The Beguiled – O Estranho Que Nós Amamos

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Uma época de conflitos, de incertezas, o exato momento em que uma nação está se perguntando que tipo de futuro ela quer para si. The Beguiled nos transporta para o meio da Guerra Civil americana para nos fazer pensar em questões como a perda da inocência e o tipo de limite que uma pessoa aceita transpassar – e ensina outras a fazer o mesmo. Mais um filme belo, com direção de fotografia irretocável, e que leva a assinatura da diretora Sofia Copolla. Mais uma vez ela nos faz pensar que a beleza estética nem sempre encontra sintonia com a beleza “interior”. Um filme bonito, com interpretações competentes e que surpreende pelas mensagens intrínsecas e desconfortáveis.

A HISTÓRIA: Em meio a muitas árvores, ouvimos alguém cantarolando. Logo percebemos que se trata de uma garota. Vemos a natureza, ouvimos a voz da menina e passos antes de identificar alguém. Em um longo e belo caminho rodeado de árvores, a névoa ocupa parte do cenário que logo vai dar espaço para Amy (Oona Laurence). A menina está colhendo cogumelos na floresta, tranquilamente, até que ela encontra um “ianque”. O cabo McBurney (Colin Farrell) se apresenta e pede ajuda para Amy. A menina o ajuda a chegar até a escola onde ela e mais quatro meninas estão sob os cuidados de Miss Martha (Nicole Kidman) e Edwina (Kirsten Dunst). A chegada dele vai mudar a rotina do lugar definitivamente.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a The Beguiled): Eu gosto de filmes de época. Eles nos apresentam um tempo que não vivemos mas que, de alguma forma, segue influenciando os nossos dias. Nesta produção, voltamos para o ano de 1864, três anos após o início da Guerra Civil nos Estados Unidos, como o roteiro de Sofia Coppola, baseado no roteiro de Albert Maltz e de Irene Kamp e que tem o livro de Thomas Cullinan como fonte de inspiração, bem sinaliza logo no início da produção.

A diretora e roteirista, mais uma vez, demonstra como têm talento para nos apresentar histórias envolventes e particularmente belas. Sofia Coppola parece, a cada filme, construir uma carreira que agrada aos olhos na mesma medida em que questiona o que o conceito de belo esconde. The Beguiled faz isso. Ao mesmo tempo em que temos um visual fantástico a cada minuto da produção, com cenas cuidadosamente “pintadas” pela diretora, somos apresentados para uma história que pode parecer simples, na aparência, mas que guarda alguns questionamentos interessantes.

Antes de falar da história propriamente dita, vamos comentar os pontos fortes da produção. The Beguiled se destaca, como outros filmes de Sofia Coppola, pela direção de fotografia. A diretora, que sempre demonstra ter bom gosto, conseguiu com o diretor de fotografia Philippe Le Sourd encontrar o tom perfeito para retratar aquela época e para agradar aos mais exigentes críticos do elemento estético de um filme.

Algumas cenas, como quando as mulheres/garotas do filme estão rezando ou quando elas vão fazer uma apresentação de música, são uma verdadeira obra de arte. Aquelas sequências fazem o espectador habituado com museus a pensar em quadros de grandes pintores. Realmente o visual do filme é o seu elemento de destaque. Depois, temos os figurinos de época maravilhosos assinados por Stacey Battat. Quando assistimos a um filme do gênero, a expectativa é sempre de encontrarmos figurinos impecáveis, e isso é o que encontramos em The Beguiled.

Além destes elementos, devo destacar o competente trabalho feito com o elenco. Todos que aparecem em cena – e o núcleo da produção é reduzido – estão bem, mas eu destaco as interpretações de Nicole Kidman como a diretora do colégio, Miss Martha; de Elle Fanning como Alicia, uma das estudantes mais velhas e a mais “atiradinha”; Oona Laurence carismática e convincente como Amy, a menina que encontra o soldado inimigo; e até Colin Farrell, que já nos apresentou algumas interpretações questionáveis, nesta produção consegue se sair muito bem.

Estes são os pontos positivos da produção. O roteiro de Sofia Coppola, baseado na adaptação anterior da obra de Cullinan e que foi estrelada por Clint Eastwood no filme homônimo de 1971, também é um dos pontos fortes. Claro que não temos nenhuma grande surpresa na narrativa, e o filme gasta um tempo considerável naquele repetitivo jogo de “sedução” entre o único homem do pedaço e o seu pequeno “harém”. Honestamente, o filme poderia até ter uns 10 minutos a menos – mas se agradece, de qualquer forma, por ele ter 1 hora e 33 minutos de duração e não duas horas.

Digo isso porque esta história realmente deve ser mais curta – até para que ela não se torne chata e excessivamente repetitiva. Afinal, não temos “grandes” acontecimentos em cena. Resumindo, um soldado inimigo é resgatado por uma garota e levado para a escola dela para ser tratado por “misericórdia”. As duas mulheres adultas, as três adolescentes/pré-adolescentes e as duas crianças que vivem naquela escola de forma isolada enquanto o país se fragmenta por causa de uma guerra civil ficam mexidas com aquela presença masculina imprevista.

Como em outras produções de Sofia Coppola, aqui novamente nós temos o tema do amadurecimento e da perda da inocência. Interessante como The Beguiled aborda a quebra da rotina e da paz com a chegada de um elemento inusitado. Na vida mesma, sem pensar especialmente na Guerra Civil americana, volta e meia somos testados por acontecimentos imprevistos. E como respondemos a estes testes é o que faz uma grande diferença. Isso está presente nesta produção também.

Mas voltemos um pouquinho para falar da história específica de The Beguiled – antes de falarmos da “filosofia” por trás desta produção. Ainda que a escola que é o centro da produção estivesse um tanto isolada e “protegida” da disputa entre os soldados do Sul e do Norte, as sete mulheres/garotas que ali viviam não estavam realmente alheias ao que acontecia. Cada uma delas tinha um “partido” na questão – o do Sul, claro, onde elas tinham sido criadas e de onde elas vinham – e, além disso, havia uma certa “tensão” no ar.

Isoladas, sem poder voltarem para as suas famílias – ao menos as estudantes, porque Miss Martha era dona daquela propriedade -, as garotas aguardavam o fim do conflito e a vitória do Sul para poderem retomar as suas vidas. Enquanto isso, elas tentavam manter a rotina o mais “normal” possível enquanto rezavam para não serem descobertas por soldados sem escrúpulos. The Beguiled mostra muito bem o “espírito” do povo do Sul dos EUA naqueles dias… pessoas muito religiosas mas que, ao mesmo tempo, defendiam algo absurdo como a escravidão.

E aí entramos nas questões que The Beguiled trata em suas entrelinhas e que nos provocam um sério desconforto quando a produção termina. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Acho que a questão mais importante levantada pelo roteiro de Sofia Coppola e que me fez pensar logo na saída do cinema foi sobre que educação Miss Martha estava dando para aquelas garotas. Chama muito a atenção que a ideia dos cogumelos venenosos tenha vindo de uma das garotas mais “inocentes” do grupo, Marie (Addison Riecke).

Curioso que aquelas meninas aprendiam francês, assim como bons modos, sabiam se virar na costura e na horta, rezavam, estudavam e trabalhavam todos os dias e que, ao serem confrontadas com um perigo, tivessem na saída do assassinato a sua opção mais “coerente”. Como elas chegaram nisso? Como hoje tantas pessoas encontram na violência e na morte de outras pessoas a saída para os seus próprios conflitos e medos? Talvez estas sejam as questões mais relevantes deste filme.

De forma sutil, mas muito dura, Sofia Coppola nos faz questionar as “boas pessoas” que existiam naquela época e hoje em dia. Afinal, ninguém poderia falar uma palavra conta aquelas sete mulheres/garotas da escola sulista americana. Assim como muitos hoje vestem a camisa de “gente do/de bem” mas, quando têm uma oportunidade, caem no caminho fácil de pensar em si próprios primeiro. Sim, é verdade que o cabo McBurney perde o controle e parece uma figura ameaçadora. Mas será mesmo que elas não poderiam ter esperado um pouco mais e lidado com o problema de outra forma?

Alguns filmes, como o interessantíssimo Hacksaw Ridge (comentado aqui), nos mostram com muita propriedade, e tendo uma história real como base, que é sempre possível escolher “não matar”. Mesmo que a sua vida esteja em risco, você pode escolher este caminho. Por isso mesmo chama muito a atenção – e cria um grande desconforto – a forma “natural” com que aquele grupo de garotas do Sul dos Estados Unidos resolvem acabar com uma vida que, antes, elas tinham decidido “salvar”.

