Last Night – Apenas Uma Noite

Resista. O início de Last Night parece uma discussão de relacionamento (a famosa DR) interminável. Mas passados aqueles 20 minutos iniciais, o filme começa a esquentar. E se você tem algum interesse pela velha discussão do que, afinal, é a fidelidade ou a infidelidade, eis um filme interessante a este respeito. Há algumas sequências deliciosas, e os atores estão bem sintonizados no texto e em suas interpretações. Vale uma conferida – mas com uma boa dose de paciência.

A HISTÓRIA: Joanna (Keira Knightley) e Michael Reed (Sam Worthington) voltam para casa, de táxi, olhando, cada um, para um lado. Eles não se falam. Desta cena, do final da noite, voltamos para o início de tudo, quando o casal preparava-se para sair de casa. Atrasados, eles se falam como um casal que vive a rotina. Mas chegando a uma festa, Joanna fica incomodada com a relação entre o marido e sua nova colega, Laura (Eva Mendes). Em uma crise de ciúmes, ela pressiona o marido, até que ele confessa estar atraído pela colega. Joanna dorme na sala mas, na madrugada, Michael se aproxima, faz comida para eles e a paz parece voltar a vigorar. No dia seguinte, Michael viaja à trabalho, e Joanna encontra, de forma inesperada, uma antiga paixão, Alex Mann (Guillaume Canet). A partir daí, o casal vai viver muitas provações.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso só recomendo que continue a ler quem já assistiu a Last Night): O que me chamou a atenção neste filme, logo no início, foi a sua dinâmica diferenciada. O tempo é fundamental, para entender a dinâmica da história, mas só vamos entendê-lo aos poucos. Não é difícil perceber que a cena inicial, do casal de protagonistas olhando para lugares opostos no táxi, marca o final daquela noite, e que depois voltamos para o seu início. Mas não é desse tempo a que me refiro.

O tempo importante para Last Night está naquele que marca as diferentes relações. Há quanto tempo Joanna e Michael estão casados? (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Há quanto tempo Joanna não encontra a Alex, e quando eles tiveram uma relação? Há quanto tempo Laura trabalha com Michael? Quando Joanna começou a ter bloqueio criativo? Quando Michael começou a achar o próprio cotidiano como algo sem muitos atrativos?

Porque quando alguém está tentado a pular a cerca, a trair, isso não acontece assim, sem mais. Com isso não quero dizer que toda traição é justificada. Não é isso. Sempre podemos escolher, entre fazer ou não. Last Night explora muito isso. Porque tentações sempre existem. Mas ceder a elas é uma questão de escolha. Este filme mostra bem os perigos do flerte, de dar corda, de “deixar rolar”. Quanto mais se deixa a corda solta, mais fácil é para alguém ser enforcado com a própria brincadeira.

Mas o que eu falava antes é que isso não acontece do dia para a noite. Seja a rotina, sejam os desentendimentos, ou a leitura equivocada da pessoa com quem estamos junto, há vários elementos que podem levar alguém a jogar com outra pessoa. Flertar é algo maravilhoso, não há dúvida. Mas casar é uma escolha. E quando se decide por algo, se abre mão de outras possibilidades. Como quando alguém escolhe um emprego, e não outro. Vai ter que abraçar a essa decisão e crescer profissionalmente antes de pensar em pular de galho. Do contrário, a chance é grande de ser visto como um(a) inconstante.

E ninguém gosta de pessoas que vivem pulando de galho. Seja na profissão, seja na vida pessoal. Alguma constância é preciso ter. O problema reside que tudo flui, inclusive as pessoas. E quem você era há algum tempo atrás, já não é mesma pessoa que você é agora. E como lidar com isso? Daí entra outra questão interessante levantada por Last Night: é possível realmente conhecer a uma pessoa? Inclusive nós mesmos?

