The Great Buck Howard – A Mente Que Mente

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O desejo irrefreável de acreditar que os acontecimentos ocorrem por uma razão e de que cada um de nós tem um espaço definido no mundo. Tal desejo é a espinha dorsal do filme The Great Buck Howard. Esta produção, encabeçada por nomes como John Malkovich e Tom Hanks (que, na verdade, faz apenas uma ponta no filme), também se debruça sobre o “showbusiness” e sobre o tema dos “artistas marginais”. Ainda assim, meus caros leitores, não se enganem: The Great Buck Howard segue a linha de produções que tentam ser mais do que realmente são. Bastante lento, previsível e sem muitos atrativos além de Malkovich, este é um filme que acaba dando sono. E preguiça (até para escrever sobre ele). Claro que se ele for espremido, até solta algum suco interessante. Mas como entretenimento, The Great Buck Howard é muito fraquinho.

A HISTÓRIA: Os três primeiros minutos do filme contam, de forma acelerada, como Troy Gable (Colin Hanks) resolveu dar uma reviravolta em sua vida. Deixando para trás tudo o que seu pai (Tom Hanks) tinha planejado para ele, Troy abandona a faculdade de Direito depois de dois anos e resolve não fazer nada. Pelo menos até que ele encontre a sua verdadeira vocação – começando com a tentativa de ser escritor. Mas como o dever das contas chama, Troy se aventura a buscar um emprego. Lendo os classificados do jornal ele decide trabalhar como assistente pessoal e coordenador de turnês do “famoso” Buck Howard (John Malkovich) – alguém de quem ele nunca tinha ouvido falar. A partir daí, acompanhamos as aventuras de Troy e de Buck Howard em uma turnê pelo interior dos Estados Unidos e pela busca do artista em voltar a ter destaque na mídia nacional.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a The Great Buck Howard): O começo do filme, ainda que nada inovador, parece promissor. Uma boa edição e a escolha acertada das imagens nos leva a crer que veremos um filme criativo pela frente. Ledo engano. Para começar, pelo ritmo que o filme escrito e dirigido por Sean McGinly toma depois, não entendo o porque de tanta aceleração narrativa naqueles 3 minutos de largada. A história chega a ter nuances tediosos lá pelas tantas… assim sendo, aquela introdução sobre a vida e as intenções do protagonista poderia ter sido um pouquinho mais extensa. Se isso fosse feito, pelo menos não correríamos o risco de achar que o resto do filme seguiria a mesma linha de edição criativa e narrativa acelerada – o que não ocorre, está claro.

Comentada essa diferença brutal entre o que o filme “sugere” nos minutos iniciais e o que ele nos apresenta no restante de seu tempo, vamos ao que interessa: o que The Great Buck Howard quer nos dizer. Para começar, se fôssemos buscar uma “moral da história”, ela nos falaria sobre a necessidade de corrermos atrás dos nossos sonhos, sobre a magia que a vida deveria ter e sobre como podemos aprender com os exemplos de vida mais inusitados/pouco valorizados. Certo, todas estas mensagens são bacanas e necessárias. O problema é que McGinly erra a mão na forma – e não no conteúdo. Assim sendo, além de nos apresentar um filme bastante arrastado e lento, em muitos momentos, o diretor e roteirista tenta nos convencer de uma história bastante surreal, pouco engraçada (sendo que a produção é classificada como comédia) e que emociona mais pelo uso da trilha sonora no final do que por outros recursos.

Sem contar o uso dos estereótipos como principal recurso para dar “profundidade” (leia-se isso com ironia) para os personagens do filme. Vejamos: Troy é o típico rapaz boa-praça que, sem ter muito rumo na vida, decide acompanhar um artista cheio de manias e gênio “complicado” como forma de se inspirar para seu sonhado trabalho como escritor. Ao ler os créditos do filme é que me dei conta de que Colin Hanks não apenas tentava seguir os passos do “eternamente boa-praça” Tom Hanks… sendo filho do astro de Forrest Gump, entende-se como ele se parece tanto com o pai (nos trejeitos e na aparência física). Sendo assim, fica evidente a “forçada de barra” para que um cara um tanto sem graça como Troy consiga “se dar bem” com a única mulher bonita da história, Valerie Brennan (Emily Blunt). (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Vamos combinar que nunca, na vida real, um “casinho” de final de semana de turnê no interior dos Estados Unidos entre um cara como Troy e uma garota como Valerie seria levado a sério depois, quando os dois se encontrassem em Los Angeles. Apenas nos filmes do(s) senhor(es) Hanks.

Seguindo com os estereótipos: o artista tão admirado pelas pessoas simples do interior dos Estados Unidos, que ainda guardam na memória suas antigas aparições na tevê, tem que ser um purgante instável, cheio de altos e baixos, muquirana, “duas-caras” (uma para o público, outra para a intimidade) e com um certo problema em “ver a realidade”. Seu empresário, que lhe acompanha há muitos anos, Gil Bellamy (Ricky Jay) é o típico cara que sabe que seu artista está “por baixo”, que não interessa a mais ninguém da mídia, na mesma medida em que tem a noção de que não deve jamais falar sobre isso com ele. Gil não investe mais na carreira de Buck porque sabe que não há muito que fazer com um artista que parece ter “parado no tempo”.

Mr. Gable, o pai de Troy, veste a roupa do “homem de família” que desaprova qualquer manobra do filho por terrenos perigosos – como é o caso de empregos que não tenham um cartão-ponto para ser batido no final do expediente. E Valerie é a típica “mulher moderna” que trabalha em um ambiente competitivo, dominado por homens, que bebe sempre que não está trabalhando, vive sua “liberdade sexual”… em outras palavras: parece imitar os passos de seus “competidores” masculinos. Fora estes personagens principais, temos a Doreen (Debra Monk) e seu irmão Kenny (Steve Zahn), mais dois estereótipos do que seriam as pessoas “do interior” dos Estados Unidos – neste caso, de Cincinnati. Doreen e Kenny são dois interioranos loucos para estar perto do “astro” que saiu na tevê e, no caso de Debra Monk, a atriz ainda explora o estereótipo da mulher que jura (e quer demonstrar) que tem talento artístico. Certo que os estereótipos normalmente trabalham com idéias reais, mas o problema quando um filme se limita apenas a eles é que tudo fica mais pobre de sentido e significado – sem contar que tais idéias, que não são as únicas da realidade, se tornam ainda mais reforçadas.

Mas para não dizer que tudo em The Great Buck Howard se resume a problemas, a reflexão e a ironia do filme em relação ao showbusiness é algo interessante. A necessidade de Buck em seguir o seu trabalho e sua preocupação em voltar a sair na mídia são aspectos realistas da vida de artistas que não aparece muito nos filmes. Acompanhamos apenas o resultado do trabalho de assessores de imprensa, empresários e especialistas em marketing através da mídia, mas ficamos sabendo pouco sobre a luta das personalidades que não conseguem esse espaço.

(SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Achei especialmente interessante o momento em que Buck Howard deixa de ser um “artista decadente” para ser o novo “queridinho da América”. O que muitos artistas não percebem – e digo isso porque estive “do outro lado” da questão, trabalhando na mídia – é que ninguém aparece sem ter uma novidade para contar. Howard passou grande parte de sua carreira fazendo o mesmo show, sem nenhuma mudança ou inovação. Como ele esperava ser convidado para os principais programas da televisão sem ter nada de novo para contar? Sem nenhum “interesse” por parte do público, que cada vez mais tem uma nova celebridade para acompanhar, Howard não conseguiu ressurgir mesmo quando fez um número novo e excepcional. Mas ao entrar em colapso, virou notícia na “sociedade do espetáculo”. E como um canal de televisão puxa ao outro, o artista virou a “nova antiga celebridade” do momento. Interessante reflexão.

Também achei interessante a homenagem do diretor e roteirista para os artistas que buscam colocar um pouco de “magia” e mistério na vida de seu público. Nos créditos finais de The Great Buck Howard, McGinly cita nominalmente a O Incrível Kreskin, autoproclamado o “mais conhecido mentalista” do mundo. Bonito. Kreskin, nascido nos Estados Unidos em 1935, se tornou muito popular através de um programa na TV norte-americana na década de 1970. Também interessante a idéia mantida pelo filme de que os artistas que fazem essa “magia” continuar maravilhando ao público não são aqueles que aparecem constantemente nos programas de Conan O’Brien, Regis Philbin, Jon e Martha Stewart ou Jay Leno. E sim os que percorrem quase anonimamente as cidades de todo um país, algumas vezes se apresentando para um grande público, outras vezes, para poucas pessoas. Esta homenagem vale o filme, assim como a interpretação normalmente magnética e excepcional de John Malkovich.

