Monsieur Verdoux

A desconstrução de um mito serve como exercício para a desconstrução de todos os mitos. Em Monsieur Verdoux nós vemos a um Charles Chaplin de uma forma totalmente diferente daquela com a qual estamos acostumados. Isso incomoda. Assim como incomoda a mensagem que o filme apresenta, ainda que ela seja um bocado justificada pelo seu tempo histórico. Um filme que surpreende pela desconstrução do mito, mas que deixa a desejar no roteiro e no seu desenvolvimento. Com Monsieur Verdoux Chaplin tinha um discurso para fazer. Conseguiu, mas isso não quer dizer que tenha apresentado com esta história uma grande peça de cinema.

A HISTÓRIA: A partir da imagem do túmulo de Henri Verdoux, que morreu em 1937, somos apresentados a história deste homem que começa a apresentar a própria história afirmando que após trabalhar 30 anos em um banco, foi demitido e passou a matar mulheres para sobreviver. Ele diz que não é lucrativa a vida de um “barba azul” e afirma que o que veremos a seguir se tornou bastante conhecido. Corta.

O filme apresenta a família Couvais, no Norte da França, que estranha o desparecimento de Thelma após ter se casado com um homem de aparência peculiar. A família pensa em procurar a polícia. Enquanto isso, Henri Verdoux (Charles Chaplin) colhe rosas no jardim da casa que ele está prestes a tentar vender. Esta é a história dele.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Monsier Verdoux): Para mim foi uma experiência realmente desafiadora ver a um Charles Chaplin vilão. E não um vilão qualquer, mas um sujeito ardiloso e que utilizava toda a sua inteligência para enganar mulheres, roubando as suas economias quando tivesse a primeira oportunidade e se livrando delas na sequência. Ver a Chaplin interpretado uma figura destas, tão diferente de seus personagens cheios de esperança e graça da fase do cinema mudo, foi realmente algo um tanto perturbador.

Logo no início o espectador é apresentado a duas informações fundamentais sobre o protagonista deste filme: ele morreu em 1937 e era considerado um “barba azul”, ou seja, um homem que matava mulheres após conseguir se beneficiar delas. Sabendo disso, acompanhamos os passos de Henri Verdoux com atenção, procurando sempre detalhes de suas manipulações para saber qual será a sua próxima vítima.

Diferente de outras produções sobre serial killers, aqui Charles Chaplin tenta fazer graça com o seu personagem. Para alguns as tentativas dele devem funcionar. Para mim elas não deram certo. Não sei se fez parte deste processo ter na lembrança ainda a interpretação dele no cinema mudo, mas o fato é que ver Chaplin repetindo algumas “estrepolias” – como cair de uma janela para o telhado ou contar aceleradamente as notas de dinheiro que “conquistou” de uma de suas vítimas – neste filme não funcionou como quando víamos as mesmas situações sem diálogos.

Então toda a parte da “comédia” desta produção com roteiro e direção de Charles Chaplin não funciona muito bem. Se Henri Verdoux não faz rir, ele faz pensar. Monsieur Verdoux é um filme amargo, sem esperança, um ponto fora da curva da filmografia normal de Chaplin. Claro que existe uma razão para ele ser assim. A história desta produção se passa nos anos 1930, após a quebra da Bolsa de Valores de Nova York, ocorrida em 1929.

Ou seja, toda a história de Verdoux se passa nos anos difíceis da Grande Depressão americana, quando milhões ficaram sem emprego e tiveram dificuldade de sobreviver. Além disso, como o filme mostra lá pelas tantas, já começava a se desenhar no horizonte o cenário político que originaria a Segunda Guerra Mundial na Europa.

Ainda que, é preciso observar, o filme tenha sido lançado em 1947, o personagem central da história de Monsieur Verdoux morreu 10 anos antes, ou seja, ele não chegou a ver a Segunda Guerra. Mas Charles Chaplin sim. E isso fica claro na proposta desta produção. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). A grande razão para este filme ter sido feito e existir está no discurso de “defesa” de Verdoux no tribunal em que ele acaba sendo condenado à morte por guilhotina.

Naquele momento entendemos a razão de Chaplin ter investido nesta história inspirada em uma ideia de Orson Welles. Chaplin discursa, utilizando Verdoux como o seu porta-voz, de que muitas vezes a sociedade tem a necessidade de julgar o mal em uma figura como a dele enquanto aprova o assassinato em massa de uma guerra ou de um conflito qualquer. Em 1947, quando o filme foi lançado, a Segunda Guerra Mundial já tinha acabado, mas estava muito claro o estrago que ela tinha feito no mundo.

Alguns ganharam dinheiro com ela enquanto milhões tinham sido mortos – quase todos inocentes, a exemplo das vítimas do protagonista de Monsieur Verdoux. O personagem central desta produção defende a ideia de que o mal precisa existir assim como o bem. Também argumenta que durante 30 anos ele foi uma pessoa correta e trabalhadora, mas que após este período ninguém mais quis que ele seguisse esse caminho do bem e, por isso, ele resolveu começar a matar para sobreviver e para dar sustento para a esposa inválida e para o filho do casal.

Achei Monsieur Verdoux perturbador não apenas por nos apresentar um personagem interpretado por Charles Chaplin sem culpa ou remorso, apesar de ser um assassino em série, mas também por defender algumas ideias bem questionáveis. Com o argumento de Verdoux parece que Chaplin estava justificando os crimes de seu personagem dizendo que a “sociedade” havia feito ele assim. Após perder o emprego no banco e não conseguir outra colocação ele teria sido “obrigado” a seguir uma vida de crimes.

Sempre achei esse tipo de argumento perigoso. Se todos pensassem assim, o que seria da nossa civilização? Os crimes, especialmente os assassinatos, nunca devem ser justificados. A cada dia e em qualquer parte podemos conhecer exemplos de pessoas que acreditam que os seus crimes são justificáveis pela exclusão que a sociedade promove enquanto outros acreditam em buscar o sustento através de alguma forma correta de trabalho, mesmo que ela significar a venda de balas no sinaleiro.

Entendo a falta de esperança de Charles Chaplin com todo o cenário que vimos antes e durante a Segunda Guerra Mundial, mas não acho que a solução para toda aquela morte, extermínio e injustiça seja um filme amargo como este. Mas para não dizer que toda a obra é dispensável, achei interessante a forma com que Chaplin “humaniza” um serial killer um tanto caricato. Não vemos cenas de violência na produção, apesar do personagem central ter sido responsável por pelo menos 13 crimes. Isso não deixa de ser um detalhe interessante – Chaplin estaria preocupado em não incentivar a violência?

Mas a parte interessante da produção é apresentar um serial killer que era capaz de gestos nobres e não apenas de vilania. O cuidado que ele tinha com a esposa “oficial”, cadeirante, Mona (Mady Correll) e com o filho, Peter (Allison Roddan) era algo especial. A preocupação em cuidar dos dois é o que teria motivado ele a casar com outras mulheres e roubar o dinheiro delas. Mas ele também foi capaz de ajudar uma garota que tinha recém saído da prisão (Marilyn Nash) e que, inicialmente, ele tinha visto como uma possível cobaia de sua nova forma de matar.

Até então Verdoux se “livrara” das vítimas com técnicas como incinerando os seus corpos – a exemplo do que ele faz com a parente dos Couvais. Mas com a ajuda do amigo e farmacêutico Maurice Bottello (Robert Lewis), que fala sobre uma fórmula que poderia matar alguém sem deixar vestígios e que “simularia” um ataque cardíaco – algo que ele comenta sem imaginar as intenções criminosas de Verdoux -, o protagonista desta produção pensa em testar a ideia em uma pessoa que poderia “sumir” sem deixar rastros.

Conversando com a garota, contudo, ele identifica nela um bom coração e uma dedicação com um ex-marido, já morto e que era cadeirante, que se assemelha com a dele. Por isso ele poupa a garota e acaba ajudando ela, o que mostra a preocupação de Chaplin de mostrar que o seu personagem não era apenas mau. De fato isso acontece fora dos cinemas também. Dificilmente uma pessoa é apenas boa ou má, e essa reflexão torna este filme interessante, assim como a crítica de que a sociedade não deveria ter dois pesos e duas medidas sobre o extermínio que aceita (das guerras e conflitos) e aquele que condena (dos criminosos).

Na direção, Charles Chaplin segue com as técnicas que o fizeram famoso. Monsieur Verdoux tem ritmo e sabe valorizar muito bem as interpretações dos atores, ainda que ninguém tenha um grande destaque na produção. No roteiro, Chaplin tem uma mensagem clara e um argumento que defender, e ele faz isso bem, ainda que esta produção tenha muitas sequências que procuram provocar graça e que nem sempre funcionam. Monsieur Verdoux parece, assim, ficar um pouco perdido na sua proposta.

Afinal, esta é para ser uma comédia ou um drama social? O filme tem uma mensagem muito clara de crítica social, o que não combina, geralmente, com os recursos para fazer rir. Da minha parte, não consegui achar nada na produção realmente engraçado. Chaplin insiste bastante na relação de seu personagem com Anabella Bonheur (Martha Raye), uma das mulheres que conseguem sobreviver da morte planejada por Verdoux, mas achei a personagem dela bastante exagerada e caricatural.

Enfim, toda a parte de comédia da produção não funcionou para mim. Acho que se o filme fosse mudo, talvez teria funcionado melhor – com os exageros típicos que esperávamos sempre nas produções de Chaplin. Mas o mesmo exagero sendo falado não tem o mesmo efeito de comédia. E a parte da crítica social é válida, mas achei um tanto equivocada em parte de seu argumento – a de justificar o crime, por exemplo.

Para resumir, um filme curioso, mas que deixa um gosto estranho no final e que incomoda por apresentar um Charles Chaplin totalmente diferente do que gostaríamos de ver em cena. Como eu disse, não sei se de forma pensada ou não, mas parece até que Chaplin estava desconstruindo o seu próprio mito em Monsieur Verdoux para nos fazer questionar todos os mitos em que acreditamos ou que já existiram.

Um dos mitos que ele claramente ataca nesta produção é o de uma sociedade pacífica e “do bem”. Em Monsieur Verdoux ele parece nos dizer que sempre teremos o mal presente. Esta produção é mediana, mas certamente ganha interesse por ser dirigida, escrita e estrelada pelo grande Charles Chaplin. Sempre vale a pena assisti-lo, ainda que este não seja um de seus melhores filmes.

NOTA: 8.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Ao assistir a Monsieur Verdoux eu percebi as razões que fizeram Charles Chaplin não ter o mesmo sucesso na fase do cinema falado do que a que ele teve no cinema mudo. Realmente o estilo dele de atuação funcionava muito melhor no cinema mudo. Isso fica evidente em Monsieur Verdoux.

O destaque da produção, não há maneira de ser diferente, é realmente Charles Chaplin. Ele é o protagonista da história e ofusca quase todos os demais atores em cena, até porque quase ninguém tem a força do histórico em cena do diretor/ator. Do elenco de Monsieur Verdoux, talvez vale destacar o bom trabalho de Marilyn Nash como a garota que Verdoux ajuda após ela deixar a prisão e Mady Correll como Mona, a mulher com quem o protagonista estava casada há 10 anos. As duas fogem das interpretações exageradas e trazem um bocado de legitimidade para os seus respectivos papéis.

Além destes atores, vale citar o trabalho de Audrey Betz em uma ponta como Martha, mulher do farmacêutico e amigo de Verdoux, Maurice Bottello; Ada May como Annette, empregada de Annabella; Isobel Elsom como Marie Grosnay, a mulher que escapa por pouco do casamento com Verdoux; Marjorie Bennett como a empregada de Marie; Helene Heigh como Yvonne, amiga de Marie e que a incentiva a procurar Verdoux; Margaret Hoffman como Lydia Floray, uma das vítimas do protagonista; Edwin Mills como Jean Couvais, que ajuda Lena Couvais, interpretada por Almira Sessions, a desmascarar Verdoux; Charles Evans como o detetive Morrow; e Lois Conklin como a florista que atende Verdoux. Estes são os personagens que apresentam algum destaque na história.

Após a rápida apresentação da história, Monsieur Verdoux segue como um filme de história linear. A direção de Chaplin é básica, sem grande inovação em cena. Um dos destaques técnicos da produção é a trilha sonora composta por Chaplin também – ele era um especialista no tema e, claro, trouxe da experiência fundamental da música no cinema mudo a qualidade para esta nova produção. Vale também comentar o trabalho dos diretores de fotografia Roalnd Totheroh e Curt Courant; a edição de Willard Nico; a direção de arte de John Beckman; e a maquiagem de William Knight e Hedy Mjorud.

Monsieur Verdoux estreou no dia 1º de abril de 1947 em uma première em Nova York. Em 1964 a produção foi relançada em Nova York, e voltou para alguns cinemas na década de 1970 e nos anos 2000 – a última vez que ele foi relançado nos cinemas foi em 2015 nas Ilhas Baleares.

