Jodaeiye Nader az Simin – A Separation – A Separação

Uma cisão entre o compromisso com o passado e com o futuro. Como conseguir buscar o equilíbrio entre estes dois tipos de compromisso quando a realidade não permite este equilíbrio? A escolha entre um e outro sempre causa dor, mas a escolha sempre é possível. Sobre isso e muito mais é que trata Jadaeiye Nader az Simin, filme iraniano que é o grande favorito na categoria de Melhor Filme em Língua Estrangeira no próximo Oscar. Profundo e potente em diversos sentidos, este filme, com o título internacional de A Separation, tem todos os elementos e os méritos para sair vencedor.

A HISTÓRIA: Vários passaportes e outros documentos de identidade ganham luz em uma máquina de xerox. Lado a lado, Simin (Leila Hatami) e Nader (Peyman Moadi) discutem sobre o pedido dela para o divórcio. O juiz pede mais detalhes, porque não está convencido. Em poucos minutos, sabemos sobre o impasse que levou o casal até aquele lugar e situação. Simin quer sair do país, viver no exterior em busca de um futuro melhor para a família, especialmente para a filha Termeh (Sarina Farhadi). Nader resiste a sair de seu país, porque não quer abandonar o pai (Ali-Asghar Shahbazi), que está em estado avançado do Mal de Alzheimer. Frente ao impasse, Simin decide se separar e sair de casa. Com esse gesto, Nader, que trabalha o dia todo fora, é obrigado a contratar alguém para ajudar a cuidar do pai doente. Desta forma é que Razieh (Sareh Bayat) entra na vida da família, e tudo se complica.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso só recomendo que continue a ler quem já assistiu a Jodaeiye Nader az Simin): Gostei muito da forma direta com que o filme começa. Logo nos primeiros minutos, sabemos sobre a essência do impasse do casal. De um lado, o compromisso de Nader com o pai, que simboliza as suas raízes, o seu passado – e, de forma intrínseca, a tradição do Irã. De outro lado, Simin e toda a sua amorosidade cheia de fibra, que busca fora do país as oportunidades que ela não vê no Irã – sendo mulher, ela sabe o que a filha poderá esperar dali no futuro.

Logo de cara, o personagem de Nader parece irrepreensível. Simin, para alguns, pode parecer uma traidora. Mas logo na cena da separação, no início do filme, cada um apresenta os seus argumentos. E Simin revela como a ideia de buscar um futuro melhor fora não foi só dela. Ainda que não tenhamos detalhes sobre o que aconteceu – nem no começo, e muito menos depois -, sabemos que o casal passou 18 meses trabalhando e ganhando dinheiro para conseguirem um visto para morar fora do país. E seis meses depois, faltando 40 dias para o prazo expirar, Nader resolve que não quer mais morar fora.

Enquanto o marido se agarra à enfermidade do pai como um forte argumento para não partir, Simin comenta que o estado avançado da doença não deixa nem ao menos o velho reconhecer quando o filho está próximo. Mas para Nader, isso não significa nada. O pai estar consciente ou não sobre o filho estar cumprindo as suas responsabilidades não vem ao caso. O compromisso dele independe do reconhecimento. Primeira grande lição do filme. Contra o argumento do compromisso com o passado, Simin rebate sobre o futuro da filha do casal. Ela diz que não quer que Termeh cresça sob “aquela situação”. O juiz pergunta sobre que situação ela está se referindo, e se as crianças daquele país não tem futuro. Simin não responde. E nem será preciso, porque o resto do filme responderá por ela.

Antes disto acontecer, Simin revela que a filha fará 11 anos duas semanas depois. Com esta idade, a menina só pode viajar com a mãe para fora do país com a permissão do pai. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Simin consegue o divórcio, mas não consegue o que mais gostaria, que é a presença da filha. Termeh decide ficar com o pai e o avô, enquanto a mãe vai para a casa dos pais. Ela não quer deixar o país sem a filha, mas também não pensa em continuar convivendo com Nader, com quem se decepcionou. E o filme segue em um crescente de conflitos e de decepções.

Inicialmente, como eu comentei antes, Nader parece o lado correto da história. O pêndulo está de seu lado. Simin, em uma leitura ligeira, parece apenas estar se livrando de um problemão, o de ter um sogro em estado avançado do Mal de Alzheimer. Mas as coisas não são tão simples assim, como o filme vai mostrando aos poucos – eis outra lição, de que qualquer leitura ligeira sobre uma determinada realidade tem uma grande probabilidade de estar errada.

A “situação” aquela da qual Simin quer afastar a filha é logo revelada. (SPOILER – não leia se você ainda não assistiu ao filme). Para começar, um grande disparate entre as pessoas que vivem naquele país. Homens como Nader, que trabalham em um banco, estão em um patamar muito mais elevado do que Razieh e seu marido desempregado Hodjat (Shahab Hosseini). Não apenas uns tratam os outros de forma diferente, mas também a Justiça trata os indivíduos de forma distinta. Certo que Hodjat parecia sempre estar um tom acima do razoável, enquanto Nader mantinha a tranquilidade frente ao juiz mas, ainda assim, fica evidente o tratamento diferenciado que uns e outros recebem.

O tratamento de Nader com Razieh foi muito desigual desde o início. (SPOILER – não leia… bem, você já sabe). E aqui talvez entre em jogo outra questão da sociedade iraniana: a supremacia do homem sobre a mulher. Ainda que eu tenha achado aquela sociedade mais “liberal” que outras do Oriente, porque Simin aparece dirigindo um carro, por exemplo, e porque é possível mulheres e homens dividirem os mesmos espaços sem grandes restrições, sempre parece que o homem tem uma voz mais ativa que a mulher. Outro ponto da “situação”. Nader não cede em nada que Razieh argumenta no início. Ele não se importa se ela tem que sair de madrugada de casa, carregando a pequena Somayeh (a encantadora Kimia Hosseini) pela mão. Ele não dá bola quando ela reclama que ele estava pagando pouco. Isso porque Nader sabe que há muita gente sem emprego, desesperada, e que se submeteria ao que ele estava propondo – mesmo sendo injusto.

O roteiro do diretor Asghar Farhadi é brilhante. Além de ir direto ao ponto no início, de apresentar rapidamente aquela que parece ser a questão primária da separação – mas que depois, vamos descobrindo, ser apenas uma parte das razões -, ele vai aumentando a tensão conforme o filme se desenrola. Partimos do conflito para o drama e, depois, para a tensão de uma disputa judicial com promessas de rompantes de descontrole – e, talvez, violência. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Achei fascinante como Nader começa ganhando a batalha da simpatia do espectador, por não querer abandonar o pai doente – o que parece um argumento irrefutável -, e como depois ele vai perdendo pontos, conforme vai deixando a máscara cair. E mesmo que Simin não apareça tanto quanto ele na história, ela vai virando o jogo quando se solidariza com o ex-marido – mesmo que, novamente, sob o argumento de proteger a filha do casal.

E este é, para mim, o ponto fundamental desta história. (SPOILER – não leia… bem, você já sabe). Pai e mãe argumentam, sempre, que estão buscando o melhor para a filha. E a ótima Sarina Farhadi, que interpreta a menina, fica apenas observando. Como nós também. Até que percebemos que ela nunca foi a razão principal da disputa. Nem do pai, nem da mãe. Ela se decepciona com a mãe, e fica triste quando ela realmente sai de casa. Depois, se decepciona com o pai, quando descobre que ele mentiu sobre algo fundamental – e pior, que fez ela mentir. Simin não se separou apenas porque queria sair do país. E Nader não ficou apenas por causa do pai. O casamento estava arruinado por outras razões, ainda que a desculpa do “melhor para a filha” permaneça nos discursos de Nader e Simin. Para resumir, ele não era o santo que parecia. E ela também não era a “megera desalmada” que uma análise rápida poderia levar a crer.

Famílias sempre são complexas, e as relações entre seus membros também. Há muito amor em jogo e, na falta dele, ressentimentos. Mas este filme fala também de comprometimento. Aliás, eis uma carga pesada em cena. Há compromissos com os pais, há responsabilidades com os filhos. E no meio de tudo isso, uma grande desigualdade entre classes sociais, que torna a conta que alguns tem que pagar muito mais pesada. Ainda que, mesmo os “abastados”, também tenham as suas faturas nada leves.