NOTA: 7.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Os créditos deste filme são gigantescos. Além dos atores e das personalidades da tevê citadas anteriormente, há muitos outros na lista. Como The Great Buck Howard é praticamente um “road movie” artístico, ele está cheio de coadjuvantes e de pequenas pontas. Além dos atores já citados, queria comentar sobre a participação de Adam Scott como Alan, o assistente de Buck Howard antes de Troy; Patrick Fischler como Michael Perry, um dos empresários de Las Vegas interessado no show do artista; Don Most como o produtor do programa Tonight Show; e Griffin Dunne como Jonathan Finerman, um conceituado roteirista e apresentador de tevê. Menção especial para a divertida aparição do ator George Takei, conhecido pelo personagem de Sulu em Star Trek e, recentemente pela série Heroes, na história.

Gostei bastante da trilha sonora de Blake Neely. Ela acaba sendo fundamental para conduzir o filme, especialmente nos momentos em que o roteiro e até os atores parecem um tanto incapazes de dar a devida “emoção” para a história. O trabalho de Neely acaba fazendo isso por eles – inclusive no “grand finale”. Também achei interessante a apresentação do Clap Your Hands Say Yeah (aqui a página deles no MySpace) no filme. Ficou bacana – e reforçou a idéia de “artistas que se apresentam em qualquer lugar por amor à arte”. Na parte técnica, gostei ainda dos trabalhos do diretor de fotografia Tak Fujimoto e da edição de Myron I. Kerstein.

Como a história mesmo sugere, The Great Buck Howard foi filmado nas cidades de Los Angeles, Nova York e Las Vegas.

O quinto filme no currículo do diretor Sean McGinly estreou em janeiro de 2008 no Festival de Sundance. De lá para cá, ele participou de outros dois festivais e estrou, de maneira limitada, nos cinemas dos Estados Unidos em março de 2009. Sua carreira, pelo visto, ficará mais restrita ao mercado do DVD. A bilheteria do filme comprova as apostas baixas que ele recebeu: nos Estados Unidos, até o início de julho, ele tinha arrecadado pouco mais de US$ 748 mil – nada para os padrões de Hollywood.

Os usuários do site IMDb conferiram a nota 7 para o filme – nota essa com a qual eu estou de acordo, ainda que, admito, fiquei entre as notas de 6,5 e 7,5 na cabeça desde que os créditos terminaram. Por sua vez, os críticos que tem textos linkados no Rotten Tomatoes foram um pouco mais generosos com a produção. Eles dedicaram 63 críticas positivas e 24 negativas para The Great Buck Howard, o que lhe garante uma aprovação de 72% – bastante boa para a média do site.

Ah sim, e o papai do protagonista, Tom Hanks, foi tão bacana que, além de fazer uma ponta importante no filme, ainda ajudou a produzí-lo. Isso que se pode chamar de “empurrãozinho” para a carreira do filhão, hein?

CONCLUSÃO: Uma comédia que aposta mais no talento de John Malkovich do que em um roteiro engraçado ou envolvente. Cheio de “boas intenções”, este filme peca por uma introdução totalmente descolada do restante da narrativa – o que cria falsas expectativas. Se visto com paciência, pode agradar aos que buscam histórias “bonitinhas” e sem muita criatividade. Além de um John Malkovich se “sentindo em casa” em mais um papel de “sujeito estranho” que parece viver sobre os “próprios louros”, o filme vale pela trilha sonora fundamental, que dá o tom dramático e envolvente para o filme que a direção e o roteiro não conseguem garantir. O filme deve valer a pena como curiosidade sobre os bastidores do showbusiness e se for encarado como um conto a respeito da busca pelo próprio talento. Mas isso vai depender do gosto – e do tempo – de cada um.

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[rec] – [REC]

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Não é nada simples para um diretor que resolve se dedicar aos filmes de terror verdadeiramente surpreender ao seu público. O mais comum é que as novas produções do gênero garantam alguns sustos, alguma diversão, mas dificilmente alguém “reinventa a roda”. Afinal, quase tudo já foi explorado sobre os temas dos vampiros, zumbis e mortos-vivos, epidemias e demais assuntos que povoam o imaginário dos roteiristas e público dos filmes de terror. Mas, algumas vezes, aparece no mercado um filme excepcional sobre algum destes temas. O espanhol [rec] é um destes filmes.

A HISTÓRIA: A jornalista Ángela Vidal (Manuela Velasco) acompanha, junto com o cinegrafista Pablo (Pablo Rosso), um plantão noturno de um grupo de bombeiros de Barcelona. Simulando uma reportagem para a tevê sem edição com tudo o que ela tem direito, como podem ser erros de gravação, comentários entre os jornalistas e tudo o mais, o filme segue a idéia de “ficção realista/documental” explorada em outras produções. Desta forma, presenciamos desde o teste do vestuário dos bombeiros, feito por Ángela, até a rotina deles no jantar, nas brincadeiras na quadra de basquete, até que soa o alarme e os jornalistas saem junto aos bombeiros Manu (Ferran Terraza) e Álex (David Vert) para atender a um chamado. No local da ocorrência, um prédio residencial, eles se encontram com um grupo de vizinhos assustados por gritos de uma “velha louca” e, pouco depois, acabam ficando isolados sob um risco de surto epidemiológico.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso só recomendo que continue lendo quem já assistiu a [rec]): Fiquei impressionada com esta produção espanhola. Tinha ouvido falar muito bem do filme mas, ainda assim, a expectativa por ver algo bom não jogou contra a minha impressão final. Pelo contrário. Para mim, [rec] faz pelos filmes de zumbi/mortos-vivos o mesmo que Lat Den Rätte Komma In fez, em 2008, pelos filmes de vampiro. Em outras palavras, ele trouxe um frescor totalmente inesperado para o gênero.

Muitas pessoas, certamente, vão dizer que [rec] segue os mesmos passos que o filme The Blair Witch Project, lançado há exatos 10 anos. De fato, mas apenas em partes. Para começar, [rec] convence mais que o projeto original de Daniel Myrick e Eduardo Sánchez. Há momentos também de câmera tremida, falta de foco, registro de pés, chão e demais imagens “acidentais”, mas na maior parte do tempo [rec] nos mostra cenas que seriam, realmente, produto do trabalho de um cinegrafista profissional. Essa narrativa jornalística do que acontece é um dos grandes achados do filme e o que pode aproximá-lo muito mais do gosto popular do que o “amadorismo” extremo projetado por The Blair Witch Project. Mérito dos diretores Jaume Balagueró e Paco Plaza.

Outro grande acerto de [rec] é o roteiro elaborado pelos dois diretores junto com Luis Berdejo. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). No início, nem sonhamos que esta história vai terminar com uma série de assassinatos provocadas por mortos-vivos e que tudo começou com um caso (pouco explorado) envolvendo uma tentativa mal-sucedida de exorcismo. O final do filme, aliás, deixa uma série de perguntas sem respostas – o que vai lhe garantir uma continuação, claro! Mas isso não se torna um incômodo para o espectador em momento algum. Mesmo que [rec] 2 seja uma bomba, o filme original é uma obra que pode ser vista isoladamente. Um produção muito bem acabada e envolvente.

Como um bom filme de terror exige, a narrativa de [rec] vai crescendo em tensão pouco a pouco. O roteiro e a atuação dos atores acabam sendo fundamentais para que a história convença. Quem já assistiu algo da televisão espanhola deve concordar comigo quando afirmo que Ángela Vidal e Pablo atuam como é esperado pelos profissionais do ramo naquele país. Com uma pitada de humor fundamental, [rec] “amacia” o espectador o suficiente para que, na hora que os sustos começam, estejamos realmente vulneráveis a eles. Francamente fiquei tensa e me assustei com este filme em muitos momentos. E o melhor: sem os famosos sustos “gato-pula-na-frente-da-câmera”, e sim com uma tensão construída de forma realista.

