The Jane Austen Book Club – O Clube de Leitura de Jane Austen

Um filme romântico que busca fugir daquela fórmula padrão que todos conhecemos. Por esse fator, The Jane Austen Book Club merece atenção. O problema, contudo, é se ele consegue fugir realmente dos “lugares-comum” ou não. Até um certo ponto sim, ao tentar – e apenas tentar – introduzir um pouco de conteúdo na história. Afinal, em teoria, o filme (também) debate a obra da escritora inglesa Jane Austen. O problema é que, fora um ou outro acerto na discussão de uma autora aclamada, o filme realmente cai nos estereótipos, em vários lugares-comum e, no fim das contas, enreda o espectador no velho jogo de “torcer pelo romance”. Sem contar que, ainda que o filme tente ser “cuca aberta”, incluindo entre os personagens principais uma lésbica e uma mulher que se casou várias vezes – duas figuras que sofrem um bocado de preconceitos no “mundo real” -, no fim das contas o filme acaba sendo bem tradicional. Quem sabe, até para acompanhar (ou seria “homenagear”) a veia tradicionalista da escritora que inspirou o tal clube de leitura.

A HISTÓRIA: Sylvia Avila (Amy Brenneman) e Jocelyn (Maria Bello) são amigas de infância. Jocelyn foi a garota que quase ficou com Daniel (Jimmy Smits) quando elas eram jovenzinhas, só que no final ela “empurrou” ele para a amiga. Depois de 20 anos de casados, Daniel começa a ter um caso fora do casamento e decide se separar. Jocelyn e Bernadette (Kathy Baker) resolvem, para estimular a amiga a superar a fase ruim, criar um clube de leitura dedicado a Jane Austen, a escritora preferida das amigas. Além das três, são chamados para participar do clube a professora de francês Prudie Drummond (Emily Blunt), a filha do casal Avila, Allegra (Maggie Grace) e o empresário aficcionado por ficção científica Grigg Harris (Hugh Dancy). Enquanto dividem seis das obras de Jane Austen entre si e marcam encontros para discutí-las, os seis personagens vão vivendo diferentes histórias de perda, conflitos, romances e amizades.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta trechos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a The Jane Austen Book Club): O filme começa morno, meio “infantil” quase. Afinal, alguns dos nossos personagens principais se encontram para o enterro de um cachorro! Bem, depois desta sequência “cômica” (na verdade não vi muita graça na “piada”), começam a pulular as “bombas” da história. Primeiro o comunicado de Daniel para a mulher de que ele está tendo um caso e que vai se separar dela para ficar com a amante. Deprimida, Sylvia é consolada pelas amigas e pela filha, Allegra, que volta temporariamente a viver com a mãe. Enquanto isso, em uma fila de cinema, Bernadette encontra a Prudie, uma mulher que parece ser, ao mesmo tempo, bem contida e bem descontrolada – pasional equilibrada, se é que isso existe. Impressionada com a “cultura” de Prudie, ela vê na mulher recém “descoberta” uma possível integrante do clube de leitura que ela e as amigas querem montar.

Pouco depois, também por “acidente”, Jocelyn encontra, em um hotel em que vai se hospedar para um congresso canino, ao insistente e curioso Grigg. Ele fica fascinado por ela e insiste em conhecê-la. Jocelyn, uma “solteira convicta”, vê nele um possível atrativo para sua amiga de infância Sylvia – quem sabe ela não consegue repetir a dose praticada com Daniel e apresentar para a amiga um novo amor? Esse é o começo do filme, mas muita água vai rolar em paralelo a tudo isso.

Algo positivo da história é que, apesar dela ser focada em um número considerável de personagens principais, todos eles acabam sendo bem apresentados e conhecidos. Neste ponto o roteiro de Robin Swicord (de Memórias de uma Geisha), baseado no livro de Karen Joy Fowler, funciona. Por outro lado, tais personagens são um bocado estereotipados demais. Vejamos: Jocelyn é uma mulher que busca o romance ao mesmo tempo em que foge dele – afinal, ela considera mais seguro se relacionar com cachorros, de quem ela pode prever reações, do que com homens. Prudie é uma “intelectual” que sofre por estar casada com um homem com pouca cultura, Dean (Marc Blucas), o típico “jogador de futebol americano”; que tem uma relação mal resolvida com a mãe (Lynn Redgrave) e que acaba se interessando pelo “mistério, fascínio e cultura” do jovem estudante Trey (Kevin Zegers, realmente um colírio, hehehehe). Bernadette é uma mulher que se casou seis vezes e que acha o amor – ou seu plural – fundamental. Sylvia é uma mulher que sempre se dedicou ao marido e a filha e que vê a sua vida desmoronar rapidamente quando seu “mundo ideal” cai por terra. Allegra é uma jovem que sempre gostou de aventuras e que buscou sempre a aprovação dos pais. Grigg é um jovem que vive “à sua maneira”, adepto das coisas simples e das relações francas.

Alguém pode dizer: “Mas onde estão os estereótipos? Afinal, existem pessoas assim de verdade…”. Ok, claro que existem. Mas ninguém é “apenas” isso, não é mesmo? As pessoas – a maioria, pelo menos – é mais complexa. E um filme que resolve destacar tantas pessoas acaba, claro, simplificando-as muito. Esse é um problema de The Jane Austen Book Club… simplificar as pessoas, suas relações e, de quebra, a obra de Jane Austen. Sim, porque no final das contas, todas as reuniões para debater a sua obra acabam girando sempre nos mesmos eixos: Jane Austen era uma escritora tradicionalista que jogava muito com os conflitos amorosos, encontros e desencontros e que, normalmente, caia no amor rigoroso que ela mesma não conseguiu vivenciar… hummmmm, digamos que é uma maneira de olhar. Mas não é a única. Acho que Jane Austen é mais que isso, mas enfim…

Acho que para um fime que se propõe a discutir literatura, houve pouca dialética. Pouca diversidade de idéias e, no fim das contas, uma jogada de “adaptar” para a vida real situações da obra de Jane Austen que já vimos antes (mas de forma mais original). Resumindo: o filme tem boas intenções, mas acaba sendo fraquinho.

