Black Panther – Pantera Negra

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Um filme envolvente, com um elenco incrível e com alguns questionamentos bastante relevantes para os nossos dias. Black Panther é um desses filmes baseados em personagens de HQ que nos fazem sorrir no final da projeção. Nem tanto por ser engraçado, mas por sentirmos que a experiência de ter ido no cinema valeu a pena. Bem feito, com uma história bem parecida com o original do HQ, Black Panther é um dos belos exemplos do gênero – e que não interessa apenas para os fãs das adaptações de HQ, diga-se de passagem.

A HISTÓRIA: Começa na África, na origem dos tempos, quando cinco tribos lutavam entre si. Esses confrontos resultava em muitas mortes e destruição, até que são feitas orações para a Deusa Pantera, que escolhe uma liderança que se torna o primeiro Pantera Negra. Quatro tribos aceitam essa liderança e se unem ao redor do novo líder, menos a tribo das montanhas, que se isola e que não aceita o Pantera Negra. Corta. Em 1992, em Oakland, na Califórnia, um grupo de garotos joga basquete na quadra próxima de alguns prédios.

Enquanto isso, em um apartamento, N’Jobu (Sterling K. Brown) combina os últimos detalhes do que parece ser um crime com o jovem Zuri (Denzel Whitaker). N’Jobu percebe que há algo de errado do lado de fora. Zuri tenta descobrir o que está acontecendo e ele brinca que existem duas mulheres parecidas com Grace Jones e com lanças do lado de fora da porta. Chega no local o jovem rei T’Chaka (Atandwa Kani), que pergunta para N’Jobu e Zuri se eles sabem quem está roubando e comercializando o vibranium de Wakanda. Essa busca será uma questão fundamental nessa história.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Black Panther): Eu sempre gostei de ler HQs. Desde que eu era criança e o meu pai me apresentou algumas, em casa, e, depois, o meu irmão começou a assinar um pacote de quadrinhos da Marvel. Todos os meses, recebíamos aquelas histórias em casal, e foi aí que eu comecei a gostar e conhecer os Vingadores, o Homem-Aranha, os X-Men, Conan, entre outros.

Depois, quando eu comecei a ter um dinheiro para chamar de meu, comecei a virar “rata” de sebos e passei a comprar os meus próprios HQs. Depois, com o tempo e a correria da vida “adulta”, larguei os HQs, até que há algum tempo eu resgatei um pouco esse hábito com The Walking Dead e outras leituras. Dito isso, esses tempos, busquei as origens dos Vingadores, e aí que eu me deparei com a origem também do Pantera Negra.

Apesar de gostar de HQs e de ser uma “viciada” em filmes e séries – sempre bem selecionados -, eu admito que não sou uma “fanática” por filmes baseados em histórias em quadrinhos. Dito isso, sim, fiquei na dúvida em assistir Black Panther. Mais que nada, porque eu não sabia se ele teria ou não uma grande relação com os filmes anteriores do universo Marvel – muitos dos quais eu não assisti.

Para o meu alívio, um amigo me disse que não, que esse era um filme independente dos outros e que eu poderia vê-lo sem erro. E era verdade. Black Panther apresenta a história do nosso herói, mas sem ligações com os outros personagens dos Vingadores.

A primeira característica que me chamou atenção nesse filme, além daquela interessante introdução “animada” sobre a origem dos tempos e as eternas disputas entre tribos e civilizações, foi o excelente elenco dessa produção. Realmente selecionado a dedo. Todos os atores estão bem, sem exceções, mas com especial destaque para as mulheres. Ou seja, esse filme não se destaca apenas por um ótimo elenco majoritariamente negro, mas também por ter mulheres em papéis fundamentais da produção.

Então sim, esse filme tem um papel importante de valorização de negros e mulheres que, todos nós sabemos, geralmente não tem as mesmas oportunidades ou são valorizados da mesma forma que os homens brancos. E o melhor: para contar a história do Pantera Negra, toda essa valorização não parece “forçada”, mas faz todo o sentido. Então o elenco é o primeiro ponto que chama a atenção. Depois, claro, os efeitos especiais e visuais do filme.

A história começa com uma introdução muito bem feita e com uma dinâmica interessante. Logo naquele começo, em poucos minutos, percebemos que a disputa por poder é uma questão importante para a história. E que a divisão interna entre diferentes “tribos” também é um ponto fundamental. Em seguida, já entramos na trama dos personagens centrais de Wakanda. Como pede um roteiro “clássico”, partimos de um acontecimento aparentemente sem graaaaande importância para “os tempos atuais” para, depois, conforme a história avança, entender que aquele acontecimento era um ponto crucial da trama.

(SPOILER – não leia se você ainda não assistiu ao filme). E assim, primeiro vemos à cena em que os irmãos T’Chaka e N’Jobu se desentendem sobre qual era o papel do avanço obtido por Wakanda no mundo. Em contato com a realidade do “mundão”, em que negros sofrem cotidianamente com diferentes formas de violência, preconceito e marginalização, N’Jobu acreditava que o vibranium deveria ser “compartilhado” e “democratizado” no mundo como uma arma/ferramenta para justamente fazer justiça contra os oprimidos e excluídos.

Black Panther mostra que, por mais boas intenções que alguém tenha, a forma como a pessoa busca o seu senso de justiça faz toda a diferença. N’Jobu tentou buscar justiça para o seu povo através de artifícios complicados – e, principalmente, enganando o seu próprio irmão. Quando o conflito entre irmãos volta à cena “reeditado” na disputa da segunda geração, ou seja, dos primos T’Challa (Chadwick Boseman) e Erik Killmonger (Michael B. Jordan), descobrimos que N’Jobu não foi levado para o julgamento do Conselho de Wakanda, mas acabou sendo morto pelo próprio irmão.

Algo interessante nesse filme é como ele questiona alguns pontos muito presentes na nossa política e geopolítica atuais. Por exemplo, quantos conflitos temos hoje em diferentes partes do mundo que parecem uma “disputa sem fim”, ao exemplo da queda de braço familiar que vemos em Black Panther? Quantos “lados” de uma história acabam adotando as mesmas práticas que dizem condenar no lado oposto de um conflito? Quantas disputas e quanta morte continua acontecendo sem que as pessoas realmente se perguntem o porquê delas estarem fazendo aquilo?

Tudo isso chamou muito a atenção nesse filme. Como Black Panther, apesar de ser um entretenimento e apesar de ter muitos elementos previsíveis, é muito mais do que isso. Os fins justificam os meios? A exploração e a violência que os negros historicamente sofreram e continuam sofrendo justifica que essa moeda seja virada e que os brancos comecem a ser igualmente explorados, violentados e exterminados? Claro que a realidade não pode continuar como está, mas qual realmente pode ser a saída para esses conflitos sem que as pessoas que buscam justiça cometam os mesmos “pecados” e/ou crimes que os algozes que elas querem combater?

Essas são questões que rendem um longo, longo debate. Também é possível chegar a mais de uma resposta para estas perguntas. Da minha parte, eu sempre vou preferir o caminho de Gandhi, que defendeu sempre a não-violência. E falo dele para não citar um exemplo ligado à religião. Porque acho que estas decisões são tomadas pela gente no dia a dia, independente de nossa fé – ou da nossa falta de fé. Em tempos em que no Brasil – e em outras partes – muita gente inteligente defende que “cidadãos de bem” (odeio esse termo, quero deixar claro) tenham o direito de se armar para “defender” os seus direitos, acho que todos nós temos que parar para pensar sobre as saídas para os nossos problemas.

Isso é algo fundamental em Black Panther, diga-se de passagem. Afinal, o rei está morto… vida longa ao rei! Mas quem será o novo rei? Quatro tribos concordam que seja o filho do rei morto, ou seja, que T’Challa assuma o poder. A quinta tribo, que sempre se manteve “independente”, busca acabar com a dinastia no poder. M’Baku (Winston Duke) segue as tradições e enfrenta T’Challa em uma disputa justa, mas perde. Tudo parece sob controle, exceto pelo problema anteriormente não resolvido do invasor, assassino e ladrão de vibranium, Ulysses Klaue (Andy Serkis).

Mas nem tudo é simples, seja em Black Panther, seja na vida real. Assim, não demora muito para T’Challa descobrir, mais uma vez, que a maior ameaça de Wakanda não são os “invasores bárbaros” ou as ameças externas, e sim a ameaça interna e a disputa em seu próprio povo. Essa questão renderia uma tese de doutorado, provavelmente. Afinal, quantas civilizações já não caíram por causa de disputas internas? O lema “dividir para conquistar” é usado, literalmente, desde os tempos do romano César. E o mais incrível é que ele continua sendo usado, e com um bocado de eficiência, até hoje. Basta ver as disputas na “arena” das redes sociais e em outros espaços urbanos do Brasil e de outros países.

Assim, apesar do roteiro de Ryan Coogler e de Joe Robert Cole, baseado nos personagens do HQ criado por Stan Lee e Jack Kirby, ser um bocado previsível e até um pouco redundante – ao menos nessa parte da “disputa interna” -, ele se mostra muito, muito atual. Eu diria até, assustadoramente atual. O primeiro “extra” desse filme, aliás, é um belo manifesto dirigido para Donald Trump e para tantas outras figuras da política que utilizam como estratégia central a política da divisão de César e de tantos outros homens com poder que vieram depois.

Agora, falando menos de política e de geopolítica e tratando mais do filme, Black Panther é uma produção envolvente, com um bom ritmo e com um elenco excepcional. Especialmente o elenco “me ganhou”. Apesar dessas qualidades, esse não é um filme perfeito. Sim, ele traz importantes conquistas para os atores e realizadores negros – assim como para as mulheres. Trata de temas mais que atuais. Mas, apesar disso, devo dizer que eu esperava que Black Panther fosse além da origem do mais recente Pantera Negra.

Sim, foi importante essa produção tratar bastante sobre os temas das divisões internas, da busca pelo poder, do uso da tecnologia e dos recursos para um bem “maior” que não apenas a riqueza de uma nação. Mas eu esperava que o filme avançasse um pouco na história, pelo menos mostrando um pouco melhor a origem do Pantera Negra – no sentido da criação e dos valores que T’Challa recebeu do pai e de seus antepassados – e também a ligação dele com os Estados Unidos.

Afinal, esse personagem foi originalmente lançado por fazer parte dos Vingadores… não seria interessante sabermos um pouco mais sobre a relação dele com o país que, depois, o faria defender interesses que não são, exatamente, os de Wakanda? Claro, teremos muitos filmes da Marvel ainda pela frente para ver o desenvolvimento deste personagem. Quem sabe, até, uma outra produção que foque no Pantera Negra e não em todos os Vingadores. Mas acho que Coogler e Cole perderam uma boa oportunidade de nos fazer “entrar” mais no personagem.

Apesar desse porém e de uma certa “repetição” de lutas e de disputas internas, Black Panther é um filme que merece ser visto. E não apenas pelos fãs da Marvel ou dos personagens de HQs. Essa produção extrapola estes círculos e se revela uma bela peça de cinema independente. Um pouco ao estilo de Logan (comentado aqui), que trata de questões que ultrapassam as HQs e que entram mais no estudo de personalidades e nas relações humanas (ou entre “raças superiores” e humanos, como é o caso do X-Men) – algo que, para os leitores mais vorazes, é o que faz as HQs serem tão interessantes, além de outros fatores.

Então, seja por vários questionamentos que essa produção sucinta, seja por valorizar talentos que nem sempre são devidamente valorizados ou seja pela história envolvente e com uma boa dinâmica que apresenta, Black Panther merece ser visto. Seja você fã ou não do gênero. Esse filme entra na seleta lista de produções baseadas em HQs que extrapolam o gênero e que conseguem aliar bem entretenimento com crítica social. Por tudo isso, acredito que o filme merece o sucesso que está tendo. Não sei se ele consegue chegar com força no Oscar 2019 – acho muito difícil -, mas seria bom vê-lo ser indicado/lembrado ao menos em algumas categorias.

NOTA: 9.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Puxa, eu queria escrever pouco sobre esse filme. Mas quem disse que eu consegui? Assisti a Black Panther na semana passada, mas só hoje consegui terminar o texto que comecei no sábado. Me desculpem por não atualizar o blog na semana passada, mas a vida está extra corrida. De qualquer forma, vale lembrar que teremos a entrega do Oscar no próximo domingo. Mais uma vez, farei a cobertura da premiação por aqui. Então, aguardem e confiem. E sim, vamos correr para assistir a mais algum filme que falta da lista até lá. 😉

Como comentei na crítica de Black Panther, essa produção tem diversas qualidades. Além da história de Wakanda e do Pantera Negra ser muito, muito atual, esse filme tem o grande mérito de ter escolhido a dedo alguns dos melhores atores do mercado. Em cena, temos o prazer de ver o trabalho de nomes como Lupita Nyong’o (eu admito que eu fico arrepiada cada vez que vejo ela em cena, e isso desde 12 Years a Slave, comentado aqui), Danai Gurira, Letitia Wright, Florence Kasumba, Angela Bassett (sim, as mulheres dão um show à parte nesse filme), Chadwick Boseman, Daniel Kaluuya, Michael B. Jordan, Winston Duke, Sterling K. Brown (também fico arrepiada quando ele aparece em cena, sempre), Forest Whitaker, John Kani, Martin Freeman e Andy Serkis (que está excepcional, em um de seus melhores trabalhos na carreira).

