Die Fremde – When We Leave – Quando Partimos

Algumas vezes, ser mulher é uma desgraça. Literalmente. Die Fremde, representante da Alemanha na corrida para o Oscar 2011 de Melhor Filme Estrangeiro, explora bem este conceito. Com uma história pesada e dramática, o filme com direção e roteiro da austríaca Feo Aladag trata também de família, cultura, religião, etnia e a busca por uma independência sofrida. Envolvente e ao mesmo tempo arrastado, Die Fremde procura o equilíbrio constante entre o perigo e a esperança, mas acaba cansando um pouco por um desenrolar lento demais. Ainda assim, é forte e abre um leque de temas para discussão. Bom filme, mas abaixo de outros originados na Alemanha nos últimos anos.

A HISTÓRIA: Dois adultos e um menino caminham por uma rua sem trocarem palavras. De repente, o rapaz para e aponta a arma para a mulher, que vira de frente para ele. Corta. O mesmo rapaz corre desesperadamente e entra em um ônibus. Suando muito e tentando recuperar o fôlego, algo lhe chama a atenção fora do ônibus. Ele fica perplexo, mas não sabemos o que ele vê. Corta. A mulher, Umay (Sibel Kekilli) aparece deitada, prestes a fazer um aborto. Ela volta para casa, e enfrenta a Kemal (Ufuk Bayraktar) um marido bruto e ríspido com o filho, Cem (Nizam Schiller). Farta da vida que leva junto ao marido e sua família, Umay decide viajar até a Alemanha, para buscar abrigo na casa dos pais, mas terá que enfrentar uma série de problemas, preconceitos e violência em sua busca por liberdade.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Die Fremde): Produções que tratam de religião sempre rendem polêmica. Historicamente, neste blog, se pode perceber isso. E na vida prática também. São poucos os que sabem falar sobre as suas próprias religiões sem ferirem aos ânimos dos demais. Como no futebol, os ânimos normalmente se exaltam. E isso deve ocorrer com este filme alemão – e a respeito da minha crítica sobre ele.

Difícil para um ocidental entender Die Fremde em sua plenitude. Mas é possível fazer um esforço. Francamente, no início, eu apenas enxerguei uma sequência de brutalidade, violência – não apenas física, mas especialmente moral – e absurdos. Depois, procurando saber um pouco mais sobre os preceitos do islamismo, passei a entender um pouco mais que tratamos, aqui, de uma mudança total de olhar. A verdade é que este filme exige pelo menos dois momentos: aquele vivido enquanto a história se desenrola e, depois, a salutar pesquisa sobre a realidade que está sendo mostrada pela produção.

Inicialmente, eu tinha gostado de forma relativa do filme. Achei a condução da diretora e roteirista Feo Aladag um pouco lenta demais. Certo que um filme sensível não precisa e nem deve ser “acelerado”. Mas há uma grande diferença entre ser “contemplativo”, atencioso nos detalhes, e arrastado. Infelizmente Die Fremde se perde, em alguns momentos, ao optar por uma levada que procura ser “contemplativa” e se revela, apenas, arrastada e sem inspiração. Mas descontados estes momentos, o filme tem um apelo bastante forte. Recheado de situações que podem provocar indignação e crítica.

A direção de Aladag é atenta. Explora os sentimentos da protagonista em seus silêncios, choros, desabafos de desespero e na procura incansável por aliar liberdade com o aconchego de uma família apegada às tradições de sua religião e comunidade. A câmera está sempre próxima de Umay e dos demais personagens. Mas, estrategicamente, também se distancia nos momentos exatos para mostrar as paisagens e as particulariedades de Istambul, na Turquia, e de Berlim, na Alemanha, as duas cidades em que esta história se desenvolve. Uma aliada fundamental para a diretora, neste sentido, é a diretora de fotografia Judith Kaufmann, que faz um belo trabalho.

A forma de narrar esta história é semi-clássica. Ou, em outras palavras, segue uma lógica bastante conhecida dos espectadores. Die Fremde começa pelo final, estrategicamente “segmentado”. Depois, retrocede no tempo para revelar como aqueles personagens chegaram até aquela situação antes de revelá-la por completo. O drama também segue uma linha clássica: mulher infeliz com um filho que adora decide deixar a casa na qual se sente mal tratada. Sem amor, ela resolve quebrar paradigmas, tradições, e buscar uma vida diferente. Qualquer garota jovem, como Umay, procuraria a família e teria, exceto em casos excepcionais, o apoio dos pais para recomeçar a vida.

Isso no mundo ocidental. Mas quando falamos de tradições do mundo islâmico, as coisas mudam de figura. A história então segue mostrando os dramas da protagonista, as suas tentativas para recomeçar a vida e, com a violência que segue encontrando pelo caminho, as escolhas criativas que ela adota para sobreviver. Die Fremde não alivia. Como eu disse no início deste texto, ser mulher, segundo o filme, naquela situação, é uma verdadeira desgraça. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Umay é maltratada de todas as formas e por quase todas as pessoas. Pelo menos de seu “entorno natural”, ou seja, sua família e pessoas da mesma cultura. O único apoio que ela recebe é de “ocidentais” – de Atife (Alwara Höfels), uma amiga que ela tinha da época de estudante e Stipe (Florian Lukas), que trabalha no restaurante da amiga e onde Umay começa a trabalhar.

Assistindo ao filme, me incomodou um pouco a condução previsível da história, a simplificação do problema e, especialmente, os trechos um pouco “arrastados” da produção. Mas, mais que isso, me irritaram algumas atitudes da protagonista. (SPOILER – não leia… bem, você já sabe). Ela tomou decisões corajosas e seguiu uma linha coerente em muitos momentos mas, ao mesmo tempo, sucumbiu em erros que, para mim, sempre são difíceis de entender. Por exemplo: Umay conseguiu deixar para trás o marido, seus familiares e a Turquia. Se lançou de volta para a Alemanha. Enfrentou o preconceito de seu “povo” e a resistência da própria família. Teve coragem, ao perceber que Cem poderia ser tirado dela, em buscar a polícia para ter segurança. E depois? Ignorou as recomendações básicas que recebeu e insistiu em manter um contato com seus pais.

Honestamente, não entendi isso. Tanta coragem por um lado e tanta “inocência” por outro. Em um momento chave do filme, a personagem de Gül (Nursel Köse), que contrata a protagonista em um restaurante, dá o veredicto óbvio da história: os pais de Umay jamais irão optar pela filha. Se tiverem que escolher entre ela e a comunidade islâmica, sem dúvida eles escolherão a segunda. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). E claro que é isso que acontece. Mas a protagonista, ao insistir em manter-se próxima dos pais, acaba arrastando o espectador em um infindável caminho de humilhações. De verdade? Chega a dar raiva. Se ela fosse realmente corajosa, daria as costas para a família e buscaria uma vida nova em outra parte, em outra cidade, longe das violências e humilhações. Especialmente porque ela não estava sozinha. Arrastava o filho em toda essa desgraceira.

Por todas estas razões, eu iria dar uma nota 8,8 para Die Fremde. Levando em conta que é um filme bem acabado, tecnicamente, que tem uma fotografia legal e uma protagonista inspirada. Em 80% do tempo, também gostei da direção de Aladag, sempre focada nas interpretações e nas paisagens e dinâmicas dos lugares. Mas me incomodava o roteiro e uma certa simplificação dos problemas envolvendo a mulher no cenário da cultura islâmica. Isso até que eu fiz o segundo movimento necessário a respeito deste filme, que é o de buscar mais informações a respeito. Ao fazer isso, Die Fremde caiu ainda mais no meu conceito.

Não farei aqui juízos de valor sobre a religião muçulmana. Até porque eu acho que nós, ocidentais, já fizemos isso demais. Não quero relativizar também dizendo que tudo vale porque é preciso respeitar as diferenças e as particulariedades de cada cultura. Não. Honestamente não acho que a violência se justifique, sob a bandeira, religião, cultura ou moeda que seja. Mas é fato que precisamos fazer um exercício complicado de esquecermos, por alguns momentos, das bases da cultura ocidental e tentar compreender as bases da cultura islâmica. Fiz isso e, a partir daí, entendi um pouco mais o que significou o movimento da protagonista deste filme. E o quanto ele simplificou a história ao ponto de torná-la facilmente “digerida” por ocidentais – e injusta com o “outro lado”.

Encontrei algumas respostas sobre como a mulher é vista pelo Islã neste site. Recomendo, em especial, este texto, que fala sobre o papel da mulher naquela cultura/religião. Há um texto inteiro apenas sobre o casamento e o divórcio. Ainda que os textos falem sobre a importância da mulher, o último deixa claro que, no caso do divórcio, homens e mulheres não tem direitos iguais. O material também deixa claro que o divórcio deve ser evitado de todas as maneiras. Lendo mais a respeito, é possível entender a postura de Halyme (Derya Alabora) e Kader (Settar Tanriogen), os pais de Umay. Os atores que os interpretam, aliás, são magníficos.

Halyme e Kader seguem os preceitos de sua religião e evitam, ao máximo, por todos os meios, que a filha se divorcie do marido. Pressionam, ameaçam, desprezam, usam todos os recursos conhecidos para pressionar Umay. O irmão mais velho dela, Mehmet (Tamer Yigit), que segue os passos do patriarca da família, assume a postura de “guardião da honra” dos pais. Apenas os irmãos mais novos, Acar (Serhad Can) e Rana (Almila Bagriacik) se mostram um pouco mais “abertos” à revolução cultural proposta por Umay.