Esta produção teria custado US$ 2 milhões, um custo bastante considerável para a sua época. Não consegui informações sobre o resultado que o filme teve nos cinemas.

Monsieur Verdoux teve as cenas internas filmadas no Chaplin Studios, em Hollywood, e as cenas externas rodadas no Big Bear Lake, parte da San Bernardino National Forest, na Califórnia, e no Lake Arrowhead, parte do mesmo parque.

Agora, algumas curiosidades sobre esta produção. Na opinião de Charles Chaplin, Monsieur Verdoux foi o filme mais inteligente e o mais brilhante da carreira dele. Certamente ele se sentiu bem ao fazer este filme, mas não sei se esta foi a mesma experiência de seus fãs.

A história de Monsieur Verdoux foi inspirada na história real do assassino francês condenado Henri Désiré Landru. Ele foi executado na guilhotina em 1922.

De acordo com o site IMDb, esta produção foi “um fracasso colossal” nas bilheterias em 1947, quando a produção foi lançada. O desempenho da produção foi ruim apesar de críticos como James Agee. Ele afirmou, na época, que o desempenho de Chaplin no filme tinha sido o melhor que ele tinha visto de um ator. Um pouco exagerado, mas tudo bem.

Chaplin teria pago US$ 5 mil para comprar a ideia de Orson Welles, que tinha a ideia de fazer um documentário “dramatizado” sobre a história real do serial killer francês Henri Landru. Inicialmente a ideia de Welles era fazer um filme com Chaplin como protagonista, mas Chaplin desistiu da ideia em cima da hora alegando que ele nunca tinha sido dirigido por ninguém e que não começaria a ser naquele momento. Foi assim que Chaplin acabou comprando a ideia de Welles.

Os produtores de Monsieur Verdoux foram processados em 1948 pelo funcionário de um banco parisiense chamado Henri Verdoux.

Assisti a Monsieur Verdoux porque esta produção é a primeira de 1947 indicada pelo livro “1001 Filmes Para Ver Antes de Morrer”, inspiração principal da seção criada aqui no blog “Um Olhar Para Trás”. O crítico David Robinson começa o texto sobre o filme assim: “Charles Chaplin comprou a ideia da sua comédia mais negra (por 5 mil dólares) de Orson Welles, cujo plano original era fazer um documentário sobre o lendário assassino em série de esposas francês Henri Desiré Landru. Chaplin deu à história uma abordagem sócio-satírica nova e mordaz, em resposta à paranoia crescente dos anos da Guerra Fria”.

O crítico segue assim, depois de resumir o roteiro da produção: “Quando é finalmente levado à Justiça, sua defesa consiste em que, enquanto o assassinato privado é condenado, a matança pública – na forma da guerra – é glorificada: ‘Um assassinato transforma uma pessoa em vilã – milhões, a transformam em herói. Os números santificam’. Esses não eram sentimentos populares na América de 1946, e Chaplin se viu cada vez mais na mira da Direita – uma caça às bruxas que resultou na sua partida definitiva dos Estados Unidos em 1952”.

E vale citar a parte final do texto de Robinson: “Verdoux, acompanhado pela animada canção-tema (Chaplin, como sempre, compôs sua própria trilha), é um personagem rico e vívido. A economia rígida do pós-guerra obrigou Chaplin a trabalhar mais rápido e com muito mais planejamento do que em filmes anteriores. O resultado é uma de suas narrativas mais bem construídas, que ele mesmo considerou, sem modéstia, ‘o filme mais inteligente e brilhante da minha carreira'”.

Os usuários do site IMDb deram a nota 8 para esta produção, o que é uma bela avaliação para os padrões do site. Os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 30 críticas positivas e apenas uma negativa para a produção, o que lhe garante uma aprovação de 97% e uma nota média de 8,3. Ou seja, tanto público quanto crítica aprovaram bem esta produção.

Monsieur Verdoux ganhou cinco prêmios e foi indicado a um Oscar. Os prêmios que o filme recebeu foram o de Melhor Filme em Língua Estrangeira no Blue Ribbon Awards de 1953; o de Melhor Filme Americano no Bodil Awards de 1949; o de Melhor Filme em Língua Estrangeira no Kinema Junpo Awards de 1953; e o de Melhor Filme dos EUA e o Top Ten Films no National Board of Review de 1947. A produção foi indicada também ao Oscar de Melhor Roteiro Original em 1948, mas perdeu a estatueta para The Bachelor and the Bobby-Soxer, escrito por Sidney Sheldon.

Esta é uma produção 100% dos Estados Unidos, por isso o filme passa a atender a uma votação feita aqui no blog há algum tempo.

CONCLUSÃO: Um filme amargo e com pouco espaço para a graça. Algo totalmente diferente na filmografia do grande Charles Chaplin. Monsieur Verdoux é cheio de estranheza para quem assistiu aos clássicos do diretor que se consagrou com o cinema mudo. Aqui, estranhamos não apenas o Charles Chaplin que fala, mas também estranhamos um bocado o seu discurso. Frustrado com os absurdos que aconteceram na Segunda Guerra Mundial, Chaplin nos apresenta um filme carregado e sem esperanças.

Uma produção que questiona o bem e o mal e que tem um discurso muito claro na reta final. É preciso respeitar a bandeira levantada por Chaplin, mas certamente este não é um de seus melhores filmes e nem uma grande obra do cinema. Interessante conhecer por ser mais uma obra com propósito na história da Sétima Arte, mas Monsieur Verdoux está longe de ser um filme inesquecível. Ele incomoda, causa mal estar, mas isso é tudo.

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Captains Courageous – Marujo Intrépido

Os valores corretos são ensinados para cada um de nós quando somos muito jovens. E o ensinamento não vem da repressão ou de discursos, mas sobretudo, de exemplos. A criança aprende observando, sobretudo. Este é um dos grandes temas de Captains Courageous, um filme com um roteiro incrível e uma direção exemplar do americano Victor Fleming. Incrível pensar que esta produção foi lançada em 1937, há exatos 80 anos. Não apenas pela qualidade técnica e narrativa da produção, mas sobretudo por ela continuar sendo tão atual.

A HISTÓRIA: Uma empregada organiza várias bandejas quando Burns (Leo G. Carroll) chega e diz para ela parar porque não serão usadas as bandejas. Na sala de jantar, Mr. Cheyne (Melvyn Douglas) pede para o seu secretário ler as notícias mais importantes enquanto ele come apressadamente. Burns avisa para Cheyne que são 8h45. Burns pergunta quanto tempo deve deixar o filho do patrão e seus amigos dormirem, e Cheyne sugere que mais uma hora.

Na sequência, Harvey (Freddie Bartholomew) liga para pedir o café na cama. Ele faz os amigos fazerem o mesmo e, após falar com o pai, vai com eles para o internato. No caminho, oferece para um dos amigos um livro raro como forma de obrigá-lo a participar de um clube no colégio. Isso desencadeia mudanças no colégio que farão Mr. Cheyne tentar se aproximar de Harvey, mas sem muito sucesso.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Captain’s Courageous): Nesta aventura de retomar os grandes filmes da história do cinema, cada detalhe faz a diferença. No caso desta produção, que não tinha me chamado nada a atenção por causa do título – especialmente em português, que é bem ridículo, ao menos para o meu gosto -, logo os créditos iniciais já me mostraram que algo bom poderia vir pela frente.

Pode parecer bobo, mas para um filme lançado há 80 anos, ter a preocupação e o “detalhe” de apresentar créditos dinâmicos, com o mar batendo no casco de um barco, me pareceu algo muito interessante. Mas o que realmente impressiona no filme é como ele vai direto ao ponto e tem um roteiro realmente excelente. Os roteiristas John Lee Mahin, Marc Connelly, Dale Van Every e Tim Kilpatrick fazem um trabalho exemplar tendo a obra de Rudyard Kipling como material original com que trabalhar.

Rapidamente somos apresentados para a vida de privilégios da família do protagonista, o jovem Harvey que, quando a produção começa, tem 10 anos de idade. Mesmo assim jovem, ele é um especialista em ter os seus próprios desejos satisfeitos, seja da forma correta, seja pela via do suborno e da chantagem. Aliás, a interação dele com o “amigo” Charles (Bill Burrud) é uma aula de suborno e de corrupção.

Ele dá um livro valiosíssimo para Charles como “prova de amizade” para que ele, no futuro próximo, consiga colocar ele e os seus dois amigos mais chegados dentro do clube Búfalo. O mesmo ele fez com o professor Tyler (Donald Briggs) ao deixar US$ 50 para ele antes das férias de Natal. O professor não sabia a origem do dinheiro, mas assim que Harvey diz que foi ele que deixou lá como “prova de amizade” para que ele fosse favorecido em uma prova, o professor resolve tomar uma atitude a respeito.

Ele sugere que Harvey seja penalizado com um tipo de “lei do silêncio”. Ninguém pode falar com ele, uma forma de punição para que o jovem garoto repense o que anda fazendo. Ele não tem limites. Filho de um empresário rico e sempre muito ocupado, ele sabe que pode conseguir o que deseja se souber mentir e iludir o pai e os demais sob medida. Depois de ser penalizado pelo colégio e de levar um soco de um colega no jornal da escola, Harvey vai procurar o pai na empresa dele.

O Sr. Cheyne tem negócios importantes e também que cuidar do filho sozinho – não fica totalmente claro no filme, mas parece que a mãe de Harvey morreu e que Cheyne é viúvo. O filho dele chega na empresa e conta uma boa mentira para o pai, mas quando Cheyne vai pedir satisfações do diretor da escola e do professor Tyler, fica sabendo das artimanhas do filho. Como o garoto é penalizado ao ser suspenso pelo restante do semestre, Cheyne resolve levar o filho para uma longa viagem de negócios.

Interessante como a produção apresenta, logo na parte inicial do filme, um tema que continua sendo muito presente nos nossos dias, 80 anos depois desta produção ser lançada: como pais ausentes e que não dão limites para os próprios filhos podem criar verdadeiros “monstrinhos” que, depois, se tornam pessoas sem escrúpulos e sem limites. Cheyne era um sujeito cheio de boas intenções mas que, na prática, não conseguia dar a atenção e a educação necessárias para o filho.

Harvey caminhava para um futuro cheio de atitudes arrogantes, de suborno, corrupção e de “passar por cima de qualquer pessoa” – como quando obriga o barman (Billy Gilbert) a atendê-lo mesmo fora do horário de trabalho – até que sofre um acidente e cai do navio em que está viajando com o pai. Ao cair no mar, ele tem a sorte de ser resgatado pelo pescador Manuel (o genial Spencer Tracy). O português está zombando do transatlântico e remando lentamente quando vê Harvey e “pesca” o garoto.

No início, o jovem abastado quer mandar em todos no navio do capitão Disko (Lionel Barrymore). Ele exige ser levado de volta para casa, mas claro que ninguém lhe dá ouvidos. Afinal, ele é apenas um garoto, e aquele barco está cheio de marinheiros que estão trabalhando para levar dinheiro para casa. No início, como era de se esperar, Harvey é um desaforado. Mas logo ele é colocado de castigo, leva uma bofetada e fica sem comer. Pouco a pouco, por necessidade, ele vai “dobrando” a própria espinha e começa a aprender com aqueles homens com quem ele jamais teria contato se não fosse pelo acidente.

Realmente interessado pelo que Manuel e os demais fazem, Harvey acaba encarando tudo como uma grande aventura e também como um grande aprendizado. Ele percebe a importância de contribuir, assim como cada um dos demais que estão no barco, para que eles não apenas consigam atingir o objetivo, mas também porque eles são uma “grande família”. A exemplo de outras histórias sobre os “homens do mar”, Captains Courageous sabe explorar muito bem a rotina destas pessoas, a sua filosofia de vida e a forma séria e ao mesmo divertida com que eles enfrentam os perigos e as agruras do cotidiano.

Claro que se avaliarmos o filme com os olhos de hoje, Harvey e o filho do capitão, Dan (o grande Mickey Rooney na fase inicial da carreira), estão em trabalho infantil. Hoje, certamente, eles seriam proibidos de estar em um barco como aquele, que ficará três meses no mar. Captains Courageous revela, assim, uma outra época e uma outra ótica sobre a função das crianças na sociedade. Naquele momento, elas eram vistas como “jovens aprendizes”, como pessoas que significavam custos e que deveriam também contribuir com a sua “força de trabalho”.

Hoje, claro, isso não é aceito mais. Com certeza também alguém hoje pode ficar incomodado com o tapa que Harvey leva do capitão após ser insolente com ele. Hoje são poucos os que defendem que uma criança leve umas palmadas, mas é preciso entender essa história como o produto de uma época e de uma forma de enxergar o mundo. Isso é algo que eu gostei muito em Captains Courageous. Apesar de ser uma ficção, é um filme que revela muito daquela época, do cotidiano dos pescadores e das diferenças sociais que existiam na sociedade americana pouco antes do início da Segunda Guerra Mundial.

