The Girl in the Book – A Garota do Livro

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Há histórias que são necessárias, mas que aliviam tanto a sua “mão” que, no final, você fica pensando qual foi o propósito, afinal, de seus autores. The Girl in the Book é, para mim, um destes exemplos. O filme trata de um tema importantíssimo, vital em qualquer sociedade – e curiosamente importante no Brasil nesta semana, quando um caso de estupro coletivo abalou a sociedade. Só que qual, no fim das contas, acaba sendo o debate levantado por este filme? Ele é contundente ou interessante na medida certa? Enfim, uma longa discussão.

A HISTÓRIA: Alice Harvey (Emily VanCamp) acorda ao lado de um homem na cama. Ela não parece satisfeita. Sem acordar ele, Alice sai do quarto. Na sequência, vai para o trabalho direto usando o metrô. Ela cumprimenta a colega e vai direto para o banheiro, onde coloca uma calcinha nova e tenta disfarçar o fato de não ter tomado banho ou dormido em casa. Alice é a secretária de Jack Morgan (Jordan Lage), um editor que, na sequência, pede para ela atualizá-lo sobre a sua agenda. No fim da reunião, ele comenta que ela vai trabalhar na divulgação do relançamento de Waking Eyes, livro de Milan Daneker (Michael Nyqvist) que traz à tona um capítulo marcante da vida da garota. Acompanhamos o trabalho dela neste projeto e os efeitos que isso tem em sua vida atual.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a The Girl in the Book): Eu fiquei bem em dúvida se deveria assistir a este filme. Francamente, inicialmente, ele não me chamou a atenção. Minha motivação inicial era partir para outra produção, mas como este filme estreou esta semana no Brasil e reparei que a crítica tinha sido relativamente positiva – mais no Rotten Tomatoes que no IMDb -, pensei: “Por que não?”. Nestas horas eu deveria ter respeitado a minha intuição inicial que não me atraia muito para conferir esta produção.

Honestamente? Serei franca logo no início: achei esse filme muito, muito fraco. E, em certo sentido, até um pouco perigoso. Ou, para dizer de outra forma, com algumas ideias equivocadas sob a minha ótica. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Afinal, sobre o que The Girl in the Book trata? Sobre o abuso e/ou violência sexual sofrido por uma adolescente por um sujeito que ela admirava, em quem ela acreditava e tinha certa estima. E o pior: um sujeito que utiliza a garota apenas para se dar bem, em todos os sentidos.

Primeiro ele faz de conta que está ajudando a garota a escrever melhor para, na verdade, absorver tudo que ele pode sobre a vida dela e seu entorno e utilizar estas informações em sua nova obra. Aliás, a única obra na qual ele realmente teve sucesso na vida – mas isso vamos saber na parte “contemporânea” deste filme. Mas não termina aí a canalhice do sujeito. Além dele utilizar a filha do casal que o ajudou a aparecer como escritor como matéria-prima para a sua obra, ele aproveita qualquer brecha que tem para abusar sexualmente da garota.

E o que acontece com esse canalha? Bem, o filme vai mostrando isso aos poucos. Mas logo no início da produção, que segue aquela velha fórmula de nos mostrar “os dias atuais” da trama para, depois, volta e meia, nos mergulhar em flash backs sequenciais, percebemos que ele está muito bem, obrigada. Ao menos está livre, leve e solto e prestes a relançar novamente o seu best-seller Waking Eyes. Contrastando com esta situação de aparente tranquilidade temos a rotina de Alice Harvey, a vítima dele, que vive uma rotina permanente de busca de sentido, de vivenciar algo que seja real. Claramente ela sofre na virada dos 29 para os 30 anos de idade ainda os reflexos do abuso de 15 anos atrás.

Por esse lado o filme é interessante. Afinal, mostra o que acontece com a maioria dos abusadores da “vida real”. Os canalhas muitas vezes não são denunciados e, quando o são, acabam desmentindo tudo e a vítima é penalizada mais uma vez ao ninguém acredita nela. Certo que o escritor estivesse com uma vida “normal” depois de todo o estrago que provocou e que a vítima dele é quem sofresse continuamente pelo abuso de tempos atrás, mas o que me incomodou não foi apenas isso.

A forma com que o roteiro da diretora Marya Cohn é construído parece simplesmente “aceitar” a realidade como ela se apresenta. Ou seja, não apenas o abusador construiu uma relação de confiança com a adolescente e depois quebrou esta relação ao violentá-la, como também ninguém no entorno dela pareceu se preocupar o suficientemente com o que lhe aconteceu desde a adolescência e, o mais grave, quando a protagonista enfrenta as suas próprias cicatrizes, tudo fica como antes. A cura não acontece sem dor e sem redenção. Sem perdão ou castigo. Pelo menos é assim que eu vejo as coisas. Então será mesmo que Alice poderia simplesmente “superar” tudo com um novo amor?

Hummm… os psicólogos poderiam ajudar nesta resposta. Da minha parte, não acredito muito nisso. Primeiro, acho que Alice poderia ter encontrado a cura abrindo o coração, procurando ajuda de um profissional para tratar de toda aquela quebra de confiança e abuso que ela sofreu na adolescência. Depois, caso ela não tivesse buscado a ajuda de um profissional, acredito que ela poderia ter conseguido isso de outras duas formas: com o apoio de amigos/familiares e através da escrita ou enfrentando o próprio algoz.

O destino quis que ela trabalhasse a favor dele como funcionária do editor Jack. Ora, fica bem subentendido no filme que ela conseguiu aquele emprego por interferência/influência do pai dela (Michael Cristofer), que acabou tornando Milan Daneker famoso. Agora, quem no lugar dela teria aceito uma situação como aquela? Francamente, eu jamais teria trabalhado a favor do cara que ferrou a minha vida.

No fundo, em diversos momentos, parece que Alice confessa ter virado refém de Milan durante todos esses anos – não apenas por não encarar nenhum relacionamento sério, ter necessidade de ser sempre “desejada” pelos homens e buscar satisfação no sexo casual – mas, também, quando confessa que lei a última biografia de Milan e seguiu lendo o livro que ele escreveu “se apropriando” (para usar um termo que a própria protagonista utiliza) da vida dela.

O triste da história é que ninguém próximo dela a conheceu o suficiente – pelo menos é isso o que filme sugere – para lhe dizer o quanto estes comportamentos eram autodestrutivos e de que ela precisava de ajuda. Não. A garota parece ter sido sempre abandonada a própria sorte. O pai dela era outro cretino, destes homens que são incapazes de escutar o desejo da outra pessoa em momento algum – são bastante ilustrativos os momentos nos restaurantes – e que não pensa duas vezes em trocar de mulher.

A mãe da protagonista aparece pouquíssimo, mas em um momento decisivo – quando a filha conta para ela que sofreu abuso – ela pisa na bola de maneira fundamental, deixando de acreditar na filha e aceitando rapidamente a justificativa do “amigo escritor” que ela tinha descoberto. É verdade que muito disso acontece na vida real, que as meninas não são escutadas pelos próprios pais e não tem em casa exatamente bons exemplos, mas nem foi isso que me incomodou no filme.

O que de fato achei ruim é a forma com que The Girl in the Book trata a relação entre o escritor e a jovem que ele abusou. Enquanto os flash backs vão apresentando a parte da quebra de confiança e do abuso sofrido pela adolescente pouco a pouco, na vida adulta a forma com que o autor é tratado por todos – inclusive pela protagonista que, de fato, não o enfrenta para valer em momento algum – meio que legitima o que ele fez. Ninguém além de Alice e dele sabe o que realmente aconteceu no quarto dela nas diversas visitas que ele fez para a garota até terminar de escrever o seu livro, mas por que isso é assim?

Ainda que em um primeiro momento os pais de Alice não acreditaram nela, em nenhuma outra ocasião, especialmente no relançamento do livro, ela teve a oportunidade de confrontar aquela realidade? Eu teria visto um propósito melhor no filme se ela tivesse enfrentado aquela situação de duas formas diferentes, pelo menos: ou se recusando a trabalhar na divulgação de Milan Daneker e, daí, surgindo uma série de efeitos desta decisão, ou mesmo enfrentando ele publicamente (mesmo sabendo que ele provavelmente negaria tudo mais uma vez).

Qualquer um destes caminhos e suas possíveis variáveis teriam feito mais sentido, a meu ver. Ao menos The Girl in the Book teria mostrado que há outros caminhos de enfrentamento do tema do que simplesmente aceitar o abuso como algo que acontece. Por essas e por outras que a nossa sociedade estão tão podre e perdida. Porque a maioria das pessoas “aceitam” que é assim mesmo que as coisas são. Sabemos, verdade, que a maioria dos abusos são praticados dentro da casa das crianças e adolescentes, por familiares ou conhecidos. Até quando isso vai ser tratado como algo que “acontece”?

Para finalizar, e antes que algum idiota venha comentar que “bem, a garota realmente não mostrou que não queria nada com o escritor, pelo contrário”, quero deixar algo claro: nenhuma criança ou adolescente tem a visão maliciosa e corrupta de um adulto. Crianças e adolescentes não sabem o que é o sexo e nem tem a noção da própria sexualidade porque ainda não descobriram sobre isso.

Verdade que na adolescência os hormônios começam a aflorar e os jovens começam a ter interesse uns pelos outros, mas isso não quer dizer que um adulto deva pensar que eles estejam desenvolvidos para ter uma relação sexual como um adulto. Qualquer adulto que beija, acaricia ou faz sexo com uma criança ou adolescente está passando de qualquer limite e tirando a inocência destas pessoas sem que elas tenham noção do que isso signifique. E ponto.

Nenhuma adolescente, por mais “bonitinha” que seja, merece ser abusada, violentada, ter a inocência roubada para sempre porque um adulto não sabe se controlar. Adultos devem ser relacionar com adultos e ponto final. Acho repugnante um homem ou um mulher que olham para uma criança ou para um adolescente com desejo sexual. Isso é um absurdo e, para mim, é uma questão de valores. Também acho o fim companheiros de pessoas que fazem isso e que ignoram a verdade.

