Hesher

Um filme rock and roll. Não apenas na trilha sonora, mas no roteiro e na levada. Hesher parte da perda de uma família e da aproximação estranha de um sujeito hardcore na vida de um órfão para tratar sobre questões existencialistas. Vida, morte, família e comprometimento aparecem  na mira do diretor e roteirista Spencer Susser. Uma produção com algumas surpresas e um bocado de irreverência, como o rock mesmo. Interessante, ainda que não deverá agradar a todos os gostos porque não inventa ou surpreende como poderia fazer.

A HISTÓRIA: Um garoto com o braço esquerdo enfaixado anda de bicicleta acelerado. Ele persegue um reboque com um carro vermelho batido. No caminho, sofre um pequeno acidente, mas não desiste de perseguir o automóvel. No ferro-velho ele entra no carro rebocado, até que é retirado de lá. Para T.J. (Devin Brochu), aquele não é um simples carro que ocupava espaço na frente da casa da família. O veículo guarda as últimas lembranças dele da mãe. Mas pouco a pouco ele aprende que deve superar o luto e voltar à rotina. Mas tudo está diferente, e fica cada vez mais fora do comum quando Hesher (Joseph Gordon-Levitt) e Nicole (Natalie Portman) entram na vida do garoto.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Hesher): Cheio de altos e baixos, Hesher é uma produção alternativa. A essência do filme é o rock, o som pesado e toda a cultura que o cerca. Especialmente a vocação de romper com a tradição, com os lugares comuns. Isso tudo é verdade. Mas ainda que Hesher surpreenda, em alguns momentos, especialmente ao tratar com bastante frieza um garoto que perdeu a mãe há pouco tempo, ele também se mostra um bocado previsível.

As surpresas do filme duram a primeira hora. Depois, nos acostumamos com o jeito sempre no limite do personagem que dá nome à produção, e tudo que começa a acontecer se torna esperado. Claro que a produção vale pela curiosidade, por apostar em uma fórmula que escapa da maioria das produções de Hollywood, muito preocupadas com o politicamente correto. Hesher não é nada politicamente correto.

Primeiro, porque não maquia os efeitos da perda de uma pessoa fundamental na vida de uma família. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Quando a mãe de T.J. morre, isso não abala apenas a vida do garoto. Termina com o ânimo do pai dele, Paul Forney (Rainn Wilson), que cai em depressão. O clima fica cada vez mais tenso na família, e a doente avó do garoto, Madeleine (Piper Laurie) se esforça para tentar manter a unidade familiar, sem muito sucesso.

De forma bastante peculiar, o roteiro do diretor Spencer Susser, escrito juntamente com David Michôd, baseado em uma história de Brian Charles Frank, questiona as saídas mais usuais para o luto. (SPOILER – não leia… bem, você já sabe). Primeiro, o tempo sozinho não ajuda o desolado viúvo Paul. Nem mesmo a responsabilidade dele com a mãe idosa ou o filho que ficou órfão. Depois, quando ele busca um grupo de apoio, as conversas de apoio também parecem sem efeito. A apatia do chefe de família chega a tal ponto que ele aceita um completo desconhecido em casa. Não reage a seus abusos.

Hesher, por sua vez, encontra naquele ambiente desolado o local ideal para passar um tempo seguro. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Nômade sem família, capaz de jogar uma bomba em um carro de uma patrulha de segurança e de intimidar quem desafiar as suas vontades, Hesher mexe com o cotidiano daquela família destroçada. Torna alguns dias de T.J. desafiantes, ensina para o garoto os piores exemplos – como de que é legítimo queimar o carro de um desafeto – e se mostra o único capaz de enxergar e ouvir a cansada avó Madeleine. O grande problema do filme, contudo, é que fora o politicamente incorreto no linguajar – fazia tempo que eu não via uma produção com tantos palavrões e linguagem chula – e nas atitudes do protagonista, sobra pouca surpresa na história. Aliás, surpresa alguma. Um espectador um pouco mais “rodado” (ou seja, que já tenha assistido há um bocado de filmes antes) vai saber o que esperar da história até o final. Sem contar que os personagens são bastante rasos, com atitudes lineares, quase esquemáticos.

Claro que é importante diretores como Spencer Susser destilarem o seu estilo por aí. Para mostrar que ainda existe espaço para uma certa ousadia no estilo de fazer cinema. Só que falta a Hesher um pouco mais de inovação no conteúdo, especialmente na construção dos personagens. De qualquer forma, a produção dá espaço para Joseph Gordon-Levitt se destacar. Enquanto o restante dos autores faz apenas um trabalho mediano. Natalie Portman mesmo… a personagem dela é morna e a atuação, consequentemente, sem destaque algum. Dispensável. Mas como a atriz é produtora do filme, explica-se o seu envolvimento no projeto – certamente ela não foi atraída pela personagem, que é ruim.