A lista é grande, não é mesmo? Mas fiquei especialmente fascinada pelo trabalho das mulheres do elenco. Acho que esse filme segue uma linha recente de produções que valorizam – finalmente! – o talento feminino e os papéis de mulheres fortes. Não sei vocês, mas eu tive a sorte de ser educada e de ter como mãe uma mulher fenomenal, de uma sensibilidade, inteligência e fortaleza que inspiram. E sempre tive ótimos exemplos de mulheres – amigas, colegas de trabalho, entre outras – na vida, então fico muito feliz que o cinema esteja, pouco a pouco, nos presenteando com personagens de mulheres interessantes e com essas características.

Além do elenco feminino, para o qual eu bato palmas – para Lupita Nyong’o, Danai Gurira, Letitia Wright, Florence Kasumba e Angela Bassett, em especial -, acho que os talentos que se destacaram nessa produção foram, na ordem de importância (não para a trama, mas de entrega para o personagem): Andy Serkis, Chadwick Boseman e Michael B. Jordan. Gosto muito do Daniel Kaluuya, do Winston Duke, do Martin Freeman, do Forest Whitaker e do Sterling K. Brown, mas acho que esses atores foram “eclipsados” um pouco pelos outros nomes e acabaram tendo personagens muito secundários na trama. Sem dúvida alguma eles tem talento de sobra e poderiam ter sido melhor aproveitados na trama.

Como sempre, e seguindo um pouco a “tradição” criada por Alfred Hitchcock, o “criador” das “criaturas” Stan Lee faz uma aparição divertida em Black Panther. Se tem um cara, a exemplo de Hitchcock, que merece ser imortalizado nos filmes é o grande Stan Lee. Figura emblemática!

Um parabéns especial também para o diretor e roteirista Ryan Coogler. Pelo nome, não exatamente liguei  o “nome à pessoa”. Mas buscando a filmografia de Coogler, vi que ele tem uma bela trajetória mesmo tendo apenas 31 anos de idade – ele completa 32 anos no dia 23 de maio. Coogler tem apenas sete títulos no currículo como diretor, sendo três desses títulos de curtas – lançados entre 2009 e 2011 -, três longas e uma série de TV.

Antes de dirigir Black Panther, Coogler fez o seu nome ser projetado com as produções Fruitvale Station e Creed. Admito que não ter assistido a Fruitvale Station é uma das falhas do meu currículo – eu queria ver o filme, mas até hoje não “sobrou” tempo para isso. Mas eu assisti a Creed, filme que comentei nesse link. Apenas pelo trabalho apresentado até agora, Coogler já demonstrou que tem uma postura e uma “pegada” bastante claras, potentes e com assinatura. Tudo indica que valerá a pena ficarmos de olho nele e seguir os seus próprios passos.

Além do ótimo elenco, que é um dos pontos fortes de Black Panther, o filme satisfaz a exigência das pessoas que gostam de ação, algumas pitadas de humor e uma boa dose de adrenalina em cenas de perseguições de carros e de disputas “mano a mano”. Junto com isso, vale ressaltar o visual da produção, especialmente nas cenas que exploraram a Wakanda “verdadeira e escondida”.

Dito isso, vale destacar diversos aspectos técnicos do filme. Começando pela ótima trilha sonora de Ludwig Göransson, e passando pela direção de fotografia de Rachel Morrison; pela edição de Debbie Berman e Michael P. Shawver; pelo design de produção de Hannah Beachler; pela direção de arte de Jason T. Clark, Joseph Hiura, Alan Hook, Alex McCarroll, Jay Pelissier e Jesse Rosenthal; pela decoração de set de Jay Hart; pelos figurinos muito interessantes de Ruth E. Carter; e chegando até o trabalho dos 59 profissionais envolvidos com o Departamento de Maquiagem; e as centenas de profissionais responsáveis pelo Departamento de Arte, os Efeitos Especiais e os Efeitos Visuais.

Esses últimos três elementos são fundamentais para satisfazer o público que curte um grande visual e todo o potencial que o cinema moderno disponibiliza para as grandes produções. Mais um belo exemplo do gênero – exceto, talvez, pela “parede” de pessoas que assistem à primeira disputa pelo trono, entre T’Challa e M’Baku… aquela parte me pareceu um tanto “mal acabada”. Mas é apenas um pequeno detalhe, que não desmerece todo o esmero com outras sequências da produção.

Black Panther estreou no dia 29 de janeiro em uma première em Los Angeles. Depois, no dia 13 de fevereiro, a produção estreou no circuito comercial do Reino Unido, de Hong Kong, da Irlanda e de Taiwan. O filme estreou no Brasil dois dias depois, no dia 15 de fevereiro.

Essa produção tem nada menos que 110 curiosidades listadas no site IMDb. Eu não vou comentar todos, mas apenas alguns dos mais interessantes da lista. O diretor Ryan Coogler comparou as minas de vibranium de Wakanda com a situação real das minas do Congo, onde o “valão mineral valioso”, utilizado na fabricação de produtos digitais, está sendo explorado.

O tipo de luta que vemos em Black Panther é inspirada nas artes marciais africanas. Coogler também citou como referência as cenas de ação de Creed e da série de filmes Kingsman.

O personagem de Black Panther foi lançado em julho de 1966, dois meses antes da fundação do Partido dos Panteras Negras, nos Estados Unidos. Muitas pessoas acharam que o personagem tinha a ver com o movimento que buscava justiça para os negros. Por isso o personagem chegou a ser rebatizado para Black Leopard. Mas como nem os leitores e nem os criadores do personagem gostaram da mudança, esse nome não durou muito.

Quem quer curtir todas as curiosidades e notas de produção desse filme, pode acessar todos os itens nessa página do site IMDb.

Achei Black Panther um tanto longo demais. Acho que aquela longa batalha entre os dois lados que apoiam T’Challa e Erik poderia ter sido menor, assim como alguns outros minutos de outras partes poderiam ter sido facilmente eliminados. Um filme durar mais do que duas horas tem que ter muito, muito argumento para isso. Acho que Black Panther poderia ser um pouco mais curto sem fazer a história perder nada de importante.

Eu não encontrei informações sobre os custos dessa produção, mas é fato que Black Panther já é um sucesso de bilheteria. Até o dia 25 de fevereiro – ou seja, em menos de duas semanas de estreia em alguns mercados -, o filme acumulou pouco mais de US$ 403,6 milhões nas bilheterias dos Estados Unidos e pouco mais de US$ 305,3 milhões nos outros mercados em que ele estreou. Ou seja, ultrapassou a barreira dos US$ 708,9 milhões.

Isso já coloca Black Panther como o terceiro filme que conta a origem de um super herói com a melhor bilheteria da história, segundo o site Box Office Mojo. Ele já ocupa também a quinta colocação entre os filmes do Universo Marvel com a melhor bilheteria e é a quarta maior bilheteria em uma semana de estreia. Tudo indica que ele vai seguir na trajetória ascendente e vai fazer história não apenas na proposta conceitual da produção, mas também no faturamento que vai obter.

Os usuários do site IMDb deram a nota 7,9 para esta produção, enquanto que os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 331 textos positivos e apenas 11 negativos para Black Panther – isso garante que o filme tenha uma aprovação de 97% e uma nota média de 8,2. Especialmente a nota do site Rotten Tomatoes está acima da média – o que prova que filmes de HQ com qualidade podem agradar não apenas ao público, mas também à crítica.

Esse filme é uma produção 100% dos Estados Unidos. Sendo assim, ele atende a uma votação feita há tempos aqui no blog e que pedia foco de várias críticas nos filmes daquele país. 😉

Black Panther não tem os efeitos visuais tão trabalhados para fazer com que seja fundamental assisti-lo em 3D, mas ele funciona bem nesse formato. Então sim, vale a pena assistir essa produção nesse formato. Mas o que eu achei fraquinho foi o “spoiler” no final de todos os créditos – aquele que os fãs do gênero já estão habituados a esperar e a assistir e que introduz o próximo filme da saga Marvel. Achei a sequência fraquinha. Eu esperava mais.

CONCLUSÃO: Um filme que faz jus ao personagem, sua história, sua cultura e seus valores. Isso é tão, mas tão importante! Afinal, quantos filmes realmente são fieis ao original? Além de ter essa preocupação e mérito, Black Panther também valoriza como poucas produções o talento dos atores negros e faz o público pensar sobre questões importantes. Quando alguns defendem com força o “nós contra eles” e as divisões, surgem obras como essa para nos lembrar que não é separados e isolados que vamos conseguir vencer os nossos problemas.

Com ótimas cenas de ação para saciar o desejo do público que curte esse estilo de filme e, ao mesmo tempo, um belo elenco, Black Panther apenas peca um pouco por não desenvolver tão bem os personagens centrais. Também senti falta do filme passar da origem do Pantera Negra e explicar um pouco mais da sua chegada aos Estados Unidos. Mas, no geral, é um belo filme, com o “coração” no lugar certo e com uma valorização importante de talentos que merecem cada vez mais espaço na indústria do cinema. Vale assistir, especialmente se você gosta do gênero.

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Visages Villages – Faces Places

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Uma viagem pelo interior da França que ajuda a mostrar não apenas um pouco das “entranhas” daquele país, mas que também mergulha um pouco na vida e na arte dos seus realizadores. Eu não sabia muito bem o que esperar do documentário Visages Villages, mas certamente o que eu assisti não era o que eu esperava. Um filme interessante, revelador, especialmente sobre a cineasta Agnès Varda, que em maio de 2018 completa 90 anos. Acompanhamos ela e o codiretor JR em uma viagem bastante pessoal e particular. E eles são muito generosos em nos levar junto.

A HISTÓRIA: Agnès Varda e JR se encontram e se “desencontram” em diversas sequências de uma animação. Depois, novamente em uma estrada, eles estão caminhando para um possível encontro quando JR pega uma carona com um agricultor. JR diz que eles não se encontraram em uma estrada do interior; Varda afirma que não se encontraram em um ponto de ônibus de Paris; JR comenta que não se viram em uma padaria; e os dois complementam que não se encontraram em uma danceteria.

Cada um deles fala da admiração de um pelo trabalho do outro, antes de contarem como eles se conheceram. Foi quando JR procurou Varda para fazer fotos dela. Depois, ela visitou o artista no atelier dele. Fez algumas fotos do jovem artista que nunca tira os óculos escuros. Isso fez ela se lembrar de um velho amigo, o também diretor Godard. Conversando com JR, Varda decidiu que tinha chegado a hora deles fazerem um projeto. E esse projeto é o que descobrimos nesse documentário.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Visages Villages): A primeira qualidade desse filme, e percebemos isso logo de cara, é o bom gosto de seus realizadores. Observamos isso por dois aspectos: pela animação que introduz e que faz o fechamento dessa história, feita por Oerd Van Cuijlenborg, e pela trilha sonora marcante de Matthieu Chedid.

Esses dois elementos, conjugados no início da produção, assim como aquela gigante lista de nome de agradecimentos dos realizadores na introdução do filme já apresenta algumas credenciais dessa produção. Esse filme tem humor, tem charme, tem arte e tem generosidade.

Tudo isso vamos percebendo do primeiro até o último minuto no trabalho de Agnès Varda e JR. Uma dupla inusitada, inclusive, mas que ajuda a mostrar como os veteranos e os jovens podem ser generosos um com os outros e fazer um grande trabalho juntos, não importa a trajetória que construíram até o seu primeiro encontro.

Varda e JR brincam com a forma com que eles se conheceram, no início da produção. Depois, JR explica que ele procurou Varda, para fazer algumas fotos dela, e depois a diretora foi procurá-lo em seu estúdio, onde conheceu a equipe que trabalha com o fotógrafo e artista especializado em intervenções urbanas. Eles logo se identificaram, e já admiravam a produção um do outro. Aí surgiu a ideia de fazerem um trabalho juntos.

Dessa iniciativa é que surgiu Visages Villages. A proposta de Varda e de JR foi viajar para o interior da França sempre que lhes sobrava um tempo. Eles iam no veículo adaptado por JR, um tipo de estúdio fotográfico móvel, onde ele fazia retrato das pessoas e imprimia as suas fotos em tamanho grande.

A graça de Visages Villages, além de todo o estilo de seus realizadores, é a forma com que eles nos conduzem pelo interior da França, nos apresentando alguns personagens que fazem parte da história e do presente do país. Assim, temos os mineiros que se sacrificaram por suas famílias e pelo país e que nunca foram realmente valorizados.