Está mais que na hora das sociedades trazerem este tema à tona mas com seriedade, sem panos quentes e sem reticências. Por isso mesmo achei este The Girl in the Book suave demais. Ainda que ele exponha bem as cicatrizes que uma vítima de abuso pode levar para o resto da vida, se não trabalhar esta questão com ajuda de terceiros, vejo que faltou um pouco mais de coragem no enfrentamento do problema.

Por outro lado, e devo admitir que este é um ponto positivo do filme, no final fica subentendido que após enfrentar a própria história e ter ido confrontar Milan em casa – ainda que eu acho que ela poderia ter sido bem mais dura com ele -, a protagonista finalmente conseguiu forças e coragem para iniciar o processo de cura escrevendo a sua própria história. Aí sim, por suas próprias forças e vontade de superação, ela começava um capítulo decisivo em sua vida.

Esta força, inclusive usada antes para tentar reconquistar Emmett, é o ponto forte e inspirador do filme. Toda garota e garoto que sofreu abuso pode dar a volta por cima e reescrever a própria história. Para isso, contudo, deve confrontar as suas dores e cicatrizes e superá-las. Acho difícil a pessoa fazer isso sozinha, como The Girl in the Book mostra – ok, o amor de Emmett a ajuda, mas indiretamente. Por este conjunto da obra que achei o filme pouco ousado e um tanto “cômodo” demais. De qualquer forma, é bom trazer o tema à tona.

NOTA: 7,8.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Vi muita gente, especialmente os críticos, elogiando muito a interpretação de Emily VanCamp. Bem, verdade que a atriz está bem em seu papel mas, ainda assim, não achei a interpretação dela fantástica. Ela é condizente, coerente, mas não achei excepcional. Praticamente divide com ela o “mérito” da personagem a atriz Ana Mulvoy-Ten, que dá vida para a Alice adolescente. A menina é muito sutil em sua interpretação e consegue, a meu ver, passar bastante verdade sobre o comportamento adolescente.

Apesar deste filme ser conduzido pela personagem de Alice que, sem dúvida, é quem dá ritmo para a trama, alguns outros atores tem papel importante no filme. Michael Nyqvist está muito bem como o canalha Milan Daneker. Ele faz uma interpretação coerente e sem tintas carregadas, o que se agradece em um filme como este. Ana Mulvoy-Ten, como eu disse, faz um bom trabalho como a adolescente Alice. Também merecem destaque David Call como Emmett Grant, que acaba sendo a tábua de salvação da protagonista, e Ali Ahn como Sadie, a melhor amiga de Alice.

Outros coadjuvantes que valem ser citados: Mason Yam como Tyler, filho de Sadie; Talia Balsam como a mãe de Alice; Michael Cristofer como o pai da protagonista – possivelmente o personagem que mais mereceria um soco na cara depois de Milan Daneker (ainda que, eu admita, sou contra a violência, rs); e Josh Green como Keith, o filho do vizinho que cuida esporadicamente de Tyler e que vira a grande falha de Alice na produção.

Sobre a parte técnica do filme, Marya Cohn faz um trabalho correto na direção, mas sem nenhum grande achado além de conduzir bem os atores e de valorizar a atuação deles. Acabam sendo elementos importantes para a produção a bem presente trilha sonora de Will Bates; a direção de fotografia competente e com escolhas acertadas de Trevor Forrest; e a edição bem realizada de Jessica Brunetto.

The Girl in the Book estreou no Festival de Cinema de Los Angeles em junho de 2015. Depois o filme participaria de apenas um outro festival de cinema, o de Mill Valley. Até o momento o filme não ganhou nenhum prêmio.

Agora, duas pequenas considerações sobre o filme que eu não fiz antes. (SPOILER – realmente não leia este parágrafo se você não assistiu ainda ao filme). A cena do abuso da protagonista quando ela é adolescente é de arrepiar. Não tem como não ficar indignado(a) com aquilo. Neste sentido Marya Cohn soube construir bem a narrativa do flash back até nos levar aquele ponto extremo – se bem que, depois, teremos novo ponto de violência contra a protagonista e ultrajante que é quando o canalha lê pela primeira vez a sua própria obra. Se este é um acerto na narrativa e que ajuda o filme a provocar debate, há um outro ponto que achei um tanto forçado demais. Ainda que seja verdade que muitas pessoas que foram abusadas sexualmente também se tornem abusadoras no futuro, a forma com que Alice abusa de Keith parece forçada e um tanto sem pé nem cabeça. Ela até poderia ter abusado de algum jovem que ela conhecesse, mas pegar um garoto desconhecido como o filme mostra é meio forçado demais.

Para quem gosta de saber onde os filmes foram rodados, The Girl in the Book foi todo filmado em Nova York – a cidade aparece bem, em alguns momentos, especialmente após uma crise ou “caída de ficha” da protagonista.

Os usuários do site IMDb deram a nota 6,1 para o filme. Uma avaliação bem condizente, eu diria. Os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 10 críticas positivas e apenas uma negativa para a produção, o que lhe garante uma aprovação de 91% e uma nota média de 7,3. A nota eu até acho realista e condizente, mas o nível de aprovação é que me “enganou”, digamos assim. Achei que o filme poderia ser melhor do que realmente foi.

Este é apenas o segundo trabalho na direção de Marya Cohn. Em 1994 ela fez o curta Developing e, agora, estreou com um longa com este The Girl in the Book.

Este filme é uma produção 100% dos Estados Unidos. Sendo assim, ele contempla uma votação de enquete feita há um bom tempo e na qual vocês pediam filmes deste país.

CONCLUSÃO: Francamente, acho que este filme é muito menos do que poderia ser. Como disse lá no início, o tema levantado por The Girl in the Book é fundamental, mas o desenrolar da história é que me incomoda. Não apenas o canalha e algoz da protagonista não tem o fim que mereceria – ok, o mundo é injusto, muitas vezes – como o entorno da garota parece não realmente se preocupar com ela.

Desenvolvi melhor as reflexões sobre isso no corpo da crítica, mas quero reforçar aqui que eu esperava um pouco mais de ação, de atitude, e um pouco menos de simples narrativa dos fatos. Enfim, o filme me pareceu flertar perigosamente demais com a literatura e com o “mergulho necessário” de qualquer escritor na realidade para então criar e menos na denúncia de um crime. Me incomodou essa displicência com a protagonista. O filme é importante ao levantar alguns temas, mas achei o desenvolvimento dele precário. Para mim, há produções bem melhores em cartaz.

La Loi du Marché – The Measure of a Man – O Valor de Um Homem

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A pessoa trabalhou bastante durante a vida e, de repente, perde o emprego. Procura novas oportunidades, mês após mês, faz o curso obrigatório de quem está desempregado e, mesmo assim, não consegue uma recolocação profissional. Este é um drama que afeta milhares, possivelmente milhões de pessoas mundo afora, inclusive e especialmente agora no Brasil. La Loi du Marché trata disso, mas vai muito mais além na reflexão e na narrativa. Através deste filme observamos como vivemos em uma sociedade opressora, onde uma pessoa tem valor na medida em que tem um emprego, tem dinheiro e paga as suas contas. Sem isso, ela vale o que?

A HISTÓRIA: Thierry Taugourdeau (Vincent Lindon) se queixa que, ao terminar de fazer um curso, ele não conseguiu emprego. E que ele não é o único de sua classe, muito pelo contrário. Das 15 pessoas que fizeram o curso de guindaste, 13 estão com dificuldade de conseguir emprego porque nunca tiveram experiência em um canteiro de obras. O coordenador do curso admite que a orientação para os alunos desempregados poderia ser feita de outra forma.

Ele admite que o curso que Thierry fez não foi o correto, mas afirma que ele terá que recomeçar a procurar emprego. Thierry diz que perdeu tempo, que está há 15 meses nesta função de fazer cursos que não lhe dão uma oportunidade depois. A partir daí, vamos acompanhar a saga de Thierry atrás de uma recolocação no mercado e de, com ela, sustentar a sua família.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a La Loi du Marche): Achei esse filme simplesmente incrível. Como tantas produções brilhantes do normalmente excepcional cinema francês, esta também está focada em um argumento relativamente simples. Mas essa relatividade está apenas na ausência de efeitos especiais, na escolha de poucos atores e em um roteiro sobre “vidas comuns”.

Fora as aparências, o filme é profundo, faz refletir e discute bem argumentos que são perfeitamente encadeados e expostos com esmero pelo diretor e roteirista Stéphane Brizé. Não percebemos enquanto o filme se desenvolve, mas quando ele termina é possível repensar o conjunto e perceber como o trabalho dos roteiristas Stéphane Brizé e Olivier Gorce é bem planejado do primeiro até o último minuto. Simplesmente brilhante.

Este filme tem uma importância vital em nossos dias, em que diferentes países do mundo – incluindo o Brasil – enfrentam o desafio de ter um bom contingente de sua população desempregada, que procura emprego e que tem dificuldade de conseguir uma nova oportunidade no mercado de trabalho. De forma exemplar Brizé e Gorce levantam diversos pontos da realidade de alguém de meia idade, avançando para a idade mais avançada, que é pai de família e que passa por essa situação.

Nosso protagonista tem características bem definidas logo nos primeiros minutos de La Loi du Marché. Não sabemos bem a idade que ele tem, mas calculamos que ele esteja na casa dos 50 ou pouco menos. Também se presume que ele tenha trabalhado bastante antes, possivelmente duas décadas ou duas décadas e meia, e que foi demitido junto com vários outros empregados não por falta de competência, mas por falta de gestão dos empresários que empregavam ele e os outros. Bem, essa segunda parte, da incompetência dos empregadores dele para manter a empresa viável sabemos no desenrolar da produção.

Mas é fato que logo no início fazemos várias leituras sobre o personagem de Thierry Taugourdeau. Especialmente de que ele está na meia idade e que já tem bastante experiência no mercado. O que nem sempre é valorizado. Conforme o filme vai se desenvolvendo, vamos conhecendo mais de perto o protagonista, sua família, realidade e motivações. E o mais importante para esta história: o seu caráter. Este é um ponto central do filme – e algo que contrasta com a realidade do mercado de trabalho.

O desenrolar da trama se mostra muito bem planejado e criativo, cuidando de cercar diversos pontos da realidade do mercado de trabalho – tanto de quem está desempregado quanto de alguém que consegue uma oportunidade de emprego depois de uma longa procura. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). O roteiro de Brizé e Gorce começam com Thierry questionando uma pessoa da escola de formação na qual ele fez um curso ineficiente. Aqui começa a construção do caráter do personagem.