The Beguiled nos joga na cara o conceito de “coisificação” das pessoas. Elas interessam enquanto podem nos ser “úteis”. Quando isso não é mais assim, elas podem ser descartadas. Isso lhes soa atual? Sim, realmente é. O cabo McBurney era uma atração para aquelas mulheres e garotas. Para as adultas, especialmente Miss Martha e Edwina, ele poderia se converter em um “bom partido”. Claramente existe tensão e atração sexual entre os três, em um tipo de “triângulo amoroso” bastante sugerido durante a produção.

Além de Miss Martha e Edwina, a outra peça mais próxima da conquista amorosa é Alicia. A adolescente, bastante ousada para a época, sabe mexer com o “soldado inimigo” e flerta com ele sempre que tem uma oportunidade. As outras meninas, mais jovens, também ficam ouriçadas e/ou interessadas, mas nada que chegue ao ponto de criar uma “tensão sexual” com o único homem do pedaço. Então McBurney é interessante para aquele grupo, até que ele passa a ficar violento e fora do controle e aí ele já passa a ser descartável. Era essa a sociedade que o povo do Sul estava realmente defendendo naquela guerra?

Como pessoas que se dizem religiosas, que rezam todos os dias e que defendem a misericórdia podem orquestrar e executar um plano de assassinato de forma tão “natural”? O comportamento das garotas no jantar derradeiro e a calma com que elas lidam com a situação no dia seguinte fazem pensar. No fim das contas, o Sul perde a guerra. Mas até hoje o que eles defendiam e o que vemos no filme persiste em diversas partes – não apenas nos Estados do Sul daquele país.

Nem todos conseguem ser coerentes, mas a busca por um pouco mais de coerência poderia ser um bom objetivo a ser perseguido, não? Este filme, tão belo e com ótimas interpretações, nos deixa um gosto amargo e um tom de certa perplexidade no final. Causa desconforto. E que bom que é assim. Sofia Coppola nos mostra, mais uma vez, que as aparências enganam e que mais do que bons modos, deveríamos aprender a ser boas pessoas. Do tipo que realmente defende a misericórdia e o perdão e não do tipo que vê no assassinato de alguém uma saída para uma situação de medo ou perigo. Sempre existe uma alternativa, inclusive para o status quo. Basta querer encontrá-la e pagar o preço por isso.

NOTA: 9.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: The Beguiled têm um apelo estético fortíssimo. Antes, na crítica, eu já comentei as suas principais qualidades: a maravilhosa, belíssima direção de fotografia de Philippe Le Sourd e os figurinos igualmente maravilhosos de Stacey Battat. Mas há outros elementos que fazem toda a diferença para a produção. Destaco, neste sentido, o design de produção perfeito e lindo de Anne Ross; a direção de arte igualmente perfeita de Jennifer Dehghan; e a decoração de set de Amy Beth Silver. Esse trio faz um trabalho impecável, assim como os anteriormente citados.

Vale também comentar a bela trilha sonora de Laura Karpman e de Phoenix, e a competente edição de Sarah Flack. Notaram, aliás, a “supremacia” feminina. Interessante. 😉

Importante para a produção o trabalho do time de oito profissionais responsáveis pela maquiagem do elenco. Para algumas atrizes, essa maquiagem foi fundamental – assim como para Colin Farrell e as feridas de seu personagem. Vale também falar do importante trabalho da dupla Joseph Oberle e Wilson Tang nos efeitos visuais – que ajudaram a nos situar na época da Guerra Civil americana – assim como o departamento editorial que trabalhou com diversas restaurações digitais.

Os destaques do elenco, para mim, volto a comentar, foram Nicole Kidman – há tempos eu não via a atriz tão bem em um papel no cinema -, Elle Fanning e Colin Farrell. E olha que eu acho ele, muitas vezes, “canastrão”. Mas neste filme ele está muito bem – como há tempos eu não via também. Outra figura muito interessante foi Oona Laurence. Ainda que estes sejam os destaques, não dá para negar que fazem um bom trabalho Kirsten Dunst – me surpreendeu um pouco como ela “envelheceu” -, Addison Riecke, Angourie Rice (que interpreta Jane) e Emma Howard (que interpreta Emily). Elas fecham a lista das “sete” mulheres/garotas que vivem na casa e que abrigam o soldado inimigo.

O foco da produção são as garotas e o soldado que aparece em cena para mudar a rotina delas. Mas existem algumas outras figuras que fazem rápidas passagens na história e que merecem ser citadas, como Wayne Pére como o capitão confederado que passa pela escola; e Matt Story e Eric Ian como dois soldados confederados que também passam por ali.

The Beguiled estreou em maio de 2017 no Festival de Cinema de Cannes. Até agosto, a produção participou ainda de outros 10 festivais em diferentes países. Nesta trajetória o filme conseguiu conquistar quatro prêmios e foi indicado a outros 10. Os prêmios que a produção recebeu foram o de Melhor Diretora para Sofia Coppola no Festival de Cinema de Cannes; e Melhor Roteiro Adaptado, Melhor Direção de Fotografia e Melhor Elenco no INOCA (International Online Cinema Awards). O prêmio para Sofia Coppola em Cannes teve um gosto especial porque foi a primeira vez em 50 anos que uma mulher ganhou como Melhor Direção – e na história da premiação, esta foi apenas a segunda vez que uma diretora conquistou esta honraria.

Talvez alguém que tenha gostado muito do filme possa se perguntar porque eu não dei uma nota maior para The Beguiled. Eu explico. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Ainda que o roteiro seja bem escrito, que o filme tenha boas interpretações e que o visual da produção seja ótimo, achei um tanto forçada a barra quando McBurney “perde a cabeça” e a consequente “solução” que seis das sete mulheres dão para o caso. Também um tanto estranha a forma com que ele se acidenta e um pouco arrastada a história em alguns momentos. Muitos antes do filme mudar de tom radicalmente, o espectador já espera que algo ruim vá acontecer – e isso não ajuda, exatamente, a produção a se sair melhor. Isso faz com que o filme, mesmo que seja bom, não seja inesquecível ou realmente marcante. Ele é bom, apenas isso.

Agora, aquelas rápidas curiosidades sobre a produção. A diretora Sofia Coppola pediu para a atriz Kirsten Dunst perder peso para o seu papel, mas a atriz se recusou dizendo que desprezava este tipo de preparo e que ela tinha acabado de sair de uma dieta feita para o filme Woodshock. Talvez tenha sido isso que me surpreendeu um pouco na atriz. Muitas vezes não sabemos que as atrizes que acompanhamos são colocadas em “regimes” para aparecer em cena… e como estou acostumada a ver Kirsten Dunst mais magra, talvez este tenha sido um ponto na presença dela em cena que me surpreendeu. Seria interessante vermos os atores mais em suas formas costumeiras, não?

Quando escreveu o roteiro de The Beguiled, Sofia Coppola tinha já a atriz Nicole Kidman para o papel principal. E após trabalhar com ela, Coppola disse que realmente a atriz é única, sendo capaz de apresentar cinco sentimentos diferentes em uma sequência. Ela tem razão. Nicole Kidman está em grande forma nesta produção. Para a nossa sorte. 🙂

Eu assisti a alguns trechos do The Beguiled de 1971 e algo me chamou a atenção: como uma personagem do filme original – e fiquei sabendo depois, da obra de Thomas Cullinan também – foi cortado da versão de Sofia Coppola. Essa personagem é Hallie, uma escrava negra que tem um papel importante nas obras originais. Segundo Sofia Coppola, ela decidiu cortar a personagem da sua versão porque ela considera o tema da escravidão muito sério e ela não queria tratá-lo de forma “suave”, por isso ela resolveu focar a história nas demais personagens da escola que estavam isoladas “do mundo”.

The Beguiled foi rodado em apenas 26 dias na Louisiana, em locais como a Madwood Plantation, em Napoleonville.

Este é o segundo filme de Elle Fanning com Sofia Coppola e a quarta produção que a atriz Kirsten Dunst faz com a diretora.

Colin Farrell e Clint Eastwood, atores que interpretaram o personagem do soldado ianque, fazem aniversário no mesmo dia, 31 de maio.

De acordo com Sofia Coppola, esta produção não é uma refilmagem do The Beguiled de 1971 e sim uma adaptação do romance de Thomas Cullinan.

Este é o primeiro filme de Sofia Coppola que não é produzido ou coproduzido pelo pai dela, Francis Ford Coppola. Ou seja, ela está desmamando. 😉

Esta versão de The Beguiled, assim como a de 1971, foram filmadas em Louisiana. Ainda assim, a produção de Sofia Coppola afirma que a história se passa na Virginia – e o romance que originou os dois filmes se passa no Mississippi.

The Beguiled teria custado US$ 10,5 milhões e faturado, apenas nos Estados Unidos e até o dia 10 de agosto, quase US$ 10,6 milhões. Nos outros mercados que o filme já estreou ele fez outros Us$ 5,3 milhões. Ou seja, está caminhando para cobrir os seus custos e começar a dar lucro.