Conhecemos Jeannine Carpentier, a filha de um mineiro que resiste em uma rua de prédios abandonados. Ela não quer sair dali, porque ali viveu toda a vida. A sua história, homenageada pelos diretores, revela a resistência de uma senhora simples da França contra os “especuladores imobiliários”. Esse é o começo do “manifesto” de Varda e de JR no filme. Porque que ninguém se engane, qualquer diretor de cinema, especialmente os que fazem documentários e os mais autorais, estão sempre deixando claro em suas obras o que eles acreditam e pensam.

Visages Villages, assim, realmente mostra uma França que muitos turistas desconhecem, homenageia as pessoas simples e marca posição de Varda e de JR sobre questões importantes da vida. Eles são contra o produtivismo e os danos que a busca sem reflexão pelo dinheiro podem provocar nas pessoas, nas comunidades e nas cidades.

O interessante dessa produção é que, além deles fazerem isso, eles são francos em nos mostrar sobre a construção dessa trajetória, as escolhas que eles fazem e a maneira com que eles refletem sobre o que eles estão produzindo. No final das contas, conhecemos um pouco mais sobre Varda e sobre JR. Afinal, eles estão se conhecendo também – seja um ao outro, seja introspectivamente enquanto viajam. Como nós mesmo fazemos quando viajamos e conhecemos outras pessoas.

O segundo personagem do filme que eles conhecem é um agricultor que cuida sozinho dos 200 hectares de sua propriedade e que, ainda, cuida de outros 600 hectares de vizinhos. Para isso, ele utiliza a mais alta tecnologia, todo tipo de maquinário. Claramente Varda e JR questionam essa substituição das pessoas pelas máquinas, consideram muito solitário quando alguém substitui pessoas com quem trabalhava junto por um grupo de maquinários.

Seguindo em sua viagem, os diretores contam uma história de amor; fazem homenagem a uma garçonete que consideram fotogênica e bonita em um vilarejo; visitam uma fábrica, onde homenageiam funcionários de diversos turnos e posições dentro da hierarquia da empresa; passam por uma vila abandonada antes mesmo de ser inaugurada, onde reúnem pessoas que conheciam o local para passar uma tarde divertida por lá; homenageiam um carteiro que é um velho conhecido de Varda; visitam um vilarejo onde conhecem Pony-Soleil-Air-Sauvage-Nature; refletem sobre a produção de cabras com ou sem chifres; visitam a avó de JR e terminam valorizando as mulheres de estivadores do Porto de Havre – ou seja, a parte final do filme se debruça mais nas relações pessoais dos diretores.

Em cada lugar, eles deixam claro os seus posicionamentos e, sobretudo, mostram grande respeito por cada pessoa que eles conhecem. Gostam de contar histórias e apreciam valorizar as pessoas simples da França, aquelas que eles acreditam que representam uma parte importante da população.

O filme passa rápido e de forma fluída, porque Varda e JR acertam na forma condensada com que eles contam o essencial de cada história. Eles mostram um pouco da rotina das pessoas, deixam elas contarem o que lhes é importante, e sempre aparece em cena o resgate de suas origens. Assim, conhecemos um pouco mais da França, do estilo das pessoas comuns e também dos artistas que são Varda e JR, sempre com um olhar atento e cuidadoso.

No final, como Visages Villages parece ter servido para Varda pensar em sua própria finitude, o documentário acaba resultando no resgate de algumas memórias da diretora. Ela fala da praia de Saint-Aubin-Sur-Mer, onde JR também já vivenciou alguns momentos interessantes da vida. Lá, eles homenageiam um antigo amigo de Varda, Guy Bourdin, que já morreu. Por sugestão de Varda, eles visitam também o túmulo simples do ícone da fotografia Henri Cartier-Bresson.

Finalmente, nos minutos finais dessa produção, Varda resolve fazer uma “surpresa” para JR e viaja com ele para visitar o amigo Jean-Luc Godard. Ela diz que não fala com ele há uns cinco anos, e que eles perderam contato. Apesar de marcarem horário, Godrad não os recebe, mas deixa um recado cifrado para a amiga. Assim, o filme termina de uma maneira um tanto frustrada, saudosista e com JR finalmente mostrando os olhos para Varda.

Acho que tanto Varda quanto JR procuraram fazer exatamente o que eles queriam nesse filme, nem mais, nem menos. Mas como proposta de cinema, acho que teria feito mais sentido eles seguirem contando a história de pessoas simples do interior e não terem, no final, “descambado” para uma busca pessoal de Varda por inserir alguns de seus amigos famosos e que fizeram parte da arte na história.

Ok, dá para entender a busca da diretora que, quase com 90 anos de idade, pensa em seu próprio legado e no fim de sua vida. Sem dúvida ela está pensando sobre o que deixará de mensagem para os outros, e com as homenagens para os amigos ela quer valorizar essa ligação tão fundamental e bonita na vida de qualquer pessoa. Só que a realidade nem sempre é mágica e bacana, por isso a frustração com Godard. Faz parte.

A proposta deste filme me surpreendeu positivamente. Achei perfeito Visages Villages também ter 1h30 de duração – para mim, essa deveria ser a duração de quase todos os filmes. Só senti um pouco mais de falta de saber mais sobre a trajetória de Varda e de JR – acho que eles poderiam ter repassado mais de suas histórias nessa produção, refletindo mais sobre o que fizeram ou deixaram de fazer. Mas foi bacana ver como homenagearam pessoas simples e nos convidaram a viajar com eles pelo interior francês. Isso foi muito generoso e bacana por parte deles.

Varda e JR lançam muitas reflexões nessa produção. Sobre que tipo de vida levamos, qual tipo de legado vamos deixar quando nos formos e que escolhas fazemos enquanto andamos por aí. Procuramos o maior rendimento possível, não importa se vamos contra o interesse das outras pessoas ou dos outros seres vivos, ou fazemos tudo da forma mais consciente possível e procurando favorecer ao máximo a todos? Construímos juntos ou separados, ou ao invés de construir, ajudamos com a deterioração ou a destruição de algo?

As reflexões levantadas por essa produção e a forma cuidadosa com que os realizadores olham para as pessoas – inclusive para eles próprios – são os pontos fortes de Visages Villages. O único problema dessa produção é que eu acho que ela abandona o conceito principal na reta final, caindo nas reminiscências de Varda e deixando para trás as pessoas simples.

Admito que eu não gostei tanto disso. Mas a dinâmica de Varda e de JR é muito interessante. Ela mostra como podemos desenvolver relações inter-geracionais em que todos ganham e em que todos aprendem. Varda e JR fazem um belo trabalho juntos, e é um deleite ver eles atuando. É um filme bacana, com bons princípios e uma levada suave e gostosa. Gostei de Visages Villages, ainda que eu prefira documentários com uma pegada mais contundente, mais crítica e mais dinâmica. Mas é bom ver uma produção com outra proposta, para variar.

NOTA: 9.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Esse filme tem uma dinâmica bastante interessante, com Agnès Varda e JR se destacando pela visão diferenciada dos lugares e das pessoas que eles conhecem em suas viagens. A direção é o ponto forte, sem dúvida, assim como as reflexões que os realizadores vão pincelando aqui e ali no documentário. Sem dúvida alguma eles entendem de cinema e de contar a história de pessoas comuns, seus hábitos e mostrar os seus ambientes.

As questões da passagem do tempo e da finitude da vida estão presentes nesse filme conforme ele avança. Sem dúvida alguma são questões especialmente importantes para Varda, e que JR respeita e sobre as quais também passa a pensar. Vale para nós, que devemos sempre estar atentos a isso. Afinal, ninguém sabe por quanto tempo estará por aqui. Essa é a única certeza que temos, que um dia a nossa vida vai acabar, e também a única grande dúvida que temos, porque não sabemos quando isso vai acontecer. Visages Villages trata disso com muito carinho e sutileza.

Entre os aspectos técnicos do filme, além da direção de Varda e de JR, destaco novamente a excelente trilha sonora de Matthieu Chedid; as animações feitas por Oerd Van Cuijlenborg; a direção de fotografia de Roberto De Angelis, Claire Duguet, Julia Fabry, Nicolas Guicheteau, Romain Le Bonniec, Raphaël Minnesota e Valentin Vignet – grupo que, na maior parte das vezes, é quem fica responsável pelas imagens captadas e que vemos no filme; e a edição cuidadosa de Maxime Pozzi-Garcia e de Agnès Varda.

Todos os personagens são interessantes, mas aqueles que mostram a evolução da agricultura e do trabalho com os animais foram os que mais me chamaram a atenção. Realmente um retrato interessante dos nossos tempos.

Visages Villages estreou em maio de 2017 no Festival de Cinema de Cannes. Depois, até março de 2018, o filme percorreu – e está percorrendo ainda – uma trajetória de outros 25 festivais de cinema. Nessa caminhada, ele conquistou 26 prêmios e foi indicado ainda a outros 35 – incluindo a indicação ao Oscar de Melhor Documentário.

Entre os prêmios que recebeu, destaque para os 14 prêmios de Melhor Documentário; para os prêmios Golden Eye e Palme de Whiskers no Festival de Cinema de Cannes; para o prêmio de Melhor Filme no Festival Internacional de Cinema de Haifa; para dois prêmios de Melhor Filme de Não-Ficção e para 1 prêmio de Melhor Filme em Língua Estrangeira.

Como esse filme é feito de viagens, vale comentar todos os lugares pelos quais a dupla Varda e JR passa na França: Paris; Bruay-La-Bussière, em Pas-de-Calais; Sainte-Marguerite-sur-Mer, em Seine-Maritime; Château-Arnoux-Saint-Auban, em Alpes-de-Haute-Provence; Bonnieux, em Vaucluse; Reillanne, em Alpes-de-Haute-Provence; Goult, em Vaucluse; Chérence, em Val-d’Oise; Terminal de France, no Port du Havre, em Seine-Maritime; e Pirou, em Manche. Caso alguém quiser fazer o mesmo caminho deles, aí está a lista para fazer o trajeto certo. 😉

A cineasta Agnès Varda nasceu no dia 30 de maio na cidade de Bruxelas, na Bélgica. Ela tem 52 trabalhos como diretora, incluindo longas, curtas e episódios feitos para séries de documentários produzidas para a TV. Ela já ganhou 56 prêmios, mas com Visages Villages ela conseguiu a primeira indicação a um Oscar. Nesse ano, ela também ganhará o Oscar Honorário. Ela foi casada com Jacques Demy, o “Jacques” que ela cita no final desse documentário – Demy morreu em 1990, aos 59 anos de idade, em Paris. Diretor, roteirista e ator, ele foi indicado quatro vezes ao Oscar, mas nunca levou uma estatueta dourada para casa. Possivelmente Varda falará dele caso ganhar o Oscar esse ano.

Visages Villages faturou pouco mais de US$ 842 mil nos cinemas dos Estados Unidos. Ou seja, o filme é pouco conhecido no país. Não encontrei informações sobre o resultado dele na França ou em outros países.

Achei interessante a proposta do artista JR, que dirige esse filme com Varda. Quem ficou interessado(a) por ele também, sugiro a sua página oficial.

Os usuários do site IMDb deram a nota 8 para esta produção, enquanto que os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 84 textos positivos para essa produção e nenhum negativo – ou seja, um caso raro de aprovação de 100%. A nota média dos críticos também é bastante alta: 8,9. Ou seja, esse filme está com um desempenho excepcional nos dois sites.

Essa é uma produção 100% da França.

Na bolsas de apostas do Oscar 2018, Visages Villages tem uma franca preferência dos apostadores. Ele está muito, mas muito à frente do segundo colocado, o documentário Icarus. Ou seja, pelo menos segundo os apostadores, será uma grande surpresa se o filme de Varda e de JR não levar a estatueta para casa.

CONCLUSÃO: Um filme singelo, simples e complexo ao mesmo tempo. Visages Villages é cheio de camadas interpretativas e cheio de detalhes. Ao mesmo tempo que mergulhamos no interior da França e em histórias bacanas de pessoas simples que fazem o país, também vemos um discurso político e filosófico dos realizadores. Eles deixam claro os valores que admiram e que querem evidenciar. E isso é arte; é cinema.

Varda e JR fazem uma obra com princípios bem claros, que não deixa dúvida nos espectadores, e sabem também abrir o “flanco” para nos aproximar deles na medida exata. É um filme corajoso, especialmente para Varda, que deixa claro como a chegada nos 90 anos exige de qualquer pessoa uma “revisita” de sua própria vida, de seus amores, amizades e de tudo aquilo que ainda lhe dá sentido. Um belo filme, ainda que não tenha a potência que eu normalmente espero de um documentário. Não é a melhor produção do gênero que eu assisti nos últimos anos, mas é um filme simpático, generoso e com algumas reflexões importantes.

PALPITES PARA O OSCAR 2018: Muitos consideram Visages Villages o favorito para ganhar o Oscar 2018 de Melhor Documentário. De fato, o filme tem muitos elementos para isso. Mas, para o meu gosto, ele deveria ganhar? Ainda preciso assistir a outras produções concorrentes desse ano. Pensando em documentários que concorreram a essa mesma estatueta em anos recentes, francamente, eu não daria o prêmio para Visages Villages.

