Money Monster – Jogo do Dinheiro

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A televisão mundo afora tem programas para todos os estilos e públicos. Há muitos programas bons, que descobrem histórias interessantes, contextualizam informações e ajudam a interpretar o mundo ao nosso redor. Mas há também muito lixo. Assim como muitos programas “perdidos”, que parecem não saber, exatamente, a quem eles estão servindo. Money Monster trata de um destes programas que parece um pouco perdido, mas este não é um filme apenas sobre isso.

Ele trata também sobre o mercado de capitais, sobre dinheiro, ganância e manipulação de informações. É um filme ágil, ainda que ele tenha uma premissa um tanto limitada em um determinado espaço por boa parte do tempo. Mas é inteligente, tem um roteiro interessante e bons atores. Surpreendente, até um certo sentido, ainda que siga uma linha recente de filmes bem determinada.

A HISTÓRIA: Começa com o apresentador Lee Gates (George Clooney) comentando que o espectador não faz ideia de onde o seu dinheiro está. Ele explica como o dinheiro atualmente, diferente da época em que ele estava atrelado a lastros físicos e palpáveis como barras de ouro, hoje não passa de fótons de energia que trafegam cada vez mais rapidamente por cabos de fibra ótica. Ele explica que quanto mais rápido anda o dinheiro, melhor. Lee Gates é o apresentador do programa Money Monster, focado no mercado de ações e em economia.

Uma série de matérias mostra como a empresa IBIS Clear Capital teve uma derrocada forte na bolsa depois que um algoritmo que operava as suas transações “ficou louco”. Para Gates, esta é uma grande oportunidade para que as pessoas comprem ações, já que este é apenas o primeiro round da batalha da empresa. O programa estava esperando entrevistar o CEO da empresa, Walt Camby (Dominic West), mas ele não vai aparecer. Quando Gates entra no ar, contudo, ele é surpreendido por um acionista da IBIS que se deu muito mal e que quer respostas reais para as suas dúvidas.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Money Monster): Quem tem acompanhado ao Oscar nos últimos anos sabe que produções que fazem um esforço em interpretar e criticar o mercado de capitais e o sistema financeiro têm ganho evidência. Primeiro foi The Wolf of Wall Street (comentado aqui), um filme corajoso de Martin Scorsese e que levou Leonardo DiCaprio a um outro nível de interpretação. Uma das grandes produções de dois anos atrás, sem dúvidas, especialmente porque ela mostrava um bocado dos bastidores de Wall Street e dos sujeitos que dedicam a sua vida a ganhar muito dinheiro naquele ambiente.

Depois, no Oscar deste ano, o filme da vez foi The Big Short (com crítica neste link), outro filme inteligente e com ótimas sacadas e que tentava, mais uma vez, mostrar como o sistema anda muito equivocada quando ele perde o contato com a realidade. The Big Short mostra a origem do colapso do sistema financeiro e da crise subsequente de 2008 de uma forma interessante e tentando, a todo momento, traduzir os pontos mais difíceis para o grande público.

(SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Money Monster segue esta linha de filmes ao mostrar como uma empresa enganou seus investidores ao forjar uma falha no sistema para que o CEO da empresa conseguisse desviar muito dinheiro para tentar comprar um rebelde na África e, desta forma, conseguir sucesso em seus empreendimentos. O que este filme tem em comum com os outros dois que eu cite é justamente a crítica sobre o sistema financeiro e econômico atual, em que a tecnologia ajuda pessoas mal intencionadas a burlarem as regras e prejudicarem muitas pessoas para conseguirem o que elas querem.

O início do filme com roteiro de Jamie Linden, Alan DiFiore e Jim Kouf, baseado na história criada por DiFiore e Kouf, acerta na mosca ao questionar a lógica deste sistema que tem pouco lastro com a realidade. Ainda que a crítica não seja nova, ela foi bem feita. O personagem de Kyle Budwell (Jack O’Connell) também é convincente. Afinal, bem sabemos, nos Estados Unidos não é muito complicado conseguir uma arma. E não são poucos os casos de pessoas insatisfeitas que utilizam estas armas para atacar locais ou pessoas que eles consideram como fonte de seus problemas.

Juntamos um sujeito insatisfeito com um mercado financeiro suspeito e uma empresa pouco confiável e temos o estopim para a tensão da história de Money Monster. Mas aí temos um elemento diferenciado da produção: o local em que esta história se passa. O sujeito insatisfeito não invade a empresa que fez ele perder US$ 60 mil e sim o programa Money Monster apresentado por Lee Gates. Foi quando assistiu ao programa de Gates que Budwell teve a ideia de investir na empresa que o faria perder todo o dinheiro economizado.

Daí entra a outra camada de leitura deste filme. Como eu comentei lá no início, esta produção trata também sobre a qualidade e a responsabilidade da TV. Gates faz um programa sobre um assunto sério, que é o mercado financeiro e os investimentos em ações, mas ao estilo “palhaço”. Ele utiliza os mais diferentes recursos de comédia para entreter a plateia e a audiência. Ao melhor estilo “a televisão está aí para entreter e não para informar”, Gates está mais interessado no espetáculo do que na informação.

Por isso mesmo é inevitável que, ao ser confrontado por Budwell, o apresentador perceba como ele perdeu a noção do razoável e passou a comprometer o próprio trabalho ao tentar sempre “provar o seu próprio ponto”. O maior exemplo foi quando ele disse que investir na empresa de Walt Camby era mais seguro do que investir na Poupança. Budwell e tantos outros investidores foram influenciados por esta informação e se deram mal.

Claro que nunca um programa de televisão pode ser totalmente responsabilizado por algo assim, mas a verdade é que aquela informação do Money Monster tinha a sua parcela de responsabilidade sim. Este filme dirigido com precisão e muito talento por Jodie Foster joga os holofotes justamente sobre a responsabilidade da mídia e de seus profissionais. Sempre é importante fazer isso. Mas, até agora, ressaltei apenas as qualidades do filme. Pena que não é só delas que devemos falar.

O filme tem pelo menos três pontos bem questionáveis. O primeiro mais evidente é quando Gates “apela” para a “bondade” dos telespectadores para fazer com que as ações da IBIS Clear Capital aumentem. Honestamente, achei uma grande forçada de barra. Talvez o que os roteiristas quiseram dizer com essa “forçação” é que as pessoas realmente são individualistas.

Elas poderiam “resolver” o problema de Budwell e de tantos outros investidores contribuindo apenas um pouquinho, mas a verdade é que as pessoas não veem desta forma. Elas pensam que estariam favorecendo uma corporação duvidosa e várias outras pessoas que elas não conheciam. E não deixam de estar certas. Mas a leitura que fica no filme é que todos são insensíveis. Como eu disse, uma forçada de barra desnecessária e um tanto infantil.

O segundo ponto questionável é quando encontram a namorada de Budwell, Molly (Emily Meade), e a “usam” para tentar convencê-lo a largar aquela ameaça. É bem difícil de acreditar que a polícia colocaria ela para falar daquela forma descontrolada com Budwell sem treiná-la e prepará-la bem antes, não é mesmo? Outro ponto do filme um bocado exagerado. Parece que foi planejado apenas para aumentar o nível de tensão da história. Mas sempre que uma aposta dos roteiristas como esta parece exagerada ou difícil de acreditar, o filme só perde pontos com o espectador.

Para finalizar, por que escolheram aquela saída para o colete que Budwell coloca em Gates? (SPOILER – não leia… bem, você já sabe). Para mostrar que o sequestrador era “inofensivo” e que, no final das contas, ele não era nenhum vilão? Ora, claro que ele estava desesperado e que procurava ter alguma atenção. Faria mais sentido ele realmente ter feito um colete de bombas eficaz e não uma piada como aquela – tudo bem que a polícia sempre sai do pressuposto que pode ser uma bomba, mas realmente iriam cair naquela armação sem ao menos desconfiar? Novamente pontos difíceis de acreditar e um tanto descolados da realidade.

Descontados estes pontos controversos, eu achei a narrativa e o ritmo do filme muito interessantes. Basicamente seguem em paralelo duas linhas narrativas: aquela que envolve Gates, Budwell e todo o circo armado ao redor da TV, e aquela outra encabeçada por Diane Lester (Caitriona Balfe) e a sua própria investigação para descobrir o que realmente está acontecendo na empresa em que ela trabalha. Graças a este segundo ponto o filme não fica apenas restrito ao estúdio de TV, o que ajuda a diretora Jodie Foster a manter um ritmo interessante na história.

Finalmente na reta decisiva da história Gates e Budwell saem do estúdio e ganham as ruas, o que aumenta, novamente, a tensão da história. Muito bem equilibrada a narrativa, com a tensão aumentando de nível pouco a pouco até o desfecho que é um tanto óbvio e “clássico”. Os atores estão muito bem, e os roteiristas acertam ao explorar a confiança que Gates tem em Patty Fenn (Julia Roberts), a diretora de Money Monster.

Por uma parte considerável da história os roteiristas tentam humanizar Gates e Budwell, explorando as suas histórias e fragilidades. Esse elemento humano também funciona para prender a atenção do espectador, ainda que não nos aprofundemos realmente em nenhuma das histórias. São apenas pinceladas aqui e ali.

Então o filme tem ótimos atores, um bom ritmo e direção, uma boa dose de tensão e alguns pontos de reflexão interessante. O problema é que ele exagera na dose em diversos momentos e isso tira um bocado da capacidade da produção de convencer a quem está assistindo. Descontados estes problemas, é um filme interessante, que ao mesmo tempo que prende a atenção do espectador, apresenta alguns problemas interessantes da nossa sociedade atual, em que a cultura do espetáculo ocupa boa parte do tempo das pessoas e na qual o dinheiro é volátil além do desejado.

NOTA: 8,8.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Assisti este filme há umas duas semanas, mas só agora eu consegui escrever sobre ele. Possivelmente perdi, no caminho, parte das impressões que ele me despertou, mas acho que a essência do que eu pensei está acima. Assisti a este filme não apenas por causa da diretora, Jodie Foster, a quem admiro como realizadora e como atriz, mas também por causa do elenco. Ainda que estes sejam bons motivos, a razão fundamental é que Money Monster foi apontado por vários críticos como um possível filme indicado ao Oscar 2017.

Como comentei antes, só vou abrir a seção “Palpites para o Oscar 2017” abaixo quando o filme realmente estiver indicado a alguma coisa. Por enquanto, nesta fase pré-Oscar, posso dizer que Money Monster até pode chegar lá, mas acho difícil ele levar alguma estatueta. Se a Academia quiser seguir a linha de indicações dos últimos anos, Money Monster até pode ser um dos 10 filmes indicados a Melhor Filme.