Se você, como eu, ficou interessado(a) em refrescar um pouco a memória sobre a Guerra Civil americana, vale dar uma olhadela neste resumo do site História do Mundo e também neste link da Wikipédia que explica a origem do termo “ianque” – que é citado no filme em mais de uma ocasião para identificar o personagem de Farrell.

Os usuários do site IMDb deram a nota 6,9 para esta produção, enquanto que os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 181 críticas positivas e 49 negativas para o filme, o que lhe garante uma aprovação de 79% e uma nota média de 7,1. Especialmente a nota do Rotten Tomatoes chama a atenção – é bastante boa para o padrão do site.

Este filme é uma produção 100% dos Estados Unidos – por isso ele atende a uma votação feita há tempos aqui no blog e pela qual vocês pediam críticas deste país.

Volta e meio eu comento sobre os títulos dos filmes. A versão para o Brasil, a mesma da produção homônima de 1971, é para acabar… achei o título horrível. Nada a ver, mas tudo bem. O título original, The Beguiled, poderia ser traduzido para algo como “O Seduzido”. Também não é o melhor dos títulos, mas pelo menos achei melhor do que a versão para o Brasil.

CONCLUSÃO: A diretora Sofia Copolla segue em sua jornada de nos fazer questionar o que é belo e o que é puro. Os seus filmes, a exemplo deste The Beguiled, nos apresenta uma fotografia maravilhosa. Um deleite para os olhos. Mas o que se esconde além das aparências? Em The Beguiled descobrimos que uma escola de moças estudiosas e religiosas pode esconder bons princípios que não resistem à tentação ou a uma simples ameaça do “status quo”. Aquela escola representa muitos outros grupos e coletivos e, porque não dizer, a própria sociedade. Um filme muito bem acabado, tecnicamente, e que ainda surpreende por apresentar uma história com tanto desconforto e questionamentos sob “a pele”. Vale assistir, ainda que não seja o filme que vai mudar a sua vida. 😉

Hymyilevä Mies – The Happiest Day in the Life of Olli Mäki – O Dia Mais Feliz da Vida de Olli Mäki

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Qual é a medida do sucesso? Afinal de contas, o que significa vencer? O simples, belo e interessante Hymyilevä Mies (The Happiest Day in the Life of Olli Mäki no título internacional) nos apresenta estas questões de forma muito sutil. Enquanto alguns poderiam encarar o circo que orbita uma grande conquista como o ápice da trajetória e de tudo que eles fizeram, outros como o protagonista deste filme encontram sentido muito além daqueles holofotes e daquela pressão por resultados e apertos de mãos. Eis um filme singelo e muito, muito eficaz em sua mensagem. Uma grande produção que mereceu sim avançar na lista dos indicados ao Oscar de Melhor Filme em Língua Estrangeira em 2017.

A HISTÓRIA: Olli Mäki (Jarkko Lahti) entra devagar no vagão do trem. Ele observa tudo, com atenção. Corta. Olli tenta fazer o carro pegar, e consegue fazer isso acionando o afogador. Ele retira as crianças do automóvel e parte para se encontrar com Raija Jänkä (Oona Airola). Ele percorre um bom caminho passando por bosques até que chega na casa de Raija. Ele cumprimenta o pai da garota e outras pessoas da família até que encontra Raija, que lhe diz que eles vão a um casamento. Durante a cerimônia, vários homens pergunta para ele sobre o seu peso e sobre a categoria em que ele vai disputar o cinturão de boxe. Em breve ele tentará fazer história em uma luta contra um norte-americano.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Hymylevä Mies): Este é um filme simples. Uma história de amor, no fim das contas, ambientada nos anos 1960. O protagonista é um lutador de boxe mas, pelo apelido que lhe deram, antes de assumir as luvas ele trabalhava como padeiro. Ou seja, ele não dedicou a vida inteira para a carreira de pugilista – foi amador durante boa parte da “carreira”, na verdade.

Com os pés bem estabelecidos no chão e vindo do interior, Olli Mäki é um sujeito simples que se vê enredado em uma trama de expectativas e de aparências que orbitam sobre a disputa de um título mundial de boxe. Logo nos primeiros minutos do filme, alguns elementos desta produção nos chamam a atenção. Para começar, a maravilhosa fotografia em preto e branco assinada por J.P. Passi.

Essa fotografia nos ajuda a não apenas nos transportamos para aquela época na qual a história se passa mas, principalmente, a focarmos no que realmente interessa – evitando as “distrações” das cores. Percebemos melhor, com o preto e o branco, as nuances das interpretações e do roteiro. Além disso, até parece que o romance entre Olli e Raija fica ainda mais bonito – e que o filme ganha uma aura de “atemporal”.

Com as distrações dos cenários e do vestuário, que poderiam ser muito chamativos, anulados pela fotografia en preto e branco, nos focamos na ação e nas relações entre os personagens. Como comentei antes, a história de Hymyilevä Mies parece simples. Acompanhamos a trajetória de um pugilista nos dias que antecederam a grande luta “definidora” da sua carreira até então. O treinador e agente dele, Elis Ask (Eero Milonoff), mudou o pupilo de categoria, colocando ele em um peso menor do que ele deveria estar para buscar a sua consagração como campeão mundial pena – tudo porque, aparentemente, ele não queria Olli “rivalizando” com ele próprio, o treinador, que tinha o mesmo peso que Olli quando ainda lutava.

Quando Olli viaja para encarar a reta final do treinamento e fica na casa de Elis, ele leva consigo a namorada Raija. Eles acabam ficando no quarto dos filhos de Elis, em camas separadas, mas a falta de “intimidade” – algo normal para a época – não muda nada para os dois. Apenas a presença de Raija anima Olli para seguir a sua trajetória em busca do cinturão. Ela lembra ao pugilista das suas origens e, mais que isso, o tipo de relação que ele tanto aprecia e que lhe dá sentido. Por outro lado, Elis se esforça em tirar o máximo de proveito da situação, fazendo todo um “jogo de cena” com patrocinadores e apoiadores para conseguir dinheiro.

Como Olli Mäki é o mais novo protótipo de “herói nacional”, ele é chamado a participar de jantares, reuniões e encontros orquestrados pelo agente e que tem como finalidade conseguir mais dinheiro para os dois – especialmente para Elis. Olli participa de tudo aquilo por inércia, mas claramente ele não está satisfeito com aquele circo. A história contada pelo diretor Juho Kuosmanen e pelo parceiro do diretor no roteiro, Mikko Myllylahti, trabalha esta dicotomia entre o que a maioria considera um sonho e o que pode ser considerado o “dia perfeito” pela ótica do indivíduo (e não da maioria). O que é bom para “todos” ou para a maioria pode não ser bom para uma pessoa que usa o cérebro e exerce a sua própria liberdade consciente.

O pugilista que protagoniza esta história deixa se levar pelas circunstâncias – como nós mesmos em tantas fases da nossa vida. Ele agarra as oportunidades que aparecem e ganha suficientes vezes para chegar até o momento que muitos consideram ser o ápice de sua carreira. O agente e treinador dele, ex-campeão de boxe, lhe diz que o dia da disputa do cinturão será o “dia mais feliz de sua vida”. Sob a ótica de Elis, assim como da maioria das pessoas, isso significa que ele vai ganhar e que terá um dia de glória, colocando o seu nome “na história”.

Mas realmente o dia mais feliz de uma pessoa é quando ela ganha um campeonato ou um prêmio que a distingue dos demais? O que este filme demonstra de forma muito natural e singela é que ser “melhor” ou “maior” muitas vezes não é sinônimo de felicidade – até porque é uma ilusão esta ideia de “maior” ou “melhor”.

A felicidade ou a realização não surge destas fontes. Muito pelo contrário. Olli Mäki quer tudo menos ser tratado de forma distinta ou especial. Ele apenas deseja ser igual a tantas outras pessoas que são felizes quando encontram e desfrutam da companhia de alguém que amam (especialmente quando este sentimento é correspondido, claro). Ser comum pode ser algo maravilhoso, especialmente se você desfruta a sua vida cuidando de si e dos outros, olhando cada pessoa nos olhos e se importando com os demais e com o que lhe rodeia.

Incomoda a Olli todo o circo que é montado ao redor da sua disputa. Ele vem de uma longa trajetória como boxeador amador – Elis cita, em uma entrevista, que apesar de Olli ter vencido apenas oito de 10 lutas como profissional, que ele tem um histórico de 300 lutas como amador. Ele não é um principiante, e isso fica claro no comportamento de respeito que ele tem com o esporte e com a sua preparação. Mas ele não gosta de todo aquele “jogo de cena” de adular pessoas, apertar mãos, simular sorrisos e pensar em respostas inteligentes para repórteres e a dupla de documentaristas contratados para acompanhar o novo “herói nacional”.