O roteiro deste filme é saboroso e cheio de grandes momentos. Mahin, Connelly, Van Every e Killpatrick não desperdiçam o tempo do espectador com bobagens. Cada linha e cada momento da produção são interessantes. Não há cena que esteja sobrando ou que seja desnecessária. O roteiro também acerta ao explorar bem a relação entre os personagens, especialmente entre Harvey e Manuel. O garoto Freddie Bartholomew dá conta do papel de protagonista e se sai muito bem ao contracenar com grandes nomes do cinema.

Este filme, aliás, é um verdadeiro deleite aos nos apresentar grandes nomes como Spencer Tracy, Lionel Barrymore e Melvyn Douglas em plena forma. E o que dizer do diretor Victor Fleming? Achei o trabalho dele excepcional. Não apenas porque ele valoriza cada detalhe das interpretações dos grandes atores que tem à sua disposição mas também por ter várias sequências de um trabalho quase documental.

Em muitos momentos de interação dos atores no barco de pesca sabemos que eles estão em um estúdio e que o fundo e o que lhes rodeia foi trabalhado através de efeitos especiais e com a projeção de imagens de mar e de céu, mas nas cenas que envolvem o mar, especialmente quando os barcos estão navegando, percebemos o trabalho cheio de técnica de Fleming. Aliás, diferente de produções de décadas anteriores, neste filme já vemos os recursos com os quais estamos acostumados hoje em dia.

Os planos mais abertos para mostrar os momentos de ação e o contexto de algumas partes da história, os planos mais próximos dos atores para valorizar a interação entre eles e os closes para revelar algum detalhe de emoção fazem parte desta produção. A edição também é um elemento importante, além da visão do diretor para a construção de sua narrativa. Um filme excepcional nestes quesitos. E o roteiro é surpreendente. Trata de temas fundamentais de uma maneira muito franca e, mesmo quando fica “sentimental”, abordando uma pequena “tragédia” para o protagonista, revela maturidade.

Gostei muito desta produção, que me surpreendeu. Eu não esperava tanta densidade narrativa e nem riqueza de detalhes em uma produção com um nome tão desastroso para o mercado brasileiro quanto “Marujo Intrépido”. Este título não poderia estar mais distante do que Captains Courageous apresenta. Este não é um filme engraçadinho sobre um garoto “aventureiro”. É uma produção que trata sobre amadurecimento, sobre garotos que se tornam homens – ou estão próximos disso, que fala de homens que se arriscam pelo próprio sustento e que aborda a questão pais e filhos com muita propriedade.

A formação do caráter de um jovem está em jogo nesta produção. E isso tem pouco a ver com “Marujo Intrépido”. Este é o típico filme que prende a atenção do espectador do início ao fim. Não por causa de pirotecnias ou grandes efeitos especiais, mas graças a uma bela história, com bastante “molho” e questões importantes e, sobretudo, o trabalho de grandes atores. Um belo exemplo de entretenimento que inspira e que faz pensar. Captains Courageous mostra a importância do aprendizado através de bons exemplos. Manuel tem paciência, carinho e firmeza na medida certa com Harvey, e isso faz toda a diferença para o garoto. Ele entra um no barco e sai outro de lá.

Admito que me incomodou um pouco como o protagonista muda rapidamente nesta produção. Ele chega todo arrogante e mandão no navio comandado por Disko e após uma noite no convés com o cuidado e o zelo de Manuel ele já muda de postura. Começa a ouvir aos demais, especialmente Manuel, é capaz de agradecer e se interessa em aprender sobre a vida de marujo e a ajudar. Uma mudança bastante grande para um tempo tão curto. Isso me incomodou um pouco, mas nada que tire as outras várias qualidades da produção. Por causa da oportunidade de ver a grandes nomes do cinema em cena e de ter uma história tão interessante e bem contada é que resolvi dar a nota abaixo.

NOTA: 10.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: O diretor americano Victor Fleming mostra um grande domínio de alguns dos principais recursos do cinema com este Captains Courageous. Me chamou a atenção, em especial, como ele valoriza a interação entre os atores, especialmente Spencer Tracy e Freddie Bartholomew, e como ele destaca o perigo e a “aventura” da vida no mar nas cenas mais abertas e de ação envolvendo as embarcações. Com 50 filmes no currículo, Fleming ganhou um Oscar na carreira, o de melhor diretor pelo clássico dos clássicos Gone With the Wind.

Eu já tinha visto algo e, principalmente, ouvido falar muito do grande Spencer Tracy. Mas não recordava do trabalho do jovem Freddie Bartholomew. O ator, que começou a trabalhar no cinema em 1930, com apenas seis anos de idade, e que seguiu trabalhando na área até 1951, foi considerado um dos “mais populares atores mirins da história do cinema” segundo o site IMDb. Entre outras produções, ele esteve também em Little Lord Fauntleroy, Anna Karenina e Lloyds of London.

Além dos atores já citados, vale comentar o bom trabalho de outros atores que tem papéis secundários em Captains Courageous. Charley Grapewin se sai bem como o tio Salters, um dos velhos marujos do barco de Disko; John Carradine está ótimo como Long Jack, com quem Manuel faz uma aposta reveladora; Jack La Rue tem uma ponta interessante como o padre que orienta Harvey; Walter Kingsford aparece bem, mas rápido, como o diretor da escola Dr. Finley; Oscar O’Shea se destaca como Walt Chushman, capitão com quem Disko rivaliza; e Sam McDaniel é um dos coadjuvantes de destaque como o cozinheiro do navio chamado Doc. Além deles, claro, há vários outros atores em papéis menores nos navios que aparecem em cena.

Da parte técnica do filme, o grande destaque é a direção inspirada e que dá uma aula de cinema de Victor Fleming. Mas além dele, vale destacar o excelente trabalho do diretor de fotografia Harold Rosson; a exemplar edição de Elmo Veron; a direção de arte de Cedric Gibbons; o departamento de arte de A. Arnold Gillespie e Edwin B. Willis; e a trilha sonora “grandiosa” (típica da época) de Franz Waxman.

Captains Courageous estreou nos cinemas de Nova York no dia 11 de maio de 1937. O filme entrou no restante do mercado comercial dos Estados Unidos em junho daquele ano.

Esta produção foi rodada na cidade de Gloucester, citada no filme, no Estado americano de Massachusetts; na cidade de Monterey, na Califórnia; no Port aux Basques, em Newfoundland, no Canadá; nos estúdios da MGM (Metro-Goldwyn-Mayer) e no Selznick International Studios, ambos na Califórnia; e no Long Beach Harbor, em Long Beach, também Califórnia. Grande parte das cenas, como fica evidente na produção, foram feitas em estúdio, em um grande trabalho de cenografia e de efeitos especiais para a época.

Agora, algumas curiosidades sobre a produção. Quando Captains Courageous foi finalizado, o grande Spencer Tracy fez uma grande homenagem para o seu companheiro de cena, Freddie Bartholomew. Ele disse que o garoto é 98% do êxito da produção porque ele entrega uma interpretação tão “refinada, simples e verdadeira”, acreditando em cada palavra que ele, Tracy, falava em cena, que ele próprio acreditou no seu personagem através da entrega de Bartholomew. Bacana. E é verdade. O garoto realmente brilha na produção, assim como Tracy, é claro.

Captains Courageous ganhou um Oscar e outros dois prêmios, além de ter sido indicado a outros seis. Indicado nas categorias de Melhor Filme, Melhor Roteiro, Melhor Edição e Melhor Ator para Spencer Tracy no Oscar 1938, Captains Courageous levou para casa apenas o Oscar de Melhor Ator. E aí outra curiosidade interessante. Quando recebeu a estatueta dourada, Tracy ficou surpreso ao ver a inscrição na estatueta de Dick Tracy, herói de tirinhas que, muito depois, seria levado para os cinemas. Envergonhada pelo erro, a Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood substitui a estatueta do ator e lhe entregou uma com a inscrição correta.

Além deste Oscar, Captains Courageous foi colocado na lista de Top Ten Films pela National Board of Review em 1937; e ganhou a Medalha de Honra na Photoplay Awards para Louis D. Lighton (produtor do filme).

De acordo com as notas de produção, nenhuma cena envolvendo os atores foi feita no mar. Todas as sequências foram feitas em estúdio, onde foi colocada uma réplica de um navio de pesca (quatro quintos de um navio, para ser mais exata) em um tanque de água. As cenas dos navios em alto-mar foram feitas sem os atores e inseridas quando necessário no filme.

Este foi um dos últimos filmes feitos por Lionel Barrymore antes que uma artrite degenerativa afastou o ator dos cinemas. Em 1938 ele aparece mancando e usando muletas no clássico dirigido por Frank Capra You Can’t Take It With You. Depois, por causa da doença, ele acabou “confinado” em cadeiras de rodas.

Vários anos depois do lançamento de Captains Courageous o ator Spencer Tracy disse que não achava o trabalho dele como um marujo português realmente crível. No início ele não queria o papel, porque achava que ele seria muito “secundário”, comparado com o papel de Harvey, mas depois ele aceitou o desafio. Tracy não quis tentar um sotaque português. Ele acabou utilizando o iídiche (língua germânica das comunidades judaicas da Europa central e oriental) que tinha aprendido para uma peça teatral encenada pouco antes. Antes de ser elogiado pela crítica e ganhar um Oscar por seu papel como Manuel, Tracy odiava o seu desempenho em Captains Courageous.

Esta produção foi a primeira da MGM a ser exibida na televisão, em 1955.

As filmagens foram adiadas por vários dias por causa da morte do produtor Irving Thalberg, um dos grandes nomes por trás do cinema americano em seus primeiros anos e considerado o “garoto de ouro” da MGM de 1924 a 1933. Ele faleceu jovem, vítima de uma pneumonia, em setembro de 1936, quando tinha apenas 37 anos de idade.

A publicação Hollywood Reporter registrou que, pela primeira vez na história do cinema, um filme estreou com protestos em frente ao cinema. Captains Courageous teve o azar de estrear em uma época de protestos e em que houve greve geral nos estúdios.

O tema principal desta produção foi inspirado na canção tradicional catalã de Natal “El Noi de La Mare” (O Filho de Maria).

Apesar daquela “virada” um tanto “brusca’ no comportamento do protagonista, algo que eu gostei muito em Captains Courageous é que o filme não “doura a pílula”. (SPOILER – não leia se você não assistiu à produção). Parte da dificuldade e do humor dos “homens do mar” está nesta produção. Fez todo o sentido, para a história de Harvey, o fim que Manuel teve. A morte dele, mostrada com franqueza por Fleming, também serviu de pretexto para uma bonita homenagem para os homens que a cada temporada eram mortos no mar. Interessante.

Admito que me deu um certo prazer ver aquele leão nos créditos iniciais da MGM. Sim, sou uma figura com esse tipo de satisfação. 😉

Descobri Captains Courageous porque o filme aparece na obra “1001 Filmes Para Ver Antes de Morrer” que, como vocês sabem, me inspirou a criar a seção “Um Olhar Para Trás” aqui no blog. Como sempre, acho válido citar os textos da obra. A crítica de Adrian Martin começa assim: “Rudyard Kipling, que morreu em 1936, não viveu o bastante para ver três de seus livros adaptados para o cinema no ano seguinte, entre eles Marujo Intrépido, o empolgante épico infantil de Victor Fleming. Freddie Bartholomew interpreta Harvey Cheyne, um menino rico mimado que, depois de tomar seis sorvetes, cai do transatlântico no qual ele o pai (Melvyn Douglas) estão viajando”.

O texto dele segue assim: “Ele tem a sorte de ser resgatado por um barco pesqueiro vindo de Goucester, cuja tripulação, que inclui o bem-intencionado Manuel Fidello (Spencer Tracy), pouco se impressiona com sua riqueza e ‘posição’. Humilhado, Harvey tem que se virar sozinho, porém, sob a atenciosa tutela de Manuel, ele aprende o valor do trabalho duro e do sucesso merecido”. Ele segue comentando alguns outros pontos do filme e finaliza o texto curto assim: “O astro infantil Batholomew está excelente em um papel que exige que ele seja tanto detestável quanto irresistível. E Spencer Tracy, com o cabelo enrolado e o rosto maquiado para ficar moreno, faz uma ótima imitação de um marinheiro português. Com humor, pathos e uma moral interessante, este é um dos melhores filmes infantis já produzidos em Hollywood”. Tenho que concordar com ele. 😉

Os usuários do site IMDb deram a nota 8 para esta produção, enquanto que os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 13 críticas positivas e apenas uma negativa para a produção, o que lhe garante uma aprovação de 93% e uma nota média de 7,8. Especialmente a nota do IMDb chama a atenção, revelando um grande nível de aprovação do público. Merecido.

Esta é uma produção 100% dos Estados Unidos. Por isso o filme atende a uma votação feita aqui no blog há algum tempo.