O ator George Clooney pode chegar a ser indicado como Melhor Ator – até porque Hollywood gosta muito dele – e, com sorte, o roteiro também pode ser indicado. Mas isso tudo se o filme tiver um ótimo lobby e vários fãs entre os votantes. Ainda que a direção de Jodie Foster seja ótima, não vejo muitas chances dela ser indicada ao Oscar. Não seria surpresa também se Money Monster não fosse indicado a nada. Afinal, entre os críticos ele não se saiu muito bem.

Da parte técnica do filme, o destaque, sem dúvida alguma, é para a ótima direção de Jodie Foster. Acho que a atriz se saiu muito, mas muito bem em um filme que poderia ser feito de forma mais “tradicional”, mas para o qual ela soube utilizar muito bem todas as tecnologias atualmente disponíveis para fazer takes com diferentes recursos e tornar a história bem dinâmica. O roteiro eu achei apenas mediano, mas vale destacar ainda a direção de fotografia de Matthew Libatique e a edição de Matt Chesse.

O elenco não é pequeno, mas alguns nomes se destacam na produção. A estrela, sem dúvida alguma, é George Clooney. O ator está muito bem como o apresentador Lee Gates. Outros nomes que estão bem, mas nenhum digno, a meu ver, a uma indicação ao Oscar, são o de Julia Roberts, Jack O’Connell, Dominic West e Caitriona Balfe. Todos fazem um bom trabalho, mas não achei nenhum além da média. Outros coadjuvantes que merecem ser citados são Giancarlo Esposito como o Capitão Powell, comandante da operação que tenta libertar Gates; Christopher Denham como Ron Sprecher, parte da equipe de Gates; Lenny Venito como o cameraman Lenny; Condola Rashad como Bree, assistente de Diane; e Aaron Yoo como Won Joon, o programador que ajuda a matar a charada da empresa.

Money Monster estreou no Festival de Cannes em maio deste ano, no mesmo dia em que a produção estreou em cinemas de cinco países. No Brasil o filme estreou no mesmo mês, só que duas semanas depois. Até o momento a produção não ganhou nenhum prêmio. Mais uma razão para ela não ter muitas chances no Oscar 2017.

Este filme teria custado cerca de US$ 27 milhões. Apenas nos Estados Unidos o filme conseguiu pouco mais de US$ 41 milhões e, nos demais mercados em que estreou, outros US$ 51,7 milhões. Ou seja, o filme conseguiu um belo resultado nas bilheterias e deu um certo lucro para os seus realizadores.

Para quem gosta de saber onde os filmes são rodados, Money Monster foi totalmente realizado em Nova York, tanto nas cenas exteriores, feitas em Manhattan, como as de interior que foram rodadas no Kaufman Astoria Studios.

Agora, uma curiosidade sobre esta produção: por uma questão de agenda, os atores George Clooney e Julia Roberts tiveram dificuldades de contracenarem juntos em Money Monster. A atriz interpretou quase todas as suas cenas com um monitor verde em que depois foram inseridas as imagens de Clooney.

Os usuários do site IMDb deram a nota 6,6 para esta produção. Não é uma nota ruim, se levarmos em conta o padrão do site, mas também não é uma nota acima da média. Os críticos que comentaram o filme, por outro lado, ficaram bem mais incomodados com a produção. Apenas 55% das críticas sobre o filme no site Rotten Tomatoes, o equivalente a 133 críticas, foram positivas ao filme. Outras 98 críticas foram negativas. A nota média dada para a produção no site foi de 5,9.

Este é um filme 100% dos Estados Unidos – por isso ele aparecerá na lista de votações aqui no blog.

CONCLUSÃO: Um filme bem dirigido, com roteiro ágil e ótimos atores. A história é densa, mas consegue ter uma dinâmica muito interessante apesar de ficar boa parte do tempo com a narrativa limitada a um estúdio de TV. Money Monster segue a linha de filmes recentes que se debruçam sobre o mercado de ações e as entranhas de empresas que não são conhecidas por sua transparência. Mais que isso, ele se diferencia por também mostrar os bastidores de um programa de TV. Com estes dois focos da narrativa o filme ganha pontos porque ele se mostra bastante realista. O problema da história reside em alguns exageros na parte da tensão do “terrorista”, com algumas forçadas de barra desnecessárias. Mas, no geral, é um filme muito bem feito e que nos faz refletir sobre pontos importantes da nossa realidade muitas vezes insensível à história das pessoas comuns que são prejudicadas por grandes corporações. Ainda assim, fica bem atrás das histórias recentes sobre sistema financeiro e mercado de capitais.

Everybody Wants Some!! – Jovens, Loucos e Mais Rebeldes

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Um mergulho vigoroso no ambiente universitário dos Estados Unidos no início dos anos 1980. Para quem viveu aquela época, o déjà-vu será inevitável em diversos pontos. Ainda assim, o ambiente universitário americano com o foco em um time de beisebol cheio de testosterona focado em festas, mulheres e algo de esporte certamente é diferente do que nós vivenciamos no Brasil. Por isso mesmo Everybody Wants Some!! ajuda a explicar um pouco dos Estados Unidos, os seus valores e costumes além de resgatar uma era que segue tendo reflexos até hoje naquele país e em diversas latitudes.

A HISTÓRIA: Jake (Blake Jenner) dirige o seu carro com placas do Texas no qual transporta a mudança para a nova cidade. Na bagagem, alguma roupas, uma aparelho de som e muitos discos. Ele chega na cidade e logo observa as belas garotas que, como ele, estão se mudando ou apenas circulando pelas ruas antes das aulas começarem. A história começa no dia 18 de agosto de 1980, três dias e algumas horas antes do ano da faculdade começar. Jake chega na casa onde vai morar, olha tudo ao redor e cumprimenta o esquisitão Jay Niles (Juston Street). Logo ao entrar na casa, Jake vê uma instalação improvisada de água, dá uma olhada na geladeira e vê que há algum problema no andar de cima. Logo ele conhece os demais moradores da casa e seus novos colegas do time de beisebol.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Everybody Wants Some!!): Algo sem dúvida é preciso ser dito sobre este filme: ainda que ele não tenha uma grande história ou roteiro, ele se mostra um belo mergulho em uma época e em um estilo de vida. Para quem viveu os anos 1980 – ou parte dele, como é o meu caso -, impossível não gostar do resgate que Everybody Wants Some!! faz daquela época.

O filme é detalhista no resgate dos anos 1980. Impressionante a caracterização dos personagens e dos ambientes. O diretor e roteirista Richard Linklater apresenta um trabalho incrível de resgate daquela época, com o mérito de nos levar a diferentes ambientes do cenário universitário americano dos anos 1980. A história, basicamente, mostra a preocupação de um grupo de rapazes antes das aulas começarem. O roteiro se debruça em um período limitado e bem definido: a chegada de Jake na cidade e as experiências que ele e o grupo do qual ele começa a fazer parte tem nos três dias antes das aulas começarem.

A escolha de Linklater é interessante. Ele mostra o grupo solto, aproveitando ao máximo o tempo das aulas começarem, mas interrompe a história exatamente quando a “seriedade” começa. Muitos podem ficar frustrados com a escolha do realizador, até porque fica impossível não torcer pelo novo casal Jake e Beverly (Zoey Deutch). O jovem casal é sugerido no início do filme, mas só se forma realmente perto do final. Mas eu achei interessante a escolha do diretor porque a sequência do “ano letivo” seria, certamente, uma repetição do que vimos antes: aquele grupo de jogadores de beisebol interessados em ganhar no esporte e em transar com o máximo de garotas possível.

Para conseguir o segundo objetivo, eles vivem pensando na próxima festa. Começamos em alto estilo, em uma danceteria com “dance music” e com a extensão da festa na casa dos rapazes. Apesar do técnico deles, Gordan (Jonathan Breck) ter deixado claro que o grupo não poderia beber na casa e nem levar garotas para o segundo andar da residência, estas duas regras são rapidamente quebradas. Logo no primeiro dia de Jake na cidade, na verdade.

Novato no grupo, o protagonista Jake logo consegue se enturmar e não vira objeto de gozações como outro novato, Billy – que todos chamam de Beuter (Will Britain). Logo no início, além da “falta de preocupações sérias” daquele grupo de rapazes, Linklater nos mostra um ambiente amistoso e também altamente competitivo. Jake entra no grupo e logo percebe a importância da irmandade, de fazer parte do grupo e de se integrar a ele mesmo não compartilhando exatamente daquele estilo de vida.

Bem-sucedidos como jogadores de beisebol no ensino médio, agora Jake e os outros novatos tem o desafio de seguirem bem na carreira universitária. Ali o nível é muito mais alto, porque jogadores de todo o país brigam por vagas mais restritas nas diferentes universidades do país para buscar vitórias na liga nacional. Para quem quer fazer carreira no esporte e se tornar profissional, esta é uma etapa fundamental. É neste cenário que se desenvolve Everybody Wants Some!!

Por isso mesmo o filme, que aparentemente é vazio, se torna interessante. Afinal, ele ajuda a explicar um pouco da “mentalidade média” do jovem americano dos anos 1980 e a própria formação ideológica do país que valoriza os melhores – e, consequentemente, torna a competitividade um elemento-chave do processo. Jake sem dúvida alguma é o protagonista. Afinal, a história começa e termina com ele em cena. Ainda assim, Linklater coloca um grupo de personagens no foco principal da história durante toda a trama.

Nunca é um desafio simples desenvolver diversos personagens em um roteiro. Sem dúvida alguma é mais fácil se “aprofundar” no perfil de um ou dois personagens. Mas Linklater, que é um bom contador de histórias, consegue se sair bem ao explorar cerca de uma dúzia de personagens diferentes. Claro que não nos aprofundamos em ninguém, mas conseguimos pouco a pouco identificar o estilo de cada um. Há os mais competitivos, como McReynolds (Tyler Hoechlin) e Jay; há os brincalhões natos e especialistas em apostas, como Nesbit/Nez (Austin Amelio); e o mais experiente, filósofo e “pegador” Finnegan/Finn (Glen Powell).

Em diversos momentos dá para perceber, contudo, que Jake diferencia da maioria dos jogadores de seu time porque ele tem mais “bagagem” e um olhar diferenciado sobre o que está acontecendo. Isso fica claro especialmente na reta final do filme – que é um bocado “surpreendente”, digamos assim, porque sobe um pouco o nível do roteiro. Saímos do besteirol e do papo de “como pegar o máximo de mulheres”, além das brincadeiras quase juvenis dos rapazes, para uma conversa quase filosófica entre Jake e Beverly e o que os atrai no que eles estão fazendo.

