Metropolis – Metrópolis

Um filme visionário em alguns aspectos e conservador em outros. Um dos maiores clássicos do cinema é também uma superprodução. Metropolis apresenta inovação na cenografia e acerta em vários pontos do “futuro” que acabou virando presente para a geração do século 21. Por outro lado, o filme preto-e-branco, ainda parte do cinema mudo, durante boa parte do tempo repete a dinâmica do teatro que, nos primórdios da Sétima Arte, era uma inspiração inevitável. O diretor Fritz Lang apresenta algumas técnicas interessantes em uma época em que os “efeitos especiais” eram feitos na unha. Fundamental, sem dúvida, especialmente pela influência que teria em outros filmes décadas depois.

A HISTÓRIA: Começa com uma epígrafe, que afirma que “o mediador entre a mente e as mãos deve ser o coração”. A cena de uma metrópole abre espaço para diversas imagens de engrenagens de máquinas que funcionam a todo vapor. O ponteiro do relógio vai avançando, e as máquinas não param, até que soa um apito e ocorre a troca de turno. Filas de homens uniformizados caminham lentamente para dentro e para fora da fábrica. Os que saem tem o passo muito mais pesado.

Quem chega vai para as “profundezas” da cidade, onde vão trabalhar até quase o esgotamento. Em outra parte, os filhos dos homens com dinheiro vivem uma vida frívola. Um destes “filhos” é Freder (Gustav Fröhlich), herdeiro do “mestre” de Metropolis. Ele vive mais um dia de farra até que Maria (Brigitte Helm) aparece nos Jardins Eternos e faz Freder mudar a sua vida.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Metropolis): Nada como fazer leituras sobre obras que já ganharam em profundidade com o passar do tempo. Certamente foi uma experiência muito diferente assistir Metropolis no ano de seu lançamento, em 1927, do que ver a obra agora, 90 anos depois. O exercício de pensar esta obra no ano em que ela foi lançada faz parte da avaliação justa de uma das produções mais importantes de Fritz Lang.

Metropolis tem uma carga dramática fortíssima e segue um tipo de interpretação que bebe diretamente do teatro. O cinema tinha sido “criado” quase 30 anos deste filme e os principais diretores daquela fase do cinema mudo procuravam, ao mesmo tempo, apresentar inovação com a Sétima Arte e também, para não serem totalmente estranhos para os seus públicos, um tipo de produção que era “palatável” para quem iria ao cinema ver aquele espetáculo.

Se pensarmos neste contexto, dá para entender a dinâmica teatral de Metropolis. Os atores claramente apresentam interpretações exageradas e bem conhecidas em teatros da época. Este tipo de interpretação fazia parte do que as pessoas esperavam para aquele momento histórico – para a nossa sorte e conforme a sociedade foi evoluindo, passamos anos habituar com interpretações mais interessantes e condizentes com os dramas humanos, algo muito menos caricatural.

Para o meu gosto e vendo o filme com os filtros de 2017, a parte da interpretação teatral e exagerada é algo que “incomoda” um pouco. Talvez um dos pontos fracos do filme, assim como a temática. Mas vamos falar dela depois. Por outro lado, o início de Metropolis possivelmente abriga algumas das cenas mais importantes e interessantes da produção. Nos minutos iniciais, Fritz Lang explora as possibilidades técnicas de sobreposição de imagens e de edição para passar as suas mensagens.

Chama muito a atenção como as engrenagens são mostradas como parte fundamental da grande metrópole. Sem toda aquela produção, as máquinas e seus trabalhadores, todo aquele “avanço” não seria possível. Para mim, a cena mais marcante da produção, assim como aquela em que aparece o grande invento de Rotwag (Rudolf Klein-Rogge) e que virou uma das cenas mais conhecidas da história do cinema, é aquela dos trabalhadores andando em marcha no início da produção.

Aquela sequência inicial de Metropolis apresenta boa parte do que Lang vai demorar o filme inteiro para “explicar”. Os trabalhadores entram na fábrica parecendo “animais” indo para o abate, e os que saem da produção, esgotado, parecem produtos em série. Todos, no fundo, parecem autômatos. São engrenagens que não devem pensar ou sentir e que fazem parte de um sistema de exploração humano, como Lang argumenta durante a produção.

A sequência dos trabalhadores em fileiras, cabeças baixas e passos cadenciados entrando e saindo da fábrica é das mais significativas e marcantes da produção. Depois, me chamou muito a atenção as imagens visionárias de Metropolis, com arranhas-céus e diversos meios de transporte (fileiras de carros, monotrilhos e aviões) preenchendo o cenário.

Estes cenários e a figura da “máquina humana” criada por Rotwag são, sem dúvida, duas partes muito marcantes da produção, não apenas pelo apelo visual destas imagens – dá para imaginar o impacto delas no público do final dos anos 1920 -, mas também pelo quanto elas, descontados alguns detalhes, anteciparam o que existiria apenas no final do século passado.

Também não deixa de ser muito visionário, ainda que apresentada de uma forma um tanto “tosca” (na visão de hoje, não na da época), a questão da clonagem. Afinal, Maria teria sido “clonada” na “máquina humana” segundo Rotwag. A clonagem, todos sabemos, seria efetivada apenas em 1996, com a ovelha Dolly – ou seja, quase 70 anos depois de Metropolis.

Todos estes pontos que eu comentei são o grande ganho e avanço apresentado por este filme do austríaco Fritz Lang (curioso que eu sempre achei que ele fosse alemão, mas não). Mas há outras questões da narrativa que seguem uma linha bastante conservadora. Para início de conversa, a questão central da produção: a diferença brutal entre a realidade das classes trabalhadora e a elite de Metropolis. O personagem de Freder me fez pensar, inicialmente, na história de Buda, que saiu de sua realidade “maquiada” e irreal de riquezas e passou a conhecer o mundo como ele era, cheio de desigualdades e de exploração, mudando de vida após este choque inicial.

Filho do “chefão” do pedaço, Freder vive uma vida frugal e cheia de prazeres até que é afetado pela imagem de Maria e de suas criancinhas pobres. A partir daí ele empreende uma “busca pela verdade” e, claro, por Maria. Assumindo o lugar do trabalhador 11811 – Georgy (Erwin Biswanger), Freder não apenas experimenta na pele a exploração dos trabalhadores (as “mãos” da frase que inicia a produção), mas também acaba descobrindo sobre o mapa que os trabalhadores levavam no bolso e sobre Maria.

A exploração da classe trabalhadora pelos donos do dinheiro é uma parte fundamental desta produção. Mas outra parte marcante é a questão messiânica da produção. Maria é tida quase como uma santa, alguém que inspira os trabalhadores a acreditarem em um mundo melhor quando chegasse o “messias” – a pessoa que trabalharia como mediadora entre eles e o dono de Metropolis. Logo descobrimos que esse “mediador” é Freder, o “coração” da história – ou seja, a pessoa que sabe olhar além das máquinas, do trabalho e do dinheiro e que se importa realmente com as pessoas.

Mas o filme longo demais e um tanto arrastado de Lang – justificado apenas pela necessidade do diretor de mostrar o domínio das novas técnicas e recursos propiciados pelo cinema – leva duas horas e meia para nos apresentar a solução do conflito. Depois dos trabalhadores, iludidos pela figura messiânica e diabólica do “homem máquina” travestido de Maria, acabarem com a cidade das máquinas e, consequentemente, com a sua própria cidade e com Metropolis, finalmente Freder age como mediador do conflito e une os trabalhadores e a “mente” (quem tem a visão do todo e pensou Metropolis).

A mensagem que Lang deixa, desta forma, é que as relações entre trabalhadores e patrões não pode continuar da mesma forma. Que é necessária uma revisão nestas relações que leve em conta o “coração”, ou seja, a reflexão de que nada funcionaria sem a força do trabalho (das mãos) e que, por isso mesmo, os trabalhadores devem ser tratados com respeito e consideração e não serem explorados. O roteiro de Thea von Harbou, que escreveu a obra que deu origem para o filme e que teve contribuição de Lang para a adaptação para o cinema, deixa clara esta necessidade de revisão das relações e de como qualquer cidade depende igualmente da visão criativa dos patrões e da dedicação “braçal” dos empregados.

A parte mais previsível do roteiro é exatamente esta, a velha e boa disputa entre classes sociais que só pode ser resolvida através do entendimento e da negociação, até porque patrões e trabalhadores dependem um dos outros. Uma parte interessante do filme, aliás, é quando os trabalhadores e suas mulheres destroem a cidade das máquinas sem pensar nos efeitos daquele gesto incentivado pela “falsa Maria”. O guardião da máquina-coração, Grot (Heinrich George), tenta alertar os colegas sobre a besteira que eles estão fazendo, mas ninguém lhe dá ouvidos. O que demonstra o efeito nocivo do “comportamento de manada” que, infelizmente, nunca é racional.

Também chama a atenção o abandono das crianças. É como se Thea von Harbou e Lang estivessem dizendo que os trabalhadores, ao lutarem contra as máquinas e o seu próprio ganha-pão, estivessem acabando com o próprio futuro (representado pelas crianças). Ou seja, Metropolis defende, em certa medida, que o futuro passa, necessariamente, pelo trabalho, e que a revolta dos trabalhadores não leva a nada. O filme também explora a questão da influência da religião, seja como alerta, seja como recurso para “apaziguar” desejos de mudança.

Vejamos. Maria faz as vezes de uma figura messiânica que, através da promessa da vinda de um “mediador”, esvazia o desejo de mudanças e a possibilidade de revolta dos trabalhadores. Em certo momento da produção, Freder fica conhecendo uma passagem do Apocalipse e vemos na figura da “falsa Maria” o instrumento para o reinado da morte e dos sete pecados capitais. Ah sim, e em determinado momento Maria também fala sobre a construção da Torre de Babel. Ou seja, muitas referências bíblicas nesta produção.

Toda esta referência bíblica eu achei um tanto desnecessária e exagerada, ainda que dê para entender ela como parte da crítica de Thea von Harbou e Lang. Algumas cenas da história da Torre de Babel servem de paralelo para o que acontece em Metropolis. Nas duas histórias vemos a exploração dos trabalhadores – inclusive com o paralelo entre os escravos da época da Torre e os trabalhadores de Metropolis – e a soberba dos homens acreditando que poderiam substituir Deus.

Existe também a reflexão sobre a bondade das pessoas e a maldade das máquinas. De forma bastante inovadora e acredito que até atemporal, Metropolis nos adianta a discussão sobre o uso da tecnologia e mostra que as máquinas em si não são ruins, mas o uso delas sim pode ser daninho. O vilão da história não é a “máquina humana” que acaba se passando como Maria e enganando os trabalhadores. O vilão de Metropolis é o inventor Rotwag que, por vingança, acaba utilizando a figura de Maria para destruir o seu desafeto Joh Fredersen (Alfred Abel).

Com mais esta temática em cena, Lang parece denunciar os “falsos profetas”, os falsos ídolos que trabalham nos bastidores em prol de seus próprios interesses e que podem ser muito prejudiciais. Líderes com esta necessidade de poder e ânsia destrutiva apareceriam depois de Metropolis, reforçando ainda mais algumas das preocupações apresentadas pelo filme de Lang.

Metropolis tem alguns elementos marcantes e muito visionários, especialmente ao tratar de parte de um futuro que seria concretizado muitas décadas depois da produção estrear. O filme, por toda o seu apelo visual, deve ter impressionado as plateias da época. O problema da produção é que ela não se contenta em investir nos aspectos visionários e mistura muitos elementos em uma história que poderia ser mais objetiva e envolvente.