Em uma época como esta, em que o tema corrupção está tão presente no cotidiano dos brasileiros, Captains Courageous pode ajudar os pais a apresentarem o assunto para os seus filhos. A parte inicial da produção explica bem o que é suborno e corrupção. #ficaadica

CONCLUSÃO: Um filme que poderia ser debatido hoje em dia com grande propriedade nas escolas do Brasil e de muitos países mundo afora. Captains Courageous surpreende pela qualidade técnica, narrativa e pela ousadia do diretor Victor Fleming na direção. Uma produção que trata sobre educação, aprendizado, amadurecimento, família e que faz uma bela homenagem para os “homens do mar”. Em uma época em que tantos filhos se sentem órfãos de pais vivos e que nos falta bons exemplos para seguir, talvez precisemos ver a mais filmes como este e valorizar quem é simples mas sabe muito bem o valor do trabalho correto e do companheirismo. Esqueça o péssimo título em português. Eis uma bela surpresa.

Metropolis – Metrópolis

Um filme visionário em alguns aspectos e conservador em outros. Um dos maiores clássicos do cinema é também uma superprodução. Metropolis apresenta inovação na cenografia e acerta em vários pontos do “futuro” que acabou virando presente para a geração do século 21. Por outro lado, o filme preto-e-branco, ainda parte do cinema mudo, durante boa parte do tempo repete a dinâmica do teatro que, nos primórdios da Sétima Arte, era uma inspiração inevitável. O diretor Fritz Lang apresenta algumas técnicas interessantes em uma época em que os “efeitos especiais” eram feitos na unha. Fundamental, sem dúvida, especialmente pela influência que teria em outros filmes décadas depois.

A HISTÓRIA: Começa com uma epígrafe, que afirma que “o mediador entre a mente e as mãos deve ser o coração”. A cena de uma metrópole abre espaço para diversas imagens de engrenagens de máquinas que funcionam a todo vapor. O ponteiro do relógio vai avançando, e as máquinas não param, até que soa um apito e ocorre a troca de turno. Filas de homens uniformizados caminham lentamente para dentro e para fora da fábrica. Os que saem tem o passo muito mais pesado.

Quem chega vai para as “profundezas” da cidade, onde vão trabalhar até quase o esgotamento. Em outra parte, os filhos dos homens com dinheiro vivem uma vida frívola. Um destes “filhos” é Freder (Gustav Fröhlich), herdeiro do “mestre” de Metropolis. Ele vive mais um dia de farra até que Maria (Brigitte Helm) aparece nos Jardins Eternos e faz Freder mudar a sua vida.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Metropolis): Nada como fazer leituras sobre obras que já ganharam em profundidade com o passar do tempo. Certamente foi uma experiência muito diferente assistir Metropolis no ano de seu lançamento, em 1927, do que ver a obra agora, 90 anos depois. O exercício de pensar esta obra no ano em que ela foi lançada faz parte da avaliação justa de uma das produções mais importantes de Fritz Lang.

Metropolis tem uma carga dramática fortíssima e segue um tipo de interpretação que bebe diretamente do teatro. O cinema tinha sido “criado” quase 30 anos deste filme e os principais diretores daquela fase do cinema mudo procuravam, ao mesmo tempo, apresentar inovação com a Sétima Arte e também, para não serem totalmente estranhos para os seus públicos, um tipo de produção que era “palatável” para quem iria ao cinema ver aquele espetáculo.

Se pensarmos neste contexto, dá para entender a dinâmica teatral de Metropolis. Os atores claramente apresentam interpretações exageradas e bem conhecidas em teatros da época. Este tipo de interpretação fazia parte do que as pessoas esperavam para aquele momento histórico – para a nossa sorte e conforme a sociedade foi evoluindo, passamos anos habituar com interpretações mais interessantes e condizentes com os dramas humanos, algo muito menos caricatural.

Para o meu gosto e vendo o filme com os filtros de 2017, a parte da interpretação teatral e exagerada é algo que “incomoda” um pouco. Talvez um dos pontos fracos do filme, assim como a temática. Mas vamos falar dela depois. Por outro lado, o início de Metropolis possivelmente abriga algumas das cenas mais importantes e interessantes da produção. Nos minutos iniciais, Fritz Lang explora as possibilidades técnicas de sobreposição de imagens e de edição para passar as suas mensagens.

Chama muito a atenção como as engrenagens são mostradas como parte fundamental da grande metrópole. Sem toda aquela produção, as máquinas e seus trabalhadores, todo aquele “avanço” não seria possível. Para mim, a cena mais marcante da produção, assim como aquela em que aparece o grande invento de Rotwag (Rudolf Klein-Rogge) e que virou uma das cenas mais conhecidas da história do cinema, é aquela dos trabalhadores andando em marcha no início da produção.

Aquela sequência inicial de Metropolis apresenta boa parte do que Lang vai demorar o filme inteiro para “explicar”. Os trabalhadores entram na fábrica parecendo “animais” indo para o abate, e os que saem da produção, esgotado, parecem produtos em série. Todos, no fundo, parecem autômatos. São engrenagens que não devem pensar ou sentir e que fazem parte de um sistema de exploração humano, como Lang argumenta durante a produção.

A sequência dos trabalhadores em fileiras, cabeças baixas e passos cadenciados entrando e saindo da fábrica é das mais significativas e marcantes da produção. Depois, me chamou muito a atenção as imagens visionárias de Metropolis, com arranhas-céus e diversos meios de transporte (fileiras de carros, monotrilhos e aviões) preenchendo o cenário.

Estes cenários e a figura da “máquina humana” criada por Rotwag são, sem dúvida, duas partes muito marcantes da produção, não apenas pelo apelo visual destas imagens – dá para imaginar o impacto delas no público do final dos anos 1920 -, mas também pelo quanto elas, descontados alguns detalhes, anteciparam o que existiria apenas no final do século passado.

Também não deixa de ser muito visionário, ainda que apresentada de uma forma um tanto “tosca” (na visão de hoje, não na da época), a questão da clonagem. Afinal, Maria teria sido “clonada” na “máquina humana” segundo Rotwag. A clonagem, todos sabemos, seria efetivada apenas em 1996, com a ovelha Dolly – ou seja, quase 70 anos depois de Metropolis.

Todos estes pontos que eu comentei são o grande ganho e avanço apresentado por este filme do austríaco Fritz Lang (curioso que eu sempre achei que ele fosse alemão, mas não). Mas há outras questões da narrativa que seguem uma linha bastante conservadora. Para início de conversa, a questão central da produção: a diferença brutal entre a realidade das classes trabalhadora e a elite de Metropolis. O personagem de Freder me fez pensar, inicialmente, na história de Buda, que saiu de sua realidade “maquiada” e irreal de riquezas e passou a conhecer o mundo como ele era, cheio de desigualdades e de exploração, mudando de vida após este choque inicial.

Filho do “chefão” do pedaço, Freder vive uma vida frugal e cheia de prazeres até que é afetado pela imagem de Maria e de suas criancinhas pobres. A partir daí ele empreende uma “busca pela verdade” e, claro, por Maria. Assumindo o lugar do trabalhador 11811 – Georgy (Erwin Biswanger), Freder não apenas experimenta na pele a exploração dos trabalhadores (as “mãos” da frase que inicia a produção), mas também acaba descobrindo sobre o mapa que os trabalhadores levavam no bolso e sobre Maria.

A exploração da classe trabalhadora pelos donos do dinheiro é uma parte fundamental desta produção. Mas outra parte marcante é a questão messiânica da produção. Maria é tida quase como uma santa, alguém que inspira os trabalhadores a acreditarem em um mundo melhor quando chegasse o “messias” – a pessoa que trabalharia como mediadora entre eles e o dono de Metropolis. Logo descobrimos que esse “mediador” é Freder, o “coração” da história – ou seja, a pessoa que sabe olhar além das máquinas, do trabalho e do dinheiro e que se importa realmente com as pessoas.

Mas o filme longo demais e um tanto arrastado de Lang – justificado apenas pela necessidade do diretor de mostrar o domínio das novas técnicas e recursos propiciados pelo cinema – leva duas horas e meia para nos apresentar a solução do conflito. Depois dos trabalhadores, iludidos pela figura messiânica e diabólica do “homem máquina” travestido de Maria, acabarem com a cidade das máquinas e, consequentemente, com a sua própria cidade e com Metropolis, finalmente Freder age como mediador do conflito e une os trabalhadores e a “mente” (quem tem a visão do todo e pensou Metropolis).

A mensagem que Lang deixa, desta forma, é que as relações entre trabalhadores e patrões não pode continuar da mesma forma. Que é necessária uma revisão nestas relações que leve em conta o “coração”, ou seja, a reflexão de que nada funcionaria sem a força do trabalho (das mãos) e que, por isso mesmo, os trabalhadores devem ser tratados com respeito e consideração e não serem explorados. O roteiro de Thea von Harbou, que escreveu a obra que deu origem para o filme e que teve contribuição de Lang para a adaptação para o cinema, deixa clara esta necessidade de revisão das relações e de como qualquer cidade depende igualmente da visão criativa dos patrões e da dedicação “braçal” dos empregados.

A parte mais previsível do roteiro é exatamente esta, a velha e boa disputa entre classes sociais que só pode ser resolvida através do entendimento e da negociação, até porque patrões e trabalhadores dependem um dos outros. Uma parte interessante do filme, aliás, é quando os trabalhadores e suas mulheres destroem a cidade das máquinas sem pensar nos efeitos daquele gesto incentivado pela “falsa Maria”. O guardião da máquina-coração, Grot (Heinrich George), tenta alertar os colegas sobre a besteira que eles estão fazendo, mas ninguém lhe dá ouvidos. O que demonstra o efeito nocivo do “comportamento de manada” que, infelizmente, nunca é racional.

Também chama a atenção o abandono das crianças. É como se Thea von Harbou e Lang estivessem dizendo que os trabalhadores, ao lutarem contra as máquinas e o seu próprio ganha-pão, estivessem acabando com o próprio futuro (representado pelas crianças). Ou seja, Metropolis defende, em certa medida, que o futuro passa, necessariamente, pelo trabalho, e que a revolta dos trabalhadores não leva a nada. O filme também explora a questão da influência da religião, seja como alerta, seja como recurso para “apaziguar” desejos de mudança.

Vejamos. Maria faz as vezes de uma figura messiânica que, através da promessa da vinda de um “mediador”, esvazia o desejo de mudanças e a possibilidade de revolta dos trabalhadores. Em certo momento da produção, Freder fica conhecendo uma passagem do Apocalipse e vemos na figura da “falsa Maria” o instrumento para o reinado da morte e dos sete pecados capitais. Ah sim, e em determinado momento Maria também fala sobre a construção da Torre de Babel. Ou seja, muitas referências bíblicas nesta produção.

Toda esta referência bíblica eu achei um tanto desnecessária e exagerada, ainda que dê para entender ela como parte da crítica de Thea von Harbou e Lang. Algumas cenas da história da Torre de Babel servem de paralelo para o que acontece em Metropolis. Nas duas histórias vemos a exploração dos trabalhadores – inclusive com o paralelo entre os escravos da época da Torre e os trabalhadores de Metropolis – e a soberba dos homens acreditando que poderiam substituir Deus.

Existe também a reflexão sobre a bondade das pessoas e a maldade das máquinas. De forma bastante inovadora e acredito que até atemporal, Metropolis nos adianta a discussão sobre o uso da tecnologia e mostra que as máquinas em si não são ruins, mas o uso delas sim pode ser daninho. O vilão da história não é a “máquina humana” que acaba se passando como Maria e enganando os trabalhadores. O vilão de Metropolis é o inventor Rotwag que, por vingança, acaba utilizando a figura de Maria para destruir o seu desafeto Joh Fredersen (Alfred Abel).

Com mais esta temática em cena, Lang parece denunciar os “falsos profetas”, os falsos ídolos que trabalham nos bastidores em prol de seus próprios interesses e que podem ser muito prejudiciais. Líderes com esta necessidade de poder e ânsia destrutiva apareceriam depois de Metropolis, reforçando ainda mais algumas das preocupações apresentadas pelo filme de Lang.

Metropolis tem alguns elementos marcantes e muito visionários, especialmente ao tratar de parte de um futuro que seria concretizado muitas décadas depois da produção estrear. O filme, por toda o seu apelo visual, deve ter impressionado as plateias da época. O problema da produção é que ela não se contenta em investir nos aspectos visionários e mistura muitos elementos em uma história que poderia ser mais objetiva e envolvente.

Para os padrões da época, toda a dramaticidade das cenas de perseguição especialmente de Maria devem ter funcionado, mas hoje elas parecem teatrais demais e um tanto desnecessárias. É um grande filme, ainda que ele não tenha a força de outros lançados naquela fase inaugural do cinema.

NOTA: 8,8.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Olá amigos e amigas do blog! Coisa boa voltar a falar de filmes clássicos! Há várias semanas eu queria retomar a seção “Um Olhar Para Trás”, na qual eu comento sobre filmes que marcaram a história do cinema mundial segundo o livro “1001 Filmes Para Ver Antes de Morrer”. Pois bem, como estamos em 2017, vou retomar sempre a filmes que estão fazendo “aniversário” neste ano. Começo com o primeiro filme com esta característica que aparece no livro, que é Metropolis.