No mais, Hesher dá uma lição – ainda que de forma bastante torta – para o pai e o filho que protagonizam esta história, sobre a importância de quebrar algumas regras e de viver o amor e a gratidão pelas pessoas que mais prezamos, que fazem a nossa vida ter sentido. De preferência, devemos fazer isso enquanto elas estão com o coração pulsando. Mas mesmo quando esta fase já passou, nunca é demais prestar a homenagem devida. O final é uma tacada certa do diretor. Pena que o recheio nem sempre acompanhe essa “boa sacada”.

NOTA: 7.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Esse é o primeiro longa dirigido por Spencer Susser. De 1999 até agora, fora Hesher, ele havia dirigido apenas curtas e alguns vídeos – como o videoclipe de Want You Bad, do The Offspring.

Em termos de bilheteria, Hesher foi um pequeno desastre. Mesmo não tendo custado nenhuma fortuna, para os padrões de Hollywood – aproximadamente US$ 7 milhões -, Hesher faturou pouco mais de US$ 382,9 mil nas bilheterias dos Estados Unidos. Um desempenho ridículo – apesar de nomes conhecidos no elenco.

Mesmo tendo algumas falhas graves no roteiro, como personagens fracos e diálogos engraçados de tão nonsenses, assim como saídas bem melodramáticas perto do final, é preciso dizer que Hesher tem algumas sequências muito bem filmadas. A melhor delas é a inicial, com a perseguição de bicicleta que T.J. faz ao carro da família.

Antes que alguém me pergunte como eu fui capaz de dar uma nota 7 para um filme tão fraquinho, devo dizer que a principal motivação desta nota são as palmas que eu bato para a ousadia de Hesher. Mesmo sendo um filme fraco e que pode ser classificado como “ruinzinho” sem nenhum medo de injustiça, devo dizer que temos aqui uma produção corajosa. Pelo menos ao tratar sem pudor algumas relações familiares e problemas caseiros pouco mostrados por outros filmes. Não apenas a depressão que não termina de um pai de família engessado pelo luto e pela culpa, mas também as relações de poder entre os diferentes membros desta família, a forma underground de algumas figuras encararem a vida e a sociedade e, claro, a dureza que pode acompanhar um garoto que só parece se ferrar. Em vários momentos eu pensei se a vida de T.J. não iria melhorar nunca. E, aparentemente, pouco vai melhorar na história do garoto, que continuará órfão e tudo o mais. A diferença, do início do filme para o final, é que T.J. aprendeu algumas lições valiosas – e terá, novamente, um pai desperto ao seu lado. De qualquer forma, gostei da veia rockeira desta produção. Há pouco espaço para filmes como esse no mercado.

Hesher estreou no Festival de Sundance, o reduto para filmes alternativos, em janeiro de 2010. Depois, o filme passou por outros dois festivais: os da Philadelphia e da Flórida. Nenhum relevante – fora o de Sundance, é claro. Neste caminho, ele foi indicado apenas ao grande prêmio do júri em Sundance, onde perdeu a disputa para Winter’s Bone. Não há nenhuma dúvida que o filme dirigido por Debra Granik mereceu mais o prêmio que Hesher.

Da parte técnica do filme, vale citar a ótima trilha sonora de Frank Tetaz, a direção de fotografia bem balanceada de Morgan Susser e a edição competente que o diretor Spencer Susser faz ao lado de Michael McCusker.

Os usuários do site IMDb deram uma nota muito boa para Hesher: 7,2. Eis uma avaliação muito positiva, levando em conta a média do site. Os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes foram menos generosos. Publicaram 38 críticas positivas e 31 negativas para a produção, o que lhe garantiu uma aprovação de 55% – e uma nota média de 5,7.

CONCLUSÃO: Protagonizado por um sujeito totalmente fora dos padrões, Hesher é um filme com boas sacadas, alguma diversão e um bocado de tempo gasto com redundância. O esforço de ser politicamente incorreto é interessante, ainda que chegue a ser previsível e cansativo em alguns momentos. Com uma grande atuação de Joseph Gordon-Levitt e uma trilha sonora bem interessante, Hesher mostra como, algumas vezes, o melhor tratamento para um luto é mesmo o choque elétrico. Que mais cedo ou mais tarde temos que aprender a lidar com a perda e, através dela, saber valorizar ainda mais o que temos de precioso ao nosso redor, que é o amor e a gratidão pelas pessoas que nos ajudaram e nos ajudam a sermos quem somos. De uma forma nada usual, Hesher trata, desta maneira, sobre a importância da família, do amor e de encontrarmos o nosso próprio caminho. No início e no final, esta produção acerta a mão. Mas na maior parte do tempo, perde força com personagens superficiais, perseguições e represálias bobas. A essência do rock está ali, em cada minuto. Mas ela algumas vezes é desperdiçada. Um passatempo curioso, mas que pode desagradar aos que buscam “algo mais” no meio de tanto som pesado e palavrões. Porque Hesher não quer explicar muita coisa, apenas mostrar que a vida pode ser vivida intensamente, dentro ou fora dos padrões.

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