O filme é bacana? Com certeza. Ele é simpático, bastante generoso e bonito. Evidencia as histórias de vários “anônimos” e pessoas simples, além de destacar valores importantes – como a simplicidade, o combate ao consumismo sem crítica, o amor das pessoas por suas histórias e lugares, etc. Há ainda uma revisita bacana sobre a história e a trajetória de Varda e de JR. Mas não sei… para o meu gosto, os documentários devem ser mais “potentes”.

Como eu sempre digo, cinema também é uma questão de gostos pessoais. Preciso ver aos outros concorrentes para bater o martelo, mas não considero esse um dos melhores documentários que eu vi nos últimos tempos. Mas se ganhar, claro, será uma maneira da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood reconhecer também a trajetória de alguém fantástica como Varda, que aos 90 anos de idade segue fazendo filmes. Em resumo, não será injusto – especialmente por esse caráter de reconhecimento da carreira. Veremos.

All The Money in the World – Todo o Dinheiro do Mundo

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Quanto mais uma pessoa mesquinha tem, mais ela quer ter. Alguém já disse que para um rico ser rico, ele deve realmente se importar com cada centavo. Não gastar à toa nunca. Sempre pechinchar. Mas essa ânsia por dinheiro e pelo poder derivado dele ganhou um novo significado com o sobrenome dos protagonistas de All The Money in the World. Um filme que mostra como o dinheiro destrói e não significa nenhuma grandeza, muito pelo contrário. Apesar de ser uma produção interessante, All The Money in the World está muito longe de ser um dos melhores filmes do diretor Ridley Scott.

A HISTÓRIA: Inicia afirmando que é inspirada em “acontecimentos reais”. Roma, 1973. Vemos a uma rua movimentada, cheia de carros e de pessoas, em uma sequência em preto e branco. Pouco a pouco, a câmera se aproxima de “Paolo”, que é a maneira como Paul (Charlie Plummer) se apresenta para quem pergunta o seu nome.

A imagem se enche de cores, como se Paul enchesse o ambiente de vida. Ele passa por um restaurante, por uma fonte, e chega até um grupo de prostitutas. Ela mexem com ele, mas ele não fica com nenhuma. Caminhando um pouco mais, Paul é sequestrado. Nesse momento começa o drama do neto do “homem mais rico do mundo”.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso eu recomendo que só continue a ler quem já assistiu a All The Money in the World): A minha motivação principal para ver a esse filme, como estou na temporada do Oscar, foi a indicação do ator Christopher Plummer na categoria Melhor Ator Coadjuvante. Mas essa não foi a única razão.

As minhas outras motivações é que essa produção tinha a direção de Ridley Scott, um diretor que eu admiro e que eu gosto de acompanhar, e também porque ela tinha estreado no cinema em que eu sempre vou – o do Beiramar Shopping, em Florianópolis. Então, quanto tive oportunidade de assistir a essa produção, o que ocorreu apenas nessa semana, eu fui lá conferir All The Money in the World.

O que dizer sobre essa produção? Ela até começa bem, com uma reflexão do protagonista, John Paul Getty III, interpretado por Charlie Plummer, sobre a história do avô, J. Paul Getty (Christopher Plummer). Honestamente? Aquela introdução do filme é a melhor parte da história. Como quando Getty III diz que, apesar da família dele parecer com qualquer um de nós – ou seja, ser feita de carne e osso, mortal como qualquer outro -, eles só pareciam ser como qualquer outra pessoa. Porque eles eram feito de um “outro elemento”.

A questão fundamental nesse filme é que temos um sujeito que conquistou “todo o dinheiro do mundo” mas que não sabe abrir mão de nada do que possui. Ou do que acredita que possui. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme ainda). Quando sequestram um de seus netos, Getty não pensa em momento algum em pagar o resgate – ao menos na fase inicial do crime. Primeiro, porque ele acredita que se pagar o sequestro desse neto, outros sequestros virão… e a família dele não terá paz nunca mais na vida.

Aparentemente, esse pensamento não é tão absurdo. Mas conforme a “investigação” – se é que ela pode ser chamada assim – sobre o que aconteceu com o neto não avança, Getty passa a ser ainda mais pressionado pela mãe do jovem, Gail Harris (Michelle Williams) e até admite pagar o resgate, desde que ele possa deduzir aquela quantia – muito, mas muito menor do que os US$ 17 milhões que os sequestradores pediram originalmente – do Imposto de Renda.

Ou seja, no fundo, ele não estava “desembolsando” nada para resgatar o neto, apenas dando uma quantia de dinheiro que obrigatoriamente teria outra finalidade – o pagamento de impostos. Conforme o roteiro de David Scarpa, baseado no livro de John Pearson, avança, vemos como Getty lida com o dinheiro. Ele nunca perde um centavo. Muito pelo contrário. Vive gastando em obras de arte caras, mas nunca fecha um negócio sem pechinchar bem antes.

Ele não sabe perder e não sabe ceder. Está acostumado a multiplicar a sua fortuna e tem toda a atenção do mundo para a cotação da bolsa de valores – mas, aparentemente, tempo algum para relações verdadeiras. Vemos Getty em poucas interações com pessoas da família – e, estranhamente, apesar dele ter tido algumas esposas, filhos e netos, não vemos mais ninguém da família dele. Parece que ele vive de forma bastante solitária – ao menos segundo o filme.

É uma pena que a história não seja realmente bem desenvolvida. Temos um “ir e vir” no tempo na parte inicial do filme para explicar um pouco da origem da fortuna dos Getty e também a relação “carinhosa” entre Getty III e o seu avô – assim como a de Getty com o filho e a ex-nora. Acho que All The Money in the World até poderia ser mais interessante se o roteiro tivesse explorado um pouco mais a história dos personagens e as suas relações.

Isso acontece só no começo, e é uma pena. Depois, essa produção abraça a velha premissa do filme de “ação”, com toques de suspense e de filme policial para contar o desenrolar do sequestro de Getty III. Grande parte daquele desenrolar da ação é previsível, incluindo na previsibilidade a corrupção policial, que vivia “nas mãos” da máfia italiana, e a resistência do “homem mais rico do mundo” de perder qualquer dinheiro com o resgate de um de seus 14 netos.

Achei o roteiro bastante fraco e previsível. Como eu disse, Scarpa perdeu uma boa oportunidade de explorar melhor as características de cada personagem e as relações que eles tinham entre si. No final do filme, temos uma questão em que pensar. (SPOILER – não leia… bem, você já sabe). Quando Getty III é resgatado, simultaneamente, o seu avô morre em casa “devaneando” e abraçado em uma de suas obras de arte. Quem assume a administração da fortuna dele, porque os herdeiros ainda são menores de idade, é Gail Harris.

Naquele momento, Gail descobre que Getty, na verdade, tinha colocado algumas regras na administração dos seus bens. Em teoria, ele não poderia gastar o dinheiro que tinha, só podia aplicá-lo em algo que fizesse aquele dinheiro ser multiplicado. Por isso ele investia tanto em obras de arte.

Mas aí, duas questões acabam não sendo explicadas na produção quando Oswald Hinge (Timothy Hutton) comenta isso com Gail: primeiro, essa regra de “não gastar, apenas multiplicar a fortuna” deveria ter limites, até porque as diversas propriedades de Getty exigiam um custo fixo, e ele próprio tinha as suas necessidades de consumo; depois, Getty acabou enviando mais do que o US$ 1 milhão que poderia deduzir do Imposto de Renda para pagar o resgate do neto.

Ainda que não fosse muito a mais, era mais do que ele poderia deduzir do Imposto de Renda… em teoria, ele estava gastando e não aplicando o dinheiro que tinha. Como ele conseguiu fazer isso se ele tinha que “seguir” aquela regra de não gastar? E afinal, se ele era bilionário, foi ele que colocou essa regra… ele também não poderia derrubá-la? Achei essa questão muito mal explicada no filme – ela tenta justificar os atos de Getty, mas me pareceu um bocado sem sentido.

Enfim, All The Money in the World cai no lugar-comum e um bocado previsível de que o dinheiro não traz felicidade e muito menos a proximidade ou a segurança das pessoas que você ama. Alguém como Getty, que é apegada demais ao seu dinheiro e tem pouco – ou nenhum – interesse nas pessoas, mesmo que elas sejam da família, vive uma vida mesquinha e que, afinal, o levou a que? A uma vida de cobiça, de contar dinheiro, ignorar pessoas e viver sozinho.

Triste existência. Se o dinheiro existe para algo, é para dar boas oportunidades para as pessoas. Simplesmente ser acumulado ou multiplicado não leva a nada de bom. Muito pelo contrário. All The Money in the World fala sobre isso de uma forma um tanto tediosa. Apesar de bem conduzido e de ter boas atuações do elenco, o filme carece de um roteiro melhor e de um sentido de ser menos óbvio e pobre. Como eu disse, está longe de ser um dos melhores trabalhos do diretor Ridley Scott. Espero que ele tenha mais sorte e melhor gosto da próxima vez.

Se pensarmos no desfecho da história, o mérito maior pela sobrevivência e resgate de Getty III não foi da mãe dele, do “pagamento” autorizado pelo avô ou do trabalho do ex-espião Fletcher Chase (Mark Wahlberg). O grande responsável pela sobrevivência do rapaz acabou sendo o único sequestrador que se manteve junto dele até o final, Cinquanta (Romain Duris). Ele se compadeceu do rapaz, provavelmente pensando nele como um filho, e acabou ajudando ele sempre que possível.

Ou seja, alguns bandidos são mais bonzinhos e bacanas do que muitos ricaços. Seria essa a filosofia “subversiva” dos realizadores de All The Money in the World? 😉 Claro, há pessoas boas em todas as partes – e cretinos também. Então não acho impossível um sequestrador italiano nos anos 1970 se mostrar solidário ao rapaz “sensível”, quieto e “comportado” que foi sequestrado. Impossível não é, apenas improvável.

Assim como um “ex-espião” e principal responsável pela segurança de um ricaço como Getty ser tão pouco eficaz como Chase se revela nessa produção, também parece um tanto “forçado”. Mas sim, ele nunca impede que a polícia italiana troque os pés pelas mãos ou consegue, de fato, investigar algo com eficiência para chegar no paradeiro de Paul. A única utilidade de Chase parece ser mesmo apoiar Gail, porque nem ele e nem a polícia italiana consegue chegar no paradeiro do sequestrado antes dos bandidos jogarem todos os seus dados.

Além de não ser muito bem desenvolvido, o roteiro de All The Money in the World mostra essas características um pouco difíceis de acreditar na prática. E vocês sabem, não é porque um filme diz que é “inspirado em acontecimentos reais” que ele traz, realmente, grande fidelidade aos fatos. Tanto isso é verdade que All The Money in the World mostra Getty morrendo na mesma noite em que o neto é resgatado, e isso não aconteceu. Getty foi morrer três anos depois daqueles fatos, ou seja, em 1976. Antes, ele recusou-se a receber uma ligação de agradecimento do neto.

NOTA: 7.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Não tenho nada contra filmes que “vão e vem” na linha temporal para contar uma história. Mas achei que as viagens no tempo de All The Money in the World foram feitas de forma muito rápida, um tanto “intempestiva” demais no início do filme.

Saímos de 1973, quando o sequestro de Paul aconteceu, para voltar para 1964, em Nova York, quando os pais de Paul decidem dar uma cartada para se aproximarem do patriarca bilionário e, por um rápido momento, para a década de 1940, quando Getty começa a fazer a sua fortuna ao explorar o petróleo na Arábia Saudita. Esses retorno no tempo, volto a dizer, muito rápidos. Facilmente eles poderiam ter sido explorados melhor e toda a historinha dos sequestro ter sido um bocado resumida – até porque, convenhamos, ela não tem nada demais.

Ridley Scott entende muito bem do seu ofício. Então ele faz um bom trabalho na condução dessa história. Mas ele não faz nada além do esperado. Para mim, o ponto fraco mesmo é o roteiro de David Scarpa. Entre os aspectos técnicos do filme, talvez a direção de fotografia de Dariusz Wolski é o que se destaque positivamente. Achei a trilha sonora de Daniel Pemberton um tanto dramática demais. Outros aspectos que vale citar: a edição de Claire Simpson; o design de produção de Arthur Max; a decoração de set de Letizia Santucci; e os figurinos de Janty Yates.

O personagem de Getty é um clássico da “vida real”. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Ele nasceu para fazer dinheiro e fazer negócios. Para tirar o melhor proveito de cada situação. Ele não nasceu para ter uma família. Ainda assim, como diz o neto dele que foi sequestrado, Getty queria fazer uma “dinastia”. Para isso, claro, ele precisava ter herdeiros. Mas isso também fazia parte do orgulho dele.

Getty queria ser reconhecido por ser o mais rico – ou um dos mais ricos – do mundo e queria que os seus herdeiros seguissem com o sobrenome. Mas ele, de fato, parecia não se importar com ninguém. Qual é o sentido de tudo isso, afinal de contas? Nenhum, é claro. Não faz sentido.