O capítulo dos jovens, aliás, merece uma reflexão à parte. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Eles resumem a postura da juventude da maioria das culturas. Ou seja: estão mais abertos à novas ideias e a mudanças. Mas acabam, também, cedendo conforme a pressão do grupo. Quando Acar é colocado contra a parede, ele acaba agindo conforme o ordenado – até o final, pelo menos. Rana igualmente. Se mostra aberta a apoiar a irmã enquanto a decisão dela não lhe afeta. Quando isto ocorre, ela pensa em si – e volta a conclamar as tradições a seu favor. O filme deixa claro, a todo momento, que a mulher não tem poder de decisão. Tanto que, quando Gül visita os pais de Umay, ela visivelmente faz apelos com o olhar para a mãe da protagonista. Mas não consegue a resposta pretendida. Não há espaço para revoluções aqui, segundo a diretora.

A questão é que existem muitas mulheres muçulmanas e da religião islâmica que, como Umay, não concordaram com aquele “estado de coisas”, se rebelaram e conseguiram ter uma vida independente. Claro que, para isso, elas abriram mão do convívio com suas próprias famílias e comunidade. Tornaram-se “exiladas” de uma vida anterior. São escolhas. O que me incomoda em Die Fremde é que o filme não mostra escolhas, apenas um espiral de humilhações e violência sem fim. Nem sempre a agressão é física – ainda que cada tapa e empurrão mostrado pareça doer em escala multiplicada. Muitas vezes é psicológica. Mas não importa. A violência está presente quase o tempo todo – com poucos hiatos de “paz e felicidade”.

Agora, admito que lendo mais sobre a forma de enxergar o mundo dos muçulmanos, entendi também a atitude de Umay. Ela queria romper com aquela realidade infeliz que tinha no casamento – e é importante observar que a doutrina islâmica não concorda com o tipo de atitude de Kemal. Mas não queria abandonar inteiramente a sua vida. Ela continuava acreditando no que o Islã dizia, a ponto de prezar tanto o convívio com o pai – algo muito forte entre os muçulmanos. O cartaz do filme, aliás, representa bastante isso. O apreço dos filhos aos pais – homens – e uma certa “submissão” da mulher neste contexto. Claro que a leitura depende muito do filtro – o nosso, de ocidentais, será o da “submissão”, enquanto o dos muçulmanos, certamente, será outro, como o do respeito e do zelo. De qualquer forma, é importante ponderar que a mesma violência vista no filme poderia ser protagonizada por famílias alemãs, brasileiras, da nacionalidade – e com a religião – que fosse.

Importante ponderar, também, que há muitas mulheres felizes e realizadas seguindo os preceitos do Islã. Nem todas tem maridos rudes e imbecis sob o mesmo teto. Muitas se realizam como mulheres e mães entendendo a sociedade de maneira diferenciada a que nós, ocidentais, estamos acostumados. E isso deve ser respeitado, conhecido e observado. Compreendido. Die Fremde, infelizmente, não contribui praticamente em nada neste sentido. Mostra apenas uma parte da realidade e, assim, corre o sério risco de inflar ainda mais os ânimos e os preconceitos a respeito do pensamento e da vida islâmica.

NOTA: 8,5.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Os espectadores mais atentos devem reconhecer a protagonista deste filme. A atriz Sibel Kekilli, bárbara, para resumir em uma palavra, é também a intérprete principal do premiado Gegen die Wand, um dos filmes mais conhecidos do brilhante diretor Fatih Akin. Aos 30 anos, Kekilli é uma das grandes novas intérpretes do cinema alemão. Ela tem no currículo, até o momento, sete prêmios e duas indicações, sendo cinco dos prêmios por seu trabalho em Gegen die Wand e um por seu desempenho em Eve Dönüs.

Curiosos os títulos que este filme tem recebido. O original, Die Fremde, pode ser traduzido como “A Estrangeira”. Na Turquia, a produção recebeu o título de Ayrilik, que significa “Separação”. E em inglês, para o mercado mundial, o de When We Leave, que pode ser traduzido para “Quando Partimos”. Versões bem diferentes mas que, ao assistir ao filme, fazem sentido. Realmente Umay pode ser vista como uma “estrangeira” permanente – sempre deslocada de seu espaço. Nunca “em casa” verdadeiramente. O título em turco é óbvio. E o em inglês revela uma das facetas da história, a da ruptura com a Turquia e a escolha pelo “retorno” para a Alemanha.

Die Fremde estreou no Festival de Berlim em fevereiro deste ano. Depois, o filme passou por outros sete festivais, incluindo o de São Paulo. Neste trajeto, venceu o prêmio Label Europa Cinemas do Festival de Berlim e foi indicado ainda a outros seis prêmios do German Film Awards, entregue pela Academia de Cinema da Alemanha. Venceu em uma categoria: a de Melhor Atriz, para Sibel Kekilli por seu papel como Umay.

Na parte técnica, além da direção de fotografia já citada, merece destaque a trilha sonora de Stéphane Moucha e Max Richter. A música orquestrada por eles acaba sendo fundamental para a condução sentimental da história.

Todos os atores envolvidos na produção estão muito bem em seus respectivos papéis. Sem dúvida uma conquista da diretora, ela mesma uma experiente atriz – com 30 filmes, produções para a TV e curtas no currículo. Mas ainda que todos estejam bem, do menino Nizam Schiller até o “inseguro” Serhad Can, merecem aplausos, em especial, os atores que interpretam os pais da protagonista e Nursel Köse, que hipnotiza em cada cena que aparece. E o que falar de Sibel Kekilli? Ela vale o filme, sem dúvida, em uma interpretação angustiante, determinada e inspirada. Apenas por ela, eu daria uma nota melhor para Die Fremde. Mas o roteiro e sua “ligeireza” de propósitos me impedem de olhar de maneira mais generosa para a produção – apesar da atriz fantástica e dos demais atores. Entre os “coadjuvantes”, destaque para os rostos conhecidos de Köse, Alwara Höfels e Florian Lukas – os três bastante presentes no cinema recente da Alemanha.

Os usuários do site IMDb deram a nota 7,8 para Die Fremde. Uma avaliação bastante positiva, levando em conta a média exigente do site. O Rotten Tomatoes, por sua vez, não abriga nenhuma crítica para o filme. O que demonstra um certo desconhecimento da crítica internacional para a produção – premiada, até o momento, apenas na Alemanha. Estas são características que influem para a escolha do filme e suas chances no próximo Oscar.

Uma curiosidade sobre esta produção: a diretora e roteirista Feo Aladag escreveu Die Fremde depois de participar da campanha Violência contra a Mulher da Anistia Internacional. Sensibilizada por histórias de violência contra mulheres, ela sentiu que deveria escrever um filme que denunciasse uma situação destas. A intenção dela foi boa, mas só achei perigoso o grupo que ela escolheu para falar sobre o tema. Afinal, devemos sempre ser críticos para não reforçar preconceitos e alimentar, ainda mais, ódios e fomentar represálias contra alguns grupos, etnias e religiões. Acho que faltou um pouco de autocrítica para Aladag neste sentido.

Farei um comentário, aqui, sobre o final do filme, no caso de alguém ter ficado em dúvida sobre o desfecho. (SPOILER – não leia se você não assistiu a Die Fremde). Martirizado e sem encontrar saídas para o “drama” familiar provocado por Umay, o pai da garota, Kader, vai buscar a orientação de um Imam – líder espiritual, o guia no contexto islâmico. Depois da consulta, ele percebe que a “única” saída para encerrar o drama familiar é matar a filha. Como ela não cede e não entrega o filho para o marido, Kader decide que ela terá que “pagar” com a própria vida. Assim, eles teriam a honra de volta. Claro que é um absurdo e ninguém, mesmo tentando olhar pela ótica islâmica, pode concordar com um crime para “lavar a honra”. Típicos gestos que deveriam fazer parte de um passado de ignorância.

Lendo mais sobre a forma que o Islã trata a questão do casamento (existe um bom texto aqui sobre as relações islâmicas), posso citar que eles pensam o seguinte sobre a forma com que o marido deve tratar a esposa: “O muçulmano deve buscar estabelecer um relacionamento justo, carinhoso, respeitoso e humano para com sua esposa, isento de opressão ou abuso de suas prerrogativas”. Claro está, pois, que o personagem do filme, Kemal, não cumpre o seu papel como esposo. Poderia ser realmente questionado e até alvo de uma tentativa de separação, ainda que o divórcio seja quase impossível dentro da realidade muçulmana – especialmente quando solicitado pela mulher.

Aliás, fica claro no filme – e nisso ele acerta – que a realidade da protagonista seria outra, completamente, se ela tivesse nascido homem. Porque daí sim ela poderia se separar e tudo o mais, mesmo que sofrendo algumas represálias. Mas como mulher… impossível. Tanto que no texto que eu citei sobre os costumes, eles deixam claro: “o homem detém o direito a formulação do divórcio”. Em seguida, o texto ainda comenta que o Islã desaprova e desaconselha o divórcio. Segundo as regras previstas, Kemal falhou tanto por não cumprir os deveres como marido, negando para a protagonista a “retenção honrosa”, como também foi contra o que diz o Islã ao não permitir-lhe uma “libertação honrosa”. A família de Umay poderia ter seguido os preceitos do Islã e ter ficado ao lado dela, sem abandonar a própria religião e cultura, mas preferiram o caminho mais “fácil”, que prevê o repúdio as ideias da mulher.

