Home – Lar Doce Lar

Uma casa não é só uma casa. Ela pode ser a história de uma vida, ou de muitas gerações. Abrigar tradições de antepassados remotos, resumir um estilo de vida, servir de porto seguro para quem se assusta com a ventania. E mesmo que uma certa família francesa more em determinada casa há “apenas” 10 anos, este local tem o apelo suficiente para transformá-los radicalmente quando a loucura vem bater à porta. Carregado de humor, de profundidade e de questionamentos que roçam distintas áreas do conhecimento, Home, dirigido por Ursula Meier, ressalta mais uma vez a qualidade do cinema francês. Com um trabalho excepcional de seu elenco, este filme não precisa ir muito além de uma casa para falar sobre questões como liberdade, felicidade, família, loucura, “embrutecimento”, as “invasões bárbaras”, a utilidade e o impacto de “obras relevantes”, o contraste entre distintos modos de vida, entre outros assuntos.

A HISTÓRIA: Uma família, vestida de forma muito peculiar, diverte-se jogando uma espécie de hóquei sobre patins e um asfalto. Em casa, Marthe (Isabelle Huppert) acompanha o filho mais novo, Julien (Kacey Mottet Klein), no banheiro. O garoto vai para a banheira, tomar seu banho, sob a supervisão da irmã mais velha, Judith (Adélaïde Leroux). Em pouco tempo, os irmãos e seus pais, Marthe e Michel (Olivier Gourmet) estão envolvidos em diferentes brincadeiras e jogos. A família parece viver em harmonia e em uma situação idílica até que um par de máquinas e dezenas de homens começam a trabalhar na finalização de uma rodovia que parecia nunca ter perspectivas de ser terminada, perto da casa deles. A partir deste momento, pequenas mudanças vão alterando a rotina da família em um verão escaldante, elevando os ânimos e fazendo com que eles questionem a sua permanência no local, assim como a unidade familiar e a capacidade que cada um tem em preservar a sua própria sanidade.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Home): Os franceses têm uma percepção sobre a liberdade verdadeiramente potente. Esta palavra, para eles, não se resume apenas a uma das três que fazem parte do conhecido lema da Revolução Francesa e que, posteriormente, passou a integrar a Constituição do país e, atualmente, o patrimônio nacional francês. Filmes como Home e os anteriormentes comentados por aqui Welcome e Séraphine – entre tantos outros – apresentam uma reflexão e um questionamento sobre as noções de liberdade que poucas outros cinemas pelo mundo são capazes de fazer.

O que é possível fazer quando o seu Paraíso particular é invadido pelo que alguns chamam de progresso ou “modernidade”? Este é um dos grandes pontos de interrogação levantados por Home. A mesma pergunta poderia ser feita em outros tempos, em outras partes – como em regiões invadidas e colonizadas da América do Sul. Algumas pessoas parecem ter uma resposta na ponta da língua: deixar para trás o local degradado e simplesmente mudar-se para um outro lugar em que as pessoas possam voltar a ser felizes. Mas isto, realmente, é possível? Ainda que a família de Marthe e Michel estivesse há uma década naquela casa com regras muito próprias – o que pode ser considerado pouco tempo por muita gente -, não era apenas a questão da logística de uma mudança que tornava a saída deles de lá tão complicada.

Há quem goste de mudar-se constantemente. Outros, querem viver a vida inteira no mesmo lugar – sem nunca ter saído de “su pueblocito” (povoado). Independente dos gostos pessoais, da dificuldade ou facilidade que uns e outros tem para se adaptar ou criar laços duradouros com pessoas e realidades, o que incomoda e torna a história de Marthe, Michel e seus filhos dramática é o  fator da “obrigação”. A mudança radical que ocorre no entorno daquela casa faz com que a vida, para eles, se torne insuportável. Mas eles resistem, ainda assim. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). E a resistência deles, cada vez mais neurótica, mais problemática, vai minando as relações entre eles e, especialmente, a capacidade de cada um em distinguir o que era aceitável fazer daquilo que era inaceitável e prejudicial.