Ele se cansa de todo este teatro e percebe que a companhia de Raija incomoda Elis. A garota, simpática, sempre bem humorada e inteligente, também percebe como é deixada de lado sempre que possível pelo agente de Olli. Sentindo-se um tanto “peixe fora da água”, ela acaba voltando para casa, para o interior tão desprezado por Elis – e por tantas outras pessoas. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Olli sente a ausência da amada e vai atrás dela. Mesmo correndo o risco de se prejudicar antes da decisão do campeonato mundial, ele não pensa duas vezes em procurar a sua própria felicidade.

Interessante como Hymyilevä Mies se junta a vários outros filmes que nos mostram como a vida é feita de escolhas. Que até podemos chegar a um momento considerado dos sonhos pela maioria, mas que se aquilo não fizer sentido para a gente, de nada vai valer o sacrifício. De forma muito honesta o diretor Juho Kuosmanen apresenta um trabalho de desconstrução do que é considerado o “grande momento” da vida de alguém. (SPOILER – não leia… bem, você já sabe). No fim das contas, quando chega a hora H, tudo o que Olli deseja é que aquilo tudo termine logo. Ele quer se ver livre daquele compromisso, daquela pressão, e voltar para a vida que ele deseja.

Quem de nós não foi “levado pela vida” para situações de “prestígio”, de todos os “holofotes” voltados para nós e, nem por isso, nos encontrávamos satisfeitos. Algumas vezes, quando fazemos um trabalho excepcional e “damos o sangue” para um determinado projeto ou empresa, convites aparecem e acabamos aceitando desafios sem saber exatamente para onde um “não” nos levaria. Isso acontece com o protagonista desta produção. Ele se sai bem como boxeador e vai galgando posições até que chega, pelas mãos de Elis, a uma disputa de mundial.

Quando atinge aquele ponto, contudo, Olli percebe que não era exatamente aquilo que ele desejava. Mas ele não tem mais como fugir e, como Olli é um sujeito ético, ele vai cumprir o peso acordado com o agente/treinador mesmo que aquele peso não era o ideal para ele. Olli se sacrifica e atinge uma condição física deplorável apenas para ficar no peso que o treinador ambicioso estipulou para ele. Tudo que o protagonista quer é terminar logo aquele calvário para que ele possa voltar para a vida tranquila que ele tinha e para desfrutar o anonimato – ou quase isso – ao lado de Raija.

De uma forma bastante singela, mas interessante, Hymyilevä Mies nos mostra que não é um problema nos equivocarmos e deixarmos a “vida nos levar”. Não é ruim quando atingimos um estágio da carreira em que ganhamos evidência para que outros – e poucas vezes nós mesmos – se beneficiem. O problema não estava com Olli, mas com Elis e o circo de aparências ambicioso que se formou ao redor de um desafio da carreira do pugilista. O que seria um problema, naquele cenário, é se Olli se deixasse levar por tudo aquilo e perdesse o foco no que realmente era importante para ele.

Isso acontece com muitas pessoas. Especialmente nos esportes – não são poucos os talentos que saíram de uma carreira amadora no boxe, por exemplo, e se perderam na busca por títulos profissionais. Mas isso também pode acontecer em qualquer área. A falsa sensação de “riqueza”, “poder” ou “prestígio” pode levar as pessoas a cometerem atos absurdos, abjetos. Elas deixam “a vida” lhes levar para caminhos que elas nunca desejariam e a trilhar rotas que, em outras épocas, a “versão mais jovem” e honesta delas lamentaria. É a velha transformação do indivíduo pelo dinheiro, pelo poder ou pela vaidade.

Hymyilevä Mies nos apresenta uma história simples de resistência a tudo isso. O filme de Kuosmanen mostra que outras escolhas são possíveis. Ou seja, a noção de vitória e de êxito pode variar muito e ser muito diferente conforme os valores que colocamos na balança. É bacana um filme que leve este tipo de ponderação a sério sem que estas questões, filosóficas para alguns, sejam abordadas de forma pesada ou pretensiosa. Um verdadeiro alívio para estes tempos em que efeitos especiais a borbotões muitas vezes procuram substituir boas histórias. Isso nunca vai acontecer.

NOTA: 9,3.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Alguns aspectos técnicos de Hymyilevä Mies são de “encher os olhos”, mesmo quando eles não atendem exatamente ao nosso sentido visual. 😉 A qualidade mais “gritante” do filme, como comentei rapidamente antes, é a direção de fotografia de J.P. Passi. Em filmes como esse, ambientado nos anos 1960, faz todo o sentido ter uma fotografia em preto e branco e com uma certa “granulação”. É como se estivéssemos assistindo a um filme feito realmente naquela época. Muito interessante.

A trilha sonora desta produção, mais presente na parte inicial do filme, também é um elemento interessante de Hymyilevä Mies. Mérito do trio Laura Airola, Joonas Haavisto e Miika Snare. Eles ajudam o espectador a se ambientar no início dos anos 1960.

Os figurinos também foram escolhidos a dedo. Um belo trabalho de Sari Suominen. Da parte técnica do filme, vale ainda comentar a competente edição de Jussi Rautaniemi; e o design de produção de Kari Kankaanpää.

Curioso que nos agradecimentos do filme, os produtores e o diretor Juho Kuosmanen agradecem a Olli Mäki e a Raija Mäki. Até observar isso eu não sabia que esta produção era baseada em fatos reais. 😉 Mais uma razão para gostar do filme. Achei interessante como Kuosmanen homenageou o pugilista que “frustrou” uma nação no início dos anos 1960 e que, ao mesmo tempo, simbolizava tantos valores interessantes.

Hymyilevä Mies estreou em maio de 2016 no Festival de Cinema de Cannes. Depois, logo na sequência, o filme participou dos festivais de Munique, Karlovy Vary e Melbourne. Na sequência, a produção participaria, ainda, de outros 24 festivais pelo mundo.

Em sua trajetória, Hymyilevä Mies conquistou 12 prêmios e foi indicado a outros 11. Entre os prêmios que recebeu, destaque para o prêmio “Un Certain Regard” para Juho Kuosmanen no Festival de Cinema de Cannes; para o Gold Hugo na competição para jovens diretores no Festival Internacional de Cinema de Chicago; para o Descoberta Europeia do Ano para Juho Kuosmanen dado no European Film Awards; para o Prêmio de Melhor Filme Internacional no Festival de Cinema de Zurique; e para oito prêmios, incluindo o de Melhor Filme, Melhor Diretor, Melhor Ator para Jarkko Lahti, Melhor Atriz Coadjuvante para Oona Airola e Melhor Direção de Fotografia no Jussi Awards, um tipo de “Oscar finlandês”.

Interessante que este filme não segue o estilo Rocky de ser… Nesta produção o sujeito não fica com o cinturão, com a vitória e com a garota. Respeito Rocky, mas é interessante ver a uma produção que apresenta outra proposta de “final feliz”.

Agora, algumas curiosidades sobre Hymyilevä Mies. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). No final desta produção, Olli e Raija estão caminhando ao lado do porto e passam por um casal de idosos. Raija inclusive pergunta para Olli se ele acha que os dois vão ficar assim, velhos e felizes juntos. Ele responde que sim. O casal de idosos com o qual eles se cruzam são o Olli e a Raija da vida real. Bonitinho, não? 😉

O diretor Juho Kuosmanen assistiu a uma peça sobre a vida de Olli Mäki no teatro de Kokkola em 2011. Na ocasião, o verdadeiro Olli estava na plateia. No final da peça, o diretor de teatro pediu para fazer uma foto com Olli. Foi então que Kuosmanen disse para Lahti que se um dia ele fizesse um filme sobre Olli, o papel principal seria dele. Lahti levou à sério a questão e começou a treinar como boxeador. Ele chegou a disputar algumas lutas oficiais de amadores. Quando Kuosmanen resolveu fazer o filme, ficou óbvio que o protagonista da produção seria Lahti.

Por falar em Kokkola, o diretor Juho Kuosmanen, o produtor Jussi Rantamäki, o ator Jakko Lahti, a atriz Oona Airola e o verdadeiro Olli Mäki, todos são originários desta cidade finlandesa.

Nos testes iniciais para este filme, o uso das cores se mostrou incapaz de capturar o “período de tempo” da história. Por isso o diretor resolveu filmar em 16 mm preto e branco, o que ajudou os realizadores a “esconderem” detalhes modernos através de um “look vintage”. Realmente funcionou.

O apartamento de Elis que aparece no filme é, na verdade, o apartamento onde mora o diretor Juho Kuosmanen.

Por falar no diretor, vale comentar que esta produção é apenas o segundo longa feito por ele. Antes, ele dirigiu a quatro curtas e ao longa Taulukauppiaat, este último de 2010. Ou seja, é realmente um jovem talento que está despontando no mercado. Vale acompanhá-lo.