NOTA: 6.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: A primeira coisa que me chamou a atenção no filme foi ver uma série de atores coadjuvantes em outros filmes ganhando, finalmente, destaque de protagonistas. Com isso não quero dizer que figuras como Maria Bello, Amy Brenneman e Kathy Baker nunca tenham sido protagonistas… já foram, claro. Mas normalmente de filmes de menos destaque, por assim dizer. E aqui todos estão no mesmo patamar em um filme que recebeu uma certa repercurssão. Bacana isso. Acho que são atores que merecem.

Falando neles, gostei da interpretação de praticamente todos… as falhas na história tem mais a ver com o roteiro ser um pouco fraquinho do que com os “recursos dramáticos” de cada ator ou atriz, na minha opinião. Ainda assim, achei um tanto falso demais o tom que os atores Emily Blunt e Marc Blucas deram para o seu “casal”… faltou química e um pouco mais de “comprometimento” com seus personagens.

O filme, relativamente “independente”, conseguiu uma bilheteria um tanto razoável: arrecadou, em três meses, pouco mais de US$ 3,5 milhões. Sem grande campanha publicitária ou mesmo sem estar em muitos cinemas na maior parte deste tempo, até que ele não foi mal.

Os usuários do site IMDb deram uma boa nota para ele: 7,1. Os críticos que tem textos publicados no Rotten Tomatoes também seguem a tendência, conferindo 68 críticas positivas para o filme e apenas 38 negativas.

A direção da também roteirista Robin Swicord está ok, ainda que seja bem tradicional e não ouse nada na linguagem cinematográfica – nem em planos, nem em nada.

The Jane Austen Book Club foi todo filmado na California, em cidades como Los Angeles, Santa Monica, Santa Clarita, Long Beach e Lakewood.

De todas as interpretações, gostei em especial de Maria Bello e de Maggie Grace. É a primeira vez, que me lembro, de ver o ator Jimmy Smits em um papel romântico… estou acostumada a vê-lo normalmente como mal, bandido ou algo assim. Bacana vê-lo como um marido apaixonado que se surpreende perdido lá pelas tantas. Gostei dele também. Ainda que destaque essas figuras, para mim a revelação foi mesmo Hugh Dancy, que deu o tom exato para um personagem que podia parecer ridículo ou cômico demais. Depois de algum tempo é que foi cair a minha ficha de que ele é um dos atores principais de um filme que gostei muinto: Evening.

Uma curiosidade: o filme foi indicado a um único prêmio até agora. Para o de melhor filme no GLAAD Media Awards, um prêmio criado para difundir boas iniciativas na mídia em geral – TV, cinema, etc. – no trabalho de combate contra a hemofobia. Um prêmio GLS. Interessante porque, ainda que a personagem de Allegra seja vista naturalmente na história, inclusive quando se relaciona com Corinne (Parisa Fitz-Henley), achei que as entrelinhas do roteiro colocam dúvidas sobre a sua “atitude” em ser lésbica, deixando solto um perigoso fio que leva para a idéia de que ela talvez tenha “feito essa escolha para chamar atenção”. Ela poderia ser uma personagem natural sem ter nenhuma entrelinha que insinuasse nada, não?

E algo que ia esquecendo de comentar… o filme acaba lembrando, inevitavelmente, a Magnólia, do Paul Thomas Anderson. Nem tanto pela história ou porque ele seja tão bom quanto aquele outro, mas por dois elementos: primeiro, pela música de Aimee Mann – fazia tempo que não ouvia a sua voz em um filme; e segundo porque ele tem, umas duas ou três vezes, aquela “seqüência de repasse” na vida dos personagens em, teoricamente, momentos decisivos. Recurso esse usado em Magnólia e em outras histórias mas que, aqui, não tem o mesmo efeito – até porque o repasse esse não é tão determinante.

Agora, uma coisa é fato… depois de assistir tantos filmes “românticos”, preciso mudar urgentemente de gênero, porque é muito açúcar seguido para o meu coraçãozinho. 🙂

CONCLUSÃO: Um filme que busca mesclar histórias reais com a ficção de Jane Austen. Consegue seu objetivo em parte, ainda que simplifique demais as situações e os personagens, tornando parte da história um amontoado de lugares-comum e parte de seus personages estereótipos. Ainda assim, é um filme que pode agradar como passatempo – especialmente porque tem certo “charme” ao contar a história das aventuras possíveis de um grupo de leitura.

27 Dresses – Vestida para Casar

Todos sabem o que esperar de uma comédia romântica: encontros, depois desencontros, uma boa pitada de humor – que pode ser menos ou mais sarcástico, mais ou menos “pueril” dependendo do filme -, flerte, romances até um certo ponto “complicados” (talvez alguma troca de casais) e, por fim, encontros. A fórmula existe para agradar aos gostos familiarizados a ela e pouco se move além destas “premissas”. 27 Dresses segue a regra e não inova, mas tem algo que anda faltando no mercado (pelo menos para o meu gosto): química. Ainda que seja uma típica comédia romântica, em tudo que isso quer dizer como óbvio, se trata de um filme com “buen rollito”, como se diz aqui na Espanha. Os protagonistas tem charme e existe uma ou outra sacada boa salpicada pela história. Diferente de outras produções do gênero recentes – como P.S. I Love You -, é um filme que não cansa e que se mostra um passatempo leve e descompromissado. Diante de tanta xaropice no mercado, algo tão simples pode até ser prazeroso.