Fiquei impressionada com a sutileza do roteiro e, especialmente, da direção de Ursula Meier. Seguindo um tom profundamente “naturalista”, a diretora marca a sua estréia em longas-metragens de forma irretocável. Ao seu lado, na confecção do texto brilhante de Home, estiveram Antoine Jaccoud, Raphaëlle Valbrune, Gilles Taurand, Olivier Lorelle e, como colaboradora, Alice Winocour. Do que tenho lembrança, trata-se de um raro exemplo de um trabalho envolvendo mais de dois roteiristas que consegue, ao mesmo tempo, unidade e força narrativa.

Equilibrando com colherzinhas de medida a comédia e o drama, Home é uma viagem ao interior de uma família, de cada um de seus integrantes e, por meio desta caminhada, também de algumas das características essenciais do ser humano e da sociedade na qual ele “escolheu” (realmente?) viver. Não irei iludir a ninguém que ainda não assistiu a Home: ele realmente vai adentrando, pouco a pouco e de forma suave, cada vez mais ao drama. Há cenas potentes, marcantes, de arrepiar nesta história sobre escolhas, obrigações, privação de liberdade e quebra de sonhos em nome de uma realidade nada bonita.

Difícil destacar apenas uma sequência ou apenas alguns dos questionamentos de Home. Mas algumas cenas que me deixaram estupefatas envolvem a introspectiva e “intelectual” Marion (Madeleine Budd) e seu irmão mais novo, Julien. Inicialmente, o espectador pode achar engraçado – eu achei, pelo menos – os cálculos e as preocupações de Marion. Mas depois, como todas as outras reações dos personagens em cena, a atitude dela vai ganhando contornos exagerados e de loucura. Respostas um tanto que naturais a um nível de estresse tão alto como aquele ao qual a família acabou sendo submetida.

Um fator curioso de Home é que ele não deixa claro, em momento algum, se aquela propriedade era realmente da família de Marthe e Michel ou se eles apenas “ocuparam” aquela casa há uma década. Esta falta de clareza merece um destaque especial porque, afinal, as questões levantadas pelo filme não passam por noções de propriedade. Não é a perda de dinheiro que conta. O que interessa é o sentimento que alguns tens de lar, de sentirem-se bem em uma parte mais do que em qualquer outra. Conta, nesta equação, o fato de que Marthe está farta de mudar-se, de viver uma vida de nômade com a sua família. Querendo ou não, Julien, por exemplo, nasceu e sempre viveu naquela casa, caracterizada por jogos, liberdade e alegria. Para Marthe, em especial, parece inconcebível que aquela vida deles simplesmente deixe de existir, de um dia para o outro, simplesmente porque existe uma obra de “interesse público” que deve passar em seu quintal.

Sem preocupar-se em trazer respostas, aliás, Home deixa no ar a questão do que pode ser considerado “interesse público”. Verdadeiramente uma rodovia cheia de carros, poluição e engarrafamentos pode ser entendida como um bem para a sociedade? Sem partir para um discurso “ecochato”, acho sempre válido nos questionarmos que tipo de sociedade escolheram e nós mesmo, agora, estamos escolhendo para vivermos. Especialmente interessante, eu diria fantástica, a cena em que Marthe, Marion e Julien decidem fazer um piquenique e, para isso, devem atravessar um engarrafamento cheio de pessoas sedentas para usufruir de uma tranquilidade que eles, há pouco, acabaram de perder. Não deixa de ser irônico que tantas pessoas, cotidianamente, sonham com suas férias para, finalmente, “viverem plenamente a suas vidas”, com prazer, com a paz sempre desejada – e, aparentemente, impossível de conquistar no dia a dia. Por que não viver desta forma sempre, incluindo o trabalho que paga as suas contas no meio?

Mas se a questão de Home não passa pela propriedade e sim pelo sentimento que uma pessoa adquire de “sentir-se em casa”, por que parece ser tão difícil para Marthe deixar para trás uma casa que, sem sombra de dúvidas, deixou de parecer-se com o seu “idílico” lar? A resposta, para mim, roça a questão da liberdade, da capacidade que homens, mulheres, jovens e crianças deveriam, sempre, ter de fazer as suas próprias escolhas. O inconcebível, para Marthe, tudo indica, é que sua família seja obrigada a deixar um local – ainda que ele tenha perdido todas as características que possuía anteriormente, e que os atraía/unia tanto. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Mas depois de lutar quase até o último suspiro – literalmente – contra a força da realidade, Marthe tem o gesto corajoso de romper com as suas próprias crenças e vontades. Como ocorre muitas vezes na vida, em diferentes situações, acaba falando mais alto a vontade de viver. E se preciso for deixar para trás tudo o que se entendia como seu – ou quase tudo -, isso será feito.