O que falar do elenco de All The Money in the World? Até eles – a maioria, ao menos – parecem não acreditar muito na história do filme. Os destaques positivos são mesmo Christopher Plummer e Michelle Williams. Ambos fazem um trabalho em que você acredita no que eles estão apresentando. Outros nomes já estão um bocado “sem sal” e/ou um tanto robóticos. Esse é o caso de Charlie Plummer e de Mark Wahlberg. Romain Duris está bem como Cinquanta, mas o seu personagem parece um tanto exagerado…

Os demais atores envolvidos no projeto realmente tem uma importância muito menor. Todos estão razoáveis, a meu ver. Vale comentar o trabalho de Timothy Hutton como Oswald Hinge, advogado de Getty; Charlie Shotwell como John Paul Getty III aos sete anos de idade; Andrew Buchan como John Paul Getty II, pai do jovem sequestrado; Marco Leonardi como Mammoliti, o mafioso que “compra” Paul após os sequestradores originais não conseguirem avançar com a missão de receber o resgate; Giuseppe Bonifati como Giovanni Iacovoni, advogado de Gail; Nicolas Vaporidis como Il Tamia “Chipmunk”, um dos sequestradores – o primeiro a morrer; e Andrea Piedimonte Bodini como Corvo, outro participante do sequestro.

All The Money in the World estreou no dia 18 de dezembro de 2017 em première em Los Angeles. O filme não participou de nenhum festival. Estreou no Brasil no dia 1º de fevereiro de 2018.

Agora, algumas curiosidades sobre essa produção. Como vocês devem saber, Hollywood passa por uma saudável “devassa” das práticas ignóbeis de alguns “figurões” da indústria cinematográfica que usavam o seu poder para abusar/forçar relações com mulheres e homens que fazem parte do cinema – especialmente atrizes e atores. Um dos nomes envolvidos nesses escândalos foi o de Kevin Spacey, que passou a ser “banido” de eventos e produções. Ele tinha feito o papel de Getty, mas acabou sendo cortado do filme e substituído por Plummer.

Admito que no início do filme, especialmente, fiquei imaginando Spacey no papel de Getty. Mas isso foi só no início, porque o belo trabalho de Plummer logo me fez pensar nele e prestar atenção em sua interpretação – a partir daí, esqueci totalmente de Spacey. Na boa? Com todo o respeito ao que ele já fez, mas ele não faz falta não.

As refilmagens das cenas de Getty com Plummer demoraram oito dia para serem feitas e custaram US$ 10 milhões. Esse trabalho significou também o retorno de Michelle Williams e Mark Wahlberg para Roma, para que eles pudessem contracenar com Plummer, no feriado de Ação de Graças de 2017.

A Sony e a equipe de produção do filme decidiram, por unanimidade, substituir Spacey por Plummer quando faltava pouco mais de um mês para a estreia da produção. Ou seja, tiveram que correr para fazer a troca, mas certamente foi a escolha certa a se fazer. Spacey se queimou, aparentemente, para sempre na indústria do cinema.

Plummer disse que estava preparado para fazer Getty depois que Spacey foi retirado do projeto porque ele tinha sido considerado, antes, para o papel e, por isso, conhecia os roteiros. Além disso, Plummer conheceu pessoalmente Getty, frequentando algumas de suas festas promovidas em Londres nos anos 1960.

Angelina Jolie foi a primeira atriz convidada para fazer Gail Harris, mas ela recusou o papel. Depois, Natalie Portman chegou a ser anunciada como a atriz que faria esse papel, mas ela acabou pulando fora do projeto por causa da sua segunda gravidez. Foi aí que entrou em cena Michelle Williams.

Ainda que Christopher e Charlie tenham o mesmo sobrenome, Plummer, eles não são parentes. Bom para Christopher Plummer, porque achei Charlie muito, muito fraquinho.

Além do fato que eu citei sobre a morte de Getty, o filme tem outras “liberdades poéticas” consideráveis. (SPOILER – não leia… bem, você já sabe). No filme, o pai de Paul não se envolve nas negociações para resgatar o filho. Mas não foi isso que aconteceu na vida real, onde ele insistiu com o pai para pagar o resgate e participou das negociações – não foi apenas Gail que fez isso. Depois, Paul foi espancado e torturado com bastante frequência no cativeiro – o que o filme não mostra. Após o fim do sequestro, Paul foi encontrado na beira de uma estrada por um motorista de caminhão – ou seja, não houve nenhuma perseguição dos bandidos e da polícia em uma vila italiana. Esses aspectos, assim como a morte de Getty, foram mudados no filme e, para o meu gosto, sem muita razão de ser.

All The Money in the World foi indicado para nove prêmios, mas não ganhou nenhum até agora.

Os usuários do site IMDb deram a nota 7,1 para esta produção, enquanto que os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 149 textos positivos e 44 negativos para a produção, o que lhe garante uma aprovação de 77% e uma nota média 7. No fim, sem querer, acabei acompanhando tanto a votação do público quanto da crítica – juro que eu dei a minha nota antes de ver essas outras avaliações.

All The Money in the World faturou US$ 24, 9 milhões nos Estados Unidos e outros US$ 21,3 milhões nos outros países em que estreou até o dia 15 de fevereiro. Ou seja, no total, fez pouco menos de US$ 46,2 milhões – um valor relativamente baixo, especialmente porque o filme deve ter custado muito mais que isso.

Para quem ficou interessado em saber mais sobre os Getty, acho que vale dar uma olhadela nessa matéria do G1 que tratou da morte de John Paul Getty III em 2011 e esse resumão da trajetória de Getty disponível na Wikipédia.

Esse filme é uma produção 100% dos Estados Unidos. Assim, ele atende a uma votação feita há algum tempo aqui no blog – quando vocês me pediram para comentar filmes desse país.

CONCLUSÃO: Antigamente, quando eu dava uma nota 7 para um filme, isso queria dizer que eu não tinha gostado muito do que eu tinha visto. Hoje, a nota 7 representa exatamente o que ela quer dizer quando estamos no colégio. Ou seja, sim, o filme tem méritos para “passar de ano”. Mas não, ele não está acima da média ou mesmo apresenta algum grande diferencial. É apenas mediano. Esse é bem o caso de All The Money in the World. Sim, os atores estão bem.

Viajamos um bocado para cá e para lá porque a história exige isso. Temos uma bela reflexão sobre mesquinharia e sobre o quanto uma pessoa abastada pode ser pobre de espírito. Mas isso é tudo. Nada demais no “reino da Inglaterra”. Você já viu a filmes que tratam sobre a falta de noção e de generosidade dos mais ricos. Essa história, apesar de não ser muito interessante ou surpreendente, ganha uns pontos por ser baseada em fatos reais. Mas isso é tudo. Um filme mediano, com bons atores, mas que não vai lhe agregar nada, realmente. Há opções bem melhores no mercado. Mas se você gosta do diretor ou dos atores, não vai sofrer ao assisti-lo.

PALPITES PARA O OSCAR 2018: Honestamente, esse filme não tem chance alguma na premiação da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood. All The Money in the World está concorrendo apenas na categoria de Melhor Ator Coadjuvante. De fato, Christopher Plummer é um dos elementos de destaque da produção. Mas ele não tem chances contra o favoritíssimo Sam Rockwell, de Three Billboards Outside Ebbing, Missouri (com crítica nesse link).

De fato, para mim, os melhores atores coadjuvantes desse ano, ao menos entre os filmes que estão concorrendo ao Oscar, são Sam Rockwell e Richard Jenkins (de The Shape of Water, comentado por aqui). Mas deve ser o primeiro a ganhar o prêmio – até porque ele tem “papado” tudo nessa temporada, inclusive o Globo de Ouro e o Screen Actors Guild Awards. Ou seja, favoritíssimo. Plummer corre totalmente por fora e seria um pouco uma zebra se ele levasse.

Curtas Documentário Indicados ao Oscar 2018 – Avaliação

Olá amigos e amigas do blog!

Como manda a tradição dos últimos anos da cobertura do Oscar feita aqui no blog, vale a pena falarmos também sobre os curtas que concorrem em três categorias da premiação da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood.

Vou seguir, nesse ano, a ordem de divulgação dos indicados feita pela própria Academia. Assim, começo comentando sobre os filmes indicados na categoria Melhor Curta Documentário.

As bolsas de apostas já apontam os favoritos, mas a verdade é que nessa categoria, assim como na de Melhor Filme em Língua Estrangeira, o palpite dos apostadores é mais no “chutômetro” do que realmente baseado em chances reais de premiação. Ainda assim, vale falar também sobre como cada um destes curtas está sendo encarado pelos apostadores.

Vale lembrar que o Oscar 2018, que representa a 90ª premiação da Academia, será promovido esse ano no primeiro domingo de março – ou seja, no dia 4. Ou seja, estamos mais próximos do que nunca de saber quais destas produções sairá ganhando na disputa.

Eu sou uma incentivadora de curtas. Afinal, grande parte dos diretores que admiramos hoje em dia, começaram exatamente com essa modalidade de filmes. E grandes histórias podem ser contadas em curtas. Então vamos dar uma olhada no que temos esse ano na disputa da estatueta dourada na categoria de Curtas Documentário? Bóra lá!

1. Edith+Eddie

Achei a premissa desse curta muito, muito bacana. A diretora Laura Checkoway, que tem apenas três títulos no currículo como diretora, conta, nesse curta de 29 minutos, a história de Edith e de Eddie. Eles tem, respectivamente, 96 e 95 anos de idade, e são conhecidos por serem o casal de recém-casados inter-racial mais velho dos Estados Unidos.

O resumo do filme diz que a história de amor deles está ameaçada por suas respectivas famílias, que querem separá-los. Me pareceu muito interessante o filme porque ele não apenas trata do amor na velhice, e sobre a capacidade do ser humano de amar e de se reinventar durante a vida inteira, mas também aborda uma questão que parece nunca ter fim nos Estados Unidos – e em outras partes do mundo: o preconceito racial.

Esse é um tema muito vivo naquele país e que sempre rende filmes muito interessantes. Encontrei no YouTube o filme na íntegra – mas não sei por quanto tempo ele ainda estará disponível. O que me chamou muito a atenção, assistindo à essa produção, é a delicadeza e o respeito que a diretora tem pelos protagonistas de seu filme.

Edith e Eddie são mostrados em sua intimidade, começando pelo momento em que eles aparecem dançando em um dos tantos bares de música country do país, e passando para o momento em que eles estão dormindo juntos, lado a lado. Na introdução do filme, a diretora nos conta que eles se conheceram há 10 anos, em uma fila da loteria no Estado da Virginia.

Muito bacana ver aquela cena deles dormindo, com um urso de pelúcia junto com o casal na cama, e o retrato do casal na estante. Cenas de um cotidiano de pessoas reais, que descobriram que o amor é puro companheirismo. A questão é que nem tudo são flores, e eles, que já passaram por tanto na vida – só eles sabem o quanto -, ainda tem que, com toda aquela idade, enfrentar o preconceito – racial e de idade também, porque ambos existem.

Achei interessantíssimo o filme. Não apenas pelas temáticas que ele trata, que são muito atuais – e acho que serão por um longo tempo ainda -, mas pela forma com que a diretora conseguiu adentrar na intimidade do casal e valorizá-la com muita delicadeza e respeito.

Mas a história não tem um final feliz – desculpem o spoiler. E assim, sem firulas, a diretora nos faz questionarmos algo que poucos estão preparados para responder: até que ponto os filhos devem interferir na vida dos pais quando eles já estão com bastante idade e nem sempre capazes de fazer a melhor escolha com consciência? Essa não é uma resposta fácil, mas, sem dúvida alguma, o valor que deveria ser colocado na frente de outros não deveria ser o dinheiro ou a herança, mas o que a pessoa gostaria de ter feito antes de perder totalmente a capacidade de escolher.

Nas bolsas de apostas, Edith+Eddie é o favoritíssimo para ganhar a estatueta dourada do Oscar 2018. Mas essa não é a opinião de alguns críticos. Jude Dry, da IndieWire, por exemplo, nesse texto em que ele analisa os concorrentes, deu a menor nota para Edith+Eddie (C+). Nesse outro texto, da Slant Magazine, Ed Gonzalez comenta os curtas indicados nessa categoria e diz que Edith+Eddie pode ganhar a estatueta, mas que o favorito é Heroin(e).

Com um background como jornalista, Laura Checkoway estrou com o documentário Lucky em 2014. Depois, em 2016, ela lançou o curta Wolffland. Ou seja, Edith+Eddie é apenas o seu terceiro título – e o primeiro curta documentário. Até o momento, Checkoway tem sete prêmios no currículo. Destes prêmios, seis foram dados para Edith+Eddie – incluindo o prêmio de Melhor Curta no Prêmio da Associação Internacional de Documentários.

Sempre vale comentar a opinião do público e da crítica. Edith+Eddie tem a nota 7,3 no IMDb – mas ainda não tem avaliações no Rotten Tomatoes. Abaixo, eu deixo o curta na íntegra e, na sequência, o trailer do filme – afinal, eu não sei por quanto tempo o curta estará disponível no YouTube.