A HISTÓRIA: Jane Nichols (Peyton List) é uma menina esperta. Observadora, percebe os detalhes de algo que pode passar como “mais um evento de adultos” para a maioria das crianças: um casamento. E mais que observar os detalhes, ela decide que esse momento “encantado” para muitas mulheres e muitos homens será o seu prazer na vida adulta. Obestinada, ela segue essa idéia e, com mais idade, Jane (Katherine Heigl) realmente trabalha organizando casamentos. O que parece algo interassantíssimo nos primeiros minutos do filme – em uma mesma noite ela se divide praticamente em duas para estar em duas festas distintas – demonstra ser um pouco uma loucura depois já que este, na verdade, não é seu trabalho real. Na maior parte do tempo ela é a assessora e braço-direito do executivo George (Edward Burns). A organização de casórios é o seu trabalho “paralelo” – que talvez seja do conhecimento apenas de sua amiga Casey (a ótima Judy Greer) e de poucos mais. A história fica mais complicada quando o chefe e objeto de desejo de Jane conhece a sua irmã mais nova e recém-solteira Tess (Malin Akerman). Ao mesmo tempo em que ele começa um relacionamento com Tess, Jane passa a ser “perseguida” pelo jornalista Kevin Doyle (James Marsden), fascinado pela história da garota que organiza tantos casamentos em pouco tempo e ávido para contar uma boa história e, com ela, conseguir uma promoção.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER: aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta trechos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a 27 Dresses): O resumo ficou meio grande, eu sei. Mas é que o roteiro de Aline Brosh McKenna resolveu “complicar” uma história de comédia romântica típica. Então, além dos típicos encontros e desencontros, assistimos no filme a sonhos, projeções de desejos, lutas por vencer “fantasmas” do passado, ambição, disputa entre irmãs, responsabilidade com a perda de uma mãe muito jovem… enfim, a lista é grande.

O mais interessante, para mim, é que o “amaranhado” de elementos na história não ficou confuso e nem chato. Tudo vai se apresentando e se resolvendo naturalmente – ainda que conflitos -, como na vida de qualquer pessoa. Então o que poderia ser um dilema gigantesco e um problema na vida de Jane – organizar o casamento de sua irmãzinha mais nova com o homem pelo qual ela é “secretamente” apaixonada a vários anos – avança como ocorreria na vida de qualquer pessoa que não gosta de confrontos… ela vai guardando, vai engolindo, até que… Bem, não preciso contar.

O filme usa de um recurso bem típico em filmes do gênero: brinca com vários casais possíveis. Kevin se interessa por Jane que é apaixonada por George que se apaixona por Tess que não gosta de ninguém porque acabou de levar um pé na bunda… Alguém lembrou da poesia Quadrilha, do grande Carlos Drummond de Andrade? Pois é, por aí… Então existe bastante “joguinho” de “eu estou apaixonado por você que nem olha pra mim” e por aí vai. O que não deixa de ser interessante, porque na vida real, fora dos cinemas, isso também acontece… quantas vezes você estava tão concentrado/a em trabalhar, no cotidiano, em fazer festas com os amigos, etc. e tal que não notou um novo amor surgindo, mostrando a cara por detrás do muro? Na verdade, para o amor acontecer, todos nós sabemos, é preciso estar “aberto”, disponível para isso… pois então, um dos temas de 27 Dresses é justamente esse. Afinal, Jane realmente adora casamentos ou prefere organizá-los para esquecer do seu próprio projeto de vida?

Mas além deste tema, o filme trata de vários outros, como ambição. Tanto Tess quanto Kevin, a sua maneira cada um, são movidos por ambição… mas até um certo ponto. Lá pelas tantas eles perdem o “foco” de seus sentimentos originais e se vêem “modificados” por outros… ou pelo menos em parte modificados. Interessante também. Sinal de que há inteligência por detrás de histórias um tanto satíricas de amor, como é o caso desta.

O filme começa muito bem, obrigada. Toda a “apresentação” dos personagens, a correria de Jane para conseguir organizar dois casamentos, o interesse de Kevin por seu próximo “personagem” de reportagem, tudo isso funciona bem. Depois, quando entra em cena Tess, o filme esfria um pouco, porque cai demais no joguinho da “quadrilha” de amores. Ainda assim, tem bons momentos. E, mais que tudo, como eu disse antes, 27 Dresses tem química… os atores principais todos tem carisma e convencem em seus respectivos papéis. E o importante para um filme do gênero: faz rir, é “bonitinho” e não cansa… melhor que muitos outros da mesma estirpe lançados recentemente.

NOTA: 7,5.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Muita gente falou da interpretação de Katherine Heigl em Knocked Up, o primeiro filme de “destaque” que ela fez depois de se tornar conhecida – e premiada com um Emmy – por sua interpretação da personagem Izzie em Grey’s Anatomy. Em comparação com aquele filme, para mim, ela está muito melhor neste 27 Dresses. E parece que sua carreira no cinema está em plena ascensão, porque atualmente está em fase de pós-produção o filme The Ugly Truth, em que ela interpreta a personagem principal ao lado de Gerard Butler – outra vez em uma comédia romântica. A direção é de Robert Luketic, jovem diretor australiano elogiado por seu 21.

Além de Katherine Heigl, gostei do humor da atriz Judy Greer em cada aparição em cena, além do carisma de James Marsden – que parece ter se convencido melhor de seu papel neste filme que em Enchanted, em que está, em certa medida, “patético”. E logo que eu vi a Malin Akerman pensei: “Eu assisti algum filme recente com essa atriz…”. Demorou dois segundos para cair a ficha: ela é a divertidamente irritante Lila, namorada/mulher de Ben Stiler em The Heartbreak Kid). Mais uma vez ela interpreta uma “loira burra” ou, melhor dizendo, irritante neste 27 Dresses… mas o bacana é que ela consegue fazer o papel com leveza, sem exageros ou, em outras palavras, convincente.

