravado em cenários pouco comuns para o cotidiano de Hollywood, como foi o caso de Montevideu e Ciudad Punta del Este, no Uruguai, e de Buenos Aires, na Argentina.

O filme conseguiu uma nota até que razoável no site IMDb: 6,4. Por outro lado, os críticos que tem seus textos linkados no site Rotten Tomatoes foram mais duros com esta produção: lhe dedicaram 83 críticas negativas e apenas 13 positivas, o que lhe garante a espantosa aprovação de 14%. A média das notas dadas por estes críticos, contudo, é de 3,6 – eles foram mais duros do que eu. 🙂

CONCLUSÃO: Um filme plastificado sobre a Los Angeles do início dos anos 1980, em que uma última geração ainda pôde “curtir” o uso excessivo de drogas e a prática de sexo com diversas pessoas sem se importar com a Aids. Baseado no livro homônimo do badalado (e quase igualmente atacado) escritor estadunidense Gregor Jordan, este filme desperdiça um elenco de estrelas em uma história fraca e que sofre pelo excesso de personagens. Diferente de outras produções em que “diferentes histórias se cruzam”, The Informers força a barra para justificar alguns de seus personagens, em um mosaico de histórias embalada por excessos que, francamente, não chega a parte alguma. Pode interessar a algumas pessoas por causa de sua “levada rockeira anos 80” e pelo desfile de gente bonita e nua. Mas, francamente, existem filmes melhores no mercado inclusive com estes elementos.

The Soloist – O Solista

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Acredito que há poucos dias eu tive o prazer de assistir ao melhor – ou um dos melhores, pelo menos – filme(s) de 2009 até agora. The Soloist, produção estrelada  por Jamie Foxx e Robert Downey Jr., é uma destas peças de cinema que fazem com que esqueçamos por alguns momentos todos os filmes ruins que possamos ter assistido até o momento. Narrada de forma criativa, a história da amizade entre o jornalista vivido por Downey Jr. e o morador de rua interpretado por Foxx enche o espaço ao nosso redor de música, beleza e emoção. E da mesma forma com que State of Play refletiu sobre o papel que o jornalismo pode desempenhar no caso de uma intricada questão envolvendo corporações e políticos, The Soloist mostra que esta profissão pode desvelar de maneira única a realidade de uma cidade como Los Angeles e, com sorte, transformar a vida de algumas pessoas para melhor. Um filme transcendente que trata, entre outros temas, sobre a nossa capacidade de ajudar os outros e/ou apenas mudar a nós mesmos.

A HISTÓRIA: O jornalista do Los Angeles Times, Steve Lopez (Robert Downey Jr.), volta para casa de bicicleta quando sofre um acidente em Riverside Drive. Sua experiência, incluíndo o atendimento no hospital, acaba virando uma crônica em sua coluna Points West, estampada diariamente na capa do jornal. Em permanente busca por histórias interessantes e pontos-de-vista diferenciados sobre o cotidiano da cidade, Lopez acaba escutando, em um dia ensolarado perto da Praça Baixa, um som inusitado para os padrões de Los Angeles: o de um violino. Perseguindo esta música, Lopez chega até o morador de rua Nathaniel Anthony Ayers Jr. (Jamie Foxx), que se diz ex-aluno da conceituada escola de artes Juilliard, uma das mais famosas do mundo. O jornalista fica intrigado com a idéia de que um morador de rua possa, um dia, ter estudado na Juilliard e, motivado por sua curiosidade, Lopez começa a desvelar a história de Ayers. Nesse trajeto para descobrir a verdadeira história des seu mais novo “amigo”, Lopez acaba tocando de forma profunda os cenários degradantes de sua cidade adotiva.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a The Soloist): Sou suspeita para falar deste filme porque, admito, ele “me tocou fundo” por misturar, de maneira belíssima, três temas que para mim são fundamentais: jornalismo, música e a vontade de ajudar as pessoas que pode ser barrada, muitas vezes, pelo conceito da liberdade individual. A verdade é que o cinema, assim como qualquer outra manifestação artística, mexe de forma diferente com cada pessoa dependendo da experiência de vida que este indivíduo teve. E pela minha experiência, The Soloist é o típico filme que emociona por reafirmar alguns conceitos que tenho como importantes.

Primeiro, a capacidade do jornalismo em narrar e modificar a realidade. Sou destas pessoas apaixonadas por textos bem escritos, por reportagens perfeitamente narradas. E os trechos de alguns dos textos de Steve Lopez que conhecemos através de The Soloist já são suficientes para percebermos que estamos diante de um domador de palavras do bons. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Porque The Soloist é baseado em uma história real. Fiquei sabendo disso só com o final do filme – o que achei ótimo porque, como no caso de Into the Wild, isso é importante para não criar nenhuma resistência à geralmente famigerada linha de filmes baseada “em uma história real”.