Die Fremde é uma co-produção da Alemanha e da Turquia.

CONCLUSÃO: A história de uma mulher em busca de liberdade, respeito e dignidade. Die Fremde, filme alemão com dois prêmios no currículo, explora a trajetória de violência e humilhações de uma muçulmana que tenta romper com algumas regras de sua cultura. Com uma direção focada nos intérpretes e na exposição de detalhes de vida de duas culturas diferentes – a da Turquia e a da Alemanha -, este filme peca pelo roteiro. Primeiro, porque ele não propicia o ritmo adequado para a história. Depois, porque ele simplifica as questões e expõe apenas uma faceta da cultura islâmica. Falta um pouco de equilíbrio e, talvez, bom senso para a roteirista e diretora, Feo Aladag. De qualquer forma, ela tem boas intenções em narrar uma história de denúncia sobre a exploração da mulher. Com uma bela fotografia, uma trilha sonora inspirada e uma protagonista perfeita, é um filme com vários momentos contemplativos e de silêncio que deve ser assistido com a tecla da ponderação acionada. Visto apenas com os filtros da cultura ocidental, Die Fremde pode provocar uma revolta inadequada. Mas a produção pode servir, especialmente, para o debate e para a busca de mais informações a respeito da outra cultura. Se visto desta forma, vale a pena.

PALPITE PARA O OSCAR 2011: Diferente da premiação deste ano, não vejo a Alemanha como uma das favoritas para o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro de 2011. Die Fremde sai na frente de outras produções inscritas para a premiação porque recebeu, até o momento, dois prêmios. Inclusive um deles para a protagonista da produção. Ainda assim, não acho que ele tem a força do anterior Das Weisse Band – que, inclusive, era superior a este filme de Aladag. Ainda não assisti aos demais concorrentes, mas acho que o nível deste ano tem que estar muito baixo para Die Fremde chegar entre os cinco finalistas. Conta para isso o fato dele ter sido pouco comentado pela crítica internacional – bem diferente do antecessor, Das Weisse Band. Minha previsão é de que ele fique de fora da lista final. Comparado com o representante da Argentina, ele não tem chances.

Carancho – Abutres

Muitos temas unem brasileiros e argentinos. E não falo de futebol. Vizinhos, colonizados, com uma história que envolve ditaduras militares, épocas de “euforia” e queda econômica, entre tantos outros fatores, a verdade é que compartilhamos de mais semelhanças do que gostaríamos algumas vezes de admitir. Contamos também com alguns grandes filmes em nossas histórias ainda que, a cada ano que passe, fica mais evidente que o cinema brasileiro está ficando para trás. Cada vez mais. Carancho, filme que representa a Argentina no próximo Oscar, torna isto ainda mais evidente. E também mostra como há sempre espaço para a criatividade e a inovação no cinema. O diretor Pablo Trapero, ao lado de outros três roteiristas, mostra como um tema “corriqueiro” e tratado com certo descaso pelas pessoas pode render uma grande, impactante e envolvente história. O grande cinema argentino, mais uma vez, mostra as suas armas – e torço, desde já, para que este filme esteja entre os cinco finalistas ao prêmio de Hollywood.

A HISTÓRIA: Fotos em preto e branco de um acidente. Pequenos pedaços de uma tragédia. Cinco linhas de texto revelam o tamanho do problema dos acidentes de trânsito na Argentina. Por ano, 8 mil pessoas morrem, em média, no país devido a este tipo de ocorrência. No final do texto, comenta-se que esta realidade sustenta no país um negócio milionário de indenizações. Um homem leva uma surra de outro dois. Corta. Uma pessoa aplica uma injeção em um pé. Esta pessoa é Luján (Martina Gusman), uma médica que dobra os horários de trabalho em um hospital e no socorro de emergências. Lentamente, o homem ferido se levanta. Ele vai até um carro e sai dirigindo. Pouco depois, Luján encontra ele na cena de um acidente. Neste momento, ela conhece a Sosa (Ricardo Darín), um advogado que trabalha representando vítimas e familiares de vítimas de acidentes de trânsito.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à  seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Carancho): O ritmo certo, os melhores atores, um roteiro envolvente, o cuidado de destacar o essencial de forma diferenciada e, para arrematar, uma história que pode ser entendida por diferentes camadas. Este é o grande cinema visto em Carancho. Mais uma vez, termino de assistir a um filme argentino e me pergunto: como eles são tão bons?

Parece quase uma senha. Quando Ricardo Darín está em uma produção, isto é praticamente sinônimo de um grande filme. Não gostei muito – e quem acompanha o blog sabe disto – de El Secreto de Sus Ojos (comentado aqui) ter ganho o último Oscar de Melhor Filme Estrangeiro. Não porque o filme não seja bom. Mas porque eu acho que outros concorrentes da última edição do prêmio são melhores que o filme que acabou sendo premiado. Mas enfim, sempre é merecido premiar ao cinema dos nossos vizinhos. Porque eles realmente tem uma produção de filmes admirável. Acho improvável que Carancho consiga abocanhar outro prêmio, assim seguido. Também admito que ainda não assisti a nenhum dos outros concorrentes. Mas, como falei antes, torço para que ele esteja entre os finalistas.

Bato palmas para todo filme que demonstra que a criatividade é uma qualidade infinita. Não importa o quanto falamos de amor, morte, traições, disputas e um longo etcétera desde o início dos tempos. O quanto os temas se repetem desde os primeiros e grandes clássicos da literatura e do teatro. Há sempre algo novo para falar, um olhar diferenciado sobre o óbvio. Carancho faz isso. Pega um tema “corriqueiro” nas páginas de qualquer jornal de qualquer país, como é o extermínio de pessoas no trânsito das grandes urbes, e o transforma em uma trama deliciosa.

Nesta produção há romance, intriga, uma levada policial, crimes e uma boa dose de realidade inquietante. O cinema argentino não tem medo de tocar em feridas. Diferente do nosso que, na maioria das vezes, prefere concentrar-se apenas em histórias “edificantes”. Aqui a violência do trânsito é desbravada em duas frentes: a da médica socorrista e a do advogado “carancho”. Aliás, este é um bom momento para comentar sobre o título do filme – que é, também, o “apelido” do protagonista. Carancho é uma ave de rapina comum na Argentina. Ela se alimenta de animais mortos – uma interessante alusão ao que Sosa faz – insetos e répteis. Por ser uma espécie de gavião, o carancho é ao mesmo tempo visto como um símbolo de força, de caça, como de bicho solitário e “aproveitador”. Aqui algumas informações, em espanhol, sobre o termo.

Desde o princípio, o roteiro de Trapero, Alejandro Fadel, Martín Mauregui e Santiago Mitre deixa claro que haverá um romance entre Sosa e Luján. Sem forçar a barra, os quatro roteiristas nos poupam tempo e “expectativa”. Afinal, Carancho não tem muito tempo a perder com rodeios. Com precisão cirúrgica a história vai, pouco a pouco, mergulhando no cotidiano complicado de cada um dos protagonistas. Os dois, cada um a sua maneira, parecem ser prisioneiros de uma realidade para a qual eles não encontram muita saída. E esta realidade é dura, injusta e se torna, cada vez mais, cruel.

O tema dos acidentes ganha uma complexidade social muito maior. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Por um lado, vemos aos socorristas e médicos do sistema de saúde sendo explorados por cargas de trabalho absurdas. Por outro lado, somos apresentados a uma máfia de advogados que vive da exploração de pessoas desinformadas e fragilizadas pela perda de parentes ou por serem vítimas, elas próprias, da violência do trânsito. Carancho não alivia na crítica a estas duas formas de exploração e coloca os dedos todos nas feridas. Denuncia, ao mesmo tempo em que não faz discursos. Produz e apresenta, isso sim, um roteiro envolvente e uma direção que consegue transformar grandes ideias em imagens precisas.

Não há sobras neste filme. E nem falta nada para a história. Pablo Trapero tem o cuidado de buscar o ângulo certo para cada cena. Focando o trabalho exemplar dos atores, ele também tem o cuidado de explorar o entorno, revelando a crueza da cidade, de suas ruas; uma certa “falta de esperança” nos hospitais e nas salas dos advogados e repartições públicas. A direção de fotografia de Julián Apezteguia, que utiliza lentes para tornar ainda mais evidentes as cores duras e cruas da realidade, tem um grande papel neste belo desempenho do diretor. Filmado grande parte de noite, Carancho evidencia os contraste das cores de emergência, especialmente, com o escuro de uma permanente sensação de “falta de esperança”.

(SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Como em outras produções, Carancho segue uma ladeira abaixo que deixa o espectador com a permanente sensação de que o pior ainda está por vir. E realmente está. Como em outros filmes, também, nesta produção há pequenos momentos de “paz e deleite”. Mas o espectador com um pouco de experiência sabe que isto não deve durar muito. E os roteiristas, por sua vez, sabem que este tipo de “armadilha” prende a atenção e faz com que as pessoas torçam pelos protagonistas. Ainda que – e especialmente se – eles não sejam santos. Luján é uma drogada – encontrou nas agulhas uma forma de ter alívio em uma rotina de exploração absurda. Sosa é um aproveitador que usa como muleta o fato de ter perdido a licença para trabalhar por conta própria como advogado. E ainda assim, por serem tão explorados e vítimas, torcemos por eles.