Para os padrões da época, toda a dramaticidade das cenas de perseguição especialmente de Maria devem ter funcionado, mas hoje elas parecem teatrais demais e um tanto desnecessárias. É um grande filme, ainda que ele não tenha a força de outros lançados naquela fase inaugural do cinema.

NOTA: 8,8.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Olá amigos e amigas do blog! Coisa boa voltar a falar de filmes clássicos! Há várias semanas eu queria retomar a seção “Um Olhar Para Trás”, na qual eu comento sobre filmes que marcaram a história do cinema mundial segundo o livro “1001 Filmes Para Ver Antes de Morrer”. Pois bem, como estamos em 2017, vou retomar sempre a filmes que estão fazendo “aniversário” neste ano. Começo com o primeiro filme com esta característica que aparece no livro, que é Metropolis.

Eu considerava uma “falha” no meu currículo não ter assistido a Metropolis antes. Algumas das cenas mais marcantes da produção, como a apresentação da “máquina humana”, eu já tinha assistido, mas ao filme inteiro, ainda não. Aliás, encontrei uma versão de Metropolis restaurada, ou seja, com a duração completa do filme – de duas horas e 33 minutos – com diversas cenas resgatadas e outras apenas “narradas” através de texto (no caso das cenas definitivamente perdidas). O ideal é assistir a esta versão, até para conhecer a visão artística de Fritz Lang na sua integralidade.

Vocês vão me perdoar, mas como esse filme faz parte desta seção de revisão histórica do cinema, desta vez vai vir aqui um textão. 😉 Além da crítica que fiz acima, acho muito válido citar informações trazidas pelo crítico Kim Newman na obra “1001 Filmes para Ver Antes de Morrer”. Cito o início da crítica dele sobre Metropolis: “Com uma duração original de mais de duas horas, Metrópolis, de Fritz Lang, é o primeiro épico de ficção científica, com cenários imensos, centenas de figurantes, efeitos especiais de ponta para a época, muito sexo e violência, uma moral nada sutil, atuações grandiosas, um quê de goticidade alemã e inovadoras sequências de fantasia. Financiado pela UFA, o gigante cinematográfico alemão, o filme foi controverso e se revelou um desastre de bilheteria que quase levou o estúdio à falência”.

Bem citado por ele duas questões: realmente Metropolis foi o primeiro épico do gênero ficção científica; e chama a atenção neste filme o número gigante de figurantes – a exemplo de Intolerance: Love’s Struggle Throughout the Ages, clássico épico de 1916 comentado por aqui e que estreou a seção “Um Olhar Para Trás”.

O crítico Kim Newman continua comentando como o enredo de Metropolis é “quase tão simplista quanto um conto de fadas”. Hehehehehe. Verdade. Como eu disse antes, o enredo do filme é um de seus pontos fracos, tanto por ser simplista quanto por misturar muitas estações. Vale citar outro trecho da crítica de Newman: “Logo depois de lançado, a distribuição do dispendioso filme foi interrompida e ele foi remontado contra a vontade de Lang: essa versão truncada e simplificada continuou sendo a mais conhecida – inclusive na sua forma remixada e colorizada por Giorgio Moroder na década de 1980 – até o século XXI, quando uma restauração parcial (com sutis intertítulos de ligação para substituir as cenas que continuam irreversivelmente perdidas) chegou bem mais perto da visão original de Lang”.

Importante ressaltar, mais uma vez, que eu assisti justamente a esta versão da obra restaurada. Ou seja, não assisti às versões que Newman cita que foram modificadas sem a concordância de Lang e que acabaram sendo as versões mais conhecidas da obra. Então levem em conta isso e tentem realmente assistir a versão que o diretor gostaria que todos nós assistíssemos.

Retomando os comentários de Newman: “Essa versão (a restaurada) não só acrescenta várias cenas que passaram décadas inéditas como também restaura a ordem delas na versão original e acrescente os intertítulos corretos. Até então considerado um filme de ficção espetacular, porém simplista, essa nova-velha versão revela que a ambientação futurista não tinha a intenção de ser profética, mas sim mítica, com elementos da arquitetura, indústria, design e política da década de 1920 misturando-se com o medieval e o bíblico para produzir imagens de uma arrebatadora estranheza: um robô futurista queimado na fogueira; um cientista louco e mão-de-ferro que é também um alquimista do século XV; os trabalhadores que se arrastam em direção às mandíbulas de uma máquina que é também o antigo deus Moloch”. Certíssimo o crítico. A mistureba do filme é impressionante.

Seguindo ainda o que Newman nos conta: “A interpretação de Fröhlich como o herói que representa o coração ainda é extremamente exagerada, porém o engenheiro Rotwang de Kleine-Rogge, o Mestre de Metrópolis de Abel e, principalmente, Helm, no papel duplo da angelical salvadora e da femme fatale de metal, estão magníficos. Depois que boa parte da história foi restaurada a partir de um mergulho nas motivações contraditórias dos personagens, a fantástica trama passa a fazer mais sentido e podemos vê-la tanto como um bizarro drama familiar quanto como um épico de repressão, revolução e reconciliação”.

Ainda que eu concorde com Newman de que as interpretações de Alfred Abel como John Fredersen e de Rudolf Klein-Rogge como Rotwang sejam menos exageradas do que a de Gustav Fröhlich, devo opinar que acho as interpretações destes últimos dois exageradas também em muitos momentos da produção. Não o tempo todo do filme, a exemplo de Fröhlich, mas em alguns trechos sim. E ainda que a atriz Brigitte Helm seja claramente a estrela deste filme, brilhando em muitas ocasiões e ofuscando os demais, ela também tem momentos de puro exagero – cito, por exemplo, a sequência em que ela é perseguida por Rotwang nas “profundezas” da Cidade dos Mortos. Exagerado.

Além dos atores citados, que são os destaques da produção, vale comentar o bom trabalho de Fritz Rasp como o “capataz” de Fredersen; de Theodor Loos, este sim, provavelmente o menos exagerado em cena, como Josaphat, funcionário de Fredersen que é demitido por ele e que acaba sendo o principal aliado de Freder; Erwin Biswanger, também menos exagerados que os outros, interpreta bem o personagem 11811 Georgy; e Heinrich George ganha importância como Grot mais na reta final do filme. Todos estão bem, ainda que os destaques sejam mesmo Helm e o exagerado Fröhlich.

Como todo filme mudo exige, a trilha sonora de Gottfried Huppertz e de Bernd Schultheis é um elemento forte e fundamental nesta produção. Eles fazem um grande trabalho, reforçando a característica épica de Metropolis. Me chamou a atenção, em especial, quando os trabalhadores começam a sua revolução, como a trilha sonora lembra alguns acordes do hino da França, A Marselhesa.

Da parte técnica do filme, destaque para a direção de fotografia excelente de Karl Freund, Günther Rittau e Walter Ruttmann; para a direção de arte fundamental para o filme ter se tornado o marco que ele se tornou e que é assinada por Otto Hunte, Erich Kettelhut e Karl Vollbrecht; o trabalho fundamental de Otto Hunte, Erich Kettelhut, Walter Schulze-Mittendorff, Karl Vollbrecht e Edgar G. Ulmer no departamento de arte; os efeitos especiais de Ernst Kunstmann, Konstantin Irmen-Tschet e Erich Kettelhut; e os efeitos visuais de Jeff Matakovich, Eugen Schüfftan, Erich Kettelhut (esse trabalhou, hein?), Ernst Kunstmann, Willy Muller, Hugo O. Schulze e Edmund Zeihfuss. Mais que o roteiro de Lang e de Thea von Harbou, este pessoal que eu citei aqui foi fundamental para a produção ter a qualidade e a força que ela tem.

A premiere de Metropolis foi feita no dia 10 de janeiro de 1927 em Berlim, na Alemanha. Nos Estados Unidos o filme estreou no dia 6 de março daquele mesmo ano. A versão editada do filme estreou no dia 5 de agosto em Stuttgart, também na Alemanha. No Brasil o filme estreou no dia 4 de novembro de 1927. A primeira versão restaurada de Metropolis estreou no dia 15 de fevereiro de 2001 no Festival Internacional de Cinema de Berlim. Depois, em 2010, seria lançada a última versão restaurada e a mais completa do filme – foi esta que eu vi e é esta que eu recomendo.

Metropolis teria custado 6 milhões de marcos alemães – uma fortuna para a época. Esse custo, atualizado pela inflação, significaria algo em torno de US$ 200 milhões em 2007.

Algumas curiosidades sobre o filme. Thea von Harbou era a mulher de Fritz Lang. Ela resolveu ficar na Alemanha enquanto o marido, judeu, mudou-se para os Estados Unidos. Foi lá que, ao observar as silhuetas dos edifícios de Nova York, ele se inspirou para a cidade que vemos em Metropolis. De acordo com o livro “1000 Que Fizeram 100 Anos de Cinema”, “durante 20 anos (Lang) lutou contra os produtores de Hollywood que interferiam em sua visão criativa”.

Esta produção teria utilizado 37 mil extras, sendo 25 mil homens, 11 mil mulheres, 1,1 mil homens carecas e/ou que tiveram a cabeça raspada (para a cena da Torre de Babel), 750 crianças, 100 negros e 25 asiáticos. As filmagens duraram impressionantes 310 dias.

Para a consternação de Fritz Lang, Adolf Hitler e Joseph Goebbels eram dois grandes fãs de Metropolis. Um dia, Goebbels se reuniu com Lang e disse que, “apesar dele ser judeu”, ele poderia ser nomeado um “ariano honorário” porque, afinal, eles “decidiam” quem era ou não judeu. Na mesma noite desta conversa, Lang fugiu para Paris.

O desemprego e a inflação eram problemas tão graves na Alemanha quando o filme foi feito que os produtores não tiveram problemas em achar 500 crianças desnutridas para participar das sequências de inundação.

O filme influenciou tanto os criadores do Superman, Jerry Siegel e Joe Shuster, que eles resolveram dar o nome para a cidade em que se passa a HQ como Metropolis.

A história de Metropolis se passa em 2026.

Metropolis foi filmado nas cidades de Berlim, na Alemanha, e em Viena, na Áustria, além de ter sido rodado no estúdio Babelsberg, em Potsdam; na fábrica da Guinness, em Dublin; e no Filmwerke Staaken, em Spandau.

O robô apresentado em Metropolis serviu de inspiração para o C-3PO de Star Wars, produção lançada 50 anos depois. A mão mecânica de Rotwang serviria também de inspiração para o personagem de Dr. Strangelove or: How I Learned to Stop Worrying and Love the Bomb.

A mulher de Lang, Thea von Harbou, era uma defensora do nazismo. Adolf Hitler e todo o seu círculo próximo gostaram do filme e acharam ele um tipo de “plano social” – certamente a parte de “encantar” os trabalhadores. Talvez por tudo isso Lang, que era judeu e que fugiu da Alemanha assim que pode – apesar dos nazistas oferecem a possibilidade dele continuar lá -, disse que gostou de fazer o filme, mas que já não apreciava ele tanto assim depois que ele foi finalizado.

A atriz Brigitte Helm interpretou, de fato, a “máquina humana”, usando aquele pesado traje que, segundo a atriz, era muito desconfortável e inclusive lhe provocou machucados.

A revista Premiere escolheu Metropolis como um dos “100 filmes que abalaram o mundo” em 1998, em uma lista que destacou os filmes mais ousados que já foram lançados nos cinemas na história. Certamente este filme foi bastante ousado e visionário para a sua época e influenciou muitos realizadores.