Mas voltando ao que eu dizia… como jornalista, eu realmente acredito que esta minha profissão, quando bem feita, pode prestar bons serviços para a sociedade. Seja denunciando absurdos nos bastidores do poder ou ajudando pessoas que precisam de oportunidades a encontrarem o apoio necessário. E The Soloist foi um deleite para mim por seu belo texto, mérito do roteiro escrito por Susannah Grant baseada no livro de Steve Lopez; e pelo fato de contar mais um belo exemplo do jornalismo bem feito, útil e tranformador. Sim, acho que serei sempre uma sonhadora. 😉

Outra qualidade que faz este filme ser especial é o passeio que ele nos proporciona pela boa música. Mérito das escolhas do personagem/cidadão Nathaniel Ayers e, claro, ao trabalho primoroso do italiano Dario Marianelli, responsável pela trilha sonora do filme. Como o belíssimo documentário War/Dance, The Soloist mostra o poder da música para mudar a vida das pessoas. No caso da história do genial Nathaniel Ayers, as composições de Beethoven e suas “variações” acabaram enchendo Los Angeles de música e servindo como elo de ligação entre o artista e o mundo real.

(SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Esquizofrênico, Ayers passava seus dias nas ruas até que o jornalista Steve Lopez se interessou por ele e conseguiu, com muito custo, “colocá-lo para dentro” – uma expressão dos trabalhadores sociais que revela o momento em que um morador de rua decide voltar a viver dentro de uma casa ou apartamento. Mas que algo fique claro: Ayers decidiu dormir no apartamento que Lopez arranjou para ele não porque ele preferisse ficar “enclausurado” entre quatro paredes, mas porque, por sua idade, ele percebeu que estaria melhor ali, em uma cama, do que dormindo sempre sobre papelões e plásticos na rua.

A direção de Joe Wright é algo a ser comentado em separado. Achei magnífico o trabalho deste diretor. Acredito que um bom contador de histórias se distingue pelos detalhes. E é justamente neles que Wright se destaca. Achei incrível, por exemplo, a maneira com que ele mostrou, lá pelas tantas, a beleza e a força da música através das cores “vistas” por Ayers dentro de sua cabeça. Um momento especial no filme. Também achei especialmente tocante a sequência em que Lopez decide passar a noite ao lado do morador de rua, presenciando cenas desesperadoras da noite de Los Angeles. O filme, aliás, vai crescendo pouco a pouco e de forma gradativa, sem  nunca perder o ritmo. Claramente é possível distinguir uma linha curva que vai da comédia e da apresentação dos personagens até um ponto de maior profundidade emotiva e de contextualização de suas histórias.

Mas o caráter mais forte desta história, para mim, sem dúvida, é a questão do comprometimento das pessoas, umas com as outras, e o duro aprendizado de que não somos deuses. Em outras palavras, de que por mais que tenhamos um caminhão de boas intenções e que estejamos certos de que sabemos o que é o melhor para a pessoa com a qual nos preocupamos, nada disso vai servir se esta pessoa não resolver mudar por sua própria vontade. E será que é preciso mudar mesmo? (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). The Soloist vai muito fundo nestas reflexões e conclui, no final, algo que é difícil entender, mas que é necessário: nós somos responsáveis totalmente apenas por nós mesmos. Pois sim… podemos sempre tentar ajudar uma outra pessoa mas, no fundo, só ela pode se ajudar. E cada um caminha para o lado que acha mais certo. A mudança pode ocorrer, plenamente, apenas em nós mesmos.

Algo curioso é que há pouco tempo eu tive uma conversa sobre as fronteiras entre ajudar uma pessoa ou tirar a sua liberdade pessoal com um casal de amigos que trabalha como psicólogos em Curitiba. E este tema está muito presente em The Soloist. (SPOILER – não leia… bem, você já sabe). Lá pelas tantas, Lopez questiona, indignado, o assistente social David (Nelsan Ellis) sobre a necessidade de prover um tratamento para Ayers. Na opinião de Lopez, como seu novo amigo sofre de esquizofrenia e não tem, em teoria, toda a “capacidade” de tomar suas próprias decisões, ele deveria ser forçado a receber um tratamento médico e psiquiátrico. David discorda e diz que ninguém pode obrigar a outra pessoa a se tratar, porque isso, simplesmente, não surtiria efeito. E aí está o cerne da questão. Aonde começa e aonde termina a nossa capacidade de decisão? Quem tem o direito de dizer o que é melhor para uma pessoa e obrigá-la a fazer que ela não quer – mesmo que esse seu desejo não tenha um fundo totalmente racional? Algumas vezes, quando se trata de outras pessoas, é preciso se contentar com pouco. Com pequenos prazeres, com alguns momentos de felicidade e de lucidez. E isso já é o suficiente.

NOTA: 10.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Fiquei realmente impressionada com o filme e o trabalho do diretor Joe Wright. Não comentei antes, mas merece uma menção especial a direção de fotografia assinada por Seamus McGarvey. The Soloist esbanja uma série de sequências belíssimas, de pura poesia imagética, como o vôo dos pássaros pela cidade enquanto Ayers experimenta novamente o prazer de tocar um violoncelo; ou quando ele, ainda criança, toca um instrumento imaginário de forma visceral depois que vê um carro em chamas descendo pela rua em que ele morava – ainda que não seja um tema evidente no filme, mas a segregação entre brancos e negros está presente na história. Sensibilidade, criatividade e bom gosto para as imagens fazem com que a parceria entre McGarvey e Wright resulte em um produto único.