O filme teve um bom resultado de bilheteria: até o dia 25 de maio ele conseguiu, apenas nos Estados Unidos, arrecadar pouco mais de US$ 76,8 milhões. Não está mal… De crítica, por outra lado, ele não foi tão bem. Os usuários do site IMDb lhe deram apenas a nota 6,2. O Rotten Tomatoes publica 82 críticas negativas e apenas 53 positivas. Desta vez discordo dos críticos… e não porque seja um filme excepcional, mas pelo menos não é chato… o que já é muito. heheheheehehehehe. 🙂

27 Dresses é dirigido por Anne Fletcher. Este é o segundo filme da atriz, que estreou antes na direção com Step Up, um musical romântico que deu destaque para a carreira de Channing Tatum. Atualmente ela está filmando The Proposal, mais uma comédia romântica (haja propensão para o gênero, hein?) com Sandra Bullock e o protótipo de galã Ryan Reynolds.

Na parte técnica o filme não tem nenhum grande destaque… é bom o trabalho de direção de fotografia de Peter James, assim como é curiosa – e divertida, como tinha que ser – a pesquisa de vestuário de Catherine Marie Thomas (fora um ou outro exagero e lugar-comum, mas tudo bem).

Interessante que o elenco de Grey’s Anatomy foi em peso na sessão de estréia do filme… pelo jeito realmente a equipe da série é unida.

CONCLUSÃO: Filme leve, divertido, que começa muito bem e perde um pouco de força no caminho, ainda que consiga ser sustentado pelo carisma dos protagonistas. Segue a fórmula básica do gênero, não inova, mas tem algumas boas sacadas. Melhor interpretação nos cinemas até agora de Katherine Heigl, conhecida pela personagem de Izzie em Grey’s Anatomy.

The Other Boleyn Girl – A Outra

Esse filme estava na minha lista para ser assistido em algum dia no futuro, mas acabei colocando ele na frente de outros porque uma amiga comentou esses dias que gostava de filmes de época. Então fui assistí-lo. Mais que nada, tinha me chamado atenção o elenco. Nem tanto pelo Eric Bana que, até hoje, ainda não me convenceu de todo – ele com Hulk realmente foi muito para a minha cabecinha, ainda que tenha feito um trabalho decente nos posteriores Munich e Lucky You. Mas eu tinha interesse especialmente por Natalie Portman – que está na minha lista de atrizes preferidas. Também por Scarlett Johansson e por Kristin Scott Thomas. Sabia, claro, que se tratava de um filme de época, mas não tinha caído nenhuma “ficha” sobre o nome Boleyn ou sobre sua história. Por isso mesmo, enquanto assistia ao filme, não fiz nenhum paralelo sobre a veradicidade do que estava sendo contado ou não – só fui comparar a história oficial com a contada no filme depois. Por se tratar de um filme de época, ele responde bem aos principais elementos desta categoria, ou seja, ótimo figurino e cenografia. A fotografia e a trilha sonora também se destacam, enquanto o elenco se mostra adequado – ainda que nada brilhante. Já o roteiro… bem, tenho muito para falar sobre ele ao analisá-lo por si só ou em contraste com o que realmente aconteceu.

A HISTÓRIA: Ainda criança, Anne Boleyn (interpretada pela pequena Daisy Doidge-Hill) recebe uma proposta de casamento da família Carey. Mas seu pai, Sir Thomas Boleyn (Mark Rylance) vê na filha melhores oportunidades de ascenso do que a irmã, Mary (interpretada quando criança por Kizzy Fassett). Por isso ele promete Mary em casamento no lugar de Anne. O tempo passa, e quando chega a idade para se casar, Mary (Scarlett Johansson) está preparada para começar uma nova vida com William Carey (Benedict Cumberbatch). Simultaneamente, o Rei da Inglaterra, Henry Tudor (Eric Bana) recebe a notícia de que mais um filho seu morreu no parto. Bem articulado na Corte, o Duque de Norfolk, Thomas Howard (David Morrissey) busca aproveitar-se da insatisfação do Rei com sua Rainha, Catarina de Aragão (a sempre ótima Ana Torrent), para introduzir a sobrinha Anne como sua nova amante. Um acidente de percurso, contudo, acaba colocando Mary no leito do Rei, o que abre uma certa competitividade entre as irmãs e dá largada a uma série de acontecimentos que mudariam a história da Inglaterra para sempre.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso só recomendo que continue a ler quem já assistiu a The Other Boleyn Girl): O filme começa muito bem, misturando a alegria de uma família formada por pai, mãe e três filhos com os primeiros tons de ambição que motivam os “cabeças” desta família. Logo de cara se destaca também a direção de fotografia de Kieran McGuigan e a direção cuidadosa nos detalhes do inglês Justin Chadwick.

Rapidamente o filme passa daquele primeiro momento de decisão na vida das irmãs Boleyn – a definição do casamento futuro de Mary – para quando a história começa realmente a se tornar interessante. Neste momento inicial o roteirista inglês Peter Morgan acerta. Depois, contudo, ele vai deixando de lado uma série de detalhes importantes da história. Não li o livro de Philippa Gregory em que o roteiro é basado, mas é certo que muito do que aconteceu de verdade e foi historicamente registrado acabou sendo subvertido em função de uma narrativa mais “novelística” ou que, em teoria, se pensa mais ao gosto do público.

Mas antes de falar de diferenças do filme com a história real destas pessoas, vamos ao que realmente parece esta obra cinematográfica. Como comentei antes, tecnicamente falando o filme é muito bem acabado. Além da direção de fotografia de McGuigan, destaque para o equilíbrio nos trajes desenhados e escolhidos pela inglesa Sandy Powell (que teve o trabalho reconhecido anteriormente com dois Oscar: por O Aviador e Shakespeare Apaixonado). O interessante é que seu trabalho se mostra, em The Other Boleyn Girl, outra vez digno de elogios, ainda que, por um lado, algumas vezes, você fica desejando ver trajes mais “suntuosos”, por outro pensa que deveria ser mais realista esse tipo de roupas no dia-a-dia da corte do que outros exemplos que se pôde assistir em filmes anteriores. Também merece destaque o trabalho de adaptação das locações conseguido pela cenografia de Sara Wan. No mesmo grupo técnico merece menção David Allday, Matthew Gray e Emma MacDevitt pela direção de arte.