NOTA: 9,5.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Muito bacana o recurso da “câmera da verdade” escolhido pelos roteiristas e diretores como forma de narrativa do filme. A idéia de que o trabalho dos jornalistas Ángela e Pablo deveria servir como testemunho do que estava acontecendo naquele plantão dos bombeiros acaba justificando cada trecho do filme, que se torna bastante rico com a variedade de recursos “jornalísticos” dos protagonistas. Destaque para as entrevistas que eles fazem com os vizinhos do edifício aonde se desenvolve o principal da história, as “passagens” feita pela repórter e, principalmente, a ótima reação de todos os atores e coadjuvantes conforme a história vai se desenvolvendo.

No quesito atuação, todos os participantes estão muito bem, mas merecem uma menção especial pelo carisma e pelo envolvimento de seus atores com a história Manuela Velasco (a repórter Ángela), Ferran Terraza (o bombeiro Manu) e o ator de quem não consegui saber o nome e que interpreta a Miguel, um praticante de enfermaria que mora no edifício para onde os bombeiros são chamados. Outros nomes do elenco são: Jorge Serrano como o policial que fica responsável pela segurança dentro do edifício; o veterano Vicente Gil como o policial que começa na liderança da operação, mas que logo é atacado pela “velha maluca”; Martha Carbonell interpreta a Sra. Izquierdo, justamente a “velha louca”; María Teresa Ortega é a “avó” que gostaria de trocar de roupa, mas que está impossibilitada de ir até o seu apartamento, onde vive com o marido (Manuel Bronchud); Akemi Goto interpreta a japonesa que não sabe falar espanhol direito; Chen Min Kao é o marido da japonesa; e Maria Lanau interpreta a mãe revoltada de Jennifer (Claudia Font).

No material de divulgação de [rec], os diretores comentam que quiseram, com o filme, “encontrar a chave para construir um pesadelo o mais verossímel possível, uma experiência de terror que pudesse ser vivida com uma maior intensidade do que as propiciadas pelas habituais convenções do cinema”. Por isso que eles teriam decidido pela história com cara de reportagem televisiva, “como uma gravação transmitida ao vivo onde o terror acontece na frente dos nossos olhos em tempo real, sem a possibilidade de ser interrompido ou manipulado”. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Achei interessante este “tratado de intenções” dos diretores, mas devo discordar de que o material que vemos seria como uma transmissão ao vivo. Pelas interrupções da narrativa e pelo formato do programa apresentado pelo filme, o mais provável é que a gravação que vemos teria sido recuperada depois do massacre que aconteceu. Aquele tipo de programa não é transmitido ao vivo – e sim gravado para depois ser editado pela emissora.

Os diretores, que são os grandes responsáveis pela qualidade do filme, disseram ainda no site oficial de [rec] que eles se esforçaram em “evitar os mecanismos do suspense e da narração cinematográfica, deixando que a ação se desenvolvesse frente aos olhos do espectador como se ela fosse real, sem possibilidade de ser parada. Como se estivesse viva”.

Da equipe técnica do filme, destaco o trabalho exemplar do diretor de fotografia Pablo Rosso, que interpreta ao personagem do cinegrafista. Ele consegue o tom exato de iluminação artificial, muitas vezes feito apenas pela luz da suposta câmera do canal de tevê ou através da luz de lanternas. Muito bom! Também gostei muito da edição de David Gallart.

[rec] foi um sucesso de público e crítica. Tanto que rendeu, já em 2008, uma refilmagem nos Estados Unidos: Quarantine. É certo que o filme mistura uma série de referências de outras produções – desde o “realismo ficcional” do já citado The Blair Witch Project até a “base para o terror” lançada em clássicos como o de Night of the Living Dead, lançado há 41 anos por George A. Romero (e recriado tantas vezes depois em filmes do próprio diretor ou de outros que o “seguiram”).

O filme de Plaza e Balagueró recebeu 16 prêmios e foi indicado ainda a outros cinco. Entre os prêmios que levou para casa, destaque para os de melhor atriz revelação para Manuela Velasco e para melhor edição nos Prêmios Goya; e cinco prêmios no Sitges – Festival Internacional de Cinema da Cataluña, incluindo os prêmios da audiência, o de melhor atriz e o de melhor diretores.

No site IMDb [rec] registra a nota 7,8, enquanto que o Rotten Tomatoes tem arquivadas 20 críticas positivas e apenas uma negativa para o filme – o que lhe garante uma aprovação de 95%.

Não consegui informações sobre a bilheteria que o filme conseguiu mundo afora, mas pude conferir o seu baixíssimo orçamento: esta produção teria custado a “bagatela” de 1,5 milhão de euros.

Como já era esperado depois de um sucesso desses, os diretores Jaume Balagueró e Paco Plaza estão preparando uma continuação – que desta vez conta com a participação, no roteiro, de Manu Díez. [rec] 2 já tem até o site oficial com um “countdown” que revela que o novo filme deve estrear dentro de pouco mais de dois meses – mais precisamente, na primeira quinzena de outubro. Pelo trailer que podemos assistir neste site, a narrativa de [rec] 2 deve começar logo depois do término do primeiro filme. (SPOILER – não leia se você não quiser saber mais sobre a nova produção). Tudo indica que um esquadrão especial vai invadir o prédio até então isolado para “dizimar” as criaturas que ameaçam a segurança pública da cidade. Como bem resume a frase do final do trailer, “se acabó la comedia”. Ou seja: [rec] 2 não terá espaço para o humor visto no primeiro filme. Parece mesmo que a nova história vai se debruçar sobre a idéia de um ataque de zumbis do início ao fim.

(SPOILER – não leia se você não quiser estragar surpresas do novo filme). Algo certo, pelo menos pelas informações divulgadas no site IMDb, é de que personagens como Ángela, Manu, Álex e a “garota colombiana” voltarão a aparecer nesta nova história – todos, provavelmente, como zumbis. Ah, e um adendo: explorando o site do filme – muito bom, aliás -, descobri a sinopse de [rec] 2 em um quarto do segundo andar do prédio e ela revela que a história começa apenas alguns minutos depois que as “autoridades” da cidade perderam contato com as pessoas que estavam dentro do edifício. E vendo a fotografias do filme, percebe-se que ele terá vários personagens novos. Em um quarto do primeiro andar, no site, é possível consultar a “ficha artística” da nova produção. Por ali sabemos, por exemplo, que aparecerá em cena o pai de Jennifer, interpretado por Pep Molina; e personagens como Dr. Owen (Jonathan Mellor), Larra (Ariel Casas), Martos (Alejandro Casaseca) e Rosso (Pablo Rosso, que no filme anterior interpretava o cinegrafista Pablo e que aqui deve repetir o papel de “cinegrafista” da história). E uma dica para quem vai explorar o site: existe um link para um site chamado Yodecido, criado pela Filmax, que tem alguns trechos do making of do novo filme.

CONCLUSÃO: Um grande filme de terror e suspense. Envolvente, bem dirigido e com um roteiro criativo, [rec] recria um tipo de filme do gênero que carecia de idéias criativas. Lembrando em partes a inovação lançada há uma década por The Blair Witch Project, esta produção reforça a idéia de que um baixo orçamento pode render um belo filme. Indicado especialmente para as pessoas que gostam de narrativas diferenciadas e que podem resistir a sustos dos bons. Além das qualidades já comentadas, o filme se destaca pela ótima interpretação da protagonista, vivida por Manuela Velasco, e por outras pessoas do elenco que sabem dar o tom exato para seus personagens colocados em um situação de altíssima tensão.

SUGESTÕES DE LEITORES: Mais uma vez assisti a um grande filme graças a uma indicação de um leitor deste blog. [rec] estava na minha lista pessoal para ser assistido há tempos, mas ele só passou a frente de tantas outras produções recentes porque estou tentando colocar a minha lista de dicas recebidas por aqui em dia. E foi o Bernardo que indicou [rec] (assim como os primeiros quatro filmes da série Saw) por aqui em novembro do ano passado. Demorei para assistir ao filme, Bernardo, mas finalmente fiz isso e gostei do que vi. Obrigada por tua indicação. Espero que apareças por aqui, inclusive para falar mais sobre este filme, comentar tuas expectativas sobre a continuação dele e, quem sabe, indicar outros filmes bons do gênero.