Falando em temas que aparecem em The Soloist de maneira fugaz, há desde críticas às audiências e suas leituras preferidas até questões políticas. A primeira ironia do filme é direcionada para o governador da Califórnia ex-Mister Músculos Arnold Schwarzenegger: pelo visto, ele não teria gostado do artigo de Lopez sobre o sistema de saúde público – e o jornalista pergunta, para sua fonte por telefone, se ele teria problemas por não ter uma origem teutônica ou pelo fato de não tomar esteróides como o governador. 😉 Em seguida, um colega do jornalista afirma que o mundo deve ter sérios problemas quando um artigo sobre a queda de um jornalista cria mais comoção entre os leitores do que a denúncia sobre o envolvimento de corporações estadunidenses com a guerra. hahahahaha. Genial. Aliás, toda a sequência é muito boa – no debate entre os jornalista entra até o tema de fotos polêmicas da atriz Lindsay Lohan. 😀 Enfim, durante o filme, de maneira indireta – como em imagens na TV – aparecem diferentes fatos históricos que ocorreram naquele período narrativo, como por exemplo o Furacão Katrina, o governo de George Bush e a sua guerra contra o Iraque.

The Soloist é um filme de dois atores. Ponto. A história é construída de tal maneira para que Jamie Foxx e Robert Downey Jr. se destaquem. Ainda assim, os produtores escolheram alguns bons atores para fazer papéis secundários na história. Entre eles, destaque para a sempre bela e convincente Catherine Keener que, mais uma vez, encarna o papel de editora de um jornal. Desta vez, ela dá voz, ironia e um tantinho de ressentimento para a personagem de Mary Weston, editora do Los Angeles Times – ou seja, chefe de Steve Lopez – e sua ex-mulher. Outra atriz que se destaca no filme em um papel menor é Lisa Gay Hamilton, que interpreta Jennifer, irmã de Nathaniel. A exemplo de Viola Davis em Doubt, Lisa aparece em cena para emocionar – ainda que ela tenha uma interpretação muito mais silenciosa que sua colega indicada ao Oscar.

Outros atores que tem um certo destaque no filme: Michael Bunin como Adam Crane, o coordenador da Filarmônica de Los Angeles que convida Ayers a assistir a um concerto de Beethoven, o maior ídolo do morador de rua; Tom Hollander interpreta a Graham Claydon, um músico que, através dos artigos de Lopez, se oferece para dar aulas para Ayers; Stephen Root interpreta a Curt, o colega de Lopez indignado com o perfil atual de seus leitores – e o rumo que o jornalismo que “vende” está tomando; e claro, Justin Martin como Nathaniel na idade dos 13 aos 16 anos (muito boa a interpretação do garoto!).

Além de uma grande história sobre amizade e a nossa capacidade de fazermos o bem/sermos felizes, The Soloist é declaradamente um libelo à favor do jornalismo feito por bons profissionais. Do velho jornalismo, digamos. Durante todo o filme a idéia de que ele deve ser preservado está presente. Em alguns momentos, além daquela discussão inicial entre colegas do LA Times que eu comentei, o tema da decadência dos jornais está presente – como quando Mary Weston comenta com Lopez que o LA Times terá que enxugar ainda mais o seu quadro de profissionais, demitindo jornalistas devido a queda nas vendas do jornal.

Falando nela, Catherine Keener é outra atriz que aparece em cena e faz a diferença. Ela tem a sorte, por exemplo, de falar algumas das melhores frases do filme – pelo menos aquelas certeiras que o nosso protagonista precisava escutar. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). É ela quem ironiza as “boas ações” de Lopez no jantar em que ele é premiado com o Media Award do ano. Afinal, até que ponto a preocupação em “ajudar aos outros” não é apenas uma questão de ego? Interessante questionamento. E novamente a personagem de Keener acerta no alvo quando Lopez desabafa sobre sua incapacidade de realmente promover uma mudança na vida de Nathaniel. Ela diz, com todas as letras: “Nunca vai curar Nathaniel. Só seja amigo dele e apareça”. Bingo!! Genial.

A roteirista Susannah Grant se baseou no livro The Soloist: A Lost Dream, an Unlikely Friendship, and the Redemptive Power of Music (algo como O Solista: Um Sonho Perdido, uma Amizade Improvável, e o Poder Redentor da Música) lançado por Steve Lopez em abril de 2008. O título do livro é um resumo bastante preciso do filme no qual ele foi baseado. O curioso é que a obra despertou o interesse dos produtores do filme bem rápido… tanto que a produção estava finalizada a tempo de estrear nos Estados Unidos e no Canadá em abril de 2009, apenas um ano depois do livro ter sido lançado.

The Soloist teria custado US$ 60 milhões. Até o dia 5 de julho, o filme conseguiu arrecadar pouco mais de US$ 31,6 milhões nos Estados Unidos. Achei pouco, especialmente por ter dois atores do porte de Robert Downey Jr. e Jamie Foxx como protagonistas. Talvez a produção tenha um desempenho melhor se for indicado – e principalmente sair como vencedor – de premiações mundo afora.

Outro profissional da equipe técnica que merece ter seu trabalho comentado é o editor Paul Tothill. Ele fez um belo trabalho. Comento que The Soloist tem muitos diálogos – e, várias vezes, bastante rápidos. Por isso o ideal é ver ao filme pelo menos duas vezes, para que possamos perceber detalhes das interpretações e, principalmente, os objetos estrategicamento colocados em cena e o vestuário utilizado pelos atores, especialmente os moradores de rua e Ayers. Esse trabalho de figurino é executado com inspiração nos detalhes por Jacqueline Durran.