Outra questão que chama muito a atenção no filme é a questão da religião. Fica claro que alguns no Irã não tem apego nenhum pelo Corão, enquanto outros, como Razieh, são muito religiosos. A ponto de ligar para pedir uma consulta antes de praticar algum ato que possa ser considerado pecado. Quem não tem esta religiosidade, como Nader, parece considerar a religião algo de pessoas menos “instruídas”. Outra diferença grande entre as famílias que acabam se chocando nesta história. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Sobre o grande mote do conflito entre estas famílias, evidente que Razieh não fez certo ao deixar ao velho senil em casa sozinho. E que Nader teve razão em ficar desesperado. Mas isso não tira a responsabilidade dele, ainda mais naquela sociedade, por ter sido tão bruto com aquela mulher. E sabendo da situação dela.

Chocante a forma com que ele tratou Razieh sem um pingo de consideração pela filha dela estar vendo tudo. (SPOILER  não leia… bem, você já sabe). Depois, impressionante também como ele não quis ceder em absolutamente nada para ajudar ela ou a família. Entendo e acho justo que ele não quisesse ser condenado por algo que ele não fez. Mas ele tinha condições de ter tornado a vida deles menos miserável. Simin quis colocar panos quentes, e levou a questão do acordo até o final.

(SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Interessante a surpresa dela, assim como a dos demais, quando Nader pede para que Razieh jure sobre o Corão. Não houve piedade, em nenhum momento, e nem a capacidade mínima dele ceder em algo. Como é possível ter uma família assim. Como é possível ensinar valores para uma filha com esta filosofia? Não basta amar o passado e ter responsabilidade com os ancestrais. É preciso mais que isso. Qual seria a decisão final de Termeh? Pouco importa. E este é o final perfeito. Nader de um lado, Simin de outro. Não apenas do corredor, separados ainda por um vidro – sem possibilidade de comunicação, o que eles pareciam incapazes de ter. Mas na vida e no futuro. Talvez o espectador conseguiu escolher um lado. Como Termeh. Mas isso, também, pouco importa.

NOTA: 9,8.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Eu achei o filme perfeito. Roteiro incrível. Direção precisa, dando o devido protagonismo para os ótimos atores. Peyman Moadi, como Nader, e Leila Hatami, como Simin, são impressionantes. Cada um com as suas características – de quase permanente fúria, por um lado, e de costumaz racionalidade, de outro. Grande observadora da história, assim como nós, Sarina Farhadi também está ótima, com uma interpretação bastante comedida, mas muito emotiva. Ela, aliás, é filha do diretor – achei isso interessante. Sareh Bayat dá um banho. Shahab Hosseini está sempre um pouco além do tom, característica do personagem dele, o que torna o filme sempre um pouco tenso quando ele aparece em cena – ele parece carregar uma mágoa constante, e que ultrapassa aquela questão específica. E a pequena Kimia Hosseini como Somayeh rouba a cena a cada aparição. Grande trabalho também de Ali-Asghar Shahbazi. Não é fácil fazer o personagem do pai sênil.

Todos estiveram muito bem. Mesmo os atores secundários, como Babak Karimi, juiz que fazia os interrogatórios, ou Merila Zare’i, como a professora Ghahraii. Sem eles, os momentos tensos do filme – e eles não são poucos, para a nossa surpresa – não seriam tão verdadeiros e relevantes.

Mas nem tudo é perfeito, infelizmente. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Sei que a maioria de vocês, meus caros leitores, vai discordar de mim. Mas paciência. Vocês sabem que não deixo de opinar, mesmo sabendo que posso não agradar a todos. Queria muito ter dado um 10 para este filme. Mas algo que ele deixou sem resposta me incomodou muito. Afinal, foi muito relevante para a história a acusação de Nader sobre o roubo do dinheiro. Ele se descontrolou com Razieh não apenas por causa do pai, mas do alegado roubo. E ela, principalmente, tão religiosa, ficou mais indignada com esta acusação do que com o restante. E eis que o filme não nos explica, afinal, o que foi feito daquele dinheiro. Ele caiu atrás da gaveta e depois Nader o encontrou? Termeh havia pego ele por alguma razão e depois o devolveu? Nader havia colocado o dinheiro em outro lugar? Somayeh pegou ele sem falar para ninguém? Porque quando a menina disse para Nader que a mãe não tinha pego o dinheiro ele disse que sabia? Muitas perguntas sem respostas. E essa era uma questão fundamental. Isso me incomodou, a ponto do filme não receber a nota máxima – apesar de ter tantas qualidades.

Todo o filme é muito bem acabado, tecnicamente. Mas merecem menções os trabalhos de edição de Hayedeh Safiyari, fundamental para o bom ritmo da produção; a direção de fotografia bastante limpa e luminosa de Mahmoud Kalari; e o som captado por Mahmoud Samakbashi e equipe.

Incrível como uma ótima ideia e roteiro podem resultar em um filme barato. A Separation teria custado aproximadamente US$ 800 mil. Depois de estrear em apenas três cinemas nos Estados Unidos no dia 1º de janeiro, ele acumulou, até o último dia 22, pouco mais de US$ 541 mil de bilheteria. No restante do mundo, ele tinha acumulado pouco mais de US$ 13,4 milhões até o dia 30 de dezembro. Fiquei muito feliz em saber que o filme foi tão bem em diferentes países – com destaque para a França que, sozinha, garantiu US$ 6,1 milhões em bilheteria para ele. Desta forma, Farhadi deve continuar produzindo grandes histórias pra gente. 🙂

A Separation estreou no Festival de Berlin no dia 15 de fevereiro de 2011. Depois, ele passou por outros 28 festivais. Um número impressionante. Mas que ajudou, e muito, ao filme ser divulgado e reconhecido – com méritos. Até o momento, ele ganhou impressionantes 43 prêmios, e foi indicado a outros 20 – incluindo dois Oscars. Caso ele ganhar uma das estatuetas douradas mais cobiçadas de Hollywood, no próximo dia 26 de fevereiro, ele terá fechado um ano recheado de prêmios. Entre os que recebeu, destaque para o Urso de Ouro no Festival de Berlin como o melhor filme concorrente em 2011, e os ursos de prata de melhor ator para Shahab Hosseini e Peyman Moadi e os de melhor atriz para Leila Hatami e Sareh Bayat. Destaque também para o prêmio de melhor filme em língua estrangeira dado pelo National Board of Review e o de melhor filme no Festival de Cinema de Sydney.

Agora, algumas curiosidades sobre A Separation: grande parte desta produção foi rodada com uma câmera de mão. Este foi o primeiro filme a ganhar três ursos no Festival de Berlin, a primeira produção do Irã a ganhar um Globo de Ouro como melhor filme estrangeiro e a primeira daquele país a concorrer a um Oscar pelo seu roteiro.

Pela segunda vez na história um filme do Irã é indicado ao Oscar de Melhor Filme em Língua Estrangeira. Antes dele, concorreu à estatueta Children of Heaven, dirigido por Majid Majidi.

Para os curiosos, como eu, sobre as locações dos filmes: A Separation foi totalmente rodado na cidade de Teerã.

Os usuários do IMDb deram a nota 8,6 para o filme, uma avaliação muito boa para os padrões do site. Os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes, por sua vez, dedicaram 86 críticas positivas e apenas uma negativa para a produção, o que lhe garante a impressionante marca de 99% de aprovação – e uma nota média de 8,8. Praticamente insuperável esta aprovação. O que torna a corrida dele no Oscar ainda mais tranquila.

CONCLUSÃO: Um filme potente sobre as razões de fundo que podem fazer um casal com uma bela filha e história se separar. A vida é complexa, e Jodaeiye Nader az Simin, mais conhecido como A Separation – título do mercado internacional – deixa isso muito claro. Com um roteiro sem sobras e com muitas cenas de tensão, o diretor Asghar Farhadi dá um show sobre interpretação de uma realidade social tendo um núcleo familiar e seus conflitos como argumento primário. As desigualdades do Irã ficam claras nesta produção, que não se limita àquele território porque trata de temas universais. Não apenas família, compromisso com o passado e com o futuro, mas também respeito pelo próximo, compaixão, amor e a perda da inocência a respeito dos nossos progenitores. Um grande filme, que não é perfeito apenas por um detalhe. De pouca importância, eu admito, mas que, ainda assim, impediu o tão aguardado 10. De qualquer forma, é imperdível.

PALPITE PARA O OSCAR 2012: Mais uma vez, não posso fazer uma análise totalmente embasada porque, afinal, não assisti aos outros concorrentes de Jodaeiye Nader az Simin ao Oscar de Melhor Filme em Língua Estrangeira do Oscar deste ano. Ainda assim, pelos prêmios que recebeu, pela quase total unanimidade da crítica e, claro, pela qualidade deste filme, posso dizer que ele tem 90% de chance de receber a estatueta dourada no próximo dia 26 de fevereiro.