Acho que estamos permanentemente tentando nos conhecer, entender. Ou deveríamos, pelo menos. Esse exercício é fundamental. Até para saber o que escolher, quando uma nova escolha tiver que ser feita. E a vida é feita delas. De portas abertas, de janelas fechadas, e vice-versa. (SPOILER – não leia… bem, você já sabe). Então achei de suprema ironia e elegância o momento em que “lemos” o bilhete de Joanna. Ela diz que conhece o marido. Mesmo? Não, claro que não. Assim como Michael não conhece a Joanna. Na verdade, ninguém conhece a ninguém.

O máximo que podemos querer, nesta vida, é roçar a parte do conhecimento da personalidade das pessoas que amamos, e das quais somos mais próximas. Fora isso, conhecermos o máximo possível a nós mesmos – mas, dificilmente, na totalidade. Por essas e tantas outras que, mais do que nós sabemos, é importante termos em mente tudo o que desconhecemos. Até para que a pressão por respostas e resultados não seja tão pesada, e injusta.

Last Night, devido ao ótimo roteiro e direção de Massy Tadjedin, acaba sendo isso. Muito mais do que as aventuras de um dia e noite de “folga” de um casal. Não importa tanto o que Joanna e Michael resolveram fazer naquela bendita noite de liberdade. Importa muito mais o que virá depois daquilo. O que cada um decidirá aceitar ou negar sobre o outro e, especialmente, sobre os próprios sentimentos. Quem disse que filmes sobre relacionamentos, flertes e traições precisa ser raso? Last Night está aí para provar que é possível fazer algo além do óbvio.

Os únicos problemas do filme são aquele início, que é ruim, porque nunca é fácil começar a assistir a um filme com uma grande DR e uma crise de ciúme de uma mulher insegura; e a falta de química entre os protagonistas. Keira Knightley e Sam Worthington são lindos, estão bem em seus papéis, mas não tem sintonia – talvez até isso seja proposital. Para a satisfação de todos nós, isso muda completamente, em relação à Keira, quando aparece em cena o encantador Guillaume Canet. Ele salva o filme, muitas e muitas vezes.

O mesmo – ainda que sem tanta química ou carisma – pode se dizer de Eva Mendes. Analisando apenas pelo corpo, não há dúvidas que Michael tem razões para estar tentado. Há um abismo separando a silhueta de Eva e de Keira – com vantagem para a primeira, é claro. Os quatro atores estão muito bem em seus papéis, com um destaque gritante para o desempenho de Keira e Guillaume, a partir do momento que eles começam a dividir a cena.

Agora, sobre a polêmica que talvez se crie sobre quem traiu ou deixou de trair, neste filme. (SPOILER – não leia… bem, você já sabe). Pela visão dos homens, tanto Joanna quanto Michael traíram – ainda que de forma diferente. Para as mulheres, que acreditam que existe diferença entre “consumação carnal” ou não, talvez apenas Michael tenha traído a Joanna. Francamente, acho que estar em uma relação gostando daquela pessoa e, ao mesmo tempo, de outra, é uma forma de traição. Que é o que acontece. Mas será possível, um dia, gostar de apenas uma pessoa? Exclusivamente, e pra sempre? Se isso é impossível, também é impossível ser fiel. Cada um tem a sua própria história pessoal para servir como exemplo – e não, não existe uma única e certeira resposta.

NOTA: 8,7.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Last Night marca a estreia na direção da iraniana Massy Tadjedin. Antes de escrever e dirigir a esta história, ela havia escrito o roteiro e produzido ao filme Leo, de 2002, e escrito o roteiro de The Jacket, de 2005. Eis um nome que talvez seja interessante acompanhar.

Além dos atores principais, vale citar o trabalho dos coadjuvantes Griffin Dunne, como Truman, amigo de Alex e curioso de plantão; e Daniel Eric Gold como Andy, que trabalha com Michael.

Ótima a direção de Tadjedin. Atenta aos detalhes das cenas, focando objetos e as expressões dos atores quando elas poderiam ser o diferencial de cada momento. Um olhar cuidadoso, típico de uma mulher, para os detalhes. Para que o resultado seja bom, contribuiu muito para ele o trabalho do diretor de fotografia Peter Deming.

Bastante pontual e “classuda” a trilha sonora de Clint Mansell, bastante baseada no uso do piano.