Mesmo com um roteiro brilhante, uma dupla de protagonistas de primeira grandeza e tantos outros acertos técnicos, Carancho tem um ou dois problemas. (SPOILER – não leia… bem, você já sabe). Primeiro, ele não explica alguns detalhes que seriam importantes para a história. Como a razão que fez Sosa perder a sua licença para trabalhar como advogado. Depois, comete um ou dois deslizes de continuidade. Como na cena em que Sosa é golpeado por Casal. O chefe do protagonista não chega nem perto de golpeá-lo na cabeça com a garrafa – e, ainda assim, Sosa aparece com um corte profundo depois. Mas francamente? Nenhum destes pequenos “pecados” faz a história perder a força, o ritmo ou as diferentes camadas de leitura.

Sem artifícios, Carancho não evita o drama e nem a crítica. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Expõe as dores de quem perdeu ou continua perdendo com a violência no trânsito. Revela os abusos de poder e a forma com que a cobiça pelo dinheiro levam para longe da virtude hospitais e “fundações” que acabam burlando a lei para conseguir mais dinheiro dos seguros. E o melhor de tudo é que Carancho explora a antiga história de “redenção” de maneira diferenciada, fazendo com que o espectador torça pelos protagonistas porque eles estão, mais que nada, tentando libertar-se de uma realidade pela qual eles não exatamente escolheram. Existe uma diferença gigante entre escolher uma profissão e se tornar prisioneiro de práticas infames de conduta para sobreviver. Além disso, existe a história de amor. A velha promessa deste sentimento como saída para pessoas perdidas. Por tudo isso, Carancho é este grande filme.

NOTA: 10.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Saudade de assistir a um filme que me convencesse do início até o final. E não porque ele trate de assuntos novos. Mas porque tem o respeito de tornar velhos temas como atrativos. Depois de uma sequência de filmes que repetiram velhos padrões e ideias, nada como encontrar uma bela produção argentina com seus ventos inovadores.

O ritmo de Carancho é acelerado. E toda a aura que lhe acompanha casa bem com esta “jovialidade”. Uma prova disto é a trilha sonora, sempre no último volume. Algumas vezes, inclusive, a música e o som ambiente acabam dificultando para entender as falas dos personagens. Pequenos “erros” que não tiram o brilho da produção.

Gostaria, aliás, de saber de quem é a trilha sonora do filme. Assim como conseguir identificar os atores com seus respectivos personagens. Mas, infelizmente, nem o site oficial de Carancho e nem a “bíblia” do IMDb trazem estas informações.

De qualquer forma, vale comentar o trabalho dos atores. Além de Ricardo Darín, que está incrível – só para não variar – e demonstra, mais uma vez, que é um “monstro” como intérprete, um dos grandes nomes do cinema argentino e, quem sabe, do mundo, vale tirar o chapéu para Martina Gusman. A atriz faz um par perfeito com Darín. Cada olhar que eles trocam, cada momento em que ela está sozinha e com dor, sono, apreensão, valem o filme. Ouvi falar muito bem de Leonera, filme protagonizado por ela e dirigido, também, por Trapero. Mas ainda não o assisti. Agora, fiquei ainda mais curiosa. Porque a atriz é grande, e está fantástica e precisa em Carancho.

Infelizmente não consigo linkar cada ator com cada personagem, mas devo dizer que a equipe inteira de Carancho faz um belo trabalho. Destaco, em especial, aos intérpretes de Casal, Rinaldi, Pico e o vendedor dos carros de ferro-velho para o protagonista. Consegui identificar alguns pelos créditos finais do filme: Carlos Weber interpreta Pico; José Luis Arias a Casal; e Roberto Maciel a Rinaldi.

Merece uma menção a parte também o belo trabalho de edição feito pelo diretor ao lado de Ezequiel Borovinsky. Sem dúvida os dois conseguem o ritmo exato para a produção e escolhem bem os recursos para narrar de forma diferenciada esta história.

Carancho estreou na Argentina em maio. No mesmo mês, o filme participou do Festival de Cannes. Depois, esteve ainda nos festivais de Toronto, San Sebastian, Rio de Janeiro e, agora em outubro, em Hamburgo e Londres. Mesmo com todas as suas qualidades, o filme ainda não abocanhou nenhum prêmio. O que já sinaliza poucas chances para que ele chegue com força para o próximo Oscar.

Co-produzido pela Argentina, pelo Chile e pela França – contando ainda com dinheiro coreano -, Carancho foi todo filmado na cidade de Buenos Aires.

Antes deste filme, Pablo Trapero dirigiu outras seis produções. Com Leonera, de 2008, o diretor conquistou 16 prêmios e 27 indicações. Ele foi responsável, ainda, pelo roteiro de 10 de seus trabalhos, incluindo sete longas e três curtas. Um diretor que, sem dúvida, merece ser melhor conhecido – sim, este foi um momento “mea culpa”. 🙂

Os usuários do site IMDb deram a nota 7,1 para Carancho. O filme praticamente não foi comentado pela imprensa internacional. Tanto que o site Rotten Tomatoes – literalmente um termômetro neste sentido – apresenta apenas uma crítica: a de Enrique Buchichio, do Uruguay Total. Neste texto, Buchichio afirma que a produção de Trapero é um “thriller urbano escuro, denso, pessimista, com grandes destaques técnicos (especialmente fotografia, som e montagem) e um retrato hiperrealista de ambientes e personagens que fecham em uma história de amor. Muito bom cinema, apesar de alguma superficialidade”.

O crítico comenta ainda que Carancho é uma das produções “mais notáveis” que chegou da Argentina em seu país – o Uruguai. Ele afirma que, para sorte do espectador, o filme não cai na “denúncia social”. Ainda que o filme não fuja de uma certa denúncia, para Buchichio ele se revela, basicamente, “uma história de amor entre dois perdedores que estão tratando de sobreviver”. Concordo com ele, ainda que eu ache que Carancho é, ao mesmo tempo, estas duas coisas e mais. Curioso que Buchichio afirma que falta química entre os protagonistas. Não percebi isso. Até porque uma certa “estranheza” entre eles se justifica pelo tipo de ambiente e relações com os quais eles estão acostumados. Percebe-se, com um bocado de esforço, o quanto o tempo vai fazendo eles quebrarem as armaduras e se aproximarem realmente – especialmente Luján.

O crítico reconhece uma levada noir no filme. Com toda a razão. Eu não tinha observado isso antes, mas é bem verdade. Seja pelo tipo de história, pelos personagens ou pelos rumos que o roteiro vai tendo, assim como a violência e a levada embebida na urbe, tudo isso faz de Carancho um exemplar que segue a escola noir. Buchichio afirma que Carancho só não é melhor por alguns deslizes do elenco, inclusive citando a Martina Gusman que, segundo ele, repete no filme alguns vícios vistos anteriormente – não tenho esse conhecimento para concordar ou discordar.

Através da crítica do uruguaio é que fiquei sabendo que a protagonista de Carancho é a esposa do diretor.

CONCLUSÃO: A violência do trânsito vista de uma maneira diferenciada. Não apenas as colisões são violentas, mas todo o cenário que envolve as cenas de batidas e atropelamentos. Pessoas morrem, outras ficam incapacitadas. E ao redor delas, gira muito dinheiro. Seja através da estrutura de socorro, de ambulâncias até hospitais, seja por fundações e profissionais que correm atrás de indenizações para as vítimas e seus familiares. Adicione-se aí as seguradoras e seus interesses. Carancho, novo filme do diretor e roteirista argentino Pablo Trapero, apresenta uma história intricada, violenta, cheia de nuances, sordidez e algo de romance e esperança. Pessoas aprisionadas em estilos de vida que não gostam acabam se encontrando e buscando saídas. E ainda que o horizonte pareça cada vez mais complicado, o espectador segue com elas na busca por uma alternativa. Com um ritmo ágil, um roteiro bem amarrado e uma direção atenta aos melhores ângulos, Carancho revela mais um grande trabalho dos atores Ricardo Darín e Martina Gusman. O elenco de apoio também se sai muito bem, em uma produção essencialmente urbana e que segue a desesperança do cinema noir. Mais um grande exemplo do cinema da Argentina.

PALPITE PARA O OSCAR 2011: Comentei anteriormente que estou na torcida por este filme. E isso porque ele é o primeiro da lista de pré-selecionados para o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro que eu assisti. hehehehehe. Mas vocês que acompanham este blog acho que já me conhecem: sou assim mesmo, meio “passional”. Quando um filme me convence, porque tem ao mesmo tempo criatividade, qualidade técnica, bom roteiro, elenco e direção, abraço a causa, dou nota máxima e torço para que ele se dê bem nas premiações. Mas fora o meu lado passional, sou realista. Até o momento, Carancho não ganhou prêmio algum nos festivais pelos quais passou. Além disso, a crítica internacional tem falado pouco ou quase nada dele. Estes são dois bons termômetros para saber sobre as chances de uma produção estrangeira para o Oscar. Assim, sendo, acho que Carancho pode até chegar, com um pouco de sorte e um tanto de lobby, a figurar entre os cinco finalistas ao prêmio. Mas dificilmente – e também porque a Argentina acaba de sair de um Oscar vencedora – ele terá chances de levar a estatueta. Ainda assim, é um belo filme que merece ser visto.