Impossível assistir a Jamie Foxx interpretando a Nathaniel Ayers e não lembrar de seu desempenho no filme Ray. Será que o ator vai conseguir ser indicado, pela segunda vez, a um Oscar por interpretar um músico? Até isso pode acontecer mas, francamente, em Ray ele tem um protagonismo que não chega a roçar com The Soloist – afinal, nesta última produção, Robert Downey Jr. está ali para roubar a cena. Por Ray, vale lembrar, Jamie Foxx ganhou seu único Oscar até agora.

Algo curioso: no filme, Steve Lopez vive sozinho e é um homem divorciado. Na vida real, o jornalista está feliz em seu casamento. Curioso isso… será que os produtores acharam que era mais fácil explicar a amizade entre Lopez e Ayers se o jornalista fosse um “homem solitário”? Achei desnecessária essa mudança da história para “convencer”.

Como era meio óbvio, li nas notas de produção do filme que a maioria dos moradores de rua que aparecem em The Soloist são, realmente, moradores de rua. 😉

Em abril deste ano, quando The Soloist estreou nos Estados Unidos, Steve Lopez declarou que Nathaniel estava razoavelmente bem, namorando e, agora, tocando também flauta. Achei bacana que o músico e sua família, assim como muitas pessoas da Comunidade Lamp – um alojamento e centro de atenção a doentes mentais que aparece no filme – foram convidadas para assistir à premiere de The Soloist em Los Angeles e, depois, a participar da festa de lançamento do filme.

The Soloist não conseguiu um resultado muito bom na opinião do público e da crítica especializada. Os usuários do site IMDb, por exemplo, deram a nota 7 para o filme – ainda que seja uma nota boa, ela é muito menor do que a dos últimos filmes premiados por Hollywood. Os críticos que tem textos linkados no Rotten Tomatoes torceram ainda mais o nariz para a produção: dedicaram à The Soloist 79 textos positivos e 66 negativos para o filme, o que lhe garante uma aprovação de apenas 54%.

Eu gostei – e concordo em parte – deste texto do crítico Jonathan F. Richards, do Film.com que, acredito, resume o pensamento médio de seus colegas. Nele, Richards comenta, por exemplo, que as cenas de “comédia” de The Soloist, como são aquelas que envolvem Lopez e dois tipos diferentes de urina, não acrescentam nada à história. Richards acredita que o diretor erra a mão muitas vezes e que desperdiça o material que tinha em mãos. Concordo sobre estes momentos de comédia, que servem mais para “desarmar” o espectador para o drama que virá na sequencia do que para ajudar a contar a história. Mas discordo dos trechos em que o crítico considera ruins as sequencias das aves e do uso de cores para simbolizar a capacidade da música em nos tocar – são momentos que eu achei adequados para a história e bem conduzidos.

Steve Lopez teria conhecido Ayers em 2005. Do contato e da consequente amizade entre eles, surgiram várias colunas escritas por Lopez no Los Angeles Times, o livro comentado anteriormente, este filme e, ainda, um episódio do conhecido programa 60 Minutes da CBS que foi exibido no dia 22 de março deste ano.

Em 2008, depois de toda a evidência que a história de Nathaniel teve nos Estados Unidos, sua irmã, Jennifer, lançou a The Nathaniel Anthony Ayers Foundation, uma organização destinada a debater nacionalmente a questão das doenças mentais e a capacidade da arte em auxiliar no tratamento das pessoas que passam por alguma destas doenças.

No próprio site da fundação criada por Jennifer existe um link para o acervo de artigos de Lopez sobre Nathaniel. Mas neste link encontrei um vídeo que mostra os dois, na verdade uma apresentação do programa 60 Minutes comentado antes – indicado para quem ficou interessado em conhecer os verdadeiros rostos/vozes destes personagens.

Para os interessados em saber um pouco mais sobre a esquizofrenia, deixo aqui este link que traz algumas informações básicas.

O diretor Joe Wright ficou mundialmente conhecido, em especial, por sua direção no filme Atonement, pelo qual ele recebeu uma indicação ao Globo de Ouro – ele perdeu o prêmio para Julian Schnabel e seu magnífico Le Scaphandre el le Papillon. Francamente, concordo um pouco com o crítico citado anteriormente do Film.com que afirma que Wright sofre, algumas vezes, de excesso de confiança. Achei isso a respeito de Atonement – gostei mais de The Soloist.

Uma curiosidade: o site oficial do filme apresenta as notas de produção como se os textos tratassem de uma peça de música clássica. Assim, começamos com o “prologue”, seguimos por “adagio” até chegar a “allegro molto” e o “finale”. Pelo site, é possível saber de cada detalhe do filme, da vida de Nathaniel e Steve e sobre a realidade dos moradores de rua de Los Angeles e dos Estados Unidos.

Lendo as notas de produção do filme descobri a resposta para a minha pergunta anterior sobre o interesse rápido dos produtores em adaptar a história contada por Lopez para o cinema. Segundo o produtor Russ Krasnoff, seu interesse por esta história surgiu muito antes do livro do jornalista ser publicado. “Não lembro de ter lido outro artigo que me comovesse tanto como as colunas de Steve sobre Nathaniel. Tínhamos a dois homens, um ao qual a sociedade tacha de incapaz, e outro ao qual ela considera como um  homem de êxito. Mas Steve descobre em Nathaniel uma paixão que ele nunca conhecerá. Eu ficava fascinado porque Steve não se limitava a seguir a história de um sem teto; ele analizava as motivações e razões que regiam a vida de todos. Havia conseguido chegar ao fundo destes dois personagens, algo fundamental para um filme”, comentou Krasnoff.