 

 

 

2. Heaven Is a Traffic Jam on the 405

Esse curta com 40 minutos de duração dirigido por Frank Stiefel conta a história de Mindy Alper, uma “torturada e brilhante artista de 56 anos de idade que é representada por uma das melhores galerias de Los Angeles”. Segundo a nota de apresentação do curta comenta, a protagonista desta história sofreu com “ansiedade aguda, transtorno mental e uma depressão devastadora”.

Esses problemas fizeram com que Mindy Alper passasse por instituições de tratamento para pessoas com transtornos mentais, onde ela passou por terapia de eletrochoque e por outros tratamentos que fizeram com que ela ficasse 10 anos sem falar. Detentora de uma grande auto-consciência, a artista produziu uma trajetória artística em que ela pode expressar todo o seu estado emocional com grande “precisão psicológica”.

Ainda segundo os produtores desse curta, Heaven Is a Traffic Jam on the 405 utiliza entrevistas, reconstituições, mostra a a construção de um busto feito em papel machê de oito pés (xx metros) que reconstituí o “amado psiquiatra” da artista e revela o talento dela através de desenhos que ela fez desde a infância para apresentar o retrato mais completo de Mindy Alper.

Dessa forma, segundo as notas da produção, o curta mostra como a artista retratada “emergiu da escuridão e do isolamento para uma vida que inclui amor, confiança e apoio”. Bastante interessante a premissa, não? A exemplo de Edith+Eddie, encontrei esse curta na íntegra também no YouTube – vamos ver até quando.

Gostei muito do começo, da forma com que o diretor Frank Stiefel mostra uma situação que pode irritar muita gente, que é o trânsito, e como ele é visto com prazer pela artista. Aliás, logo o filme se debruça sobre a forma de falar e de pensar de Mindy Alper. Gostei da trilha sonora e da pegada do curta. E aquele início já explica o título da produção. Em seguida, mergulhamos na arte da protagonista, assim como na sua história.

Segundo as bolsas de apostas para o Oscar, essa produção estaria em segundo lugar na disputa pela estatueta dourada da Academia. Na avaliação de Jude Dry, do site IndieWire, Heaven Is a Traffic Jam on the 405 empata com Traffic Stop com a melhor nota entre os concorrentes: A-. Segundo Dry, o filme de Stiefel tem muitas camadas e conta uma fascinante história em que a arte é a sobrevivência de uma pessoa.

O crítico também destaca como Stiefel “apimenta” a produção com os desenhos dinâmicos da artista, valorizando, assim, tanto a sua história de superação quanto a sua arte. Por sua parte, Ed Gonzalez, do site Slant Magazine, afirma que Heaven Is a Traffic Jam on the 405 é o filme que “deveria ganhar” o Oscar, mas ele aponta que essa produção não deve levar a estatueta.

O curta Heaven Is a Traffic Jam on the 405 é o segundo trabalho de Frank Stiefel como diretor. Antes, ele filmou apenas ao curta documentário Ingelore, em 2009. A carreira maior de Stiefel é como produtor. Com Heaven ele conseguiu a sua primeira indicação ao Oscar – a exemplo de Laura Checkoway, diretora de Edith+Eddie.

Heaven conquistou, até o momento, quatro prêmios. Entre eles, os prêmios do público e do júri como Melhor Curta Documentário no Festival de Cinema de Austin e os mesmos prêmios no Full Frame Documentary Film Festival. Os usuários do site IMDb deram a nota 7,3 para o filme – ainda não existem avaliações sobre essa produção no Rotten Tomatoes.

Achei a premissa e a “pegada” de Heaven bastante interessantes. Afinal, os artistas sempre precisam de uma boa plataforma para contar as suas histórias, e é sempre bacana ver alguém que passou por maus bocados, inclusive em questões psiquiátricas, conseguindo dar a volta por cima e tendo a arte como aliada para dar vasão para os seus sentimentos, pensamentos e desejos.

Porque todos, não importa pelo que eles passaram, merecem ser ouvidos, compreendidos e amados. Todos. Sem exceção. Gosto muito de filmes que valorizam as histórias de quem normalmente parece não ter vez. Esse me parece ser um filme com essa proposta. A exemplo do curta anterior, deixo por aqui também o curta que eu encontrei na íntegra, no YouTube e, na sequência, o trailer dele (afinal, não sei por quanto tempo o curta estará disponível na íntegra). Vale conferir ambos:

 

 

 

3. Heroin(e)

Com 39 minutos de duração, Heroin(e) conta a história de “três mulheres que lutam para quebrar o ciclo de uma vida, uma por vez”. Olhando dessa forma, essa descrição dos produtores parece bastante genérica, não é mesmo? Mas se pensarmos no título do curta, fica mais fácil de pensar sobre que “ciclo” estamos falando.

Classificado com a nota B+ pelo crítico Jude Dry, do site IndieWire, Heroin(e) traz um “retrato expansivo de uma cidade da Virgínia Ocidental envolvida em um epidemia de opióides” e que tem a sua narrativa conduzida por três mulheres “infatigáveis” na luta contra essa epidemia de drogas.

As protagonistas dessa história são a Chefe do Corpo de Bombeiros Jan Rader, que “gasta os seus dias revivendo viciados que caíram em overdose”; a juíza Patricia Keller, que tem um programa de reabilitação na corte que trata esses casos com humor e uma certa carga de amor; e a missionária Necia Freeman, do Brown Bag Ministry, que alimenta e aconselhas as mulheres que vendem os seus corpos para conseguir as drogas.

Na avaliação de Dry, a escolha da diretora Elaine McMillion Sheldon em seguir três mulheres para contar essa história da luta de uma cidade contra a epidemia de drogas é uma “grande vantagem” porque o espectador acaba ficando envolvido com as suas histórias e tem um retrato mais humano e completo da cidade com características industriais. Para o crítico, Heroin(e) é um retrato convincente de uma cidade dos esquecidos “Apalaches” e das mulheres que a mantêm.

Na avaliação do crítico Ed Gonzalez, do site Slant Magazine, Heroin(e) deve ganhar o Oscar na categoria Melhor Curta Documentário. Entre os apostadores, esse curta é apenas o terceiro na lista de preferência. Se olharmos pela nota do filme no IMDb (6,8) e pelo número de prêmios que ele recebeu – nenhum, até agora -, sem dúvida Heroin(e) corre atrás dos outros dois curtas citados anteriormente.

Mas como nada disso define o Oscar, realmente vamos precisar esperar para ver como Heroin(e) se sairá na premiação da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood. Heroin(e) é o sétimo projeto da diretora Elaine McMillion Sheldon. Ela estreou em 2011 com o documentário Lincoln County Massacre e, depois, lançou outros dois documentários antes de dirigir dois curtas documentário e um curta que antecederam a Heroin(e).

Apesar de ter uma trajetória reconhecida, com Heroin(e) ela conquistou a sua primeira indicação ao Oscar. Diferente dos outros dois curtas, que encontrei na íntegra no YouTube, dessa produção eu achei apenas o trailer. Mas por ser uma produção da Netflix, esse curta documentário esteja disponível para ser visto nesse serviço de streaming diretamente para quem tem uma assinatura. Deixo, abaixo, apenas o trailer do curta:

 

 

4. Knife Skills

Dirigido por Thomas Lennon, esse curta com 40 minutos de duração acompanha o “agitado lançamento” do restaurante Edwins na cidade de Cleveland, Estados Unidos. O restaurante é quase todo formado por homens e mulheres que saíram da prisão. O objetivo do negócio é que ele seja conhecido com um restaurante francês de classe mundial.

O desafio do negócio é treinar a equipe que faz parte do restaurante para atender às grandes expectativas dos clientes, já que a maior parte das pessoas contratadas nunca tinha cozinhado antes ou trabalhando em um negócio desse ramo. Para que o Edwins estreie da forma desejada, esse grupo de iniciantes passou dois meses aprendendo tudo que eles podiam sobre um restaurante com esse perfil.

De acordo com o texto de divulgação do curta, “nesse cenário improvável”, o espectador descobre os desafios dos homens e mulheres contratados para oferecer pratos deliciosos com seu “arcabouço de vocabulário francês”. No curta, o espectador vai conhecer de forma mais íntima três estagiários, assim como o fundador do restaurante – ele próprio assombrado com o seu tempo de prisão.

Da minha parte, achei a história dessa produção muito interessante. Outro tema importante levantado por um dos curtas indicados ao Oscar desse ano. Eu sempre reflito sobre as poucas oportunidades de trabalho e de “virada de vida” que as pessoas dão para quem um dia já foi preso. Como queremos que quem já prestou as suas contas na Justiça tenha uma vida diferente se não ajudamos elas para conseguir isso?

E esse ajudar é tão simples – ou deveria ser – quanto lhes oferecer uma oportunidade de trabalho, uma chance para que elas mostrem os seus talentos e a vontade que elas têm de trilhar um novo caminho. Achei interessante a proposta do restaurante e a do diretor Thomas Lennon em contar essa história.

Vou citar novamente o crítico Jude Dry, da IndieWire. Entre os cinco finalistas na categoria Melhor Curta Documentário desse ano, ele deu a segunda nota mais baixa para Knife Skills: B-. De acordo com Dry, apesar de ter uma “história que valha a pena”, o filme não é tão saboroso quanto poderia ser.

Um problema da produção segundo o crítico, é que o diretor começou a acompanhar os preparativos para a abertura do restaurante apenas seis semanas antes do negócio abrir as portas – e a produção nunca apresenta as razões para ter uma “linha do tempo tão apertada”. Dry também considerou um bocado cruel dar para os três estagiários uma tarefa “tão impossível”.

O crítico comenta que o filme se conecta menos do que deveria com os estagiários, afirma que a passagem de tempo na produção não é bem resolvida e que, em resumo, Knife Skills abrange uma história fascinante, mas que o filme, simplesmente, “não combina com a engenhosidade do assunto”.

Knife Skills é o único curta, entre os indicados, que é dirigido por um nome que já venceu o Oscar antes. O diretor Thomas Lennon tem 13 títulos no currículo. Ele estreou na direção em 1984 com o documentário feito para a TV To Save Our Schools, to Save Our Children. Depois, ele fez mais quatro trabalhos para a TV – filme e séries de documentário – até estrear, em 2003, com o primeiro documentário feito para os cinemas, Unchained Memories: Readings from the Slave Narratives.

Depois, viriam mais três trabalhos feitos para a TV, dois documentários e um curta documentário antes de Knife Skills. Como eu disse, ele já ganhou um Oscar. Foi em 2007, na categoria Melhor Curta Documentário, por The Blood of Yingzhou District. Com Knife Skills, Lennon acumula quatro indicações ao Oscar – sendo que, em uma delas, a já citada de 2007, ele levou a estatueta para casa. Ou seja, temos aqui um veterano já reconhecido pela Academia.

Os usuários do site IMDb deram a nota 6,8 para Knife Skills. O curta, até o momento, ganhou apenas um prêmio, o de Melhor Curta Documentário no Traverse City Film Festival. Na bolsa de apostas do Oscar, esse é o penúltimo filme na lista das preferências dos apostadores.

Para vocês conferirem um pouco mais sobre esse curto, deixo aqui o trailer de Knife Skills:

 

5. Traffic Stop

Fechando a lista dos curtas documentário indicados ao Oscar 2018, chegamos até Traffic Stop, uma produção com 30 minutos de duração dirigida por Kate Davis. Esse filme conta a história de Breaion King, uma professora afroamericano de 26 anos da cidade de Austin, no Texas, que foi parado inicialmente por causa de uma violação das leis de trânsito e que acabou sendo preso de uma forma dramática.

De acordo com o texto de apresentação desse curta, King foi pega pelas câmeras da polícia e logo puxada de seu carro por um policial que lhe deu voz de prisão. Diversas vezes ela foi jogada no chão até ser algemada. Quando estava sendo levada para a prisão, King empreendeu uma conversa revelada com o oficial que a estava levando sobre a questão racial e o cumprimento da lei nos Estados Unidos.

O curta documentário justapõe imagens das câmeras dos policiais com cenas do cotidiano de King com o objetivo de “oferecer um retrato mais completo da mulher que foi apanhada em um encontro inquietante”. O crítico Jude Dry, do site IndieWire, classificou Traffic Stop com a melhor nota entre os curtas que concorrem ao Oscar – na verdade, o filme “empata” com Heaven Is a Traffic Jam on the 405 no conceito A-.

Dry comenta como, em 2015, Breaion King foi parado por causa de uma pequena violação de trânsito. Ele explica que o que deveria ter terminado com uma multa de rotina acabou terminando com uma prisão violenta. Dry destaca ainda como a cineasta Kate Davis “corta a tensão” das imagens da prisão capturadas pelas câmeras da polícia com cenas da “vida rica e variada” do protagonista dessa história.