A exemplo do que vemos em cena, Fritz Lang também exigiu dos atores e da multidão de extras jornadas extenuantes de gravações. Em muitas cenas ele não queria o uso de dublês e a atriz Brigitte Helm teve que se arriscar e até chegou a desmaiar em cena – como em uma longa sequência com o traje metálico da “máquina humana”.

O especialista em efeitos especiais Eugen Schüfftan criou vários efeitos pioneiros para Metropolis. Entre outros, destaque para os de miniaturas da cidade; o de uma câmera em um balanço; e, principalmente, o processo que levou o sobrenome dele, Schüfftan, em que espelhos são utilizados para que os atores apareçam em cenários de miniatura. Essa última técnica, que era nova, só foi utilizada novamente em 1929, no filme Blackmail.

Quando o filme estreou, no dia 10 de janeiro de 1927, o público presente “explodiu” em aplausos em algumas das cenas mais espetaculares da produção.

O elenco de Metropolis foi formado, basicamente, por atores desconhecidos. Heinrich George era um ator, na época, conhecido apenas nos teatros; Gustav Fröhlich era um jornalista de 19 anos que não tinha experiência no cinema; e a experiência anterior de Brigitte Helm tinha sido a das audições para o filme Die Nibelungen: Siegfried, de 1924 e dirigido por Fritz Lang também.

O Vaticano classificou Metropolis como um filme de “arte” e como um dos 45 grandes filmes da história do cinema. Esta produção também faz parte da lista de grandes filmes de Roger Ebert.

Metropolis ganhou cinco prêmios e foi indicado a outros quatro. Todos os prêmios que ele recebeu foram dados a partir do ano 2000. Vale citá-los: Melhor Lançamento de DVD de Filme Clássico em 2011 pela Academy of Science Fiction, Fantasy & Horror Films; o prêmio Honorary Roger para Kevin Saunders Hayes no ano 2000 no Festival de Cinema de Avignon/Nova York; o prêmio especial pela restauração do filme em 2002 dado pelo New York Film Critics Circle Awards; o de Melhor Filme no OFTA Film Hall of Fame em 2000 dado pelo Online Film & Television Association; e o de Melhor Restauração do Ano em 2002 no Rondo Hatton Classic Horror Awards.

O diretor Fritz Lang nasceu em 1890 na cidade de Viena, na Áustria, e morreu em 1976 em Los Angeles, nos Estados Unidos, país que adotou após a ascensão do nazismo na Alemanha, onde morava. Com 46 filmes no currículo como diretor, Lang foi um dos expoentes da escola de cinema chamada expressionismo alemão, caracterizada por uma “pintura dramática e subjetiva” criada para expressar os sentimentos humanos. Ou seja, foi uma escola do “exagero” e que revelava de “forma plástica” questões como o amor, o ciúme, o medo, a solidão, a miséria humana e a prostituição. Neste caso, os valores emocionais predominam sobre os valores intelectuais. Existe uma deformação intencional de formas e de cores, além do uso da caricatura e do aspecto teatral. Algo que vemos claramente em Metropolis. Lang é considerado um dos grandes diretores do cinema de todos os tempos.

Fritz Lang foi casado com Thea von Harbou entre 1922 e 1933. Após visitar Nova York, o diretor pediu que a esposa escrevesse um livro inspirado nos edifícios da cidade americana – foi aí que surgiu Metropolis. Como Thea von Harbou foi defensora do nazismo, Lang se separou dela e casou-se com a atriz alemã Lily Latte em 1971, ficando casado com ela até que ele morreu em 1976. Antes de ser casado com Thea von Harbou, Lang foi casado com Lisa Rosenthal entre 1919 e 1921, quando ela morreu.

Os usuários do site IMDb deram a nota 8,3 para a produção, enquanto que os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 114 críticas positivas e apenas uma negativa para Metropolis, o que lhe garante uma aprovação de 99% e uma nota média de 9,1.

Este é um filme 100% de produção alemã. Certamente um dos grandes filmes da história daquele país. Com ele, retomo a seção “Um Olhar Para Trás” criada aqui no blog no ano passado e também atendo a uma votação feita há algum tempo por aqui.

CONCLUSÃO: Um dos grandes clássicos da primeira fase do cinema mundial, Metropolis é uma produção ousada em diversos aspectos técnicos e um tanto conservadora na mensagem e no enredo. Aqui a velha “disputa” entre proletariado e classe abastada é resolvida através de figuras um tanto messiânicas. O interessante mesmo da produção é a sua visão sobre o futuro – com alguns acertos e erros sobre o que viria pela frente.

Tem mais qualidades que defeitos, especialmente se pensarmos sobre a época em que o filme foi feito, mas ele poderia ser mais curto. Um tanto grandiloquente demais, Metropolis peca um pouco pelo excesso. O diretor Fritz Lang quis mostrar o seu poder, e conseguiu. Tecnicamente bem feito, o filme tem uma dinâmica muito irregular. Mas merece ser visto, especialmente porque realmente faz parte da história do cinema.

Before I Fall – Antes Que Eu Vá

Todos os dias nós fazemos uma série de escolhas. Nem sempre nos damos conta que elas poderão ser as nossas últimas decisões na vida. Before I Fall trata de um tema importante e que sempre vale boas histórias quando estas são bem contadas: a nossa mortalidade. Mas não é apenas isso. Este filme acerta em cheio ao tratar de um público específico e de um tema muito importante nos nossos dias – e em qualquer outro dia, mas devemos admitir que, agora, em especial. Um filme sensível e interessante, com um belo elenco e um roteiro que dá conta do recado, apesar de ser um tanto previsível.

A HISTÓRIA: Samantha Kingston (Zoey Deutch) olha para a frente e comenta que talvez para quem esteja a ouvindo, exista um amanhã. Ou milhares, ou dezenas deles. Enquanto ouvimos as suas palavras, vemos vários personagens desta história em cenas cotidianas. Ela comenta que para muitos apenas o presente importa. Fala sobre o fim, e de como nunca sabemos sobre ele.

O dia em que tudo muda começa como outro qualquer. No caso de Samantha, este dia é justamente o Dia dos Namorados nos Estados Unidos, o dia 12 de fevereiro. Ela desperta com o celular tocando e recebe uma mensagem da amiga Lindsay Edgecomb (Halston Sage). Este será um dia importante, mas Samantha nem imagina ainda o quanto.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que o texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Before I Fall): Para muitos a história deste filme pode ser “bobinha”. A narrativa pode parecer “juvenil” demais, ou então o desenrolar repetitivo da história um tanto cansativo ou previsível. Bem, de fato o roteiro de Maria Maggenti baseado no livro de Lauren Oliver é bastante “previsível” lá pelas tantas.

Não é preciso ser nenhum gênio para “matar” a moral da história muito antes dela emergir. Mas não é tanto isso o que importa. O que realmente interessa aqui são outros pontos. O primeiro, a meu ver, é que Before I Fall trata de um público e de acontecimentos que são muito atuais – e, me arrisco a dizer, sempre atuais. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). A questão central desta produção é o quanto a vida é valiosa. O quanto viver é algo precioso, ainda que nem sempre façamos esta constatação.

A “moral da história” de Before I Fall tem a ver um pouco com aquela música do Paulinho Moska. Se você soubesse que este é o seu último dia de vida, o que você faria? A grande questão, muito bem abordada por Before I Fall, é que nós realmente nunca sabemos quando será o nosso último dia. Pode ser qualquer dia, na verdade, porque ninguém sabe quando vai morrer – exceto se faz esta escolha, e este é um outro tema fundamental desta produção.

Para mim, tão importante quanto a “moral da história” sobre a valorização da vida, Before I Fall acerta na mosca ao tratar do suicídio entre jovens. Tenho ouvido várias pessoas, especialmente na igreja, comentando sobre como tem aumentado o suicídio entre adolescentes. O contexto que vemos nesta produção ajuda para isso, com bullying e tudo o mais. Mas isso não explica tudo.

Afinal, não sei você que me lê, porque eu não sei a tua idade, mas se você, como eu, já tem um pouco mais de “experiência” de vida – eu tenho 38 anos, então tive infância nos anos 1980 e adolescência nos anos 1990 -, sabe que ainda que na “nossa época” ninguém falasse de bullying, ele já existia. E, acredito, ele sempre existiu e sempre vai existir. Porque é um pouco do “espírito humano” e do processo de autodescoberta as crianças e adolescentes manifestarem as suas “sinceridades” e, muitas vezes, serem cruéis. Com isso não quero dizer que o bullying deve existir. Não. Para isso estão os pais e todo o sistema educacional para educar as crianças e jovens de como eles devem tratar os demais.

Mas o que eu estou tentando comentar é que “trollagem” e brincadeiras, algumas vezes exageradas, vão existir provavelmente sempre entre os estudantes. O papel dos “adultos” é colocar limites e cuidar para que esta dose não seja exagerada. Dito isso, o que eu acho que mudou e que explica um aumento no número de suicídios entre jovens é porque o contexto geral para eles, muitas vezes, piorou. Não é apenas o bullying, mas muitas vezes a desestruturação das famílias e a falta deste apreço pela vida que, acredito, não pode ser “ensinado”, mas pode ser sim incentivado. E nem sempre o jovem tem este incentivo.

Então algo que achei ótimo neste filme é que ele se apresenta super adequado para o público jovem. Vi em cena um contexto juvenil – final do ensino médio – bem apresentado e que, ao menos para mim, foi convincente e fez sentido. Como sempre, está em cena a autoafirmação e autodescoberta dos indivíduos. Consequentemente, entram em cena a questão família, amigos e sexualidade. Tudo isso está bem apresentado na narrativa centrada na protagonista de Before I Fall.

O contexto de ensino médio em que você tem os estudantes populares e os “losers” também é parte fundamental da produção. Em toda a parte inicial de Before I Fall eu achei o roteiro de Maria Maggenti muito acertado. Afinal, logo de cara entendemos que Samantha vai morrer e que vamos acompanhar aquele que parece ser o último dia de vida dela. Apenas esse argumento já desperta a atenção e o interesse do espectador. Afinal, o que poderia ter mudado no dia daquela garota para fazer ela morrer naquele dia?

Logo de cara pensei em duas alternativas: crime ou morte no trânsito. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Como a vida de Samantha era bastante normal, só poderia ser algo inesperado para acabar com a trajetória dela tão rápido. De fato, não demora muito para sabermos que a morte dela foi por acidente, mas aí o roteiro dá uma virada interessante. A exemplo de outras produções, Samantha entra em um “dia sem fim”. A história dela vira um grande looping, com aquele dia fatídico sendo repetido uma e outra vez.

Na primeira vez que o dia se repete, Samantha age com incredulidade. Ela não acredita realmente que tudo esteja se repetindo e até comenta sobre um longo déjà-vu. Este é o primeiro estágio, segundo a psicologia, do luto – a negação. Conforme as repetições vão acontecendo, Samantha começa a repensar sobre aquilo. Acaba partindo para o segundo estágio do luto, a raiva, quando resolve “radicalizar” e dar uma de “garota má”. Já que nada vai mudar e ela vai viver aquele dia novamente, que tal entrar de soleira em quase todas as situações e falar “tudo o que pensa”?

A questão é que ela apenas está se revoltando contra aquele looping sem fim. Como Kent McFuller (Logan Miller) mesmo observa, aquelas atitudes não são, realmente, de Samantha. Assim, de forma inteligente, Before I Fall vai explorando a história segundo os cinco estágios do luto – confira mais sobre o modelo de Kübler-Ross por aqui ou através deste texto. Depois da revolta e do comportamento “rebelde”, a protagonista “desacelera” e começa a curtir aqueles dias de forma diferente.