Seria uma grande surpresa se esta produção não recebesse o Oscar. Esta sim, seria a grande zebra da premiação deste ano. Acredito que todas as apostas estejam nele. E seria algo bacana para Hollywood. Afinal, de uma maneira muito sutil, Farhadi critica a “situação” das coisas do Irã, um país governado pelo combatido presidente Mahmoud Ahmadinejad. Certamente seria um tapa com luva de pelica dar um prêmio tão importante para a indústria do cinema para um filme que trata sobre ruptura, sobre o “fim dos sonhos” de um casamento e de tantas outras questões tratadas com bastante simbologia nesta história. Mesmo sem ter assistido aos outros quatro concorrentes, se eu fosse apostar, apostaria neste filme como vencedor.

SUGESTÕES DE LEITORES: Só agora, ao responder aos recados dos bons leitores deste blog deixados em janeiro que eu percebi que A Separation tinha sido indicado por dois leitores: Vander e Mangabeira, ambos no dia 22 do mês passado. Meus caros, grande filme este, hein? Provavelmente o vencedor do Oscar de Melhor Filme Estrangeiro hoje à noite, na entrega do Oscar. Merecido, ainda que eu não tenha visto aos outros concorrentes para poder comparar. Obrigada por mais esta dica, Vander e Mangabeira! E inté mais!

The Descendants – Os Descendentes

Você leva a vida com muita lógica e ordenada, até que ela, a vida, te dá uma rasteira. E, normalmente quando isso acontece, a rasteira não é individual, mas plural. The Descendants fala de uma rasteira destas da vida, que mexe com estruturas, convicções e que, no final, deixa tudo diferente. É um filme que começa de forma excepcional, com umas linhas de roteiro que te impulsionam a ir atrás do nome de quem as escreveu depois. Só que lá pelas tantas, depois da metade do filme, você descobre que aquele começo vai perdendo o fôlego. Nada trágico. Apenas um elemento a mais para o grupo de “essas coisas acontecem”.

A HISTÓRIA: Uma linda mulher aparece sorrindo, em êxtase fazendo esqui aquático e com um dia azul estonteante como cenário de fundo. Elizabeth King (Patricia Hastie) estava feliz, pouco antes de sofrer um acidente trágico. O último sentimento vivido por ela não seria o mesmo compartilhado pelo marido, Matt (George Clooney), pelas filhas Alexandra (Shailene Woodley) e Scottie (Amara Miller) a partir daquela cena. Matt explica o que está acontecendo ao ironizar como seus amigos do “continente” pensam que ele vive no paraíso apenas por residir no Hawaii. Após confidenciar de que ele não subiu em uma prancha de surfe nos últimos 15 anos, ele revela que passou os últimos 23 dias em um “paraíso” de intravenosas, sacos de urina e tubos no hospital. Olhando para Elizabeth, prostrada na cama, ele só pede que ela melhore, para que ele tenha uma chance de ser um bom marido e um bom pai. Mas Matt, junto com as filhas, terá que lidar com essa e outras situações além do que eles poderiam imaginar.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso só recomendo que continue a ler quem já assistiu a The Descendants): Eu dei muitas risadas com as primeiras linhas do roteiro que o diretor Alexander Payne escreveu ao lado de Nat Faxon e Jim Rash. Especialmente porque entendo bem essa aura ilusória que circunda as pessoas que moram em “paraísos”, segundo a opinião de muita gente. Hoje, vivo em Florianópolis, uma das cidades mais badaladas do país a cada novo Verão. Antes de vir para cá, morei em Madrid. Tanto em uma cidade como em outra, os que não moravam ali, sempre acharam que eu tinha muita “sorte” por morar nestes paraísos.

A grande questão, e The Descendants começa muito bem ao ironizar isto, é que paraísos não existem. Como bem escreveram os roteiristas, não importa a cidade “maravilhosa” em que você more, ou quanto ela é cobiçada por quem não reside ali: dores, problemas, doenças e tragédias acontecem nestes locais também. E o protagonista desta história vive, no tão comentado “paraíso” do Hawaii, um verdadeiro inferno. Melhor dizendo, um momento de ruptura importante em sua vida.

Achei especialmente interessante a quebra inicial do filme. Vemos Elizabeth em um momento de êxtase, de felicidade extrema. Mas aquilo terminaria em seguida. Interessante que a cena do choque, do acidente, não é mostrada. E nem precisa. É a típica imagem que sobra. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Porque é muito mais interessante mostrar como um grande momento de alegria pode ser, de uma hora para a outra, substituído por nada. Aquele momento de aventura, de alegria, pode ser o último de uma vida. Em seguida, essa ideia de “viva a vida intensamente” e “faça as coisas para não se arrepender depois” é reforçada pela confissão do protagonista de que ele espera a esposa acordar do coma para recuperar o “tempo perdido”. Com ela e com o restante da família.

O problema é que as coisas não funcionam assim. Não decidimos que rumo a vida vai assumir. Há decisões, claro, que estão nas nossas mãos. Mas tantas outras independem da gente… gosto sempre de pensar naquela imagem de uma pessoa com braços estendidos. A capacidade dela de decisão e “domínio” termina nas pontas de seus dedos. A partir dali, ela não tem controle. O protagonista descobre isso, com bastante idade, tendo duas filhas para criar. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Não importa a reza ou a ideia de “injustiça” sobre uma morte tão prematura. A vida acontece independente deste parâmetros.

Estas são algumas das primeiras lições de The Descendants. Que trata, obviamente, sobre a dura tarefa de lidar com o imprevisível – especialmente quando ele é trágico. (SPOILER – não leia… bem, você já sabe). E de lidar com a perda definitiva, que é sempre triste, trágica, mas que precede o momento decisivo de seguir em frente. Outros filmes já trataram sobre isto. E alguns, quem sabe, de forma até mais competente. Cito apenas alguns dos quais eu me lembro, e que estão comentados aqui no blog: temos a “loucuragem” alternativa de Hesher, a poesia magistral de Kirschblüten Hanami e, mais para os padrões de Hollywood, Grace is Gone, Things We Lost in the Fire, entre outros. Lembro também de In the Bedroom, filme que eu assisti antes de começar este blog e que trata um pouco sobre isso de como a vida continua seguindo o seu rumo “normal” mesmo quando algo trágico aconteceu e o seu próprio mundo nunca mais será o mesmo.

Mas, claro, The Descendents não trata apenas disto. Como o título mesmo sugere, a essência do filme dirigido por Alexander Payne está nas lições que ousamos deixar para os nossos descendentes. Que herança você quer deixar? Vivendo um momento extremamente difícil, parece ser esta a pergunta que está na cabeça do protagonista o tempo inteiro. (SPOILER – não leia se você ainda não assistiu a este filme). Tão duro quanto perder a mulher da vida dele, com quem ele gostaria de ter uma segunda chance, é saber que ela estava fazendo outros planos enquanto ele tocava a vida normalmente. Descobrir a traição dela, e de que muito do que ele entendia da própria vida não era válido, é algo com que ele tem que lidar enquanto administra a notícia de que Elizabeth não vai se recuperar e, de quebra, decidir o futuro da própria família e da região. Decisão essa que passa pela venda de um terreno irretocado e que mexe com a herança de seus antepassados.

A ideia de herança perpassa toda a história, aliás. Seja pela decisão do terreno, que resgata fotos e memórias antigas, origens étnicas mescladas, seja pelas lições que o protagonista vai dando para as suas filhas, mesmo sem saber exatamente o que ele mesmo está fazendo. Engraçada a forma com que o “pai substituto”, o segundo na relação com as filhas, lida com problemas comuns do cotidiano. Com a birra da filha mais jovem, Scottie, e com a rebeldia da mais velha, Alexandra. Se bem que a resistência da garota dura pouco. O que é surpreendente e que torna a história interessante. Afinal, Matt descobre na filha, de quem sabia pouco, uma parceira fundamental para lidar com os próprios problemas. E esta é a relação que faz tudo valer a pena.

Há um momento no hospital que pode render alguma “polêmica”. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Na primeira visita à mulher em coma, depois de descobrir que ela lhe estava traindo, Matt tem um acesso de fúria. Mas em seguida, quando Alexandra desabafa e também tem um chilique, ele tira Scottie de perto e repreende a filha mais velha. Para alguns, ele foi hipócrita, talvez incongruente. Eu já vejo aquele trecho como muito honesto. Os pais erram tanto ou mais que os filhos, muitas vezes. Mas eles devem sempre tentar ensinar bons princípios para os descendentes, mesmo quando eles mesmos pecam nestes ideais. Para os filhos é difícil entender isso e, alguns, acredito, nunca serão capazes de entender que existe uma diferença entre responsabilidade em dar o exemplo e ensinar e a própria capacidade humana de acertar. É preciso ter compreensão, aprender a perdoar. E saber que os pais eternamente terão o papel de nos ensinar o melhor, mesmo quando para eles o caminho do bem seja complicado de ser seguido.