Eu considerava uma “falha” no meu currículo não ter assistido a Metropolis antes. Algumas das cenas mais marcantes da produção, como a apresentação da “máquina humana”, eu já tinha assistido, mas ao filme inteiro, ainda não. Aliás, encontrei uma versão de Metropolis restaurada, ou seja, com a duração completa do filme – de duas horas e 33 minutos – com diversas cenas resgatadas e outras apenas “narradas” através de texto (no caso das cenas definitivamente perdidas). O ideal é assistir a esta versão, até para conhecer a visão artística de Fritz Lang na sua integralidade.

Vocês vão me perdoar, mas como esse filme faz parte desta seção de revisão histórica do cinema, desta vez vai vir aqui um textão. 😉 Além da crítica que fiz acima, acho muito válido citar informações trazidas pelo crítico Kim Newman na obra “1001 Filmes para Ver Antes de Morrer”. Cito o início da crítica dele sobre Metropolis: “Com uma duração original de mais de duas horas, Metrópolis, de Fritz Lang, é o primeiro épico de ficção científica, com cenários imensos, centenas de figurantes, efeitos especiais de ponta para a época, muito sexo e violência, uma moral nada sutil, atuações grandiosas, um quê de goticidade alemã e inovadoras sequências de fantasia. Financiado pela UFA, o gigante cinematográfico alemão, o filme foi controverso e se revelou um desastre de bilheteria que quase levou o estúdio à falência”.

Bem citado por ele duas questões: realmente Metropolis foi o primeiro épico do gênero ficção científica; e chama a atenção neste filme o número gigante de figurantes – a exemplo de Intolerance: Love’s Struggle Throughout the Ages, clássico épico de 1916 comentado por aqui e que estreou a seção “Um Olhar Para Trás”.

O crítico Kim Newman continua comentando como o enredo de Metropolis é “quase tão simplista quanto um conto de fadas”. Hehehehehe. Verdade. Como eu disse antes, o enredo do filme é um de seus pontos fracos, tanto por ser simplista quanto por misturar muitas estações. Vale citar outro trecho da crítica de Newman: “Logo depois de lançado, a distribuição do dispendioso filme foi interrompida e ele foi remontado contra a vontade de Lang: essa versão truncada e simplificada continuou sendo a mais conhecida – inclusive na sua forma remixada e colorizada por Giorgio Moroder na década de 1980 – até o século XXI, quando uma restauração parcial (com sutis intertítulos de ligação para substituir as cenas que continuam irreversivelmente perdidas) chegou bem mais perto da visão original de Lang”.

Importante ressaltar, mais uma vez, que eu assisti justamente a esta versão da obra restaurada. Ou seja, não assisti às versões que Newman cita que foram modificadas sem a concordância de Lang e que acabaram sendo as versões mais conhecidas da obra. Então levem em conta isso e tentem realmente assistir a versão que o diretor gostaria que todos nós assistíssemos.

Retomando os comentários de Newman: “Essa versão (a restaurada) não só acrescenta várias cenas que passaram décadas inéditas como também restaura a ordem delas na versão original e acrescente os intertítulos corretos. Até então considerado um filme de ficção espetacular, porém simplista, essa nova-velha versão revela que a ambientação futurista não tinha a intenção de ser profética, mas sim mítica, com elementos da arquitetura, indústria, design e política da década de 1920 misturando-se com o medieval e o bíblico para produzir imagens de uma arrebatadora estranheza: um robô futurista queimado na fogueira; um cientista louco e mão-de-ferro que é também um alquimista do século XV; os trabalhadores que se arrastam em direção às mandíbulas de uma máquina que é também o antigo deus Moloch”. Certíssimo o crítico. A mistureba do filme é impressionante.

Seguindo ainda o que Newman nos conta: “A interpretação de Fröhlich como o herói que representa o coração ainda é extremamente exagerada, porém o engenheiro Rotwang de Kleine-Rogge, o Mestre de Metrópolis de Abel e, principalmente, Helm, no papel duplo da angelical salvadora e da femme fatale de metal, estão magníficos. Depois que boa parte da história foi restaurada a partir de um mergulho nas motivações contraditórias dos personagens, a fantástica trama passa a fazer mais sentido e podemos vê-la tanto como um bizarro drama familiar quanto como um épico de repressão, revolução e reconciliação”.

Ainda que eu concorde com Newman de que as interpretações de Alfred Abel como John Fredersen e de Rudolf Klein-Rogge como Rotwang sejam menos exageradas do que a de Gustav Fröhlich, devo opinar que acho as interpretações destes últimos dois exageradas também em muitos momentos da produção. Não o tempo todo do filme, a exemplo de Fröhlich, mas em alguns trechos sim. E ainda que a atriz Brigitte Helm seja claramente a estrela deste filme, brilhando em muitas ocasiões e ofuscando os demais, ela também tem momentos de puro exagero – cito, por exemplo, a sequência em que ela é perseguida por Rotwang nas “profundezas” da Cidade dos Mortos. Exagerado.

Além dos atores citados, que são os destaques da produção, vale comentar o bom trabalho de Fritz Rasp como o “capataz” de Fredersen; de Theodor Loos, este sim, provavelmente o menos exagerado em cena, como Josaphat, funcionário de Fredersen que é demitido por ele e que acaba sendo o principal aliado de Freder; Erwin Biswanger, também menos exagerados que os outros, interpreta bem o personagem 11811 Georgy; e Heinrich George ganha importância como Grot mais na reta final do filme. Todos estão bem, ainda que os destaques sejam mesmo Helm e o exagerado Fröhlich.

Como todo filme mudo exige, a trilha sonora de Gottfried Huppertz e de Bernd Schultheis é um elemento forte e fundamental nesta produção. Eles fazem um grande trabalho, reforçando a característica épica de Metropolis. Me chamou a atenção, em especial, quando os trabalhadores começam a sua revolução, como a trilha sonora lembra alguns acordes do hino da França, A Marselhesa.

Da parte técnica do filme, destaque para a direção de fotografia excelente de Karl Freund, Günther Rittau e Walter Ruttmann; para a direção de arte fundamental para o filme ter se tornado o marco que ele se tornou e que é assinada por Otto Hunte, Erich Kettelhut e Karl Vollbrecht; o trabalho fundamental de Otto Hunte, Erich Kettelhut, Walter Schulze-Mittendorff, Karl Vollbrecht e Edgar G. Ulmer no departamento de arte; os efeitos especiais de Ernst Kunstmann, Konstantin Irmen-Tschet e Erich Kettelhut; e os efeitos visuais de Jeff Matakovich, Eugen Schüfftan, Erich Kettelhut (esse trabalhou, hein?), Ernst Kunstmann, Willy Muller, Hugo O. Schulze e Edmund Zeihfuss. Mais que o roteiro de Lang e de Thea von Harbou, este pessoal que eu citei aqui foi fundamental para a produção ter a qualidade e a força que ela tem.

A premiere de Metropolis foi feita no dia 10 de janeiro de 1927 em Berlim, na Alemanha. Nos Estados Unidos o filme estreou no dia 6 de março daquele mesmo ano. A versão editada do filme estreou no dia 5 de agosto em Stuttgart, também na Alemanha. No Brasil o filme estreou no dia 4 de novembro de 1927. A primeira versão restaurada de Metropolis estreou no dia 15 de fevereiro de 2001 no Festival Internacional de Cinema de Berlim. Depois, em 2010, seria lançada a última versão restaurada e a mais completa do filme – foi esta que eu vi e é esta que eu recomendo.

Metropolis teria custado 6 milhões de marcos alemães – uma fortuna para a época. Esse custo, atualizado pela inflação, significaria algo em torno de US$ 200 milhões em 2007.

Algumas curiosidades sobre o filme. Thea von Harbou era a mulher de Fritz Lang. Ela resolveu ficar na Alemanha enquanto o marido, judeu, mudou-se para os Estados Unidos. Foi lá que, ao observar as silhuetas dos edifícios de Nova York, ele se inspirou para a cidade que vemos em Metropolis. De acordo com o livro “1000 Que Fizeram 100 Anos de Cinema”, “durante 20 anos (Lang) lutou contra os produtores de Hollywood que interferiam em sua visão criativa”.

Esta produção teria utilizado 37 mil extras, sendo 25 mil homens, 11 mil mulheres, 1,1 mil homens carecas e/ou que tiveram a cabeça raspada (para a cena da Torre de Babel), 750 crianças, 100 negros e 25 asiáticos. As filmagens duraram impressionantes 310 dias.

Para a consternação de Fritz Lang, Adolf Hitler e Joseph Goebbels eram dois grandes fãs de Metropolis. Um dia, Goebbels se reuniu com Lang e disse que, “apesar dele ser judeu”, ele poderia ser nomeado um “ariano honorário” porque, afinal, eles “decidiam” quem era ou não judeu. Na mesma noite desta conversa, Lang fugiu para Paris.

O desemprego e a inflação eram problemas tão graves na Alemanha quando o filme foi feito que os produtores não tiveram problemas em achar 500 crianças desnutridas para participar das sequências de inundação.

O filme influenciou tanto os criadores do Superman, Jerry Siegel e Joe Shuster, que eles resolveram dar o nome para a cidade em que se passa a HQ como Metropolis.

A história de Metropolis se passa em 2026.

Metropolis foi filmado nas cidades de Berlim, na Alemanha, e em Viena, na Áustria, além de ter sido rodado no estúdio Babelsberg, em Potsdam; na fábrica da Guinness, em Dublin; e no Filmwerke Staaken, em Spandau.

O robô apresentado em Metropolis serviu de inspiração para o C-3PO de Star Wars, produção lançada 50 anos depois. A mão mecânica de Rotwang serviria também de inspiração para o personagem de Dr. Strangelove or: How I Learned to Stop Worrying and Love the Bomb.

A mulher de Lang, Thea von Harbou, era uma defensora do nazismo. Adolf Hitler e todo o seu círculo próximo gostaram do filme e acharam ele um tipo de “plano social” – certamente a parte de “encantar” os trabalhadores. Talvez por tudo isso Lang, que era judeu e que fugiu da Alemanha assim que pode – apesar dos nazistas oferecem a possibilidade dele continuar lá -, disse que gostou de fazer o filme, mas que já não apreciava ele tanto assim depois que ele foi finalizado.

A atriz Brigitte Helm interpretou, de fato, a “máquina humana”, usando aquele pesado traje que, segundo a atriz, era muito desconfortável e inclusive lhe provocou machucados.

A revista Premiere escolheu Metropolis como um dos “100 filmes que abalaram o mundo” em 1998, em uma lista que destacou os filmes mais ousados que já foram lançados nos cinemas na história. Certamente este filme foi bastante ousado e visionário para a sua época e influenciou muitos realizadores.

A exemplo do que vemos em cena, Fritz Lang também exigiu dos atores e da multidão de extras jornadas extenuantes de gravações. Em muitas cenas ele não queria o uso de dublês e a atriz Brigitte Helm teve que se arriscar e até chegou a desmaiar em cena – como em uma longa sequência com o traje metálico da “máquina humana”.

O especialista em efeitos especiais Eugen Schüfftan criou vários efeitos pioneiros para Metropolis. Entre outros, destaque para os de miniaturas da cidade; o de uma câmera em um balanço; e, principalmente, o processo que levou o sobrenome dele, Schüfftan, em que espelhos são utilizados para que os atores apareçam em cenários de miniatura. Essa última técnica, que era nova, só foi utilizada novamente em 1929, no filme Blackmail.

Quando o filme estreou, no dia 10 de janeiro de 1927, o público presente “explodiu” em aplausos em algumas das cenas mais espetaculares da produção.

O elenco de Metropolis foi formado, basicamente, por atores desconhecidos. Heinrich George era um ator, na época, conhecido apenas nos teatros; Gustav Fröhlich era um jornalista de 19 anos que não tinha experiência no cinema; e a experiência anterior de Brigitte Helm tinha sido a das audições para o filme Die Nibelungen: Siegfried, de 1924 e dirigido por Fritz Lang também.

O Vaticano classificou Metropolis como um filme de “arte” e como um dos 45 grandes filmes da história do cinema. Esta produção também faz parte da lista de grandes filmes de Roger Ebert.

Metropolis ganhou cinco prêmios e foi indicado a outros quatro. Todos os prêmios que ele recebeu foram dados a partir do ano 2000. Vale citá-los: Melhor Lançamento de DVD de Filme Clássico em 2011 pela Academy of Science Fiction, Fantasy & Horror Films; o prêmio Honorary Roger para Kevin Saunders Hayes no ano 2000 no Festival de Cinema de Avignon/Nova York; o prêmio especial pela restauração do filme em 2002 dado pelo New York Film Critics Circle Awards; o de Melhor Filme no OFTA Film Hall of Fame em 2000 dado pelo Online Film & Television Association; e o de Melhor Restauração do Ano em 2002 no Rondo Hatton Classic Horror Awards.