Ele é o tipo de pessoa que não fica quieta quando vê algo errado. Por isso ele vai na escola para questionar como eles podem empurrar as pessoas que estão desempregadas a fazer qualquer curso sem avaliar se aquele investimento de tempo e de expectativas dos alunos poderá ter um resultado positivo ou não. Primeiro grande gol dos roteiristas e que não é tão óbvio assim.

Explicando para quem não conhece bem o sistema europeu, por lá quem perde o emprego é obrigado a fazer cursos de aperfeiçoamento enquanto está no paro (como se chama, na Espanha, o seguro-desemprego). Esses cursos são obrigatórios – sem eles a pessoa não recebe o benefício por estar desempregada – e tem como objetivo ajudar o desempregado a conseguir logo uma recolocação no mercado. Mas após a crise de 2008 isso se tornou complicado, até porque diversos países chegaram a ter um alto índice de desemprego – a Espanha, que teve um problema maior nesse sentido, chegou a ter 22% da população ativa desempregada.

O diálogo inicial de Thierry com o diretor da escola – não fica evidente se ele é o “chefe do pedaço”, mas me pareceu que sim – já dá o tom do que veremos no restante do filme. La Loi du Marché é uma crítica ácida e contundente sobre a realidade em que vivemos, de sociedades focadas no consumo e na capacidade que as pessoas tem de ganhar dinheiro para depois gastarem ele com produtos e serviços.

Quem tem condições de estar nesta roda de consumo está bem. Os que estão fora são vistos como “losers”, usando uma expressão dos Estados Unidos, ou simplesmente “perdedores”, incapazes, pessoas incompetentes e que não estão seguindo o que é “normal” para a maioria. Mas calma, estou me adiantando na análise do filme.

Depois daquela sequência perfeitamente escrita do início do filme, o roteiro de Brizé e Gorce seguem em um misto de traçar o perfil do protagonista e de mostrar os desafios que ele tem que enfrentar estando desempregado. Na sequência da conversa dele na escola, o espectador é apresentado para a sua família, para a esposa (Karine de Mirbeck) e para o filho do casal (Matthieu Schaller) que tem um certo grau de deficiência física e motora.

Durante o filme não fica evidente que a esposa de Thierry trabalha, mas como vemos ele em casa, muitas vezes sozinho durante o dia, inclusive gastando o tempo livre para fazer tarefas domésticas, concluímos que o filho do casal está na escola e a esposa do protagonista esteja trabalhando. Além disso, logo no início do filme, Thierry comenta que tem menos de um ano de seguro-desemprego que lhe aporta 500 euros. Quem já esteve na Europa sabe que esta quantidade de dinheiro jamais daria para um pai de família sustentar uma casa. Então sim, provavelmente a esposa dele trabalha e o filho exige alguns recursos adicionais.

O segundo momento que ajuda a mostrar o caráter do protagonista é aquele em que Thierry encontra um grupo de sindicalistas que são amigos dele. Eles discutem a continuidade de um processo contra os antigos empregadores, e Thierry deixa claro que está cansado daquilo e que ele não vai continuar colocando a energia naquela disputa. Ele não quer reviver todos os problemas que passou com os empregadores em um tribunal e pula para fora do barco do processo.

Pessoalmente, entendo bem a postura dele. Eu já tive muitas razões para processar um antigo empregador mas não quis fazer isso por duas razões: primeiro porque penso que na maioria das vezes a pessoa pode fazer a escolha de sair do seu trabalho opressor e buscar uma nova oportunidade melhor e, depois, porque igual que Thierry eu não quis reviver todos aqueles episódios desastrosos do ambiente de trabalho. Querendo ou não, isso demonstra a postura de uma pessoa e até que ponto ela quer chegar para conseguir os seus direitos – e abrir deles quando pensa que não vale tanto a pena passar por isso.

Neste momento do filme percebemos que Thierry é um sujeito que não se ausenta de fazer o que é certo, mas não é rígido o suficiente para sempre lutar até o final. Ele pesa os fatores, reflete e faz o que a consciência lhe diz ser o mais adequado. Depois o roteiro mergulha em mais cenas “da vida comum” do protagonista, com ele fazendo uma entrevista por Skype e tendo aulas de dança com a esposa – parece que ele está preocupado em não deixar o casamento ruir com o “insucesso” dele como trabalhador pesando sobre o casal. Sem dúvida ele precisa ter sensibilidade e bastante esforço procurar o que é necessário para dar segurança para todos da família.

Outro ponto importante da história é quando ele fala sobre as finanças com a gerente de sua conta no banco (Catherine Saint-Bonnet). Ela primeiro sugere se não seria interessante o casal se desfazer da casa própria que eles ainda estão pagando. Afinal, eles poderiam conseguir um aluguel com prestação menor que a da casa em que eles estão vivendo. Thierry comenta que eles já discutiram sobre isso e concluíram que esta não é uma boa opção. Na sequência a gerente da conta pergunta se ele tem seguro de vida e comenta que seria interessante ele fazer um – afinal, ele pode “faltar” em algum momento e a família dele ficaria desamparada.

Para mim este ponto é um dos primeiros mais tensos da produção. Thierry apenas escuta a sugestão da bancária, mas nos colocamos no lugar dele. Não é uma situação fácil. Além dele estar vivendo uma situação de estresse ao estar desempregado e saber de suas responsabilidades, ainda lhe abre essa janela de pensar que a vida dele pode acabar? Isso é verdade, pode acontecer a qualquer um – afinal, para morrer basta estar vivo. Mas não é fácil ouvir essa consideração quando está se tentando apenas dar segurança e uma vida confortável para as pessoas que você ama.

La Loi du Marché não deixa totalmente claro, mas parece que a conversa no banco faz Thierry e a mulher pensarem melhor e tentarem vender a casa móvel de veraneio que eles tem – pelo valor do imóvel, 7 mil euros, acredito que esta residência já foi paga e não seria a que ele discutiu com a bancária e que eles ainda estavam pagando. Eles tentam negociar a casa, mas os compradores, com bastante cara de pau, tentam “se dar bem” com a situação e ofertam 1 mil euros a menos do que o previamente acertado. O negócio não sai, e a pressão sobre Thierry segue.

Um novo episódio sobre a procura de trabalho de Thierry é quando ele participa do que parece ser um curso para preparar melhor as pessoas para entrevistas de trabalho. Ainda que as observações dos colegas de Thierry tenham uma certa lógica e sejam pertinentes, ficamos pensando se realmente aqueles detalhes de postura e de voz são tão importantes ou o que interessa mesmo é se a pessoa é competente no que faz, correta, ética e esforçada em aprender e melhorar sempre. Enfim, uma entrevista de trabalho nunca consegue realmente medir uma pessoa.

(SPOILER – não leia… bem, você já sabe). Não sabemos se por causa daquele curso ou independente dele, mas Thierry consegue um emprego na sequência como segurança de uma loja de departamento. Interessante esta escolha dos realizadores. Eles poderiam seguir com o protagonista batalhando por um emprego e não conseguindo ele até o final, ou até perto do final, e mostrando todo o drama que viria desta situação. Só que, francamente, a história ficou muito mais rica e interessante mostrando Thierry em um novo emprego.

Isso acontece com muitas pessoas. Em um mercado opressor – esta, para mim, é uma das grandes mensagens do filme -, não é simples dar uma banana para o emprego que você não gosta, seja porque o chefe faz as escolhas erradas, seja porque o ambiente de trabalho não é bom ou saudável. Muitas pessoas ficam nestes empregos justamente porque sabem como é complicado ficar fora do mercado de trabalho – afinal, as contas se acumulam, e elas não são poucas.

Mais ou menos metade do filme mostra Thierry desempregado e em busca de uma recolocação profissional e metade mostra ele no novo ambiente de trabalho. Ali, e esta é uma das maiores ironias do filme, ele recebe para “caçar” a todo o momento as falhas dos demais. Seja clientes, seja funcionários da empresa. A realidade é extremamente opressora, no estilo “paranoia total” ou “caça às bruxas”. Thierry e o restante da equipe de segurança da empresa está procurando sempre a mínima falha que pode prejudicar o faturamento da companhia.

O dinheiro roubado através do furto de produtos, de cupons de desconto, de cartões de pontuação ou pelo “erro” de não ter passado algum produto no leitor de códigos de barra pode não fazer grande diferença para a empresa – bem, no acumulado de dezenas de exemplos por mês, até pode fazer um efeito considerável – mas, certamente, pode ser decisivo para as pessoas envolvidas no “delito”. Thierry primeiro aprende o seu papel, conhece os colegas, e depois trabalha para que tudo seja feito como lhe pedem.

Mas as situações que vão se apresentando são, como no caso dele, bem ao estilo de “pessoas comuns”. É impossível não ver alguns casos e pensar pela cabeça do protagonista. Em muitos momentos, especialmente naquele envolvendo o senhor com mais idade que pega duas bandejas de carne e na situação das duas funcionárias que são questionadas por causa de cupons e de um cartão de pontuação, percebemos como Thierry se coloca no lugar deles.

No desespero, sem dinheiro para pagar todas as contas ou colocar comida no prato da sua família em casa, do que você seria capaz? Inicialmente eu parto do pressuposto de que há sempre uma outra saída do que roubar, enganar ou burlar regras bem estabelecidas, mas quem pode me garantir que frente a diversas tentativas frustradas de conseguir sobreviver e, o mais complicado, dar uma boa qualidade de vida para as pessoas que eu amo, eu também não teria algum desvio de atitude? É complicado julgar, sempre.

Da minha parte, vejo sim que as pessoas que foram questionadas neste filme, no ambiente de trabalho de Thierry, erraram e deveriam pagar pelos seus erros. Só acho que algumas punições foram extremadas – por exemplo, não seria possível cobrar daquele senhor que pegou a comida no mês seguinte ao invés de prendê-lo (o filme não deixa claro que a polícia seria chamada e ele seria preso, mas deixa a tender isso claramente)?

Também não seria possível outro tipo de punição para as funcionárias da empresa flagradas em desvios – pequenos, diga-se – do que, por uma estratégia da empresa de reduzir custos demitindo pessoas, cortá-las simplesmente do quadro de funcionários?