Segundo o crítico, contrasta muito a pessoa alegre, solidária e emotiva que King é na vida real com as imagens absurdas de sua prisão violenta. O alívio vem da entrevista que a diretora faz com ela – um sinal de que ela sobreviveu. Dry elogia o trabalho de Davis, afirmando que ela cria “um retrato profundo em movimento de uma mulher cuja vida é virada de cabeça para baixo pela brutalidade e o racismo de uma polícia insidiosa”.

Ou seja, Traffic Stop trata de um tema muito quente nos Estados Unidos. Para Dry, esse curta é um dos dois favoritos desse ano na disputa – o outro forte concorrente, segundo o crítico, seria Heaven Is a Traffic Jam on the 405. Apesar dessa opinião dele, Traffic Stop aparece em último lugar na lista de preferências de quem apostou nessa categoria nas bolsas de apostas.

Traffic Stop é o décimo-sexto trabalho da diretora Kate Davis. Ela estreou em 1983 dirigindo um dos episódios da série de documentários feitos para a TV American Undercover. Poucos anos depois, em 1987, ela estreou o primeiro documentário feito para os cinemas, Girltalk. Depois disso, ela lançou sete documentários, dois episódios de séries de documentários feitos para a TV, três documentários feitos para a TV e um episódio de uma série de TV antes de lançar Traffic Stop.

Com esse curta documentário, pela primeira vez, Kate Davis conseguiu uma indicação ao Oscar. Entre os curtas que concorrem esse ano nessa categoria, essa produção é a que ostenta a menor nota no site IMDb: 5,9. O filme também não ganhou nenhum outro prêmio antes – então, apesar da crítica favorável de Dry, parece realmente que este curta documentário é uma grande zebra nessa disputa por uma estatueta dourado.

Deixo, para vocês conferirem, o trailer de Traffic Stop. Sou franca que o trailer me deixou impressionada. Acho que a proposta do curta é muito interessante, e coloca luz sobre um tema sempre fundamental de ser discutido nos Estados Unidos e em tantos países mundo afora:

 

PALPITES PARA O OSCAR 2018: Difícil opinar sobre todos esses concorrentes quando, na verdade, eu não pude conferir a todos eles. Mas observando a proposta de cada um e a “pegada” de cada produção que eu pude ver na íntegra ou através dos trailers, eu acho que os curtas mais interessantes são Traffic Stop, Edith+Eddie e Heaven Is a Traffic Jam on the 405.

Eu não sei se, exatamente, nessa ordem. Mas foram esses curtas que mais me “saltaram” aos olhos. Segundo os apostadores, Edith+Eddie e Heaven Is a Traffic Jam on the 405 são os favoritos. De acordo com críticos, a disputa está mais dividida, entre Heroin(e), Heaven Is a Traffic Jam on the 405 e Traffic Stop. Logo mais, veremos.

The Square – The Square: A Arte da Discórdia

Qual é o valor da arte hoje em dia? Em um mundo em que a desigualdade parece não ter fim, gastar com arte parece algo ético? O que a arte nos questiona, conseguimos levar para a nossa vida cotidiana ou a reflexão dura apenas alguns segundos, minutos, dias, mas não consegue sair do plano das ideias? The Square é um filme interessante, que nos desafia a pensar sobre o nosso contexto, sobre as sociedades que construímos e sobre as escolhas que fazemos. Trata de arte, é verdade, mas trata, sobretudo, de gente.

A HISTÓRIA: Som de festa. Um zumbido. Som de um sapato no piso. A secretária de Christian (Claes Bang) pergunta se ele precisa de algo, porque chegou a hora da próxima entrevista. Ele pede dois minutos para se preparar. Pouco depois, ele está pronto para falar com a jornalista Anne (Elisabeth Moss). A entrevista demora um pouco, porque as anotações dela caem, mas logo ela recomeça e pergunta para ele qual é o maior desafio para se gerenciar um museu. Christian diz que odeia dizer isso, mas que provavelmente é o dinheiro.

Ele diz que o museu, por ser de arte moderna e contemporânea, tem uma competição feroz, já que existem muitos compradores cheios de dinheiro no mundo que gastam mais em uma tarde do que eles em um ano. E assim começa essa produção, que mostra não apenas o que acontece dentro de um museu, mas em seu entorno, focando em aspectos que a arte moderna e contemporânea gosta de focar, ainda que nem sempre ela chegue em todos que deveria.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a The Square): Eu não sabia muito bem o que esperar desse filme. Sim, eu já tinha ouvido falar que ele tratava sobre a arte, mas qual seria exatamente a proposta desta produção, só vendo mesmo. E aí que esse filme me surpreendeu por tratar os bastidores da arte sem firulas e por aproveitar o tema para abrir um pouco mais a discussão sobre a sociedade que cada um de nós ajuda a construir.

Logo no começo do filme dirigido e com roteiro de Ruben Östlund somos apresentados ao protagonista dessa produção. Curador-chefe de um museu de arte moderna e contemporânea, Christian é um sujeito interessante – e que representa vários homens da sua geração. Bem educado, com uma vida boa e com “poder” no meio artístico, ele tem o olhar crítico necessário para estar na posição em que ele está. Mas será que esse olhar crítico se sustenta a longo prazo e/ou em qualquer situação?

Algo interessante nesse filme, e que eu notei logo de cara, é que ele trata de situações bastante plausíveis. Em alguns momentos, inclusive, parece que The Square se desenvolve quase como um documentário. Me refiro às diferentes cenas das ruas de Estocolmo, à garota que pede dinheiro ou comida em um 7-Eleven do Centro, e tantas outras sequências que parecem povoar o cotidiano não apenas daquela cidade, mas de qualquer outra.

O início do filme, que se debruça sobre os bastidores de uma nova exposição que está sendo preparada para estrear no museu, também parece bastante “a vida como ela é”. Christian está em meio a uma série de entrevistas para falar sobre o museu e sobre o seu esforço de seguir existindo em um mundo em que a disputa por recursos é cada vez maior – e quem, hoje em dia, realmente é filantropo e generoso para doar dinheiro para a arte?

Assim, The Square já começa desmistificando um pouco a ideia romântica que muitos tem sobre o mundo da arte. De que ele é formado apenas por pessoas criativas, muito ligadas em tudo que os cerca e críticas do cotidiano. Ainda que tudo isso seja verdade, esse meio também vive em uma busca constante por dinheiro e por recursos. Colocar uma nova exposição de pé não é algo fácil ou simples, como The Square revela muito bem.

Várias pessoas são envolvidas no processo, e há uma “briga” grande por parte de cada museu para que a sua proposta seja ouvida e reverberada na imprensa – porque, assim, eles conseguem não apenas público, mas também possíveis apoiadores/patrocinadores. E aí esse filme entra em uma outra esfera que, particularmente, me pareceu especialmente interessante: em um mundo com excesso de informação e de pautas que chamam a atenção e são de interesse público, como se fazer notar com uma exposição de arte?

Francamente, a arte deveria chamar a atenção naturalmente. Pelo menos é isso que eu penso. Porque a arte, não importa em que época da nossa história, ajudou a nos contar mais sobre o que somos, sobre o que sonhamos, e ampliou as nossas fronteiras da imaginação e da compreensão. Então a arte, por si só, deveria interessar a todos – inclusive aos jornais.

Mas não. Parece que a cada dia mais pessoas estão achando a arte desinteressante – ou essa é apenas uma impressão minha? Nesse sentido, The Square joga algumas perguntas importantes no ventilador. Como, por exemplo, a quem a arte interessa? Quem se importa com a arte? Será que ela pode ser tão importante ou interessante para um mendigo quanto para uma pessoa que tem uma ótima condição de vida?

Pior que, para quem já frequentou alguns museus, sabe que arte parece ser realmente restrita a alguns perfis de pessoas. Quantos museus, por exemplo, estariam dispostos a abrir as portas para quem não pode pagar pela entrada e/ou para moradores de rua? Bem, muitos museus tem os seus dias de gratuidade. Em teoria, nesses dias, qualquer pessoa poderia entrar – inclusive alguém sem dinheiro algum. Mas você, que já foi em alguns museus, já viu em algum deles um mendigo? Eu, nunca.

Então será mesmo que os diferentes cenários artísticos – museus, galerias, cinemas, teatros, etc. – são democráticos e abertos para todos? Ou será que eles, com certa “naturalidade”, selecionam quem deve ou não frequentar os seus ambientes e a sua arte? Apesar de não ser vista por todos, a arte trata sobre todos. Todas as manifestações artísticas que vemos nesse filme – todas muito interessantes, aliás -, acabam falando sobre conceitos universais e sobre questões que competem a toda a sociedade (inclusive a marginalizada).

Uma das exposições, que mostra montes de “cinzas” e a frase “você não tem nada”, aborda a insignificância e a finitude do indivíduo – e o fato de que nada do que ele acredita ter de posses realmente seja algo. Outra intervenção artística, feita por Oleg (Terry Notary), em um jantar chique – para mim, o ponto alto da produção -, trata com bastante impacto a questão do “bicho humano” e a sociedade machista em que vivemos – na qual, muitas vezes, parte considerável dos homens parece não ter saído do tempo das cavernas.

Além destas exposições, temos aquela que movimenta a produção – além da vida pessoal do protagonista, é claro. A exposição The Square de Lola Arias, que dá nome a esse filme, trata sobre uma sociedade em que a confiança ou a desconfiança sobre os outros dita as nossas escolhas cotidianas – e, mais que isso, a nossa vida.

Em paralelo a todo o trabalho envolvendo a montagem e a divulgação dessa exposição, temos a vida real acontecendo, com o protagonista Christian tendo a sua própria tolerância e confiança/desconfiança do outro testada. (SPOILER – não leia se você não assistiu ainda ao filme). Primeiro, ao tentar ajudar uma garota desesperada, ele é enganado e roubado. E como ele reage a isso que lhe aconteceu? Esse é o ponto central da história.

Primeiro, Christian “acompanha” a trajetória do celular que foi roubado. Depois, em meio a vinho e um jantar, ele dá ouvidos para Michael (Christopher Laesso), que sugere que ele entregue uma carta ameaçadora para cada morador do prédio onde o celular dele foi parar. Até aí, o gesto dele parece ter sido inocente. Afinal, o criminoso pode ou não dar bola para a carta que ele escreveu. O problema é que nem toda cultura ou toda família funciona da mesma forma.

Então sim, Christian consegue os seus pertences de volta. Mas ele também consegue uma bela dor de cabeça com um garoto (Elijandro Edouard) ficando realmente indignado com a acusação que ele fez. Diferente de Christian, que provavelmente ignoraria uma carta daquela sendo deixada em sua porta, a família do garoto passou a desconfiar dele e a castigar. Claro que tudo isso se resolveria de uma maneira simples – se eles falassem com a vizinhança, por exemplo, facilmente eles saberiam que a acusação tinha sido generalizada.

Esse ponto do filme parece um tanto exagerado, não é mesmo? De fato ele é, um pouco. Porque vejamos a maior parte das pessoas… quem hoje em dia cumprimenta os vizinhos ou tem uma boa relação com eles? Sim, no Brasil ainda temos isso. Agora imagine um país da Europa onde os imigrantes são cada vez mais recebidos com receio e/ou indiferença… muitas pessoas realmente não se enturmam ou acabam se refugiando apenas dentro de casa – para evitar problemas maiores.

Nada fica totalmente claro em The Square, mas me parece que esse era o caso do garoto e de sua família. Parece que eles eram imigrantes – talvez até muçulmanos -, que não eram bem “inseridos” em sua comunidade e que, por isso, acabaram levando a acusação como algo tão grave.

Esse é um ponto não óbvio e importante do filme. Mostrar como hoje existem tantas pessoas marginalizadas nas nossas cidades – seja porque não tem dinheiro, seja porque vieram de outros países, atrás de uma oportunidade melhor de vida, e não falam direito o idioma ou encontram uma oportunidade de trabalho.

O problema é que nem eles se adaptam bem ao novo local, por causa do idioma e da cultura, e nem as pessoas locais conseguem perceber que a forma deles de pensar e de agir é diferente – e que todos nós, por isso mesmo, deveríamos ter mais cuidado e empatia no trato. Em resumo, mais consideração pelo ser humano, suas semelhanças e diferenças. Mas quem disse que isso é o que vemos acontecer?

Voltando para a questão da divulgação da nova exposição do museu. Esse é um ponto que me pareceu especialmente interessante. Christian, muito envolvido com as suas questões pessoais – além do resgate dos pertences roubados, a relação nova e um tanto conturbada com a jornalista Anne (Elisabeth Moss) e o retorno das filhas para casa (Lise Stephenson Engström e Lilianne Mardon) -, acaba sendo um bocado displicente com a divulgação da exposição The Square.

O resultado é que a agência de relações públicas e de marketing contratada para divulgar o evento acaba apostando na ideia maluca de dois “jovens talentos” (Daniel Hallberg e Martin Sööder) que conhecem bem a dinâmica das redes sociais e que vem com uma ideia literalmente “bombástica” para “causar” na internet. Para mim, esse é um dos pontos mais interessantes do filme.