Sunshine Cleaning

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Imagine uma família de gente ferrada, o que nos Estados Unidos se popularizou como “losers”. A cada novo acontecimento, parece que as coisas se complicam, mas isso não deixa nenhum deles deprimido ou derrotado. Pelo contrário. As dificuldades acabam sendo encaradas com criatividade, ousadia e com um bocado de tropeços que parecem unir ainda mais as pessoas dessa família. Sunshine Cleaning, novo filme dos produtores do sucesso do cinema independente Litte Miss Sunshine, repete um bocado a fórmula do título anterior. Mas quem se importa? Descontadas as repetições de algumas idéias, Sunshine Cleaning acaba se mostrando mais denso e mais “dark” que seu predecessor. E ainda que ele lembre bastante a Little Miss Sunshine, quero deixar claro que não se trata de nenhuma continuação ou algo do gênero.

A HISTÓRIA: Rose Lorkowski (Amy Adams) é uma mãe solteira que ganha a vida limpando casas. Ela olha para garotas da sua idade curtindo festas e vivendo em grandes propriedades com piscina e pergunta a si mesma o que ela fez de errado para ter uma vida tão diferente. Sua irmã mais nova, Norah (Emily Blunt) vive com o pai, Joe (Alan Arkin) e trabalha como garçonete – mas odeia o que faz. Quando o filho de Rose, Oscar (Jason Spevack), tem mais um problema de comportamento na escola pública em que estuda, Rose resolve tirá-lo de lá. Para pagar as contas de uma escola particular ela convoca a irmã, que recentemente perdeu o emprego, para que as duas comecem a trabalhar no ramo de limpar propriedades onde pessoas foram encontradas mortas.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Sunshine Cleaning): Logo mais vou listar todas as características que fazem Sunshine Cleaning se parecer com Litte Miss Sunshine (que chamarei pelas iniciais LMS). Mas antes, quero comentar sobre seus diferenciais. Para começar, Sunshine Cleaning vai muito mais fundo no tema da morte. No aspecto em que o trabalho das irmãs Rose e Norah é visto por elas com certa “vergonha” e receio no início, o filme me lembrou um pouco a Okuribito. Mas pouco, claro, porque a produção japonesa que ganhou o Oscar de 2009 como melhor filme estrangeiro é muito mais profunda e poética que Sunshine Cleaning. Ainda assim, a produção com roteiro de Megan Holley se debruça sobre o tema da perda de pessoas que amamos de maneira interessante.

Demora, contudo, para que o tema da morte ganhe protagonismo no filme. Inicialmente, esta história parece tratar das relações de uma família bem diferente dos padrões tradicionais. E da maneira com que cada um dos adultos desta família enfrenta as dificuldades para conseguir dinheiro para pagar as contas. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Diferente de LMS, os protagonistas desta história fogem do padrão de avô, pai, mãe e filhos. Joe, o patriarca da família, é viúvo. Rose é mãe solteira, nunca se casou, e vive uma relação adúltera há muito tempo com o ex-namorado, Marc (Steve Zahn). Norah é solteira e ainda vive com o pai. Em momento algum o filme mostra uma “família feliz” tradicional – o único casal que aparece em cena, Marc e Heather (Amy Redford), vive uma relação abalada pela infidelidade.

Outra característica que distancia Sunshine Cleaning de LMS é que o filme tem um roteiro bem mais “pesado” que a produção de 2006. (SPOILER – você já sabe). Para dar a largada, o filme começa com um suicídio. Pouco depois, as imagens mostram a vida dura e frustrada das irmãs Rose e Norah. A diferença principal entre elas é que Rose se sente responsável pela irmã e, claro, pelo filho. A personagem de Amy Adams literalmente faz o que é necessário para que ela e Oscar vivam razoavelmente bem – endividados, mas pelo menos com comida no prato. Norah, por outro lado, tenta fazer as pazes com o passado e descobrir o que ela vai fazer da vida. Busca fazer o certo, como quando se aproxima de Lynn (Mary Lynn Rajskub) para contar-lhe sobre a morte da mãe. Na trajetória destas irmãs e do pai delas, vemos cenas de adultério, ralação, alguns cenários de morte, decepções amorosas e financeiras. Sem dúvida um roteiro muito mais denso do que o de LMS.

Agora, vamos falar sobre as várias características que fazem Sunshine Cleaning ser bem parecido com Little Miss Sunshine:

1) Um personagem fundamental do filme é uma criança “esquisita”, destas que parecem não se encaixar em turminha alguma da escola porque tem um comportamento fora dos padrões. Em LMS tínhamos a uma garotinha, brilhantemente interpretada por Abigail Breslin. Em Sunshine Cleaning o papel de “criança esquisita” é personificado por Jason Spevack, um garoto que faz muito bem o seu papel – a sequência em que ele fica sob os cuidados do vendedor de loja de produtos químicos Winston (Clifton Collins Jr.) e aquela outra em que ele tenta um contato “com os Céus” são dois momentos marcantes da história. A grande diferença entre os dois filmes é que em LMS a menina tinha um papel muito mais importante na história do que o desempenhado por Spevack em Sunshine Cleaning – ainda que ambos, indiretamente, desempenham o papel de estopim para as mudanças na vida dos personagens retratados;

2) A tal criança “esquisita” tem como principal aliado o avô – interpretado, nos dois filmes, por Alan Arkin. Até o fato do patriarca das famílias ter o mesmo intérprete torna ainda mais inevitável fazer a relação das duas produções. Mas, claro, os personagens vividos por Arkin são um bocado diferentes – e tem um final distinto também;

3) Nos dois filmes os personagens centrais da história estão tentando encontrar o seu lugar “ao sol” ou, de outra forma, tentando se encaixar em alguma parte da sociedade moderna – que vende a idéia de ser bastante variada e receptiva, mas que normalmente quer mesmo que seus padrões aceitáveis sejam repetidos e mantidos incólumes;

4) As duas produções utilizam a palavra Sunshine – sempre ligada a esperança e/ou ao afeto – no título.

Para o deleite de quem gosta de boas atuações, Amy Adams dá um show no papel da mãe solteira bastante alternativa que não sabe muito bem como lidar com seus problemas. Repetindo mantras de “auto-ajuda” colados no espelho, ela tenta ser sempre a “garota cheia de esperança” da história. Ao seu lado, como o contraponto da balança, ela tem a sorte de ter a Emily Blunt, sua parceira ideal de cena. Blunt desempenha o papel “dark” da história acertando em sua interpretação por pouco – até porque ela tem um risco muito maior de parecer exagerada do que Adams. Mas ela se sai bem. O curioso é que todas as pessoas da família Lorkowski são do tipo “underground”, o que reforça a idéia de LMS de que não é preciso seguir os padrões para ser feliz ou, no caso de Sunshine Cleaning, buscar um sentido um pouco maior para as vidas das pessoas que não são conhecidas como “os vencedores”.

Muito bonitos, em especial, os momentos em que as irmãs Rose e Norah conseguem quebrar um certo um certo “estado de ânimo” de suas vidas. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). No caso de Rose, essa quebra se dá com o momento em que ela diz basta para o caso sem futuro com Mac – depois que ela percebe que ela estava apenas tentando perdurar uma sensação de “estrela” do colegial que não existia mais. Esse “choque” com a realidade para ela se deu com seu encontro com ex-colegas de turma. Não importa o que ela fizesse, ela seria sempre vista como a garota “que no passado foi tudo e que hoje é uma coitada” – idéia com a qual ela não se conformava.

Norah, por sua vez, acaba encarando o suicídio da mãe de frente e parte, como em LMS, em uma viagem simbólica para descobrir o que era importante para sua vida. Ela rompe com aquela situação montada na família em que ela seria sempre a “menina dependente” de atenção e cuidados. Interessante. No fundo, ainda que mais denso, Sunshine Cleaning repete a fórmula de LMS em misturar humor satírico, drama e personagens “extravagantes” em uma história otimista sobre a coragem de viver e sobre a capacidade das pessoas em se descobrirem e se recriarem pelo caminho.

NOTA: 9,2.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Sunshine Cleaning deixa claro, logo no cartaz do filme, que os produtores de Little Miss Sunshine são os mesmos deste novo filme. Mas além deles, apenas o ator Alan Arkin aparece nas duas produções. O trabalho de direção, desta vez, fica por conta de Christine Jeffs, que faz um trabalho competente, sempre em busca do melhor ângulo para valorizar o trabalho dos atores. O principal aliado da diretora (há cinco anos sem filmar) neste novo filme é o diretor de fotografia John Toon, que utiliza cores de matiz alaranjada que acabam dando uma aura permanente de “realidade saturada” e/ou envelhecida para a história.