No site eles também explicam a escolha da roteirista Susannah Grant por modificar parte da história real retratada pelo filme. Segundo as notas de produção, a idéia de fazer com que Lopez fosse divorciado (quando na vida real, como eu disse antes, ele está feliz em seu casamento) buscava tornar o personagem ainda mais solitário. Outra mudança foi transformar as duas irmãs de Ayers em uma.

O diretor Joe Wright decidiu embarcar em seu primeiro projeto em Hollywood porque ficou comovido com a história e, mais que tudo, encantando com as pessoas do bairro de Skid Row, conhecido por abrigar boa parte dos moradores de rua de Los Angeles. “Fiz este filme pelas pessoas que conheci em Skid Row. Eu nunca tinha conhecido a gente tão amável, boa, divertida e honrada. Basta que lhe demos espaço e eles mudam a sua vida. Ao involucrar-lhes no filme, eu quis aportar mais realismo às imagens, mas também algo para suas vidas, trabalho, por exemplo. Assim eles aprenderiam algo e poderiam se orgulhar disso. Eles são as pessoas mais esquecidas da sociedade americana e nunca são escutadas. Queria que este filme fosse a sua voz”, resume o diretor.

Wright ainda comenta que uma de suas principais preocupações é que o filme não fosse levado a sério demais. “Com um material que abrangia temas como a indigência, a pobreza e a esquizofrenia, é fácil deixar-se levar; por isso me parecia primordial que fosse um filme luminoso com momentos de sombra. Como vamos a lugares muito escuros, as partes luminosas deveriam ser ainda mais luminosas. Eu quis que os indigentes se vissem sem a menor pátina (minha nota: crosta e/ou tom suave dos quadros antigos). Este filme contêm muita esperança, luz e beleza”, defende o diretor. Agora se entende porque algumas de suas escolhas criticadas por Richards, como é o caso das cenas das aves e das luzes.

CONCLUSÃO: Um filme belíssimo sobre temas importantíssimos na nossa enlouquecida e competitiva sociedade – em que cada vez mais “sobram” pessoas à margem da “boa vida”. Misturando jornalismo, amizade, comprometimento com as pessoas, psicologia, música e questionamentos sobre a origem e a eficácia das ações para “curar e influir” nos demais, The Soloist é uma obra construída com esmero e cuidado. Perfeita para que dois atores do porte de Robert Downey Jr. e Jamie Foxx brilhem. Uma história que mistura comédia, suspense e, principalmente, drama e que, como em uma sinfonia, vai crescendo aos poucos até seu “grand finale”. Recomendadíssima. Falar mais, é estragar a história. Apenas assistam e, depois, comentem por aqui. 😉

PALPITE PARA O OSCAR 2010: Não sei, honestamente, se o filme terá forças para chegar até o próximo Oscar. Mas, pessoalmente, acho que ele deveria ser indicado a algumas de suas principais categorias. The Soloist tem qualidade para ser indicado para Melhor Filme, Melhor Roteiro Adaptado e Melhor Ator. A questão seria como estabelecer quem é o ator principal e o coadjuvante nesta produção? Francamente, acho que Jamie Foxx seria indicado como melhor ator porque, ainda que o filme seja narrado por Lopez, o centro da história é mesmo o personagem de Ayers. Se fosse feita a distinção entre a “importância” dos atores para a história, Downey Jr. poderia ser indicado como Melhor Ator Coadjuvante e Jamie Foxx como Melhor Ator – se bem que, se ocorresse o contrário, não seria de se estranhar.

The Soloist pode ainda chegar a competir em outras categorias, como Melhor Trilha Sonora Original, Melhor Fotografia e Melhor Figurino. A dúvida sobre a presença do filme entre os indicados no próximo Oscar reside no fato de que a produção não tem sido tão bem recebida entre os críticos de cinema quanto os seus realizadores gostariam. E ainda que a imprensa não vote no Oscar, ela pode influir para que outros filmes roubem o posto de The Soloist na disputa. Em 2010 vamos descobrir sobre isso. 😉

Junebug – Retratos de Família

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Arte, família e modos opostos de encarar/viver a vida. Junebug nos apresenta uma história interessantíssima sobre um casal que se conhece em uma galeria, em uma noite dedicada à venda de obras de arte “visionárias” mas que, só meses depois, mergulha em uma viagem de autoconhecimento. O espectador viaja com eles para o interior dos Estados Unidos, onde encontramos um artista desconhecido e incompreendido e, ao mesmo tempo, a família que foi a base da criação do nosso protagonista. Um filme dirigido com talento por Phil Morrison que conta com um grupo de atores talentosos, incluindo Amy Adams em um de seus primeiros papéis realmente de destaque.