Passa a aproveitar melhor a presença da família (fase da barganha e, porque não dizer, do início da tomada de consciência) e, finalmente, tem uma temporada de viver aqueles dias sem ânimo (essa parte, da depressão, é pouco explorada por Maggenti). Na reta final da produção, Samantha vai, finalmente, vendo a própria ficha cair. Ela percebe que mais do que realmente aproveitar aquele último dia de vida ao máximo, ela deve ser mais generosa com as pessoas. Fazer o bem. Ela então entra na parte da aceitação sobre o próprio destino.

Esta leitura sobre as cinco fases para aceitar a perda/luto eu fui entender depois de ter visto o filme e ao começar a refletir sobre o que ele fala nas entrelinhas. Mas enquanto assistia à produção, me chamou muito a atenção a mensagem de Before I Fall de que deveríamos aproveitar melhor o nosso tempo para fazer o bem e para sermos atenciosos com quem a gente ama e com todas as outras pessoas. Demonstrar amor para valer e ter um olhar um pouco mais cuidadoso para quem está sofrendo.

Daí a importância desta produção neste momento. Before I Fall trata de depressão e de suicídio focando em um público em que este tema está mais presente agora do que nunca. A produção mostra de forma despretensiosa mas muito potente algo que vamos aprender apenas com o tempo e com a maturidade que ele nos trás: que tudo nesta vida é passageira. Inclusive a dor, o incômodo e a angústia que muitas vezes ocupa os dias da nossa adolescência. Não importa o que façam com você quando você é jovem, com o tempo isso vai passar e pode ser curado se você achar os caminhos e as ferramentas certas.

Nada é permanente. Nem a dor, nem a felicidade, muito menos a vida – ao menos a terrestre. Quando somos jovens, tudo parece imenso, algumas vezes insolúvel, mas isso é porque ainda não olhamos para a frente e em perspectiva como vamos aprender depois. De sua maneira muito simples, Before I Fall nos faz refletir sobre como a nossa rotina acaba nos “engolindo”, e como é necessário, de tempos em tempos, parar tudo e fazermos o que precisamos fazer de mais importante, que é ajudar quem precisa e de falar para quem amamos que os amamos para valer.

Enfim, há muitas maneiras de viver a vida, como Before I Fall demonstra de maneira pueril. Claro que o assunto poderia ser tratado com maior profundidade, mas aí este filme não falaria com o público jovem como ele fala. E isso, pelas razões que eu comentei antes, é bastante importante. O único ponto que me “incomodou” um pouco no filme é que o espectador mata a “charada” sobre o que Samantha precisa fazer muito antes do que a própria personagem. Isso não costuma ser bom para um filme, mas em Before I Fall esta obviedade do roteiro é um bocado ofuscada pelo talento de Zoey Deutch.

A atriz, que tem um grande carisma e que não exagera na interpretação em momento algum, é a grande responsável – junto com a “moral da história” – pelo êxito da produção. Quando o roteiro fica óbvio, não nos importamos tanto com isso porque Zoey Deutch brilha em cena. Fiquei emocionada, admito, quando começa o último dia dela para valer. A partir dali, Samantha assume uma postura de gratidão e de confiança sobre o que ela precisa fazer, sobre o que é certo.

A forma com que ela trata os pais e a irmã mais nova, Izzy (Erica Tremblay), em especial, são tocantes. Quem dera que a gente, apesar do cotidiano/rotina que muitas vezes nos engole, soubesse mais vezes acordar com aquele olhar de compreensão plena e de generosidade. No fundo, um filme importante não apenas para o público-alvo, os adolescentes, mas também para qualquer pessoa que precisa, volta e meia, lembrar de sua própria humanidade e mortalidade para, desta forma, ser mais grata e humilde.

NOTA: 9.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Eita que esta semana estou com filmes surpreendentes “na manga”. Antes comentei a Get Out (com crítica neste link), um suspense/terror que se mostrou mais profundo e interessante do que eu poderia imaginar a priori. E agora, ao assistir Before I Fall, uma nova surpresa. Estava esperando um filme “bobinho”, mas vi muito mais conteúdo e relevância nele do que eu poderia imaginar. Isto demonstra como, às vezes, vale muito a pena abraçarmos filmes que não parecem “tudo aquilo” e que, no fim das contas, nos surpreendem positivamente.

Como eu disse antes, uma das qualidades deste filme é o roteiro de Maria Maggenti – ainda que, admito, este também seja o ponto fraco da produção. Explico. Maggenti faz uma apresentação interessante da história, assim como a primeira reviravolta do roteiro. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Depois, ela segue a cartilha e apresenta uma história linear e praticamente sem mais surpresas – a única, eu diria, é a primeira vez que aparece como Juliet Sykes (Elena Kampouris) morre. Mas a maior parte do roteiro é previsível. Ainda assim, a direção de Ry Russo-Young, que sabe explorar muito bem os detalhes das interpretações e apresenta uma dinâmica em cena interessante, segura as pontas. Não sofremos com tédio na produção por causa da dinâmica do filme e pelo desempenho do elenco.

Falando em elenco, o grande destaque da produção é, sem dúvida alguma, Zoey Deutch. Ela sabe tornar a personagem de Samantha, uma garota de “grande coração” e um tanto tímida, mas ao mesmo tempo popular no colégio, em alguém quase familiar do espectador. Difícil alguém não se ver um pouco em Samantha ou, pelo menos, ter alguém parecido na lembrança. E o mesmo acontece com as demais personagens da história. Verdade que a maioria deles é bem lugar-comum, mas para o que o filme se propõe – de ser bem compreendido pelo público jovem -, faz sentido.

A personagem de Zoey Deutch dita o ritmo da produção. A história toda é focada em Samantha e em suas reações, escolhas e atitudes. Mas o grupo que cerca esta personagem também tem relevância na história, por isso é bacana citar o bom trabalho de outros atores e atrizes da produção. Destaque neste sentido para Halston Sage como Lindsay Edgecomb, a melhor amiga de Samantha; Cynthy Wu como Ally Harris, outra amiga próxima da protagonista; Medalion Rahimi como Elody, amiga que fecha o “trio” de melhores amigas de Samantha; Logan Miller como Kent McFuller, o garoto apaixonado pela protagonista; Kian Lawley como Rob Cokran, o namorado “cobiçado” da protagonista e, aparentemente, um tanto “mente vazia”; Erica Tremblay como Izzy, irmã caçula de Samantha; Jennifer Beals como a mãe de Samantha; Nicholas Lea como o pai da garota; Liv Hewson como Anna Cartulo, a lésbica da classe; e Elena Kampouris como Juliet Sykes, taxada de “psicopata” por Lindsay.

Além deste grupo de atores, que é o núcleo central da trama, vale citar Diego Boneta como o professor de Samantha – e que tem, com ela, uma sequência interessante na história; e Keith Powers em uma ponta como Patrick, namorado de Lindsay. Por falar na melhor amiga de Samantha, que é um pouco “garota má” da história – aquela figura superpopular da escola e que tira sarro de metade das pessoas que aparecem pela frente -, até ela deixa uma mensagem interessante para os espectadores. Em determinado momento, Samantha confronta a amiga e fala algumas “verdades” para ela. Mas isso ocorre antes dela passar a ter um olhar generoso para todos e perceber que aquele comportamento equivocado da amiga, muitas vezes, era apenas uma forma de autodefesa. Isso é o que acontece na vida real também. Muita gente age de forma grosseira ou desnecessária por outros motivos que não por maldade. Vale a reflexão.

Da parte técnica do filme, vale destacar a ótima edição de Joe Landauer; a trilha sonora bastante adequada e envolvente de Adam Taylor; o casting competente de Nancy Nayor; o design de produção de Paul Joyal; e os figurinos de Eilidh McAllister.

Pensando agora no que eu escrevi acima, percebi que faltou falar de algo importante. Afinal, o que realmente acontece com Samantha? O que significa aquele looping sem fim? (SPOILER – não leia… bem, você já sabe). Eu não li ao livro que deu origem ao filme, mas a leitura que eu faço é a seguinte: realmente Samantha passou a viver em uma espécie de “purgatório” depois de ter morrido. Ou seja, sim, ela morreu naquele acidente de trânsito, após o capotamento do carro dirigido por Lindsay. Então sim, no fim das contas ela não salvou Juliet. Mas, como ela bem comenta no final, após passar por todos os estágios do luto, ela realmente entendeu aquele último dia de vida e a própria vida dela. Com a experiência de “reviver” aquele último dia mais de uma vez, ela conseguiu fazer as “pazes” com as pessoas que deixou e consigo mesma, e aí pode descansar em paz. Esta é uma leitura possível e que, para mim, faz todo o sentido. Mais do que ela ter vivido aquele dia diversas vezes sem ser após a morte.

Voltemos agora para os comentários usuais desta parte da crítica. 😉 Before I Fall teria custado US$ 5 milhões – um orçamento relativamente baixo – e faturado, apenas nos Estados Unidos, pouco mais de US$ 12,2 milhões. Apenas na semana de estreia o filme fez US$ 4,7 milhões – ou seja, quase cobriu os custos “brutos” da produção. Como o filme vai faturar em outros mercados ainda, certamente fechará as contas com lucro.

Produção 100% dos Estados Unidos – por isso o filme passa a integrar a lista de produções que atendem a uma votação feita há tempos por aqui -, Before I Fall foi totalmente rodado na cidade canadense de British Columbia.

Algumas curiosidades sobre a produção: Before I Fall foi rodado em apenas 24 dias. A história de Sísifo que o professor de Samantha cita em aula não está ali por acaso. O mito de Sísifo conta sobre um homem que foi forçado por um deus a empurrar uma pedra enorme barranco acima sem parar por toda a eternidade – uma alusão clara sobre o “dia sem fim” de Samantha. A protagonista do filme acaba lutando contra o fato de não poder mudar o seu destino – a exemplo de Sísifo – até que, como ele, ela tem uma epifania. Curioso.

Este seria o quinto filme que trata de um filme sendo vivido em looping. Os anteriores seriam Groundhog Day, 12:01, Edge of Tomorrow e Source Code. Lembro de ter assistido apenas ao último (muito bom, aliás, e comentado por aqui).

A jovem diretora nova-iorquina Ry Russo-Young, de 35 anos, já tem sete títulos no currículo, sendo três deles de curtas e quatro longas. Com quatro prêmios no currículo, ela se destacou pelo curta Marion, de 2005, e pelo longa You Wont Miss Me, de 2009. Também roteirista, vale conferir o que mais ela apresentará no futuro. Quem sabe é um nome a ser acompanhado.

Os usuários do site IMDb deram a nota 6,4 para esta produção, enquanto que os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 66 críticas positivas e 33 negativas para a produção, o que lhe garante uma aprovação de 66% e uma nota média de 5,9. Verdade que este filme não é realmente surpreendente e que o roteiro tem vários lugares-comum e é um tanto óbvio, mas achei o nível de aprovação e a nota dos críticos do Rotten Tomatoes baixa demais. Neste sentido, ainda a nota do IMDb, levando em conta o padrão do site, me pareceu mais justa. Ou eu que ando sendo “fracote” nas crítica e me deixei levar pelo lado sentimental da produção, vai saber… 😉

CONCLUSÃO: Francamente, este não é um tipo de filme que me atrai, normalmente. Mas é tão bom quando a gente resolve “arriscar” e assistir a uma produção como Before I Fall. Sim, como eu disse antes, o roteiro desta produção não é um primor de inovação ou traz grandes sacadas. Ele é bem previsível, até. Mas o elenco escolhido a dedo e os temas que este filme suscita e a forma com que ele nos faz pensar fazem com que Before I Fall seja, no fim das contas, uma grata, grande surpresa. Um filme competente e que poderá ser bastante relevante especialmente para o público que ele retrata. Vale assistir, recomendar e, quem sabe, até debater a história na família ou em sala de aula.