Mas a responsabilidade maior pelo filme parece ter caído mesmo no colo da roteirista Megan Holley. Ela acerta e se equivoca ao tentar reproduzir a fórmula de LMS. Claro que sempre é mais fácil seguir uma conhecida linha de sucesso. A sensação que temos, ao terminar de ver a Sunshine Cleaning, é que Holley consegue apenas em parte nos apresentar uma história emocionante e com conteúdo sem copiar demais ao colega Michael Arndt (que teve a seu favor o “ineditismo” do enfoque de LMS). O filme deve agradar especialmente as pessoas que não assistiram a LMS ou, no caso das que assistiram, aos que não se importam em ver muitas variações sobre os mesmos temas.

Um grande achado do filme, sem dúvida, é a ironia de Holley com os estereótipos de “chefe de torcida” (cheerleading) e “capitão do time de futebol americano”. Um pouco que seguindo a idéia de “como seriam os superheróis quando eles se tornassem velhos?”, a roteirista brinca com o futuro de ídolos de uma geração que acabam chegando aos 30 e tantos anos sem se destacarem na sociedade em que vivem. O galã estudantil se casa com outra pessoa e acaba “perdurando” sua juventude ao manter um caso com a antiga chefe de torcida. Ambos sobrevivem em empregos comuns, sem desempenharem mais nenhum protagonismo social. Curiosa e divertida ironia e reflexão, especialmente para quem se sente “perseguido” por complexos ou “êxitos” de uma época tão distante como o colegial ou o primário.

Sunshine Cleaning foi filmado na cidade de Albuquerque, Novo México. Segundo as notas de produção do filme, esta cidade foi escolhida por abrigar um cenário propício para a história, algo que mesclava o clima árido do deserto com uma paisagem privilegiada. A diretora do filme também ressaltou o olhar cuidadoso de Toon com os atores, em uma busca permanente para que a câmera se tornasse “íntima” dos personagens.

O produtor Peter Saraf destacou, neste mesmo material de divulgação do filme, que em nenhum momento a câmera mostra os crimes que depois acabam sendo fonte de trabalho para as protagonistas. Saraf ressalta, ainda, que Sunshine Cleaning é um “maravilhosa metáfora sobre a limpeza no final da vida de alguém enquanto as suas próprias vidas são uma bagunça total”, e que as personagens acabam se dando conta, lá pelas tantas, que devem fazer uma limpeza também em suas próprias vidas.

As atrizes Amy Adams e Emily Blunt teriam passado alguns dias trabalhando em cenas de crime reais, como pesquisa para suas personagens.

Outros profissionais importantes na equipe técnica do filme são Michael Penn, responsável pela trilha sonora, e Heather Persons, que assina a edição de Sunshine Cleaning.

Os usuários do site IMDb deram a nota 7,3 para o filme. Por sua vez, os críticos que tem textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 103 críticas positivas e 38 negativas para a produção – o que lhe garante uma aprovação de 73%. Um destes raríssimos exemplos de um empate técnico entre a opinião de público e críticos.

Depois de estrear no Festival de Sundance de 2008, Sunshine Cleaning passou por outros três festivais e dois mercados de distribuição de filmes antes de estrear de maneira limitada nos Estados Unidos em março deste ano. Até o momento, o filme não recebeu nenhum prêmio – ainda que tenha sido indicado em Sundance, mas perdeu na categoria de Grande Prêmio do Júri para Frozen River.

Nas bilheterias, o filme teve um desempenho um tanto fraco: conseguiu, até o dia 9 de julho deste ano, pouco mais de US$ 12 milhões. Achei pouco levando em conta que ele foi vendido como uma produção na linha de Little Miss Sunshine e por ter duas atrizes “vendáveis” como Amy Adams e Emily Blunt como protagonistas. Apenas para comparar, LMS conseguiu quase US$ 60 milhões apenas nos Estados Unidos.

Preste atenção especialmente nas cenas da “aventura” noturna sob o trilho de trem e na sequência em que, finalmente, a mãe das protagonistas aparece em cena.

Sunshine Cleaning só comprova o grande ano que Amy Adams teve em 2008. Além deste filme, ela estrelou Doubt e Miss Pettigrew Lives for a Day, ambos comentado aqui no blog. Este ano, logo mais, ela poderá ser vista em Julie & Julia, filme dirigido por Nora Ephron em que ela repete a dobradinha vista em Doubt com Meryl Streep.

CONCLUSÃO: Um filme denso sobre a bagunça que pode ser a vida de algumas pessoas e sobre as medidas que elas tomam para resolvê-la. Produzido pelas mesmas pessoas responsáveis por Little Miss Sunshine, este filme segue a mesma linha de colocar como protagonistas da trama pessoas comuns ou, para alguns, verdadeiros “losers”. Com atuações realmente muito boas, especialmente das atrizes Amy Adams e Emily Blunt, que encarnam personagens diferentes do que o público está acostumado a ver, Sunshine Cleaning segue a linha de “narrativa de envolvimento crescente”. De história bastante ordinárias partimos para reflexões um tanto filosóficas e profundas, como a de que a escolha do que fazemos para viver pode determinar bastante o nosso grau de sensibilidade com os nossos problemas (e dos demais) e dos mecanismos que desenvolvemos para a resolução dos mesmos. Mais sombrio que Litte Miss Sunshine, este filme deve ser visto como uma interessante tentativa de entretenimento um tanto denso e que privilegia personagens à margem na sociedade norte-americana.

Disturbia – Paranóia

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Imagine um sujeito que é obrigado, por alguma razão, a não sair de casa por um longo tempo. Sem nada de muito interessante para fazer, ele resolve, com um binóculo, espionar os vizinhos. Assim, ele acaba sabendo de quase tudo que se passa nas vidas alheias, até o momento em que ele começa a acreditar que um de seus vizinhos é um assassino. Você lembrou de Janela Indiscreta (Rear Window) clássico de Alfred Hitchcock lançado há 55 anos? Pois quase… esta premissa, adaptada para os anos 2000 substituindo o jornalista de meia idade de Hitchcock por um adolescente entendiado é a mola propulsora de Disturbia. Dirigido por D.J. Caruso, Disturbia lançou para o estrelato Shia LaBeouf, que só depois desta produção estrelaria Transformers, Indiana Jones and the Kingdom of the Crystal Skull e que voltaria, em Eagle Eye, a trabalhar com Caruso.

A HISTÓRIA: O jovem Kale (Shia LaBeouf) passa uma tarde relaxante com o pai, o escritor Daniel Brecht (Matt Craven). Longe da civilização, eles se divertem fazendo um programa que parece “típico de pai e filho estadunidense”: percar em um rio. Na volta para casa, Kale é fechado por um veículo em alta velocidade e, dirigindo distraído, acaba se envolvendo em um grave acidente. Um ano depois, ele agride o professor de espanhol da escola, o Señor Gutierrez (Rene Rivera) e, como penalidade, acaba sendo condenado a ficar três meses em regime de prisão domiciliar. A detetive Parker (Viola Davis, antes de ser indicada ao Oscar por Doubt) explica que o jovem será monitorado 24 horas por dia através de um sensor preso na perna. Com sua conta do videogame, do iTunes e da TV à cabo no quarto bloqueadas pela mãe, Julie (Carrie-Anne Moss), e sem poder sair de casa, Kale acaba dedicando seus dias a espionar os vizinhos – especialmente uma garota que se mudou recentemente, Ashley (Sarah Roemer). Mas sua rotina divertina muda de figura quando ele passa a desconfiar do Mr. Turner (David Morse), que tem um perfil parecido com o de um assassino em série que está sendo procurado pela polícia.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Disturbia): Francamente, não acho um problema este filme “beber” tanto da fonte do clássico Rear Window. Na verdade, acho até bacana a idéia do roteirista Christopher B. Landon em “adaptar”, por assim dizer, aquela premissa original para os dias atuais. Sim, porque idéia original mesmo, ele não teve – impossível alguém que vive no ramo do cinema não conhecer o clássico de Hitchcock. Mas acho bacana esse tipo de “homenagem” aos clássicos – acho melhores do que uma simples (e normalmente mal feita) refilmagem.