Everybody Wants Some!! nos mostra uma fase divertidíssima da vida, quando garotos e garotas ainda não estão encarando a “seriedade” e os mil compromissos da vida adulta e podem se sentir mais livres. De forma inteligente, Linklater nos mostra os “bons” dias e os dias “ruins” neste cenário, começando com um dia bom, quando muitos dos jogadores conseguem “se dar bem” com diversas garotas e, na sequência, um outro dia ruim. Não apenas porque eles não estão conseguindo uma boa “caça” no clube dance mas também porque sai a primeira briga envolvendo o esquisitão e bastante explosivo Jay.

Até o final do filme, além do ambiente “dance”, vemos o grupo frequentando uma festa country, uma festa punk e, finalmente, uma festa à fantasia. Jay chega a questionar a falta de estilo do grupo, mas o veterano Finnegan defende que eles não tem estilo definido, mas que se adaptam para conseguir sucesso com as garotas e vão onde for necessário para conseguirem “marcar pontos”. Festas, garotas e muita cerveja é o que motiva o grupo. A energia deles é direcionada para o sexo. No meio do caminho, eles se relacionam como grupo, acreditando que em uma irmandade eles ficarão mais fortes e confiantes. Como em uma alcateia na busca pela sobrevivência.

Conforme as oportunidades aparecem, eles mudam de roupa e assumem a “pele” adequada para fazerem sucesso onde eles forem. Willoughby (Wyatt Russell) é o único que defende a “esquisitice” dos arremessadores e defende que cada um encontre a sua essência e a sua identidade e que não pareça como “todo mundo”. Querendo ou não, Everybody Wants Some!! trata também sobre este momento da vida em que homens e mulheres estão não apenas se descobrindo, mas também se definindo. E as escolhas parecem ser definitivas. Com o tempo, todos vão aprender que não é bem assim e que caminhos inicialmente trilhados podem ser modificados.

Então de maneira muito interessante e “natural”, Linklater nos apresenta uma reconstituição dos anos 1980 impecável para nos falar não apenas de uma fase da vida mas também de um estilo de sociedade bem específico. Acho interessante como ele não embeleza a pílula. Sim, aquele grupo de caras queria mesmo viver entre cervejas, festas, zoação e transas com belas mulheres. Mas, ao mesmo tempo, eles passavam por uma fase de definições e de alta concorrência, sendo cobrados por todos os demais – pela sociedade em si – para que tivessem sucesso.

Cada um em sua área. Por acaso o filme foca jogadores de beisebol – algo muito americano, e certamente a escolha não foi por acaso -, mas poderia ser qualquer grupo de qualquer área. O nível de pressão para que cada um obtenha êxito, seja na profissão, seja conquistando mulheres/rapazes ou para “se encaixar” em um grupo é bastante alto. Isso acontece em praticamente qualquer latitude mas, certamente, em um nível muito mais pesado nos Estados Unidos.

Por causa da reconstituição de época, por nos transportar novamente para os filmes dos anos 1980, por mostrar os jovens da época com bastante naturalidade e por revelar uma parte da formação e da mentalidade dos Estados Unidos sem julgamentos que Everybody Wants Some!! se mostra um filme interessante. Não é uma produção inesquecível e nem entrará na lista das melhores dos últimos tempos ou mesmo deste ano, mas ela tem o seu valor.

NOTA: 8.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Assisti a este filme por dois motivos. Primeiro porque ele logo vai estrear no mercado brasileiro. Depois, porque algumas listas que apontam filmes que podem ser indicados a uma ou mais categorias no Oscar 2017 trazem o nome de Everybody Wants Some!! Fiquei curiosa para assisti-lo por isso, principalmente. Também me atraiu o fato do filme ser dirigido e ter roteiro de Richard Linklater. Afinal, esse diretor já nos apresentou grandes trabalhos, como Before Sunrise (que, aliás, virou uma trilogia, mas eu lembro de ter assistido apenas a esta primeira produção) e, principalmente, Boyhood (comentado aqui).

Decidi, contudo, nesta fase bem preliminar do Oscar, identificar com a tag “Oscar 2017” apenas os filmes realmente já indicados pelos seus respectivos países na categoria Melhor Filme em Língua Estrangeira. Os demais filmes que tem alguma chance ao Oscar eu só vou colocar nesta categoria e com o adicional de “Palpites para o Oscar 2017” quando eles já tiverem sido indicados em diferentes categorias e/ou quando eles tiverem ganho uma ou mais premiações pré-Oscar e que servem de termômetro para a maior premiação do cinema de Hollywood.

Estava aqui pensando em dois pontos que eu não citei antes sobre Everybody Wants Some!! (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Tenho certeza que esta produção vai mexer com boas memórias de muita gente especialmente porque a história se passa em um tempo pré-internet e computadores. Uma era em que as pessoas interagiam muito mais e que gastavam o seu tempo uma com as outras mais do que hoje o tempo que elas dedicam para a tecnologia. Com isso não quero dizer que antes era melhor… talvez em alguns aspectos. Mas a tecnologia é importante e nos facilita muito a vida também. Só que realmente são épocas muito diferentes. Acho que a galera mais nova e que não viveu aquela época pode se surpreender com alguns pontos da história. Para o pessoal “mais velho”, certamente boas lembranças vão surgir.

Outro ponto que o filme me fez pensar é que realmente a sociedade está evoluindo na relação entre homens e mulheres. Algumas vezes pensamos que apenas no Brasil os homens mexem com as mulheres nas ruas de forma descarada e um tanto grosseira, mas em Everybody Wants Some!! vemos os rapazes fazendo isso desde o início – como na cena em que eles gritam “peitos” para garotas que estão em uma casa que parece só de meninas. Muitas vezes eles são grosseiros, babacas e até faltam com o respeito. Sinal de que isto não é algo só do Brasil, mas acontece em várias partes. Ou acontecia, porque me parece que a conscientização e o “empoderamento” feminino estão mudando um pouco a percepção sobre estas “invasões de privacidade”. Ou eu estou errada?

Ao conferir a filmografia de Richard Linklater eu me dei conta de algo: no Brasil o filme Everybody Wants Some!! ganhou o título de Jovens, Loucos e Mais Rebeldes. Pois bem, em 1993 o diretor lançou Dazed and Confused, um filme que foca um grupo de estudantes do ensino médio em seu último dia de aula em maio de 1976. Os personagens não são os mesmos de Everybody Wants Some!!, mas talvez os dois filmes realmente tenham os seus paralelos. Como eu não assisti (ou não lembro, pelo menos) o primeiro, pergunto aqui para quem assistiu se realmente há ligações “filosóficas” entre os dois ou não. Me parece que sim, até porque este novo filme se passa nos dias anteriores ao primeiro dia de aula e, vendo algumas fotos de Dazed and Confused, me parece que algumas situações são parecidas. Além disso, não deixa de ser interessante que os dois filmes são separados, em termos de história, por poucos anos. Curioso, no mínimo.

Richard Linklater não apenas reconstrói uma época, os anos 1980, como de forma declarada faz um filme que resgata boa parte do cinema daqueles tempos. Há muitas e muitas sequências que lembram as produções da época, como as de festas, as que mostram o grupo de jovens caminhando pelas ruas e aquela clássica conversa entre Jake e Beverly por telefone com a tela dividida pela metade e que mostra a reação simultânea dos dois enquanto conversam. Clássico, clássico dos anos 1980. Bacana. Mas apesar de tantas qualidades, é preciso dizer que este filme não passa da classificação de mediano.

Como eu disse antes, o personagem de Jake domina a cena. Ele é o protagonista. Mas além dele e dos outros personagens já citados, vale comentar outros nomes que tem uma certa relevância na história. Como Ryan Guzman, que interpreta Roper; Temple Baker que interpreta Plummer, outro “calouro” da turma; J. Quinton Johnson se destaca entre os coadjuvantes como Dale; Sophia Taylor Ali interpreta a colega de quarto de Beverly; Tanner Kalina interpreta a Brumley, outro novato; Forrest Vickery interpreta a Coma, outro veterano; Michael Monsour interpreta a Justin, um punk que foi colega de Jake antes da faculdade; e Tory Taranova faz uma ponta como Debra Kadabra. Há outros atores e atrizes em papéis menores, mas ninguém com grande destaque que merece ser mencionado.

Vivemos uma onda de “revival” dos anos 1970 e 1980, então por isso dá para entender uma certa “euforia” em relação a este filme. Os usuários do site IMDb, por exemplo, deram a nota 7,1 para esta produção, o que é uma boa avaliação se levarmos em conta o padrão do site. Os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 165 textos positivos e 24 negativos para a produção, o que lhe garante uma aprovação de 87% e uma nota média de 7,6. Especialmente os críticos gostam muito de Richard Linklater, o que pode realmente ajudar o diretor e o filme a alguma indicação ao Oscar 2017.

Para o meu gosto, o diretor merece mesmo ser acompanhado, mas Everybody Wants Some!! está muito, mas muito abaixo de Boyhood.

Além da direção e do roteiro de Richard Linklater, muito bem planejados e que correspondem exatamente ao que o diretor queria com o filme, merecem destaque nesta produção a direção de fotografia de Shane F. Kelly, os figurinos de Kari Perkins, a direção de arte de Rodney Becker e a decoração de set de Gabriella Villarreal. O trabalho deste grupo ajuda a nos transportar para os anos 1980 sem dúvidas. A trilha sonora, cuidadosamente selecionada com sucessos daquela época, também é um verdadeiro deleite. Falando em possíveis indicações ao Oscar, acho que os figurinos de Kari Perkins poderiam conseguir uma vaga. Gostei também da edição de Sandra Adair.

Posso estar exagerando, mas acho que os atores Blake Jenner e Zoey Deutch tem o carisma e a sintonia parecidos com John Travolta e Olivia Newton-John no clássico Grease. Guardadas as devidas proporções, claro – já que em Grease a história girava em torno do casal e o filme era um musical, diferente de Everybody Wants Some!!, que não tem a história centrada no casal e tem outra proposta de desenvolvimento da história. Mas os dois realmente estão ótimos e mostram muita sintonia. Fica fácil para o espectador “torcer” por eles.

Everybody Wants Some!! estreou em março deste ano no Festival de Cinema South by Southwest. Depois, o filme participou de apenas outros três festivais. Até este momento ele não foi premiado.

Esta produção teria custado US$ 10 milhões e faturado, apenas nos Estados Unidos, cerca de US$ 3,4 milhões. Ou seja, até o momento, esta produção está dando um prejuízo considerável. Não emplacou como os realizadores gostariam, certamente.