Get Out – Corra!

Um dos filmes mais criativos, interessantes e provocadores que eu assisti nos últimos tempos. Get Out é um suspense/terror com uma boa carga de humor e de crítica. Um filme do gênero como você nunca viu, tenho certeza. Eu tinha visto comentários positivos sobre ele e o cartaz tinha me deixado na dúvida sobre a qualidade da produção, mas realmente Get Out vale o ingresso e a experiência. A relação entre brancos e negros sempre rende um bom debate, até porque continua sendo um tema atual, e com este filme ele recebe uma leitura muito interessante.

A HISTÓRIA: Em uma rua deserta, um jovem negro caminha se queixando que está perdido porque caiu em uma rua com nome parecido com a que em ele deveria estar. Ele se diz deslocado no bairro de ricos. Negro, ele sabe o que acontece com pessoas de sua cor em um bairro como aquele. Quando um carro de luxo parece começar a acompanhá-lo, ele começa a surtar. Muda e caminho, mas acaba sendo rendido pelas costas. Colocado no porta-malas, ele é levado para longe daquele endereço. Corta. Vemos a cenas do interior, local para o qual Chris Washington (Daniel Kaluuya) vai com a namorada Rose Armitage (Allison Williams) conhecer a família dela. Mal sabe ele que está prestes a cair em uma cilada.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Get Out): Esta produção é mais um exemplo de como um grande roteiro é metade do caminho para um grande filme. O diretor e roteirista Jordan Peele acerta na mosca ao investir em um filme de suspense com grandes doses de humor e de crítica social para tratar de um tema que parece não perder validade com o tempo: a estranheza e o preconceito envolvendo brancos e negros.

Este filme não se preocupa em ser politicamente correto. Peele busca tratar com naturalidade a desconfiança e o “jeito de ser” diferenciado entre brancos e negros, explorando bem estas questões nos diálogos dos personagens e nas relações de “estranheza” que existem entre eles. Logo no início do filme somos apresentados ao criativo e bem-sucedido protagonista desta produção. Chris é um fotógrafo de sucesso, reconhecido e que vive bem. Mas ele acaba caindo no radar de Rose que, só vamos descobrir depois, é uma grande “caçadora” de negros que serão convertidos em vítimas de uma classe abastada.

Get Out exagera na dose para fazer o público refletir. Afinal, por que ainda existe tanta estranheza e exploração entre brancos e negros, tanto tempo depois do fim da escravidão? O tema racial é muito forte e importante nos Estados Unidos, onde policiais brancos volta e meia aparecem nos noticiários matando negros sem justificativa para uma ação letal. No Brasil, o preconceito e a desigualdade racial estão presentes, mas são menos expostos na mídia e debatidos.

Todo este contexto de conflito racial é explorado com inteligência e humor por Peele que, também de forma muito acertada, trata muito bem da ascensão social e das novas condições dos negros no país – e não apenas nos Estados Unidos. O protagonista de Get Out é muito bem construído. Bem-sucedido, ele aprendeu a se virar sozinho durante a vida – ele ficou órfão ainda na infância – e tem aquele olhar um tanto “crítico” para toda esta questão racial.

Afinal, ele namora uma bela garota branca, Rose, e vive em círculos bastante mesclados. Fotógrafo reconhecido, ele não sofre os preconceitos que outros negros com profissões menso “admiradas” podem sentir. Ele tem amigos negros, com destaque para o divertido e desconfiado segurança de aeroporto Rod Williams (LilRel Howery), mas não parece estar fechado em relações em um grupo social ou racial. Por isso mesmo ele não resiste tanto à experiência de conhecer os pais de Rose, apesar de reclamar com ela que a garota deveria ter “avisado” eles que ele é negro.

A priori, o protagonista de Get Out não resiste ao contato e à interação com a família branca da namorada, mas ele fica com o pé atrás quando sabe que eles não sabem que ele é negro. Eles vão para o interior dos Estados Unidos, onde a segregação racial ainda é bastante presente. Chris está preparado para o que vier, mas ele não poderia sonhar com a cilada sinistra na qual está caindo. O interessante do roteiro de Peele é que ele provoca nos espectadores uma sensação de estranheza e de desconfiança do princípio ao fim. Ou seja, nos faz experimentar aspectos essenciais da própria questão racial.

Vou explicar melhor. Em cada encontro e interação de Chris no cenário em que Rose cresceu, sentimos que algo está “fora da ordem”. Muito expressivo e ator bastante competente, Daniel Kaluuya nos representa naquele contexto, independente se somos brancos, negros, amarelos ou com outra coloração de pele. A estranheza naquele cenário é universal. Ao fazer isso, Peele nos faz experimentar a sensação de estranheza e de que “algo está errado” que todo negro sente ao interagir com brancos preconceituosos. Esta é uma das maiores genialidades de Get Out.

Mas há mais. O filme trabalha a questão racial sim, mas também apresenta um suspense muito interessante e criativo. A história linear vai se desenvolvendo de forma muito natural e crível, fazendo o espectador se sentir “confortável” e bem inserido na produção. Os atores fazem um grande trabalho, com vários momentos de tensão e de conflito muito bem pincelados e construídos. É um filme envolvente e que vai ganhando em tensão e suspense de forma escalada. Segue muito bem o manual do gênero.

O bacana é que além de seguir esse manual, Get Out inova. Afinal, traz a questão racial para um gênero que não está acostumado a explorar este tema. E ao fazer isso, ele eleva para um outro nível a questão da exploração de negros por brancos. Antigamente, a forma de brancos fazerem isso era através da escravidão, forma de exploração que era socialmente e legalmente aceita.

(SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Com o fim da escravidão, a família Armitage encontrou uma forma diferente de explorar negros: usando técnicas de lobotomia, eles fazem uma mescla sinistra entre o cérebro da vítima e do “comprador” para transformar negros em “plataformas” para endinheirados brancos utilizarem os seus corpos e talentos. Isso vamos descobrir apenas no final da produção, quando Chris é “apresentado” para a história real da família da namorada e para o que parece ser o seu sinistro fim.

Nesta parte, achei novamente o trabalho de Peele brilhante. Quando Chris questiona o seu novo “dono”, o negociador de arte Jim Hudson (Stephen Root), das razões que levariam os “clientes” dos Armitage em negociarem o uso de negros daquela forma, Hudson explica que as razões são múltiplas. Alguns querem o “vigor físico” das vítimas, enquanto outros querem “ficar na moda”, entre outros motivos. Logo entendemos a origem de Walter (Marcus Henderson) e de Georgina (Betty Gabriel), “comprados” pelos avós de Rose para dar uma “sobrevida” para eles.

Em tese, a técnica desenvolvida pelos Armitage e aperfeiçoada pelo casal Missy (Catherine Keener) e Dean (Bradley Whitford) permitiria uma espécie de “vida eterna” na Terra para os brancos que poderiam migrar de uma vítima para outra. O interessante da argumentação e da crítica de Peele é que ele não apenas aborda um novo tipo de exploração de negros por brancos como também revela de forma irônica o “perigo” de negros estarem na moda. Tudo que cai no gosto do mainstream seria, assim, explorado de forma “canibal”. Genial, não?

Enfim, resumindo, achei tanto o roteiro de Peele quanto o desenvolvimento do filme perfeitos, com um bom equilíbrio entre um “clássico” filme de suspense/terror com a inovação de um roteiro que explora muito bem o conflito racial, “modernizando” o tema. Ajuda, neste sentido, a trilha sonora de Michael Abels, com grandes “sacadas”, e os diálogos e desenvolvimento da produção com a assinatura de Peele.

Este é um filme do gênero competente e com algumas inovações para este estilo de produção bem interessante. Mas para não dizer que Get Out é perfeito – e olha que fiquei bem tentada a dar um 10 para ele -, devo dizer que o final da produção me incomodou um pouco. (SPOILER – não leia… bem, você já sabe). Nem tanto pelo comportamento “furioso” do protagonista, que sai matando com certa frieza todo mundo da família Armitage que aparece pela frente – afinal, ele sabia que este era o jeito dele sobreviver e escapar de lá vivo -, mas por alguns detalhes que ficaram um tanto estranhos no contexto da história.

Por exemplo, parece bobo, mas fiquei incomodada com aquela parte em que o estranhíssimo Jeremy Armitage (Caleb Landry Jones) faz de tudo para impedir que Chris saia da casa da família. Em mais de uma cena vemos Chris quase abrir a porta e não conseguir por causa das ações de Jeremy. Até parece que a casa tinha algum “poder” sobrenatural sobre as vítimas da família, mas isso não faz nenhum sentido e parece um tanto deslocado na produção com narrativa um bocado “lógica” até então. Para mim, a sequência final entre Jeremy e Chris me pareceu forçada e deslocada.

Também me incomodou um pouco o “grand finale” entre Chris e Rose. Caramba, depois dela fazer tudo o que fez ele ainda fica vulnerável com um “eu te amo” falso dela? Me pareceu forçado também. Este detalhe, junto com o que comentei envolvendo Jeremy e Chris, mancharam um pouco o roteiro quase perfeito de Peele. Apenas por isso eu não dei a nota máxima para a produção. Mas por todo o restante, inclusive algumas sacadas muito boas do roteiro – como a questão do flash do celular e a teoria maluca e ao mesmo tempo quase certeira de Rod -, Get Out se revela um grande filme. Dos mais bacanas do gênero suspense/terror dos últimos tempos. Foge do óbvio. Agradecemos por isso.

NOTA: 9,8.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: O nova-iorquino Jordan Peele tem 38 anos e uma longa carreira como ator. Ele começou nesta profissão em 2006 e é conhecido por fazer tanto filmes como séries de TV. Get Out marca a estreia dele na direção, mas como roteirista ele já tinha feito outros trabalhos, especialmente escrevendo episódios de séries de TV como Obama e Key and Peele.

Antes de Get Out, Jordan Peele tinha escrito o roteiro da comédia de ação Keanu ao lado de Alex Rubens e sobre a “gag” criada por Jamie Schaecher. Acho que vale ficar de olho nele e ver o que mais ele vai aprontar como diretor/roteirista.

Um grande acerto de Get Out é a escolha do elenco. Daniel Kaluuya é a grande revelação do filme. Ele dá um show de interpretação em um papel onde não seria difícil alguns exageros e derrapadas. Mas não. Kaluuya convence em cada minuto do filme, em interações e com reações muito interessantes e que dão credibilidade para o personagem dele. Mas os outros atores também estão muito bem. A mudança radical que acontece com a personagem de Allison Williams também é perfeita, valorizando o passe da atriz.

O destaque da produção é o trabalho de Daniel Kaluuya. Mas vale destacar outros nomes da produção. Allison Williams está muito bem e faz um dueto de cena perfeito com Kaluuya. Além deles, brilha na produção o divertido LilRel Howery e estão muito bem Catherine Keener e Bradley Whitford em papéis sinistros pouco comuns em suas respectivas carreiras; Marcus Handerson e Betty Gabriel em papéis sinistros e bem explicados no final da produção. Lakeith Stanfield está muito bem como uma das vítimas dos Armitage, Andrew Logan King.