Dito isso, quero salientar também que Disturbia apenas utiliza o conceito de “voyeurismo” dos vizinhos visto anteriormente em Rear Window. O restante do filme é original, traz idéias novas para a história. Começando, por exemplo, por colocar um adolescente estadunidense como protagonista. Uma das partes mais interessantes do filme é ver como todas as ações de Kale são perfeitamente justificadas pelo fato dele ter 17 anos e ter perdido o pai recentemente – em um acidente do qual, o filme não deixa claro, mas provavelmente ele se sente um pouco culpado. Um bocado “revoltado”, crianção e com os hormônios nas alturas, Kale avacalha com a rotina de casa e, claro, acaba desta maneira transformando a sua própria vida em um “pequeno inferno” – entendendo isso como ficar sem o Xbox 360, sem acesso ao iTunes ou aos canais pornôs da TV à cabo.

Entediado e com um limite para se locomover que termina no jardim de casa, Kale agradece aos céus quando tem o colírio de uma nova vizinha para observar. Todo esse enredo de “azaração” e esta coleção de “gostos juvenis” deve ter caído como uma luva entre o público jovem. E todos nós sabemos que a identificação entre público e personagens é meio caminho andado para um êxito de bilheteria. Pois bingo! Um grande acerto dos roteiristas Landon e Carl Ellsworth em explorar este filão. E a verdade é que este enredo, somada a direção bastante ágil e acertada de D.J. Caruso, fazem o filme ter o ritmo certo.

Outra característica interessante de Disturbia, em relação ao clássico de Hitchcock, é que no filme de 2007 as novas tecnologias acabam tendo um papel fundamental na história. Kale e seu melhor amigo – e ajudante de espionagem – Ronnie (Aaron Yoo) não utilizam apenas diferentes binóculos para espionar. Desta vez eles fazem uso de câmeras de vídeo e celulares conectados a distância. Até mesmo Ashley acaba aderindo à brincadeira e, em uma das melhores sequências do filme, espiona Turner em uma loja de conveniências. Muito interessante a maneira com que Caruso trabalhou a conexão através de celulares, computador e câmeras de vídeo entre Kale, Ashley e Ronnie naquele momento.

(SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). O único “porém” de Disturbia, para o meu gosto – além de alguns momentos em que o crianção do protagonista chega a irrita com sua imaturidade – é que ele acaba sendo previsível demais. Certo que lá pelas tantas, como qualquer filme de suspense, o roteiro tenta nos convencer de que tudo não passa de uma neurose da cabeça do entediado Kale – velha artimanha empregada por produções do gênero. Mas esta “reviravolta” do roteiro é tão previsível que, quando ela acontece, já sabemos o que virá depois. Sim, Disturbia tem que ter o seu herói e seu psicopata de plantão. Do contrário, o que seria do filme? Bem, poderia ser outra coisa… surpresas são raras em Hollywood, mas as exceções estão aí para comprovar que elas são possíveis. O que não é o caso de Disturbia. Ele é um bom filme, mas não surpreende.

NOTA: 8.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Não sei vocês, mas eu achei o Shia LaBeouf “grandinho” demais para encarnar um garoto imaturo de 17 anos. Certo que ele tem aquela cara de “bom moço” e um pouco de “neném”, mas tive que me esforçar para pensar que estava vendo um estudante de segundo grau na minha frente. Lembrando que em 2007, quando o filme foi lançado, LaBeouf tinha 21 anos. Agora, alto lá! Espero que ninguém me entenda mal. Achei a interpretação dele muito, muito boa. Carismático, talentoso, ele dá o tom exato para o personagem. Foi por mérito que ele conseguiu a projeção que teve depois deste filme.

E falando em carisma… gostei muito da “química” entre LaBeouf e a atriz Sarah Roemer. Os dois acabam dando um “tempero” importante para a história – e, como em um filme de Hitchcock, parece que o contato físico entre eles tem que ser adiado quase até o final, em uma sucessão de interrupções que, Freud explica, adia o prazer e cria tensão suficiente para que a platéia torça pelo casal e se identifique com eles.

Outra característica que faz Disturbia ser diferente do clássico de Hitchcock é que o filme de Caruso é muito mais “direto” nas cenas de violência. Que ninguém se engane: há momentos de tensão, socos, sangue e gente morta.

Disturbia reflete menos que Rear Window a questão da paranóia urbana. Mas o tema está ali, presente. Especialmente nas vezes em que o policial Gutierrez (Jose Pablo Cantillo) se vê obrigado a atender aos alarmes falsos do protagonista. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Chega aquele momento da história em que todos desacreditam a Kale, acreditando que ele está exagerando, que ele virou paranóico e que está vendo um assassino em uma pessoa comum. Como o cartaz do filme sugere, é fato que todos os psicopatas são vizinhos de alguém. Mas é igualmente verdadeiro que se começamos a vigiar os demais, nos tormamos paranóicos e, provavelmente, veremos cabelo em ovo na maioria das vezes. Bom senso, como sempre, é a melhor pedida. Ou, em outras palavras, o ideal é você não fechar os olhos para comportamentos sinistros na mesma medida em que aposta em preservar a privacidade dos demais.

Tecnicamente, Disturbia é muito bem dirigido por Caruso, como comentei antes, e tem uma direção de fotografia bastante correta de Rogier Stoffers. O diretor de fotografia garante que as cenas noturnas, que ocupam uma parte considerável do filme, sejam ao mesmo tempo convincentes e claras o suficiente para dar protagonismo aos atores. A trilha sonora de Geoff Zanelli, como em 99% dos filmes de suspense, está planejada para nos “assustar” nos momentos cruciais da história. Por ser voltado para o público jovem, Disturbia também conta com um trilha voltada para este público, com a escolha de System of a Down, Kings of Leon, Countdown, entre outros, para o repertório. Completando a equipe técnica principal, merece uma menção o trabalho do editor Jim Page, o grande responsável, junto com Caruso, pelo ritmo acertado do filme.

Disturbia foi um sucesso de bilheteria. A produção, que teria custado aproximadamente US$ 20 milhões, faturou, apenas nos Estados Unidos, pouco mais de US$ 80 milhões. Um belo lucro, não? Eu gostaria de ser uma das produtoras do filme para levar o meu “quinhão” nesta bolada. 😉

Para completar o quadro perfeito de qualquer produtora em Hollywood, Disturbia ainda abocanhou alguns prêmios pelo caminho. No total, o filme ganhou quatro prêmios e foi indicado a outros três. Dos que levou para casa, destaque para os prêmios de Melhor Filme de Terror/Thriller e outros dois para o ator Shia LaBeouf no Teen Choice Awards de 2007 – premiação em que o público jovem escolhe os melhores do ano.

No site IMDb o filme registra uma respeitável nota 7. Na média, os críticos que tem seus textos linkados no Rotten Tomatoes também aprovaram Disturbia: pelo site é possível acessar a 112 críticas positivas e 54 negativas para o filme – o que lhe garante uma aprovação de 67%.

CONCLUSÃO: Um filme de suspense envolvente que moderniza a idéia da paranóia/voyeurismo do clássico de Hitchcock lançado há 55 anos. Estrelado por um Shia LaBeouf sedento por mostrar trabalho – o que ele efetivamente consegue -, Disturbia acaba sendo uma interessante reflexão sobre o comportamento juvenil e das famílias que vivem nos espaços urbanos atuais. Se bem que a última intenção do filme é a de fazer refletir – o que Disturbia busca, realmente, é entreter. A tecnologia e os gostos juvenis ganham certo protagonismo no filme, assim como a capacidade das pessoas em manterem-se normalmente isoladas – a idéia é que em suas propriedades pode acontecer quase de tudo. Bem dirigido, com um ritmo adequado, o filme apenas peca por seguir em um caminho bastante conhecido pelos fãs do gênero – ou seja, conta com reviravoltas e um desenlace previsíveis. Mas como entretenimento, vale a pena. Agora, se você ainda não assistiu ao clássico de Hitchcock, Rear Window, está é a hora!

SUGESTÕES DE LEITORES: Como ocorreu antes e vai acontecer muitas vezes ainda, dou uma pausa na minha lista de filmes mais “novinhos” a serem assistido para me lançar a alguma produção que todos ou quase todos já assistiram – menos eu. Isso para atender às dicas – sempre muito boas – dos leitores deste blog. Desta vez, a minha motivação para assistir a Disturbia partiu de um comentário feito pela Isa em novembro de 2008. Bem bacaninha este filme, viu, Isa? Gostei!! E tenho outros filmes que você comentou na lista para assistir… pouco a pouco, vou colocando a minha “tarefa de casa” em dia. 😉 Obrigada pela sugestão e vê se aparece, para comentar sobre este e outros filmes!