Neste sentido entra o lado mais cruel desta realidade em que as pessoas são medidas pela sua capacidade de consumo: ninguém avalia o quanto a pessoa se dedicou para aquela empresa. Ninguém reflete sobre os diversos anos de dedicação daquele funcionário, o quanto ele “vestiu a camisa” em tantas ocasiões. A pessoa simplesmente vira quase um número que pode ser riscado da folha de pagamento facilmente.

Claro, e não é errado argumentar, que nada de errado teria acontecido com aquelas pessoas se elas apenas tivessem seguido as regras e agido certo. Verdade. Mas nem sempre é fácil fazer esta decisão. E, novamente, volto a questionar a intensidade das soluções propostas. Afinal, como este filme deixa bem claro também, cada pessoa é um mundo e ninguém sabe todas as responsabilidades, desafios, dores e prazeres pelas quais as pessoas passa em sua vida pessoal. Por isso mesmo seria interessante todos serem mais “humanos”, enxergarem que do lado de quem você não concorda ou “condena” existe alguém como história que você desconhece completamente.

Uma das pessoas que é tratada daquela forma extremista, de punição após a “quebra de confiança”, acaba tendo uma atitude extrema. Por mais que o espectador desconfie disso quando aparece em cena o diretor de RH (Guillaume Draux) do grupo do qual a loja de departamento faz parte, chamado para dar a notícia para os funcionários ao lado do diretor da loja (Saïd Aïssaoui), apenas na sequência dos fatos, quando a foto dela é colocada em cena, é que tudo fica claro. Não demora muito para que outra situação destas aconteça, e é aí que Thierry tem uma atitude corajosa.

Para a sociedade, um homem pode se medir por sua capacidade de ganhar e de gastar dinheiro, mas a atitude de Thierry durante o filme inteiro, especialmente o final, mostra que um homem se mede por seus valores. O que ele acredita, o que ele defende, o que ele suporta e o que ele se nega a compactuar. É desta forma que se medem homens e mulheres. O dia em que as nossas sociedades compreenderem isso, certamente, viveremos em uma realidade muito, mas muito melhor. Por tudo isso achei este filme brilhante, preciso, indispensável.

NOTA: 10.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: O roteiro é o ponto forte desta produção. Um trabalho exemplar de Olivier Gorce e do diretor Stéphane Brizé que demonstram, com este filme, o que há de melhor – junto com o trabalho dos atores – no cinema francês. Grandes histórias contadas com criatividade e precisão e, normalmente, muito ligadas a histórias sociais e de relevância, são o que fazem da escola de cinema francês algo tão especial. Brizé e Gorce seguem esta tradição e nos apresentam mais um filme muito atual e que, pelo visto, seguirá sendo assim por muito tempo ainda.

Gostei também do trabalho de Brizé como diretor. Ele está com a câmera sempre próxima do protagonista, mostrando bem as suas expressões e tentando, desta forma, colocar o espectador exatamente dentro de sua ótica. Impossível não se colocar no lugar de Thierry. Só pessoas realmente incapazes de empatia para não observar o que acontece com a ótica dele. Além disso, Brizé se preocupa em que tudo pareça bem “a vida como ela é”, imprimindo um tom realista na história.

O ator Vincent Lindon é o nome forte desta produção depois do diretor Brizé. Ele “carrega” o filme nas costas porque o roteiro exige isso. Com uma interpretação muito precisa, ele passa o tempo inteiro legitimidade para o protagonista. Um belo trabalho. Os atores coadjuvantes estão ali apenas para dar apoio para a trama, com poucos destaques na produção. Ainda assim, quando eles tem os seus momentos de destaque, se saem muito bem.

Entre os coadjuvantes, destaque para Karine de Mirbeck, que vive a esposa de Thierry, e para Matthieu Schaller, filho do casal; para Noël Mairot, o professor de dança; para Catherine Saint-Bonnet, a bancária; para Gisèle Gerwig, a empregada que tem uma atitude extrema após ser demitida; para Saïd Aïssaoui, diretor da loja de departamento; para Eric Krop, diretor da escola em que estuda o filho de Thierry; para Christian Watrin, o senhor de idade que é flagrado pegando mercadorias na loja; e para Guillaume Draux, diretor de RH do grupo do qual a empresa faz parte. Todos estão muito bem e acho que são os destaques entre os coadjuvantes.

Da parte técnica do filme, gostei muito da edição complicada e muito bem feita de Anne Klotz. Também funciona bem a direção de fotografia “naturalista” de Eric Dumont.

Fiquei curiosa para saber mais sobre Stéphane Brizé. O diretor francês natural de Rennes vai fazer 50 anos de idade em outubro e tem nove títulos no currículo como diretor. Em 1993 e em 1996 ele filmou a dois curtas, as suas estreias na direção, e fez o primeiro longa em 1999. Acredito que este seja o primeiro filme que eu vejo dele, mas acho que vale ficar de olho neste diretor e roteirista. Agora ele trabalha na pós-produção de Une Vie. Veremos logo mais o que virá por aí.

La Loi du Marché estreou em maio de 2015 no Festival de Cinema de Cannes. Depois, a produção passaria ainda por outros 20 festivais em diversas partes do mundo. Nesta trajetória o filme acumulou sete prêmios e foi indicado a outros sete. Entre os prêmios que recebeu, destaque para o de Melhor Filme pela escolha do público no Festival de Cinema Europeu de Bruxelas; para os de Melhor Ator para Vincent Lindon e para a Menção Especial no Prêmio Ecumênico do Júri do Festival de Cinema de Cannes; para o de Melhor Ator para Vincent Lindon no Prêmio César – o Oscar do cinema francês.

Para quem gosta de saber onde as produções foram filmadas, comento que La Loi du Marché foi realizado em Auberville, em Calvados, e em Boussy-Saint-Antoine, em Essonne, ambos na França.

Agora, um pequena curiosidade sobre a estreia mundial do filme, feita em Cannes. Depois de ser exibido, o filme foi aplaudido por nove minutos e 36 segundos. Nada mal, hein? Certamente esta produção, como todas outras brilhantes do cinema, vai ser assistida por poucos. Não fará grande bilheteria em parte alguma. Mas quem a assiste tem esta vontade de aplaudi-la de pé. Para mim esta é uma métrica muito melhor do que o simples resultado financeiro da produção.

Os usuários do site IMDb deram a nota 6,8 para a produção. Ainda que seja uma nota boa, levando em conta o padrão do site, acho que esta avaliação poderia ter sido um pouco melhor. Enquanto isso, os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 31 críticas positivas e duas negativas para a produção, o que lhe garante uma aprovação de 94% e uma nota média de 7,4.

Esta é uma produção 100% da França.

CONCLUSÃO: Este não é um filme simples, mas é muito necessário. La Loi du Marché traça um perfil muito honesto sobre a sociedade em que vivemos. Mesmo que a história se passe na França, aquela realidade é vista em diversas partes – inclusive no Brasil. Uma das histórias mais contundentes sobre os tempos atuais, em que as pessoas são medidas pelo seu poder de consumir e de pagar as suas contas, nunca pelo que elas fizeram ou fazem de bom. Não entra em jogo aqui os desafios pelos quais elas passaram, o que elas aprenderam e ensinaram. O importante é elas terem um emprego, ganharem dinheiro com ele e gastarem para sobreviver. Grande roteiro, com um protagonista de tirar o chapéu e uma narrativa que incomoda, mas que faz pensar. Achei perfeito e recomendo.

Right Now, Wrong Them – Certo Agora, Errado Antes

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Lembra daquele dia em que você passou por diversas situações, teve que optar por vários caminhos e, depois, pensou que teria sido melhor ter feito algo diferente? É sobre um outro desenvolvimento de trama que Right Now, Wrong Them trata. São duas histórias praticamente repetidas em uma, com um desenvolvimento parecido mas não idêntico. Os detalhes fazem a diferença. A vida é assim, cada escolha nossa nos leva para uma trajetória distinta. Filme lento, que narra um dia comum na vida de um diretor de cinema, exige paciência. Segue outra escola cinematográfica, muito diferente de Hollywood. É um filme interessante, mas que, sem dúvida, exige do espectador.

A HISTÓRIA: Capítulo 1: Certo Antes, Errado Agora. Yoon Hee-jeong (Min-hee Kim) entra no palácio Haenggung. Do lado de fora, o diretor Ham Cheon-soo (Jae-yeong Jeong) observa ela entrando, contempla uma árvore na praça do mercado e toma um café. Como narrador da história, ele comenta que aquela era a primeira vez dele em Suwon. Depois, no quarto de hotel, ele abre a janela e observa a sua ajudante (Ah-sung Ko) na porta do local. Ele lembra da garota bonita e jovem que viu antes e comenta para si mesmo que deve ir devagar. Saindo do hotel, ele encontra e sugere para ela que eles passem um tempo na pista de gelo próxima dali. A ajudante dele elogia o trabalho do diretor. Depois de passarem um tempo na pista de gelo, Cheon-soo vai para o palácio Haenggung, onde se encontra com Hee-jeong. A partir daí eles passarão o dia juntos.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Right Now, Wrong Them): Esta é uma produção que não tem muito o que detalhar além do que escrevi na introdução e na conclusão. Right Now, Wrong Them é um filme de Sang-soo Hong que trabalha, essencialmente, sobre uma premissa: como cada pequena decisão nossa pode nos levar para caminhos muito diferentes.

Durante a experiência de assistir ao filme, como comentei antes, o espectador terá que ter paciência. Como em tantas outras histórias filosóficas do cinema asiático. A narrativa é lenta e trata de um dia comum na vida dos personagens retratados. Ninguém faz nenhum grande gesto ou passa por situação limite ou de grande exigência. Na verdade, este é um filme sobre a normalidade, o cotidiano, as pequenas decisões do dia a dia. Para alguns, pode ser uma crônica da normalidade. De fato assim é.

A ousadia do diretor Sang-soo Hong, para mim, está justamente em apresentar duas histórias praticamente iguais para o espectador. O grande desafio é sair de uma narrativa e entrar praticamente na repetição dela. Quem vence o tédio da repetição inicial vai, pouco a pouco, encarando as sutis diferenças do primeiro e do segundo ato do filme. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Nosso protagonista, o cineasta Ham Cheon-soo, não deixa de ser um “mulherengo”, um sujeito casado que quando encontra uma bela garota cai em cima dela com cantadas relativamente baratas.