O diretor Fritz Lang nasceu em 1890 na cidade de Viena, na Áustria, e morreu em 1976 em Los Angeles, nos Estados Unidos, país que adotou após a ascensão do nazismo na Alemanha, onde morava. Com 46 filmes no currículo como diretor, Lang foi um dos expoentes da escola de cinema chamada expressionismo alemão, caracterizada por uma “pintura dramática e subjetiva” criada para expressar os sentimentos humanos. Ou seja, foi uma escola do “exagero” e que revelava de “forma plástica” questões como o amor, o ciúme, o medo, a solidão, a miséria humana e a prostituição. Neste caso, os valores emocionais predominam sobre os valores intelectuais. Existe uma deformação intencional de formas e de cores, além do uso da caricatura e do aspecto teatral. Algo que vemos claramente em Metropolis. Lang é considerado um dos grandes diretores do cinema de todos os tempos.

Fritz Lang foi casado com Thea von Harbou entre 1922 e 1933. Após visitar Nova York, o diretor pediu que a esposa escrevesse um livro inspirado nos edifícios da cidade americana – foi aí que surgiu Metropolis. Como Thea von Harbou foi defensora do nazismo, Lang se separou dela e casou-se com a atriz alemã Lily Latte em 1971, ficando casado com ela até que ele morreu em 1976. Antes de ser casado com Thea von Harbou, Lang foi casado com Lisa Rosenthal entre 1919 e 1921, quando ela morreu.

Os usuários do site IMDb deram a nota 8,3 para a produção, enquanto que os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 114 críticas positivas e apenas uma negativa para Metropolis, o que lhe garante uma aprovação de 99% e uma nota média de 9,1.

Este é um filme 100% de produção alemã. Certamente um dos grandes filmes da história daquele país. Com ele, retomo a seção “Um Olhar Para Trás” criada aqui no blog no ano passado e também atendo a uma votação feita há algum tempo por aqui.

CONCLUSÃO: Um dos grandes clássicos da primeira fase do cinema mundial, Metropolis é uma produção ousada em diversos aspectos técnicos e um tanto conservadora na mensagem e no enredo. Aqui a velha “disputa” entre proletariado e classe abastada é resolvida através de figuras um tanto messiânicas. O interessante mesmo da produção é a sua visão sobre o futuro – com alguns acertos e erros sobre o que viria pela frente.

Tem mais qualidades que defeitos, especialmente se pensarmos sobre a época em que o filme foi feito, mas ele poderia ser mais curto. Um tanto grandiloquente demais, Metropolis peca um pouco pelo excesso. O diretor Fritz Lang quis mostrar o seu poder, e conseguiu. Tecnicamente bem feito, o filme tem uma dinâmica muito irregular. Mas merece ser visto, especialmente porque realmente faz parte da história do cinema.

Before I Fall – Antes Que Eu Vá

Todos os dias nós fazemos uma série de escolhas. Nem sempre nos damos conta que elas poderão ser as nossas últimas decisões na vida. Before I Fall trata de um tema importante e que sempre vale boas histórias quando estas são bem contadas: a nossa mortalidade. Mas não é apenas isso. Este filme acerta em cheio ao tratar de um público específico e de um tema muito importante nos nossos dias – e em qualquer outro dia, mas devemos admitir que, agora, em especial. Um filme sensível e interessante, com um belo elenco e um roteiro que dá conta do recado, apesar de ser um tanto previsível.

A HISTÓRIA: Samantha Kingston (Zoey Deutch) olha para a frente e comenta que talvez para quem esteja a ouvindo, exista um amanhã. Ou milhares, ou dezenas deles. Enquanto ouvimos as suas palavras, vemos vários personagens desta história em cenas cotidianas. Ela comenta que para muitos apenas o presente importa. Fala sobre o fim, e de como nunca sabemos sobre ele.

O dia em que tudo muda começa como outro qualquer. No caso de Samantha, este dia é justamente o Dia dos Namorados nos Estados Unidos, o dia 12 de fevereiro. Ela desperta com o celular tocando e recebe uma mensagem da amiga Lindsay Edgecomb (Halston Sage). Este será um dia importante, mas Samantha nem imagina ainda o quanto.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que o texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Before I Fall): Para muitos a história deste filme pode ser “bobinha”. A narrativa pode parecer “juvenil” demais, ou então o desenrolar repetitivo da história um tanto cansativo ou previsível. Bem, de fato o roteiro de Maria Maggenti baseado no livro de Lauren Oliver é bastante “previsível” lá pelas tantas.

Não é preciso ser nenhum gênio para “matar” a moral da história muito antes dela emergir. Mas não é tanto isso o que importa. O que realmente interessa aqui são outros pontos. O primeiro, a meu ver, é que Before I Fall trata de um público e de acontecimentos que são muito atuais – e, me arrisco a dizer, sempre atuais. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). A questão central desta produção é o quanto a vida é valiosa. O quanto viver é algo precioso, ainda que nem sempre façamos esta constatação.

A “moral da história” de Before I Fall tem a ver um pouco com aquela música do Paulinho Moska. Se você soubesse que este é o seu último dia de vida, o que você faria? A grande questão, muito bem abordada por Before I Fall, é que nós realmente nunca sabemos quando será o nosso último dia. Pode ser qualquer dia, na verdade, porque ninguém sabe quando vai morrer – exceto se faz esta escolha, e este é um outro tema fundamental desta produção.

Para mim, tão importante quanto a “moral da história” sobre a valorização da vida, Before I Fall acerta na mosca ao tratar do suicídio entre jovens. Tenho ouvido várias pessoas, especialmente na igreja, comentando sobre como tem aumentado o suicídio entre adolescentes. O contexto que vemos nesta produção ajuda para isso, com bullying e tudo o mais. Mas isso não explica tudo.

Afinal, não sei você que me lê, porque eu não sei a tua idade, mas se você, como eu, já tem um pouco mais de “experiência” de vida – eu tenho 38 anos, então tive infância nos anos 1980 e adolescência nos anos 1990 -, sabe que ainda que na “nossa época” ninguém falasse de bullying, ele já existia. E, acredito, ele sempre existiu e sempre vai existir. Porque é um pouco do “espírito humano” e do processo de autodescoberta as crianças e adolescentes manifestarem as suas “sinceridades” e, muitas vezes, serem cruéis. Com isso não quero dizer que o bullying deve existir. Não. Para isso estão os pais e todo o sistema educacional para educar as crianças e jovens de como eles devem tratar os demais.

Mas o que eu estou tentando comentar é que “trollagem” e brincadeiras, algumas vezes exageradas, vão existir provavelmente sempre entre os estudantes. O papel dos “adultos” é colocar limites e cuidar para que esta dose não seja exagerada. Dito isso, o que eu acho que mudou e que explica um aumento no número de suicídios entre jovens é porque o contexto geral para eles, muitas vezes, piorou. Não é apenas o bullying, mas muitas vezes a desestruturação das famílias e a falta deste apreço pela vida que, acredito, não pode ser “ensinado”, mas pode ser sim incentivado. E nem sempre o jovem tem este incentivo.

Então algo que achei ótimo neste filme é que ele se apresenta super adequado para o público jovem. Vi em cena um contexto juvenil – final do ensino médio – bem apresentado e que, ao menos para mim, foi convincente e fez sentido. Como sempre, está em cena a autoafirmação e autodescoberta dos indivíduos. Consequentemente, entram em cena a questão família, amigos e sexualidade. Tudo isso está bem apresentado na narrativa centrada na protagonista de Before I Fall.

O contexto de ensino médio em que você tem os estudantes populares e os “losers” também é parte fundamental da produção. Em toda a parte inicial de Before I Fall eu achei o roteiro de Maria Maggenti muito acertado. Afinal, logo de cara entendemos que Samantha vai morrer e que vamos acompanhar aquele que parece ser o último dia de vida dela. Apenas esse argumento já desperta a atenção e o interesse do espectador. Afinal, o que poderia ter mudado no dia daquela garota para fazer ela morrer naquele dia?

Logo de cara pensei em duas alternativas: crime ou morte no trânsito. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Como a vida de Samantha era bastante normal, só poderia ser algo inesperado para acabar com a trajetória dela tão rápido. De fato, não demora muito para sabermos que a morte dela foi por acidente, mas aí o roteiro dá uma virada interessante. A exemplo de outras produções, Samantha entra em um “dia sem fim”. A história dela vira um grande looping, com aquele dia fatídico sendo repetido uma e outra vez.

Na primeira vez que o dia se repete, Samantha age com incredulidade. Ela não acredita realmente que tudo esteja se repetindo e até comenta sobre um longo déjà-vu. Este é o primeiro estágio, segundo a psicologia, do luto – a negação. Conforme as repetições vão acontecendo, Samantha começa a repensar sobre aquilo. Acaba partindo para o segundo estágio do luto, a raiva, quando resolve “radicalizar” e dar uma de “garota má”. Já que nada vai mudar e ela vai viver aquele dia novamente, que tal entrar de soleira em quase todas as situações e falar “tudo o que pensa”?

A questão é que ela apenas está se revoltando contra aquele looping sem fim. Como Kent McFuller (Logan Miller) mesmo observa, aquelas atitudes não são, realmente, de Samantha. Assim, de forma inteligente, Before I Fall vai explorando a história segundo os cinco estágios do luto – confira mais sobre o modelo de Kübler-Ross por aqui ou através deste texto. Depois da revolta e do comportamento “rebelde”, a protagonista “desacelera” e começa a curtir aqueles dias de forma diferente.

Passa a aproveitar melhor a presença da família (fase da barganha e, porque não dizer, do início da tomada de consciência) e, finalmente, tem uma temporada de viver aqueles dias sem ânimo (essa parte, da depressão, é pouco explorada por Maggenti). Na reta final da produção, Samantha vai, finalmente, vendo a própria ficha cair. Ela percebe que mais do que realmente aproveitar aquele último dia de vida ao máximo, ela deve ser mais generosa com as pessoas. Fazer o bem. Ela então entra na parte da aceitação sobre o próprio destino.

Esta leitura sobre as cinco fases para aceitar a perda/luto eu fui entender depois de ter visto o filme e ao começar a refletir sobre o que ele fala nas entrelinhas. Mas enquanto assistia à produção, me chamou muito a atenção a mensagem de Before I Fall de que deveríamos aproveitar melhor o nosso tempo para fazer o bem e para sermos atenciosos com quem a gente ama e com todas as outras pessoas. Demonstrar amor para valer e ter um olhar um pouco mais cuidadoso para quem está sofrendo.

Daí a importância desta produção neste momento. Before I Fall trata de depressão e de suicídio focando em um público em que este tema está mais presente agora do que nunca. A produção mostra de forma despretensiosa mas muito potente algo que vamos aprender apenas com o tempo e com a maturidade que ele nos trás: que tudo nesta vida é passageira. Inclusive a dor, o incômodo e a angústia que muitas vezes ocupa os dias da nossa adolescência. Não importa o que façam com você quando você é jovem, com o tempo isso vai passar e pode ser curado se você achar os caminhos e as ferramentas certas.

Nada é permanente. Nem a dor, nem a felicidade, muito menos a vida – ao menos a terrestre. Quando somos jovens, tudo parece imenso, algumas vezes insolúvel, mas isso é porque ainda não olhamos para a frente e em perspectiva como vamos aprender depois. De sua maneira muito simples, Before I Fall nos faz refletir sobre como a nossa rotina acaba nos “engolindo”, e como é necessário, de tempos em tempos, parar tudo e fazermos o que precisamos fazer de mais importante, que é ajudar quem precisa e de falar para quem amamos que os amamos para valer.

Enfim, há muitas maneiras de viver a vida, como Before I Fall demonstra de maneira pueril. Claro que o assunto poderia ser tratado com maior profundidade, mas aí este filme não falaria com o público jovem como ele fala. E isso, pelas razões que eu comentei antes, é bastante importante. O único ponto que me “incomodou” um pouco no filme é que o espectador mata a “charada” sobre o que Samantha precisa fazer muito antes do que a própria personagem. Isso não costuma ser bom para um filme, mas em Before I Fall esta obviedade do roteiro é um bocado ofuscada pelo talento de Zoey Deutch.

A atriz, que tem um grande carisma e que não exagera na interpretação em momento algum, é a grande responsável – junto com a “moral da história” – pelo êxito da produção. Quando o roteiro fica óbvio, não nos importamos tanto com isso porque Zoey Deutch brilha em cena. Fiquei emocionada, admito, quando começa o último dia dela para valer. A partir dali, Samantha assume uma postura de gratidão e de confiança sobre o que ela precisa fazer, sobre o que é certo.

A forma com que ela trata os pais e a irmã mais nova, Izzy (Erica Tremblay), em especial, são tocantes. Quem dera que a gente, apesar do cotidiano/rotina que muitas vezes nos engole, soubesse mais vezes acordar com aquele olhar de compreensão plena e de generosidade. No fundo, um filme importante não apenas para o público-alvo, os adolescentes, mas também para qualquer pessoa que precisa, volta e meia, lembrar de sua própria humanidade e mortalidade para, desta forma, ser mais grata e humilde.