Os atores principais, assim como a direção interessante de Kuosmanen, o seu roteiro despretensioso e as maravilhosas direção de fotografia e trilha sonora da produção são os pontos fortes de Hymyilevä Mies. Jarkko Lahti e Oona Airola estão ótimos em seus respectivos papéis. Eles convencem e são encantadores, apresentando uma sintonia exemplar. Além deles, vale citar o bom trabalho dos coadjuvantes Eero Milonoff e Joanna Haartti como, respectivamente, Sr. e Sra. Ask – treinar e a sua esposa – e de John Bosco Jr. como o pugilista Davey Moore. Os demais atores fazem papéis de menor relevância.

Hymyilevä Mies foi a produção escolhida pela Finlândia para representar o pais no Oscar 2017.

Aliás, falando no título original desta produção, como eu não falo finlandês 😉 eu fui procurar o que Hymyilevä Mies significa. Em uma tradução livre, o título significaria algo como “O Homem Sorridente”. Interessante, não? O título internacional foi respeitado na tradução para o Brasil, ou seja, “O Dia Mais Feliz da Vida de Olli Mäki”. Achei importante eles terem preservado este título – que, aliás, é muito bom.

Hymyilevä Mies foi totalmente rodado na Finlândia, mais precisamente na cidade de Helsinque, em lugares como a estação de trem central da cidade, o Olympiastadion (Estádio Olímpico), Vartiosaari e Kaivopuisto.

Este filme é uma coprodução da Finlândia, da Suécia e da Alemanha.

Os usuários do site IMDb deram a nota 7,3 para Hymyilevä Mies, enquanto que os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 46 positivas, em um raríssimo exemplo de um filme que obteve aprovação de 100% dos críticos. A nota média dada por eles no site foi de 7,6.

CONCLUSÃO: Para ser profunda, uma história não precisa estar cercada de diálogos difíceis ou de pirotecnia. Muito pelo contrário, Hymylevä Mies surpreende por nos questionar algumas das questões principais da vida. De qualquer um de nós. Afinal, como comentei no início, o que é ter sucesso? O que é vencer? Como se encontra a felicidade. O filme de Juho Kuosmanen nos mostra que não é atingindo o ponto alto de uma carreira, mas sendo coerente consigo mesmo e com os seus próprios sentimentos. Geralmente a vitória passa pelo amor. Seja ele na forma que for. Uma bela produção, feita com esmero e que nos apresenta uma história simples, mas com algumas mensagens potentes.

Lady Macbeth

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O desprezo, o desamor, o tédio e algo que, aparentemente, solucione tudo isso pode levar a uma loucura crescente e a muita, muita crueldade. Lady Macbeth é um filme interessante e curioso. Ele nos mostra como as pessoas são capazes de criar os seus mais profundos infernos pessoais. E como os elementos que eu comentei anteriormente são perigosos, muito perigosos. Um grande filme, com uma atriz estupenda como protagonista e um desenrolar de história meticuloso e que cobra do espectador um grande autocontrole para suportar o abjeto.

A HISTÓRIA: Em uma celebração, Katherine (Florence Pugh) está com um véu branco sobre o rosto enquanto acompanha o canto na pequena igreja. Ela olha ao redor, e vê Boris (Christopher Fairbank) e Anna (Naomi Ackie) atrás. Corta. À noite, Anna ajuda Katherine a se vestir. Ela arruma os longos cabelos da jovem e pergunta se ela está com frio. Katherine diz que não. Anna pergunta se ela está nervosa, e Katherine diz que não.

Ela acaba de se casar com Alexander (Paul Hilton), e esta é a noite de núpcias deles. Alexander tenta ser amável, mas apenas consegue ser estranho e rude. Ele diz que ela não deve sair da casa e manda Katherine tirar a roupa. Na sequência, ele se deita para dormir. Este é apenas o começo da história de Katherine naquela casa e na posição de Senhora Lester.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Lady Macbeth): Nos créditos finais desta produção nós percebemos que o roteiro de Lady Macbeth, escrito por Alice Birch, é baseado no livro de Nikolai Leskov chamado "Lady Macbeth of Mtsensk". Eu não li a obra, já vou me adiantando. Mas mesmo que ela trate de outra personagem, possivelmente uma "versão moderna" da original, impossível não assistir a este filme sem pensar na Lady Macbeth de William Shakeaspeare.

E aí, meus amigos e amigas, esta produção ganha ainda mais interesse. Porque a Lady Macbeth de Shakeaspeare é uma mulher ambiciosa e sem escrúpulos, que influencia o marido para que ele cometa um crime e, com ele, chegue ao poder. É como se ela não tivesse freios ou não fosse capaz de ser parada – pelo menos até o final, quando ela própria tem um desfecho trágico, ao menos na obra de Shakeaspeare. Só que o interessante do filme Lady Macbeth – e imagino que, possivelmente, na obra de Leskov – é que a Lady Macbeth moderna é ainda mais perigosa.

Francamente? Este filme dirigido por William Oldroyd tem cenas fortíssimas e sequências bem sinistras. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). A protagonista da história realmente não tem filtros, freios ou limites para conseguir o que quer. Mas neste filme esta obstinação é elevada a uma nova potência e, diferente da obra de Shakeaspeare, aqui ela não divide a cena com o marido. Não. Muito pelo contrário. Ela é sim a protagonista, e todos os atos importantes da história são tomados por elas. Planejados e executados por Lady Macbeth, sem que ela precise influenciar ninguém – ainda que, e vemos isso bem na história, ela também sabe usar bem as pessoas ao redor a seu favor.

A verdade é que a Lady Macbeth mostrada nesta produção é tão fascinante, complexa e tenebrosa quanto a que inspirou e foi utilizada por Shakeaspeare. Só que, diferente da obra do escritor e dramaturgo inglês, neste filme a dose sinistra ganha uma nova potência. E a questão da consciência da personagem, a culpa que ela sente em Macbeth, não vemos nesta produção. Só que como na obra de Shakeaspeare, neste filme também entendemos que ninguém nasce monstro. Os monstros se formam, se alimentam e crescem se assim o permitimos.

Algo fascinante neste filme, apesar dos crimes hediondos da protagonista, é a forma com que ela vai se libertando da prisão doméstica e vai tomando as rédeas da própria vida. No início, Katherine (a fantástica Florence Pugh) parece uma menina doce, um tanto frágil, bastante pura e até um pouco inocente. A noite de núpcias dela com o novo marido – se é que podemos chamar a noite e aquele homem destas formas – é de arrepiar. Como eu comentei no início deste post, logo percebemos os efeitos do desprezo e do desamor na jovem Katherine.

Inicialmente, parece, ela está morrendo de tédio. Prisioneira daquela casa, ela tenta dormir o máximo possível – o que nada mais é do que uma forma de fuga e de escapar daquela situação absurda. Mas quando o sogro de Katherine, o dono da propriedade, Boris (Christopher Fairbank), afirma que vai passar um tempo fora, assim como o marido dela, Alexander (Paul Hilton), Katherine percebe que pode se der a alguns "luxos". Como sair da porta de casa e explorar o exterior – algo que ela quer fazer desde o princípio.

Esta liberdade que parece simples marca também a liberação da própria Katherine em todos os sentidos. Encontrando outras pessoas, além da empregada Anna (a também ótima Naomi Ackie), Katherine começa a revelar até aonde ela pode chegar. Especialmente quando ela conhece Sebastian (Cosmo Jarvis), um novo e ousado empregado da família, tudo começa a tomar uma outra forma. (SPOILER – não leia… bem, você já sabe). Katherine, livre, leve e solta, sem o sogro ou o marido por perto, resiste por alguns segundos a uma investida diretíssima de Sebastian para, na sequência, logo começar a sua própria liberação sexual.

Então o desprezo, o desamor e o tédio que a estavam consumindo naquele cativeiro doméstico acabam encontrando um certo "antídoto" na paixão que ela desenvolve junto com Sebastian. A vida sexual ativa que ela pretendia com o marido, e que nunca teve, acaba florescendo no contato com Sebastian. Finalmente Katherine se sente livre, em todos os sentidos, e dona da sua própria vida. Mas era evidente que isso não poderia durar para sempre. Em algum momento o sogro ou o marido dela iriam retornar, e aí o que poderia acontecer? Bueno, é exatamente isso que descobrimos em Lady Macbeth.

Diferente da obra de Shakeaspeare, neste filme Katherine é uma Lady Macbeth que, além de manipular para o crime, ela própria é capaz de cometê-lo. Quando ela conhece o prazer e desfruta da liberdade, ela não quer mais abrir mão disso, não importa o que ela tenha que fazer para seguir com estas condições. A personagem é fascinante, e tem uma evolução para a "maldade" impressionante. Na verdade, Katherine encarna de uma certa forma exagerada e trágica a ideia de "empoderamento" feminino.