Everybody Wants Some!! foi totalmente rodado no Texas, Estado natal do diretor Richard Linklater. Entre as cidades que são mostradas na produção estão a de San Marcos (onde fica a Texas State University), Manor, Taylor, Austin, Huntsville, Bastrop, Elgin e San Antonio.

Agora, aquelas curiosidades clássicas de cada filme. O diretor Richard Linklater comentou que Everybody Wants Some!! é uma continuação de Boyhood. Curioso isso. Ele afirma que é uma continuação do filme anterior que o levou a várias indicações ao Oscar porque Everybody Wants Some!! começa exatamente onde Boyhood termina, ou seja, com um rapaz chegando na faculdade e conhecendo os seus novos companheiros e uma garota… bem, digamos que é uma forma de criativa de ver esta continuação da história, não é mesmo?

O título original desta produção, que era “That’s What I’m Talking About” é uma linha do roteiro de Dazed and Confused, de 1993. Essa expressão também aparece em diversos momentos de Everybody Wants Some!!

Faz parte da trilha sonora de Everybody Wants Some!! nomes conhecidos daquela época como The Knack, Sugarhill Gang, Cheap Trick, ZZ Top, Parliament, Brian Eno, Belle Epoque, Frank Zappa, Blondie, Kool & The Gang, Donna Summer, Pink Floyd, Queen, Van Halen, Mark Knopfler, entre outros.

Antes eu comentei sobre o final surpreendente. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Comento isso porque até a cena entre os protagonistas conversando na água, Everybody Wants Some!! parecia mais um filme sobre jovens e besteirol. Mas naquele momento temos certeza sobre algo que aprendemos na vida: nem todos os jovens são estúpidos ou só fazem/pensam besteira. Tem muita gente talentosa, apaixonada e interessante, mesmo em tenra idade. Jake surpreende naquela cena e deixa a todos, inclusive Beverly, ainda mais encantados. 😉 A juventude é bacana, tem grande potencial e grandes ideias. Ainda não ficou “paralisada” por uma série de regras e compromissos e, por isso, cada vez mais deveríamos apostar nos jovens talentos. Eles tem muito a nos ensinar.

Este é um filme 100% dos Estados Unidos. Por isso ele entra também naquela categoria que contempla as votações feitas aqui no blog – há tempos atrás vocês me pediram filmes daquele país.

No final do filme há uma sequência “extra” com boa parte do elenco fazendo um rap que passa por alguns cenários e mostra os bastidores do estúdio. A sequência está após os créditos. Nada demais, mas é um detalhe “bonitinho” para quem fica no cinema até o final.

CONCLUSÃO: Não espere nenhuma grande reflexão ou lição de vida neste filme. Com um pouco de esforço ele pode ser considerado um misto de resgate histórico e um semi-estudo antropológico de um grupo em um determinado momento da História. Mas se você quiser ter uma leitura “ligeira” da produção, ela é uma desculpa para mostrar os anos 1980 e um grupo de pessoas focadas em uma rotina de fraternidade, alta competitividade, festas sem fim e sexo. Resgate de época muito bem feito, este filme surpreende um tanto na reta final. O que nos faz pensar além da história. Boa condução de Richard Linklater, boa escolha de atores e um roteiro cheio de besteirol. Diversão que permite um pouco de reflexão também. Mas nada que dure muito tempo na memória.

Julieta

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Depois que a gente piscar, será Natal. Pois sim. Entramos na reta final de 2016 e, por isso, decidi começar a olhar para o Oscar 2017. Se vocês acham que eu estou me adiantando, saibam que logo é Natal e, na sequência, faltará pouco tempo para assistir a todos os filmes indicados à maior premiação de cinema do mundo. Então vamos começar os trabalhos. Decidi iniciar com Julieta, o mais novo filme do espanhol Pedro Almodóvar. Ele vai representar a Espanha na busca por uma vaga na categoria Melhor Filme em Língua Estrangeira. Julieta não é o melhor e nem o pior filme de Almodóvar. O diretor perdeu um pouco do esmero visto anteriormente e parece um pouco cansado.

A HISTÓRIA: Roupa vermelha que parece uma cortina. Respiração. Julieta (Emma Suárez) coloca a escultura sobre a mesa e a embrulha. Ela está preparando a mudança. Em uma gaveta, procura um envelope. Em seguida ela o joga fora. Toca o interfone. Ela deixa Lorenzo (Darío Grandinetti) subir. Ele pergunta como ela está, e Julieta diz que está confusa porque não sabe que livros ela vai levar. Ele diz que eles estão indo para Portugal e que ela pode retornar para Madri quando quiser.

Julieta responde que não gostaria de voltar para a cidade se ela puder evitar. Em uma esquina da cidade, ela se encontra com Bea (Michelle Jenner), uma grande amiga de sua filha, Antía (Blanca Parés). Bea fala de um encontro que teve com Antía no Lago Colmo. Na conversa, Julieta diz que segue em Madri e que continuará ali. Os seus planos acabam de mudar.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Julieta): Sempre gostei do Almodóvar. Primeiro, porque gosto de admirar e acompanhar diretores que passam a carreira destilando uma certa assinatura, forjando um estilo próprio. Almodóvar, a exemplo de outros diretores, é um exemplo destes. Além disso, gosto do estilo latino do diretor. Ele levou parte do espírito, dos valores e do estilo da Espanha para o mundo. Como neta de espanhóis, impossível não me interessar pelo cinema daquele país.

Dito isso, reafirmo o que eu comentei antes: Julieta não é o melhor e nem é o pior filme de Almodóvar. Esta produção não está à altura de Hable con Ella (principalmente) e Todo Sobre Mi Madre, mas também ela se revela muito, mas muito melhor que o horripilante Los Amantes Pasajeros (comentado aqui) ou do que o estranho La Piel Que Habito (com crítica neste link). Algo que me chamou a atenção neste filme, logo no início, foi o exagero de diversos elementos.

Para começar, a trilha sonora. Admito que o trabalho do veterano Alberto Iglesias me irritou um pouco desta vez. Ok que Almodóvar quis reforçar a todo momento que este filme tinha elementos de suspense, mas achei a dose exagerada demais. O que acaba jogando contra a história.

Além disso, achei o roteiro escrito por Pedro Almodóvar e inspirado em histórias curtas de Alice Munro também um bocado “over” em diversos momentos. Sim, o diretor espanhol gosta de explorar os exageros e o “drama” dos espanhóis, mas acho que desta vez ele apostou em saídas um bocado simplificadas e exageradas. O roteiro, em si, segue aquela narrativa já tradicional no cinema: começa com a história em um momento de ruptura para, depois, a protagonista, através de um diário que está escrevendo para a sua filha, nos contar o que a levou até aquela situação.

Então partimos do presente para uma longa narrativa de “volta ao passado” que conta parte da história de Julieta e de sua filha única, Antía. O melodrama mostra as suas cartas cedo, logo no início do longo flashback com o suicídio do estranho senhor que se sentou na mesma cabine que Julieta no trem. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). História um tanto forçada, um tanto estranha, como diversos outros momentos da produção – destaco, neste sentido, a primeira noite de Julieta e de Xoan (Daniel Grao), também no trem; a “hora da verdade” entre o casal antes do acidente fatal do pescador; e a reação de Antía em diversos momentos.

O filme acaba sendo bem dividido entre o momento presente de Julieta e a sua busca relativa pela “filha ausente” e o longo flashback. O ir e vir do tempo narrativo é constante, o que demonstra uma aposta confortável de Almodóvar por prender a atenção do espectador. Como é característico do diretor espanhol, ele sabe valorizar muito bem o trabalho dos atores. Para começar, Almodóvar escolhe com perfeição os seus talentos.

Desta forma é que vemos grandes trabalhos de Adriana Ugarte (Julieta na fase jovem), Emma Suárez, Inma Cuesta (que interpreta Ava, melhor amiga de Xoan e que acaba sendo uma boa amiga de Julieta no “pueblo”), Daniel Grao e Darío Grandinetti. A sempre ótima Michelle Jenner aparece pouco no filme, mas sempre que ela surge, demonstra talento e a estrela que ela tem.

Vale uma menção especial o bom trabalho de Rossy de Palma, uma antiga colaboradora do diretor. Ela é a “megera” da história mas interpreta, como ninguém, a típica mulher de “pueblo” da Espanha. Com ela, Almodóvar consegue, mais uma vez, repercutir o que a cultura de seu país tem de mais diferenciado. Além dela, possivelmente apenas Julieta e Ava, quando jovens, tem este mesmo mérito na produção. São os papéis mais legítimos, sem dúvida. Os demais tem uma certa simplificação para o gosto do grande público – não estamos nem perto da “Espanha profunda” de filmes como ¿Qué He Hecho Yo para Merecer Esto?

A verdade é que através deste filme Almodóvar parece demonstrar um pouco de “cansaço”. Ele não consegue ser tão original quanto na fase inicial da carreira e nem consegue ser tão preciso e universal como nos seus grandes filmes. Ele não está forjando cada cena e cada diálogo com esmero. Essa fase, parece, ter passado. Agora ele segue mostrando interesse pela cultura espanhola e pelos sentimentos e desejos mais profundos do ser humano, mas apresentando tudo isso de uma forma mais displicente e um tanto preguiçosa. Sinto que para ele é fundamental continuar fazendo filmes, mas que ele já não tem tanta paciência ou interesse de produzir obras-primas.

Então sim, Almodóvar segue sendo interessante. Ele cuida do visual e nos apresenta sempre uma câmera bem focada em ótimos atores, mas não temos mais o mesmo apelo visual e narrativa precisa e interessante de outrora. Em Julieta, temos uma história um tanto estranha de uma mãe que sente a ausência da filha e que a “busca” sem, na verdade, nunca ter a buscado realmente. Afinal, a história não mostra, em momento algum, Julieta indo pessoalmente atrás de Antía. Verdade que ela diz, em certo momento, que prestou queixa na polícia e contratou um investigador. Mas de fato uma mãe se contentaria com isso?

Pode até ser que sim. Mas aí quando ela sabe algo da filha, naquele encontro casual com Bea, não seria mais lógico ao invés dela ter dispensado o namorado e ter voltado para o mesmo prédio em que vivia com a filha ela ter ido no tal lago em que a amiga da filha a encontrou? Ela poderia ter se mudado para perto do lago e ir, pouco a pouco, buscado informações sobre a filha. Mas não… ela entra em um estranho processo de mergulho nas próprias lembranças e em uma crença um bocado irreal de que, depois de 12 anos sem contato com a filha, Antía entraria em contato com ela.