Vale citar também o veterano Stephen Root como Jim Hudson; Caleb Landry Jones em uma interpretação um pouco “forçada” como Jeremy Armitage; Ashley LeConte Campbell como Lisa Deets; John Wilmot como Gordon Greene; Caren L. Larkey como Emily Greene; Julie Ann Doan como April Dray; Rutherford Cravens como Parker Dray; Geraldine Singer como Philomena King; Yasuhiko Oyama como Hiroki Tanaka; Richard Herd como Roman Armitage – todos como integrantes da comunidade “so white” em que Chris cai por causa de Rose; e Zailand Adams como Chris aos 11 anos de idade.

Também vale citar a ponta de três atores que fazem graça e que ajudam a reforça a “comédia do absurdo” de Get Out: Erika Alexander como a detetive Latoya; Jeronimo Spinx como o detetive Drake; e Ian Casselberry como o detetive Garcia. Eles estão na delegacia que Rod procura para fazer a denúncia sobre o desaparecimento de Chris e de Andrew, e a reação deles é um dos pontos certeiros do filme.

Entre os aspectos técnicos do filme, destaque novamente para a trilha sonora de Michael Abels, que é um diferencial da produção. Além dela, vale comentar a boa direção de fotografia de Toby Oliver; a edição de Gregory Plotkin; o casting de Terri Taylor; o design de produção de Rusty Smith; e os figurinos de Nadine Haders.

Get Out teria custado US$ 5 milhões, um orçamento baixo para os padrões de Hollywood e que demonstra, mais uma vez, como bons filmes podem ser feitos com orçamentos relativamente curtos. Na semana de estreia nos Estados Unidos, o filme conseguiu nas bilheterias do pais nada menos que US$ 33,4 milhões. Lucrando logo na largada. Segundo o site Box Office Mojo, apenas nos Estados Unidos o filme fez quase US$ 174,7 milhões nas bilheterias. Nos outros países em que o filme estreou ele fez mais US$ 40 milhões. Ou seja, um dos maiores lucros dos últimos tempos. O filme virou uma febre. Bacana.

Esta produção, 100% dos Estados Unidos, foi rodada em duas cidades do Alabama: Fairhope e Mobile. Interessante terem sido rodadas por lá, porque o Alabama é, historicamente, um Estado com forte segregação racial e no qual há muitos casos de racismo conhecidos. Curioso que, inicialmente, Peele queria fazer o filme em Los Angeles, mas por causa dos custos ele resolveu mudar o local das filmagens. O que acabou sendo positivo, sem dúvida.

Agora, algumas curiosidades sobre a produção. Get Out foi rodado em apenas 28 dias. A inspiração de Jordan Peele para escrever Get Out veio de uma parte de um stand-up feito por Eddie Murphy. Neste trecho do espetáculo, Murphy comentou sobre a ocasião em que foi conhecer a família e uma namorada branca dele.

Sobre o The Sunken Place, onde vive a família Armitage, o diretor Peele fez o seguinte comentário: “The Sunken Place significa como estamos marginalizados. Não importa o quanto nós gritemos, o sistema nos silencia”.

Além de Get Out marcar a estreia de Peele na direção de um longa-metragem, o filme também marca a estreia de Allison Williams neste formato de produção.

Jordan Peele escreveu o roteiro de Get Out durante o primeiro mandato de Barack Obama, quando o clima nos Estados Unidos era de grande otimismo e as pessoas tinham a sensação de que a questão racial havia sido superada. Como isso se mostrou falso com o passar dos anos, Peele achou que era a hora de filmar Get Out – antes não havia “clima” para isso.

Agora uma curiosidade que fica “escondida” na produção. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Chris “flagra” Georgina arrumando o cabelo em frente ao espelho para evitar que a cicatriz que ela tenha apareça. Esta é a mesma razão que faz com que Walter e Andrew aparecem sempre de chapéu – exceto, no caso de Walter, na sequência final dele na produção. É uma forma de evitar que o “segredo” da produção seja conhecido antes da hora.

Existe uma razão para a sequência em que Chris procura ver o que aconteceu com o cervo atropelado por Rose. (SPOILER – não leia… bem, você já sabe). Primeiro, esta é a sequência que introduz o tema “acerte e corra” na produção. Depois, ela mostra que Chris tem empatia e se compadece com o animal ferido, o que não acontece com Rose – algo que entenderemos completamente na reta final da produção.

Missy controla as pessoas com uma colher de prata – que é sinônimo de ter privilégios. Algo que não apenas faz sentido para o filme, mas também um ponto que aumenta a crítica social da produção. Afinal, muitos privilegiados utilizam justamente esta posição para explorar quem não tem esta condição.

A escolha do sobrenome Armitage não foi por acaso. Ela faz homenagem ao escritor HP Lovecraft, um autor de histórias de horror que tratava de famílias decadentes que tinham ligações com sociedades ocultas ou secretas, abordava a transmigração de almas de um corpo para o outro, estados alterados da realidade e temas similares que são abordados também em Get Out.

Interessante que a questão do celular não é por acaso – nada neste filme, aliás. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme ainda). O uso do celular é fundamental para Chris começar a conhecer a verdade sobre a situação estranha que cerca a família Armitage, assim como a maioria das denúncias de violência e abuso policial de brancos contra negros tem sido documentada com o uso de celulares.

Há no filme algumas referências ao tempo da escravidão. (SPOILER). As principais são a sequência do bingo que “rifa” Chris e que lembra os leilões de escravos de antigamente e a forma com que Chris se livra de seu sinistro destino ao tirar o recheio da poltrona de couro e usar ele nos ouvidos. Literalmente, para isso, ele está “colhendo algodão” para se salvar, o que era feito pelo escravos antigamente, forçados a colher algodão para seguirem vivos.

Get Out foi indicado para oito prêmios, mas não recebeu nenhum até o momento.

Os usuários do site IMDb deram a nota 7,9 para Get Out, enquanto que os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 259 críticas positivas e apenas uma negativa para a produção, o que lhe garante uma aprovação de 99% e uma nota média de 8,3. Os dois níveis de aprovação estão bem acima da média para os dois sites, o que mostra que este filme é um sucesso de público e de crítica.

CONCLUSÃO: Um filme de suspense muito divertido e com uma boa carga de crítica social e de comportamentos. Quem diria que uma produção assim poderia existir. E sim, ela existe. Get Out é uma aula de bom roteiro e de atores pouco conhecidos bem escalados e com um belo trabalho. Um filme inteligente, divertido e macabro na mesma medida. Achei uma das melhores surpresas dos últimos tempos. Merece o burburinho que recebeu. Se você não se importa com cenas violentas e uma certa dose macabra, sem dúvida alguma vale o ingresso.

El Ciudadano Ilustre – The Distinguished Citizen – O Cidadão Ilustre

Quando alguém escreve, mergulha em todos os aspectos de sua vida e daquilo que quer contar. Nossa bagagem sempre está presente, mesmo quando não nos damos conta dela. El Ciudadano Ilustre, a exemplo do recentemente comentado por aqui Paterson, trata de literatura e da vivência do artista. Mas diferente do filme de Jim Jarmusch, El Ciudadano Ilustre tem mais pimenta e humor, além de uma certo “realismo fantástico” que lembra bem parte da literatura latino-americana.

A HISTÓRIA: O mestre de cerimônias apresenta as credenciais e uma rápida biografia do escritor Daniel Mantovani (Oscar Martínez). Apesar de ter vivido grande parte de sua vida na Europa, o argentino Mantovani espera na ante-sala para receber o Prêmio Nobel da Literatura. Quando ele é chamado ao palco, faz um discurso comentando como, ao receber o prêmio, ele percebe que a sua carreira terminou. Afinal, ele está sendo o artista mais “cômodo” para jurados, especialistas, acadêmicos e reis, e esta, na opinião de Montovani, não deve ser o papel de um escritor.

Cinco anos depois, o escritor argentino segue recebendo prêmios e com uma agenda cheia de eventos. Em alguns ele comparece, outros eventos ele simplesmente recusa. Um destes convites é feito pela prefeitura de Salas, cidade em que ele nasceu e que lhe serve de inspiração para as suas obras. No primeiro capítulo deste filme, Montovani recebe o convite para voltar para Salas. Inicialmente ele recusa, mas depois volta atrás e decide retornar para a cidade natal para receber o título de “cidadão ilustre” da cidade.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso só recomendo que continue a ler quem já assistiu a El Ciudadano Ilustre): Como é bom voltar para o bom e velho cinema argentino! Porque sim, é muito difícil ver a um filme do país vizinho e não gostar do que assistimos. El Ciudadano Ilustre segue esta linha de satisfação quase sempre garantida, apresentando um filme inteligente, interessante, literário e bastante humano.

Esta produção foi a indicação deste ano da Argentina para o Oscar. Uma bela escolha, ainda que o filme fuja do padrão hollywoodiano. O roteiro de Andrés Duprat mergulha no fazer literário tendo como protagonista um escritor que lembra muito a outros nomes da literatura latino-americana, especialmente aqueles da escola do “realismo mágico”. Como assistir a El Ciudadano Ilustre e não lembrar de “Cien Años de Soledad” do grande Gabriel García Márquez?

Claro que há muitas outras referências, como os argentinos Julio Cortázar e Jorge Luis Borges, entre outros. Também me lembrei muito de José Saramago, o português que ganhou um Nobel da Literatura, a exemplo do protagonista deste filme, e que não achou, exatamente, que este foi um grande “presente”. E aí está uma das principais qualidades do roteiro de Duprat, a sua fina ironia.

Logo nos primeiros minutos do filme percebemos que Duprat nos mostra, através de seu Daniel Mantovani, que a noção de sucesso é bastante relativa. Para o protagonista de El Ciudadano Ilustre, os títulos que ele recebe, inclusive o Nobel, não querem dizer nada – ou querem dizer muito pouco. Ele continua “solitário”, incomodado com o que vê ao seu redor e, principalmente, com questões mal resolvidas com a sua cidade natal Salas e algumas pessoas que ele deixou por lá.

Como acontece na vida real, o escritor deste filme também se inspira muito na realidade, nas memórias que tem e preserva de sua cidade natal e a sua gente e, principalmente, na releitura que ele faz desta mesma realidade. Como ele escreve ficção, utiliza alguns elementos da realidade para dar asas para a própria criatividade e deixar fluir a literatura que lhe torna famoso. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). De forma muito inteligente, Duprat nos faz acreditar que Mantovani decide aceitar o convite da prefeitura de Salas para ir para a cidade receber o título de cidadão ilustre do município.

Desde que ele decide aceitar o convite, mergulhamos junto com ele em uma cidade do interior cheia de particularidades. Como tantas e tantas cidades do interior do Brasil, da Argentina e, tenho quase certeza, de qualquer parte do mundo. Quem nunca foi para o “interiorzão” e não viu vários detalhes que Mantovani vai encontrando pelo caminho, desde o ar-condicionado do hotel que só poderá ser usado após um pedido “expresso” do hóspede para a recepção até uma certa falta de oportunidades e do que fazer para uma parte considerável da população.

Personagens curiosos vão aparecendo conforme Mantovani vai se deslocando pela cidade. Muitos deles fascinados por um “cidadão ilustre” que colocou o pequeno “pueblo” no mapa mundial. Mas claro que há sempre o outro lado da moeda, como o prefeito que quer aparecer bem na foto com o escritor que ganhou o Nobel e o artista da cidade que não é premiado em um concurso e que empreende uma guerra particular contra o mais novo “desafeto”. Também há a jovem inteligente que vê no famoso escritor a desculpa perfeita para sair da pequena cidade e buscar uma vida longe dali.