Quando o sogro e o marido saem da propriedade e dão espaço para ela começar a mostrar a sua personalidade, Katherine aproveita esta oportunidade. Inicialmente, parece, ela está apenas "desfrutando o momento", saboreando o gosto da liberdade pouco a pouco. Mas quando Sebastian aparece em cena de forma provocadora, Katherine se joga em uma paixão que ela desejava, mas parecia antes ter medo de admitir. E depois que a porteira foi aberta… difícil conter a manada.

Lady Macbeth tem algumas cenas surpreendentes, como quando Katherine descobre a "brincadeira" de Sebastian e sua turma com Anna. Aquele é um cenário agreste, por todos os lados para os quais você olhe. Os "donos da casa" são do estilo bruto, um tanto toscos, e Alexander abre mão de ter uma relação razoável com Katherine pelo simples fato de não fazer a vontade do pai, Boris. Os dois são do estilo "rico estúpidos", mas os seus empregados não são melhores. Sebastian dá conta dos desejos da nova patroa, mas ele também não é nenhum poeta, digamos assim.

Naquele cenário de pessoas um tanto brutas, Katherine parece ser um estranho no ninho. Mas ela, logo que tem a liberdade para isso, consegue perceber que pode comandar o lugar com certa facilidade. Ela faz o que bem entende, mesmo que isso signifique "manchar" a sua própria reputação. No início, ela tenta disfarçar um pouco o romance com Sebastian, mas depois o caso deles fica escancarado. Como eu disse antes, um dia isso teria fim, e a escolha de Katherine, já uma pessoa sem limites, é tirar do caminho qualquer pedra que possa atrapalhar a sua missão de continuar livre.

(SPOILER – não leia… bem, você já sabe). Sem nenhum apreço pelo sogro ou pelo marido, ela não tem muitas dificuldades de acabar com os dois. Agora, quando o pequeno Teddy (Anton Palmer) aparece em cena, ela tem as suas certezas colocadas por terra. Para começo de história, ela surpreende por saber que o marido, que parecia não "gostar da fruta", teria tido um filho fora do casamento. Depois, claro que é muito diferente se livrar de uma criança do que de alguns adultos. Neste sentido, diferente da Lady Macbeth de Shakeaspeare, não é Katherine que incita o crime, mas Sebastian. Os papéis se invertem no último crime, mas essa inversão não termina aí.

Enquanto na obra de Shakeaspeare a culpa acaba sendo decisiva para o fim de Lady Macbeth, nesta produção de Oldroyd não existe espaço para a culpa em Katherine. Sebastian sim tem um "rompante" de culpa no final – justamente ele que incitou o último crime… Mas Katherine não. De forma inteligente ela acaba conseguindo virar o jogo a seu favor mais uma vez, e penaliza o seu cúmplice e a inocente (e aparentemente apaixonada por ele) Anna. E cá entre nós, ao menos Sebastian mereceu o desfecho que teve. Achei muita coragem da parte dele fazer a confissão e jogar a culpa em Katherine… gostei da reviravolta que ela conseguiu dar na história.

Esta produção é forte, especialmente pelo sangue frio dos crimes e por um certo sadismo da protagonista. Mas, ao mesmo tempo, este é um filme sobre empoderamento feminino um tanto sarcástico e estrategicamente "exagerado". Ele nos mostra até onde uma mulher pode chegar para tomar as rédeas de sua vida nas próprias mãos. O preço para isso nem sempre é justo, e esta busca pode levar uma mulher à loucura. Como nos apresenta com bastante propriedade este filme cheio de momentos marcantes e de uma e outra surpresa no caminho.

NOTA: 9,8.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Este é um filme marcante. Daqueles que dificilmente vão sair da sua memória por um bom tempo. E isso não por um ou outro elemento, mas pelo conjunto da obra. A história, por si só, impressiona. Pela força narrativa e pela surpresas no caminho. Para uma história assim funcionar, o filme precisa ter ótimos atores, e este é o caso de Lady Macbeth. Além disso, esta produção se destaca por diversos aspectos técnicos.

Vou começar falando da ótima direção de fotografia de Ari Wegner e dos figurinos maravilhosos de Holly Waddington. Estes são dois elementos fundamentais para nos fazer embarcar em uma história que claramente é de época – Lady Macbeth está ambientado em uma propriedade rural inglesa no século 19. Um dos fatores que faz este filme ficar muito tempo na nossa memória é justamente o visual da produção – e a direção de fotografia e os figurinos se destacam neste sentido.

Agora, vale falarmos um pouco mais sobre a história contada nesta produção. Inevitável pensar, como comentei durante a crítica, na obra de Shakeaspeare. Se você ficou curioso para saber mais sobre um dos clássicos do bardo inglês e, especialmente, sobre a Lady Macbeth que ele criou, vale dar uma olhada neste artigo de Maria Ester Vargas e neste texto de Syntia Pereira Alves. Mas importante também observar o que eu citei anteriormente, de que este filme é baseado no livro do russo Nikolai Leskov.

Busquei um pouco mais de informações sobre esta obra dele, e encontrei este texto na Wikipédia. Lady Macbeth do Distrito de Mtsensk foi publicada inicialmente em 1865 – justamente o século 19 – e tratava-se de uma "novela curta". A história foca o papel submisso das mulheres na Europa do século 19, o adultério e a vida provinciana. A protagonista, como vemos no filme (SPOILER – não leia se você ainda não assistiu a Lady Macbeth), rompe com o papel de mulher submissa ao rebelar-se contra aquela situação tendo um amante, planejando e executando assassinatos.

Além da novela curta lançada em 1865, a obra de Leskov inspirou uma ópera homônima lançada por Dmitri Shostakovich em 1934 e o filme Sibirska Ledi Magbet (Lady Macbeth Siberiana) dirigido por Andrzej Wajda e lançado em 1962.

O visual desta produção é um ponto fundamental para o filme dar certo, assim como a direção segura e que valoriza estes elementos e as atuações dos atores feita por William Oldroyd. O roteiro de Alice Birch também é envolvente, e sabe conduzir a história de uma forma com que os espectadores se sintam parte daquele enredo e um tanto angustiados com o que acontece com a protagonista que parecia tão inocente e que se transforma com o passar do tempo.

Ainda que o filme tenha todas estas qualidades, ele não seria nem uma sombra do que ele é se não tivesse uma grande atriz no papel principal. Florence Pugh surpreende como Katherine. O papel dela não é fácil, mas a atriz consegue dar o tom exato para a sua personagem em cada fase. Ela nunca perde totalmente a inocência, mas de forma muito sutil a atriz vai desvelando as outras facetas de Katherine. Uma grande interpretação, sem dúvidas. Um dos pontos fortes da produção.

Para mim, 90% do mérito do filme é de Florence Pugh. Mas, além dela, outros atores fazem belos trabalhos em cena. Destaque, neste sentido, para Naomi Ackie, que faz um excelente trabalho como Anna. Ela é muito expressiva, o que garante que, mesmo na "fase muda", ela se destaque. Também se saem muito bem Cosmo Jarvis, Paul Hilton e Christopher Fairbank, ainda que estes dois últimos tenham quase pontas na produção. Estes são os atores com papéis mais relevantes.

Além deles, vale citar os coadjuvantes Golda Rosheuvel como Agnes, avó de Teddy; Anton Palmer como Teddy, que se diz herdeiro de Alexander; Cliff Burnett como o Padre Peter; e Bill Fellows como o Dr. Burdon.

Entre os elementos técnicos de Lady Macbeth, vale citar ainda a música muito pontual de Dan Jones; a edição de Nick Emerson; o design de produção de Jacqueline Abrahams; a direção de arte de Thalia Ecclestone; e a maquiagem de Claire Pompili, Sian Wilson e May Liddell-Grainger.

Lady Macbeth estreou em setembro de 2016 no Festival Internacional de Cinema de Toronto. De lá para cá, a produção participou de impressionantes outros 34 festivais e mostras de cinema pelo mundo. Sem dúvida alguma eis uma produção com uma bela trajetória de festivais. Merecido.

Serei franca com vocês. Fiquei com vontade de dar um 10 para este filme. Mas achei complicado dar uma nota máxima para um filme tão "sem moral". Sim, ele tem aquele detalhe que eu comentei de uma história de "empoderamento feminino" levado às últimas consequências, um tanto macabra e trágica. Mas ainda assim, é um baita filme. Mas não tive coragem de dar um 10 para ele não. 😉

De acordo com o site Box Office Mojo, Lady Macbeth estreou em 131 cinemas dos Estados Unidos no dia 14 de julho de 2017 e, no dia 6 de agosto, estava passando em apenas cinco salas. Neste período, o filme acumulou pouco mais de US$ 739 mil nas bilheterias, um resultado bem de filme "alternativo" e pouco visto.