Eis um ensinamento importante de The Descendants. E ele não está tão evidente, quanto outros, que acabam ficando atér forçados. (SPOILER – não leia… bem, você já sabe). Me irritou, por exemplo, a forçada de barra na decisão sobre a venda do terreno. Claro que algumas vezes o discurso público apenas esconde as verdadeiras razões, escondidas no íntimo. Teria me convencido muito mais ele não vender o terreno para a primeira opção, pelos motivos explicados pelo filme. Mas ao invés de fazer um discurso sobre preservação ambiental, que contradizia toda a convicção que ele tinha até o acidente de Elizabeth, faria mais sentido ele ter escolhido a segunda opção para a venda. Só aquela visita dele ao terreno com as filhas não foi suficiente para uma “tomada de consciência”. Achei forçado. Assim como achei forçada a visita final no hospital e a reação do protagonista. Exemplos de como o roteiro, que começou tão bem, deu aquela desafinada da metade para o final.

As reflexões mais interessantes do filme são as menos evidentes. Além daquela citada anteriormente, do discurso do pai ir além da capacidade dele mesmo atuar com aquela perfeição ensinada, vi outra envolvendo os personagens de Sid (o divertido Nick Krause) e Scott Thorson (o veterano Robert Forster), pai de Elizabeth e sogro do protagonista. (SPOILER – não leia… bem, você já sabe). No início, Sid parece um garoto muito, mas muito sem noção. Sei que hoje é considerado politicamente incorreto, mas eu também fiquei me perguntando se ele não tinha algum retardo mental. Depois, o filme inteiro mostra a dureza de Scott, e o quanto ele, por amar tanto a filha, poderia ser injusto com o genro e o restante da família. E ainda assim, o que The Descendants nos motra, e de forma muito natural, sem discursos, é que tanto Sid quanto Scott tinham suas próprias dores, histórias, boas lembranças e ensinamentos a repassar. Todos tem isso tudo. Mesmo que algumas vezes a gente tente simplificar com enquadramentos e classificações injustas, com rótulos ligeiros.

Sem dúvida, The Descendants tem boas intenções. E, inclusive, alguns ensinamentos interessantes. Pena que, como tantas vezes que alguém tenta nos ensinar algo, parte do discurso se perca no caminho. A obsessão do personagem por fazer o certo, mesmo quando isso signifique ter um gosto estranho por se aproximar do inimigo, parece um bocado fora de propósito. Um tanto irônico, tratando-se de alguém que tenta ordenar a vida e dar bons exemplos para as filhas – porque, no fim das contas, por trás daquela “boa intenção” de fazer o que “Elizabeth gostaria”, ele estava mesmo é perseguindo o próprio desejo de entender o que aconteceu, de preencher lacunas e satisfazer o próprio ego. Mas eis que aqui pode estar o melhor ensinamento para os nossos descendentes: a gente acerta mesmo errando. E as gerações futuras, normalmente, são a nossa chance de redenção. Evolução, talvez. Assim esperamos.

NOTA: 9,3.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: O roteiro de The Descendants é uma adaptação do seu trio de roteiristas da obra de Kaui Hart Hemmings. O livro homônimo foi lançado neste início de ano pela editora Alfaguara. De acordo com esta sinopse, The Descendants é a obra de estreia da americana, que foi bastante elogiada pela crítica. O livro, de ficção, tem 304 páginas e aproveitou o galã George Clooney para estampar a capa da versão brasileira.

George Clooney, me desculpem os sensíveis, está especialmente belo neste filme. As paisagens ajudam, é verdade, como pano de fundo – especialmente nas sequências em que ele está na praia. Mas em vários momentos é possível ver o ator em sua melhor fase – não apenas de beleza, mas de segurança como ator. Ainda que ele esteja ótimo no filme, não vi muita inovação em seu trabalho em The Descendants. Neste personagem foi possível encontrar outros papéis vividos pelo ator. Não foi um trabalho único, para resumir. Mas ele está muito bem.

Por outro lado, quem rouba a cena é a jovem Shailene Woodley. Ela faz um papel difícil, de uma adolescente inconstante e, ao mesmo tempo, muito segura de si. Em parceria com Clooney e Krause, ela alça voo. Se destaca. Desde o primeiro minuto que aparece em cena e até o final, com destaque para as principais revelações do filme – na piscina e na sala da família -, Woodley segura a onda e mostra que tem muito para mostrar ainda como atriz. Uma bela surpresa. E merecidíssima a indicação da moça no Globo de Ouro e no Oscar.

Todos os atores coadjuvantes fazem um bom papel. Além dos atores já citados, merece uma menção especial ainda Beau Bridges como o primo Hugh, uma das vozes fortes da família King; Matthew Lillard como Brian Speer, em quase uma ponta no filme; e Judy Greer como a mulher dele, Julie.

Da parte técnica do filme, vale citar a trilha sonora bacaninha e cheia de referências “locais havaianas” de Richard Ford, com o apoio de Eugene Kulikov e Dondi Bastone; a edição competente e calibrada de Kevin Tent; e a direção de fotografia que se beneficiou muito da paisagem de Phedon Papamichael.

Desde a estreia de The Descendants nos Estados Unidos no dia 20 de novembro e até o último dia 15, o filme já havia arrecadado R$ 47,9 milhões nas bilheterias estadunidenses. Nada mal, mas também nada excepcional. O filme está longe de ser um arrasa-quarteirão – e, pelo perfil dele, nem imagino ele ampliando muito mais o limite atual.

The Descendants estreou no dia 2 de setembro em um festival não muito badalado dos Estados Unidos, o Telluride, promovido no estado do Colorado. Depois, o filme passou por outros sete festivais, incluindo os de Toronto, Nova York, Turin e Dubai.

Até o momento, The Descendants ganhou 34 prêmios, incluindo os Globos de Ouro de Melhor Filme – Drama e Melhor Ator – Drama para George Clooney. Entre as vitórias que o filme conquistou, destaque também para os prêmios de melhor ator, melhor roteiro adaptado, melhor atriz coadjuvante para Shailene Woodley e o de Top Films no National Board of Review; e os de melhor filme e melhor roteiro adaptado no Satellite Awards. No Oscar, que comentarei melhor logo abaixo, ele foi indicado em cinco categorias.

Os usuários do site IMDb deram a nota 7,9 para The Descendants. Não está mal, mas ficou abaixo da avaliação para o forte concorrente The Artist. Os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes, por sua vez, dedicaram 169 críticas positivas e 21 negativas para a produção, o que lhe garante uma aprovação de 89% e uma nota média de 8,2. Também abaixo da avaliação para The Artist.

Ah, e se você ainda não assistiu ao filme, uma dica valiosa: tente não ler muita coisa sobre ele e, muito menos, assistir ao trailer. Leituras e o vídeo de apresentação do filme vão estragar algumas das surpresas e reviravoltas principais da produção.

CONCLUSÃO: Como eu disse lá no início, The Descendants começa inspirado. Com um texto de tirar o chapéu. E ainda que ele caminhe bem, embalado, até pouco mais de metade da história, os últimos 40 minutos da produção perdem o pique. O roteirista parece ter perdido a capacidade de surpreender e de sintetizar grandes desafios. Acaba escolhendo uma trilha mais fácil, um tanto difícil de acreditar, mas que parece ter sido pensada para cair no gosto do público que gosta de respostas deste tipo. Uma pena que um filme que tenha começado tão bem, perca o vigor por tanto tempo. Ainda assim, eis uma bela história sobre como lidar com as surpresas da vida. De como valorizar a família, repensar os próprios atos e saber perdoar. Das grandes lições da história, talvez a mais valiosa é de que todas as pessoas, por mais idiotas, “chatas” ou brutas que elas pareçam, tem a suas próprias histórias, dores e alegrias para lidar. Um filme que trata de parte do caráter humano, com belas atuações de George Clooney e de Shailene Woodley. Bacana, mas não é o melhor filme do ano ou mesmo na disputa para o Oscar.

PALPITE PARA O OSCAR 2012: A força e o carisma de George Clooney em Hollywood garantiram cinco indicações para The Descendants no maior prêmio da indústria do cinema dos Estados Unidos. Não foi injusto. Eis um bom filme. Que tem vários méritos, citados anteriormente. Mas que não é o melhor filme do ano. Pelo menos não é tão inovador e surpreendente quanto os outros dois que eu assisti e que estão na disputa: The Artist e Moneyball.