A HISTÓRIA: A comerciante de arte Madeleine (Embeth Davidtz) bate os olhos em George Johnsten (Alessandro Nivola) em uma noite de venda de obras de arte de um artista “visionário” descoberto por ela e, de maneira involuntária, fica fascinada por ele. Achando George  irresistível, Madeleine começa, naquela noite, uma relação que terminará, pouco depois, em casamento. Perto de completarem seis meses deste matrimônio, Madeleine e George viajam de Chicago, onde moram, até a Carolina do Norte com dois objetivos: o principal, para que Madeleine negocie uma exposição com o artista David Wark (Frank Hoyt Taylor) e, como razão secundária, para que o casal visite a família de George. O choque cultural entre Madeleine, uma filha de diplomata que foi criada em diferentes países e que tem uma visão cosmopolita e culta do mundo e a família do marido, uma representante típica da classe média do Sul dos Estados Unidos, acaba sendo inevitável.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Junebug): Gostei muito do roteiro de Angus MacLachlan e da direção de Phil Morrison. O texto do primeiro faz um contraponto exato entre dois dos vários mundos opostos que formam a nação chamada Estados Unidos. Normalmente, atacamos/discordamos do lado mais “ignorante” dos estadunidenses. Pessoalmente, sigo a tendência de olhar, primeiramente, para este ranço de muitas das pessoas que moram naquele país em só enxergarem o próprio umbigo. Tenho amigos mexicanos – entre outras nacionalidades – que viveram nos Estados Unidos ou próximo deles e que confirmam que a maioria dos estadunidenses ignoram o que acontece no resto do mundo. Lhes interessa apenas o que tem a ver com os Estados Unidos. E, o pior: eles batem no peito sobre a sua própria ignorância.

Mas, depois desta primeira lembrança dos estadunidenses, eu penso nos grandes artistas e cientistas que aquele país produziu e produz, ano após ano, e penso: “Não, só um pouquinho… existem sempre os dois lados da moeda. Grande parte das pessoas que nasceram nos Estados Unidos acredita que o Rio de Janeiro é a capital da Argentina, mas grande parte também está antenadíssima com tudo o que acontece no mundo”. E isso é a mais pura verdade. Grandes diretores de cinema, músicos, pesquisadores em diferentes áreas – inclusive nas minhas, comunicação e sociologia – nasceram nos Estados Unidos e estão aí para comprovar isto. Estou fazendo este discurso para dizer que uma das grandes contribuições do roteiro de Junebug é justamente o de mostrar estes diferentes lados da nação chamada Estados Unidos – e de como, mesmo que na aparência o Norte e o Sul daquele país parece que nunca vai se entender, essa compreensão é sim possível.

MacLachlan escreveu um texto inteligente e sensível, que mistura arte, psicologia, religião e costumes em um grande balaio de referências. E a direção de Morrison exprime do roteiro o que ele tem de melhor, traduzindo suas recomendações genéricas em uma forma muito criativa de apresentar os cenários e os costumes daquelas pessoas – tanto quanto algum dos quadros de um dos artistas visionários procurados por Madeleine.

Francamente, eu respeito o jeito “bruto” de algumas pessoas viverem suas vidas. Como é o caso de Johnny Johnsten (Ben McKenzie), irmão de George. Mas uma coisa é respeitar, entender, outra coisa é compartir das mesmas idéias ou achar que seu modo de vida cheio de complexos mal resolvidos deva ser aceito. Por isso mesmo eu admito que senti medo por uma boa parte do filme. (SPOILER – não leia se você não assistiu a Junebug). Eu podia jurar que algo de ruim ia acontecer com Madeleine. Porque ela, cheia de educação e de sensibilidade, estava super vulnerável a algum ataque de brutalidade naquele ambiente praticamente hostil da casa dos Johnsten. Fiquei com medo, por ela – nem sempre as pessoas sensíveis saem ilesas de ambientes rudes e onde impera a lei do mais forte e o machismo.

O único sopro de esperança naquela família era o de Ashley (Amy Adams), mulher de Johnny, que esperava para dar à luz a Junebug. Certo que, além de “pessoa do bem”, Ashley parecia uma destas garotas obcecadas por artistas, fascinadas por qualquer mulher que escape de seu modelo de vida “garota-que-casa-e-tem-filhos-para-depois-cuidar-da-casa”. Mas descontado esse seu fascínio acrítico em relação a qualquer mulher que seja diferente dela, que tenha feito uma faculdade ou que tenha viajado um pouco pelo mundo, Ashley realmente é uma pessoa aberta ao diferente. O que parece ser impossível para sua sogra, a aparentemente amargurada e “invejosa” Peg Johnsten (Celia Weston). Na verdade, Peg e o marido Eugene (Scott Wilson) interpretam o estereótipo do casal do Sul dos Estados Unidos: ela fala grosso e cuida da casa da mesma forma há 40 anos e ele, um homem de poucas palavras, assume um posto de comando discreto e de pai um tanto ausente na família.

Uma reflexão muito interessante do filme é a de que começamos a conhecer verdadeiramente bem o(a) nosso(a) parceiro(a) quando convivemos um pouco que seja com a sua família. Isso é algo realmente verdadeiro e potente. Pode fazer uma relação caminhar para a frente ou desandar de vez. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Como bem demonstra Junebug, o melhor mesmo é que o novo casal viva distante dos pais do marido ou da mulher. Porque uma convivência estreita, normalmente, acaba sendo um verdadeiro veneno para esta nova família. E isso independente se o casal recém-formado tem ou terá filhos. A grande questão é que modos de vida diferentes que tentam se “sobrepor” um sobres os outros, normalmente, não funcionam. O melhor mesmo é que o casal vá afinando as suas diferenças em paz, com liberdade, sem a interferência de seus progenitores. Esta era uma crença que eu tinha antes e que só foi confirmada com este filme. 🙂

Mas Junebug é uma história cheia de pequenas reflexões jogadas na tela como as cores e as perspectivas em um quadro. Há desde o questionamento sobre as razões que fazem um casamento dar certo – costume? tradição? um filho? paixão? desejo? – até um olhar um pouco mais demorado sobre características da arte moderna pouco compreendidas pelo público em geral. Para alguns, David Wark era um maluco que falava coisas sem sentido e pintava quadros cheios de cenas de guerra, sangue, e a luta de negros contra brancos – não se esqueçam que estamos falando do Sul dos Estados Unidos, onde perdurou por muito tempo a segregação racial. Neste mesmo ambiente, todos aceitavam a atitude de Ashley em engravidar do marido para tentar salvar o casamento. Não importava se ele queria ou não o filho. O que interessava é que a chegada de Junebug, na cabeça de Ashley, poderia fazer a relação deles melhorar. Quem estava mais “louco” nesta história? E que atitude – ou modo de vida – era melhor aceito?