Home, como um grande filme humanista ao melhor estilo francês, acaba colocando em primeiro plano, constantemente, as pessoas e seus dilemas, vontades, necessidades e dramas. Aprendemos, com ele, sobre o valor da liberdade, da fraternidade e da união. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Uma produção que trata não apenas da capacidade individual de resistência (ou a incapacidade, em alguns sentidos), mas especialmente da escolha pela vida e pela família muito mais do que a escolha por convicções ou “raízes”. Talvez apareçam pessoas que considerem o filme “derrotista” ou pouco “esperançoso”, mas contra a realidade que invade “paraísos” como aquele desenhado por Home, só nos resta a ideia de resistir e lutar, mesmo que em outra parte, por uma realidade em que ninguém seja obrigado a se sacrificar por um “bem maior”. Afinal, toda vida é preciosa e precisa ser compreendida e escutada. Sempre há diálogos possíveis, mesmo que muitos insistam em pregar o contrário.

NOTA: 10.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: A personagem da sempre fantástica Isabelle Huppert parece manter uma certa tranquilidade enquanto o mundo muda ao seu redor e as demais pessoas de sua família vão reagindo a isto de maneiras muito diferenciadas. Mas em seu interior, Marthe está em crise, em ebulição. Huppert, ainda bela aos 57 anos, tenta ser a fortaleza e a mãe de família carinhosa, sorridente e pacífica de sempre. Marion, sua filha do meio, contudo, é a primeira a perceber que a mãe não está bem. Pelo contrário.

Além da perfeita Isabelle Huppert, Home tem a sorte de contar com um elenco de atores muito, muito talentosos. Eu diria que eles estão bem acima da média. Madeleine Budd como Marion, Olivier Gourmet como Michel e Kacey Mottet Klein como Julien, em especial, me impressionaram muito. E a direção de Ursula Meier tem o cuidado de registrar cada nuance das interpretações de entrega destes grandes atores.

Na parte técnica, é preciso ressaltar o trabalho luminoso, realista e preciso da diretora de fotografia Agnès Godard. Uma delícia, ainda, a trilha sonora – que contou com a consultoria de Frank Beauvais e Edouard Dubois. O desfecho, com Nina Simone cantando Wild is the Wind, não poderia ter sido mais delicado e perfeito – casando com o restante da “alma” do filme.

Antes de estrear nos longas com Home, Ursula Meier havia dirigido cinco curtas e médias metragens – incluindo uma produção feita para a TV. Sua trajetória no cinema começou em 1994 com o curta À Corps Perdu. Vale a pena ficar de olho nesta diretora e seguir seus próximos trabalhos.

Home estreou no Festival de Cannes em maio de 2008. Depois, veio até o Festival Internacional de Cinema do Rio de Janeiro, ainda em 2008, mais precisamente em setembro. Trilhou o caminho de outros nove festivais, terminando a sua trajetória nestes cenários em janeiro deste ano no evento internacional de Palm Springs, nos Estados Unidos.

Nos distintos festivais, Home abocanhou seis prêmios e foi indicado ainda a outros cinco. A diretora de fotografia Agnès Godard venceu em duas ocasiões: no Lumiere Awards, um dos principais prêmios do cinema francês, e no Festival de Mar del Plata. Neste último, Isabelle Huppert foi reconhecida como a melhor atriz. No Swiss Film Prize, Home saiu vencedor como Melhor Filme, Melhor Ator ou Atriz Revelação (para Kacey Mottet Klein) e Melhor Roteiro.

Os usuários do site IMDb deram uma nota bastante baixa para o filme – pelo menos para a minha medida: 6,8. Os críticos que tem seus textos linkados no Rotten Tomatoes, por sua vez, foram mais generosos para a produção: publicaram 31 textos positivos e apenas dois negativos – o que garante para Home uma aprovação de 94%.

O filme de Ursula Meier é uma co-produção da Suíça, da França e da Holanda. Infelizmente não consegui dados sobre o quanto o filme teria custado e nem mesmo sobre o seu desempenho nas bilheterias.