Lope

Guerra, pobreza, perda, teatro, poesia, talento e amores, dois grandes amores. Lope, novo filme dirigido pelo brasileiro Andrucha Waddington, trata de parte da vida daquele que é um dos grandes nomes da literatura espanhola: Lope de Vega. Ambientado na Espanha – boa parte do tempo em Madrid – logo após a Batalha da Ilha Terceira (1582), o filme revela um resgate de época primoroso, com um belo trabalho de figurinos, direção de arte, direção de fotografia e trilha sonora. A história, contudo, se concentra em um período muito curto da vida do artista, dedicando-se a explorar dois de seus vários amores. Dirigido com talento mas sem ousadias por Waddington, o filme se mostra um belo exercício de cinema feito com cuidado, mas longe de surpreender ou impactar. Acerta, no entanto, ao inserir vários trechos de obras do poeta.

A HISTÓRIA: Lope de Vega (Alberto Ammann) descansa junto com outros homens enquanto assiste alguns jovens voltando para casa. Escutamos a sua voz narrando uma carta enviada para a mãe, Paquita (Sônia Braga). Ele está voltando para Madrid, “cheio de orgulho”, após ajudar outros espanhóis a ganhar a Batalha da Ilha Terceira contra os franceses, em 1582, nos Açores. Com a ajuda de um amigo, Lope se veste bem e monta em um cavalo branco para chegar de forma triunfante na casa materna. Aparenta ter condições que, na verdade, não possui. A mãe doente lhe recebe com alegria, mas em pouco tempo ele terá que se virar sozinho. Para isso, busca o caminho da corte e do teatro, escrevendo peças para Jerónimo Velázquez (Juan Diego).

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Lope): Achei esta produção bastante correta. Mas entendo que alguns espanhóis esperassem mais do filme dirigido pelo Andrucha. Ainda assim, devo dizer, não acho que a solução fosse apelar para o bairrismo, ou seja, que um diretor de lá faria algo melhor simplesmente por ter no sangue e nas “raízes” a mesma origem do aclamado Lope de Vega. A verdade é que, ao assistir Lope, me lembrei muito de Shakespeare in Love, produção de 1998 ganhadora de sete Oscar. E cá entre nós, o filme estrelado por Joseph Fiennes e Gwyneth Paltrow se mostra bem mais interessante. Por vários fatores. Inclusive por um elenco “de apoio” estelar e muito competente.

Além disso, a produção de 1998 tinha, a seu favor, o fato de poucas produções de Hollywood terem se dado ao trabalho de “humanizar” grandes ícones do teatro e/ou da literatura. Foi interessante, por isso mesmo, “conhecer” – porque se trata de uma ficção e não de uma cinebiografia – parte das desventuras criativas e amorosas de Shakespeare. Contou a favor da produção, também, o tempo que ela dedicou para mostrar os bastidores do teatro inglês em uma época de efervescência cultural, dificuldades financeiras e uma certa “exploração” dos artistas por parte da nobreza.

Estes elementos todos são mostrados também como o tempero de Lope. Mas no lugar de Shakespeare e de Londres, temos a Lope e Madrid. O problema do filme de Andrucha é que o roteiro de Jordi Gasull e Ignacio del Moral explora pouco e de forma muito tradicional e óbvia o contexto da época. O espectador percebe também o clima de pobreza e dificuldades da população em contraste com a realidade dos nobres, assim como o gosto popular pelo teatro, mas estes elementos ganham pouco destaque perto das cenas sensuais e provocantes do protagonista e suas duas mulheres.

Uma qualidade da produção, como costuma ser feito em filmes do gênero, é o espaço que o roteiro dedica para os textos originais do “homenageado”. Assim, o espectador pode conhecer alguns dos mais belos versos do autor em seu início de carreira – uma pena que obras posteriores de Lope, mais conhecidas que as citadas, acabem ficando de fora por razões óbvias. Escancaradamente “romântico”, este filme procura valorizar o amor do protagonista com Isabel (a sempre fantástica Leonor Watling). (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Os dois terminam juntos e o público sorri com o canto da boca quando eles saem de cena na clássica sequência a galope. Sem o tradicional “saiba mais” em forma de letreiros no final da produção, o que o público não sabe é que Lope e Isabel ficariam juntos apenas mais seis anos. Isabel morreu em 1594 após um parto. Lope então escreveu uma de suas principais obras, La Arcadia.

Para um filme de época e inspirado na história de um grande escritor, Lope é apenas correto. Tem todos os elementos que se esperam de um filme do gênero: ótima reconstrução de época, figurinos, direção de fotografia e trilha sonora (falei de cada um deles posteriormente). E ainda que os atores principais sejam experientes e mostrem segurança para desempenhar os seus pais, assim como que se perceba uma química importante entre Alberto Ammann e Leonor Watling, em especial, a sensação que perdura após assistir a esta produção é que lhe falta um pouco de “tempero”.

Talvez um pouco mais de literatura, ou de romance. Quem sabe um pouco menos de “corpos ardentes” e um tanto a mais de contextualização dos fatos da época – por que, afinal, Madrid era tão importante naqueles anos? Essa explicação o filme não apenas deixa de fora, como perde a oportunidade de explorar. Assistindo a Lope, não fica fácil perceber que aquela cidade era uma das principais do mundo de então. Pelo filme, Madrid continua sendo um tanto obscura, misteriosa, relativamente efervescente e um bocado parecida com qualquer outra cidade retratada pelo cinema naquela época. O que não é verdade.

A equipe deste filme faz um belo trabalho técnico, mas faltou um pouco de inspiração para tornar o filme acima da média. Assim, Lope acaba sendo mais uma peça de cinema bem feita, com belas cenas, apresentando uma música envolvente e um grupo de atores afinado. Mas fica longe do encanto de Shakespeare in Love e da ousadia acertada de Quills, de 2000, protagonizada por Geoffrey Rush e Kate Winslet – dois filmes sobre autores importantes e que, cada um a sua maneira, se mostraram superiores a Lope.

NOTA: 8,2.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Lope faz algumas rápidas pinceladas na época histórica do protagonista. Ele começa citando um confronto entre espanhóis e franceses. Em outro momento, cita “armadas” em Lisboa, a saída de navios com soldados através do rio Tejo. Mas sempre vale fazer um pequeno resgate além daquele mostrado pela produção para situar um pouco mais o espectador naquele período do filme.

Félix Lope de Vega y Carpio, o protagonista do filme de Andrucha, se alistou na marinha espanhola em 1582 e 1583. Naqueles anos, ele teria participado da importante Batalha da Ilha Terceira, na qual o marquês Felipe II conseguiu liderar uma grande frota de embarcações nos Açores para derrotar mercenários franceses. Estes últimos apoiavam Don Antonio em suas pretensões de tornar-se rei de Portugal. A vitória de Felipe II fez com que ele se conseguisse o trono português, mas provocou nos espanhóis um sentido de “superioridade” na batalha que seria fatal em ocasiões seguintes.

Sobre esta época história e esta batalha, especificamente, recomendo este texto de José Ramón Cumplido Muñoz (em espanhol). Nele, o autor comenta sobre Espanha e Portugal que, na época retratada por Lope, eram considerados os países mais poderosos da Europa devido aos seus impérios coloniais (vale lembrar a “conquista” da América em 1492) e “uma série de matrimônios políticos que entrelaçaram as duas dinastias entre si e com o restante da realeza europeia”.

Lope teria participado ainda da Frota Invencível, formada em 1583. Um ano antes, o resultado da batalha foi o seguinte: os espanhóis tiveram 250 mortos e 550 feridos, sem perder nenhum barco da frota – mas todos apresentaram avarias; e os franceses perderam 11 barcos e aproximadamente 1,5 mil homens. Em 1583, a armada comandada por Don Álvaro de Bazán reuniu 98 barcos e 15 mil homens.

Algo bacana que o filme faz é o resgate do Teatro Español. Como se pode ver nesta página sobre a cultura de Madrid, em fotos antigas, aquilo que assistimos em Lope reproduz com fidelidade o ambiente da época. Segundo o texto (em espanhol), desde o século XVI (nos idos retratados no filme, de 1500 em diante), o teatro era encenado no “legendário Corral de la Pacheca”, que muitas vezes era alugado para o teatro pelas “Cofradías de la Soledad y de la Pasión” (Confrarias da Solidão e da Paixão). Com o aluguel do espaço para a realização de peças, os frades conseguiam recursos para a construção e a manutenção dos hospitais que atendiam à população e à Corte.

Interessante que, segundo o mesmo texto, em 1582 foi construído o “Corral del Príncipe”, que abriria as suas portas em 21 de setembro de 1583. Vale lembrar, segundo este texto que faz referência a Lope, que ele lutou na marinha em 1583 e, em seguida, teria voltado para Madrid. Ele chegou na cidade, justamente, quando o novo espaço para o teatro tinha sido recém-inaugurado.

Recomendo ainda este texto da Biblioteca Nacional de España sobre o chamado “Siglo de Oro” (Século de Ouro) do teatro espanhol. Segundo o texto, “nunca antes coincidiram tantos gênios em um espaço de tempo tão pequeno e em tantas áreas da arte. Do Renascimento do século XVI até o Barroco do século XVII nasceram e morreram Lope, Tirso, Calderón, Rojas Zorrilla, Vélez de Guevara, Guillén de Castro, Ruiz de Alarcón, Moreto, Solís, Bances, Cervantes, Góngora, Quevedo, Gracián, San Juan de la Cruz, Garcilaso, Fray Luis de León, El Greco, Velázquez, Murillo, Ribera, Zurbarán, Juan de la Encina, Alonso Cano, Gil de Hontañon…, a lista é interminável e a produção teatral da época é extraordinária, não apenas pela quantidade mas também pela qualidade de muitas de suas obras. A figura de Lope de Vega se destaca em seu tempo: más de 1500 peças teatrais assinadas por ele testemunham uma inspiração fora de qualquer medida”.