O desenvolvimento da história é linear e bastante lógico, além de saboroso. Duprat tem um texto saboroso, que explora muito bem o contraste entre o escritor famoso e que tem uma grande vivência internacional e reflexiva e o povo simples da cidade em que ele nasceu. Mantovani não tem nada a ver com aquelas pessoas, aparentemente e olhando de forma geral, assim como quase nenhum de nós tem realmente a ver com o nosso lugar de origem – ainda que não podemos, ao mesmo tempo, ser explicados sem esta informação.

Ainda que o filme seja focado no protagonista, acabamos sabendo menos dele do que de Salas. Sim. Os diretores Gastón Duprat e Mariano Cohn sabem conduzir a história de Andrés Duprat com maestria, destacando os locais e personagens de Salas mais do que o escritor ilustre que nos leva por aqueles caminhos. Enquanto a história se desenvolve, acabamos sabendo um pouco sobre ele. Por exemplo, que ele não retorna para Salas há 40 anos – como a mãe dele morreu naquele período, calculamos que a última vez que ele esteve lá foi para o enterro dela.

No vídeo de homenagem que fazem para ele na cidade, acabamos sabendo que o pai dele morreu 10 anos depois da mãe, mas Mantovani não foi para lá naquela ocasião. Ainda que ele frequenta a cidade há tanto tempo, ele deixou lá pessoas que lembram bem dele, como o antigo amigo Antonio (Dady Brieva) e a ex-namorada Irene (Andrea Frigerio) que, agora, está casada com Antonio. Na Espanha, onde mora, Mantovani vive de forma confortável, mas mora sozinho. Em uma conversa com Antonio ficamos sabendo que ele não se casou e que não teve filhos.

Mas se não conhecemos em detalhes a vida pessoas de Mantovani, sabemos sobre os seus valores e formas de pensar e agir, acabamos aprendendo conforme a história se desenvolve. Ele é um sujeito que respeita a todos, mas que não se deixa corromper e nem levar por favores ou promessas bobas. Ele também acha a fama e os prêmios uma bobagem, ou efeitos de um trabalho bem feito. Nada mais, nada menos. Ele não tem muita paciência com pessoas “sem noção” e não tem muitas “papas na língua”. Fala o que pensa e gosta de ter a liberdade para isso.

Para mim, o genial mesmo do filme foi o seu final. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme ainda). No início, como eu comentei, Mantovani não aceita diversos convites, inclusive o feito pelo município de Salas. Depois, a história parece dar uma “virada” e ele vai para lá. No final, aparentemente, ele é morto por Roque (Nicolás de Tracy), e nos últimos minutos da produção parece que vamos ver ele ser velado. E aí vem a grande e inteligente reviravolta: Mantovani está lançando o seu último livro, justamente a história que acabamos de ver.

Um dos jornalistas da coletiva de imprensa pergunta se o livro, que tem Mantovani como protagonista pela primeira vez em suas obras, é baseado em fatos reais. O escritor diz que isso pouco importa e mostra uma marca no peito, brincando que ela pode ter diversas origens. Achei brilhante! Belo final e que deixa a “moral da história” a gosto do espectador.

Da minha parte, acho sim que tudo o que vimos foi uma criação de Mantovani e que ele, de fato, não foi até Salas. Se observarmos bem quando ele “recebe o tiro”, o projétil teria acertado o escritor pelas costas e do lado direito dele. Pois bem, quando ele mostra a “marca” na coletiva de imprensa, ela está do lado esquerdo e na frente do corpo. Ou seja, mesmo que a bala tivesse atravessado da parte de trás para a parte da frente, não estaria deste lado, correto? Um elemento que acho que ajuda a mostrar que o que vimos foi o último livro dele “filmado”. Boa sacada.

Mas como acontece com tantas outras obras, saber o que realmente o escritor quis dizer ou o que tem a ver com a realidade e o que não tem a ver pouco importa. A experiência de deliciar-se com a obra, com a criatividade e com a narrativa do artista é o que interessa. Neste sentido, El Ciudadano Ilustre nos apresenta um filme interessante, bem equilibrado entre o drama e a comédia um tanto ácida.

Uma produção bem escrita e que tem algumas críticas interessantes sobre as pessoas que são consideradas “ilustres” em certa comunidade. Afinal, quem é admirado e quem tem o poder? Às vezes os talentos reconhecidos são os que caem no gosto de grupos, realmente, e outras vezes estas pessoas também sabem provocar e desempenhar o papel esperado de um artista. Por outro lado, quem “manda” é quem tem dinheiro e, muitas vezes, quem aterroriza os demais pela violência. Como bem explora a última obra do protagonista deste filme. Em resumo, um filme que faz pensar e que diverte.

NOTA: 9,4.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: A principal qualidade desta produção é o roteiro de Andrés Duprat, sem dúvida. Ele faz um filme com história linear que apresenta uma bela surpresa e que mistura realidade e ficção de forma estratégica e interessante. Um filme sobre literatura que não apenas mergulha no território de inspiração do escritor como também mostra um pouco de seu processo criativo e uma certa crítica para o “mainstream” da área.

Mesmo sendo o ponto forte do filme, admito que tem partes do roteiro que me pareceram um pouco lugar-comum demais. Em especial a personagem de Julia (Belén Chavanne). Para a “virada” do filme a história dela serve como uma luva, mas dentro do contexto da história e do personagem principal, ela acaba parecendo um tanto forçada. Talvez se a atriz fosse um pouco mais atraente, convenceria mais.

A direção de Gastón Duprat e de Mariano Cohn é boa. Valoriza tanto as particularidades da cidade de Salas quanto o padrão de vida do protagonista e, claro, o trabalho de cada ator. Do elenco, sem dúvida alguma o destaque é Oscar Martínez. Os outros atores se esforçam, mas estão alguns degraus abaixo do protagonista em termos de talento. Alguns são, visivelmente, amadores. Isso acaba prejudicando um pouco o filme porque eles realmente parecem um tanto deslocados em algumas cenas.

Além de Martínez, estão bem na produção Dady Brieva, Andrea Frigerio e, mesmo que aparecendo menos, Nora Navas como Nuria, secretária de Mantovani. Além deles, vale citar o bom trabalho de Manuel Vicente como o prefeito Cacho; Belén Chavanne em um papel muito previsível como Julia; Marcelo D’Andrea como o “inimigo” egocêntrico Florencio Romero, artista local que não “engole” Mantovani; e Julián Larquier Tellarini como o recepcionista do hotel em que o escritor fica hospedado.

Da parte técnica do filme, vale destacar a direção de fotografia de Mariano Cohn e de Gastón Duprat; a trilha sonora de Toni M. Mir; e os figurinos de Laura Donari.

El Ciudadano Ilustre foi rodado nas cidades de Barcelona, na Espanha, e nas cidades argentinas de Buenos Aires (chegada do protagonista no país de origem), Cañuelas e Navarro, estas duas últimas próximas de Buenos Aires e que se passaram pela ficcional Salas.

O filme, que é uma coprodução da Argentina e da Espanha, recebeu 13 prêmios e foi indicado a outros 17. Entre os prêmios que recebeu, destaque para o de Melhor Roteiro Original conferido pela Academia de Artes e Ciências Cinematográficas da Argentina; para o de Melhor Filme Iberoamericano conferido pelo Prêmio Goya; para o de Melhor Filme Estrangeiro no Festival Internacional de Cinema de Haifa; para de Melhor Roteiro e para o conferido pela Associação Cubana de Imprensa Cinematográfica no Festival de Cinema de Havana; para dois de Melhor Roteiro e dois de Melhor Filme (Silver Spike e Golden Spike) no Festival Internacional de Cinema de Valladolid; para os de Melhor Filme do Vittorio Veneto Film Festival Award e de Melhor Ator para Oscar Martínez no Festival de Cinema de Veneza; e para o prêmio Open Horizons dado pela audiência do Festival de Cinema de Thessaloniki.

Os usuários do site IMDb deram a nota 7,5 para esta produção, enquanto que os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram oito críticas positivas para o filmes e… só. Ou seja, El Ciudadano Ilustre conquistou uma rara aprovação de 100% no Rotten Tomatoes, somando uma nota média de 7,2 no site. Belo desempenho.

Para quem ficou interessado em saber um pouco mais sobre o realismo mágico na literatura, este texto pode ser uma boa introdução. E conhecer a obra destes e de outros escritores desta escola, claro, vale muito a pena. 😉

Ah, vale falar um pouco sobre os diretores Mariano Cohn e Gastón Duprat. Os dois são argentinos, nascidos em “pueblos” que fazem parte da província de Buenos Aires. O primeiro tem 41 anos e é natural de Villa Ballester, e o segundo tem 47 anos e nasceu em Bahía Blanca. Os dois fazem parceria na direção desde o início da carreira de cada um, no ano 2000, com o documentário Enciclopedia. Antes de El Ciudadano Ilustre eles dirigiram Yo Presidente, em 2006; El Artista, no mesmo ano; e El Hombre de al Lado, em 2009. Fiquei curiosa para ver alguns destes filmes anteriores.

CONCLUSÃO: Um filme inteligente e provocador, que questiona alguns lugares-comum sobre a noção de sucesso e de verdade. El Ciudadano Ilustre é mais um bom exemplar de cinema argentino, com uma história envolvente, interessante, rica em detalhes, muito bem contada e com um grande protagonista. Impossível não lembrar de grandes escritores e o seu ofício, assim como de personagens tão típicos de qualquer parte do mundo e que sempre servem de referência para quem vive de contar histórias. Um filme gostoso e que passa rápido, diferente de Paterson, que também trata de literatura e de inspiração artística. Eis uma boa pedida.

The Daughter – A Filha

É comum que ainda muito cedo nos ensinem a amar, perseguir, desejar e cuidar para que a verdade esteja sempre presente. O problema é que quando a vida avança e diversas situações complicadas acontecem, nem sempre a verdade é assim tão desejada. Com o tempo, em realidade, percebemos que algumas vezes a verdade pode ser fatal – e nem sempre por uma escolha racional ou mesmo nossa. The Daughter é um filme contundente que, no fim das contas, questiona justamente a necessidade de todos contarem a verdade e de persegui-la com tanto desejo.

A HISTÓRIA: Começa com uma floresta encoberta de névoa e o som de dois tiros. No chão, um pato olha para o seu algoz. Henry (Geoffrey Rush) mira no animal, deitado e ferido, e acaba decidindo não dar o tiro final. Retornando para o carro, Henry pede para Peterson (Nicholas Hope) terminar com o sofrimento do animal. Acompanhamos o pato, que é levado por Peterson dentro de uma gaiola. Corta.

Em uma fábrica, troncos de árvores são transformados em tábuas de madeira. É lá que trabalha Oliver (Ewen Leslie), um de tantos empregados de Henry que ficarão sem emprego com o fechamento da empresa. Em breve Oliver vai reencontrar o antigo amigo de infância, Christian (Paul Schneider), filho de Henry e que retorna para a cidade para o casamento do pai.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso só recomendo que continue a ler quem já assistiu a The Daughter): Eis um filme que não é nada simples. Especialmente por causa de seu final, mas também graças a uma boa parte do desenvolvimento da história. The Daughter não é simples por ser tão carregado de verdade. E sim, justamente a noção de verdade é o que o diretor e roteirista Simon Stone coloca à prova, rejuvenescendo uma história criada por Henrik Ibsen há mais de um século.

Não deixa de ser revelador que The Daughter comece com dois disparos e com um pato ferido. Esta é a história de diversas pessoas feridas, na verdade. Uma delas, um personagem central para que tudo aconteça como de fato acaba acontecendo, está ferido e sabe disso. A exemplo do pato, que sabe que está ferido e que deve lutar para se recuperar e tentar voltar a voar e sobreviver. Outros estão ou serão feridos e ainda nem sonham com isso.