Até o filme com Brad Pitt, que eu comentei por aqui antes e que eu achei bacana, mas não excepcional, me pareceu, no cômputo geral, mais criativo que The Descendants. Digo isso porque há tantos outros filmes que tratam sobre perdas tão bem ou até melhor que esta produção estrelada por George Clooney, como eu comentei anteriormente… Sendo assim, acho que pelos méritos do filme e, especialmente, pela força de Clooney, The Descendants recebeu as cinco indicações que lhe eram devidas – e até com alguma sobra e uma ausência.

The Descendants foi indicado como Melhor Filme, Melhor Ator, Melhor Roteiro Adaptado, Melhor Diretor e Melhor Edição. Entendo os três primeiros, mas não sei se não foram exageradas as indicações de diretor e edição. Afinal, outros mestres da arte de dirigir ficaram de fora para abrir espaço para Alexander Payne. E a edição do filme é boa, mas não está muito acima da média. Achei um pouco injusto a Academia não ter indicado Shailene Woodley como Atriz Coadjuvante, mas paciência…

Nas categorias principais, francamente, não acho que ele mereça mais o Oscar do que The Artist. Mas como a maior premiação de Hollywood não tem, necessariamente, a ver com merecimento… The Descendants tem alguma chance de levar mais de uma estatueta para casa. De todas as categorias na qual ele está concorrendo, talvez a menos “injusta” dele ganhar seria a de ator. Clooney segura a história, dando a ela profundidade e o interesse precisos. Mas não mais que Jean Dujardin em The Artist…

O lobby, o carisma e a origem do dinheiro – The Descendants é uma produção made in USA, enquanto The Artist é uma co-produção França e Bélgica -, somados com a ideia de um filme mais “vendável” (porque é mais fácil de “tragar” do que uma produção quase toda de cinema mudo) podem fazer The Descendants ser o grande vencedor do Oscar deste ano. Não seria o meu voto. Não é o melhor filme em disputa. Mas também não seria, por assim dizer, um crime por completo. Ele tem boas intenções. E isso já é algo… Ainda preciso assistir a Hugo, o filme com o maior número de indicações do ano. E aí sim, poderemos tirar a prova dos nove. 🙂

The Artist – O Artista

Em que ano nós estamos? 2012… verdade. Mas então por que um filme mudo, inédito, ainda mexe tanto com a gente e causa tanto burburinho em Hollywood? Filme mudo não é coisa do passado? The Artist comprova, de forma surpreendente, que não. A graça e o charme de um cinema que não existe mais voltaram com força. Com um roteiro delicioso e com grandes sacadas, uma trilha sonora estonteante e uma dupla de atores protagonista de tirar o chapéu, The Artist se revela, de forma muito franca e simples, como um dos grandes filmes da temporada. E olha que eu já estava “contaminada” com a onda de elogios para ele. E ainda assim, a expectativa não foi forte o suficiente para torná-lo uma decepção. Pelo contrário. Eis, realmente, um grande filme.

A HISTÓRIA: 1927. O herói está sendo torturado por uns russos. A música extremamente dramática dá o tom para a platéia, com os olhos fixos na telona. Trancado em uma cela-cofre, o herói é despertado por seu simpático cãozinho. Saindo de lá, ele liberta a heroína. Atrás do telão, o astro George Valentin (Jean Dujardin) chega a tempo para assistir ao final do filme estrelado por ele. Quando a produção termina, ele faz graça para a platéia, que o ovaciona. Na saída, uma fã dele faz graça com o astro, é incentivada por um fotógrafo a dar um beijo nele e, desta forma, ela sai estampada no jornal. No dia seguinte, essa garota desconhecida leva um jornal consigo para o estúdio Kinograph, onde consegue um trabalho como figurante após mostrar seus dotes como dançarina. Neste momento, ela se apresenta: Peppy Miller (Bérénice Bejo). A estreia dela, ironicamente, é feita ao lado do ídolo, George. Mas com a chegada do cinema falado, ela passará a ser a estrela, que atrai multidões para os cinemas, enquanto George sai de cena.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso só recomendo que continue a ler quem já assistiu a The Artist): Mesmo as melhores comédias românticas dos anos 2000 não chegam aos pés do encanto, da sutileza e da graça dos grandes filmes mudos da primeira fase do cinema. Que o diga Charles Chaplin, Mary Pickford, Rodolfo Valentino e Buster Keaton. The Artist resgata um pouco daquela magia, acertando o tom na homenagem ao cinema que, de quebra, fala sobre valores um tanto esquecidos também, como a gratidão, a generosidade e a capacidade de reinventar-se.

Quando os atores não tinham voz e predominava o sistema das estrelas criadas por Hollywood, o nome principal de um filme era o chamariz para o público. Não se falava de diretores ou roteiristas. Para o público, eles não tinham muita importância. Mas grandes atores faziam toda a diferença. Eles ganhavam as platéias com graça, muitas caras e bocas e uma presença marcante que substituía a fala.

(SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). O personagem de George Valentin é claramente inspirado em Rodolfo Valentino, um galã do cinema mudo que não chegou a passar pela transição deste tipo de cinema para o falado. Mas na verdade, Valentin não tem apenas uma fonte de inspiração. Ele lembra, muitas vezes, Clark Gable, ou mesmo Gene Kelly, astros que ficaram famosos com o cinema falado. Kelly, aliás, estrou o clássico Singin’in the Rain, uma produção que trata também da transição do cinema mudo para o falado – mas com uma levada bem diferente daquela escolhida por The Artist.

A comparação de The Artist, com roteiro e direção do parisiense Michel Hazanavicius, e o clássico Singin’in the Rain, que este ano completa 50 anos e que foi dirigido por Stanley Donen e Gene Kelly, é inevitável. Afinal, ambos tratam do mesmo tema, a transição do cinema mudo para o falado e a dificuldade de alguns astros em se adequarem para a nova realidade. Ambos estão recheados de metalinguagem e autorreferenciamento. Mas enquanto o clássico é um musical, recheado de coreografias fantásticas de Gene Kelly, The Artist é um drama que bebe de fontes diversas.

Difícil é classificar The Artist. Como uma homenagem ao cinema, ele caminha por todos os seus gêneros, dos básicos comédia, drama e romance, até algumas pitadas de musical, aventuras de “capa e espada”, ação na selva e nas quadras. Uma coleção de referências. Mas para o filme funcionar, como em Singin’in the Rain ou na época do cinema mudo, foi fundamental o trabalho dos atores principais e da trilha sonora.

O trabalho de Ludovic Bource na trilha sonora é essencial e de tirar o chapéu. Exceto por duas sequências, The Artist é um filme 100% mudo. Com esta característica – o que o diferencia de Singin’in the Rain e o torna mais difícil de ser “atraente” nos dias atuais, nos quais as pessoas estão acostumadas com verborragia e necessitam de diálogos bem escritos nos filmes -, a trilha sonora se torna ainda mais fundamental para a história, porque é ela que dita o ritmo e “fala” pelos atores. De arrepiar o trabalho de Bource do primeiro até o último minuto do filme. Ele merece o Oscar.

A trilha sonora foi o primeiro elemento de The Artist que me chamou a atenção. Ela resgata o melhor da época em que o cinema era mudo e ainda inova, acompanhando cada momento desta nova produção com esmero. O segundo elemento que me chamou a atenção foi a qualidade dos protagonistas. O francês Jean Dujardin resgata as melhores qualidades dos astros de antigamente. Cada vez que ele sorri, a tela se ilumina – e as mulheres se derretem. Esta era uma qualidade fundamental na era das estrelas da época de ouro de Hollywood. E a argentina Bérénice Bejo faz o dueto perfeito com Dujardin. Se ele lembra os astros comentados anteriormente, ela, sem dúvidas, é inspirada na grande estrela do cinema mudo Mary Pickford.

O filme tem classe, tem uma trilha sonora impecável e uma dupla de protagonistas que encanta, que fascina, que arranca risos e que convence nos momentos de lágrimas escorrendo pelo rosto – no caso de Bejo. Mas além destes elementos, algo fundamental para este filme funcionar é a direção e o roteiro de Michel Hazanavicius. A história, mesmo que com um desenrolar um bocado previsível, prende o interesse do início ao fim.

Especialmente pelas ótimas sacadas do roteiro. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Relembrando Charles Chaplin, em The Artist o protagonista ganha muitos pontos de simpatia por causa do cachorrinho que lhe acompanha – que faz um dueto perfeito com o herói em crise. A participação do cachorro e o charme de Dujardin, assim como o carisma de Bejo, são fundamentais para o filme fluir convencendo.