O mesmo texto faz uma seleção de autores que viveram em um tempo “que iluminou e serviu de referência para o resto do mundo” e que representaria a “essência” do patrimônio cultural espanhol. Recomendo o link sobre Lope que conta um pouco da sua história e disponibiliza parte de sua obra. Interessante que, na breve biografia do autor, eles comentam que ele nasceu e morreu em Madrid, e que foi aluno dos jesuítas – que aparecem, no filme, representados pelo frei Bernardo (Luis Tosar). Segundo o mesmo texto, Lope “teve uma vida agitada e cheia de lances amorosos”. Ele teria se alistado duas vezes na Marinha, tendo se casado ainda duas vezes – uma com Isabel de Urbina (mostrado no filme) – e outra com Juana de Guardo (em 1598).

No texto da Biblioteca Nacional, Lope teria renovado “as fórmulas do teatro espanhol em um momento em que o teatro havia se convertido em um fenômeno de massas e assim, depois de uma grande experiência como dramaturgo, apresentaria um pedido para a Academia de Madrid para a Arte Nova de fazer comédias (1609), pela qual expõe de forma irônica as suas teorias dramáticas. Ele rompe então com a estrutura da obra dramática de lugar, tempo e ação, mesclando o cômico e o trágico, tratando, diz, de imitar a natureza, colocando assim um fim às propostas da escola italiana fundada sobre a Poética e a Retórica de Aristóteles. Sua obra, tão excessiva como a sua vida, conta com uns 3.000 sonetos, 4 novelas curtas, 9 epopeias, 3 poemas didáticos e umas 1500 obras dramáticas segundo sua própria declaração. Desta obra se conservam 426 comédias atribuídas ao autor (das quais apenas 314 são certas) e 42 autos de sacramento. Estas obras dramáticas eram compostas somente para serem representadas  e o autor não ficava com nenhuma cópia para si. O exemplar passava por cortes, adequações, ampliações e retoques dos atores”.

Diante de tudo isso, reafirmo ainda mais a falta de “força” do filme de Andrucha. Lope não deixa claro não apenas a época histórica, a força da Espanha no cenário mundial naqueles anos, como também não revela com profundidade a popularização do teatro na época. Passamos muito tempo assistindo ao romance do protagonista com Elena Osorio, a “Filis” de algumas de suas obras, e não entendemos bem o contexto e a importância de Lope para a época. Aliás, tudo que “sabemos” sobre este último ponto é dito por uma ou duas bocas durante a produção, mas não é possível perceber aquela “era de ouro” com a aparição de outros autores, por exemplo. Uma pena – e um desperdício.

Falando em Elena Osorio (interpretada no filme por Pilar López de Ayala), ela seria lembrada muitos anos depois por Lope no romance em prosa La Dorotea. (SPOILER – não leia se você ainda não assistiu ao filme). Segundo este texto, quando Lope conheceu Elena, ela estava separada do marido, o ator Cristóbal Calderón. Enquanto Lope mantinha um romance com ela, ele fazia negócios com o pai da moça, o empresário de teatro e autor Jerónimo Velázquez. Em 1587, Elena aceitou casar-se uma segunda vez com o nobre Francisco Perrenot Granvela. Curioso que, no filme, ela já começa casada com Tomás de Perrenot (interpretado no filme por Miguel Ángel Muñoz).

Quando Lope escreveu aqueles versos “infames” contra Elena e seu pai, Velázquez, na peça Belardo Furioso, ele já tinha começado um romance com Isabel de Alderete y Urbina, filha do pintor do rei Diego de Urbina. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Lope e Elena teriam se casado no dia 10 de maio de 1588, depois que ele “raptou” a moça com o consentimento dela – curioso como eles chamavam uma fuga consentida na época, não? Em seus poemas, Lope chamou a amada de Belisa.

Condenado a ficar oito anos longe da Corte, sendo dois deles fora do “reino de Castilla” (do qual fazia parte, a partir do século XVI, Madrid e outra cidades próximas), Lope passou a viver com Isabel em Valência. Em 1590 eles se mudaram para Toledo – cidade muito próxima a Madrid. Como eu disse antes, Isabel morreu em 1594, quando Lope escreveu La Arcadia. No ano seguinte, o autor voltou para Madrid, aonde manteve vários romances, casando-se com Juana de Guardo em 1598.

O curioso desta última história, segundo este texto, é que muitos pensavam que Lope teria se casado com Juana por dinheiro – porque ela seria uma mulher muito vulgar e alguns desconfiavam do “amor” entre os dois. Teria sido, depois da história envolvendo Elena, uma grande ironia, não é mesmo? De qualquer forma, com ela o autor teve quatro filhos – três meninas. Mas, mulherengo como só ele – pelo que tudo indica -, Lope ainda teria outros romances, inclusive com uma mulher casada, Micaela de Luján, com quem ficaria até 1608 – e com quem teria tido cinco filhos. Segundo conta a história, ele teria vivido entre as duas famílias e mantido, além das relações com Micaela e Juana, outros romances.

Lope morreu em 1635. Ele recebeu, então, homenagens de 200 autores, e teria sido aclamado por quase toda a Espanha. Em sua época, muitas pessoas utilizavam a expressão “É de Lope” para sinalizar que algo tinha uma qualidade excelente.

Depois desta “contextualizada” histórica e artística – porque o filme passa disto batido -, quero comentar sobre a produção propriamente. Como disse anteriormente, a direção de Andrucha é correta. Nada mais. O roteiro dos espanhóis Jordi Gasull e Ignacio del Moral, contudo, se mostra ainda pior. O grande problema de Lope é a forma superficial com que o tempo da narrativa e a própria vida de Lope são tratados. Fora o recurso já um bocado desgastado de inserir trechos literais da obra do “homenageado” durante a trama, o roteiro segue uma trajetória linear, previsível e rala. Uma pena – especialmente porque o personagem renderia uma história muito mais complexa.

Na parte técnica, sem dúvida alguma se destacam a direção de fotografia do brasileiro Ricardo Della Rosa (responsável, anteriormente, pelas belas imagens de Casa de Areia e À Deriva) e a trilha sonora do espanhol Fernando Velázquez. A trilha sonora, aliás, conta com uma canção especialmente composta por Jorge Drexler (para quem não sabe, sou apaixonada por este uruguaio). O título da canção é “Que el soneto nos tome por sorpresa”, e o clipe, dirigido por Andrucha, pode ser visto neste link. Apenas por ter uma música do Drexler esse filme ganhou uns pontinhos comigo. 😉 Falando em música, para quem não conhece, super mega recomendo a banda Marlango, da qual Leonor Watling é a vocalista.

Agora, faço um capítulo à parte sobre o elenco. Bacana ver o reencontro dos atores Luis Tosar e Alberto Ammann. Ainda que, cá entre nós, ambos se saem melhor no interessante Celda 211 (comentado aqui no blog). As atrizes que contracenam com Ammann se destacam. Pilar López de Ayala segura muito bem o seu papel, mais complexo que o de Leonor Watling. Mas mesmo que o da segunda seja bastante linear, ela consegue destacar-se pela beleza e por uma forma de se destacar em cena que é típica das grandes atrizes. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Agora, os brasileiros, são de lamentar. Sônia Braga, coitada, aparece para morrer, praticamente. A atriz figura alguns segundos, na recepção de Lope após a sua primeira ida à guerra, e logo depois a sua personagem evapora. Selton Mello faz pior. Ele interpreta com um espanhol terrível ao Marqués de Navas, para quem Lope trabalhou por um período. Me desculpem os fãs do ator, mas dói nos ouvidos escutá-lo tentando falar espanhol. Um pouco mais de treino e/ou preparo teria feito muito bem para ele e para a produção.

Vale comentar ainda a presença marcante de atores conhecidos do público espanhol, como o já citado veterano Juan Diego como Jerónimo Velázquez, bastante conhecido pela série Los Hombres de Paco, entre outras produções para a TV; e Antonio de la Torre como Juan de Vega, irmão de Lope.

Lope estreou  na Espanha no dia 3 de setembro. Uma semana depois, ele marcava presença no Festival de Veneza, aonde recebeu críticas medianas e uma certa “resistência” dos comentaristas espanhóis. Até o final do mês, o filme passaria ainda pelos festivais de Toronto e do Rio. Até o momento, não foi indicado a nenhum prêmio. Segundo este texto, ele tinha sido cotado entre os finalistas para representar a Espanha no próximo Oscar, mas acabou sendo vencido por También la Lluvia, dirigido pela madrilenha Icíar Bollaín.

Segundo as notas de produção do filme, Lope foi filmado na Espanha e no Marrocos.

Os usuários do site IMDb deram a nota 6,7 para a produção. O Rotten Tomatoes abriga apenas uma crítica para o filme, assinada por Deborah Young, do The Hollywood Reporter. Nele, a crítica comenta que Lope é uma “produção elegante” e que deverá agradar ao público do cinema e da televisão. Só achei estranho quando Young cita que o filme tem “um trio de belas e talentosas jovens atrizes”… de que trio ela está falando? Ok Leonor e Pilar, mas quem seria a terceira? Certamente ela não estaria se referindo a Sonia Braga, certo? 🙂

A crítica também sente um certo clima de Shakespeare in Love em Lope, citando, inclusive, que o autor espanhol nasceu dois anos antes do ícone do teatro e literatura ingleses. Para Young, Waddington acerta ao fazer uma aproximação perspicaz entre o relacionamento que Lope desenvolve com Velázquez e aquele que marca os produtores e os diretores de cinema da atualidade – honestamente eu não sei aonde ela enxergou isso no filme, mas ok. Para ela, Ammann apresenta um “herói arrojado, impulsivo e bastante simpático” que se conecta ao espírito feminino atual.