Em sua trajetória, Lady Macbeth conquistou 12 prêmios e foi indicada a outros nove. Entre os prêmios que recebeu, destaque para o de Melhor Atriz para Florence Pugh no Prêmio do Círculo de Críticos de Cinema de Dublin; Melhor Atriz para Florence Pugh no Festival Internacional de Cinema de Dublin; o Prêmio Cineuropa para William Oldroyd no Festival de Cinema Europeu Les Arcs; o "Directors to Watch" para William Oldroyd no Festival Internacional de Cinema de Palm Springs; o Prêmio Fipresci para William Oldroyd no Festival Internacional de Cinema de San Sebastián; o Prêmio Fipresci para William Oldroyd no Festival de Cinema de Thessaloniki; e um Prêmio da Crítica e uma Menção Especial para William Oldroyd no Festival de Cinema de Zurique.

Esta é uma produção 100% do Reino Unido. Lady Macbeth também foi totalmente rodado na Inglaterra, em cidades como Northumberland e Chester-le-Street e em locações feitas em Seaham Beach, Cow Green Reservoir em County Durham, e em Gibside, em New Rowlands Gill.

Os usuários do site IMDb deram a nota 7,3 para esta produção, enquanto que os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 120 críticas positivas e 15 negativas para Lady Macbeth, o que garante para o filme uma aprovação de 89% e uma nota média de 7,7. Achei, especialmente, as notas muito boas, acima da média dos site. Merecido, porque este é um dos filmes marcantes de 2017, sem dúvidas.

CONCLUSÃO: Este é um filme que começa suave, quase pueril, e que descamba para o lado mais tenebroso do ser humano. Lady Macbeth é uma aula de construção narrativa. Nos faz pensar sobre o que somos capazes de fazer por amor, ódio, desprezo ou desespero. Difícil classificá-lo. Só sabemos que ele é potente. Tem uma grande construção narrativa, uma direção de fotografia maravilhosa, assim como belos figurinos e uma protagonista irrefreável. Lady Macbeth não é um filme bonito. Como o nome – para quem logo, como eu, pensou em Shakeaspeare – mesmo sugere. E ainda que o filme não tenha uma ligação direta com Shakeaspeare, ele trata sim do espírito humano. Aterrador, envolvente, fascinante. Veja com moderação. 😉

Un Sac de Billes – A Bag of Marbles – Os Meninos Que Enganavam Nazistas

 

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Os filmes sobre a Segunda Guerra Mundial são quase uma constante. Dificilmente passamos muitos anos – ou algum ano? – sem uma nova produção sobre o assunto. As histórias sobre este período lamentável da trajetória da Humanidade não parecem ter fim, e isso é algo positivo. Especialmente porque eu acredito que a memória sobre fatos negativos é algo fundamental para não cairmos nos mesmos erros. Pois bem, Un Sac de Billes se junta a outros filmes sobre a Segunda Guerra Mundial para nos contar uma história interessante e tocante. Desta vez vamos a tragédia sob o ponto de vista de uma família de judeus. Um filme bem conduzido, com uma história impressionante e com atores carismáticos.

A HISTÓRIA: Agosto de 1944. Em uma rua deserta com bandeiras francesas e inglesas, no amanhecer de mais um dia, vemos um garoto descendo uma rua com a Torre Eiffel aparecendo discretamente ao fundo. Joseph Joffo (Dorian Le Clech) corre um pouco e observa tudo ao redor. Ele olha para a fachada da escola em que ele estudou antes de tudo mudar. Observa tudo atentamente e diz que tudo está igual, ainda que tudo pareça menor. Ele se questiona se não foi ele que cresceu. Pensa que se passaram dois anos e meio desde que esteve ali pela última vez. E aí a história volta para o passado, antes de Joseph ter que deixar a sua cidade e se separar de quase todos de sua família.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Un Sac de Billes): Este filme francês tem tudo que Hollywood ama. É uma produção que fala sobre a Segunda Guerra Mundial tratando do absurdo que foi a perseguição dos judeus pelos nazistas e ainda tem uma narrativa contada sob a ótica de uma criança. Sim, parece que não veremos nada de novo por aqui. Mas nem sempre o que precisamos é de uma história nova, e sim de uma narrativa competente.

E isso é algo que o diretor Christian Duguay nos apresenta. Uma narrativa muito competente. Vimos, até o momento, muitos filmes sobre a Segunda Guerra Mundial. Muitos sob a ótima dos filmes de guerra, mostrando diferentes momentos do conflito entre os exércitos e suas nações. Assistimos a filmes de espionagem, a narrativas que enfocaram a estratégia das nações e uma e outra abordagem sobre a população envolvida no conflito. Também encontramos algumas histórias que focaram crianças e as suas óticas sobre o conflito.

Apesar deste terreno ter sido bem explorado, precisamos admitir que Un Sac de Billes tem uma narrativa bastante competente. Um dos principais méritos do filme é o desempenho do elenco escolhido com perfeição. Todos os atores estão ótimos, começando pelas crianças e seguindo para os adultos. O elenco é carismático e tem a sua interpretação valorizada pela lente sempre atenta de Duguay. Ele faz um trabalho muito competente e utiliza diferentes planos para sempre valorizar as interpretações e também o entorno pelos quais os personagens se movimentam.

As cidades são importantes, os caminhos percorridos, mas as pessoas estão sempre no centro da história escrita a cinco mãos. O roteiro original de Jonathan Allouche e Alexandra Geismar teve adaptação de Christian Duguay e Benoît Guichard, que contaram com colaboração de Laurent Zeitoun. Todos trabalharam sobre a história contada no livro de Joseph Joffo – sim, o protagonista deste filme. No final, vemos a ele e ao irmão Maurice (interpretado por Batyste Fleurial) em um café de Paris, onde eles voltaram a viver após o final da guerra.

Este filme tem força porque é baseado em uma história real. Os acontecimentos parecem incríveis e um tanto improváveis, mas foi assim mesmo que muitos sobreviveram na Segunda Guerra Mundial. De forma improvável, quase milagrosa. Un Sac de Billes têm o mérito de nos apresenta a história sob a ótica de pessoas simples, moradores de Paris que passaram a ser perseguidos pelo simples fato de serem judeus. A narrativa conduzida por Duguay nos mostra bem como o terror da perseguição foi crescendo de forma relativamente rápida.

Quando a história retorna no tempo, voltamos para o início de 1942, quando o conflito tinha pouco mais de dois anos. Naquele momento, apenas os estabelecimentos comerciais judeus eram identificados com placas. Joseph e o irmão Maurice ainda conseguem ver o pai deles sendo corajoso com dois soldados alemães que entram em sua barbearia. Mas não precisaria passar muito tempo para que aquela atitude dele não fosse mais possível.

Em maio de 1942 as pessoas começam a ser marcadas também. Vemos ao protagonista e aos seus irmãos tendo estrelas sendo colocadas na roupa para identificá-los como judeus. Alguns começam a hostilizá-los, e este episódio é a deixa para os pais dos garotos – eles eram em quatro irmãos – adotem uma postura muito corajosa.

Roman Joffo (Patrick Bruel) e a esposa Anna (Elsa Zylberstein) sabem que a família aumentará a chance de sobreviver se eles se dividirem. E é desta forma que eles mandam os filhos mais velhos, Henri (César Domboy) e Albert (Ilian Bergala) para o litoral na frente. Em seguida, enviam Joseph e Maurice. Finalmente, o casal também sai de Paris. Eles sabem que, desta forma, fica mais fácil pelo menos parte da família sobreviver. O filme acerta, aliás, ao não revelar, logo de cara, que se trata de uma história baseada em fatos reais. Porque se soubéssemos disso logo no início, iríamos presumir que o protagonista, ao menos, iria sobreviver.

Ainda que isso fique um tanto evidente na produção, é sempre bom manter a dúvida da audiência. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Existem vários momentos de tensão e quando Joseph e o irmão quase são pegos pelos nazistas. Eles sobrevivem por detalhes e pela ajuda de várias pessoas. Un Sac de Billes não alivia ao mostrar muita gente sendo presa e enviada para os campos de trabalho – e depois, de extermínio. Não escapavam adultos, idosos ou crianças. A primeira vez que os garotos escapam de um envio é quando contam com a ajuda de um padre no trem.

Para que o protagonista consiga voltar para Paris em 1944, quando esta produção apresenta os seus primeiros minutos, ele contou, junto com o irmão Maurice, com algumas intervenções fundamentais. Se não fosse a ajuda de dois padres, de um francês que os ajudou a chegar em uma zona livre de conflito, de um diretor de um centro de treinamento juvenil e de um médico que fazia a “triagem” de judeus para os alemães – todos eles sabendo que os garotos eram judeus -, eles não teriam sobrevivido.