Somado a isso, o roteiro tem pelo menos duas grandes sacadas: justamente quando o som entra em cena. (SPOILER – não leia… bem, você já sabe). Esta quebra na mudeza da história mostra os momentos em que o protagonista decide ceder, deixar o orgulho de lado e admitir que precisa recomeçar. Genial a sequência do pesadelo dele, e a simbologia de que há som em tudo, menos na garganta do personagem, que parece “incapaz” de falar. Evidente que ele não era mudo, mas de uma forma simbólica ele “não consegue falar” porque não admite a mudança na indústria que lhe rejeita como “ultrapassado”. Ele não luta contra isso. Prefere se desfazer de todos os bens e abraçar incontáveis garrafas de bebida do que pedir um favor para os “cartolas” do cinema ou aderir ao cinema falado. No final, outra vez, o som entra em cena, quando ele decide acreditar que é possível recomeçar.

Por estas e por outras, que The Artist não é apenas um grande filme sobre um momento decisivo do cinema. Ele não é apenas uma homenagem à Sétima Arte, seus artistas e bastidores, ou um roteiro cheio de metalinguagem. The Artist é também uma lição sobre recomeços, persistência e memória afetiva. (SPOILER – não leia se você ainda não assistiu ao filme). Por um lado, temos Valentin e sua dificuldade de ceder à passagem do tempo, de entender que uma forma de trabalhar terminou e que ela deve dar espaço para uma maneira diferente de atuar. Se ele é apaixonado por aquilo, deve se adaptar aos novos tempos. E saber lidar com a perda de espaço para novos talentos. Por outro lado, temos a ascensão de Miller e sua forma romântica e respeituosa de admirar Valentin. É linda a forma com que ela acompanha o astro, a quem admira. Diferente do clássico All About Eve, imperdível, aliás, ela não quer puxar o tapete de ninguém, mas fascinar os públicos e ajudar, sem intrometer-se demasiado, ao ídolo pelo qual sempre foi apaixonada. A relação deles é uma grande lição.

A direção de Hazanavicius é fascinante. Ele resgata os princípios dos filmes clássicos, destacando a interpretação e as expressões dos atores nos momentos adequados e mais reflexivos, mas imprimindo também uma dinâmica envolvente nas cenas de ação. Para conseguir isso, Hazanavicius conta com a ajuda do diretor de fotografia Guillaume Schiffman, que faz um trabalho primoroso ao resgatar a aura dos filmes preto e branco. Há estilo, charme e romantismo nesta forma de contar uma história. E os diálogos contidos comprovam como as palavras muitas vezes sobram. Há outros elementos muito mais significativos no cinema. E é muito bom revê-los como protagonistas nesta grande homenagem ao cinema, esta arte da qual tanto gostamos.

NOTA: 10.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Além dos protagonistas, já bastante elogiados, outros dois nomes se destacam nesta produção: John Goodman como o produtor e diretor de estúdio Al Zimmer; e James Cromwell como Clifton, motorista e braço direito do astro George Valentin. Os dois atores estão muito bem em seus papéis, ainda que o trabalho deles é claramente de coadjuvantes – as estrelas estão claras nesta produção. Duas atrizes também tem uma certa relevância como coadjuvantes: Penelope Ann Miller como Doris, mulher de Valentin; e Missi Pyle como Constance, estrela do cinema mudo e namorada de Zimmer. O grande Malcolm McDowell faz uma super ponta, de poucos segundos, e depois desaparece. Uma pena, porque ele é um grande ator – e que faz parte da ótima história do cinema.

Da parte técnica do filme, além dos nomes já citados, vale citar o ótimo trabalho da dupla de edição Anne-Sophie Bion e Michel Hazanavicius; a ótima direção de arte de Gregory S. Hooper; os figurinos de Mark Bridges e a decoração de set de Austin Buchinsky e Robert Gould.

The Artist foi ganhando a crítica, a opinião de quem faz Hollywood e crescendo na bolsa de apostas para o Oscar pouco a pouco. No início, quando estreou no Festival de Cannes em maio de 2011, ele não criou tanto burburinho. Mas garantiu, no festival, o primeiro de muitos prêmios de melhor ator para Jean Dujardin. Depois, o filme passou em outros 15 festivais. Mas começou a ganhar força mesmo quando estreou, de forma limitada, nos Estados Unidos em novembro. Daí as pessoas começaram a ter contato com a produção e a comentar sobre ela.

Nesta trajetória de festivais e por participar de outras premiações, The Artist vem acumulando prêmios. Até o momento, ganhou 42 prêmios, incluindo três Globos de Ouro, e foi indicado ainda a outros 77. Números impressionantes. No Globo de Ouro, o filme saiu vencedor nas categorias de Melhor Filme de Comédia ou Musical, Melhor Trilha Sonora (merecidíssimo) e Melhor Ator de Comédia ou Musical. Aliás, sendo justa, todos os prêmios muito merecidos. Entre os outros prêmios, destaco o de Melhor Filme no Festival de San Sebástian, na Espanha; e os de melhor filme e diretor pela avaliação dos críticos de Nova York.

Esta jóia do cinema teria custado aproximadamente US$ 12 milhões. Até o dia 15 de janeiro, apenas nos Estados Unidos, o filme havia faturado pouco mais de US$ 9,2 milhões nas bilheterias. Na França, ele acumulou pouco mais de 9,5 milhões de euros até o dia 20 de novembro. Juntando as bilheterias mundo afora, certamente o filme se pagou e ainda dará lucro. E com a possibilidade de ganhar alguns Oscar’s, possivelmente ele ganhará ainda mais dinheiro. Um incentivo para a arte e para projetos ousados, sem dúvida.

Co-produzido pela França e pela Bélgica, The Artist foi todo filmado na Califórnia. Certamente para dar mais veracidade para a história.

Uma curiosidade sobre o cãozinho simpático que aparece no filme: na verdade, ele é “interpretado” por três cães da raça Jack Russell Terriers. São eles: Uggie, Dash e Dude. Mesmo que eles dividam o “personagem”, a maior parte das cenas foi “interpretada” por Uggie.

A casa de Peppy no filme foi, na verdade, a casa da atriz Mary Pickford. Para aumentar ainda mais a “aura” de fidelidade da história, durante o tempo de filmagens, o ator Jean Dujardin viveu de forma isolada em uma casa dos anos 1930 em Hollywood Hills.

Este é o primeiro filme com tantas cenas que lembram o cinema mudo que estreia nos cinemas desde que Silent Movie, de Mel Brooks, estreou em 1976.

The Artist conseguiu uma nota ótima entre os usuários do site IMDb: 8,5. Superior ao de um de seus grandes concorrentes este ano, The Descendants, que tem apenas um 7,9 (ainda assim, uma avaliação muito boa para os padrões do site). Os críticos que tem seus textos linkados no Rotten Tomatoes também se renderam à The Artist, dedicando 166 críticas positivas e apenas cinco negativas para a produção – o que lhe garante uma aprovação de 97% e uma nota média de 8,8 (nota esta excepcional, levando em conta as notas para outras produções).

Este é o primeiro filme do francês Michel Hazanavicius que eu assisto. Fiquei curiosa para ver outros trabalhos dele. Vi que ele estrou como diretor há 20 anos, com um curta-metragem. Depois, dirigiu dois filmes para a TV, duas séries para a telinha – uma delas, um documentário -, fez outro curta e estrou no longa com Mes Amis, de 1999. Depois, fez outros dois longas e, atualmente, trabalha na pós-produção de Les Infidèles, estrelado outra vez pelo genial Jean Dujardin, e ainda com Guillaume Canet, Mathilda May e Alexandra Lamy. Ele merece ser acompanhado.

CONCLUSÃO: Não se fazem mais filmes como antigamente. Isso é verdade. Mas não quer dizer que seja algo ruim. The Artist ensina que o tempo passa. Que alguns valores e maneiras de encantar perduram. Mas que “o novo sempre vem” e que é preciso estar preparado para ele. A alta tecnologia, que permite criar realidades antes impossíveis de serem plasmadas na telona, e a imersão do público nas histórias são avanços que vieram para ficar. Ainda assim, a essência do cinema continua irretocada, e The Artist evidencia as qualidades primárias da Sétima Arte. Eis um filme delicioso, cheio de referências e homenagens, envolvente e simples. Como os grandes filmes do passado, mas lançado em 2011/2012. Para os amantes do cinema que já se aventuraram a assistir aos clássicos, será um deleite. Para os demais, quem sabe um convite bacana para olhar para o passado e aprender um pouco com ele? Independente da ótica com que se olhe para The Artist, ele merece os elogios que tem recebido. Ele lembra bastante Singin’in the Rain, é verdade. Mas se mostra mais ousado que o clássico do cinema por mostrar como a resistência ao novo pode mudar e limitar a realidade. Inteligente.