Falando em público feminino, tenho certeza que as meninas vão adorar os “bofes” espanhóis que aparecem em cena – ainda que Ammann seja, na verdade, de Córdoba, na Argentina. E os homens devem apreciar as beldades comentadas por Young. Visualmente falando, sem dúvida, é um filme interessante. 🙂

Para quem quiser saber mais sobre o escritor e sua obra, indico este link, com um biografia de Lope, e este outro com alguns de seus textos. Na verdade, indico ainda este e este outro link com alguns de seus poemas.

Dos seus textos, vale citar aquele que “encerra” o filme – e que, convenhamos é belo, belíssimo:

“Desmayarse, atreverse, estar furioso,

áspero, tierno, liberal, esquivo,

alentado, mortal, difunto, vivo,

leal, traidor, cobarde, animoso,

no hallar, fueral del bien, centro y reposo,

mostrarse alegre, triste, humilde, altivo,

enojado, valiente, fugitivo,

satisfecho, ofendido, receloso.

Huir el rostro al claro desengaño,

beber veneno por licor suave,

olvidar el provecho, amar el daño;

creer que un cielo en un infierno cabe,

dar la vida y el alma a un desengaño:

esto es amor. Quien lo probó lo sabe”.

CONCLUSÃO: Um filme de época bem dirigido e que resgata um capítulo importante da história da Espanha, assim como uma pequena parte de um de seus principais escritores. Intercalando uma narrativa que ambienta o espectador na Madrid do final dos anos 1580, com o seu florescente teatro, com uma marcante levada de romance e algo de aventura, Lope resgata alguns trechos líricos do personagem-título. Tecnicamente bem feito, o filme só peca pela falta de ousadia de seu roteiro e pelo trabalho apenas “correto” do diretor Andrucha Waddington. Por ter cenas belíssimas e um trabalho bem feito de reconstrução de época, assim como uma trilha sonora bem calibrada e uma direção de fotografia perfeita, deve agradar aos que procuram um filme leve, interessante, mas sem nenhum rompante criativo. Vale destacar ainda o bom trabalho dos atores, especialmente o de Leonor Watling. Mas, infelizmente, perto de filmes do mesmo gênero, como Shakespeare in Love e Quills, se mostra inferior. Mais que ousadia, lhe falta contextualização – ele não deixa claro a importância de Madrid para a época – e um bocado de “tempero” (inclusive nos romances). Sem contar que ele deixa boa parte da história mais interessante de Lope de fora.

La Journée de la Jupe – O Dia da Saia

Uma sociedade multicultural tem grandes desafios a enfrentar. E a data em que estas diversas culturas começaram a se juntar e a conviver, a forma com que conseguiram dialogar ou não, define suas realidades, conflitos e soluções. O grave problema que a França tem que enfrentar continuamente, a crise de soluções na qual o país mergulhou e tem dificuldades de sair, foi refletida em vários filmes recentes. La Journée de la Jupe acrescenta a sua contribuição neste debate. Ainda que siga uma linha “realista” e com certa levada de documentário, o filme de Jean-Paul Lilienfeld peca por dois pontos: um ritmo um tanto descompassado, com sequências com quase ação alguma contrastando com um final “exacerbado”, e por um debate simplificado das questões retratadas – especialmente da religião/raça e da educação.

A HISTÓRIA: Sob uma forte luz vermelha, uma mulher confessa que não queria ter agido de forma extrema. Mas que se viu “obrigada” diante de um grupo de estudantes que lhe deixaram “sem saída”. Corta a cena e voltamos no tempo. Um grupo de alunos de diferentes raças e credos chega para a aula daquela mulher, a professora Sonia Bergerac (Isabelle Adjani). Vulgaridade e um certo tom permanente de “quase violência” parece dominar as relações dos jovens. Até que eles chegam na sala de aula e Sonia tenta fazer-lhes ensaiar a peça de teatro O Burguês Fidalgo, de Molière. Lidando com provocações e piadas infames, a professora consegue avançar com a aula tropeçando, até que encontra uma arma na mochila de um dos alunos. A situação de risco vai piorando e os alunos viram reféns, trazendo para a escola uma operação policial que busca conter a crise.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a La Journée de la Jupe): A premissa de La Journée de la Jupe é boa, mas a forma com que a história é explorada pelo diretor e roteirista Jean-Paul Lilienfeld deixa a desejar. Para começar, o espectador cai de paraquedas em um conflito em que citações do Alcorão, de muçulmanos e negros são lançadas ao léu. Claro que alguém que eventualmente acompanhe os últimos anos da história francesa sabe que aquela sociedade enfrenta problemas graves de integração de culturas diferentes. Assim sendo, esta história se torna bastante local – ainda que o tema seja universal.

Problemas decorrentes de uma sociedade multicultural fazem parte da história de quase todos os países. Mas este tema tem ganhado um destaque especial na Europa, especialmente, pela mudança que aquele continente tem enfrentado nas últimas duas décadas. A integração ou a falta dela em países como França rendem conflitos, manifestações, violência e leis um tanto polêmicas. A “invasão” de muçulmanos, africanos, latinos e pessoas do Leste europeu não foi exatamente “bem vista” por sociedades como a francesa ou espanhola – que receberam um contigente grande destes grupos em um passado recente.

Cada país resolveu o “problema” a sua maneira. Ou não resolveu, o que é a verdade. Enquanto a Europa crescia e atraía pessoas, a chegada de imigrantes parecia uma solução rápida para questões como a falta de pessoas jovens para o mercado de trabalho. Muitos dos imigrantes deram o sangue, literalmente, em trabalhos que pagavam pouco ou atuando de forma quase escrava em obras e no setor de serviços. Até que começou a crise e os problemas aumentaram. Os imigrantes passaram a ser vistos como pessoas que “competiam” por saúde, educação, transporte e demais direitos sociais básicos. E os conflitos se tornaram mais evidentes.

Nacionalistas e com culturas enraizadas e antigas, a maioria dos cidadãos franceses e dos demais países da Europa – sempre há exceções, evidentemente – passaram a “aceitar” menos os “invasores” empobrecidos. Sempre que a resistência se torna mais evidente, elementos de identidade básicos como a raça e o credo se tornam razões de discórdia. Neste contexto, La Journée de la Jupe explora a dificuldade em integrar uma cultura tradicional, como a francesa, com seus preceitos bem estabelecidos de educação e liberdade de expressão com apreço pela ordem e autoridade, com as culturas muçulmanas e de outras vertentes.

O problema do filme é que ele mostra o problema, o conflito, e não reflete sobre as bases deste cenário. O espectador não entende bem porque aqueles rapazes reagem daquela forma, nem entende a “resistência” da professora em sua plenitude. Existe ali não apenas um problema de comunicação entre “franceses” e estrangeiros, mas também um conflito de gerações, de leituras de mundo e de educação, além de interesses políticos em jogo. Algo interessante da história é a forma com que ela expõe a incapacidade do sistema de ensino e dos políticos em conseguir lidar com o tema – todos parecem “engessados” em “boas políticas” inócuas.

Ainda assim, desde o princípio, não consegui deixar de pensar, a todo instante, em Paulo Freire. Um dos grandes nomes da educação mundial, brasileiro respeitadíssimo e citado em todo o mundo – especialmente na Europa. A “resistência”, dedicação e filosofia de ensino da personagem Sonia Bergerac não poderia estar mais distante do modelo de educação de Freire. A professora, enaltecida por esse filme, não dialoga com seus alunos. Ela quer, à força – de gritos, de ordens, de tensão e remédios -, implantar a sua forma de ensinar. As suas ideias. Mas não tenta, em momento algum, entender as demandas, os anseios e compreender a realidade de seus alunos.

Por este lado, La Journée de la Jupe me pareceu um grande desperdício. Porque a história se limita a mostrar uma “situação do problema” e, até certo ponto, entendi a exposição do “descontrole” da protagonista como uma autocrítica àquele modelo. Mas essa leitura cai por terra quando o filme vai se aproximando do final. (SPOILER – não leia se você não assistiu a esta produção). Até determinado momento, eu tinha encarado a história como uma crítica ao modelo de ensino apresentado, assim como para a professora, os alunos, a direção, a polícia e os políticos. Todos pareciam equivocar-se em algum ponto. Até que, no final, a protagonista é meio que “absolvida”, “endeusada”, quase considerada uma mártir. Com este final o filme se perdeu.

Antes dele, contudo, eu também tinha me incomodado com o ritmo da produção. Mesmo ela sendo quase toda focada na “tensão” entre professora e alunos – e o circo que é armado para tentar resolver o impasse -, na prática, o filme de Lilienfeld se mostra um tanto “arrastado” demais. Certo que ninguém espera um ritmo alucinante em uma produção francesa focada nestes temas. Mas daí a arrastar o roteiro e fazê-lo andar em círculos, é outra história. De qualquer forma, La Journée de la Jupe é mais um exemplo de grande atuação de Isabelle Adjani. A atriz explora com muita naturalidade o esgotamento e as tensões de sua personagem. Sem dúvida, o ponto forte da produção.