Desculpem os sensíveis, mas vou me repetir na crítica… péssimo o título que Home recebeu em solo brasilis. Lar Doce Lar???? Como assim?? Horrível. Melhor seria ter deixado o título original, Home ou, na pior das hipóteses, dar-lhe o nome de Lar. Mas o título que acabou ficando é tenebroso.

De todos os críticos linkados no Rotten Tomatoes, destaco esta crítica do “mestre” Roger Ebert, da Chicago Sun-Times. Em seu texto (em inglês), Ebert comenta que há duas questões que o filme não responde: como aquela família foi parar ali e porque Marthe se recusa a sair daquela casa mesmo quando uma rodovia de quatro pistas passa a cruzar a frente da sua casa. Para o crítico, a família retratada parece ser “normal o suficiente, para não dizer completamente convencional”. E a verdade é que eles seguem, até certo ponto, uns papéis bastante previsíveis. Concordo com ele. Mas o interessante é que estes papéis seguem assim até certo ponto, apenas. Porque certas reações dos personagens não podem ser chamadas, em determinado momento, exatamente como “convencionais”. Ebert segue comentando que o filme vai caminhando, pouco a pouco, para um lado mais obscuro.

Interessante quando o crítico comenta que o talento de Ursula Meier, como diretora e roteirista, acaba nos convencendo de maneira bastante racional sobre atitudes que pareceriam totalmente sem sentido em muitas famílias. Ebert está certo quando afirma que os atos deles seguem uma certa continuidade e acaba por confirmar, quanto mais avança, “correntes” que pressentíamos desde o princípio. Para o crítico, Olivier Gourmet se mostra ágil na interpretação, enquanto que Isabelle Huppert “faz o mesmo de sempre”, ou seja, constrói a sua personagem “de dentro para fora”, intrigando os espectadores.

Neste outro texto, bem mais curto, o crítico Rob Nelson, da Variety, comenta que Home é um road movie que não sai do lugar. Para ele, a história revela uma família modesta de um cenário rural francês que se recusa a aderir ao estilo de vida em “alta velocidade”, tentando resistir a um deslocamento que parece inevitável. Nelson destaca o trabalho da diretora de fotografia Angès Godard e da protagonista Isabelle Huppert, comentando que elas lideram o trabalho que reflete sobre como a modernidade poderia limitar a migração para as fronteiras da zona do Euro. Gostei, especialmente, quando o crítico comenta que cada personagem lida com a idéia do “paraíso perdido” conforme o seu gênero e idade. Nunca melhor resumido. 🙂 Ele ressalta ainda o cuidado de Meier em não transformar o seu filme em um melodrama ou em uma farsa – algo que, convenhamos, seria bem fácil de acontecer. Nelson destaca, assim como Ebert, a forma com que as lentes de Godard vão registrando, gradualmente, cada vez menos a luz natural, até chegar ao ponto de apresentarem um adequado “escurecimento da visão do progresso”.

CONCLUSÃO: Um filme potente, humanista e questionador. Primeiro longa-metragem da diretora Ursula Meier, Home se apresenta como um ponto de reflexão sobre os modelos de sociedade predominantes nos ditos países “civilizados”. Orbitando ao redor de uma família alternativa da França, este filme reinventa a noção de “invasões bárbaras”, aquelas que ignoram a realidade, os desejos e os direitos de quem passa em frente para buscar apenas o seu próprio benefício. Abordando temas como a liberdade, a convivência familiar, o choque de valores e a loucura, Home revela uma narrativa que migra da comédia para o drama claustrofóbico. Com um trabalho de atores impressionante e uma direção que prima pelos detalhes e pelo realismo, esta produção entra para a lista de filmes imperdíveis. Especialmente se você se sente atraído(a) por temas como o sentimento de pertenência que as pessoas desenvolvem em determinados lugares; os jogos de poder estabelecidos na sociedade e a difícil busca de um equilíbrio entre sanidade e loucura em contextos de grande estresse e ruptura com os parâmetros de vida anteriormente estabelecidos. Por mais que estes temas pareçam complicados (e, na verdade, o são), em Home eles ganham uma “simplicidade” impressionante. O que torna o filme, ainda mais, admirável.