Last Night estreou em setembro de 2010 no Festival de Toronto. Depois, ele participou de outros sete festivais, entre eles o de São Paulo, em outubro de 2011. Nesta trajetória, ele foi indicado a um prêmio, mas não levou nada para casa.

Não há informações sobre o quanto Last Night teria custado. Mas o filme, que estreou em apenas seis salas de cinema dos Estados Unidos no dia 15 de maio de 2011, conseguiu quase US$ 100 mil nas bilheterias daquele país até junho do mesmo ano – sim, mil e não milhões. No restante do mercado internacional, contudo, Last Night teria conseguido pouco mais de US$ 7,6 milhões. Pouco.

Uma curiosidade: como a história sugere, Last Night foi totalmente rodada na cidade de Nova York.

Antes falei da importância do tempo para esta história. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Pouco a pouco, vamos conhecendo a história de Joanna, Michael e Alex. Ela e Michael namoram desde o tempo da faculdade. Se casaram três anos antes da noite em que acompanhamos. Joanna e Alex conheceram-se há quatro anos, e encontraram-se, pela última vez, dois anos antes. Joanna decidiu apostar na história com Michael, e tudo indica que teve um relacionamento com Alex quando ela tinha se desentendido com Michael. Mesmo mais “mexida” por Alex, ela preferiu apostar na segurança do relacionamento com Michael, voltando para ele e casando com o namorado de tempo de faculdade. Então, na prática, ela não traiu o marido desde que resolveu ficar com ele. Só a dúvida se fez a escolha certa é que perdurou. Isso acontece. Mais do que gostaríamos.

Ah sim, e aquela DR inicial, com a Keira Knightley em mais uma atuação irritante – ainda bem que, depois, para a nossa sorte a personagem dela embarca em uma versão mais “leve” -, só reforçou uma teoria que existe e na qual eu acredito cada vez mais: que toda pessoa ciumenta tem os seus “pitis” porque, no fundo, está traindo, já traiu ou está pensando em trair. Normalmente estas pessoas não tem elementos concretos para desconfiar. Mas projetam na outra pessoa do casal a culpa que ela mesma está sentindo – o famoso espelhismo. Em The Night, mais um caso destes.

E a Keira Knightley parece se dar muito melhor em papéis leves. Porque neste filme e no anterior que eu vi dela, A Dangerous Method, ela chega a irritar com o exagero da interpretação dos “momentos difíceis” de suas personagens. Agora, neste filme, quando entra em ação Alex, ela se solta, explora a própria beleza, charme e carisma e daí tudo muda de figura. Aliás, ela e Guillaume Canet passam a ser os nomes do filme a partir do encontro dos dois em cena.

Os usuários do site IMDb deram a nota 6,5 para Last Night. Não é uma nota ruim, levando em conta o padrão do site. Mas os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes foram mais duros com esta produção, dedicando 30 críticas negativas e 29 positivas para o filme, o que lhe garante uma aprovação de 49% e uma nota média de 5,3.

CONCLUSÃO: Provocante e cheio de insinuações, Last Night tem gente bonita e cheia de tentações na mira. Os flertes e as conquistas permeiam toda a história. Mas Last Night é um filme verbal, diferente de Shame, que explora a alta sexualidade visualmente. O início chega a cansar, dar sono, mas vencida aquela primeira parte, a mais chata, a história vai ganhando outros contornos mais interessantes. No final, o que é trair, ou ser fiel? Aparentemente a mentira ou, pelo menos, a dissimulação parece fazer parte de qualquer casamento. Esse filme explora bem isso. Assim como esta incapacidade nossa de realmente conhecer a alguém – afinal, conhecer a nós mesmos, em plenitude, já é uma tarefa complicada, quanto mais acreditar que conhecemos a outra pessoa. E esse conhecimento é fundamental. Ou a aceitação da ignorância. Por incrível que pareça, Last Night roça nestas questões. E de forma eficaz, sem discursos – exceto aquele inicial -, mas com muito flerte.