PALPITE PARA O OSCAR 2012: Difícil dizer, com certeza, o que será de The Artist no Oscar. Mas algo posso arriscar: este filme deve receber muitas indicações. Quantas delas ele ganhará? Isto sim, é um mistério. Vejo The Artist indicado como melhor filme, ator, roteiro original e trilha sonora. Com sorte, ele poderá ainda ser indicado nas categorias de melhor atriz, melhor direção de fotografia, melhor diretor, melhor figurino e melhor direção de arte.

Não assisti ainda aos outros concorrentes, principalmente a The Descendants, o outro grande vencedor do Globo de Ouro. Por isso, ainda fica difícil dizer se Clooney será o grande rei do próximo Oscar, levando os prêmios principais. O que eu já posso dizer é que se The Artist surpreender a todos e ganhar a maioria das estatuetas que disputar, não será nenhuma injustiça. O filme merece seus louros, e aplausos. Agora, o que falta é saber se Hollywood saberá ousar, mais uma vez, e render-se a um filme estrangeiro. Ou se continuará “bairrista”. Francamente, acho mais fácil ela seguir tradicional, apesar de todas as qualidades de The Artist.

ATUALIZAÇÃO (2/2): Bem, minha gente, agora já sabemos que The Artist foi indicado ao Oscar em 10 categorias. O segundo maior número de indicações do ano, apenas atrás das 11 chances de Hugo para sair vencedor da maior premiação do cinema de Hollywood no próximo dia 26.

Vale recaptular: The Artist foi indicado nas categorias de melhor filme, melhor diretor, melhor ator (Jean Dujardin), melhor atriz coadjuvante (Bérénice Bejo), melhor roteiro original, melhor edição, melhor direção de fotografia, melhor direção de arte, melhor figurino e melhor trilha sonora original.

De todas estas indicações, francamente, vejo que ele tem chances reais de ganhar nas categorias de melhor filme, melhor ator, melhor roteiro original, melhor diretor, melhor direção de arte, melhor trilha sonora e, quem sabe, melhor edição. Ainda que esteja fantástica, Bérénice Bejo tem um páreo duro para vencer: as intérpretes indicadas pelo filme The Help. Não seria injusto Bejo ganhar, mas acho difícil ela conseguir este feito. De qualquer forma, todo e qualquer prêmio que The Artist levar para casa será justo. E algum que ele perder, desde que não seja alguns dos principais, não será totalmente injusto também. Um exemplo: Dujardin merece ganhar como ator. Mas se Clooney levar a estatueta, não será nenhum crime. O galã de The Descendants está bem em seu filme.

Moneyball – O Homem que Mudou o Jogo

O cinema de Hollywood gosta de mostrar os bastidores de alguns dos esportes mais populares das terras do Tio Sam. E ele faz isso bem, geralmente. Mais uma vez, temos com Moneyball uma história que mostra os bastidores de um esporte. Desta vez, do beisebol. Mas eis que esta não é apenas uma história de superação – todos os filmes de esporte vão por esta onda, não é mesmo? -, envolvendo técnicos e jogadores. Moneyball trata sobre uma forma totalmente diferente de encarar a eficiência no esporte, de como é possível mudar a lógica estrutural de algo quando se aplicam conceitos de economia no meio. Surpreendente.

A HISTÓRIA: O filme começa com uma frase de Mickey Mantle: “É inacreditável o quanto você não sabe sobre o jogo que você esteve jogando durante toda a sua vida”. Em seguida, cenas de um rebatedor de beisebol concentradíssimo – e nervoso. As cenas são do dia 15 de outubro de 2001, em um jogo decisivo da Liga Americana de Beisebol. De um lado do campo, um orçamento de US$ 114,46 milhões, do famoso New York Yankees. E do outro, US$ 39,72 milhões do Oakland Athletics. Em um estádio vazio, Billy Beane (Brad Pitt) está sentado sozinho. Ele liga e desliga o rádio que transmite o jogo. O time que ele administra, o Oakland Athletics, perde a disputa. Mas ele será capaz, em um movimento arriscado, a entrar para a história com um grande feito e, de quebra, mudar a lógica do tradicional esporte.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso só recomendo que continue a ler quem já assistiu a Moneyball): Infelizmente não é todo mundo que gosta de números. No Brasil e em tantos outros países, o que faz sucesso são as “ciências humanas”. Fundamentais, elas, aliás. Eu mesma busquei este caminho, e o admiro. Mas a cada dia eu acho a lógica da matemática e dos números fundamental. Para tudo. Moneyball mostra a importância desta lógica e de uma escola econômica para o esporte. Mas essa mesma lógica pode ser aplicada em várias outras partes. Com eficácia.

Antes que alguém entenda errado o que eu escrevi, esclareço: não acho que a vida inteira se explique com números. Mas há uma dinâmica e uma repetição cíclica de fatos, uma previsibilidade no desempenho humano – seja ele aplicado no que for – que fascina. E que pode nos ajudar a buscar mais eficiência evitando erros conhecidos. Ainda assim, é claro, existe também o imprevisível. Verdade. Mas ele é apenas o contraponto de toda a previsibilidade calculável. Moneyball trata disso. E de muito mais.

A história de Billy Beane e sua equipe mostra como é preciso ser firme quando se está nadando contra a corrente. Quando existe convicção no que se está fazendo e indícios fortes de que se está apostando na virada certa, na solução necessária, é preciso insistir. E quando quem deveria contribuir para a mudança não faz isso, há alternativas. Esse resumo parece ser aplicável em várias situações, certo? Pois acredito que seja exatamente este tipo de reflexão que torna Moneyball mais interessante do que uma leitura rasa de que este filme aborde apenas os bastidores do beisebol. Não, ele é mais que isso.

Depois de conhecer Peter Brand (Jonah Hill) em uma tentativa de negociação com o time de beisebol de Cleveland, Beane precisa do apoio do técnico Art Howe (Philip Seymour Hoffman) e dos jogadores do próprio time para que as teorias de Brand dêem certo. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Mas Howe, resistente às mudanças, quer seguir com a lógica do beisebol de sempre. Ele não coloca os jogadores que Beane quer. Então o que ele poderia fazer? Pois ele adota medidas radicais, se livra dos jogadores problema e que faziam Howe bater o pé.

Mas por que não demitir, simplesmente, ao técnico? Isso é algo que o filme não explica. Pela história, ninguém diz que Howe seria insubstituível. Mas neste link da Wikipédia é possível perceber que ele era um dos bons técnicos do início dos anos 2000 – ainda assim, por não ser insubstituível, ele saiu da equipe Oakland Athletics em 2003. Em certo momento, Moneyball mostra um comentarista da TV dizendo que o mérito pelas então sete vitórias seguidas do time era de Howe – um erro comum, já que a maioria da imprensa enxerga mais o treinador do que a restante da equipe técnica como responsável por algum resultado. Mesmo assim, acho que o filme não aprofunda muito esta questão, o que torna ele menos interessante. Focado demais no personagem de Brad Pitt, claramente o “herói” da história, Moneyball perde a oportunidade de mostrar um pouco mais das intrigas e confabulações entre técnicos, jogadores, olheiros e demais personagens que fazem parte dos bastidores do esporte.

O filme também apresenta uma reflexão final previsível. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Como outras produções, Moneyball defende a ideia de que o dinheiro não é o mais importante. Mesmo que a lógica de Brand seja convincente, de que não está errado aceitar uma proposta milionária quando existe mérito para isso, o protagonista decide ficar onde está. Para continuar próximo da filha Casey (Kerris Dorsey), ele decide recusar o convite para ser o gestor do Red Sox. E também porque ele acredita que um time “menor” pode, um dia, bater a um gigante do esporte. Idealista, pai carinhoso, mas também um sujeito frustrado que, um dia, acreditou no sonho de um futuro fantástico, como esportista, e que viu suas ilusões terminarem sem o êxito pretendido/prometido.