Também sei que uma produção de cinema não deve, necessariamente, ter que apresentar soluções para problemas. Não se trata disso, mais uma vez. (SPOILER – não leia este trecho se você não assistiu ao filme). Mas me incomoda quando um filme toca em temas importantes e os resume a um par de argumentos, deixando o restante de fora. Em outras palavras, quando procura ser “sério”, reflexivo e, na verdade, simplifica as questões mais do que o desejado. Este é o caso da produção de Lilienfeld. Adolescentes “descontrolados”, sem apreço por “velhos autores”, casos de alunos que levam armas para a escola e agridem colegas, isso é algo presente na França, no Brasil e em vários locais. Mas a discussão sobre esta realidade deve levar em conta muitos aspectos. Para começar, o modelo educacional, o preparo dos professores, a estrutura de apoio (ou não) das escolas e dos governos para os profissionais do ensino, a diversidade cultural, e um longo etcétera.

Paulo Freire já dizia que “Não se pode falar de educação sem amor”. Assim como não existe – ou não deveria existir – a figura daquele que ensina e daquele que simplesmente aprende. Educação significa diálogo. E não vemos nem amor e nem diálogo em La Journée de la Jupe. Isso me incomodou. E muito. Ainda assim, o filme toca em temas importantes, desta área e da que se refere a uma sociedade multicultural. Apenas por isso, valeu ser produzido. A produção ainda questiona a disputa entre diferentes religiões – especialmente católicos e muçulmanos – e a questão feminista/machista da realidade exposta. (SPOILER – não leia… bem, você já sabe). No primeiro tema, interessante a pincelada do roteirista com a ideia de que “há mais coisas que nos unem do que nos separam”. E a insistência da professora em não tratar as suas origens como caminho de aproximação e para conseguir respeito dos alunos. Sobre o segundo tema, sem palavras… sem dúvida um tapa na face de uma sociedade (ou seriam sociedades?) que sempre primou pela liberdade e pelo espaço para as mulheres e que, nos últimos anos, tem andado para trás nestes pontos.

NOTA: 7,8.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Algo que achei interessante nesta produção: como ela se deixa levar pelo trabalho de Adjani e aposta muitas fichas nos jovens atores. Deste segundo grupo, destaco Sonia Amori, que interpreta a Nawel, e Karim Zakraoui como Farid. Os dois se destacam dos demais, ainda que vale citar outros dois que aparecem um bocado na história: Khalid Berkouz como Mehmet e Yann Ebonge como Mouss.

Ainda sobre Paulo Freire, achei bastante interessante este site – para quem estiver interessado(a) em saber mais.

Especialmente tocante quando os pais da protagonista falam com ela através do celular. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). A falta de contato de Sonia com os pais sugere que ela tinha dificuldade em lidar com as suas próprias origens. O que explicaria, também, a projeção da professora a respeito dos alunos. Um certo “repúdio” a uma situação de integração difícil que provavelmente ela mesma tenha passado. Muitos adultos acabam desenvolvendo este tipo de resistência – repúdio com o tempo, após terem conseguido uma certa “integração” na sociedade para a qual os pais imigraram – renegando as próprias origens e passado para se sentirem mais “confortáveis” no país que considerem seu. Mais um ponto interessante levantado pela história.

A questão da diferença de tratamento entre homens e mulheres fica evidente na história. As adolescentes são permanentemente “diminuídas” pelos rapazes, que se acham tão “machões”, enquanto a protagonista tenta resistir vestindo uma peça de roupa considerada “perigosa” pela direção. Este movimento de retrocesso nas conquistas de liberdade de expressão feminina pode ser visto em diversas sociedades. Inclusive nas latinas. Depois do feminismo marcar presença no mundo, parece que uma corrente machista tenta recuperar espaço a força. Igualdade de direitos e de expressão, infelizmente, são colocadas em dúvida nestes contextos. Um retrocesso triste e que precisa ser comentado para provocar reflexão.

Curioso um ponto que parece “sobrar” neste filme: os dilemas do policial especializado em negociações envolvendo reféns, Labouret (Denis Podalydès). A preocupação dele com a amante e com a mulher procuram torná-lo mais “humano”, menos robotizado e focado apenas no trabalho de segurança pública. Pena que a “profundidade” – entre aspas mesmo – dada para ele e para a protagonista não se veja em outros personagens importantes, que acabam ficando bastante rasos.

Gostei da forma com que o diretor conduziu as cenas do “circo mediático”, político e de segurança montado quando se cria a situação de reféns em um colégio. As melhores sequências do filme mostram a reação de familiares e das pessoas envolvidas nas negociações conforme a história vai se desenvolvendo. Um pouco de realismo para um tipo de história que se mostra – inclusive na vida real – tão surreal.

Produzido pela França e pela Bélgica, La Journée de la Jupe estreou no festival de cinema de La Rochelle em setembro de 2008. Com baixo orçamento, o filme chegou em poucos mercados – e passou ainda por seis festivais, incluindo os de Berlim e o do Rio de Janeiro. Ganhou cinco prêmios pelo caminho, quatro deles entregues para Isabelle Adjani – incluindo um César (considerado o Oscar francês). Falando no César, La Journée concorreu nesta premiação ainda como melhor filme e melhor roteiro original, este ano, mas perdeu nas duas categorias.

Este é o nono filme dirigido por Jean-Paul Lilienfeld. Ele tem no currículo ainda um curta-metragem, três filmes feitos para a TV e outros quatro longas para os cinemas. Mas seu currículo apresenta um número maior de trabalhos como ator: 21 no total – o último deles datado de 2005, La Vie est à Nous!, dirigido por Gérard Krawczyk.

Da parte técnica do filme, vale citar o trabalho do diretor de fotografia Pascal Rabaud, a edição de Aurique Delannoy e a trilha sonora original de Kohann.

Fiquei sabendo sobre um documentário de 2007 intitulado Jupe ou Pantalon? (em uma tradução livre, “Saia ou Calça?”), da jornalista Brigitte Chevet, que revela uma cultura juvenil que mescla o puritanismo com uma influência do “pornô” em seu cotidiano. Interessante. Fiquei curiosa para assistir ao documentário e saber mais sobre esta “dualidade” de extremos entre os jovens franceses.

La Journée de la Jupe conseguiu a nota 6,8 entre os usuários do site IMDb. Pouco difundido, como eu disse anteriormente, o filme não chegou a ficar conhecido por grande parte da crítica especializada. Assim sendo, o site Rotten Tomatoes abriga apenas uma crítica: a de Gary Goldstein, do Los Angeles Times, que não gostou da produção. Para o crítico, La Journée se apresenta como uma produção “provocante” que não consegue lidar com os limites estreitos que acaba desenvolvendo.

Segundo Goldstein, o diretor acerta ao explorar temas como o sexismo, o racismo, a identidade cultural e religiosa, o sistema de ensino falido da França, mas erra a mão ao explorá-los com um caráter puramente de “obra cinematográfica”. Em outras palavras: deixa muito evidente a sua preocupação de “surpreender”, de tornar a fantasia maior que a realidade – acredito que isso ocorra, especialmente, perto do final e nos momentos de “crise” de inspiração do diretor/roteirista. A verdade é que o artifício, em alguns momentos, se torna mais evidente que o conteúdo. Nisso estou totalmente de acordo.

Vale ponderar sobre a obra citada com tanta veemência pela protagonista: Les Bourgeois Gentilhomme (traduzida para O Cavalheiro Burguês ou O Burguês Fidalgo). Nesta obra, Molière retrata “a classe de novos ricos” francesa, um grupo que desejava imitar os “hábitos da nobreza”, como os “interesses pelas artes e pelas armas”. Encontrei este resumo sobre a peça de teatro da Wikipédia e, neste blog, a citação de alguns trechos do livro, para quem se interessar. Destaco, entre outros, este: “Ora, se todos os homens aprendessem música, não seria esse o meio de se acordarem eles, estabelecendo no mundo a paz universal?” – diz o Mestre da Música tentando estabelecer o seu ofício como o mais importante entre todos. Sou suspeita para comentar, porque, para mim, a existência só tem sentido mesmo com a música (e o cinema, e demais artes, talvez… hehehehehe).

CONCLUSÃO: Um drama que trata sobre os problemas da sociedade multicultural francesa atual. Focado no ambiente escolar, La Journée de la Jupe segue um ritmo lento até perto do final, quando acelera a produção em uma direção de “grand finale”. Feito para a atriz Isabelle Adjani brilhar, este filme revela um ambiente educacional cheio de conflitos e desafios. Também expõe a fragilidade de um sistema social em que há falta de diálogo e de integração. O problema da produção é seu ritmo lento e circular demais, em certos trechos, e com um roteiro um bocado simplista. Ainda assim, a produção de Jean-Paul Lilienfeld se revela uma peça interessante de discussão. Sem dúvida mostra um “estado das coisas”, uma realidade de conflitos e que acaba explorando docentes e marginalizando alguns alunos. Deve interessar especialmente às pessoas que gostam de debater sobre educação, juventude, modelos de ensino, sociedade multicultural e os desafios de integração de diferentes etnias, credos e etc. em sociedades “maduras”. Para o espectador interessado em entretenimento, contudo, deve parecer chato. E ele é, de fato, um bocado arrastado. E simplista. Mas tem alguns bons momentos e, principalmente, a coragem de tratar de temas importantes sem açucarar realidades. Ainda assim, basta uma procura um pouco melhor e é possível encontrar outros filmes sobre o tema da violência e falta de diálogo nas escolas melhores que este.