Realmente muitas pessoas hoje em dia – vide inclusive políticos no Brasil – perdem a noção do ridículo ou do que pode ser aconselhável e se lançam com ideias malucas e/ou cretinas na internet para conseguirem a tão desejada exposição na mídia. Mas a que preço eles fazem isso? No caso do exemplo dado por The Square, os publicitários conseguiram “viralizar” o vídeo e chamar a atenção para a exposição, mas de uma forma totalmente errada.

Afinal, sim, a exposição queria chamar a atenção para a falta de cuidado e de afeto das pessoas com os outros de forma geral. Mostrar que o que deveria ser considerado básico no trato humano não acontece, muitas vezes. (SPOILER – não leia… bem, você já sabe). Mas daí a explodir uma garotinha loira se passando como mendiga é um pouco demais, não? Afinal, estamos falando de uma era em que extremistas realmente se explodem para matar “infiéis” e na qual esses mesmos grupos utilizam crianças como “bala de canhão”… então mostrar uma criança explodindo para falar de uma exposição parece banalizar demais a violência que já acontece na vida real, não?

Mas essa ideia cretina apresentada em The Square nos ajuda a refletir sobre algo que gostaram de falar bastante por aqui também na exposição com um homem nu e uma criança: a liberdade de expressão. Hoje em dia, na era em que as “massas” antes apenas receptoras de informação podem também dar a sua opinião sobre tudo, certas ideias não passam mais pelo crivo do “tribunal da internet”.

O povo pode até consumir em massa um determinado vídeo – e, como The Square bem revela, inclusive dar dinheiro para quem fez isso e para o Google como “participante” dos lucros -, mas nem por isso ele bate palma para o que viu. No caso do vídeo infeliz dos publicitários “brilhantes” que sabem tudo sobre internet, o tiro saiu pela culatra. A mensagem foi distorcida, foi exagerada, tudo para chocar e para viralizar, e a polêmica destruiu uma exposição que tinha um princípio interessante – e, por tabela, fez o protagonista dessa história perder o emprego.

Essas questões, assim como a desigualdade de oportunidades e de tratamentos conforme a classe social ou a origem das pessoas, são temas importantes nesse filme. Só me incomodou um pouco, devo admitir, que alguns personagens foram pouco desenvolvidos – como o de Anne, interpretado por uma Elisabeth Moss quase em participação especial -, e que algumas sequências foram pensadas mais do que para nos chocar do que para fazer sentido (como aquela do protagonista empurrando o garoto pela escada).

Além disso, achei a duração desse filme realmente longa. Para o que ele tinha que nos apresentar, tranquilamente ele poderia ter duas horas de duração ou até um pouco menos – mas The Square tem 2h22min! Também acho que algumas sequências da produção ficaram um tanto deslocadas, como toda aquela sequência de Christian no apartamento de Anne (que poderia ser bem mais curta e direta) ou o encontro do garoto indignado com o “emissário” de Christian, Michael. Um pouco menos de pretensão faria bem para esse filme.

NOTA: 9.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Os artistas são seres fabulosos. Eles pensam a realidade de uma forma que os “reles mortais”, tão ocupados em seus cotidianos de trabalho e demais afazeres, não são capazes de fazer. Além disso, eles tem a capacidade de ver o belo – ou o feio – de uma forma diferenciada, olhando além das aparências e sabendo provocar as audiências como poucos.

Ainda que tudo isso seja verdade, até que ponto um artista tem a liberdade para expressar a sua arte? Ele pode ter a liberdade completa, fazer o que realmente deseja sem ter que pensar em mais nada ou ninguém? Pergunto isso por causa de uma das sequências mais marcantes e fascinantes do filme, aquela em que Oleg faz a sua intervenção.

No início, achei impressionante o trabalho dele. De fato, aquela era uma alegoria sobre a nossa sociedade, na qual os que tem medo ou procuram escapar do “terror” apenas se tornam vítimas dele. Quem fica imóvel apenas para ver outro se tornar vítima, é quem sobrevive. Essa é um alegoria sobre diversos ambientes da nossa sociedade atual – inclusive o empresarial, não? E ainda que o trabalho do artista tenha sido impressionante, a sequência final dele, pegando aquela mulher pelos cabelos… realmente era necessária? Até que ponto o artista não estava extravasando a sua própria loucura? A liberdade de expressão tudo permite? Acho que não.

Acho sim que a liberdade de expressão deve ser defendida, desde que ela não afete os direitos básicos dos outros. Desde que a liberdade de expressão não fira leis e regras que foram estabelecidas pela sociedade. Não basta querer passar uma ideia. É preciso ter a responsabilidade de cuidar para que aquela ideia não provoque danos para pessoas inocentes e que não escolheram ser expostas a determinadas situações.

Entre os aspectos técnicos desse filme, gostei muito da trilha sonora, que geralmente utiliza o clássico para tornar as sequências mais “líricas”, e que tem Rasmus Thord como supervisor musical; assim como gostei da direção de fotografia de Fredrik Wenzel; da direção sempre atenta aos personagens e à cidade de Ruben Östlund; da edição de Jacob Secher Schulsinger e de Ruben Östlund; do design de produção de Josefin Asberg; e dos figurinos de Sofie Krunegard.

O grande nome desse filme é o de Claes Bang. Toda a produção está centrada no Christian que ele interpreta. Como o ator ganha uma evidência monumental nessa produção, outros nomes bem conhecidos, como Elisabeth Moss e Dominic West, aparecem em trabalhos bastante secundários. A verdade é que nenhum outro personagem, exceto o protagonista, tem o seu papel bem desenvolvido nessa produção. Esse é um dos pontos fracos do filme, aliás.

Além dos atores citados, vale destacar o trabalho de alguns outros coadjuvantes: Terry Notary rouba a cena como Oleg – sem dúvida um trabalho marcante e pelo qual esse filme ficará lembrado; Christopher Laesso está muito bem como Michael – ainda que, novamente, a exemplo dos demais, seu personagem seja pouco desenvolvido; Lise Stephenson Ergström e Lilianne Mardon estão ok como as filhas do protagonista; Marina Schiptjenko está bem como Elna, administradora do museu; Elijandro Edouard como o garoto indignado está bem, ainda que me pareceu um pouco exagerado; e Daniel Hallberg e Martin Sööder fazem muito bem os “jovens talentos” do meio de RP e publicitário – eles realmente se parecem com muitas figuras que encontramos hoje em dia em várias empresas.

The Square estreou em première no dia 20 de maio de 2017 no Festival de Cinema de Cannes. Depois, até janeiro de 2018, o filme participou de outros 37 festivais em diversos países pelo mundo. Realmente um filme com uma longa trajetória de festivais. Interessante. Nessa sua trajetória, The Square ganhou 22 prêmios e foi indicado a outros 33 – sendo uma destas indicações ao Oscar de Melhor Filme em Língua Estrangeira.

Entre os prêmios que recebeu, destaque para a Palma de Ouro no Festival de Cinema de Cannes e para o Prêmio Vulcain para Artista Técnico dado para Josefin Asberg no mesmo evento; para os prêmios de Melhor Filme Europeu, Melhor Comédia Europeia, Melhor Diretor Europeu, Melhor Ator Europeu para Claes Bang, Melhor Roteirista Europeu e Melhor Designer de Produção Europeu para Josefin Asberg no European Film Awards; para o Goya de Melhor Filme Europeu; e para oito prêmios como Melhor Filme em Língua Estrangeira dados por diferentes associações de críticos dos Estados Unidos e do Canadá.

Agora, algumas curiosidades sobre The Square. O ator Terry Notary interpretou, nesse filme, ao “homem macaco” Oleg. O artista russo Oleg Kulik ficou famoso por, ao ser convidado para participar da exposição coletiva internacional Interpol, em Estocolmo, fazer, na abertura, uma performance como um cão. Ele correu, pulou, rolou no chão e até mordeu alguns convidados VIPs nas pernas. Kulik disse que estava representando o povo russo “intimidado”, que estava sendo atacado e que, agora, estava revidando. Os convidados da exposição ficaram indignados ao ponto de chamar a polícia. No filme, há uma cena semelhante na capacidade de chocar, mas na qual o artista se passa por macaco.

Uma das perguntas da exposição The Square é interessante: você é do tipo de pessoa que confia ou que desconfia das pessoas? O restante da exposição e da tua experiência nela é definida por isso. Na vida real, também definimos a nossa vida a partir do momento que respondemos essa pergunta. E afinal de contas, por que chegamos ao ponto de tanta gente, ao menos na prática, mais desconfiar do que confiar nos outros?

O incidente em que Christian tem o celular roubado foi baseado na própria experiência de um amigo do diretor Ruben Östlund. Ele passou por algo bastante similar.

O diretor de The Square disse que ele nunca mais quer filmar uma cena que esteja em um filme apenas para ajudar a contar a história. Ele quer reunir diversas cenas interessantes que ajudem a explicar o comportamento humano.

Em uma cena, um homem com síndrome de Tourette tira a concentração de uma repórter que estava entrevistado o artista Julian. Östlund se inspirou em uma situação semelhante que aconteceu em um teatro da Suécia. E a verdade é que uma cena assim pode acontecer em qualquer parte. Como as pessoas lidam com essas diferenças extremas? Acho que isso e o descontrole de alguns participantes do jantar em que o homem macaco ataca, ajuda a demonstrar bem qual caminho as nossas sociedades cada vez mais sem paciência estão seguindo.

The Square faturou US$ 1,4 milhão nos Estados Unidos. Não é um sucesso, para os padrões americanos, mas é um resultado melhor que o de Una Mujer Fantástica – que praticamente não foi visto no país do Tio Sam. Olhando por isso e pelos prêmios que conquistou em votações de críticos americanos, The Square parece levar vantagem na disputa pela estatueta dourada.

Esse filme é uma coprodução da Suécia, da Alemanha, da França e da Dinamarca.

Os usuários do site IMDb deram a nota 7,6 para esta produção, enquanto que os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 112 críticas positivas e 25 negativas para o filme, o que lhe garante um aprovação de 82% e uma nota média de 7,3.

O diretor Ruben Östlund é realmente ousado. Prestes a completar 44 anos de idade em abril, esse sueco da cidade Styrsö tem 12 títulos no currículo como diretor, sendo seis deles curtas, um documentário e cinco longas. De sua filmografia, lembro de ter assistido a apenas um filme antes: De Ofrivilliga. Um filme bastante diferenciado e até mais controverso que esse The Square. A crítica sobre De Ofrivilliga vocês encontram por aqui. Realmente Östlund parece ser um sujeito que faz cinema para surpreender.

CONCLUSÃO: Um filme que trata dos bastidores de um museu de arte tinha tudo para ser chato, não é mesmo? Ou, talvez, “intelectual” demais para os padrões do grande público. E ainda que seja verdade que The Square é longo demais – facilmente ele poderia ter meia hora ou pouco mais de “corte” -, ele não se mostra enfadonho. Isso porque ainda que ele trate de arte e do valor que ela tem nos dias de hoje, assim como para quem ela é dirigida, esse filme trata de outros assuntos muito atuais, como a desigualdade de oportunidades, a marginalização social e os efeitos daninhos da busca por “causar” na internet – especialmente quando você é uma entidade com responsabilidades.

Para mim, aliás, essa parte sobre a noção do que é público e do que é privado e a questão do “tribunal” da opinião pública propiciado pela internet são alguns dos aspectos mais interessantes desse filme. Assim como a reflexão que uma pessoa ser bem educada, ter ótima posição social e tudo o mais não lhe torna realmente mais consciente sobre o mundo que ela não conhece. Um filme interessante e instigante. Só uma pena que ele seja longo demais e que peque um pouco por deixar alguns personagens um tanto “perdidos” na história e por se esforçar tanto em nos “chocar”/surpreender em algumas sequências. Mas, no geral, The Square é um bom filme.

PALPITES PARA O OSCAR 2018: The Square é um forte candidato à estatueta dourada nesse ano. Especialmente sem o filme In the Fade, de Fatih Akin, na disputa. Segundo as bolsas de apostas do Oscar, ele é o segundo filme mais cotado nesse ano – ele fica atrás apenas de Una Mujer Fantástica (comentado aqui).

Difícil saber o que os votantes da Academia vão decidir. Mas eu, se tivesse que votar, certamente escolheria Una Mujer Fantástica. Primeiro, porque acho o filme mais impactante e comovente. Ambos tem boas sacadas, é verdade, mas acho que o filme chileno tem um desenvolvimento mais satisfatório da história e dos personagens.

A produção também me agradou mais, me pareceu mais “humana” e com uma mensagem mais significativa que The Square. Mas, volto a dizer, esta é uma questão de gosto pessoal. Olhando tecnicamente para as duas produções, ambas tem muitos méritos, bons atores e um roteiros que tocam em temas contemporâneos. Então teremos que ver, mais que nada, qual é o gosto da Academia para premiar um ou outro – ou, quem sabe, o russo Loveless (com crítica neste link). Me parece que esses três são, realmente, os títulos que estão na disputa.