Na primeira versão da história, considerada “errada”, Cheon-soo tem um dia livre antes de seu compromisso e gasta boa parte dele dando em cima da ex-modelo e atual artista plástica Yoon Hee-jeong. Nesta primeira versão dos fatos ele acaba sendo confrontado pelas amigas de Hee-jeong, que acabam servindo de instrumento para que a artista plástica saiba que ele é casado. A decepção, evidentemente, entra em cena, ainda mais com a menina já bem alcoolizada, e cada um acaba a noite seguindo o seu próprio caminho sozinhos.

Na segunda versão da história, aquela que é considerada “correta”, Hee-jeong acaba ouvindo do próprio diretor que ele é casado. Isso acontece enquanto eles ainda estão no restaurante em que vão comer sushi. A revelação, feita desta vez pela própria boca de Cheon-soo, acaba mudando o grau de decepção de Hee-jeong. Esse talvez seja o fato mais interessante do filme: afinal, realmente faz muita diferença ele ter sido sincero com ela? Ele ter admito que era casado e, mesmo assim, dar em cima dela o tempo todo muda realmente alguma coisa? Ele não segue sendo um adúltero e mulherengo?

Curioso que para Hee-jeong e para tantas outras mulheres parece que não é bem assim. Apenas o fato do homem – canalha, na minha opinião – admitir a verdade parece tornar a traição dele menos absurda. Ah, mas pelo menos ele foi honesto, alguns podem dizer. Mas isso muda algo para a mulher e os dois filhos dele que ele deixou em casa? Muda em algo a condição da garota com quem ele quer empreender um romance? O diretor passa a ser mais ético ou correto porque admitiu no meio do flerte que era casado e que gostaria de trair a esposa porque se “apaixonou”?

Antes que alguém me questione dizendo: “Ah, mas eu não acredito em relações para a vida toda” ou argumentando que o filme deixa claro que o protagonista se casou jovem e que “Sabe como é, as pessoas quando casam jovens não sabem o que estão fazendo”, quero dizer que sim, é verdade, que tem pessoas que podem se equivocar. Especialmente quando são jovens.

Podem, realmente, não se casarem levando em conta valores, afinidades, e uma série de outros fatores que podem diminuir o risco de equívocos. Mas há muitas pessoas que casam cedo e que vivem bem casadas para o resto da vida. E quem se equivocou, bem, há outras saída muito mais éticas e corretas do que ficar prolongando um relacionamento falido e ficar traindo a pessoa que confia nela.

Para mim, a questão é simples: ou a pessoa é correta, age com honradez e sinceridade com sigo mesmo e com as pessoas com que ela se relaciona ou não. Não há meio termo ou “poréns”. Quem usa de subterfúgios para justificar os seus próprios erros está tentando enganar a si mesmo. Sendo assim, a essência da história de Cheon-soo é ridícula, para mim. O sujeito seria muito mais correto se fosse solteiro e ficasse com quem ele quer. Mas ter um compromisso com alguém e viver traindo essa pessoa é coisa de gente covarde, mau caráter.

Então se a história de Cheon-soo não é admirável, o que vale neste filme? Acho que apenas a ousadia do diretor Sang-soo Hong em contar uma história e, depois, apresentá-la de outra forma, fazendo, desta forma, o espectador refletir sobre as decisões dos personagens, as suas posturas frente à verdade e à mentira e, de quebra, fazendo cada um de nós nos questionarmos sobre o que vemos e vivemos no dia a dia.

Também acho que Right Now, Wrong Them questiona os parâmetros aceitos pela maioria da sociedade – que, a meu ver, tem exatamente o comportamento de Hee-jeong, de aceitar o traidor quando ele admite o seu próprio erro sem, ao mesmo tempo, ver a essência da questão. E pensando um pouco mais sobre a segunda parte do filme, o protagonista não apenas foi sincero com a artista plástica sobre ser casado, mas também foi honesto ao avaliar a obra dela e ao mostrar que estava bem alterado ao beber demais. Enfim, foi menos dissimulado e, cá entre nós, isso realmente tem o seu valor.

Apesar do desafio à paciência que o filme denota, vejo que Right Now, Wrong Them provoca reflexões e questionamentos relevantes. Observando sob este ponto de vista, é um filme que merece ser “vencido”, conquistado. Além disso, ele é mais um exemplo de que uma história simples, com uma produção com poucos recursos, pode apresentar uma premissa diferenciada e criativa no cinema. Nem tudo foi inventado ainda. Dá para fazer diferente, e Right Now, Wrong Them é uma prova disso.

NOTA: 8.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Este é um filme sem grandes destaques técnicos. Talvez valha destacar apenas o trabalho do diretor e roteirista Sang-soo Hong que, sem dúvida, foi ousado em praticamente repetir a história duas vezes, com pequenas nuances de diferenças entre boa parte da primeira e segunda trama. O diretor faz um trabalho sempre muito próximo dos atores, algo necessário em um filme em que a interação entre eles é fundamental.

Os protagonistas deste filme são realmente o destaque da produção. Ambos estão muito bem em interpretações muito típicas da cultura asiática, em que os gestos são muito comedidos, assim como a maior parte das reações dos personagens – exceto quando a bebida começa a falar e, no caso do protagonista, ele tem uma tendência de beber demais. Nas duas histórias, na “errada” e na “certa” ele bebe demais. Mas na segunda vez a reação dele frente às amigas de Hee-jeong, talvez porque ela não estava no local, assim como o professor dela, acaba sendo bem diferente. O que demonstra também que a noção de autocontrole, especialmente dos cretinos, é bem relativa e depende da plateia de forma decisiva.

Este filme, por ser originário da Coreia do Sul, infelizmente não tem uma filha muito completa no IMDb. Sendo assim, vou ficar devendo para vocês alguns nomes, especialmente da equipe técnica da produção. Além da direção acertada e coerente de Sang-soo Hong, da parte técnica do filme acredito que se destaquem a trilha sonora bem presente e a edição bem feita.

Do elenco, além dos protagonistas já citados, assim como a garota que faz a auxiliar do diretor, acredito que tem destaque as amigas da artista plástica e a mãe dela. Infelizmente no IMDb estas pessoas não estão identificadas, mas vale citar o restante do elenco: Yeo-jeong Yoon, Ju-bong Gi, Hwa-Jeong Choi, Joon-sang Yoo e Young-hwa Seo.

Right Now, Wrong Them estreou em agosto de 2015 no Festival de Cinema de Locarno. Depois, o filme passaria, ainda, por outros 18 festivais. Nesta trajetória o filme ganhou oito prêmios e foi indicado a outros quatro. Entre os que recebeu, destaque para o de Melhor Ator para Jae-yeong Jeong e para o de Melhor Filme no Grand Prix Asturias no Festival Internacional de Cinema de Gijón; e para os prêmios de Melhor Ator para Jae-yeong Jeong, o Golden Leopard para Sang-soo Hong e para a menção especial do Prêmio do Júri Ecumênico para Sang-soo Hong no Festival Internacional de Cinema de Locarno.

O diretor Sang-soo Hong filmou a primeira parte da história, editou o material e mostrou ele pronto para os atores saberem como a história tinha sido enfocada para, então, eles mergulharem na segunda parte da narrativa. Na visão do diretor, a natureza dupla do filme acaba sendo uma “espécie de estado de limbo” para o público. Não deixa de ser uma visão interessante da narrativa. Alguns podem encará-la como uma “realidade paralela”. Eu encaro de forma mais prática, como o primeiro trecho sendo uma realidade possível e, o segundo, outra realidade possível. Assim de simples. Uma realidade ou outra depende exclusivamente da escolha das pessoas. Ambas são válidas, mas a segunda, aparentemente, mais “aceita” pela sociedade.

O título original deste filme é Ji-geum-eun-mat-go-geu-ddae-neun-teul-li-da. Este é um filme 100% da Coreia do Sul e falado, claro, em coreano.

Os usuários do site IMDb deram a nota 7,3 para Right Now, Wrong Them. Os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 11 críticas positivas e apenas uma negativa para a produção, o que lhe garante uma aprovação de 92% e uma nota média de 7,2. Avaliações muito boas nos dois sites levando em consideração o padrão de cada um.

CONCLUSÃO: Um filme simples na história mas interessante na reflexão. Right Now, Wrong Them é uma produção bem ao estilo asiático, com desenvolvimento lento e muita observação dos comportamentos dos personagens. Exige muita paciência do espectador e ganha relevância depois que o filme acaba. Afinal, é aí que vamos refletir sobre os detalhes e transportar a história para a nossa própria vida, lembrando de momentos em que poderíamos ter feito escolhas diferentes. Com dois bons atores como protagonistas, é um filme que ousa ao praticamente repetir a história singela. Exige, mas vale pela proposta diferenciada. Não é nem de perto inesquecível, mas faz pensar. Apenas por isso ele já merece ser considerado.

The Dressmaker – A Vingança Está na Moda

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Estilo é o que não falta para este The Dressmaker. Antes mesmo do primeiro traje vestido por Kate Winslet aparecer em cena – e são muitos figurinos em jogo aqui -, a trilha sonora, a direção de fotografia e as escolhas da diretora Jocelyn Moorhouse já mostram que este filme tem um DNA importante. Do início ao fim Moorhouse faz boas e planejadas escolhas. Todo elemento e palavra tem uma finalidade. Nada é jogado ao vento. Um filme bem diferente sobre a busca da verdade e por vingança. Divertido, apesar de que, claro, ele não chega a reinventar nenhum gênero.