Comentada a parte técnica, vamos as interpretações. No geral, todos fazem um bom trabalho em cena, ainda que eu tenha achado Scarlett Johansson muito “meiga” ou mesmo superficial em boa parte do filme – ainda que seu papel fosse bem diferente do da irmã e que ela, na prática, realmente tenha sido coadjuvante na história real, não me convenceu muito o seu tom “bege” em quase todo o filme. Por outro lado – e era, claro, uma das intenções do roteirista -, Natalie Portman está ofuscante. Ainda que, na minha opinião, lhe faltou um pouco mais de sensualidade ou de perspicácia para convencer totalmente no papel da mulher que “desestabilizou” o Rei. Para fazer um paralelo de interpretação, por exemplo, achei Ana Torrent muito mais capaz de desestabilizar qualquer homem em cena do que a própria Natalie Portman – e olha que Ana Torrent só usas roupas de grande “recato”, quase pudicas.

Como praticamente sempre, Kristin Scott Thomas rouba a cena cada vez que aparece. O ator que interpreta o seu marido, o ambicioso Mark Rylance, consegue dar o tom exato de um homem que se deixa manipular pelo cunhado, interpretado com malícia por David Morrissey, para conseguir o máximo de vantagens possíveis para si e para os familiares. O inglês Jim Sturgess como George Boleyn, o irmão de Anne e Mary, consegue uma interpretação leve e convincente, enquanto que a pequena participação do também inglês (aliás, a maior parte do elenco é inglesa) Eddie Redmayne (como William Stafford, segundo marido de Mary) é interessante, ainda que praticamente passe imperceptível. Oliver Coleman como o nobre Henry Percy, o primeiro objeto de desejo de Anne, é um colírio para os olhos das espectadoras. 🙂

Agora falemos da história propriamente dita. Como comentei antes, o filme “pula” rapidamente da infância dos irmãos Boleyn para o casamento de Mary com o apagado nobre William Carey. Logo, com a chegada a casa do irmão de Lady Elizabeth Boleyn, o ambicioso Thomas Howard, começa um impressionante jogo de agenciamento puro e simples das mulheres da família para conseguir status social. Sim, porque o filme trata, essencialmente, de como algumas pessoas conseguiam “subir na vida” utilizando-se de meios tão deploráveis quanto oferecer suas filhas ou sobrinhas para serem amantes de reis ou nobres com poder. Aliás, esse aspecto da história, para mim, foi o mais interessante. Porque toda a insinuação de uma rivalidade entre as irmãs Mary e Anne não passou de um efeito deste jogo ambicioso engendrado pelos homens da família e, aparentemente, assumidos com gostos pelas duas irmãs.

Falando nisso, aqui entra o primeiro questionamento que eu fiz para com os meus “botões” enquanto assistia ao filme: realmente será que as mulheres naquela época aceitavam com tão bom grado as determinações de suas famílias, inclusive para prostituir-se em troca não de dinheiro, mas de status na Corte, títulos de nobreza e, algumas vezes, propriedades? Ok que naquela época tudo passava pelo Rei soberano – o filme trata um pouco disso ao mostrar que decisões de casamento e de divórcio passavam pelo crivo do monarca -, mas será que não havia realmente alguma maneira de confrontar o que se considerava absurdamente repulsivo de aceitar? Claro que acho impossível alguém descobrir realmente o que pensavam as irmãs Boleyn, mas é uma pergunta que me faço. Assim como achei também que até o fato de tudo passar pelo monarca foi um exagero… afinal, com tantas decisões para tomar, esse tipo de tarefa de decidir matrimônios ou separações deveria passar por um de seus muitos assessores e não diretamente pelo Rei.

Feitos esses comentários, também quero dizer que achei um pouco exageradas as “mudanças de humor” do tal Rei… afinal, ele assumir um verdadeiro desprezo por Anne após um simples acidente de caça e, depos, quando ela volta da Corte francesa, tornar-se tão obcecado por ela, a ponto de perseguí-la pelo castelo e de separar-se de sua Rainha me pareceram um pouco exagerados. Afinal, por mais que Anne tenha voltado mudada – na verdade, cá entre nós, não vi tantas mudanças assim, fora o fato dela falar mais o que pensava – da Corte francesa e, desta forma, passar a ser o centro das atenções entre os nobres, apenas isso não seria motivo para tanto interesse do Rei. E todo o “jogo” feito por ela para seduzí-lo me pareceu muito vago ou superficial para realmente ter surtido efeito da maneira com que surtiu, com o Rei prometendo nunca mais dormir com sua então Rainha e nem falar com Mary, de quem tinha acabado de ter um filho homem – o primeiro e único. Achei também inexplicavelmente desmedida a mudança de humor do Rei após ele ter “violentado” a tão desejada Anne antes do casamento. Afinal, em cena, tudo parece indicar que ele passou a ter ódio e/ou repulsa pela mulher – o que seria justificado pelo fato dela ter-lhe “obrigado” a romper com a Igreja Católica. Estranho, muito estranho.

Depois, no final, achei que faltou uma explicação sobre como a filha de Anne com o Rei, Elizabeth, teria se transformado em Rainha. Afinal, ela tinha dois sucessores na frente: o único filho homem do Rei, que teve com Mary, irmã de Anne; e a filha do primeiro casamento do monarca com Catarina de Aragão. Faltou explicar porque isso só fui entender depois, ao descobrir a verdadeira história das irmãs Boleyn.

Filme por filme, sem preocupações de ser fiel a História, The Other Boleyn Girl se mostra uma bem cuidada história de ambição e intriga nos bastidores da Corte inglesa durante o reinado de Henrique VIII (também chamado de Henry Tudor). Mas se formos analisar o que o filme tem de verdade, é muito pouco. Se resume, basicamente, ao fato de que o Rei teve caso com as irmãs Boleyn e que acabou mudando os rumos da Inglaterra por causa de sua obsessão por Anne. Fora isso, pouco mais é realista.