The Conspirator – Conspiração Americana

Uma nação forte pode ser consolidada sobre uma mentira? A justiça pode ser massacrada em momentos de conflito com a justificativa de que isso será feito para um “bem maior”? Robert Redford segue a sua jornada em busca de uma visão crítica dos Estados Unidos ao retomar uma história pouco conhecida de seu país neste The Conspirator. O filme mistura crime, drama, política e conflitos de tribunal. É uma história interessante, curiosa, e que ajuda a fazer uma revisão histórica das origens dos EUA.

A HISTÓRIA: Soldados mortos, caídos no chão. Um sobrevivente daquele campo de batalhas conta para um outro sobre a história de dois homens que chegaram às portas do Paraíso. O capitão Frederick Aiken (James McAvoy) está ferido, mas tenta distrair o amigo Nicholas Baker (Justin Long), que está tendo convulsões. Quando o socorro chega, Frederick ordena que Nicholas seja levado primeiro. Dois anos depois, no dia 14 de abril de 1865, os amigos estão juntos para comemorar a vitória dos estados do Norte dos Estados Unidos na Guerra Civil Americana. William Hamilton (James Badge Dale) questiona se o grupo não está comemorando antes do tempo, mas Nicholas afirma que o general Lee rendeu-se ao general Grant, e que isso deveria ser comemorado. Naquela noite, no Teatro Ford, o presidente Abraham Lincoln (Gerald Bestrom) sofreria um atentado. Mais tarde, Frederick, que é advogado, seria chamado pelo senador Johnson (Tom Wilkinson) a defender uma das acusadas pela conspiração contra o presidente, a dona de um albergue Mary Surratt (Robin Wright).

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a The Conspirator): Robert Redford é conhecido pelo olhar crítico. Ele não apenas fez alguns filmes com esta levada, como também criou um festival – o Sundance – para fomentar olhares múltiplos sobre a realidade dos Estados Unidos e de outros países. Tentando fugir um pouco das “cartas marcadas” de Hollywood.

Em The Conspirator o diretor narra, junto com os roteiristas, um episódio pouco conhecido da história dos Estados Unidos. Ele mostra como as leis, constituições e valores defendidos por um país podem ser modificados e deturpados dependendo da interpretação de quem está no comando.

Situações de guerra e conflito são diferentes daquelas vividas em um ambiente de paz, é verdade. Mas The Conspirator sugere – e c0m razão – que estes argumentos não são suficientes para legitimar injustiças. (SPOILER – não leia se você ainda não assistiu ao filme). A mensagem mais bacana do filme, além de uma revisão histórica rara, é de que o caso de uma mulher, apenas, pode ser suficiente para que mudanças importantes aconteçam. Algumas vezes alguns justos precisam ser sacrificados para que paradigmas equivocados que foram estabelecidos sejam modificados.

The Conspirator acerta no início, ao ir direto ao que interessava. Mas não deixa de ser um pouco curioso o corte seco que Redford faz do campo de batalha para a noite do atentado ao presidente dos EUA. (SPOILER – não leia… bem você já sabe). Parece que ele não quer perder tempo com o conflito. Talvez para não dar pano pra manga. Para que não haja espaço para justificar o absurdo que vamos assistir, que é o julgamento forjado de uma mulher que, efetivamente, não contribuiu para o assassinato do presidente.

Normalmente, Redford é mais cuidado no contexto histórico. Isso é algo em que The Conspirator falha. O roteiro de James D. Solomon, inspirado em uma história escrita por ele e por Gregory Bernstein, ignora o clima tenso e de divisão entre o Norte e o Sul dos Estados Unidos. Sabemos que há um conflito, que o Norte está ganhando e que há insatisfeitos no Sul, mas a insatisfação ou o apoio das ruas para Lincoln, por exemplo, não é mostrado neste filme.

A história gasta mais tempo no desinteressante relacionamento do protagonista com Sarah Weston (Alexis Bledel) do que mostrando o ambiente que cercava aquela decisão judicial. Ok, entendo que os roteiristas queriam mostrar todas as “pressões” e oportunidades que Frederick poderia perder ao insistir em defender Mary Surratt, mas a escolha deste foco não ajuda o filme. Pelo contrário, acaba tornando ele mais raso do que ele poderia ser.