A HISTÓRIA: Trilha sonora ao estilo western. Um ônibus cruza uma estrada rodeada de campos. Uma menina brinca. Uma mulher olha séria para trás. Um menino está caído no chão com sangue na testa. A mesma menina de antes grita em um carro. Várias cenas antigas se repetem mostrando aquelas crianças, mas sem uma sequência bem definida. O ônibus chega à noite em uma pequena cidade e desce dele uma mulher muito bem vestida. Ela deixa uma máquina Singer no chão, pega um cigarro, olha ao redor e fala: “Voltei, desgraçados”. Esta é a história de redescoberta de Myrtle Dunnage, ou apenas Tilly (Kate Winslet), como ela gosta de ser chamada.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a The Dressmaker): Tenho um fraco por filmes que tem um estilo bem definido. Acho que isso faz falta no cinema. Aprecio, pois, quando a identidade de uma produção é clara, tem um propósito e um estilo artístico que diferencia ela de todas as demais. E isso é algo muito evidente em The Dressmaker.

Claro que apenas o estilo artístico e a identidade planejada pelo realizador(a) não basta. O roteiro tem que ser competente, assim como o trabalho dos atores tem que convencer. Pois bem, acho que tudo isso está presente em The Dressmaker. Depois vamos falar sobre a mensagem e a essência da história, mas antes vou falar sobre o que me impressionou mais nesta produção.

A sequência inicial deste filme é mais do que um belo cartão de visitas. Ela revela muito do estilo da diretora Jocelyn Moorhouse e do tipo de produção que teremos pela frente. Trilha sonora marcante, direção de fotografia perfeita e uma edição ágil e bem precisa. Cada ângulo da sequência inicial, cada cena apresentada, tem um propósito. Não há sobras na narrativa, seja no que vemos ou no que ouvimos. Isso é algo raro no cinema comercial atualmente, tão cheio, muitas vezes, de efeitos especiais e de pouca valorização do conjunto de qualidades que faz o cinema ser a Sétima Arte.

Achei, pois, a sequência inicial de The Dressmaker perfeita. Em pouco tempo vamos descobrir que esta produção com roteiro de Moorhouse e P.J. Hogan, baseada no livro de Rosalie Ham, é uma espécie de “comédia de costumes”, ou seja, uma leitura ácida e um tanto irônica/macabra de uma comunidade do interior da Austrália – mas que, certamente, poderia ser ambientada no interior de diversos países. Sendo assim, não teremos um ritmo frenético, muita ação ou suspense. Claro que há ação e um toque de suspense, mas estes não são os elementos principais da trama.

O que mais interessa em The Dressmaker é o raio-x daquela comunidade de Dungatar no início dos anos 1950 – o filme se passa na pequena cidade australiana em 1951. Neste filme, a exemplo de outros que se debruçam no estilo de vida de um pequeno grupo social, o que importa são as relações humanas e o perfil dos personagens. Neste sentido, o roteiro de Moorhouse e Hogan gasta o tempo exato para aproximar-se de cada personagem – especialmente do núcleo central da trama.

É fundamental para a trama e para o envolvimento do espectador com a protagonista conhecer pouco a pouco as suas motivações, dúvidas e sentimentos. O roteiro acerta ao ir desbravando o mistério do “crime” que teria sido praticado por Tilly pouco a pouco. Afinal, o suspense sempre ajuda a manter a atenção na trama e na história que está sendo contada. Enquanto acompanhamos a protagonista em sua “busca pela verdade” – algo que, naturalmente, sempre vai ter potência no cinema -, também conhecemos melhor aquela pequena comunidade australiana, seus costumes e valores (ou a falta deles).

Além da trilha sonora, da direção da fotografia, do roteiro e do trabalho competente dos atores, outro elemento tem um papel-chave nesta produção: os figurinos. Nem teria como ser diferente já que a protagonista ganha a vida como estilista. As roupas que Tilly produz mudam a rotina da comunidade e, com isso, ela consegue avançar em seu propósito de dar uma qualidade de vida melhor para a mãe, Molly (a ótima Judy Davis), e descobrir o que realmente aconteceu em seu próprio passado.

Comentado os pontos de destaque do filme e o que mais me chamou a atenção nele, falemos sobre a essência da história e o que ela nos diz. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme ainda). Para começar, aparentemente, a protagonista tem três motivações centrais: conhecer a verdade sobre o próprio passado, reencontrar e resgatar os laços com a mãe e, se ela tiver confirmada a teoria de que foi injustiçada por aquela comunidade, vingar-se deles. Mas, como na vida real, nem sempre as intenções iniciais são plasmadas. A razão principal para isso é que a vida é dinâmica e sempre acontecem surpresas além dos nossos planos iniciais – por isso muitos planos são vãos.

No caso de Tilly, não apenas ela demora bastante tempo para roçar a verdade sobre o que aconteceu com ela quando era criança, como ela descobre que tem um pai bem diferente do que imaginava, perde alguém fundamental e é surpreendida pelas investidas de Teddy McSwiney (Liam Hemsworth). Isso não a impede de realizar o que tinha planejado desde o princípio, mas sem dúvida alguma restringe as suas escolhas e possibilidades.

Alguns podem não gostar, exatamente, da parte final do filme. (SPOILER – não leia… bem, você já sabe). Mas The Dressmaker não se preocupa com finais felizes. Quem assiste Game of Thrones ou The Walking Dead sabe que está na moda histórias um bocado realistas e com mortes importantes – inclusive de personagens centrais. Isso acontece com The Dressmaker. Tilly acredita que é amaldiçoada – uma bobagem, evidentemente. Mas, de fato ela não tem muita sorte nesta produção. Bem, esta é uma forma de encarar o que acontece com ela. Eu já vejo de outra forma.

Quando retorna para Dungatar 25 anos depois da morte de Stewart Pettyman (Rory Potter), Tilly tem a sorte de resgatar a dignidade da própria mãe, uma mulher abandonada e que provavelmente só não tinha morrido devido à ajuda de um pequeno grupo de pessoas. Sozinha em uma casa cheia de lixo e de dejetos, Molly volta a ter uma casa decente e, pouco a pouco, a conviver em sociedade, não apenas lembrando de fatos esquecidos, mas ajudando a filha a entender a própria história. Apenas por fazer isso Tilly já deveria se sentir muito feliz e honrada. No fim das contas ela conseguiu fazer isso pela mãe dela e ainda conviver com Molly por algum tempo.

Além disso, ao voltar para aquela pequena cidade que a expulsou quando ainda era criança, Tilly retorna o contato com Teddy, um partido incrível que, inacreditavelmente, seguia solteiro. 😉 Mesmo que ele não tem um final feliz, Tilly consegue fazê-lo feliz por um pouco de tempo – e ela também sente o gostinho bom do amor. Como diria o mestre Vinicius de Moraes em seu Soneto de Fidelidade, “eu possa me dizer do amor (que tive):/ que não seja imortal, posto que é chama/ mas que seja infinito enquanto dure”.

Agora, se Tilly fez diferença na vida daquelas duas pessoas positivamente, ela também infligiu naquela pequena comunidade de invejosos, caluniosos, mesquinhos, hipócritas e traidores uma vingança dura. Desta forma ela foi a algoz de pessoas boas e ruins – talvez uma “moral da história” seja que planos de vingança tem este efeito devastador, atingindo quem “merece” e quem é inocente.

Afinal, se Gertrude “Trudy” Pratt (Sarah Snook), Elsbeth (Caroline Goodall, que interpreta a mãe de William), Beulah Harridiene (Kerry Fox, professora de Tilly quando ela era criança), Muriel Pratt (Rebecca Gibney), Percival Almanac (Barry Otto), Evan Pettyman (Shane Bourne) e outros da comunidade até mereciam sofrer um pouco na pele pelos seus próprios pecados, o mesmo dificilmente podemos dizer dos personagens de Marigold Pettyman (Alison Whyte), Irma Almanac (Julia Blake, aparentemente a única amiga de Molly na cidade) ou do sargento Farrat (Hugo Weaving). Dois deles sofrem finais que não são bacanas antes do “grand finale”. Mas é assim que as coisas são, nem sempre os bons tem o final que eles merecem.

Enfim, acho que este filme tem muito mais acertos do que erros. A crônica de uma comunidade corrompida acho que pode fazer as pessoas refletirem, além da diversão propriamente dita que um filme com estilo proporciona. Mas para não dizer que tudo são flores, acho que o roteiro exagerou a tinta em alguns personagens, tornando eles um pouco caricatos demais – o maior exemplo, para mim, é do sargento Farrat. Dá para entender a escolha, já que personagens caricatos são mais fáceis de fazer rir. Mas acho que o filme poderia ser ainda melhor se tivesse personagens que fugissem deste caminho e que fossem um pouco mais “complexos”. Ainda assim, nada que desmereça o conjunto da obra de The Dressmaker.

NOTA: 9.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Gostei muito da direção de Jocelyn Moorhouse. Para mim, em um filme, o trabalho de direção pode ser comparado com o de um maestro de uma orquestra. O diretor ou diretora não deve ter apenas a visão sobre como a história deve ser contada, que dinâmica ela deve ter e seu visual mas, e principalmente, trabalhar com o talento de diferentes profissionais para fazer com que todos os elementos deem certo e conversem, sem que um seja dissonante em relação a outro. Este seria um trabalho perfeito de direção. Para mim, é isso o que Moorhouse consegue em The Dressmaker.

Além de ter muito bem definida a identidade deste filme, ele cuidou de valorizar as paisagens, os cenários internos e externos e, principalmente, o belo trabalho dos atores. Ninguém está mal no filme, aliás. Ainda que o destaque evidente fique com a sempre divina e talentosa Kate Winslet; com Liam Hemsworth que, para mim, está em sua melhor fase neste filme; e para a divina Judy Davis. Esse trio vale o filme. Mas os coadjuvantes citados na crítica também estão muito bem e dão o “molho” necessário para o roteiro funcionar.

Além dos atores já citados, vale comentar o trabalho de Shane Jacobson como Alvin Pratt, o dono do armazém e pai de Trudy; Gyton Grantley como Barney McSwiney, o irmão com deficiência mental de Teddy e que acaba tendo um papel vital na reta final da produção; e Sacha Horler como Una Pleasance, a estilista que o canalha do Evan Pettyman traz para a cidade para tentar acabar mais uma vez com Tilly. Também vale citar o trabalho de Darcey Wilson como Tilly quando era criança; o de Olivia Sprague como Gertrude na infância; o de Alex de Vos como Barney criança e o de Lucy Moir como a jovem Molly.