Como comentei lá no início, este é um filme contundente sobre como a defesa sob todas as circunstâncias da verdade pode causar muitos estragos na vida de uma ou de mais de uma pessoa. Christian aparece em cena como uma bomba que está próxima a explodir. Aos poucos vamos percebendo isso, assim como vamos sabendo detalhes sobre o passado dele e de sua família. Uma conversa com pontas soltas ao redor de uma fogueira entre Christian e o seu amigo de infância Oliver deixa o perigo mais iminente.

Christian é o animal ferido que sabe que foi atingido de forma mortal. O suicídio da mãe e todo o contexto que o envolveu, algo que ele nunca resolveu realmente, acabou afetando o resto da vida dele. Alcoólatra, ele está jogando as últimas fichas para manter o casamento com Grace (Ivy Mak) quando viaja para acompanhar o próprio casamento do pai – algo que parece incrível, já que ele não tem nenhum afeto/apreço em relação ao pai e muito menos qualquer interesse em ver ele se casando novamente.

Ainda assim, ele vai até a cidade onde cresceu e para a casa onde ele encontrou a mãe morta após se matar para ver Henry correr com os preparativos finais para se casar com Anna (Anna Torv). Ela, a exemplo de Charlotte (Miranda Otto), foi empregada de Henry antes dele começar a ter um caso com elas. E esta é a verdade incômoda que começa a aparecer naquela conversa ao redor da fogueira entre Christian e a família de Oliver.

Não existe amor e sim uma carga pesada de ressentimento e de rancor entre Christian e Henry. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Quando Grace finalmente oficializa o fim do relacionamento com Christian, ele realmente perde o controle e acaba falando para o grande amigo Oliver a verdade que ele desconhecia: Charlotte era amante do pai dele quando a mãe se matou na banheira de casa. Ou seja, ela teria sido a “culpada” pela desgraça familiar – ou ao menos é isso que Christian acredita que aconteceu.

É preciso admitir que Christian dá oportunidade para Charlotte contar a verdade, mas ela não faz isso. Como em quase todas as situações de “vida real”, no qual as pessoas evitam de contar verdades que podem abalar ou acabar com o relacionamento que elas prezam tanto. Mas Christian, aparentemente intoxicado pela sua própria frustração, por não ter conseguido ser feliz no casamento como o amigo Oliver, resolve destroçar a felicidade que ele vê perto de si.

Daí começa a desconstrução da importância e beleza da verdade sob a releitura de Ibsen segundo Stone. (SPOILER – não leia… bem, você já sabe). Christian sabe que a verdade que ele vai contar para Oliver tem grande potencial de destruir o casamento do amigo. Mas ele não se importa com isso. O problema é que todos são “contaminados” com essa certa urgência de sinceridade extrema. É desta forma que Oliver não fica apenas sabendo que a esposa dele teve um caso no passado com Henry, mas também que deste caso surgiu a tão “amada” por ele Hedvig (Odessa Young).

A sinceridade extrema não termina por aí. Christian acaba contando a verdade sobre a paternidade da garota para Hedvig que, por sua vez, ao procurar por Oliver, acaba ouvindo algumas “verdades” cheias de amargura dele. E aí o filme acelera e termina da pior maneira possível. Daí surgem as perguntas: por que Charlotte tinha que falar toda a verdade para Oliver? Se ela tivesse contado apenas a “meia verdade”, nada do que viria na sequência teria acontecido.

Claro que se Oliver não estivesse alcoolizado e descontrolado, se tivesse um pouco mais a cabeça no lugar, ele também não teria protagonizado a cena mais cruel da produção. Sequência definitiva para o derradeiro final da trama. Enfim, como acontece muitas vezes na vida real, nós vemos em The Daughter uma sequência de erros que termina em tragédia. E, como sempre, sem qualquer necessidade.

A parte mais frágil e sensível da história acabou sofrendo mais que todos os outros e, ao se desesperar, cometendo o pior ato que poderia ter cometido. Claro que achei o final chocante e que não gostei dele. Por isso mesmo, como comento abaixo, acho que este filme tem sim que ser visto mas com reticências.

The Daughter deve ser acompanhado de debates e de reflexões. Não apenas o drama visto em cena poderia ter sido resolvido de outra forma – com Oliver aceitando a verdade com mais equilíbrio e tendo em mente que a filha era dele de qualquer maneira -, como o final poderia ter sido outro.

Hedvig também poderia ter tido outra atitude, ainda que o contexto dela explica muita coisa – ela perdeu o namorado, Adam (Wilson Moore) e vários amigos da escola porque os pais deles se mudaram de cidade atrás de emprego, ao mesmo tempo que teve a “iniciação amorosa” frustrada de forma repetida. Este cenário prévio de ruptura e de rejeição atinge o auge com a atitude de Oliver. Sabemos que muitos adolescentes hoje estão enfrentando os seus dramas pessoais tirando a própria vida, então é preciso debater o assunto e mostrar que os problemas tem fim, mas que a vida deve sempre continuar.

Enfim, achei este filme muito atual e bem construído. A narrativa é crescente e rejuvenesce os temas levantados por Ibsen com muita sabedoria. Acho que a verdade é sempre bem-vinda, desde que ela seja tratada com o devido cuidado. Se o “culpado” conta a verdade na hora certa e, principalmente, da forma correta, este pode ser o melhor caminho. Mas há também “verdades” que não precisam ser conhecidas, porque não tem maior significado do que apenas o seu potencial destruidor.

Concordo com Ibsen de que a verdade deve ser tratada com muito cuidado. Quando isso não é feito, o resultado pode ser trágico. Aprendi, depois de muito tempo, que entre fazer o que é certo e fazer o que é bom, sempre devemos preferir a segunda fórmula. Nem sempre o que é certo também é bom, e o nosso objetivo deve ser procurar sempre o bem, mesmo que ele não seja exatamente sempre “correto”. Claro que esta fórmula vale quando não fazemos mal para os outros, que este deve ser sempre o nosso limite. Enfim, The Daughter levanta discussões longas e importantes. Apenas por isso, ele vale ser visto.

NOTA: 8,8.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Minha gente, que elenco é esse? Fiquei impressionada com os nomes envolvidos em The Daughter. É um realmente deleite ver a vários nomes conhecidos nesta produção, como Geoffrey Rush, Sam Neill (que interpreta o pai de Oliver, o ex-presidiário Walter), Paul Schneider, Anna Torv (saudade dela de Fringe) e Miranda Otto. Todos estão muito bem no filme. Mas, além deles, vale destacar os excelentes Ewen Leslie e Odessa Young. Eles dão um show em seus respectivos papéis. A discussão final entre pai e filha é de cortar o coração. Um dos grandes momentos deste duro filme.

Nos créditos finais de The Daughter, vi que esta produção era inspirada na peça The Wild Duck (O Pato Selvagem) do famoso Henrik Ibsen. Como o final de The Daughter deixa certa “dúvida” no ar, fui obrigada a procurar o original para tirar esta dúvida. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Depois de dar um tiro em seu próprio peito, Hedvig chega com vida no hospital. A última cena do filme sugere, mas não deixa totalmente claro, que ela morreu. Pois bem, segundo Ibsen não há dúvida alguma sobre isso. Hedvig dá um tiro em seu próprio coração e morre no ato. Então, como sugere a Hedvig do filme, que parece não estar respirando, a garota realmente morreu após aquela “avalanche de verdades”.

The Wild Duck foi escrita e publicada em 1884 e estreou no teatro no ano seguinte. Para muitos críticos, esta é a obra mais emblemática de Ibsen. Claro que ela já foi encenada e interpretada milhares de vezes depois de 1885, mas achei impressionante como Simon Stone conseguiu fazer uma versão muito atual da história. Muitos elementos que vemos em cena, desde o desemprego causado por Henry, os problemas familiares de Christian, o “machismo” de Oliver e do contexto em que ele vive e a dificuldade de Hedvig e de outros adolescentes de lidarem com os seus medos e frustrações, são muito, muito atuais.

Além do roteiro, muito bem escrito, o grande destaque do filme é o elenco envolvido no projeto. Além destes elementos, Stone faz um bom trabalho ao valorizar o trabalho dos atores e ao mostrar bem o contexto social um tanto “agreste” e sem muitas oportunidades em que eles vivem.

Da parte técnica do filme, gostei da direção de fotografia de Andrew Commis e da trilha de sonora que amplia o teor dramático da produção e que é assinada por Mark Bradshaw. Vale também comentar a edição de Veronika Jenet; o design de produção de Steven Jones-Evans; a direção de arte de Maxine Dennett; a decoração de set de Sara Mathers; e os figurinos de Margot Wilson.

The Daughter foi rodado em 2014 e estreou no Festival de Cinema de Sydney em junho de 2015. Independente, o filme passou por outros festivais naquele ano e em 2016, estreando em alguns mercados, como o do Brasil, apenas agora, em 2017.

Esta produção foi totalmente rodada na cidade australiana de Sydney.

The Daughter marca a estreia do jovem ator Simon Stone na direção de um longa. Antes, ele tinha dirigido um segmento do filme The Turning, de 2013. The Daughter também foi o primeiro filme com roteiro dele. Vale acompanhar Stone para ver se ele segue com esta boa levada.

Antes de escrever o roteiro e filmar The Daughter, Stone dirigiu uma versão para o teatro de The Wild Duck. Nesta produção para o teatro, o ator Ewen Leslie interpreta ao personagem Hjalmar, no qual o personagem Oliver do filme é baseado.

Hedvig é o único personagem entre o grupo principal que tem o mesmo nome em The Daughter e no original que inspirou o filme, The Wild Duck. O nome de Peterson também permanece o mesmo, ainda que ele teve uma pequena mudança ortográfica.

The Daughter é um filme 100% australiano.

Esta produção ganhou seis prêmios e foi indicada a outros 18. Entre os prêmios que recebeu, destaque para os de Melhor Atriz para Odessa Young, Melhor Atriz Coadjuvante para Miranda Otto e de Melhor Roteiro Adaptado para Simon Stone no “Oscar australiano” conferido pela Academia de Artes do Cinema e da Televisão Australiana; e para os de Melhor Atriz para Odessa Young, Melhor Ator Coadjuvante para Sam Neill e de Melhor Roteiro para Simon Stone no prêmio da Associação de Críticos de Cinema Australiano.

Os usuários do site IMDb deram a nota 6,7 para The Daughter, enquanto que os críticos que tem os seus textos publicados no Rotten Tomatoes dedicaram 42 críticas positivas e 13 negativas para a produção, o que lhe garante uma aprovação de 76% e uma nota média de 6,8. Não há informações sobre o resultado nas bilheterias do filme, e nem mesmo sobre o custo de produção dele.

CONCLUSÃO: Um filme que começa com dois tiros e que termina com outro disparo não pode carregar muita paz em seu interior. The Daughter é um filme bem construído, um tanto teatral e que, na reta final, fica um pouco melodramático. Mas a intensidade tem uma propósito, e ele é muito interessante. Claramente esta produção questiona a convicção de quem defende a verdade sobre qualquer outra variável. Ainda que ela seja bem-vinda, é preciso cuidar com ela.

Uma produção com boa narrativa, grandes atores e uma mensagem contundente no final. Só não gostei, para ser franca, do desfecho um tanto “exagerado”, ainda que eu entenda a razão dele existir desta forma. Um bom filme, mas um tanto perigoso. Em muitas situações, é bom vê-lo com um certo apoio, assistência ou discussão, especialmente se ele for apresentado para o público jovem.