Também não custa voltarmos um pouco na história. Julieta diz que prestou queixa do “desaparecimento” da filha para a polícia e que contratou um detetive particular. (SPOILER – não leia… bem, você já sabe). Agora, convenhamos. É difícil de acreditar que Antía tenha desaparecido do mapa sem nunca mais voltar para pegar as suas coisas, não? Ok que ela queria romper com a mãe, mas ela realmente teria desaparecido sem ter planejado isso antes (levando parte do que ela tinha junto) ou, caso não fizesse de forma planejada, não teria retornado para pegar as suas coisas em Madri? Difícil acreditar. Além disso, mesmo que ela tivesse saído sem nada e nem voltado, certamente ela usou algum cartão de banco ou “libreta” para tirar dinheiro. Neste caso, ela poderia ter sido rastreada.

Então é difícil de engolir a “fuga perfeita” de Antía como o filme de Almodóvar quer fazer o espectador crer. As reações de Julieta após o desaparecimento da filha e os de Antía após a morte do pai também me pareceram um tanto deslocados e propositalmente exagerados pelo diretor/roteirista. Descontados estes pontos, Julieta tem alguns pontos bem interessantes de “ironia” da vida. Vejamos.

Mas importante dizer que não deixa de ser irônico dois pontos importantes da produção. (SPOILER – não leia… bem, você já sabe). Primeiro, a dificuldade de Julieta aceitar e perdoar o pai que traia a mãe dela – aparentemente com Alzheimer – antes dela morrer. Oras, a própria Julieta não ficou com Xoan antes da mulher dele, que estaria em coma há cinco anos, morrer? Desta forma Almodóvar quer expressar a sua reflexão sobre a hipocrisia das pessoas – e, consequentemente, da sociedade. Julieta age no melhor estilo “façam o que eu digo e não façam o que eu faço”.

Outra ironia importante da produção é que Antía rompe o silêncio e envia uma carta para Julieta depois que ela própria perde um filho – e quase da mesma forma com que ela perdeu Xoan, ou seja, em uma morte na água. Ao sentir na própria pele a dor da perda de um filho, ela resolve procurar a mãe. Muitas vezes alguém só se dá conta de um erro ou de um sentimento quando passa pela mesma situação. Infelizmente nós temos menos empatia do que nós deveríamos no nosso dia a dia – e especialmente quando as relações em jogo são um tanto conturbadas.

Além destes pontos fundamentais de Julieta, há outros três “secundários” e que acabam sendo interessantes também. Primeiro, a figura de Marian, a típica mulher de “pueblo” (interior) que sabe de tudo e que não se contenta em apenas saber das coisas, mas também em falar “verdades” cruéis para as pessoas quando tem uma oportunidade – sem, exatamente, medir as consequências. Depois, o filme claramente trata de paixão/amor e de culpa, dois elementos tão importantes na cultura espanhola.

A culpa é considerada uma herança da cultura com forte presença católica, mas a verdade é que ela tem pouca justificativa na religião e bastante em uma cultura que leva tempo para se libertar de seus “pecados” e da interpretação que fez deles. Mas este elemento, a culpa, é algo importante nesta história. Julieta acaba nos mostrando, como outras produções já fizeram, os efeitos daninhos que a culpa pode ter para uma pessoa e para quem está em volta. Finalmente, o terceiro elemento pincelado por Almodóvar é a homossexualidade, desta vez apresentada nas entrelinhas da relação entre Bea e Antía – e apenas semi-revelada para Julieta perto do final.

Como outros filmes de Almodóvar, Julieta tem bastante tempero e diversos elementos que fazem pensar. Pena que o diretor já não se esmere tanto nos detalhes, especialmente no visual, na história e no ritmo cadenciado do filme. Julieta tem ótimos atores, tem algumas cenas muito interessantes e alguns elementos que lembram a boa fase do diretor, mas ele carece de uma história um pouco mais verossímil e de uma carga menos melodramática e exagerada.

Talvez se não tivesse forçado a barra na trilha sonora e em alguns elementos da história, teria funcionado melhor. De qualquer forma, Julieta segue sendo Almodóvar. E o diretor, geralmente, está acima da média. Além disso, não deixa de ser interessante a escolha dele para o final. Muita gente vai ficar frustrada por não ver o reencontro. Mas acho que esta foi a forma de Almodóvar nos dizer que o importante não é a resolução de um problema, mas o caminho que fazemos até que tudo esteja resolvido. Esse final não me frustrou, ainda que eu entenda quem tenha ficado “chateado”. 😉

NOTA: 8.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: O diretor faz algumas escolhas estranhas. Por exemplo, substituir Adriana Ugarte por Emma Suárez quando Antía ainda era uma adolescente. Para mim, teria feito muito mais sentido fazer esta substituição quando Antía tinha 18 anos e resolveu fazer o seu retiro espiritual. Verdade que o corte do cabelo e outros detalhes fazem o “esforço” de apresentar uma Julieta com Emma Suárez mais “jovem” quando a filha dela tem 18 anos mas, mesmo assim, achei a escolha estranha e equivocada.

Falando em desenvolvimento de personagens, verdade que Julieta é bem desenvolvida. Dentro do que a história permite. Mas acho que faltou mostrar um pouco mais de Antía, especialmente na fase pouco anterior ao retiro espiritual. Das duas fases de Julieta, sem dúvida alguma também preferi a fase dela jovem. Acho que Adriana Ugarte nos apresenta uma personagem melhor acabada e estruturada do que na fase de Emma Suárez.

Pedro Almodóvar faz um bom trabalho na direção, ainda que ele não esteja no mesmo nível de trabalhos anteriores como Hable con Ella e Todo Sobre Mi Madre. Mas, como eu comentei antes, ele segue valorizando o trabalho dos atores, colocando a câmera sempre próxima deles mas sem se esquecer também dos cenários e das paisagens que, para ele, são tão importantes para a história quanto os diálogos e as interpretações. Neste sentido, vale destacar também o trabalho do diretor de fotografia Jean-Claude Larrieu e do editor José Salcedo.

Como é característico dos filmes de Almodóvar, vale destacar ainda os figurinos, sempre muito bem escolhidos e parte fundamental da narrativa. Em Julieta quem faz este trabalho é Sonia Grande. Belo trabalho, muito coerente com a história e cada um dos personagens. Sem dúvida alguma ajuda a construir cada um deles e a história.

O filme é bastante centrado em Julieta, como o nome da produção mesmo sugere. Além dela, tem o pequeno grupo de atores que eu já destaquei anteriormente. Eles é que tem o maior destaque na história. Mas há outros atores com papéis secundários que vale citar porque eles tem um trabalho competente, apesar de pequeno. Vale citar Pilar Castro como Claudia, a mãe de Bea; Sara Jiménez está bem como Bea na adolescência; Susi Sánchez como Sara, mãe de Julieta; Mariam Bachir como Sanáa, empregada e amante do pai de Julieta; Joaquín Notario como Samuel, pai da protagonista; Ramón Aguirre como Inocencio, o porteiro do prédio em que Julieta vai morar em duas ocasiões; Priscilla Delgado e Jimena Solano como Antía quando ela era uma adolescente e uma criança de dois anos de idade, respectivamente.

Julieta estreou em abril deste ano na Espanha. No mês seguinte o filme participou do Festival de Cinema de Cannes e, depois, de outros 16 festivais em diferentes lugares do mundo – os últimos três a partir de 7, 8 e 9 de outubro, nestes dias, são os de Nova York, Busan e Hamptons. Nesta trajetória, o filme ganhou um prêmio e foi indicado a um outro. O único prêmio que ele recebeu foi o de Melhor Diretor entregue pelo International Cinephile Society Awards.

Não sei, mas achei algumas escolhas de Almodóvar um tanto toscar. Vou citar apenas uma delas. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme ainda). Muito estranha e mal feita aquela sequência do atropelamento de Julieta. Realmente não me convenceu. Há outros momentos em que Emma Suárez também está bem inconstante. Mas aquela sequência para mim foi a mais tosca. O que apenas reforça o que eu comentei sobre Almodávar estar um pouco displicente. Paciência.

Adriana Ugarte, Michelle Jenner e Inma Cuesta. Isso que eu chamo de uma bela seleção de beldades e de aposta em jovens talentos que ajudam a rejuvenescer o cinema espanhol. Almodóvar, mais uma vez, acerta nas escolhas.

Para quem gosta de saber os locais em que um filme foi rodado, vale citar as locações de Julieta: Redes, em La Coruña (casa de Xoan); Madri; Ares e Mugardos, em La Coruña; Mairena del Alcor, em Sevilla (casa dos pais de Julieta); Panticosa, em Huesca (sequência em que Julieta dirige para o retiro da filha); Algodor, em Toledo (estação do trem); Fanlo, na Comarca de Sobrarbe, em Huesca (local “remoto” no final do filme que mostra os Pirineus). Em Madri, vale citar alguns endereços: Calle del Marqués del Riscal e Calle Monte Esquinza (encontro de Bea com Julieta), Eva Duarte Park, na Calle Dr. Gómez Ulla (quadra de basquete), Calle Fernando VI (apartamento de Julieta) e Colegio Estudio, na Calle Jimena Menéndez Pidal (escola em que Julieta dá aula quando jovem).

Interessante que Julieta, na Espanha, recebeu o nome de Silencio. De fato, este é um elemento importante nesta produção. Muitos não se comunicam e esta falta de comunicação é fundamental para a história. Tanto que, e percebemos isso aos poucos, Julieta realmente não conhece a própria filha. Sem dúvida isso foi algo importante para explicar tudo o que aconteceu. O silêncio é bom, mas nas relações ele não ajuda muito.

Este é o 20º filme de Almodóvar. Grande diretor. Apesar dos deslizes, merece totalmente o nosso respeito e admiração.

O roteiro de Julieta foi escrito por Almodóvar tendo como material original que o inspirou as histórias Destino, Pronto e Silencio da escritora Alice Munro e que fizeram parte de uma coleção que ela lançou em 2004.

Todas as esculturas que no filme aparecem como sendo de Ava são, na verdade, do artista Miquel Navarro.

Uma curiosidade que vai além do filme – ainda que tenha relação com a divulgação dele: Pedro Almodóvar cancelou todas as entrevistas e a estreia oficial desta produção em Madri por causa da divulgação do Panama Papers. O nome do diretor e do seu irmão, Pedro Almodóvar, apareceram neste material sobre paraísos fiscais e empresas offshore.

O roteiro original do filme foi escrito em inglês e a ideia era rodar a história no Canadá. Mas Almodóvar não se sentiu cômodo, no final, em gravar uma produção em um idioma que ele realmente não dominava e em país em que ele não estava familiarizado. Por isso ele resolveu fazer o filme em espanhol e em seu país de origem. Acho que foi uma boa escolha, porque apesar dos probleminhas do roteiro, o filme convence por se passar na Espanha.