O espectador também fica um pouco confuso sobre o atentado ao presidente e tem dificuldade de identificar os seus culpados. Eles aparecem apenas no momento da ação e, depois, não tem as suas histórias contextualizadas. O “vilão” principal, por exemplo, o ator responsável por atirar em Lincoln, John Wilkes Booth (Toby Kebbell) aparece poucas vezes e, normalmente, de forma tão obscura que até fica difícil identificá-lo depois, quando ele está sendo perseguido.

O mesmo acontece com os outros acusados pela conspiração, David Herold (Marcus Hester), Lewis Payne (Norman Reedus), George Atzerodt (John Michael Weatherly), Michael O’Laughlen, Edman Spangler (James Kirk Sparks), Samuel Mudd e Samuel Arnold (Jeremy Tuttle). Não percebemos qual foi a participação deles nos crimes porque tudo acontece muito rápido, e sem explicar a origem do plano ou o desenvolvimento dele. Algo que não ajuda o filme.

Claro que um bom embate de tribunal é sempre interessante. O duelo entre Frederick, que acaba assumindo o caso quando o senador percebe que será pior se ele continuar defendendo a dona da pensão, e o promotor Joseph Holt (Danny Huston) tem alguns bons momentos, mas o melhor deles – e que realmente vale todo aquele jogo de cena – só acontece na argumentação final. Até lá, o filme parece um pouco arrastado.

A ideia de resgatar um episódio importante para os Estados Unidos e pouco conhecido tem o seu mérito. Assim como os cuidados com a reprodução daquela época, tanto nos figurinos como na direção de arte e tudo o mais. Mas o problema de The Conspirator é que ele fica mais no discurso morno do que na ação ou no drama que provoquem o espectador, que façam ele reagir à história que está assistindo.

O resultado é que ficamos perplexos em saber que os Estados Unidos, que orgulha-se tanto de sua Constituição e da preservação dos direitos dos cidadãos, começou a sua história como nação unida contradizendo tudo isso. Mas isso é tudo. E essa perplexidade ganha força na parte final do filme. Antes, há confusão, um repasse rápido da conspiração que não ajuda a contar a história, e muitas sequências de tribunal – e seus bastidores.

Um elemento que deveria ajudar na tensão do filme é a de Frederick estar “dividido”. Afinal, ele é um herói de guerra, que defendia, justamente, aquela ideia de nação perfeita, mas também um advogado que é chamado a honrar o juramento que fez. Aos poucos, e ao defender Mary Surratt, ele percebe o que todos nós aprendemos com o passar dos anos: que a vida não é tão preto & branco como imaginávamos quando éramos crianças, ou adolescentes.

Ele percebe, isso sim, que há muitos nuances de cinza. E que há graus decisórios que estão além do nosso alcance. Ainda assim, não devemos desistir. E mesmo que tudo mostre que a derrota é inevitável, é preciso continuar defendendo os valores que nos ensinaram e que são justos, corretos.

Por isso, e pelo resgate histórico de um episódio pouco conhecido, é que dedico a nota abaixo. Como filme, The Conspirator mereceria uma avaliação mais baixa. Mas pelas intenções dele… sejamos um pouco “generosos”. Sempre vale assistir a um diretor e seu trabalho feitos para provocar reflexão nas pessoas. Este é um caso destes.

NOTA: 7,8.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Os atores estão bem, mas nenhum deles merece uma reverência. Algumas vezes, James McAvoy parece um pouco deslocado, assim como Justin Long. Kevin Kline, figura importante no filme e para a história, porque ele interpreta ao secretário de guerra Edwin Stanton, aparece pouco, e parece sempre estar desconfortável. Desempenho abaixo do desejável, para resumir. Robin Wright tem uma interpretação linear, conseguindo destacar-se da média geral apenas algumas vezes. Outros que estão bem são Evan Rachel Wood, que interpreta a Anna Surratt, filha de Mary; Tom Wilkinson, acima da média; e o veterano John Cullum como o juiz Wylie, em uma superponta.