Além disso, claro, eles contaram com a sorte e com a própria inteligência. Bem preparados pelos pais – inclusive em uma cena forte em que Roman esbofeteia o filho mais novo para prepará-lo para situações similares -, eles conseguem sobreviver apesar de todas as chances jogarem contra eles. Além das pessoas que eu citei, eles contaram com caronas de motoristas anônimos para chegar até o litoral francês onde, pela última vez, viveram momentos de alegria com toda a família reunida.

Finalmente, depois que tiveram que sair do centro de treinamento juvenil porque tinham o risco de serem pegos lá, eles passaram uma última temporada de sobrevivência contando com a ajuda de pessoas que, na verdade, não sabiam que eles eram judeus. Este é o caso do dono de livraria e vendedor de jornais Amboise Mancelier (Bernand Campan). Ele abriga e dá trabalho para Joseph sem saber que está dando guarita para um “inimigo” – ao menos sob a ótica dele, que era um colaborador dos nazistas. Maurice, por outro lado, é o empregado de um hotel onde vivem pessoas da Resistência.

Os irmãos conseguem sobreviver na última temporada com a ajuda de pessoas muito diferentes, mas que acabam se confrontando no final. Daí Joseph mostra toda a sua grandeza – e o quanto ele amadureceu com aquela experiência aterradora – ao defender Amboise quando ele é atacado após a libertação de Paris pelos ingleses. Impossível não celebrar, junto com o garoto, quando ele vê a manchete do jornal que dá a notícia sobre Paris.

Sim, o filme tem uma boa dose de previsibilidade e uma certa “exagerada de mão” para que o público se emocione com a história. A trilha sonora ajuda nisso, assim como a forma de direção bastante lírica de Duguay em diversos momentos. Mas cá entre nós, qual é o problema também em um filme buscar o nosso lado mais sentimental? Quando isso não é feito com muito exagero, funciona e não atrapalha a história. Considero que os roteiristas envolvidos neste projeto conseguem encontrar o tom exato, assim como os atores, que são muito carismáticos.

Todos convencem. Conseguimos acreditar na história que assistimos, ainda que ela tenha tantos momentos improváveis. Impossível não se deliciar com as peripécias de Joseph e de Maurice para sobreviver. Improvável que alguém também não fique impressionado com a força de cada pessoa daquela família em tentar sobreviver e ajudar ao menos uma outra pessoa da família a conseguir o mesmo. Eles estão sempre em dupla, e isso ajuda nas tentativas de escapar dos nazistas.

Ainda que o filme tenha alguns momentos bem pesados e duros – como quando o pai bate em Joseph e quando o garoto leva um golpe brutal de fuzil no rosto -, estes momentos nos revelam um pouco do absurdo que foram aqueles anos, aquela perseguição, aquele extermínio. Desta vez, diferente de outras produções, temos isso na nossa frente sob a ótica de pessoas comuns. Impossível não se solidarizar com eles.

Algo bacana de Un Sac de Billes é que ele demonstra, com muita propriedade, como a decisão cotidiana das pessoas pode fazer muita diferença, especialmente quando vivemos momentos de exceção nas nossas sociedades. Diversas pessoas que cruzaram o caminho dos protagonistas desta história tomaram a decisão de ajudá-los. Eles poderiam ter “lavado” as próprias mãos, cruzarem os braços e não agirem na hora certa. Tudo poderia ter sido muito diferente se aquelas pessoas não decidissem ajudar. Isso foi muito válido naqueles dias e é até hoje. Pequenos ou grandes gestos de auxílio podem sim fazer a diferença para alguém viver/sobreviver mais um dia. Eis uma mensagem importante desta produção.

Um belo filme, muito bem dirigido e conduzido. Só não é perfeito porque ele segue uma fórmula um tanto batida e já bem conhecida. É previsível, mesmo na “surpresa” final. Mas isso não o torna menos interessante. Como tantas outras produções sobre a Segunda Guerra Mundial, Un Sac de Billes deveria ser visto nas escolas. Para nunca nos esquecermos dos absurdos que um regime totalitário, preconceituoso e violento pode provocar.

NOTA: 9.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: O elenco deste filme é a sua grande qualidade. Fiquei impressionada pelo belo trabalho de todos os atores. Ainda que o elenco todo seja muito bom, impossível não destacar o talento dos jovens talentos que protagonizam esta produção. Dorian Le Clech e Batyste Fleurial como Joseph e Maurice, respectivamente, carregam a produção nas costas. Como eles nos conduzem por toda a história, impossível não ficarmos fascinados pelo carisma dos jovens atores. Eles estão ótimos.

Além deles, se destacam toda vez que aparecem em cenas os experientes atores Patrick Bruel e Elsa Zylberstein, respectivamente pai e mãe dos garotos. Eles também são muito carismáticos e convencem em cada micro detalhe de suas atuações. Estão ótimos. Aparecem menos, mas também fazem um bom trabalho César Domboy e Ilian Bergala, os atores que interpretam os irmãos mais velhos de Joseph e Maurice. Sem dúvida alguma o elenco é o ponto forte da produção.

Os atores que dão vida para a família que é o foco principal desta história são o destaque do filme. Mas o elenco de apoio também foi muito bem escolhido. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). O veterano Christian Clavier faz uma participação importante como o doutor Rosen, uma das pessoas que ajudam os garotos a sobreviver. Também merece ser citado o trabalho de Kev Adams como Ferdinand, um motorista que abastece o centro de treinamento juvenil e que acabamos por descobrir que é um judeu que participa da Resistência; Emile Berling como Raoul, o filho radical do também radical delator Amboise (interpretado por Bernard Campan); Coline Leclère como o “primeiro amor” de Joseph, a bela Françoise, filha de Amboise e de Marcelle (interpretada por Jocelyne Desverchère); Holger Daemgen como o capitão alemão Alois Brunner, oficial que quase dá um fim nos irmãos – eles escapam por pouco de uma armadilha orquestrada por ele.

Da parte técnica do filme, destaque para a excelente direção de fotografia de Christophe Graillot e para a difícil e competente edição de Olivier Gajan. A trilha sonora assinada por Quentin Boniface, Philippe Briand, Hugo Gonzalez-Pioli, Gabriel Saban, Steven A. Saltzman e Anne-Sophie Versnaeyen é bacana, mas poderia ser um pouco menos “protagonista”/sentimental. Destaque também para o trabalho de casting feito por Valerie Espagne e Juliette Ménager – especialmente para a primeira, que ficou responsável pelas crianças. Vale citar ainda o design de produção de Franck Schwartz; a direção de arte de Cécile Arlet Colin; a decoração de set de Jimena Esteve e de Hélène Maroutian; e os figurinos de Pierre-Jean Larroque. Todos fazem um trabalho muito bom e que nos ajuda a voltar 70 anos na História.

Não li o livro de Joseph Joffo, mas imagino que ele deve ser incrível. Assistindo a este filme eu fiquei com vontade de ler a obra original. E gostaria de saber a opinião de alguém que leu o livro para comentar sobre o filme. Será que ele consegue manter bem a “alma” da obra de Joffo?

Un Sac de Billes fez a sua première em Paris em janeiro de 2017. Depois, o filme participou de dois festivais: o de Belgrado, em fevereiro, e o de BCN, em abril. Nesta trajetória, não conquistou nenhum prêmio ou indicação. Também não encontrei informações sobre o custo ou a bilheteria da produção.

O título original em francês, assim como o título internacional da produção, pode ser traduzido como “Um Saco de Clicas”. No Brasil ele recebeu uma tradução bem diferente. Ainda que faça sentido o título original, desta vez eu tenho que admitir que o título brasileiro não é ruim. Apenas entrega um pouco demais da história, não?

Este filme é uma coprodução da França, do Canadá e da República Tcheca.

Os usuários do site IMDb deram a nota 7,3 para esta produção. O site Rotten Tomatoes tem apenas uma crítica para este filme, e ela é positiva.

CONCLUSÃO: Este não é um filme exatamente surpreendente. Especialmente se você já assistiu a várias produções sobre a Segunda Guerra Mundial. Un Sac de Billes pode não trazer muita novidade para esta temática, mas algo temos que dizer sobre este filme: ele é muito bem feito. E atinge os seus objetivos. Para começar, ele se mostra uma competente narrativa sobre a Segunda Guerra através da ótica de pessoas comuns. Depois, o diretor Christian Duguay e o time de roteiristas desta produção acertam no equilíbrio da ação, do drama e da comédia. O espectador é sempre conduzido pela mão em uma montanha-russa de momentos mais “leves” e de tensão. Uma narrativa competente e que fica acima da média pelo talento do elenco. Vale assistir, sem dúvidas.