Os usuários do site IMDb deram a nota 7,2 para Julieta, enquanto que os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 55 críticas positivas e 17 negativas para a produção, o que lhe garante uma aprovação de 76% e uma nota média de 7,6. Especialmente as notas dos dois sites chamam a atenção. Elas são muito boas se levarmos em conta o padrão de ambos.

Esta é uma produção 100% da Espanha.

 

CONCLUSÃO: Pedro Almodóvar é um destes diretores com assinatura. Sobre isso, não há dúvida alguma. Mas já vimos filmes melhores dele. Com Julieta o diretor espanhol mostra que perdeu um pouco do rigor no estilo narrativo e também na força do roteiro. Ele cai algumas vezes no exagero e em saídas cômodas para os problemas da história, mas segue valorizando o trabalho dos atores e a reflexão sobre questões importantes para os indivíduos. Mais uma vez é um prazer ver Madri e um pouco da cultura espanhola, ainda que a apresentação não seja tão interessante como já foi um dia. De qualquer forma, é um bom filme, apesar de seus exageros e pontos difíceis de acreditar.

PALPITES PARA O OSCAR 2017: Como eu comentei lá no início, Julieta foi escolhido pela Espanha para representar o país no Oscar 2017. Com ele eu começo a ver filmes que estão cotados para diferentes categorias da maior premiação de Hollywood. Ainda que eu respeito Almodóvar e a sua filmografia, francamente eu não vejo Julieta com qualquer chance de chegar na lista dos cinco indicados a Melhor Filme em Língua Estrangeira. Ele não tem qualidade para tanto. Só chegaria lá se estivéssemos em um ano com uma safra fraquíssima, o que eu acho difícil de ser o caso. Então, honestamente, eu não apostaria nele para chegar até perto de uma estatueta.

Our Kind of Traitor – Nosso Fiel Traidor

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Um filme de espionagem clássico. Até demais. Our Kind of Traitor resgata alguns dos elementos básicos de filmes de espionagem mas cuida para inserir alguns elementos novos. Para começar, saímos da esfera do jogo de poder entre governos para cair no jogo de poder financeiro que envolve mafiosos, bancos usados para lavagem de dinheiro e políticos. Como em outros filmes do gênero, um “homem comum” acaba ganhando protagonismo no jogo que envolve gente graúda. Um filme bem feito, com um elenco escolhido à dedo, mas que carece de um certo “tempero”.

A HISTÓRIA: Começa com um artista em movimento no ar. Em paralelo, dois amigos, Misha (Radivoje Bukvic) e Dima (Stellan Skarsgard) se encontram e se cumprimentam. No teatro em que o artista se apresenta, a esposa de Misha, Olga (Dolya Gavanski), e a filha mais velha dele, Anna (Mariya Fomina), assistem à apresentação artística. Misha assina documentos para O Príncipe (Grigoriy Dobrygin). A história é ambientada em Moscou. O Príncipe entrega para Misha uma arma que herdou do pai e conta uma história sobre ela.

Misha agradece ao presente e vai embora. Na estrada, Misha e a família param em um local em que um caminhão recolhe toras de madeira. Todos são mortos. Corta para Marraquech. Em um quarto, o casal Perry (Ewan McGregor) e Gail (Naomie Harris) aproveita a viagem romântica, mas há tensão no ar. Depois, antes de terminarem de jantar, Gail sai para trabalhar e deixa Perry sozinho. Observando a cena, Dima chama Perry para beber com ele e os amigos. Dima aproveita esta rara chance de conhecer alguém diferente de seu meio para se aproximar de Perry e depois pedir a ajuda dele.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso só recomendo que continue a assistir quem já viu a Our Kind of Traitor): Esta produção segue à risca o estilo do escritor John le Carré, um dos mestres em tramas de espionagem. Para começar, o filme dirigido por Susanna White é ambientado em diversos países, começando por Moscou, seguindo para Marraquech, depois por Londres, Paris e o interior da França. Além dos personagens, nas tramas de Carré sempre são importantes os países e a geopolítica.

Os diferentes países incluídos neste filme ajudam a torná-lo mais “internacional” e interessante para quem gosta de “viajar” na história. O desenvolvimento de personagens feito pelo roteiro de Hossein Amini baseado na obra de John le Carré tem os seus acertos, mas sem dúvida alguma ele não chega perto de um livro do autor. Normal. No cinema realmente não há muito espaço para desenvolver a história de diversos personagens. E ainda que Our Kind of Traitor tenha um pequeno núcleo de personagens principais – a história gira, essencialmente, ao redor do casal Perry e Gail e da família de Dima, além de Hector, do Serviço Secreto Inglês -, ele tem um grupo respeitável de coadjuvantes.

Estes coadjuvantes, no entanto, não tem as suas histórias e relações bem desenvolvidas, explicadas ou resolvidas. São muitos personagens secundários para tratar em tão pouco tempo. Assim sendo, ficamos sabendo um pouco mais sobre o momento delicado da relação de Perry e Gail e um pouco do estilo de Dima, e isso é praticamente tudo. Os personagens melhor desenvolvidos, sem dúvida, são o de Perry e Dima, e isso ajuda a explicar a relação dos personagens que, de outra forma, pareceria muito forçada.

Aliás, ajuda muito a fazer o espectador “engolir” a trama de Our Kind of Traitor o talento dos atores Ewan McGregor e Stellan Skarsgard. Especialmente o segundo é, geralmente, brilhante. Em algumas cenas-chave o espectador percebe que os dois, apesar de terem origem em realidades muito diferentes, tem alguns elementos em comum – ou pelo menos é isso que o personagem de Dima quer nos fazer acredita. Ambos, por exemplo, tem honra e defendem as mulheres independente do risco que isso pode significar para eles.

Aparentemente Perry é um sujeito que “se deixa levar”. Afinal, ele nunca tinha visto Dima pela frente e logo de cara aceita não apenas tomar um drinque com ele, mas acompanha-lo em uma festa e, depois, em uma partida de tênis. Eles se aproximam muito rapidamente e de forma um tanto “forçada” – se ignorarmos o talento dos atores e olharmos apenas para as situações, certamente parece um bocado exagerada a aproximação tão rápida dos dois. Perry se revela não apenas um sujeito que “se deixa levar” mas, também, uma pessoa crédula e de bom coração.

Ele é facilmente convencido por Dima não apenas a embarcar em seus convites, mas também a levar para ele uma mensagem para o Serviço Secreto Britânico. Dá para entender a estratégia dele. Como Dima mesmo diz, ele tem poucas oportunidades de ter contato com alguém que não seja controlado pelo Príncipe e por sua máfia russa. Se ele quer fugir disso, só lhe resta uma figura como Perry, crente, bom coração, ético e suscetível a embarcar em um pedido de ajuda desesperado.

Normalmente um sujeito como Perry compartilharia com a mulher o que está acontecendo. Uma rápida cena no início do filme e depois uma outra em que fica claro que os dois vivem uma situação complicada por causa de uma traição de Perry ajudam a explicar o porquê do professor universitário deixar a esposa “no escuro” durante a fase inicial do filme. Só assim para ele embarcar no pedido de Dima. Mas a partir da chegada deles no Reino Unido isso muda e Gail passa a fazer parte da trama – o que é algo interessante, porque dificilmente a mulher do “mocinho” é envolvida na história e tem um papel tão relevante.

Esta pode ser considerada uma “inovação” deste filme. O fato do mocinho ser um sujeito comum, por outro lado, não é exatamente nova. Afinal, em uma das obras-primas do grande Alfred Hitchcock, North by Northwest, de 1959, um sujeito comum também acaba sendo envolvido em uma intricada história de espionagem. A diferença é que Our Kind of Traitor não tem a direção de Hitchcock, com eletrizantes cenas de ação que marcaram uma época, e nem mesmo um gigante como Cary Grant como protagonista. O nível dos filmes é muito, mas muito diferente – veja o clássico de Hitchcock caso você ainda não tenha feito isso.

Então ter um “sujeito comum” como protagonista de uma intricada trama internacional de espionagem não é novidade. O que Carré e Amini tentam apresentar de novo é que o conflito, desta vez, não está exatamente entre espiões russos e americanos, ou do governo que for, mas entre mafiosos que se juntaram ao governo russo e que tentam controlar políticos de outro país – desta vez do Reino Unido – através de compra de votos para abrir um banco próprio para a lavagem de dinheiro. Ou seja, não é a questão política que domina o jogo desta vez, mas a questão econômica. Todos sabemos que o dinheiro reina no mundo e que a política perdeu força nas discussões, “corações e mentes” das pessoas, por isso não deixa de ser interessante ver esta mudança de direção em um filme do gênero.

No mais, a narrativa de Our Kind of Traitor é um bocado previsível. Ela segue uma linha lógica do início ao fim e com um ritmo até interessante e adequado. Mas o problema da história é justamente a previsibilidade dela. Não existe, como é indicado para um bom filme de ação e/ou espionagem, uma boa reviravolta na trama. Não. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). A única “surpresa” da trama, que é a explosão do helicóptero, era uma bola cantada desde que vemos o sujeito mexendo nas engrenagens da aeronave e que Dima decide embarcar sozinho.

Então, infelizmente, apesar de Susanna White fazer um bom trabalho na direção, este filme não tem o desejado elemento surpresa. A trama é interessante, mas nada inovadora ou surpreendente. Tudo que esperamos acontece, e ninguém que parecia uma coisa é outra. Todos são o que eles se apresentam e fim. Se a história não surpreende, ao menos temos um bom grupo de atores para ver em cena. Neste sentido, além dos protagonistas já citados, vale destacar o bom trabalho de Damian Lewis, sempre lembrado por Homeland, como um agente importante do MI6 chamado Hector. Ele está muito bem no papel, assim como o seu parceiro Luke. Filme bem feito, mas que poderia ser melhor. Há outros exemplares do gênero melhores para serem conferidos. Vale procurar outras opções.

NOTA: 8.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Esta produção tem muitas qualidades técnicas. Susanna White apostou em uma direção clássica, que busca o equilíbrio entre o foco nas atuações dos atores, valorizando o trabalho dos protagonistas, e a aposta em cenas de ação e que mostram as cidades em que a história se desenvolve. Nada demais, mas um trabalho competente. Da parte técnica, contudo, destaco a ótima trilha sonora de Marcelo Zarvos e a edição de Tariq Anwar e Lucia Zucchetti. Bom o trabalho também do diretor de fotografia Anthony Dod Mantle.