A produção de The Conspirator é uma das maiores qualidades do filme. Um ótimo trabalho de pesquisa de figurinos de Louise Frogley, da direção de arte de Mark Garner e do design de produção de Kalina Ivanov. Ajuda a “climatizar” a história a direção de fotografia “terral” que dá a impressão de “envelhecida” de Newton Thomas Sigel. Um estilo previsível, é verdade, mas, ainda assim, eficaz.

O veterano Mark Isham faz mais um bom trabalho na trilha sonora, que segue uma linha clássica, reforçando o drama e alguns momentos de “suspense”. Mas o melhor do filme, em termos de música, está reservado para os créditos finais: Empty, canção de Ray Lamontagne. Bela escolha. E, para mim, uma bela descoberta. O refrão dela resume bastante do que Redford quer expressar com este filme: “Will I always feel this way/ so empty, so estranged”. Aqui, um vídeo com a canção.

Segundo este texto, a Guerra da Secessão, como ficou conhecida a guerra civil entre “nortistas e sulistas” nos Estados Unidos entre 1861 e 1865, teria provocado pelo menos 600 mil mortes. Um número impressionante – especialmente para um conflito civil do século 19. Ainda de acordo com o texto, esta teria sido a primeira guerra moderna da história, na qual foram utilizados fuzis de repetição e trincheiras, recursos que marcariam, depois, a Primeira Guerra Mundial.

Quem tem interesse de saber mais sobre o episódio contra Lincoln, este é um texto interessante para começar a pesquisa. Curto, direto e com algumas curiosidades. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Lincoln foi o primeiro presidente dos EUA morto enquanto exercia a sua função como maior mandatário do país. Depois dele, seriam assassinados os presidentes James Garfield (por Charles Guiteau, em 1881), William McKinley (por Leon Czolgosz, em 1901) e John Kennedy (por Lee Harvey Oswald, em 1963).

Vale dar uma conferida nesta página da Veja com informações e fotos históricas da Guerra Civil Americana. E neste link, um resumo sobre alguns personagens importantes daquele momento histórico.

The Conspirator estreou em setembro de 2010 no Festival de Toronto. Depois, o filme passou por outros cinco festivais. Nesta trajetória, foi indicado a dois prêmios, mas não levou nenhum deles para casa.

O filme foi mal nas bilheterias. Para uma produção que custou cerca de US$ 25 milhões, faturar pouco mais de US$ 11,5 milhões nos Estados Unidos é muito pouco. Redford fracassou, desta vez, apesar das boas intenções.

E uma curiosidade sobre esta produção: ela é a primeira da The American Film Company. A produtora foi criada com o objetivo de viabilizar filmes que façam um resgate crítico do passado dos Estados Unidos. Agora, outro detalhe histórico (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme): Mary Suratt foi a primeira mulher da história a ser executada pelo governo dos EUA.

Os usuários do site IMDb deram a nota 6,9 para The Conspirator. Uma boa avaliação, levando em conta o histórico do site. Mas os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes não gostaram tanto da produção. Eles dedicaram 92 críticas positivas e 73 negativas para The Conspirator, o que lhe garante uma aprovação de 56% e uma nota média de 6,1.

CONCLUSÃO: Algo que o cinema dos Estados Unidos tem, como qualidade, é a coragem de focar episódios polêmicos de sua história sem puritanismo. O diretor Robert Redford contribui para a saudável revisão histórica do cinemão de seu país com este The Conspirator. Faz um filme bem dirigido e narrado, mas The Conspirator perde um pouco de força conforme avança porque as dúvidas sobre a protagonista não duram muito tempo. Logo o público sabe o que está acontecendo, e a tensão resume-se apenas à disputa de tribunal. E daí surge o segundo problema: fica evidente, e muito cedo, qual será o resultado daquela queda de braços com cartas marcadas. O resgate histórico crítico é bacana, mas faltou alimentar um pouco mais de dúvidas e tensão durante a história. Um bom filme, ainda que pouco vigoroso. Mas que vai agradar aos que gostam de saber um pouco mais sobre episódios históricos pouco conhecidos.