The Girlfriend Experience – Confissões de Uma Garota de Programa

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Tem filmes que são exatamente aquilo que eles prometem ser. Outros, nem chegam a satisfazer a expectativa criada pelo trailer ou por outras formas de propaganda. E existe ainda aquela categoria de filmes que vai além das aparências. The Girlfriend Experience, novo filme do diretor Steven Soderbergh, criou reboliço por ter uma atriz pornô como protagonista. A produção também chamou as atenções por narrar o cotidiano de uma “acompanhante de luxo” que vive em uma Manhattan nas vésperas de eleições presidenciais de 2008. Mas francamente The Girlfriend Experience é muito mais que umas “confissões de uma garota de programa”, como quer resumir o título escolhido para o Brasil. Ele é um grande exercício narrativo de Soderbergh que demonstra, com apuro técnico e inspiração, como um contador de histórias pode transformar o que parecia ser uma narrativa banal em uma pequena e preciosa pérola do cinema.

A HISTÓRIA: Um jovem casal acaba de sair do cinema e, dentro de um táxi, falam de suas impressões sobre o filme. Depois, eles jantam em um restaurante intimista e, ao chegarem em seu apartamento, Philip (Philip Eytan) conta a Chelsea (Sasha Grey) sobre os empréstimos que tem feito para um amigo que parece não saber a hora de parar de pedir favores. Depois eles namoram no sofá. No dia seguinte, ele pede um café da manhã para os dois e ela vai embora. O que parece uma noite romântica e uma manhã normal de um casal qualquer com um certo padrão de vida em Nova York é, na verdade, o trabalho de Chelsea (que se chama, na verdade, Christine). Acompanhante de executivos, roteiristas e demais homens de dinheiro, ela narra seu cotidiano em uma época de incertezas nos Estados Unidos – e no mundo.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a The Girlfriend Experience): Um filme pode ser interessante de maneira óbvia ou fugindo dos padrões. Este novo filme de Soderbergh, com um ótimo roteiro de David Levien e Brian Koppelman é tudo, menos tradicional. Para começar, ele muitas vezes insinua ser algo, mas acaba sendo outra coisa totalmente diferente. Por exemplo, a questão da narrativa. Aparentemente, The Girlfriend Experience nos mostra o cotidiano de Chelsea/Christine de forma linear. Ledo engano. O único fio condutor “linear” desta história é a entrevista da garota com um jornalista (Mark Jacobson). O restante do filme é contado em um vai-e-vem entre o passado e o presente da protagonista.

Essa “complexidade” do roteiro, provavelmente, passará desapercebida de muita gente. Assim sendo, boa parte dos espectadores ficará em dúvida sobre o que aconteceu com Chelsea e seu namorado, Chris (Chris Santos). (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Se a história fosse contada de forma linear, a impressão que temos é que Chris se mandou para Las Vegas e que Chelsea quebrou a cara com seu novo cliente, levando um bolo no final de semana que tinha sido motivo de uma briga dela com o namorado. Mas é justamente a entrevista com o jornalista que nos revela a “cilada” do roteiro. Vou dar a dica para vocês: lá pelo no minuto 53 do filme, Chelsea conta como determinados livros de personalogia são importantes para o seu trabalho, para o momento em que ela aceita ou não sair com algum cliente novo.

No final deste trecho, o jornalista pergunta para ela como ela lidou com um cliente (David, interpretado por David Levien, co-roteirista do filme) pelo qual ela tinha se interessado (e o qual tinha se interessado por ela) e Chelsea revela que ainda estava lidando com o caso. Outras cenas também comprovam que ela não se encontrou apenas uma vez com David – o que a cena seguinte, quando ela informa para Chris que vai passar o final de semana com tal cliente, insinua. Se comparamos também a sequência do minuto 34 (quando “pegamos o bonde andando”) com a que ocorre logo após a pergunta-chave do jornalista, pelo minuto 54, fica comprovado como a história não é linear. E isso faz toda a diferença na hora de entender ou não ao filme.

Mas as aparências não enganam apenas na forma com que o roteiro é desenvolvido. Cada escolha de cena feita pelo diretor Steven Soderbergh reforça a idéia de que tudo o que parece fútil e conversa vazia é, na verdade, um jogo de cena. Quando o diretor tira o foco dos atores para mostrar o cenário, a cidade, o “alto nível” de restaurantes e apartamentos de luxo, ele nos faz refletir sobre a importância que aquele momento histórico dá para as pessoas e para as “coisas”. Todos vivem em um momento de neurose coletiva, alimentada por uma “crise financeira mundial” que domina as conversas das pessoas – mesmo quando o tema parece ser as eleições entre Barack Obama e John McCain.

As conversas sobre a crise e as eleições são como uma cortina de fumaça de algo maior, que é a histeria coletiva. Todos correm para mudar de vida, para se “aprimorar” como resposta ao medo que a tal crise provoca. Isso vale para a “garota de programa” de luxo, para seu namorado, um atlético preparador físico de uma academia, para os executivos, comerciantes, roteiristas de cinema, atores de tevê e demais clientes de Chelsea. Esta talvez seja a grande tacada de mestre de Soderbergh que, ao narrar um curioso e um pouco “picante” cotidiano de uma “garota de programa”, acaba fazendo uma crônica visual, mais que verbal, sobre as características da sociedade dos Estados Unidos atual.

De quebra, os roteiristas ainda insinuam que existe pouca diferença entre os que votam em democratas ou republicanos em solo estadunidense. Todos, no fundo, querem saber de ganhar dinheiro e de manter o seu alto padrão de vida. Cada cliente de Chelsea fala da crise e da necessidade de superação para enfrentar os “novos tempos”, mas ninguém deixa de pagar altas quantias por uma acompanhante, nem de frequentar os melhores restaurantes ou, no caso dos “novos amigos” de Chris, de viajar com um jatinho particular para passar um final de semana de festas em Las Vegas. A crítica nas entrelinhas à hipocrisia do discurso vigente é um dos pontos altos do filme.

Sou suspeita para falar, mas achei a direção de Steven Soderbergh em The Girlfriend Experience, uma das mais interessantes dos últimos tempos. Alguns afirmam que este é um grande exercício de cinema experimental. Concordo que o diretor roça neste tipo de cinema. Mas ele não faz manobras endiabradas com a câmera. Pelo contrário. Cada escolha de foco ou de plano para a câmera é feita de forma premeditada. A exemplo de Cristian Mungiu em 4 Luni, 3 Saptamâni si 2 Zile, a escolha mais frequente é a da câmera parada, com um plano aberto, mantendo certa distância e “imparcialidade” sobre a narrativa que está se desenvolvendo.

Mas Soderbergh vai um pouco além desta escolha feita por Mungiu e outros cineastas anteriormente. Como esboçou em filmes que precederam The Girlfriend Experience, Soderbergh se debruça em elementos de beleza urbana. Lhe interessa, igualmente, as letras de uma vitrine ou a iluminação diferenciada de um restaurante. A beleza dos detalhes ganha protagonismo na visão do diretor, mais que alguns momentos de interpretação dos atores. Mas isso não significa que ele não dê a devida atenção para o que os protagonistas falam ou como eles agem. Não. Nos momentos decisivos – e até nos mais inusitados, como em algumas “corridas” de táxi – a lente de Soderbergh está atenta para revelar as melhores expressões de seus atores.

E falando neles… que grande e grata surpresa esta Sasha Grey. Belíssima, charmosa, a atriz equilibra no tom exato as idéias de sensualidade, superficialidade, fragilidade, um misto de pessoa comum com mulher “extraordinária” e, ainda, elegância. Juro que se eu não tivesse lido que Sasha Grey é (ou era?) uma atriz pornô, jamais pensaria em algo assim. Há um tempinho eu não via um “rosto desconhecido” comunicar tanto apenas com o olhar e com o sorriso quanto esta garota. Ela carrega o filme, sem dúvida. Os demais atores – talvez a exceção seja David Levien -, inclusive Chris Santos, estão apenas razoáveis.