Como falamos do elenco da parte “antiga” do filme, vale citar o excelente trabalho do diretor de fotografia Donald McAlpine. Ele torna interessante tanto o tempo “atual” da narrativa, ou seja, o início dos anos 1950, quanto a parte “antiga” do filme, no meados da década de 1920. Cada um destes momentos tem uma característica bem diferente, o que ajuda o espectador a se ambientar na história. Um belo trabalho. Excelente também a trilha sonora original de David Hirschfelder, que mistura o estilo de western com o de comédias antigas e até uma Billie Holiday colocada no lugar certo. Muito bom!

Da parte técnica do filme também merecem aplausos a edição precisa e bem costurada de Jill Bilcock; os maravilhosos figurinos de Marion Boyce e Margot Wilson (ela ficou responsável exclusivamente pelo vestuário de Kate Winslet); o design de produção fundamental de Roger Ford; a direção de arte estilosa de Lucinda Thomson; a decoração de set precisa e complementar de Lisa Thompson; o trabalho excepcional da direção de arte com 10 profissionais envolvidos; e a maquiagem com seis profissionais.

Agora, um pequeno comentário sobre um ponto que talvez muitas pessoas se questionem neste filme. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme ainda). Afinal, Tilly era mesmo amaldiçoada? Eu não acredito. Mas o que acontece com Teddy é aquilo que pode acontecer com qualquer pessoa que ignora o risco, que se joga em um local sem saber exatamente onde está pisando ou se atirando. Se você ignora o risco, se ignora que realmente pode morrer, você aumenta consideravelmente a chance disso acontecer. Ele foi displicente com o risco e se deu mal, como alguém que mergulha em uma cachoeira sem saber se há pedra sob a água. No caso de Teddy, ele deu azar que ao invés de milho, o silo estava cheio de sorgo. Um cereal menor e mais fácil de ceder com o peso de alguém – ainda mais se essa pessoa estava se jogando de uma altura em que a força da gravidade ajudaria no processo de fundar. Foi isso, nada além.

The Dressmaker estreou no Festival Internacional de Cinema de Toronto em setembro de 2015. Depois o filme participou, ainda, de outros quatro festivais. Nesta trajetória ele faturou 12 prêmios e foi indicado a outros 24. Todos eles foram dados por associações e festivais dentro da Austrália. Para mim, os prêmios de destaque foram conferidos pela Associação de Críticos de Cinema Australianos, que conferiu os prêmios de melhor roteiro, melhor atriz para Kate Winslet, melhor ator coadjuvante para Hugo Weaving e melhor atriz coadjuvante para Judy Davis.

Agora, aquelas tradicionais curiosidades sobre os filmes. Na cena em que o ator Liam Hemsworth tira a roupa para ter as medidas tiradas, as atrizes Kate Winslet e Judy Davis tiveram dificuldades de segurar o riso. Eu entendo. 😉

Kate Winslet aprendeu a costurar por sua própria conta para poder interpretar a protagonista deste filme. Depois, ela acabou ajudando a estilista Margot Wilson a criar as roupas que a sua personagem usou na produção.

A máquina utilizada por Tilly é uma Singer 201K2, até hoje considerada uma das melhores máquinas de costura já inventada. Ela era muito resistente e cara, quando foi lançada, podendo valer o equivalente a seis meses de salário de uma trabalhadora.

A cidade fictícia de Dungatar foi construída completamente do zero e não se parece com nenhuma cidade da região de Victoria, mas ela mescla a ideia do designer de produção Roger Ford para uma cidade do estilo western com características australianas.

As gravações foram adiadas por um ano para esperar o fim da gravidez de Kate Winslet. Quando as filmagens foram feitas, várias vezes elas tiveram que ser interrompidas por causa da aparição de emas selvagens. 😉

A diretora Jocelyn Moorhouse descreveu The Dressmaker como Unforgiven (grande filme, aliás) com uma máquina de costura.

Este é o primeiro filme de Jocelyn Moorhouse desde A Thousand Acres, de 1997. De acordo com o site IMDb, a diretora tem dois filhos com autismo e grande parte do tempo que ela passou fora do cinema foi para cuidar deles. Dei uma olhada na filmografia dela e vi que a diretora tem apenas cinco longas no currículo. Além de The Dressmaker e A Thousand Acres, ela filmou How to Make an American Quilt (1995), Proof (1991) e Pavane (1983).

Este é um filme 100% da Austrália. Ainda segundo o IMDb, The Dressmaker foi a segunda maior bilheteria australiana de 2015 e a 11ª maior da história do cinema australiano.

Para quem gosta de saber o local em que os filmes foram rodados, The Dressmaker foi totalmente rodado na Austrália, em locais como Horsham, em Victoria; Sun Theatre, em Yarraville, Victoria; nos Dockland Studios, em Melbourne, Victoria; e Mount Rothwell, em Little River, também Victoria.

Os usuários do site IMDb deram a nota 7,1 para o filme, enquanto que os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 33 críticas positivas e 19 negativas para a produção, o que lhe garante uma aprovação de 65% e uma nota média 5,9. Achei que a avaliação da crítica poderia ter sido um pouco maior.

CONCLUSÃO: Um filme com princípios e mensagens muito claras. Com DNA. The Dressmaker é bem construído no visual, na narrativa e na escolha de um equilíbrio quase perfeito entre drama, sarcasmo, romance e uma pequena pitada de suspense (na parte de “investigação pessoal”). A história, em si, é bastante simples, mas ela fica “floreada” e interessante pelos detalhes da produção e pelo belo trabalho dos atores. Não é um filme inesquecível, mas certamente ele está acima da média. Vale conferir.

SUGESTÕES DOS LEITORES: Opa, fazia tempo que eu não tinha o prazer de usar esta seção aqui no blog. Ainda que eu sempre prefira que vocês, meus caros leitores e leitoras, utilizem o espaço dos comentários aqui do blog para sugerir e comentar filmes, desde que eu criei a página do Crítica (non)Sense da 7Arte no Facebook, recebi alguns comentários e sugestões em recados que recebi por ali. Um deles foi o da Katia Oliveira (que, misteriosamente, não consigo mais ver o sobrenome) e que, no dia 4 de abril, me mandou uma mensagem sugerindo que eu visse a The Dressmaker. Muito bem, Katia, aqui está a crítica sobre o filme. Espero que ela te ajude a tirar algumas dúvidas sobre o filme ou a complementar a tua visão sobre ele. Abraços!

Il Racconto Dei Racconti – Tale of Tales – O Conto dos Contos

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Você deve sempre cuidar com o que você deseja. Essa parece ser a máxima ou a “moral da história” de diversos contos escritos em diferentes épocas da História. E esse parece ser o cerne do filme Il Racconto Dei Racconti. Esta é uma superprodução, com locações e paisagens fantásticas, figurinos deslumbrantes e um elenco de atores conhecidos. Pena que a história em si – na verdade, pelo menos três histórias centrais em um filme – não seja tão interessante ou envolvente assim. Lá pelas tantas você continua vendo o filme não porque ele esteja muito interessante, mas essencialmente porque ele é belo.

A HISTÓRIA: Um artista anda por uma rua de chão batido. Ele olha a movimentação da cidade e outros artistas que se preparam para uma apresentação para o rei e a rainha. Dentro do palácio, todos riem da graça dos artistas, menos a Rainha de Longtrellis (Salma Hayek). Séria, ela fica desconcertada quando vê que uma das artistas está grávida. O Rei de Longtrellis (John C. Reilly) corre logo atrás dela para pedir perdão, dizendo que ele não sabia que a mulher estava grávida. A rainha sempre quis ter um filho, mas nunca conseguiu engravidar. Isso muda quando um Necromancer (Franco Pistoni) visita o rei e a rainha e lhes ensina uma fórmula para que a rainha concretize o seu desejo. A partir daí, três histórias se desenvolvem no filme.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Il Racconto Dei Racconti): Para quem gosta de “conto de fadas” com requintes de crueldade este é um prato cheio. Francamente eu não sabia o que esperar deste filme e, como faço normalmente, não tinha lido nada a respeito antes de assistir a esse filme. Por isso, não sabia que se tratava de “contos de fada” com inspiração em “Contos da Cripta”. 😉

Claro que estou exagerando. Il Racconto Dei Racconti não chega a ser tão macabro ou sinistro quanto o seriado Contos da Cripta, mas ele tem, de fato, muitos momentos sinistros e de estranheza. Basicamente, o filme com roteiro de Edoardo Albinati, Ugo Chiti, Matteo Garrone e Massimo Gaudioso, baseado no livro de Giambattista Basile, tem como foco três reinados diferentes.

O primeiro e, acredito, o de maior destaque é o que abre o filme, centrado no reinado de Longtrellis. O desejo da rainha em ter um filho leva ela e o marido até as últimas consequências. Depois, temos o Rei de Highhills (Toby Jones), uma figura um tanto estranha que se deixa encantar por uma pulga e que acaba entregando a filha Violet (Bebe Cave) para um Ogro (Guillaume Delaunay). Finalmente, temos o Rei de Strongcliff (Vincent Cassel), um mulherengo que acaba ficando fascinado por uma mulher idosa que, por interferência de uma Bruxa (Kathryn Hunter) acaba rejuvenescendo e se transformando em rainha.

Para quem gosta do gênero fantasia e não se importa muito com a história ser boa ou apenas mediana, este pode ser um bom filme. Da minha parte, normalmente gosto de histórias com mais “substância”, por assim dizer. O que eu vejo em comum entre as três histórias apresentadas por Il Racconto Dei Racconti é a força do desejo e as suas consequências. O ponto positivo desta produção, como comentei no início e na conclusão, sem dúvida alguma é o visual do filme dirigido por Matteo Garrone. As paisagens e os castelos são maravilhosos, assim como os figurinos e a maquiagem. O visual é o ponto forte. Mas o roteiro deixa a desejar.

Falando em desejo, a Rainha de Longtrellis faz de tudo para ter um filho. Ele acaba nascendo com um tipo de “irmão gêmeo da magia”, filho da virgem (Laura Pizzirani) que cozinhou o coração da besta do mar para a rainha comer. Elias (Christian Lees), o filho da rainha, não consegue ficar longe de Jonah (Jonah Lees), mas a rainha não quer dividir o amor do filho e não aceita essa aproximação. Claro que isso não pode terminar bem, não é? A moral da história, para mim, deste conto no filme, é que o amor extremado nos leva à tragédia, e que o amor de mãe realmente pode ser superior a qualquer outro. O exagero, de qualquer forma, nunca é positivo.