NOTA: 9.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Eita que esta semana estou com filmes surpreendentes “na manga”. Antes comentei a Get Out (com crítica neste link), um suspense/terror que se mostrou mais profundo e interessante do que eu poderia imaginar a priori. E agora, ao assistir Before I Fall, uma nova surpresa. Estava esperando um filme “bobinho”, mas vi muito mais conteúdo e relevância nele do que eu poderia imaginar. Isto demonstra como, às vezes, vale muito a pena abraçarmos filmes que não parecem “tudo aquilo” e que, no fim das contas, nos surpreendem positivamente.

Como eu disse antes, uma das qualidades deste filme é o roteiro de Maria Maggenti – ainda que, admito, este também seja o ponto fraco da produção. Explico. Maggenti faz uma apresentação interessante da história, assim como a primeira reviravolta do roteiro. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Depois, ela segue a cartilha e apresenta uma história linear e praticamente sem mais surpresas – a única, eu diria, é a primeira vez que aparece como Juliet Sykes (Elena Kampouris) morre. Mas a maior parte do roteiro é previsível. Ainda assim, a direção de Ry Russo-Young, que sabe explorar muito bem os detalhes das interpretações e apresenta uma dinâmica em cena interessante, segura as pontas. Não sofremos com tédio na produção por causa da dinâmica do filme e pelo desempenho do elenco.

Falando em elenco, o grande destaque da produção é, sem dúvida alguma, Zoey Deutch. Ela sabe tornar a personagem de Samantha, uma garota de “grande coração” e um tanto tímida, mas ao mesmo tempo popular no colégio, em alguém quase familiar do espectador. Difícil alguém não se ver um pouco em Samantha ou, pelo menos, ter alguém parecido na lembrança. E o mesmo acontece com as demais personagens da história. Verdade que a maioria deles é bem lugar-comum, mas para o que o filme se propõe – de ser bem compreendido pelo público jovem -, faz sentido.

A personagem de Zoey Deutch dita o ritmo da produção. A história toda é focada em Samantha e em suas reações, escolhas e atitudes. Mas o grupo que cerca esta personagem também tem relevância na história, por isso é bacana citar o bom trabalho de outros atores e atrizes da produção. Destaque neste sentido para Halston Sage como Lindsay Edgecomb, a melhor amiga de Samantha; Cynthy Wu como Ally Harris, outra amiga próxima da protagonista; Medalion Rahimi como Elody, amiga que fecha o “trio” de melhores amigas de Samantha; Logan Miller como Kent McFuller, o garoto apaixonado pela protagonista; Kian Lawley como Rob Cokran, o namorado “cobiçado” da protagonista e, aparentemente, um tanto “mente vazia”; Erica Tremblay como Izzy, irmã caçula de Samantha; Jennifer Beals como a mãe de Samantha; Nicholas Lea como o pai da garota; Liv Hewson como Anna Cartulo, a lésbica da classe; e Elena Kampouris como Juliet Sykes, taxada de “psicopata” por Lindsay.

Além deste grupo de atores, que é o núcleo central da trama, vale citar Diego Boneta como o professor de Samantha – e que tem, com ela, uma sequência interessante na história; e Keith Powers em uma ponta como Patrick, namorado de Lindsay. Por falar na melhor amiga de Samantha, que é um pouco “garota má” da história – aquela figura superpopular da escola e que tira sarro de metade das pessoas que aparecem pela frente -, até ela deixa uma mensagem interessante para os espectadores. Em determinado momento, Samantha confronta a amiga e fala algumas “verdades” para ela. Mas isso ocorre antes dela passar a ter um olhar generoso para todos e perceber que aquele comportamento equivocado da amiga, muitas vezes, era apenas uma forma de autodefesa. Isso é o que acontece na vida real também. Muita gente age de forma grosseira ou desnecessária por outros motivos que não por maldade. Vale a reflexão.

Da parte técnica do filme, vale destacar a ótima edição de Joe Landauer; a trilha sonora bastante adequada e envolvente de Adam Taylor; o casting competente de Nancy Nayor; o design de produção de Paul Joyal; e os figurinos de Eilidh McAllister.

Pensando agora no que eu escrevi acima, percebi que faltou falar de algo importante. Afinal, o que realmente acontece com Samantha? O que significa aquele looping sem fim? (SPOILER – não leia… bem, você já sabe). Eu não li ao livro que deu origem ao filme, mas a leitura que eu faço é a seguinte: realmente Samantha passou a viver em uma espécie de “purgatório” depois de ter morrido. Ou seja, sim, ela morreu naquele acidente de trânsito, após o capotamento do carro dirigido por Lindsay. Então sim, no fim das contas ela não salvou Juliet. Mas, como ela bem comenta no final, após passar por todos os estágios do luto, ela realmente entendeu aquele último dia de vida e a própria vida dela. Com a experiência de “reviver” aquele último dia mais de uma vez, ela conseguiu fazer as “pazes” com as pessoas que deixou e consigo mesma, e aí pode descansar em paz. Esta é uma leitura possível e que, para mim, faz todo o sentido. Mais do que ela ter vivido aquele dia diversas vezes sem ser após a morte.

Voltemos agora para os comentários usuais desta parte da crítica. 😉 Before I Fall teria custado US$ 5 milhões – um orçamento relativamente baixo – e faturado, apenas nos Estados Unidos, pouco mais de US$ 12,2 milhões. Apenas na semana de estreia o filme fez US$ 4,7 milhões – ou seja, quase cobriu os custos “brutos” da produção. Como o filme vai faturar em outros mercados ainda, certamente fechará as contas com lucro.

Produção 100% dos Estados Unidos – por isso o filme passa a integrar a lista de produções que atendem a uma votação feita há tempos por aqui -, Before I Fall foi totalmente rodado na cidade canadense de British Columbia.

Algumas curiosidades sobre a produção: Before I Fall foi rodado em apenas 24 dias. A história de Sísifo que o professor de Samantha cita em aula não está ali por acaso. O mito de Sísifo conta sobre um homem que foi forçado por um deus a empurrar uma pedra enorme barranco acima sem parar por toda a eternidade – uma alusão clara sobre o “dia sem fim” de Samantha. A protagonista do filme acaba lutando contra o fato de não poder mudar o seu destino – a exemplo de Sísifo – até que, como ele, ela tem uma epifania. Curioso.

Este seria o quinto filme que trata de um filme sendo vivido em looping. Os anteriores seriam Groundhog Day, 12:01, Edge of Tomorrow e Source Code. Lembro de ter assistido apenas ao último (muito bom, aliás, e comentado por aqui).

A jovem diretora nova-iorquina Ry Russo-Young, de 35 anos, já tem sete títulos no currículo, sendo três deles de curtas e quatro longas. Com quatro prêmios no currículo, ela se destacou pelo curta Marion, de 2005, e pelo longa You Wont Miss Me, de 2009. Também roteirista, vale conferir o que mais ela apresentará no futuro. Quem sabe é um nome a ser acompanhado.

Os usuários do site IMDb deram a nota 6,4 para esta produção, enquanto que os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 66 críticas positivas e 33 negativas para a produção, o que lhe garante uma aprovação de 66% e uma nota média de 5,9. Verdade que este filme não é realmente surpreendente e que o roteiro tem vários lugares-comum e é um tanto óbvio, mas achei o nível de aprovação e a nota dos críticos do Rotten Tomatoes baixa demais. Neste sentido, ainda a nota do IMDb, levando em conta o padrão do site, me pareceu mais justa. Ou eu que ando sendo “fracote” nas crítica e me deixei levar pelo lado sentimental da produção, vai saber… 😉

CONCLUSÃO: Francamente, este não é um tipo de filme que me atrai, normalmente. Mas é tão bom quando a gente resolve “arriscar” e assistir a uma produção como Before I Fall. Sim, como eu disse antes, o roteiro desta produção não é um primor de inovação ou traz grandes sacadas. Ele é bem previsível, até. Mas o elenco escolhido a dedo e os temas que este filme suscita e a forma com que ele nos faz pensar fazem com que Before I Fall seja, no fim das contas, uma grata, grande surpresa. Um filme competente e que poderá ser bastante relevante especialmente para o público que ele retrata. Vale assistir, recomendar e, quem sabe, até debater a história na família ou em sala de aula.

Get Out – Corra!

Um dos filmes mais criativos, interessantes e provocadores que eu assisti nos últimos tempos. Get Out é um suspense/terror com uma boa carga de humor e de crítica. Um filme do gênero como você nunca viu, tenho certeza. Eu tinha visto comentários positivos sobre ele e o cartaz tinha me deixado na dúvida sobre a qualidade da produção, mas realmente Get Out vale o ingresso e a experiência. A relação entre brancos e negros sempre rende um bom debate, até porque continua sendo um tema atual, e com este filme ele recebe uma leitura muito interessante.

A HISTÓRIA: Em uma rua deserta, um jovem negro caminha se queixando que está perdido porque caiu em uma rua com nome parecido com a que em ele deveria estar. Ele se diz deslocado no bairro de ricos. Negro, ele sabe o que acontece com pessoas de sua cor em um bairro como aquele. Quando um carro de luxo parece começar a acompanhá-lo, ele começa a surtar. Muda e caminho, mas acaba sendo rendido pelas costas. Colocado no porta-malas, ele é levado para longe daquele endereço. Corta. Vemos a cenas do interior, local para o qual Chris Washington (Daniel Kaluuya) vai com a namorada Rose Armitage (Allison Williams) conhecer a família dela. Mal sabe ele que está prestes a cair em uma cilada.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Get Out): Esta produção é mais um exemplo de como um grande roteiro é metade do caminho para um grande filme. O diretor e roteirista Jordan Peele acerta na mosca ao investir em um filme de suspense com grandes doses de humor e de crítica social para tratar de um tema que parece não perder validade com o tempo: a estranheza e o preconceito envolvendo brancos e negros.

Este filme não se preocupa em ser politicamente correto. Peele busca tratar com naturalidade a desconfiança e o “jeito de ser” diferenciado entre brancos e negros, explorando bem estas questões nos diálogos dos personagens e nas relações de “estranheza” que existem entre eles. Logo no início do filme somos apresentados ao criativo e bem-sucedido protagonista desta produção. Chris é um fotógrafo de sucesso, reconhecido e que vive bem. Mas ele acaba caindo no radar de Rose que, só vamos descobrir depois, é uma grande “caçadora” de negros que serão convertidos em vítimas de uma classe abastada.

Get Out exagera na dose para fazer o público refletir. Afinal, por que ainda existe tanta estranheza e exploração entre brancos e negros, tanto tempo depois do fim da escravidão? O tema racial é muito forte e importante nos Estados Unidos, onde policiais brancos volta e meia aparecem nos noticiários matando negros sem justificativa para uma ação letal. No Brasil, o preconceito e a desigualdade racial estão presentes, mas são menos expostos na mídia e debatidos.

Todo este contexto de conflito racial é explorado com inteligência e humor por Peele que, também de forma muito acertada, trata muito bem da ascensão social e das novas condições dos negros no país – e não apenas nos Estados Unidos. O protagonista de Get Out é muito bem construído. Bem-sucedido, ele aprendeu a se virar sozinho durante a vida – ele ficou órfão ainda na infância – e tem aquele olhar um tanto “crítico” para toda esta questão racial.

Afinal, ele namora uma bela garota branca, Rose, e vive em círculos bastante mesclados. Fotógrafo reconhecido, ele não sofre os preconceitos que outros negros com profissões menso “admiradas” podem sentir. Ele tem amigos negros, com destaque para o divertido e desconfiado segurança de aeroporto Rod Williams (LilRel Howery), mas não parece estar fechado em relações em um grupo social ou racial. Por isso mesmo ele não resiste tanto à experiência de conhecer os pais de Rose, apesar de reclamar com ela que a garota deveria ter “avisado” eles que ele é negro.

A priori, o protagonista de Get Out não resiste ao contato e à interação com a família branca da namorada, mas ele fica com o pé atrás quando sabe que eles não sabem que ele é negro. Eles vão para o interior dos Estados Unidos, onde a segregação racial ainda é bastante presente. Chris está preparado para o que vier, mas ele não poderia sonhar com a cilada sinistra na qual está caindo. O interessante do roteiro de Peele é que ele provoca nos espectadores uma sensação de estranheza e de desconfiança do princípio ao fim. Ou seja, nos faz experimentar aspectos essenciais da própria questão racial.

Vou explicar melhor. Em cada encontro e interação de Chris no cenário em que Rose cresceu, sentimos que algo está “fora da ordem”. Muito expressivo e ator bastante competente, Daniel Kaluuya nos representa naquele contexto, independente se somos brancos, negros, amarelos ou com outra coloração de pele. A estranheza naquele cenário é universal. Ao fazer isso, Peele nos faz experimentar a sensação de estranheza e de que “algo está errado” que todo negro sente ao interagir com brancos preconceituosos. Esta é uma das maiores genialidades de Get Out.