Vejamos: para começar, segundo a História, Mary foi jogada no leito de amante do Rei enquanto a irmã, Anne, recebia formação na Corte francesa. Em outras palavras: nunca existiu o desejo da família em apresentar Anne como a primeira opção para o Rei, assim como nunca houve aquela primeira “competição” entre as irmãs para saber quem seria a amante de Henrique VIII. Segundo a História, Anne apareceu na Corte inglesa depois que sua irmã já era amante do Rei. Ela chegou realmente a ter um romance com Henry Percy, mas foi impedida pelo pai de seguir com ele.

Conforme a história oficial, Anne voltou para a convivência da Corte inglesa em 1525 e, dois anos depois, foi pedida em casamento pelo Rei. Sem ceder aos apelos de Henrique VIII para que ela se tornasse sua amante, ela seguiu na Corte aumentando a sua influência ao estreitar laços de amizade com o embaixador francês Monsieur de la Pommeraye, que estaria apaixonado por ela – relação essa de poder de Anne que não foi nada explorada no filme. Nada popular entre o povo, Anne chegou a ser vítima de várias manifestações de seguidores da Rainha Catarina de Aragão. O curioso é que a separação do Rei não foi rápida… para nada. Depois de pedir Anne em casamento em 1927 e dela ter aceitado, eles só foram se tornar amantes em 1532, um ano antes de que realmente se casassem. Aliás, este é um ponto de grande curiosidade histórica, já que muitos se perguntam porque, depois de tantos anos, Anne teria cedido aos apelos do Rei antes de conseguir realmente se casar com ele – teria sido violentada como mostra o filme?

Outro ponto curioso e também não muito claro na História é que o Rei casou-se com Anne secretamente em janeiro de 1533, antes mesmo de ser anunciado oficialmente a sua separação da Rainha Catarina de Aragão. Assim sendo, apenas em junho Anne foi coroada oficialmente Rainha da Inglaterra. Ela ficou conhecida por Anne dos 1000 dias porque teve um reinado muito curto. Curioso que, segundo este texto da Wikipedia, o Rei “parecia satisfeito com Anne em tudo, menos na falta de um herdeiro”. Algo bem diferente do que se viu na tela, quando o Rei parecia estar insatisfeito com a mulher em tudo… hehehehehehehe. Segundo o que se conta oficialmente também, não parece tão clara a “inocência” de Anne como o que é contado no filme. Chegam a dizer que ela teria tido um filho – nascido morto, como outros – da relação incestuosa com o irmão.

O outro ponto não explicado no filme, de como a filha de Anne com o Rei foi se tornar a Rainha da Inglaterra por tanto tempo, só foi esclarecido neste texto da Wikipédia. Com a morte dos outros dois meio-irmãos é que Elizabeth finalmente assumiu o posto de Rainha.

Enfim, mais um filme que serve como passatempo, tem suas qualidades técnicas e uma certa “pressa” em contar a história. Mas se for levado em conta o que realmente aconteceu, ele fica anos-luz de qualquer história real.

NOTA: 7,5.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Sei que já é lugar-comum minhas críticas para os nomes escolhidos pelas distribuidoras brasileiras para os filmes, mas não posso evitar. Dar o título de “A Outra” para este filme foi demais para a minha cabecinha. ¡Vaya! mal gosto, hein? Até porque eu acho que o mais adequado seria “As Outras”, heheheheheheheheehe. O que me pareceu é que os tradutores só olharam a primeira metade do título e pronto, dá-lhe! 🙂

O filme conseguiu um desempenho mediano tanto de crítica quanto de bilheteria. Pelo site IMDb ele recebeu a nota 6,8, enquanto que os críticos que tem textos publicados no Rotten Tomatoes lhe conferiram 74 críticas negativas e 52 positivas para o filme. A produção, que teria custado US$ 35 milhões, ainda não conseguiu se pagar… nos Estados Unidos o filme conseguiu, até o dia 20 de abril, arrecadar pouco mais de US$ 26,8 milhões. Não é um fracasso retumbante, mas está longe de ser um êxito comercial.

Este é o primeiro filme do inglês Justin Chadwick para os cinemas. Antes ele dirigiu a produção televisiva Family Style, com Ewan McGregor, em 1993, assim como uma boa variedade de séries televisivas.

O roteirista Peter Morgan, que aqui descuidou de vários detalhes e passou “batido” por tantos outros, escreveu antes o elogiado roteiro de A Rainha, que conta com uma magistral interpretação de Helen Mirren como a Rainha Elizabeth II – ironicamente a descendente de toda esta “suruba” da família Boleyn com o Rei inglês. Achei que faltou força no roteiro deste filme mais recente.

Como já era de se perceber com o filme, ele foi todo filmado na Inglaterra. Entre as cidades e locações, destaque para as cidades de Kent, Gloucestershire e Cambridgeshire, assim como para os castelos de Berkeley e Dover e para a Catedral de Ely.

Não sei se fui só eu que percebi, mas na cena em que as irmãs Boleyn “confrontam” a Rainha Catarina de Aragão, bem no início da cena, não parece que Scarlett Johansson está despropositalmente achando tudo tão engraçado? O que me pareceu é que a cena foi filmada mil vezes porque as duas atrizes – Natalie Portman e Scarlett Johansson – deviam sofrer ataques de risos e, no take que foi aproveitado, ainda ficou um pouco do ar de “besteirol” em cena. Pode ser só impressão também…

Para constar: o filme é uma co-produção entre Estados Unidos e Inglaterra.

CONCLUSÃO: Um bom filme de época tecnicamente falando, recheado de intrigas e jogos amorosos. Se mostra interessante por contar um pouco do jogo de poder e dos bastidores do reinado de Henrique VIII ou Henry Tudor na Inglaterra – reinado este que mudaria a história do país para sempre, afastando o governo inglês da Igreja Católica e criando a Igreja Anglicana. Tem boas atuações ainda que, no geral, nenhuma acima da média. Bom passatempo, mas mortífero para os que gostam de filmes históricos – já que de fidelidiade histórica ele tem quase nada.