Outro ponto que chamou muito a minha atenção neste filme é a excelente trilha sonora assinada por Ross Godfrey, do Morcheeba. Além de ter escolhas perfeitas para cada momento do filme, esta trilha sonora é utilizada de uma forma bastante curiosa pelo diretor. Em muitos momentos, ela entra para tomar conta da história e marcar uma quebra narrativa como poucos filmes fizeram anteriormente. É como se não existisse espaço, neste mundo repleto de iPods e demais aparelhos que tocam MP3, para o silêncio. Em The Girlfriend Experience ou as pessoas estão falando qualquer coisa – muitas vezes palavras “vazias” – ou a música está tocando a todo volume. Seja o som produzido por artistas de rua – existe um contraponto maior que eles para a nossa protagonista? – ou uma escolha pontual de Godfrey que “ocupa” a cena. De qualquer forma, aqui temos uma trilha sonora para escutar independente do filme.

Sei que já escrevi demais, mas ainda há um outro ponto de The Girlfriend Experience que fez com que eu ficasse fascinada pelo filme: sua reflexão sobre as “companhias aparentes” e a solidão crônica destes últimos tempos. Parte da conversa de Chelsea com o jornalista é muito reveladora. Especialmente nos pontos em que ele pergunta sobre a “Chelsea real”, sobre a possibilidade dela deixar ser vista por uma fresta em sua (necessária) armadura.

Mais no início do filme, ela responde que se os homens quisessem que ela fosse ela mesma, não estariam pagando para sair com ela. Mas depois, quando Chelsea admite que pode deixar-se conhecer por um de seus clientes, a resposta sobre o “tipo de homem” que seria capaz disto fica, propositalmente, sem resposta. Desta maneira, The Girlfriend Experience demonstra que vivemos em uma era de mudanças cada vez mais constantes. Uma relação “duradoura”, como a que Chelsea/Christine mantêm com Chris, pode estremecer ou evaporar por uma impressão, pelo que um livro que cruza datas de aniversário sugere. As “companhias aparentes” não se estabelecem apenas entre homens que pagam por uma noite com uma bela garota, mas também em relações vazias mantidas mais pelo costume que pelo olhar atento para o outro.

NOTA: 9,5.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Parece evidente, mas não custa comentar: este filme não tem cenas de sexo explícito mas, ainda assim, deve ser considerado inadequado para crianças. Sasha Grey aparece nua em algumas cenas, mas o que pode ferir a sensibilidade de algumas pessoas é mesmo o linguajar do roteiro, recheado com alguns detalhes um pouco “picantes”/fortes da protagonista.

Uma dica para quem quer acompanhar a narrativa não-linear do filme sem se perder muito: preste atenção no vestuário da protagonista. Inicialmente, parece dispensável quando Chelsea anota em sua “agenda” de clientes detalhes sobre os encontros como a roupa com que ela estava vestida. Mas, na verdade, isso acaba sendo fundamental para ela – porque Chelsea não pode repetir figurinos em seus encontros – e para nós, que através do belo figurino escolhido por Christopher Peterson, podemos nos situar melhor na história.

Não falei antes da direção de fotografia, precisa, limpa e acertadíssima. Mas isso porque ela também é de autoria de Steven Soderbergh – que assina o trabalho com o codinome de Peter Andrews. Como venho falando desde o início, a escolha de cada cena é um trabalho muito autoral do diretor. Soderbergh ainda é o responsável pela edição do filme.

Em algumas versões do filme, foi colocada uma cena extra com a atriz Sasha Grey e um de seus “clientes” após os créditos finais. Mas esta cena está disponível em apenas algumas versões – oficialmente a produção tem 77 minutos de duração.

The Girlfriend Experience foi uma das sensações do Festival de Sundance em fevereiro deste ano. Depois de passar por ali, o filme compareceu ainda nos festivais de Tribeca, Cannes (foi comercializado no mercado do evento), Sydney e Edinburgh.

De super baixo orçamento, esta produção teria custado US$ 1,7 milhão. Quem dera que mais cineastas de renome como Soderbergh se aventurassem, de tempos em tempos, em fazer filmes no estilo. O problema é que, mesmo tendo custado tão pouco, o filme não deslanchou nas bilheterias dos Estados Unidos. Depois de estrear em um circuito limitadíssimo – não chegou a 50 cinemas – no dia 24 de maio, The Girlfriend Experience conseguiu pouco mais de US$ 677 mil até o dia 12 de julho.

O filme não conseguiu um desempenho muito bom na avaliação do público e da crítica. No site IMDb ele ostenta apenas uma nota 6,2. Por sua vez, os críticos que tem textos enlaçados no Rotten Tomatoes dedicaram para o filme 43 críticas positivas e 32 negativas, o que lhe garante uma aprovação de 57%. Achei as avaliações de ambos, público e crítica, muito baixas.

O título original do filme, The Girlfriend Experience, faz referência ao tipo de acompanhante de luxo enfocado pela história. Ou seja, garotas de “alto padrão” como Chelsea não são vistas “apenas” como garotas de programa ou putas. Elas cobram bem para, em troca, proporcionarem uma “experiência” como a de namoradas para seus clientes. Daí o termo “girlfriend experience”.

No material de divulgação do filme, The Girlfriend Experience é apresentado como um “drama sobre a relação entre nossa vida profissional e nossa vida pessoal na era da pós-crise do capitalismo”. Eu acrescentaria que este filme é um ensaio crítico sobre os valores dominantes da nossa época – ou, para alguns, da falta deles. Outras curiosidades: o filme narraria cinco dias na vida de Chelsea, que cobra US$ 2 mil por hora de seus clientes, nas semanas que antecederam as eleições dos Estados Unidos em 2008.

Neste mesmo material, fiquei sabendo que Sasha Grey tem 21 anos e que, além de atriz, é escritora, fotógrafa, estrela pornô, uma “artista transgressora” e música experimental. Segundo o texto, ela tem um forte interesse pelos filmes da nouvelle vague e, antes de adotar o nome artístico de Sasha Grey, ela utilizava o de Anna Karina – em homenagem a ex-mulher de Jean-Luc Godard. Sua escolha por Grey teria sido motivada por duas razões: pelo personagem Dorian Grey, criado por Oscar Wilde, e como referência a escala da sexualidade de Kinsey. Não é fraca essa menina! Ah, e o texto ainda comenta que ela tem um “enorme apetite sexual” e que ela considera o seu trabalho no cinema pornô como “performance art”. Seu gosto por tal arte fez com que ela estrelasse mais de 80 filmes pornô. 🙂 Além da página oficial da atriz, divulgada antes, ainda deixo por aqui, para os fãs, seu MySpace.

Chris Santos, por outro lado, estréia nos cinemas neste filme – agora se explica porque ele é um tanto “fraquinho”. Segundo as notas de produção de The Girlfriend Experience, Santos utilizou sua experiência como instrutor atlético e como triatleta para interpretar o personagem de Chris. Mark Jacobson, que entrevista Chelsea no filme, é jornalista há mais de 35 anos, com textos publicados na New York Magazine, na National Geographic, na Rolling Stone e em outras publicações. Pelo visto, Soderbergh pinçou as pessoas “mais condizentes” com seus papéis, ou seja, as que tinham experiência fora das telas parecidas (ou iguais) com as que viviam seus personagens.

CONCLUSÃO: Um filme de baixíssimo orçamento do premiado diretor Steven Soderbergh que resolve fazer uma crônica sobre o estado de ânimo do mundo atual. Filmado nas vésperas das eleições dos Estados Unidos do ano passado, The Girlfriend Experience traça o perfil de uma sociedade de consumo, onde jogam as moedas da aparência, da superficialidade, do medo e da busca por sensações de prazer e de segurança fáceis. Estrelado por uma estrela do cinema pornô, este filme surpreende pela narrativa nada linear (que pode deixar muita gente perdida) e pelas escolhas do diretor. Um trabalho bastante autoral que mexe em dois temas que parecem ser fundamentais para a sociedade contemporânea: dinheiro e sexo (algo que Gay Talese havia revelado há quase três décadas em A Mulher do Próximo/The Neighbor’s Wife). Enfocando muitas vezes o cenário de Manhattan em detrimento das pessoas, Soderbergh deixa claro sua crítica ao protagonismo das “coisas” em lugar do indivíduo. Um filme que provavelmente não vá agradar a todos – seja porque alguns ficarão perdidos nas “mensagens”, seja porque outros não encontrarão as cenas “picantes” que gostariam -, mas que traz uma importante brisa de frescor para o cinema feito nos Estados Unidos.