Do elenco, destaque realmente para o ótimo trabalho de Stellan Skarsgard, seguido do trabalho competente de Ewan McGregor e de Damian Lewis. Eles são os destaques principais. Tem um trabalho bom, ainda que um pouco atrás dos citados anteriormente, Naomie Harris e Khalid Abdalla. Além deles, o filme tem um elenco respeitável de coadjuvantes.

Vou citar alguns deles – os que eu não liste até o momento: Carlos Acosta como o bailarino que abre a produção; Velibor Topic como Emilio Del Oro, braço direito do Príncipe; Pawel Szajda como o Matador de Olhos Azuis; Alec Utgoff como Niki e Marek Oravec como Andrei, dois russos da máfia que acompanham Dima; Jana Perez como Maria, que atrai Perry na festa; Emily Beacock como Irina e Rosanna Beacock como Katya, as irmãs gêmeas e órfãs de Misha; Saskia Reeves como Tamara, esposa de Dima; Mark Stanley como Ollie; Mark Gatiss como Billy Matlock, chefe de Hector; Alicia von Rittberg como Natasha, filha de Dima; e Jeremy Northam em um papel estranho e bem secundário como o congressista Aubrey Longrigg.

Our Kind of Traitor estreou em maio no Festival Internacional de Cinema de San Francisco. A produção participou de outros dois festivais nos Estados Unidos: o de Seattle e o de Provincetown. E isso foi tudo. Ela não recebeu nenhum prêmio até o momento.

A explicação sobre o racha na máfia russa e o perigo envolvendo Dima e família foi resumido a apenas uma cena. Achei pouco. Certamente havia uma situação bem mais complexa no original mas que acaba muito diluída e superficial nesta produção.

Esta produção conseguiu, apenas nas bilheterias dos Estados Unidos, pouco mais de US$ 3,15 milhões. Nos outros mercados em que o filme já estreou ele fez outros US$ 6,7 milhões. Um bom resultado – ainda que não sabemos quanto o filme custou para, só assim, descobrir se ele está no azul e no lucro ou não.

Para quem gosta de saber sobre os locais de gravação dos filmes, Our Kind of Traitor foi rodado em diferentes locações de Marrakech, no Marrocos; de Paris, na França; de Moscou, na Rússia; de Londres, no Reino Unido; de Pralognan-la-Vanoise, na França (as cenas na neve); de Bern, na Suíça; da Filândia e nos Alpes Franceses. Pela lista considerável de locais em que a produção passou, certamente este foi um filme caro de ser feito.

Os usuários do site IMDb deram a nota 6,2 para esta produção. Uma avaliação razoável se levarmos em consideração o padrão do site. Os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 77 textos positivos e 32 negativos para a produção, o que lhe garante uma aprovação de 71% e uma nota média 6. Bastante justo.

Este filme é uma coprodução do Reino Unido e da França.

CONCLUSÃO: Para quem gosta de filmes de espionagem e não assistiu a mais do que um punhado deles até agora, este pode ser um bom exemplar. Para quem tem mais “experiência” em filmes do gênero, Our Kind of Traitor é “mais do mesmo”. Apesar de bem feito e de se esforçar em renovar um gênero já conhecido e um tanto desgastado, este filme carece de ao menos uma boa reviravolta na história ou de algum outro elemento surpreendente. Não há inovação nesta produção, seja em estilo, seja em roteiro. Temos apenas um tipo de espionagem requentada e um pouco modificada para os dias atuais, mas sem nenhuma grande surpresa na trama. Filme morno. Se tiveres uma opção melhor para assistir, talvez seja uma boa apostar nesta outra alternativa.

Human – Humano: Uma Viagem pela Vida

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Pense em um filme perfeito. Irretocável. Inesquecível. Um compêndio de histórias, olhares, sentimentos. Um documento sobre a complexidade e a diversidade do ser humano e todas as suas formas de impactar o mundo. Esse filme existe. O nome dele é Human. Para mim, se não é o melhor filme que eu já vi na vida, certamente está na pequena lista dos melhores. Para quem gosta de cinema, de pessoas e da vida, ele é inevitável. Imprescindível. Se você, como eu, ama esta complexidade e variedade da humanidade, tudo que nos faz “humanos, demasiado humanos”, este filme é fundamental. Altamente recomendado.

A HISTÓRIA: Vários rostos focados em close. Homens e mulheres, adultos, jovens, negros, brancos, com diferentes cores de cabelo e de olhos, distintos traços nos rostos, indumentárias diversificadas. Uma música vigorosa os acompanha, assim como a nossa visão atenta. No final da sequência, uma garota fecha os olhos. A cena seguinte é a de um deserto sendo percorrido por uma caravana de pessoas e animais.

Em seguida, ouvimos a primeira história, ao primeiro depoimento. De um homem que cresceu apanhando do padrasto e que aprendeu que a violência era sinônimo de amor. Mas ele foi conhecer o significado deste sentimento muito tempo depois, após fazer mal para muitas pessoas e ao receber esse amor de alguém totalmente imprevisto. A partir deste depoimento, mergulhamos em diferentes histórias, sentimentos e visões da vida e do mundo, conhecendo interpretações sobre a felicidade, a pobreza e a riqueza, o amor e o sentido da vida, entre outras definições.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Human): Só tenho um pequeno desabafo para fazer a você que chegou neste blog e nesta crítica: tenho uma grande sorte de ter encontrado pela frente Human. Grande, grande sorte. Esse filme é um presente para qualquer pessoa que goste de ouvir histórias, pontos de vista diferentes, realidades distintas. Para qualquer um que ame a Humanidade e tudo que ela tem de bom e de ruim, de maravilhoso e de abissal. Um deleite para quem gosta de ter outras perspectivas e ver o quadro “mais amplo”. Um filme impagável e inestimável.

Sim, meu caro leitor e leitora, se acostumem a uma enxurrada de elogios. Não tem como eu falar de Human sem rasgar todas as sedas possíveis para esta produção. O que fez com que eu gostasse tanto deste filme? Bem, para início de conversa, ele tem uma proposta muito clara e que é realizada com maestria. O diretor francês Yann Arthus-Bertrand quer nos contar histórias de pessoas de diferentes culturas e realidades e mostrar cenas de manifestação humana em contato com a Natureza.

Este é um contraponto constante de Human que eu achei muito interessante: estamos sempre partindo do individual, das histórias contadas por diferentes pessoas frente a uma câmera (como se elas estivessem falando conosco, com o público), para o coletivo, em cenas que mostram grupos humanos interagindo com o entorno.

É como se a vida fosse sempre isso, um permanente diálogo entre o individual e o coletivo. E as imagens escolhidas por Arthus-Bertrand são incríveis. Todas as vezes que saímos dos depoimentos e caímos nas cenas de locais diferentes que reproduzem costumes humanos distintos temos seleções incríveis de imagens quase sempre acompanhadas por uma trilha minuciosamente pinçada em várias partes do globo. A trilha sonora, magistral, leva a assinatura de Armand Amar.

O filme tem, desta forma, um equilíbrio muito interessante entre conteúdo de qualidade e diversificado, espalhado nos diferentes depoimentos pessoais de humanos retratados na produção, e conteúdo de uma plasticidade fantástica. Esta beleza está presente tanto na valorização das pessoas, colocadas sempre à frente de um fundo negro e neutro, quanto nas cenas de coletivos humanos que tem significado e beleza e que também ajudam a contar um pouco mais sobre diferentes culturas formadas por humanos e suas crenças e tradições mundo afora.

Amei esse filme porque ele não apenas entrega com muita propriedade o que ele promete, mas especialmente porque ele trata do que eu acho mais interessante no mundo: pessoas. Sei que muitos estão desgostosos com a Humanidade e preferem os bichos e os animais do que o ser humano. Mas eu não faço parte deste grupo. Não acho que toda vez que uma crueldade ou ato desumano é praticado por alguém signifique que falimos enquanto espécie. Acho sim que cada um de nós é composto do mesmo material e temos uma grande potencialidade, seja para o bem, seja para o mal.

Human ajuda a mostrar um pouco disso. O filme começa com uma história difícil, mas ela é apenas uma de várias outras que mostram a dor humana e atos absurdos que podem ou não ser perdoados. Com pessoas de diferentes nacionalidades, culturas e idiomas, conhecemos percepções sobre felicidade, morte, guerra, vingança, perdão, seguir em frente, amor, casa, matrimônio, solidão, ser mulher, ser gay, família, imigração, liberdade, aprendizado, e o sentido da vida.

Algumas histórias são mais longas, enquanto outros depoimentos são basicamente desabafos. Não existe uma regra sobre duração de cada fala, e nem preocupação em dar nome para as pessoas ou identificar de que país ou cultura elas fazem parte. Achei essa uma escolha interessante do diretor, porque algumas vezes as pessoas estão muito preocupadas em colocar os outros em certas caixas, etiquetas, e é interessante ouvir histórias por elas mesmas, escutar a sinceridade das pessoas independente de geografia ou etiquetas.

Claro que é possível identificar algumas nacionalidades pelo jeito que as pessoas falam – especialmente os representantes de países da América Latina e do Brasil. Mas essa identificação acaba não mudando o que é mais importante aqui: ouvir as histórias com desprendimento. Como sempre me interessei por pessoas e por suas histórias, este filme apresenta um material diversificado e muito interessante, revelando muitas das nossas capacidades e um pouco da diversidade de realidades que temos no mundo.

É fundamental ouvir tantas histórias de pessoas que tem algo a nos dizer, algo a nos ensinar ou fazer pensar, até para que tenhamos uma perspectiva mais ampla da vida. Algumas vezes focamos demais nos problemas que estão à nossa volta. Claro que não podemos ignorá-los, até porque devemos sempre buscar uma realidade melhor e que tenha, em especial, mais oportunidade para todos e menos desigualdades.

É importante buscarmos um Brasil melhor. Não tenho dúvidas sobre isso. Mas é bom lembrarmos que temos a sorte de vivermos em um país sem guerras ou conflitos. Um dos temas fortes deste filme é o da desigualdade. Ela é horrível, cruel, e deve ser combatida. Mas pior que essa desigualdade de condições e de oportunidades, algo que temos no Brasil, são as situações de guerra e conflito mundo afora. Algumas vezes esquecemos destas realidades, mas este filme nos lembra muito bem do que acontece com pessoas inocentes quando temos um cenário deste. É importante não esquecermos disso.