Caótica Ana

Sempre é complicado gostar de um autor. Digo isso porque o espanhol Julio Medem não é o primeiro que “pisa na bola” com as minhas expectativas ou a minha crença em seu trabalho. Eu gostava dele. Até assistir a este Caótica Ana. De sua autoria eu tinha assistido antes a Los Amantes del Círculo Polar e Lucía y el Sexo, dois dos melhores filmes que o cinema espanhol produziu no final dos anos 90 e início destes anos 2000. Por isso mesmo estava um pouco ansiosa por este Caótica Ana. E o choque ao vê-lo foi imenso. Toda a “inovação”, o sentido de “outro tipo de narrativa” no cinema espanhol que Medem conseguiu nos filmes anteriores virou fumaça. Caótica Ana é, sem dúvida, um dos piores filmes que eu assisti nos últimos anos. Por isso, meu caro leitor e leitora, esta não é uma recomendação, é um alerta de “fique longe” ou, pelo menos, “tome cuidado” ao saber que se trata de uma bomba.

A HISTÓRIA: Ana (Manuela Vellés) é uma jovem artista autodidata que vive em uma caverna com o seu pai, um alemão chamado Klaus (o polonês Matthias Habich), na ilha de Ibiza, Espanha. Ela vende seus quadros em uma feira na cidade quando aparece a mecenas Justine (a inglesa Charlotte Rampling), que se interessa pelo trabalho de Ana e a convida para se mudar para Madri, onde poderá ter contato com distintas classes de arte e onde poderá desenvolver o seu talento. Mudando para a capital, Ana conhece uma variedade de jovens talentosos, incluindo Linda (a cantora Bebe), uma apaixonada pelo vídeo; Said (o francês Nicolas Cazalé), um pintor atormentando com quem irá desenvolver uma forte de paixão; Lucas (Raúl Peña), ator mulherengo, entre outros. Mas ao mesmo tempo em que Ana desenvolve o seu talento artístico e descobre a sua sexualidade, ela também começa a sofrer crises que revelam a existência no seu inconsciente de diversas mulheres que foram suas reencarnações passadas.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta trechos importantes do filme, por isso só recomendo que continue a ler quem já assistiu a Caótica Ana): Realmente acaba ficando complicado falar deste filme. Seria um pouco lugar-comum dizer que tudo nele é um caos. Não. Na verdade, nem tudo é um caos. Julio Medem continua sabendo o que faz como diretor, conseguindo alguns planos bacaninhas e algumas seqüências bonitas… mas os poucos segundos de beleza do filme – acredito que apenas as imagens de Ibiza e os primeiros passos de Ana nas ruas de Madri (ela caminha, mais especificamente, pela Gran Vía) – não passam exatamente disto, de poucos segundos. O resto, meus caros leitores, é uma grande forçada de barra.

Para começar, não gostei dos atores. Achei todos eles, sem exceção, com interpretações exageradas ou nada convincentes. Sim, existem muitos extremos neste filme. Exceto por uma ou outra cena, a estreante atriz Manuela Vellés é a pessoa errada para este papel. Ela não consegue, coitada, chegar ao fundo de sua personagem. Alguns até podem achar ela simpática ou carismática, como li por aí, mas isso porque ela tem um sorriso bonito. Também os marmanjos podem achar interessante as várias cenas de nudez da garota. Mas eu, que estou mais interessada em interpretação do que em desfile de gente nua – ainda que eu ache um recurso super justificável e interessante, dependendo do contexto – achei a menina muito desprovida de recursos dramáticos (especialmente nas cenas de “caos virtuoso”). Para quem tinha que “vestir” a pele de uma jovem libertária influenciada por várias vidas passadas, faltou a Manuela alguns anos de experiência como atriz – o que ela não tem.

Depois, a geralmente competente Charlotte Rampling parece estar constantemente tentando ser “agradável” como a mecenas francesa que lhe coube na história, mas ela não consegue fazer muito mais do que isso. Em uma das últimas cenas do filme, quando Ana é levada para descobrir as suas mais remotas raízes nos Estados Unidos, tive pena de Charlotte tendo que fazer um papel quase de “desesperada”, bem distante do que era a sua personagem até então. Os demais atores também são bem fraquinhos… Nicolas Cazalé e Raúl Peña, os dois “jovens objetos de desejo” em cena, parecem amadores, como Manuela – ainda que eles, diferente da jovem atriz, tenham alguns anos de experiência no currículo. Mas seus papéis são construídos de maneira tão fraca que eles parecem estar impossibilitados de fazer algo melhor.

Acho que o único que se pode dizer “regular” no filme é o ator Matthias Habich, que interpreta o pai de Ana. Ele fala pouco, mas imprime com o olhar e com o gestual o tom exato de seu personagem contido e apaixonado pela filha. Também pareceu coerente em seu papel Bebe, cantora que vive em Madri e que lançou seu primeiro disco em 2004. Se bem que, pelo que andou dizendo o diretor em entrevistas e no material de divulgação do filme, parece que o papel dela ficou mais “legítimo” porque ela interpretou Linda da maneira que quis, resultando em uma personagem bem diferente do que a que ele tinha imaginado com o seu roteiro.

Feitos estes comentários dos atores, vamos ao roteiro. Uma história que conta o encontro de uma jovem criada um tanto isolada do mundo e com um forte senso de liberdade com o mundo pode render um bom filme. Assim como a premissa de que esta jovem exerce tanto “fascínio” (em mim ela não exerceu, mas tudo bem… em teoria, pelo roteiro, ela deveria ser como uma “hipnose” para os que estão a sua volta) nas pessoas porque ela carrega em si a força de várias mulheres jovens mortas prematuramente em vidas passadas – suas reencarnações anteriores – também poderia render algo interessante. Mas, no fim das contas, pela interpretação da protagonista e de seus companheiros de elenco e, também, deve-se dizer, por um roteiro um tanto perdido em “viagens autorais” de Medem nos encontramos com um filme fraco, previsível, arrastado e ruim.