Mas há mais. O filme trabalha a questão racial sim, mas também apresenta um suspense muito interessante e criativo. A história linear vai se desenvolvendo de forma muito natural e crível, fazendo o espectador se sentir “confortável” e bem inserido na produção. Os atores fazem um grande trabalho, com vários momentos de tensão e de conflito muito bem pincelados e construídos. É um filme envolvente e que vai ganhando em tensão e suspense de forma escalada. Segue muito bem o manual do gênero.

O bacana é que além de seguir esse manual, Get Out inova. Afinal, traz a questão racial para um gênero que não está acostumado a explorar este tema. E ao fazer isso, ele eleva para um outro nível a questão da exploração de negros por brancos. Antigamente, a forma de brancos fazerem isso era através da escravidão, forma de exploração que era socialmente e legalmente aceita.

(SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Com o fim da escravidão, a família Armitage encontrou uma forma diferente de explorar negros: usando técnicas de lobotomia, eles fazem uma mescla sinistra entre o cérebro da vítima e do “comprador” para transformar negros em “plataformas” para endinheirados brancos utilizarem os seus corpos e talentos. Isso vamos descobrir apenas no final da produção, quando Chris é “apresentado” para a história real da família da namorada e para o que parece ser o seu sinistro fim.

Nesta parte, achei novamente o trabalho de Peele brilhante. Quando Chris questiona o seu novo “dono”, o negociador de arte Jim Hudson (Stephen Root), das razões que levariam os “clientes” dos Armitage em negociarem o uso de negros daquela forma, Hudson explica que as razões são múltiplas. Alguns querem o “vigor físico” das vítimas, enquanto outros querem “ficar na moda”, entre outros motivos. Logo entendemos a origem de Walter (Marcus Henderson) e de Georgina (Betty Gabriel), “comprados” pelos avós de Rose para dar uma “sobrevida” para eles.

Em tese, a técnica desenvolvida pelos Armitage e aperfeiçoada pelo casal Missy (Catherine Keener) e Dean (Bradley Whitford) permitiria uma espécie de “vida eterna” na Terra para os brancos que poderiam migrar de uma vítima para outra. O interessante da argumentação e da crítica de Peele é que ele não apenas aborda um novo tipo de exploração de negros por brancos como também revela de forma irônica o “perigo” de negros estarem na moda. Tudo que cai no gosto do mainstream seria, assim, explorado de forma “canibal”. Genial, não?

Enfim, resumindo, achei tanto o roteiro de Peele quanto o desenvolvimento do filme perfeitos, com um bom equilíbrio entre um “clássico” filme de suspense/terror com a inovação de um roteiro que explora muito bem o conflito racial, “modernizando” o tema. Ajuda, neste sentido, a trilha sonora de Michael Abels, com grandes “sacadas”, e os diálogos e desenvolvimento da produção com a assinatura de Peele.

Este é um filme do gênero competente e com algumas inovações para este estilo de produção bem interessante. Mas para não dizer que Get Out é perfeito – e olha que fiquei bem tentada a dar um 10 para ele -, devo dizer que o final da produção me incomodou um pouco. (SPOILER – não leia… bem, você já sabe). Nem tanto pelo comportamento “furioso” do protagonista, que sai matando com certa frieza todo mundo da família Armitage que aparece pela frente – afinal, ele sabia que este era o jeito dele sobreviver e escapar de lá vivo -, mas por alguns detalhes que ficaram um tanto estranhos no contexto da história.

Por exemplo, parece bobo, mas fiquei incomodada com aquela parte em que o estranhíssimo Jeremy Armitage (Caleb Landry Jones) faz de tudo para impedir que Chris saia da casa da família. Em mais de uma cena vemos Chris quase abrir a porta e não conseguir por causa das ações de Jeremy. Até parece que a casa tinha algum “poder” sobrenatural sobre as vítimas da família, mas isso não faz nenhum sentido e parece um tanto deslocado na produção com narrativa um bocado “lógica” até então. Para mim, a sequência final entre Jeremy e Chris me pareceu forçada e deslocada.

Também me incomodou um pouco o “grand finale” entre Chris e Rose. Caramba, depois dela fazer tudo o que fez ele ainda fica vulnerável com um “eu te amo” falso dela? Me pareceu forçado também. Este detalhe, junto com o que comentei envolvendo Jeremy e Chris, mancharam um pouco o roteiro quase perfeito de Peele. Apenas por isso eu não dei a nota máxima para a produção. Mas por todo o restante, inclusive algumas sacadas muito boas do roteiro – como a questão do flash do celular e a teoria maluca e ao mesmo tempo quase certeira de Rod -, Get Out se revela um grande filme. Dos mais bacanas do gênero suspense/terror dos últimos tempos. Foge do óbvio. Agradecemos por isso.

NOTA: 9,8.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: O nova-iorquino Jordan Peele tem 38 anos e uma longa carreira como ator. Ele começou nesta profissão em 2006 e é conhecido por fazer tanto filmes como séries de TV. Get Out marca a estreia dele na direção, mas como roteirista ele já tinha feito outros trabalhos, especialmente escrevendo episódios de séries de TV como Obama e Key and Peele.

Antes de Get Out, Jordan Peele tinha escrito o roteiro da comédia de ação Keanu ao lado de Alex Rubens e sobre a “gag” criada por Jamie Schaecher. Acho que vale ficar de olho nele e ver o que mais ele vai aprontar como diretor/roteirista.

Um grande acerto de Get Out é a escolha do elenco. Daniel Kaluuya é a grande revelação do filme. Ele dá um show de interpretação em um papel onde não seria difícil alguns exageros e derrapadas. Mas não. Kaluuya convence em cada minuto do filme, em interações e com reações muito interessantes e que dão credibilidade para o personagem dele. Mas os outros atores também estão muito bem. A mudança radical que acontece com a personagem de Allison Williams também é perfeita, valorizando o passe da atriz.

O destaque da produção é o trabalho de Daniel Kaluuya. Mas vale destacar outros nomes da produção. Allison Williams está muito bem e faz um dueto de cena perfeito com Kaluuya. Além deles, brilha na produção o divertido LilRel Howery e estão muito bem Catherine Keener e Bradley Whitford em papéis sinistros pouco comuns em suas respectivas carreiras; Marcus Handerson e Betty Gabriel em papéis sinistros e bem explicados no final da produção. Lakeith Stanfield está muito bem como uma das vítimas dos Armitage, Andrew Logan King.

Vale citar também o veterano Stephen Root como Jim Hudson; Caleb Landry Jones em uma interpretação um pouco “forçada” como Jeremy Armitage; Ashley LeConte Campbell como Lisa Deets; John Wilmot como Gordon Greene; Caren L. Larkey como Emily Greene; Julie Ann Doan como April Dray; Rutherford Cravens como Parker Dray; Geraldine Singer como Philomena King; Yasuhiko Oyama como Hiroki Tanaka; Richard Herd como Roman Armitage – todos como integrantes da comunidade “so white” em que Chris cai por causa de Rose; e Zailand Adams como Chris aos 11 anos de idade.

Também vale citar a ponta de três atores que fazem graça e que ajudam a reforça a “comédia do absurdo” de Get Out: Erika Alexander como a detetive Latoya; Jeronimo Spinx como o detetive Drake; e Ian Casselberry como o detetive Garcia. Eles estão na delegacia que Rod procura para fazer a denúncia sobre o desaparecimento de Chris e de Andrew, e a reação deles é um dos pontos certeiros do filme.

Entre os aspectos técnicos do filme, destaque novamente para a trilha sonora de Michael Abels, que é um diferencial da produção. Além dela, vale comentar a boa direção de fotografia de Toby Oliver; a edição de Gregory Plotkin; o casting de Terri Taylor; o design de produção de Rusty Smith; e os figurinos de Nadine Haders.

Get Out teria custado US$ 5 milhões, um orçamento baixo para os padrões de Hollywood e que demonstra, mais uma vez, como bons filmes podem ser feitos com orçamentos relativamente curtos. Na semana de estreia nos Estados Unidos, o filme conseguiu nas bilheterias do pais nada menos que US$ 33,4 milhões. Lucrando logo na largada. Segundo o site Box Office Mojo, apenas nos Estados Unidos o filme fez quase US$ 174,7 milhões nas bilheterias. Nos outros países em que o filme estreou ele fez mais US$ 40 milhões. Ou seja, um dos maiores lucros dos últimos tempos. O filme virou uma febre. Bacana.

Esta produção, 100% dos Estados Unidos, foi rodada em duas cidades do Alabama: Fairhope e Mobile. Interessante terem sido rodadas por lá, porque o Alabama é, historicamente, um Estado com forte segregação racial e no qual há muitos casos de racismo conhecidos. Curioso que, inicialmente, Peele queria fazer o filme em Los Angeles, mas por causa dos custos ele resolveu mudar o local das filmagens. O que acabou sendo positivo, sem dúvida.

Agora, algumas curiosidades sobre a produção. Get Out foi rodado em apenas 28 dias. A inspiração de Jordan Peele para escrever Get Out veio de uma parte de um stand-up feito por Eddie Murphy. Neste trecho do espetáculo, Murphy comentou sobre a ocasião em que foi conhecer a família e uma namorada branca dele.

Sobre o The Sunken Place, onde vive a família Armitage, o diretor Peele fez o seguinte comentário: “The Sunken Place significa como estamos marginalizados. Não importa o quanto nós gritemos, o sistema nos silencia”.

Além de Get Out marcar a estreia de Peele na direção de um longa-metragem, o filme também marca a estreia de Allison Williams neste formato de produção.

Jordan Peele escreveu o roteiro de Get Out durante o primeiro mandato de Barack Obama, quando o clima nos Estados Unidos era de grande otimismo e as pessoas tinham a sensação de que a questão racial havia sido superada. Como isso se mostrou falso com o passar dos anos, Peele achou que era a hora de filmar Get Out – antes não havia “clima” para isso.

Agora uma curiosidade que fica “escondida” na produção. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Chris “flagra” Georgina arrumando o cabelo em frente ao espelho para evitar que a cicatriz que ela tenha apareça. Esta é a mesma razão que faz com que Walter e Andrew aparecem sempre de chapéu – exceto, no caso de Walter, na sequência final dele na produção. É uma forma de evitar que o “segredo” da produção seja conhecido antes da hora.

Existe uma razão para a sequência em que Chris procura ver o que aconteceu com o cervo atropelado por Rose. (SPOILER – não leia… bem, você já sabe). Primeiro, esta é a sequência que introduz o tema “acerte e corra” na produção. Depois, ela mostra que Chris tem empatia e se compadece com o animal ferido, o que não acontece com Rose – algo que entenderemos completamente na reta final da produção.

Missy controla as pessoas com uma colher de prata – que é sinônimo de ter privilégios. Algo que não apenas faz sentido para o filme, mas também um ponto que aumenta a crítica social da produção. Afinal, muitos privilegiados utilizam justamente esta posição para explorar quem não tem esta condição.

A escolha do sobrenome Armitage não foi por acaso. Ela faz homenagem ao escritor HP Lovecraft, um autor de histórias de horror que tratava de famílias decadentes que tinham ligações com sociedades ocultas ou secretas, abordava a transmigração de almas de um corpo para o outro, estados alterados da realidade e temas similares que são abordados também em Get Out.

Interessante que a questão do celular não é por acaso – nada neste filme, aliás. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme ainda). O uso do celular é fundamental para Chris começar a conhecer a verdade sobre a situação estranha que cerca a família Armitage, assim como a maioria das denúncias de violência e abuso policial de brancos contra negros tem sido documentada com o uso de celulares.

Há no filme algumas referências ao tempo da escravidão. (SPOILER). As principais são a sequência do bingo que “rifa” Chris e que lembra os leilões de escravos de antigamente e a forma com que Chris se livra de seu sinistro destino ao tirar o recheio da poltrona de couro e usar ele nos ouvidos. Literalmente, para isso, ele está “colhendo algodão” para se salvar, o que era feito pelo escravos antigamente, forçados a colher algodão para seguirem vivos.

Get Out foi indicado para oito prêmios, mas não recebeu nenhum até o momento.

Os usuários do site IMDb deram a nota 7,9 para Get Out, enquanto que os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 259 críticas positivas e apenas uma negativa para a produção, o que lhe garante uma aprovação de 99% e uma nota média de 8,3. Os dois níveis de aprovação estão bem acima da média para os dois sites, o que mostra que este filme é um sucesso de público e de crítica.

CONCLUSÃO: Um filme de suspense muito divertido e com uma boa carga de crítica social e de comportamentos. Quem diria que uma produção assim poderia existir. E sim, ela existe. Get Out é uma aula de bom roteiro e de atores pouco conhecidos bem escalados e com um belo trabalho. Um filme inteligente, divertido e macabro na mesma medida. Achei uma das melhores surpresas dos últimos tempos. Merece o burburinho que recebeu. Se você não se importa com cenas violentas e uma certa dose macabra, sem dúvida alguma vale o ingresso.