No caso da história dos Longtrellis, todos poderiam ser “felizes” e se darem bem se a Rainha não tivesse aquela obsessão por ser a “dona” do filho. Ela queria sempre demonstrar que o seu amor era maior que o dos outros e isso, claro, não poderia levar eles para um lugar muito bacana. Para começar, eu já achava a concordância do rei e da rainha para ter um filho por vias sinistras algo que não poderia acabar bem. Afinal, um Necromancer jamais trataria a vida sem ter a morte como fator inerente – e quem mais deveria morrer para sanar aquele cálculo macabro? Enfim, o desejo pode levar as pessoas a alternativas realmente sombrias.

O segundo conto, do Rei de Highhills, avança no segmento sinistro, mas com um pouco mais de humor. Muito centrado em si mesmo, o Rei dava mais atenção para os seus próprios desejos e curiosidades do que para a filha. Prova disso é quando Violet faz um belo concerto e o pai dela está mais preocupado com o “controle” que acredita ter com uma pulga que, depois, ele pega como seu “animal” de estimação. Sinistro. Como em outros contos, o Rei faz um concurso para encontrar o marido para a filha e ela acaba caindo nos braços de um ogro.

Aqui talvez esteja a parte mais interessante do filme. Depois de ser entregue para o ogro e virar prisioneira dele em uma caverna no topo de uma montanha, Violet pede ajuda para uma artista circense. No dia seguinte ela volta com o marido e os dois filhos – que, curiosamente, aparecem nas cenas iniciais do filme – para ajudar Violet. Mesmo eles conseguindo escapar e derrubar o ogro da montanha, ele volta para perseguir a sua “propriedade”.

Achei interessante o desfecho desta história porque ele demonstra a “força da mulher”. Mas, novamente, aqui refletimos sobre o desejo de Violet em ter um marido – com um pai “cabeça de vento” como o que ela tinha, esse desejo custou caro para a moça que realmente poderia ter sido feliz de outra forma.

Finalmente, temos a história do Rei de Strongcliff, um fanfarrão que vive entre prostitutas e cortesãs e que acaba sendo enganado por duas irmãs que lembram a história de Elias e Jonah (elas também seria fruto de uma magia de um Necromancer? Isso não fica claro, mas sugerido). Com o tempo das batalhas no passado, o Rei fica fascinado pela voz de uma garota que ele acha que é jovem e que pode ser conquistada por ele – os jogos amorosos são a sua última “batalha” interessante.

As irmãs Dora (Hayley Carmichael) e Imma (Shirley Henderson) acabam enrolando o rei. Especialmente Dora, que fica encantada com a joia que recebe do rei e sonha com as maravilhas que ela pode ter dentro do palácio. Com a ajuda da irmã ela tenta enganar o rei e acaba sendo jogada para fora pela janela, literalmente. Mas uma bruxa encontra ela na floresta e cumpre o seu desejo de tornar-se jovem novamente (fase interpretada por Stacy Martin).

A história das duas irmãs sem dúvida é a mais mal acabada do filme. Dora consegue o que quer, tornar-se rainha, mas por um certo período de tempo. Enquanto isso a irmã Imma, que a exemplo de Elias e Jonah não quer ficar longe de Dora, vai até as últimas consequências para se tornar jovem novamente e ficar perto de Dora. Mas depois de buscar a sua própria saída, o espectador não fica sabendo o que aconteceu com ela – depois que ela sobe a escadaria, não sabemos se ela morreu, foi barrada antes de entrar no palácio, ou qualquer outra saída possível. Uma falha do filme, pois, deixar a história dela inacabada.

Novamente a questão do desejo, desta vez de Dora em se tornar rainha, não termina bem. Porque ela usa de um artifício mentiroso para chegar até ele. Imma também se dá mal ao tentar rejuvenescer. Como diversos “contos de fadas”, Il Racconto Dei Racconti tenta ensinar que a mentira e a busca dos próprios desejos não importa sob que condições nunca podem terminar bem. Tem a sua validade, mas acho que pode interessar mais para um público jovem. Como já tenho uma certa bagagem de cinema, achei apenas mediano. Tecnicamente, muito bem realizado. Mas a história é fraquinha.

NOTA: 7,3.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Este é um filme que se destaca pela parte técnica – e pelas interpretações dos atores também. Isso porque, como dito antes, o ponto fraco da produção é o roteiro. Da parte técnica, sem dúvida alguma direção de fotografia de Peter Suschitzky é o ponto mais forte. Belíssimo trabalho, muito, mas muito ajudado pelas locações belíssimas. Sem dúvida alguma este filme é mais um estímulo para alguém fazer turismo na Itália. 😉

Se você ficou, como eu, interessado(a) em saber em que locais Il Racconto Dei Racconti foi filmado, segue a lista de locações: Castelo del Monte, em Andria, na Apulia; Castelo Donnafugata, em Ragusa, na Sicília; Castelo Roccascalegna, em Roccascalegna, em Abruzzo; Palácio Vecchio, em Florence, na Toscana; além de locais em Sovana, Gioia del Colle, Statte, Mottola, Sorano e Reggello, todos na Itália.

Como este é um filme de fantasia, além da direção de fotografia belíssima de Suschitzky, um ponto forte também é a trilha sonora do veterano e premiado Alexandre Desplat. Também merece uma menção especial e aplausos os figurinos assinados por Massimo Cantini Parrini. Fabulosos. A direção de Garrone é competente, sempre valorizando os pontos fortes do filme – locações e atores. A edição de Marco Spoletini; o design de produção de Dimitri Capuani; a direção de arte de Marco Furbatto, Massimo Pauletto e Gianpaolo Rifino; e a decoração de set de Alessia Anfuso também são muito importantes para dar o ritmo da história e torná-la bem ambientada.

A maquiagem também é um ponto fundamental desta história. Um grupo de 14 profissionais coordenados por Novella Borghi, Biasi Pierangela, Diego Prestopino e Gino Tamagnini tiveram trabalho nesta produção. Muitos detalhes para tornar os personagens com as características que eles deveriam ter. Um bom trabalho.

Il Racconto Dei Racconti estreou em maio de 2015 no Festival de Cinema de Cannes. Depois, o filme participaria ainda de outros 21 festivais. Nesta trajetória ele acumulou cinco prêmios e sete indicações. No Prêmio David di Donatello ele recebeu os prêmios de Melhor Diretor e Melhor Figurino; e do Italian National Syndicate of Film Journalists ele recebeu os prêmios de Melhor Design de Produção, Melhor Figurino e Melhor Som.

Como o espectador pode perceber, esta é uma superprodução. Por isso mesmo ela custou cerca de 12 milhões de euros. Nos Estados Unidos o filme conseguiu pouco mais de US$ 52 mil – uma quantidade irrisória. Na Itália o filme acumulou cerca de 2,95 milhões de euros. Ainda assim, bem distante do custo inicial. Até agora, ele deu um belo prejuízo para os realizadores.

Apesar de ser todo falado em inglês – a razão, imagino, seria o elenco internacional, e o foco global da produção -, este filme é uma coprodução da Itália, da França e do Reino Unido. Pelo resultado nas bilheterias que eu citei anteriormente, sem dúvida alguma ele não conseguiu ter a visibilidade entre os filmes de fantasia desejada pelos produtores.

Agora, as tradicionais curiosidades sobre o filme. Ele é baseado no Pentamerone (ou “A Tale of Tales, or Entertainment for Little Ones”), uma coleção de contos escritos no século 17 pelo cortesão e poeta italiano Giambattista Basile.

Este é o primeiro filme falado em inglês do diretor italiano Matteo Garrone. O diretor, aliás, teve que ser inventivo nesta produção. A cena da luta entre o Rei de Longtrellis e o dragão marinho era para ter sido mais dinâmica, mas ele teve que recorrer a outros recursos, como a visão que o rei tinha do fundo do mar, porque o dragão, que foi construído em tamanho real e não é computação gráfica, acabou sendo avariado pelo filho do diretor e alguns amigos quando eles brincavam com o “bichano” em um intervalo das filmagens. Pelo visto eles não tiveram tempo para consertá-lo. 😉 E falando em “monstros” e/ou bichos que aparecem em cena, achei eles bastante toscos… me lembraram um pouco os filmes antigos que tinham essas figuras estranhas.

O italiano Matteo Garrone tem 13 títulos como diretor no currículo, incluindo longas, documentários e curtas. Acredito que o filme mais conhecido dele tenha sido Gomorra (comentado aqui no blog) – ele foi, pelo menos, o único que assisti dele até ver Il Racconto Dei Racconti. O diretor é bem premiado, com 30 prêmios no currículo e outras 41 indicações. Vale acompanhá-lo, pois, e ver o que mais ele entregará a partir de agora.

Os usuários do site IMDb deram a nota 6,4 para esta produção. Bastante ajustada, eu achei, até levando em conta o padrão do site. Eu só dei a nota acima porque gostei muito, realmente, da direção de fotografia, figurinos e das locações. Os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes publicaram 47 textos positivos e apenas 12 negativos para o filme, o que lhe garantiu uma aprovação de 80% e uma nota média de 6,9.

Para não dizer que eu não falei dos atores, achei a escolha do elenco muito boa. Pena que John C. Reilly apareça tão pouco na produção. Os demais estão bem, sem nenhum grande destaque. Talvez os melhores trabalhos sejam de Salma Hayek e das revelações – ao menos para mim – Christian e Jonah Lees e Bebe Cave. Gostei deles.

CONCLUSÃO: Um filme de fantasia focado em três histórias centrais envolvendo reis, rainhas, príncipes e princesas. O melhor de Il Racconto Dei Racconti é o seu visual, a reconstrução de época, as paisagens, direção de fotografia e figurinos. As histórias em si, bastante parecidas com os contos que escutávamos quando éramos crianças. Nada demais. Como aconteceu recentemente com a revisão dos contos como histórias um tanto cruéis e sombrias, aqui também temos também uma carga macabra e violenta bastante presente. Quase uma história de terror ambientada em época medieval. É interessante, mas não é nem um pouco imprescindível. Se tiveres opção melhor para assistir, opte por ela.