Pouco a pouco as pessoas que aparecem na nossa frente vão nos fazendo mergulhar em suas histórias e em tudo aquilo que elas acham importante nos contar. Apenas uma pessoa totalmente insensível pode não desenvolver um pouco de seu altruísmo e de sua empatia ao ver Human. Tantas histórias, olhares, sorrisos e choros… como não se colocar na narrativa de tantas daquelas pessoas? Como não ter vontade de se lançar no mundo procurando diminuir um pouco a dor e a desigualdade que existe por aí? Seja quando as pessoas falam sobre felicidade, seja quando falam de outros sentimentos, somos convidados a pensar que algumas vezes o que nos sobra e é simples falta para outras pessoas. A felicidade é algo simples, mas tão difícil de ser alcançada por algumas pessoas…

Antes de assistir a este filme eu já tinha a convicção que a vida só tem sentido quando convivemos com as outras pessoas e compartilhamos com elas o que aprendemos, o que somos. Quando não olhamos para as nossas diferenças, mas para o que nos une e tentamos, cada um contribuindo a sua maneira, fazer a vida ser valorizada e compartilhada. Mas com Human isso se tornou ainda mais claro. Todas as pessoas merecem viver e ter oportunidades de se realizarem, seja no contexto que for.

O diretor Yann Arthus-Bertrand mostra grande sensibilidade ao retratar tantas pessoas e tantas realidades diferentes. Impressiona não apenas do que o ser humano é capaz, seja para o bem, seja para o mal, mas também o efeito que nós temos no mundo no mesmo sentido. Estamos presentes nos lugares mais inóspitos, cultivamos e produzimos em distintas latitudes, mas também ocupamos um espaço que não é nosso e sem o respeito devido.

De forma muito inteligente o diretor vai construindo a sua narrativa sobre a “ocupação humana”, saindo de locais sem a presença humana – como na revoada dos pássaros -, passando por locais com pouca presença de pessoas e chegando até uma grande metrópole. É incrível. Interessante também como ele vai construindo a narrativa com pessoas de diferentes idades (as crianças, muito vezes, são as mais complicadas de ouvir) e realidades, com percepções várias vezes contrastantes sobre diversos temas. Fundamental.

Como comentei no Facebook, Human eu considero o filme da minha vida. Não tenho a complexidade e nem a sabedoria desta coletânea de percepções humanas. Não é por isso. Mas este filme caiu como uma luva para mim tanto pela minha visão de mundo quanto pelo meu momento de maturidade atual. Acho o ser humano maravilhoso, cheio de potencial e de beleza, mas lamento sempre que este mesmo ser humano se perde em seu propósito e causa morte, dor, destruição. Ver um filme que trate da Humanidade com tanta honestidade e franqueza é algo fantástico. Só tenho a agradecer ao realizador. Human é um grande presente.

NOTA: 10.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Vou confidenciar algo para vocês: estou já de olho no Oscar 2017. Fiz uma primeira lista de filmes com potencial para chegar à premiação mais conhecida do cinema mundial e vou, pouco a pouco, assistindo a estas produções. Human não faz parte desta lista mas, honestamente, eu gostaria de que fizesse. Assisti a Human porque ele vai estrear nos cinemas brasileiros na primeira semana de outubro. Como estou de férias no jornal em que eu trabalho e na semana passada eu fiquei fora, sem publicar nada por aqui, e em breve ficarei mais uma semana fora, estou privilegiando os filmes que achei interessantes e que estão chegando aos cinemas. Human foi um caso destes.

Agora, por que eu comentei que Human não faz parte da minha pré-lista do Oscar 2017 mas que eu gostaria que fizesse? Observando quando esta produção estreou nos cinemas, vi que ela estreou na França em setembro de 2015. Não vi ela estreando nos Estados Unidos… então tenho sincera dúvida se o filme poderia estrear lá ainda e ser habilitado para concorrer a uma vaga como Melhor Documentário no Oscar 2017. O critério da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood é observar a data de estreia de um filme no mercado norte-americano. Então, não sei se será o caso de Human, mas eu adoraria ver o filme concorrendo ao Oscar. Nem precisa ganhar, mas ele ser indicado a uma estatueta e, com isso, ganhar outra projeção para o público, já me faria feliz.

Falando em trajetória de Human, após estrear nos cinemas franceses, o filme participou em setembro de 2015 do Festival de Cinema de Veneza. Depois, o filme participaria, ainda, de outros oito festivais de cinema. Nesta trajetória o filme ganhou um prêmio e foi indicado a outros quatro. O único prêmio que ele recebeu foi o de Melhor Documentário no Festival Internacional de Cinema de Beijing.

Para mim, Human merecia uma nota até maior que 10. Se este não fosse o meu limite, eu daria mais, com certeza. Tipo 100. 😉 Mas apesar do filme ser perfeito, sob a minha ótica (e para o meu gosto, é evidente), tenho que fazer duas pequenas observações sobre a produção. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Primeiro que eu gostaria até que o filme tivesse quatro horas de duração ou algo do gênero para eu ouvir a todos os depoimentos. Achei interessante e fiquei curiosa – e talvez essa seja a intenção do diretor – em ver apenas os rostos de várias pessoas e não conhecer as suas histórias ou percepções. Gostaria de ouvir a todos. Outro ponto que eu queria comentar é que senti falta de mais asiáticos na produção. Achei que poucos deles foram retratados. Gostaria de ter ouvido a mais deles.

Foi inevitável não ficar curiosa sobre a trajetória de Yann Arthus-Bertrand. Afinal, este é o primeiro filme que eu vejo do diretor, e fiquei muito impactada com o que ele nos apresentou. Achei Human simplesmente incrível. Procurando mais sobre o diretor, soube que ele nasceu em Paris em 1946. Ou seja, ele completou em março de 2016 os seus 70 anos de idade. Ele tem nove trabalhos como diretor, tendo iniciado a sua trajetória com o documentário para a TV Vu Du Ciel há 20 anos. Toda a trajetória dele é com filmes grandiosos de documentário. Interessante.

Além do diretor e do responsável pela trilha sonora de Human, temos poucos nomes na lista de profissionais envolvidos com o projeto. Vale destacar também o excelente trabalho dos editores Françoise Bernard e Anne-Marie Sangla e o departamento de câmera e elétrico que conta com nomes como Alexandre Westphal e Baptiste Rouget-Luchaire (operadores de câmera), Marine Ottogalli (assistente de câmera), Bruno Cusa (gerente de fotografia aérea), Stéphane Azouze e Léonard Rollin.

Procurei saber um pouco mais sobre Human. No site oficial da produção, encontrei um depoimento muito esclarecedor do diretor Yann Arthus-Bertrand: “Eu sou um homem entre sete bilhões de outros. Nos últimos 40 anos, eu estive fotografando o nosso planeta e a diversidade humana, e eu senti que a humanidade não está fazendo nenhum progresso. Nem sempre nós conseguimos viver juntos. E por que isso acontece? Eu não procurei nenhuma resposta em estatísticas ou análises, mas no próprio homem”.

O diretor mesmo comenta que este filme não é algo aleatório, mas um compêndio de escolhas com engajamento político. Não percebemos isso claramente enquanto assistimos ao filme, ainda que exista uma percepção de preocupação social muito grande enquanto assistimos a produção. Mas ao saber que ele tinha esta proposta, certamente outras leituras de Human podem ser feitas.

Agora, algumas curiosidades e números sobre Human. O filme foi rodado em 60 países (incrível!) durante pouco mais de dois anos (incluindo a finalização, o projeto levou três anos para ser feito) e ouviu nada menos que 2.020 pessoas que foram entrevistadas da forma que nós vemos, olhando diretamente para a câmera. Estas pessoas falam nada menos que 63 idiomas diferentes entre si. Independente do país, da cultura, da idade ou da religião das pessoas, os realizadores fizeram algumas perguntas sobre a condição humana.

Antes de Human, Arthus-Bertrand havia lançado Home, um filme que foi visto por 600 milhões de pessoas e 7 Billion Others, produção assistida por 350 milhões de pessoas.

Segundo o material de divulgação de Human, esta produção tem três vozes: a das pessoas (através dos depoimentos), a da Terra (através das imagens que mostram o efeito do homem no mundo) e a da música. O projeto de Human acabou resultando em 11 produtos. Interessante isso. Primeiro, o filme para o cinema, com 191 minutos de duração. Depois, uma outra versão para o cinema (essa que eu assisti) com 143 minutos de duração. Há ainda uma versão para a TV com 131 minutos.

O trabalho resultou ainda em On the Trail of Human, composto por três documentários com 52 minutos cada um e que mostra as intenções do projeto (o título de cada um dos documentários é o seguinte: The Two Faces of Mankind, At the Crossroads of Two Worlds, e Life: A Search for Meaning); no documentário The Stories of Human, com 80 minutos de duração e longos depoimentos; The Human Adventure: The Making Of com 52 minutos; Human: The Music, com 52 minutos, e que conta como foi feita a composição da trilha sonora de Human; e Human, três filmes com 90 minutos disponíveis gratuitamente no YouTube e que mostra depoimentos e como o filme foi feito. Esse material no YouTube pode ser acessado através deste link.

Fez parte da equipe que permitiu que este filme fosse realizado 16 jornalistas, 20 operadores de câmera, cinco editores e 12 equipes de produção. Agora, ao saber que este projeto é muito maior do que eu imaginava – não se trata de um filme, mas de um trabalho bem mais amplo – tenho o desafio de ver a todo esse projeto. Um bom desafio. 😉

Importante citar que Human só foi realizado graças a duas fundações: a Bettencourt Schueller Foundation e a Goodplanet Foundation.

Esta é uma produção 100% da França.

Os usuários do site IMDb deram a nota 8,7 para esta produção. Uma avaliação muito boa, muito positiva se levarmos em consideração a média de notas do site. Achei bacana e muito justo. Realmente este é um grande, grande filme. O site Rotten Tomatoes tem apenas uma crítica sobre o filme, e ela é positiva. Isso demonstra como um filme que não chegou ainda nos Estados Unidos tem pouca repercussão neste site que é uma das referências de crítica de cinema no mundo. Uma pena, porque muitos filmes acabam não entrando no radar do site.

CONCLUSÃO: Honestamente, acho que esta indicação de Human aqui no blog é a mais importante desde que eu comecei este projeto, este espaço. Todos deveriam assistir a este documentário. Sem pré-julgamentos e tentando estar o máximo possível abertos a entender o próximo – que é justamente a pessoa que estamos vendo na nossa frente na telona. Cada um que aparece, não importa em que país tenha nascido, qual a cor de sua pele, o seu sexo, o seu idioma, a sua história, é feito do mesmo material que eu e você.

Todos tem um começo, um meio e terão um fim. Tudo que nos é humano, não nos deveria ser estranho. E este filme nos apresenta um caleidoscópio importante, que fomenta compreensão, compaixão e múltiplos olhares e reflexões. Perfeito e imprescindível, como eu comentei antes. Simplesmente assista. Desarmado(a) e, preferencialmente, com olhar generoso. Garanto que você não vai se arrepender.