A inovação é algo interessante e importante. São bem-vindos sempre os diretores e roteiristas que resolvem fazer algo diferente, criativo. Reviravoltas e surpresas no roteiro agradam platéias. Mas tudo isso funciona quando existem atores que convencem e linhas escritas com precisão, sem devaneios, sem “coelhos tirados da cartola” ou, pelo menos, que não terminemos nossa aventura cinematográfica dizendo um grande “E daí?”. Nos filmes anteriores de Medem que citei aqui no início ele conseguiu ser inventivo e aliar, naquelas produções, uma interessante precisão narrativa (com um olhar curioso da câmera muitas vezes) com curiosas linhas de falas para os seus atores. Além disso, ele contava com atuações marcantes de Fele Martínez, Najwa Nimri (de Los Amantes del Circulo Polar) e de Paz Vega (de Lucía y el Sexo). Mas nada disso aconteceu neste Caótica Ana.

O final do filme, em especial, é algo absurdamente irritante. Desde Saló ou 120 Dias de Gomorra, de Pier Paolo Pasolini, que considero um dos piores filmes que eu já vi na vida, eu não tinha visto uma alusão à merda, literalmente, tão ridícula. Além do filme ser chato e arrastado, como eu disse antes, ele ainda termina da maneira com que termina. Realmente, uma grandíssima perda de tempo. Só espero ver algo melhor da próxima vez ou terei que ficar afastada dos cinemas por um tempo para me recuperar. hehehehehehehe.

E a história… coisa mais irritante do mundo aquela insistência em “regressar” às vidas passadas de Ana, gravando em vídeo as suas narrativas de mortes violentas ou então fazendo com que ela lembrasse o que ocorreu. Além de chatas, repetitivas e sem um fundo prático – afinal, aquelas sessões de hipnose não estavam ajudando ela em nada -, estas voltas acabem desencadeando uma fuga da personagem ainda mais sem sentido com Ismael, o pai (!!!??!!) de Linda para Nova York – personagem interpretado por Lluis Homar. No fundo, tudo parece um sonho sem graça.

NOTA: 2.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Na verdade eu tinha pensado em dar um categórico 0 ou então a nota 1 para esse filme, mas em consideração ao diretor, que fez filmes muito interessantes anteriormente, dou esse 2.

Além dos atores já citados, faz parte do elenco Asier Newman como Anglo, o jovem que cai de páraquedas na vida de Ana e que resolve “ajudá-la” a descobrir o que está fazendo ela entrar em crise. Especializado em hipnose, é ele que começa a trabalhar com a jovem artista para ir “recontando” as suas vidas passadas e, assim, encontrar a base “feminista” de seu dilema atual. Nada mais vago e sem verdadeiro argumento para convencer a quem for. Outro ator que está no elenco é o veterano estadunidense Gerrit Graham. Ele interpreta o Mr. Halcon, um pretenso político importante dos Estados Unidos que é um “senhor da guerra” e que acaba aparecendo no “grand finale” de Caótica Ana de maneira, digamos, ridícula. Tem gente que aparece só para morrer, enquanto outros aparecem para… hehehehehee. Não vou contar para não estragar a merda de surpresa.

Segundo o diretor na página que criou para o filme, Caótica Ana conta a história-viagem da personagem durante quatro anos: de seus 18 até os seus 22 – o curioso é que essa “diferença” de idade não fica visível no filme, exceto pelos cortes de cabelo diferente, que não querem dizer muita coisa.

O filme também seria uma homenagem do diretor a sua irmã, Ana, morta em 2000 em um acidente de trânsito. Boa parte dos trabalhos artísticos que aparecem no filme, aliás, eram de autoria da irmã do diretor, artista plástica. Só achei que ela merecia uma homenagem melhorzinha…
Caótica Ana teria custado € 9 milhões e teve filmagens no deserto do Saara, em Nova York, em Ibiza e Madri (ambas cidades espanholas).

No site IMDb Caótica Ana conseguiu a nota 5,7 dos usuários, enquanto que o site Rotten Tomatoes publica apenas duas críticas, uma positiva e uma negativa.

ATUALIZAÇÃO: (SPOILER – não leia se não assistiu ao filme). Tinha me esquecido de comentar algo antes… segundo o diretor, Caótica Ana é uma “ode” a mulher contra o homem branco. Depois fiquei pensando naquele final infame… a jovem Ana, um tanto “despirocada” e perdida no mundo, sem seu amor, trabalhando em um restaurante de Nova York, resolve seduzir o “homem da guerra”, o “homem branco” culpado de todas as guerras e pecados do mundo… seria essa a mensagem do diretor? E ela resolve se “vingar” do tal “vil homem branco” daquela maneira, buscando sua própria morte? Agora, não sei se foi mais ridículo o que ela fez, como ele reagiu ou a maneira com que ela foi “salva”… o que tem a ver a coluna romana com ela ser romana?? Hein?? Acho que não cheguei na “pira” do diretor nesse momento… Supondo-se que ela tivesse algo de romana, o machadinho que matou ela em sua encarnação índia, a guilhotina que a matou em outra vida, os corvos do deserto e etc. não seriam de sua mesma origem?? E ainda assim ela não morreu nas outras vezes todas? Ai, alguém por favor volte a dar o remédio para esse diretor que ele está pirando…

CONCLUSÃO: Um filme extremamente pretensioso, que busca contar a história de um espírito livre confrontado com o mundo e que carrega em si vários “sentimentos” e lembranças de vidas passadas. O que poderia ser interessante se mostra extremamente chato, arrastado, mal feito e com interpretações ridiculamente sem profundidade. Faltou um roteiro melhor e um elenco idem. Exceto por um par de cenas bem dirigidas, praticamente todo o filme é uma grande bobagem. O final, ainda por cima, irrita. Realmente não vejo nada para poder indicá-lo para alguém.