Gostei destes questionamentos do filme sobre os conceitos que são socialmente aceitos e os que não. De forma muito natural e sem discursos, Junebug vai mostrando estas diferenças “de olhar” entre o “mundo” dos Johnsten e o de Madeleine e seus artistas. E o mais bacana é que ninguém é julgado. As realidades apenas são mostradas e, como em qualquer obra de arte, fica com o público a tarefa de tirar suas conclusões. (SPOILER – não leia… bem, você já sabe). Tanto isso é verdade que até a nossa “heróina”, Madeleine, recebe um “pito” perto do final. Mais preocupada em garantir um êxito em sua carreira, ela perde um momento decisivo para a família do marido. Junebug, assim, nos mostra que ninguém pode ser 8 ou 80. Ou, que em outras palavras, não compensa abrir mão de tudo para ser 100% família ou 100% carreira. Talvez o caminho – que é difícil sim, mas não impossível – seja mesmo o equilíbrio. E, claro, paciência para conviver com campos de visão estreitos.

NOTA: 9,5.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Fiquei especialmente impressionada com os trabalhos cuidadosos e deliciosos do diretor Phil Morrison e do diretor de fotografia Peter Donahue. Em muitos trechos do filme fica evidente que este é um dos bons exemplos do cinema independente feito nos Estados Unidos. A sequência inicial, com dois homens “uivando”(?) canções que parecem tradicionais do folclore dos Estados Unidos (ou seriam hinos?) e muitos outros trechos em que a câmera fica estática acompanhando o que acontece naquele cenário “sem pressa” do Sul do país podem tirar muita gente do sério, porque são cenas em que não acontece “nada de especial” – mas justamente são elas que nos mostram uma série de detalhes desta modo de vida. Gostei muito do trabalho de ambos.

Também fiquei impressionada com o alto nível do trabalho dos atores. Mérito deles, claro, mas certamente também do diretor. Amy Adams rouba a cena e constrói, com a personagem de Ashley, um pouco da sua aura de “boa moça”. Na opinião de muitos críticos – e com razão – ela está, simplesmente, radiante. Sua interpretação fica em um nível alta desde o primeiro até o último minuto em que ela aparece em cena. Aliás, depois de assistir a esse filme, fiquei pensando no impacto que a atriz vai causar quando resolver interpretar um personagem diferente, quem sabe uma assassina como aquela que fez Charlize Theron dar uma reviravolta na própria carreira em Monster. 😉 Brincadeira. Não imagino Amy Adams repetindo os passos de Charlize Theron, mas acho que em algum momento ela vai querer mudar um pouco essa imagem de “garota-boazinha-e-inocente” que ela parece insistir em cultivar.

De qualquer forma, voltemos a Junebug… Amy Adams está ótima no filme (tanto que ganhou muitos prêmios por esse papel) mas, admito, fiquei especialmente impressionada com o trabalho de Embeth Davidtz e o de Ben McKenzie. Embeth está linda e interpreta com precisão sua personagem. Ao mesmo tempo em que transpira uma aura de mulher culta e sensível, ela não deixa de variar rapidamente entre demonstrações e firmeza e fragilidade. Divina. E Ben McKenzie, ainda que tenha nas mãos o papel de um rapaz rude e “limitado intelectualmente”, ou seja, do “vilão” da nossa história, demonstra maturidade e segurança para encarnar um personagem tão problemático e inconstante. E o Alessandro Nivola… além de ser talentoso, está gatíssimo neste filme (me desculpe o público masculino deste blog, mas é a pura verdade!).

Outro tema curioso de Junebug é o das negociações e o da competição no mercado da arte – algo que alguém de “fora” deste meio, como é o caso da maioria do público e dos interessados no tema, nem sonha. Também achei interessante a maneira com que as “excentricidades” dos artistas são tratadas pela história – ora compreendidas, ora ridicularizadas. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Ficou evidente o mal estar sentido por Madeleine quando David Wark deixa claro que não quer que seus quadros parem com judeus. O mesmo artista que é capaz de fazer obras “visionárias” sobre questão como a do racismo de brancos contra negros é racista em relação aos judeus. Interessante paradoxo. E mais um exemplo de como o roteiro de MacLachlan é inteligente e não fecha nenhuma questão sobre o estereótipo de “bandidos” e “mocinhos”.

Falando em artistas, uma curiosidade para quem gostou das obras do personagem de David Wark no filme: seus quadros são de autoria, na verdade, da artista Ann Wood.

Para os que gostaram da trilha sonora pontual de Junebug, formada basicamente por composições clássicas (com exceção da música que dos créditos iniciais e finais), ela é de autoria de Yo La Tengo. A edição do filme, bem feita, é de Joe Klotz.