A fórmula adotada pelo diretor Bennett Miller para contar esta história não é inovadora. Outros filmes que recontam fatos históricos, inclusive envolvendo o esporte, já utilizaram a técnica de intercalar imagens de arquivo da TV com a refilmagem com licenças “poéticas” sobre o que aconteceu nos bastidores daquelas histórias. O interessante é que mesmo você já tendo visto isto antes, o roteiro de Steven Zaillian e Aaron Sorkin, que utilizou a história de Stan Chervin como base – e o trabalho dele teve como fonte de inspiração a obra “Moneyball: The Art of Winning an Unfair Game” de Michael Lewis – consegue manter o interesse do espectador até o final.

Um pré-requisito para isso é a base de muitos e muitos filmes (SPOILER – não leia se você ainda não assistiu a Moneyball): depois que o protagonista e seu fiel escudeiro amargaram várias derrotas, eles começam a ter êxito com a estratégia controversa que adotaram. Mas isso será suficiente para que eles obtenham a grande e esperada vitória final? Essa tradicional lógica de altos e baixos com a indefinição sobre o final sempre dá certo para prender o espectador. À parte disto, e é preciso dizer, o elenco está muito bem. Sem muitos exageros, ainda que o Brad Pitt escorregue um pouco no excesso de caras e bocas. Também achei que o filme poderia ter mostrado um pouco mais a história dos jogadores que ajudaram ele a mudar a história do beisebol – afinal, por mais que a maior parte do mérito fosse de Beane, aqueles jogadores colocados nas posições certas foram decisivos para que o time chegasse à marca histórica de 20 vitórias seguidas.

Fora esta falha “estrutural” e de profundidade, gostei muito da reflexão que o filme provoca no foco específico do esporte. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Fiquei pensando, o tempo todo, na aplicação dos conceitos de Bill James no futebol. Será que teríamos também a extinção da figura do olheiro? Seria possível medir o desempenho dos atletas ao ponto de selecioná-los por sua eficácia em determinados momentos e posições, e não pela super valorização criada pelo mercado? Como no beisebol mostrado em Moneyball, no futebol há muitos jogadores talentosos que ficam esquecidos ou relegados ao anonimato, enquanto poucos atletas bons de bola ganham salários astronômicos. Ver uma mudanças neste cenário e nesta lógica mudaria o esporte para sempre. Como ocorreu com o beisebol. Seria algo interessante de se ver.

NOTA: 9,3.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Apesar dos “probleminhas” de roteiro comentados antes, é preciso admitir que Sorkin faz mais um belo trabalho com Moneyball, ao lado de Zaillian. O roteirista repete a dose de equilibrar a vida íntima do personagem principal com as “impressões” que o restante das pessoas tem dele, assim como a narrativa simples dos fatos adotada antes em The Social Network.

O diretor Bennett Miller acerta na interpretação do texto de Sorkin e Zaillian. Ele ressalta os trabalhos dos atores e também evidencia belos lances do beisebol, equilibrando imagens de arquivo do time retratado com a narrativa cinematográfica da produção. A edição é um elemento que merece destaque. Belo trabalho de Christopher Tellefsen.

Outros aspectos técnicos do filme seguem o padrão normal de qualidade de Hollywood – em outras palavras, são competentes, mas nada fora do padrão. Como exemplo, a direção de fotografia de Wally Pfister e a trilha sonora de Mychael Danna.

Falando em trilha sonora, claro que merece uma menção especial a interpretação fofíssima da simpática atriz Kerris Dorsey da música The Show, de Lenka. Para quem não conhece a versão original, neste link é possível assistir a artista se apresentando com ela.

Mesmo que o foco do filme seja o personagem de Brad Pitt e toda a história gire em torno dele, vale citar a importância de Jonah Hill para a produção. Ele é o contraponto do personagem principal, a parte “engraçada” e ao mesmo tempo gabaritada para sustentar os argumentos da teoria que estava sendo aplicada pela primeira vez no beisebol. Novamente os “opostos que se complementam” são plasmados pelos dois: de um lado, o esportista bonitão, do outro, o nerd gordo e de óculos que era deixado sempre em segundo plano. Mesmo que um leve vantagem aparente sobre o outro, existe uma admiração mútua entre os dois, e uma complementariedade interessante – o personagem de Pitt sabe negociar e impor-se, o de Hill dá um show nos cálculos e na dedicação para aplicar a teoria de Bill James no beisebol.

Além da dupla de atores principais, merece destaque a já citada simpática Kerris Dorsey. O geralmente ótimo Philip Seymour Hoffman desaparece no roteiro – ele acaba tendo um papel secundário e pouco expressivo. Além deles, vale citar os nomes de Robin Wright como Sharon, ex-mulher de Beane; Chris Pratt como Scott Hatteberg, um dos jogadores desacreditados que é resgatado por Beane – mas que aparece pouco, como Hoffman; Stephen Bishop como David Justice, outro jogador; Brent Jennings como o olheiro técnico auxiliar Ron Washington; Casey Bond como Chad Bradford; e Reed Thompson como o jovem Billy Beane.

Moneyball custou aproximadamente US$ 50 milhões. E arrecadou, nas bilheterias dos Estados Unidos, até o dia 1º de janeiro deste ano, pouco mais de US$ 75 milhões. Um resultado 50% superior ao do custo… está bem, mas longe de um arrasa-quarteirão.

O filme que tem Brad Pitt como estrela principal estreou no dia 9 de setembro do ano passado no Festival de Toronto. Depois, ele participou dos festivais de Tokyo e Turin. Até o momento, Moneyball ganhou sete prêmios e foi indicado a outros 20, incluindo quatro Globos de Ouro. Entre os que ganhou, destaque para os de melhor roteiro segundo as associações de críticos de cinema de Boston, Chicago, Nova York e Toronto. Brad Pitt também ganhou como melhor ator segundo as associações de críticos de Boston, Nova York e o Festival Internacional de Cinema de Palm Springs.

Moneyball foi rodado inteiramente na Califórnia e apenas uma pequena sequência em Boston, Massachusetts. Entre os locais escolhidos para as filmagens, o estádio do time de beisebol Oakland Athletics, Long Beach e Downtown, em Los Angeles.

Os usuários do site IMDb deram a nota 7,8 para o filme. Uma boa nota, para a média do site. Os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes foram mais generosos: dedicaram 202 críticas positivas e apenas 11 negativas para a produção, o que lhe garantiu uma aprovação de 95% e uma nota média 8. Um sinal muito positivo para o filme – e que serve como termômetro sobre a moral alta da produção pela ótica dos críticos.

Para quem ficou interessado na teoria adotada pela equipe focada no filme, recomendo a leitura deste texto, em inglês, do The Sport Journal que trata do assunto. Também é interessante este artigo da Bloomberg Businessweek que comenta como Bill James encarou o filme que trata sobre a sua teoria.

CONCLUSÃO: Todos gostam de uma história edificante. Destas que mostram superação. Moneyball é uma destas histórias. Mas diferente de outras, ela não evidencia apenas a capacidade humana de passar pelos próprios limites e chegar à vitória apesar deles. Ela revela que, muitas vezes, a vitória pura e simples pouco importa. O bacana é encontrar uma solução criativa para um problema difícil de ser resolvido e, de quebra, inspirar outras pessoas a provocar mudança. Mais que uma história sobre um esporte, Moneyball é a narrativa sobre a aplicação de conceitos econômicos em um cenário que antes era visto como terreno de talento e improviso. Moneyball mostra como há lógica e que é possível prever resultados mesmo em cenários criativos. Bem dirigido e com um roteiro competente, mesclando cenas reais e a recriação de fatos com um elenco competente, é um filme envolvente. Vale o ingresso.

PALPITE PARA O OSCAR 2012: As indicações do Globo de Ouro sempre são um sinal importante para sabermos o que esperar do Oscar. Moneyball foi indicado em quatro categorias importantes desta “prévia” do Oscar: Melhor Filme – Drama, melhor roteiro, melhor ator (Brad Pitt) e melhor ator coadjuvante (Jonah Hill). Francamente, acho difícil ele ganhar em qualquer uma destas categorias porque ele tem concorrentes muito fortes para vencer. Talvez Brad Pitt teria mais chances, mas mesmo ele eu acho que não deve vencer.

O roteiro de Moneyball já ganhou quatro prêmios da crítica mas, ainda assim, vejo o caminho dele para a vitória no Globo de Ouro e no Oscar como algo muito complicado de se concretizar. Possivelmente Moneyball vai repetir três das quatro indicações que recebeu no Globo de Ouro também no Oscar. Acho que apenas o Jonah Hill poderá ficar de fora do Oscar. Pitt, o roteiro e o filme devem aparecer na premiação mais esperada do ano pela indústria de Hollywood. Mas acho que o filme ficará a ver navios. Não deve ganhar nenhuma estatueta. Talvez surpreenda em roteiro mas, francamente, acho difícil.