A sequência das frases mais interessante do filme foi escrita para o ator Scott Wilson. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Fiquei arrepiada quando ele responde à Madeleine sobre a esposa, Peg – depois que Madeleine comenta que a sogra tem uma “personalidade forte” (um eufemismo para o jeito rude da mulher): “É sua forma de falar. No fundo ela não é assim. Ela se esconde. Como a maioria”. Palmas! Na verdade, Junebug reflete um bocado sobre este “modus operandi” de grande parte dos personagens do filme. Um jeito de ser e de agir que prima por esconder os sentimentos por trás de uma capa de silêncio, ausência ou uma maneira rude de atuar. Acredito que a forma franca de agir, falar e demonstrar os sentimentos, como é o caso de Madeleine e Ashley, seja a exceção de uma regra – que funciona na vida real também.

Junebug teve uma trajetória premiada: recebeu 16 prêmios e foi indicado ainda a outros 11 – incluindo uma indicação ao Oscar como atriz coadjuvante para Amy Adams. Aliás, a atriz foi a pessoa que mais recebeu prêmios por este filme: um total de 11. Para muitos críticos, ela deveria ter recebido, já em 2006, o seu primeiro Oscar – ela perdeu a estatueta para Rachel Weisz por seu desempenho em The Constant Gardener.

(SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). No final de Junebug, o casal de protagonista volta de carro para Chicago. Eles teriam tempo para falar e processar tudo que havia ocorrido na Carolina do Norte – afinal, até chegar em casa, eles teriam pela frente aproximadamente 1,2 mil quilômetros ou algo em torno de 13 horas de viagem segundo um trajeto que tracei no Google Maps.

Junebug estreou em janeiro de 2005 no Festival de Sundance. Depois, em maio, ele passou por Cannes. Nos cinemas brasileiros ele estrou em 2006 mas, antes, em setembro de 2005, ele passou no Festival Internacional de Cinema do Rio de Janeiro. Acertadíssima a escolha dos produtores em intercalar a estréia do filme em festivais importantes e em distintos mercados pelo mundo.

Falando em mercados, Junebug arrecadou, apenas nos Estados Unidos, pouco mais de US$ 2,6 milhões – uma quantidade previsível para uma produção considerada independente. Acumulando com a bilheteria no restante dos países, o filme chegou a faturar quase US$ 3,4 milhões – pouco, convenhamos.

Os usuários do site IMDb deram a nota 7,1 para o filme. Os críticos que tem textos linkados pelo site Rotten Tomatoes foram mais generosos: dedicaram 105 textos positivos e apenas 16 negativos para Junebug, o que lhe rende uma aprovação de 87%. Gostei deste texto do crítico Mark Bourne (em inglês) do Film.com no qual ele faz uma análise extensa do filme, destacando as interpretações de Amy Adams e de Scott Wilson. Ele destaca ainda o trabalho do diretor e do roteirista, comentando que o primeiro “traz para o material um olhar a favor de ressonantes metáforas e ambiguidades” e, o segundo, um “ouvido cuidadoso para os diálogos” das pessoas da Carolina do Norte, onde ele teria se formado na escola dramática local. Bourne destaca ainda a capacidade do filme em deixar muitas lacunas em aberto – para serem preenchidas pelo espectador – e a sua vocação por “entregar-nos pequenos enigmas”, como aquele da cena em que Eugene esconde de Madeleine, pouco depois de pensar em mostrar-lhe, um pássaro que esculpiu.

O roteirista Angus MacLachlan estava 15 anos sem lançar um filme escrito por ele. Depois do sucesso de Junebug, ele voltará à cena em 2010 com Stone, um filme dirigido por John Curran (de The Painted Veil) cheio de grandes atores no elenco. Entre os protagonistas, destaque para Robert De Niro, Edward Norton e Milla Jovovich.

CONCLUSÃO: Um filme que começa em uma galeria de arte e termina em um carro que vai cruzar boa parte dos Estados Unidos de Sul a Norte. Junebug é destas produções do cinema indepente dos Estados Unidos que traz novos ares para a arte mais exportada daquele país. Bem escrito, bem dirigido e com atuações inspiradíssimas, Junebug reflete sobre diferentes maneiras de encarar a vida e de lidar com os problemas do cotidiano. De um lado, temos artistas e a uma protagonista habituada a conviver e a respeitar diferentes culturas; do outro lado, uma família de classe média do Sul dos Estados Unidos, “limitada” a uma forma de vida que significa ter filhos, estudar pouco e frequentar sempre a Igreja. O choque destas realidades, a convivência entre os diferentes e a falta de definição entre “mocinhos” e “bandidos” são determinantes neste filme sensível e cuidadoso, que fala de arte, diferenças culturais e famílias.

SUGESTÕES DE LEITORES: Seguindo o meu desafio de colocar, pouco a pouco, a lista de indicações dos leitores deste blog em dia, cheguei até a Junebug. O filme foi indicado pela Manuella no dia 27 de dezembro do ano passado. Grande, grande dica de filme, hein Manu? Eu adorei. Estava precisando mesmo ver um filme bom, depois de uma sequência de filmes “medianos”. Valeu mesmo! E agora espero que você reapareça, porque andas meio sumida, hein? Meu próximo filme será uma produção deste ano, estrelada por dois atores de primeiríssima linha. Estou ansiosa para assistí-lo. Logo mais, comento dele por aqui. Inté!